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Full text of "Santuario mariano, e historia das imags milagrosas de Nossa Senhora, e das milagrosamente apparecidas, em graça dos prègadores, & dos devotos da mesma Senhora"

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3/3 6 VZ* 



Presenteei to the 
library of the 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Dr. António Gomes 
Da Rocha Madahil 



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'es qu'on fit ; 
prife de Namur 



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SANTUÁRIO 

MARIANO, 

E Hiftoria das Images milagrofas 

DE NOSSA SENHORA, 

E das milagrofamente apparecidas , em gra- 
ça dos Pregadores , & dos devotos da 
mefma Senhora. 

TOMO PRIMEYRO, 

Jgue comprehende as Images de TSloJfa Senhora , que fe 'Vent- 
roo na Corte > <3 Cidade de Lisboa, 

QVE CONSAGRA , OFFERECE , E DEDICA 
A 5 Soberana Imperatriz da Gloria 

MARIA SANTÍSSIMA 

Debayxo do feu milagroíb titulo de 

COPACAVANA.. 

Pr. AGOSTINHO D E SANTA MÁRI A,( 

Exdefinidor Geral da Congregação dos Agoftinhos Def- 
calços defte Reyno,& natural daVilla deEltremoz,. 




,1* 

LISBOA, 

NaOfficinadc ANTÓNIO PEDROZO GALRAÕ. 

i ' - ■ ■ m m | 1 I II 

i Com todas as licenças necejf avias, 

An no de 1 707. * 



• 






V 



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V 




SOBERANA SENHORA. 

VOS Senhora foberana , & Auguf- 
tijjima Imperatriz da Gloria Jè dev 
vem tributar , & oferecer toam 
obras, & eflaque toda> è* totalmenr- 
tehe voffa , erajuflo que eu a moa* 
lienajfe a outro pofuidor: &febem 
{attendendo a minha pobreza) com o defejo de publi- 
car os voffos louvores, bufquey as grandezas da ter<- 
ra(que nao logrei\)vòseom a vofja clemencia^gran^ 
de Senhora , me quizefles mo/Irar que a vojja er& 
muytomayor^ makrica^ &a mah poder o fa que to- 
das as da terra. Ajfim o manifeflúftes ; ér eu reco- 
nhecendo a minha pouca fé, venero a voffa vontade? 
fgnificaâapor aquelles, que me injinuaraÕ que efla 
abra J H avós fe devia dedicar , ér oferecer. Avos 
$oh , foberana Senhora , & Mãy admirável em o 
titulo da vojfa mikgrojijjima Imagem de Gopaca*- 
vana y de quem tenho recebido ejfteaaes mercês, con r 
fagro, & dedico efla limitada offerta ,confejfando 
ferem par a comigo exrejjivamente grandes os voffos 
favores :pm defde ú m cimento ate o ejíadodo S& 

* ij cerdo* 



) 



cerãoctOifèmpre os experimentey. No dia dovoffo 
Na/cimento recebi a agua do bautifmo-, no de voffa 
Expeãaçao do Parto, o habito de meu Padre Santo 
Ago (linho ; no âevofja Conceição puriffima^ér izen- 
ta de toda a culpa origmal,celebrey a primeira Mif 
fa. Eem todas as minhas acções fempre meajjifiio 
p vojfo favor ,èr a vojja piedade. Todos e/lesgran r 
des benefícios de fejeyfaber agradecervosy porque 
defde os memprimeyros annos ( ainda vivendo em o 
fèculoj) comecey a ajuntar materiaes para publicar 
osvoffos louvores: também ifiofoy beneficio vofiby 
porque vos eras a que a ifto me movieis. E quando a 
inutilidade própria definayava aparece que multi- 
plicava rayos o Divino objeão nos benefícios , que da 
voffa grandeza eu indigno recebia. Alentava- fè 
*tahez a minha pujillanimidade com a lição >&noti~ 
cias de exemplos eloquentes y ainda que mudos exhor* 
t adores r, que de fugeitos excejf vãmente fuperior es 
occupâraoo tempo em defcrever as maravilhas dm 
voffas- Santiffimas Images, & do grande affeão com 
que vos defejavaõ fervir afizer ao feliz emprego. E 
fe bem todas ejfas SantiJJtmm Imagesfe fizer ao dig- 
nar de veneraçal grangeada por fetts devotos cuh 
tores\ porhn efta voffa , que no Império do Peru co- 
meçou a ter a fim veneração >pcr fuás maravilhas 
fe faz digna de Império. E com e ff eito hoje o efta lo- 
grando também em efie vofjo Convento do Monte 
Olivete de Lkboa ;pov$allifeve fervida dehua nu^ 

merofa 



mero/a multidão dos Filhos reformados de Agofú- 
mhofafim como o he a Peruana. ) Todos eflcs, & ou- 
tros fnuyt os motivos cftiwulavaQ continuamente o 
meu agradecimento aÚefafogar por alguma, via q 
meu gr ande empenho, For émAugvfiif ima Senhor a^ 
beinfabeu vos os embaraços do J empo , os adverfos 
encontros dafortc.éras mtoruuiinpQJfibilid adesão 
e/lado , que em outro feriaõ pedra que abate ffe. as 
azas ao engenho para os voos, em mim era o chum- 
bo , que me retardava a os pãjfos para oprogrejjo, 
ate que rejo luto > & confiado no vo/fo favor ajjen- 
tey comigo^qtie nenhum fer viço vos poderia fer mau 
grato.que publicar os favor 'es, que recebem os vofjos 
devotos em todo o mundo \ & com mais efyecialidade 
osPortuguezes em eflesvoffos Santuários. 

Aceitay ? pois , Soberana Imperatriz \ eft a. pe- 
quena parte do meu fraco talento , e/la limitada of- 
fer ta da minha devoção ) porque como principio de 
P^S ã \í e deve aceytar \aconfiffao ' dei divida. Sirva fe 
a voffa grandeza de aceitar^&amparare fia humil- 
de oferta i de fendendo- a com o vojjo favor ^ & pro- 
tecção: por q e fia limitada obra jacrifi cada 2ifonf 
br a da vojfa foberania vay caminhando apubliài 
manifeftaçaÕ. Sombra dijfe > porque do originai 
fombra he o retrato ; porque do perfil de bumafom- 
brafe affrma tivera origem a pintura , & também 
aefcultura^que nefla voffa agrada Imagem o f 
tentou fua valentia : ajfombro de tal arte 7 & de tal 

* iij pro- 



protQtypofombra. A eftafombra pohfoberana Irn* 
peratrkj&a efta vojjafoberana Imagem facrofan* 
ta confagra a minha humildade efta limitada ofer- 
ta ipara que com taÕ foberàno patrocínio alcance 
unicamente o meu intentado fim , quehe o da vojja 
mâmr honra,& deDeos afua mayor gloria. Amen. 
Monte Olivete Ftvereyroi. de 1704* 



Fr. Agoftinho de S. Maria* 



) 



PRO- 




PROLOGO. 

& Proteftaçaõ. 

UYTOS,& vários Au thores efcrevè- 
raõ variai hiítorias de milagres , que a 
virtude do Omnipotente Deos, & fua- 
benignidade fe dignou de obrar pela in- 
terceffaõ dos Santos ; & muy to mais par- 
ticularmente , pelada clementiffima J ,& 
mifericordiofiflima Virgem Maria fua Mãy,pelo culto 
de varias Imagésfuas,que em todo o mundo feveneraõ; 
acerca dos quaes milagres nem as penas dos Santos Pa- 
dres da Igreja atèhoje fufpendêraõ os feus rafgos. A^m 
ovemos em aquellcs dous excellentiífimos Gregorios , o 
Papa Magno, & o BifpoTuronenfe ; aquelle em a vida de 
Saô Bento Abbade > & efte na de Saõ Martinho Bifpo de 
Turon. O mefmo vemos que feguio Sulpicio Severo Ar- 
cebifpo de Burges; a quem imitarão com eminente pen- 
-na Paládio na hiftoria Lauziaca, & o Abbade Joaõ Evira- 
to no feu Prado Efpiritual. Porém outros muy tos y mais 
cfpecialmente publicarão muytos milagres, & favores, 
que a poderofa mão de Deos obrou debayxo de varias 
invocações, & títulos da Bcatiílima Virgem Maria, co 
moovernosem Hefpanha ; França .,& Itália : & também, 
Jufto Lypfio y & Eurico Puteano em Flandes. E íuppofío 
que de muytas Imagês muy celebres de Hefpanha, & Por- 
tugal fe imprimirão varias hiftorias^ tratados, que naõ 
cfpecifico por innumeraveis; de muytas também fenaõ 
acha efcritonada, que no numero dasmaravilli2s,& fuc- 
cetTos admiráveis , que por cilas ha obrado a mefma po- 
derofa^ omnipotente mSophejuflo que tratemos: por- 
que não fera razaõ fiquem em filencio fuás maravilhas. 
Movido pois de hum pequenino zelo do culto , Sc da 

* iiij ma- 



mayor gloria daBeatiífima Vifgem; Maria nota Senhora, 
coinòtaò obrigado aoé feiis favores fcomicéf a ajeito t ar 
as noticias dos princípios J^ cmgqyr de algíías roiracti- 
loías Imagés túxàj aíGm 'daquellas, qirè já hoje por eferi- 
tos íaõ celebres em todo o mundo, como de muytasde 
quèTenw ha ainda traído , principalmente nefle Rtf- 
no de Portugal aonde éferevo^ Múyio me intimidou o 
grande defta ma teria, & ámanéyra daquelles ,que en- 
trando na área , correm a fondar o Oceano , entrando hu 
longo efpaçoporTúaseítentíidasprayas,& chegando cf- 
caçamente aonde fiias aguas lhe dàõ pelo joelho', voltaó 
alegres à terra > tendo para fi que poderão medi** todo O 
dilatado delias , porém profeguindo adiante , & vendo, 
quefubjindolhe a agua dos pey tos atèo pefcoço, logo o 
profundo , & o dilatado deíTas aguas os intimida defor- 
tç , que reconhecem alua impenetrabifidade : aífim me 
ha fuecedidoa mim ; porque vehdo eíía matéria em fe\is 
princípios ( pelo goílo com que nelia entrava ) faciliíTI- 
ma ; depois confíderando o profundo, & o immenfo abif- 
moda beneficência de Maria Santifíima obrada em luas 
-Imagês, totalmente comecey a temer o grande da minha 
emprefa; mas lembrado dos muy tos favores que defía fa- 
berana Senhora tenho recebido , por naõ parecer ingra- 
to, defejey moflrar^ainda que com grande trabalho, par- 
\tedomeuagradecimento;para queaffim feaugmentaf- 
Jic maisoculto,& a devoção defla amável Patrona,& Pro- 
tectora de todos o§ Chriíiãos. 

Defejey a principio recolher todos os Santuários de 
Porrug -d em hum volume frefervando os mais daHef- 
panha , & de todo o mundo, de que pude ter noticia pa- 
ra depois, ) porèm.corno achey > que os materiaes eram 
nmytos , &impoíTivel recolher todos em hum volume^ 
me refoívi a-fazello em tres/Noprimeyro os Santuários 
do Arcebifpado de Lisboa ; com os dosBifpados feusfuf- 
fraganeos y depois o de Braga ? & ultimamente o de Évo- 
ra, 



Va.E pondo mãos áobra, defcrevendo os Santuários de 
Lisbtfa^achey tanto , que ainda em hum temo naõpude 
recolher o muytoquedejTte argumento encerra òfeu Ar- 
cebifpado , <k afiim os dividi em dons volumes. No pri- 
meyro deferevo as Imagês mais notáveis da Cor te, & Ci- 
dade de Lisboa : & rio fegundo as mais-qtie fe venerão em 
as Vi!las,& mais povoações clclíc^ porque o referir todas,, 
feria matéria impoíTível. 

Alguas das maravilhas que refiro, foraõapprcvadas 
authoritate Ordinarij : porém as mais ( em tanta , & tam 
grande beneficência da Máy de Deospara comosPcrtu- 
guezes ) parecia não necefíi tava da fua approvaçaõ;&: if- 
to ma is foy para que em tanta copia de maravilhas fe naõ 
*deíTe aos Ordinários Diocefanos mais moleflia 7 do que 
goílo^á^ alegria de hua matéria taõ vulgar^& de hua be- 
nevolência tão notória da noíTa celeítial Rainha. 

Com tudo, ou foíTe por hua ,ou por outra caufa , pa- 
ra que naõ pareça que vamos contra o que fe difpoem no 
Santo j & Ecuménico Concilio Tridentino , ou contra os 
DecretosdoSantoPontiflceUrbnnoVIII.de ij.de. Mar- 
ço de 1 625. & de 5. de Julho do anno de 1 65 4. os quaes 
prohibem o imprimirfe livros íj que trataõ de peííoasque 
falecerão celebres por fama de fantidade , ou de marty- 
rio, acções prodigiofas, milagres , revelações > ou outros 
quaefquer benefícios^ como recebidos de Deospor fuás 
intercefíbés , fem ferem reconhecidos^ approvados pe- 
la authoridade do Ordinário ; & que aquellas coufas que 
até aqueíle tempo carecerão deita approvaçaõ , quer que 
de nenhum modo fe julguem por approvadas. O qual 
Decreto o mefmo Pontífice no anno de 16^1. a 5, de Ju- 
lho, moderou, ôcexplicou em que fenaoadmitaõ Elogios 
de Santo ,011 beato abfolunmente > & que cayaõfobrea 
peílba; maspermitefepoífaõ referir aquellas coufas que 
cahem fobre os coílomes, & opinião, com proteflaçaô 
íempre do Author em o principio do livro > de que nas 

ma- 



matérias de que eferevem naõ ha mithor idade da Igreja 
Romana, & fomente a fé do Author fallivel, Sc humana. E 
affim abraçando odifpoíto neíles Decretos com toda a 
reverencia devida } confeíTo, &f proteílo , que tudo o que 
refiro nefle tratado, aííim de prodigios,como de milagres 
da Beatiflima Virgem Maria noíTa Senhor a ; & das origés, 
& invenções de fuás Santas Imagés , que naõ per tendo fe 
recebaõ como por couras certas ,&approvadas; porque 
de nenhum modo quero tenhaõ mais fé , & authoridade 
que a humana. 

Ultimamente conformandome ao que a Santa Tgreja 
Romana difpoem > como filho obediente , & ajuntando 
humfeixezinho de varias flores > huasappareceraomais 
fragrantescom a approvaçao dos Ordinários ; as outras 
fomente viftofas > & agradáveis com a fé do que ^ as reco- 
lheo, 5c ajuntou ; porem todas atadas em o ramalhete da 
minha devoção } tk prefas com o fio de hurn filial amor vo 
lasoffereçoavoífos pès Sereniílima Senhora, & Rainha 
dos Geos , & da terra , rogando , & pedindo feja grata a 
V. Mageftade efta minha pequenina ofFerta , que defíe 
pequeno angulo do mundo fe vos oíferece , & que de tal 
forte o cheyro de voflfos prodígios encha a todos os ter- 
mos do univerfo ,que com a fua fragrância incitados to- 
dos os voíTos devotos profigaô , & abracem com devo- 
ti/íimos ados de Religião o voííò cultoA o de voffo San- 
itifíimo Filho. Amen. 

Advirto de caminho aos que lerem eítes Sautuarios, q 
a mim me naõ foy poífivel vifitallos todos Jk affim poderá 
fueceder que pelas informações ,quefe me remeterão, 
poderey encarecer alguas coufas, como nos ornatos, grã- 
tlez^, riqueza, &: aceyo, ou outras coufasfemelhanres;& 
também nas diftancias poderei ácrefcentar,ou diminuir 
aslegoas; porque a.minha tençaõfoy dizer a verdade do 
que ha via ,&: faltando a -ella, fera por falta, ou augmento 
dasinformações daquelles que mas fizera õ< 



<»)|;5k> efe^ dÊ5fe> . çaR/3 <t^5^ eteafe y 

Z>0 ;//#j)//0 Reverendo Padre Fr. Fe lis do Ejjjmto 
Santo, Reltgiofo Agoftinho DeJcaIço y 

SONETO. 

QUe defte Reyno feja Proteétora 
A Virgem May de Deos,por certo temos, 
Mas nefte Santuário agora vemos, 
Que he defte Reyno a Mãy de Deos Senhora, 

Doutamente, & devoto o condecora 
A voífa penna ; porque veneremos, 
Seatègorade Protectora extremos, 
Extremos de Senhora defde agora. 

Mas fe lhe chama feu o mefmo Chrifto, 
Dandolhe as fuás Chagas por fiança, 
Como he de Maria i Como he ifto? 

Sim que he Maria, fe a razaõ alcança, 
Elpofa, Mãy, & Filha , &foy previfto 
Que como a tal lhe vinha por herança. 



Do 



DomejmoM. R.PadreFr. Felis do Efiirito Santo 



DECIMAS. 

- 



"X T Ifte no efpelho domar 

V Brilhar a luzida cftrelia, 
Por reproduziríe bella 
As luzes reverberar] 
O melmo chego a admirar ..,. mí 
Nefte mar de Images Santas 
De Maria , adondequantas 
■Em fuás Imagés luzem, 
Parece íe reproduzem 
No reíplendor outras tantas. 



CTJfl t)tS\ 



r. 



Aqui à Águia imitaftes 

Nefte afíumpto.que emprendeftes, 

Pois, como a Águia , fizeftes, 

Se as eftrellas regiftaftes. 

Em cada Imagem moftraftes 

Nova luz reverberar, 

Para aííim nos incitar 

Húa devoção tão pia, 

Porque em fim fe vc Maria 

Ser a eftrella deíie mar. Do 



Do muyto Reverendo Padre Fr. António de Saõ 
Guilklme -Eremita de Santo dgoftinho, 

DECIMAS. 

REndido obfequio íe atreve 
Moftrar, que diz voíía penna, 
Entre folhas de açucena, 
Maravilhas no que cícreve. 
Pormuytostitulos leve 
Louvor : pois fabc oftentar 
Quantos tem de graça o man 
Que por fer voíTa em noticias, 
Multiplicando delicias, 
Em todas he Angular. 

2. 

Difcreto Ceo publicais 

Nefta do Ceo regia obra, 

Donde , pois gloria vos íòbra> 

Com muyta eftrella brilhais. 

Oradores eníinais, 

Que, por feudos com decência, 

Daraõ à voíía fciencia 

Quantas glorias merecerem? 

Que como todos a querem. 

Logra de Ceo a exceliencia. LI- 



LICENÇAS DA ORDEM, 



Ce n/ura do Af. R. Tadn Fr. Agoíllnho das, Mercês, 

COm particular atoençaõ lioprimcyro,& fegundo 
tomo do Santuário Mariano, que contêm asHiíta- 
riasdas Iitiagês mais milagrofas daVirgcm Maria Senho- 
ra noffa , que fe veneraõ em a Corte y & Arcebií pado de 
Lisboa ,efcritos pelo muyto Reverendo Padre Fr. Agof- 
tinhodc Santa Maria , Definidor Geral, que foy neftá 
Congregação dos Agoftinhos Defcalços de Portugal ,& 
agora fegunda vez Prior nefte Convento de nofTa Se- 
nhora das Mercês de Évora ; & poílbcom mais verdade 
dizer me fucccdco na licaõ deites vokmes, o<jue affic- 
mou Mantuano lhe fuccedèracom aliçaõdehum volu- 
me, que efereveo fcii grande amigo Mirandulano^porque 
feeítediz que àprimsyra leytura daquelle livro fe ihe 
accendeomais a fede para repetir -a leytura , pelo goílo 
que experimentou núlz: TúnUmmívduptttBtum f)r&- 
jecutíis [um i quol legendo j*lum cupio fedare fitim y fitis 
altera crefeit : a mim ograndcgofb com que a primeyna 
vezli eítes Santuários Marianos , me fez crefcer tanto 
a fede de repetir fuá tição, que me «brigou a repetiila 
mais vezes , iem^ue ainda com effas repetições da Iey- 
x tura ficaíTe o goílo façiado , nem a fcriefatisfey ta. Oargti- 
mento deflaclfati, a grande multidão de devotas ,& cu<- 
riofas noticias atègora para mim occultas, aclarezadp 
eílylofcm fqmbra de^affecítaEção com que eftaõ cf cri tas, 
me efrimalsvaS à que dcbc«fíecoíí©r a penna em elogios 
do Efcritor , & da obra •. porém dons motivos me fufpeu- 
de:n, hum a modeftia do Anfhor,qne com os louvores te- 
mo ofFender ; ^iatro 3 vwcvctf® de que & groífaria demi- 
nkapennapofía diminuir os créditos devidos a taõex- 
cçlíen te obra) ttínòf qne ]à teve o 5 Naziafrzeno em outra 



que lhe deraõ a rever, efcrka por hum feu intimo a migo: 
Kereor se longe a reidignttate remota* , laudattom t*.ea 
gloriam ip/ius tmminuam.E aílím fatisfazendo fementeá 
obrigação de Cenfor , & á ordem de noíTo M. R. Padre 
Vigário Geral, digo que nos dous temos do Santuário 
Mariano naõ encontrey coufa que entendeíTe pedia fer- 
virde obftaculo parafe haverem de imprimir; porque 
naõ adverti nelles coufa alguma contraria á noíTa Santa 
Fé^& bõs coítumes; antes me parece que a lição dei es 
íivros poderá redundar em grande credito da Fé , Sc fer- 
irir de motivo para que os fieis fe aecendaõ mais na devo- 
ção da Senhora , & de que com a reforma dos coílumes 
procurem naõdefmereceros benefícios yque-ncíla ebra 
fe inculca haver obrado a Senhora em favor de feusde- 
voros. Pelo que me parece fer jufta a licença que pede o 
Author,a quem fera razaõfe mande que com toda a bre- 
vidade procure fahir àluz publica com os mais tomos 
deite mefmo argumento, cm que julgo teraõ os Prega da- 
res matérias baftantes para em feus Sermões formarem 
largos difeurfos em louvor da Mãy de Deos. Eik lie o 
meu parecer , {alvo femper tneliori judicio. Neffe Con ven- 
to de noíTa Senhora das Mercês da Cidade de Évora em 
Ji.de Setembro de 1702. 

Fr, Agostinho dos Mercês. 

Cenfur* do M. R. Padre Fr.Jofepbdos Mcirtyres. 

LI por mandado deV. R. N. M. R- Padre Geral Vi- 
gário hum , & outro tomo dos Santuários Maria- 
nos ,quecompoz omuyto R. Padre Frey Agoílinhode 
Santa Maria Exàeíimàor Géval, que femvl^&tt er um tem 
íido deita Congregação , & agora fegunda vez Prior do 
nofíb Convento de noíTa Senhora das Mercês delia Ci- 
dade de Evora;& como os li com particular a ttencsõ.af- 
íím pela matéria , pois he da fingular protecção de Maria 

San- 



Santiífima \ Iman que docemente nos atrahe os corações* 
&leva apoz fi a devoção dos fieis ( quenaõ haverá Ca- 
tholico, que ouvindo de .Mina Santiííima feu efclareci? 
do nome, fe naõ afervorize em ternuras) como pelo par- 
ticular affcíio com que ha muytosannos venero o zelo, 
piedade, diferiçaõ , & humildade virtuofa de feu Au- 
thor , que o fez fempre eíKmado , naô fó nefta Cidade, 
mas ainda na Corte defte Reyrio, das peíToas mais ílluf- 
três dellq.Logo que os comecey a ler, me achey taô inte- 
reíTal,&gozofo da fuavida de, & prudência de feucfty- 
lo ) & noticias taõ raras das proezas que a favor de feus 
devotosobra a glorioía Rainha dos Anjos , que me veyo 
afueceder ,o que a Séneca aconteceo , quando Lucillo 
lhe reme teo hum livro feu para que o lefle, que o naõ lar- 
gou das mãos até que todo onaõ paíTaffe: Tanquam le- 
ãurus ex' commodo adaperui , actantum degujiare Vuluh 
tanta dulcedine metenuit^ & traxit, ut illumfine ulla dila- 
tione perle gerem* Neftes volumes offerece o Author ao 
mundo todo aportentofa interceíTaõda Mãy de Deos 
1 para com todos os peccadores, por tantos, & taõ vários 
títulos de que fe digna appellidar , que ao mais indevoto 
(fepordifgraçaalguêouver que áfua Rainha naô for fiel 
devoto ) melhorará fua tibeza em mais ardenteívaffeítosj 
&<aos já in flammados de fua meliiflua, & refplandecen te 
chama^affará a incêdios de mayor veneraçaõ,& ternura. 
Ecomo todos feus Capítulos eítaõcheyos de erudiçam 
Çatholica, devota jurifprudencia,verdadeiras J ,& já mais 
ouvidas maravilhas da Rainha dos Anjos , illuflradasdas 
mais fidedignas , & feguras noticias , que a prolixa, &!'*- 
boriofa diligencia de feu Au thor pode defeubrir ; que bê 
abonaõ o argumento da obr2 , como a Stó Paulino acre- 
ditou o que efereveoda vida do grande ArcebifpodcMi- 
laô, & Doutor da Igreja S. Ambrofio como repete neílas 
palavras: Eu, qiue â probdtijfvnis y\rU y qui Mi atiteme adfti- 
' terunt } & maxitne a íorore tpjhtf> Vel qua ipfe 'viM, cwn tlii 

7djl*i 



, 



ad fiarem ^el qrutàb àti]$ àÇMfiiÇ \elqn* adilltm (crip- 
ta funt } &c. breviter y flrictimque confcriberem. Para naiõ 
dilatarme nefíes encómios , que nunca podem digna- 
mente encarecer ,nem da obra o divino > pois- faõ empe- 
nhos da poderofa Mãy de Deos; nem de feu Author o 
merecido louvor , me valho das palavras deSalvianona 
Epiftola ad Eucherium, que parece comprehendem tudo 
o que largamente podia fem fofpeyta affirrnar : Legi li- 
bruni) quem tranfmtfijli Jiylobn^ew y doãrina uberem,lc~ 
ãione expeditnm 7 tnítruetione perfeãum y auãoris ac pie- 
tâú parem. Ecomo nada mais acheyneíla leyrura que 
naõ íèja digno de louvor, útil para os Cathoiicos, para a 
Religião credito 7 Separa a Fé augmento ^por obrigação 
de Cenfor concluo com as palavras dePiinio o menor: 
Cenforirf "virguU nibil > landis & admirationú multa digna 
Yepm. Eaífim necefTaria , & devida parece a licença im- 
plorada, [alvo meliòri judicio. Évora , no Convento da Se- 
nhora das Mercês, & de Outubro 21 . de 1702. 

Fr.Jofephdos Martyres. 



F 



R. Manoel de S. Jofeph, Geral Vigário da RealCon- 
gregação dos Defcalços de N. Padre S. AgofUnho de 
Portuga!, &c. viftas as informações,, damos licença ao M. 
R. P. Fr. Agoílinho de Santa Maria^ para que poíía dar à 
imprenfa os dous livros dos Santuários Milagrofos de N. 
Senhora , de que faz mençáõ. Dada neíle noííb Real Con- 
vento de N-Senhora da Conceição do Monte Olivete em 
23-deAgoítodei7o3. 

Fr. Manoel de SJofepb Geral Vigário. 

»« A ^r>RO- 



APPROVAÇOENS DO S. OFFICIO. 

Illttftriffimo Senhor. 

VI hú, 5í outro tomo dos Santuários Marianos, efcritos pelo 
M. R. Padre Fr. Agoftinho de Santa Maria , Religioío da 
Congregação dos Agoftinhos Defcalços : não tem couiãalgúa 
contra noíía Santa Fé, ôí bõs cofcumes, £t me parece obra digna 
de fe imprimir. Lisboa S. Francifco da Cidade em 9. de Outu- 
bro de 1703. 

Fr. Manoel de S.fofeph^ & S. Rofa. 

VI efte livro intitulado Santuário Mariano , êchiftoria das 
Imagcs milagroias de noíla Senhora , compofto pelo M. R, 
Padre Fr.Agoftinho de Santa Maria,Religiofo daCongregaçaõ 
dos Ago ranhos Defcalços , & nelle naó achey coufa que encon- 
tre 110 ila Santa Fè , ou bós coftumes , antes me parece obra digna 
de fe dar à cftampa, para que todos com a liçaó deite livro fe afer- 
vorem na devoção de noifa Senhora , conhecendo o muyto que 
lhe ião devedores. Lisboa no Convento da Santifíima Trindade 
aos 29. de Outubro de 1703. 

ir. António das Chagas. 



V 



LICENÇAS. 

Iftas as informações pòde-fe imprimir o Livro das 
Imagês milagrofas de noíTa Senhora de que eíta pe- 
_iça6 fra ta^&imprefTo tornará para fe conferir, & dar li- 
cença que corra,& fem ella não correrá. Lisboa 30.de Ou- 
tubrodei703. 

Carneyro. Morit^. H\(fe. Monteyro. Ribeiro. 

POdem-fe imprimir os dous tomos de que efta petição 
trata , & impreífos tornarão para fe lhes dar licença 
para correr ,&: fem ella naõcorreràõ. Em o primeiro de 
Dezembro de 1705. 

Fr-TedreBijpodeBona. 

AP- 



APPROVAÇAM DO PAÇO. 

Senhor, 

MÂndame V .M.que veja o Livro dos Santuários milagrofos 
de noílâ Senho ra,que ie venerão neftaCorte,ôc feu termo, 
comporto pelo Padre Fr.Agoílinho de SantaMaria,Religiofo da 
reformada Congregação dos Padres Defcalços do grande Padre 
Santo Agoftinho , Sc o informe febre a licença que pede para o 
imprimir. 

Pareceme mui digno de eftamparfe ^porque efte Padre procu- 
rou com grande trabalho ajuntar as noticias que poucos tem, 
dos prodígios, 6c milagres que obra a Soberana Rainha dos Anjos 
Maria Santiflima Senhora noíla nas fuás Imagens facrofantas , ôc 
com efta fantainduftria excitara devoção dosFieis,para que com 
mayor fervor íirvao,6c venerem reverentes neftes Rey nos aVir- 
gem Santiflima May de Deos,que guarde a V. Mageítade como 
feus vaílallos lhe defejamos,Sc eftes Reynos hão miiler. Congre- 
gação do Oratório de Lisboa em 1 3 . de Junho de 1 704. 

Sebafiiao de Mattos. 

LICENÇA. 

QUe fe poíTa imprimir,viílasas licenças do S.Oflicio, 
& Ordinário^ depois de imprefíbs tornaràõ á me- 
fa para fe conferir > & taxar, & fem iffo naõ correrão. Lis- 
boa 28. de Junho de 1704. 

Oliveyra. Vieyra. Lacerda* Carneyro. 

VIfto eftar conforme com o original pode correr efte Livro 
Lisboa 7. de Outubro de 1 707. 

Carneiro. Hajfe. Monteiro. Rebeiro. Rocha. Fr. Encarnação. 

P Ode correr Lisboa 8. de Outubro de 1 707. 
Fr .Pear o Bijpo de Bona. 
TAxaõ efte Livro era nove toftões em papel. Lisboa 12.de 
Outubro de 1 707^ 

Duque?. Oliveira. Cofia. Andrade. Botelho. 



ERRAT AS, 

Pagina 17. reg. 1. & 2. aondediz de Aarao, diga , derao 
CQm,p.ig. 24. reg. 2$, Trefdeval, diga,, Frefdev3l>pag. 
19. reg. 22. aonde diz Apofto, diga, Apoítolo, pag. j|. 
reg. 24. aflim eíta, diga,aífim neíla,pag. 7i.reg. i4^oVe^ 
creaturvn, diga , no^am creaturam , pag. 76. reg. 30. me- 
nos mancha, diga, menos manha,pag.99. reg. 22. da Cha- 
ridide, diga, de Carnide, pag. 109. reg.27.a confiança da 
Rainha, diga , a confiança na Rainha,pag. 1 1 2. reg. 1 ^..an- 
tecedentes, diga, afcendentcs, pag. U7.reg. \Ac.hableS) 
diga, bablas, pag. 125. reg. 18. Francifcanas,diga, Fran- 
cifeas, pag. 211. reg.5. com ella, diga, com elle,pag. 23 $, 
reg. ultima, & invocação, diga, invenção, pag. 243 .reg> 

26. refenhos, diga ,viíinhos, pag. 247. reg. 32. D.líabel, 
diga, D. Maria ííabel,pag. 250. Capella, que como dire- 
mos, £c porque a Igreja era dedicada, diga, Capella como 
diremos,& porque a Igreja que era, pag.298.reg. ultima, 
vay quebrar, diga, vay acabar , pag. 3 09. reg. ultima, en- 
xergaíTe, diga ,encherga , pag. 360. reg. 10. Porto do 
Carmo, diga, Porta do Clauflro, pag. 3 Ó4.reg. r5.de Pla- 
tão; diga, de Plutão, pag. 404. reg. 26. huas , diga, hua, 
pag. 420. reg. 1 5 . ouve, diga, ouveíTe, pag. 446. reg. 25. 
Deos declinado, diga, Deos reclinado,pag. 448.reg,8-os 
que faõ,& lho, diga ; os que faõ ricos,& lho, pag. 463. reg. 

27. ôc pintado púlpito, diga , & pintado tambem o púl- 
pito, pag- 478- reg, 2, Chiviáo, diga , Chiquvito. 






Pag. I 




SANTUÁRIO 

MARIANO. 

E HIST O RI A 

das Imagens milagroías de 

NOSSA SENHORA. 

& milagrofamente apparecidas. 



LIVRO PRIMEIRO 

Das Imagens do Arcebi/pado de Lisboa. 

INTRODUÇAM. 

3£ E tanto o que devem os homens a Maria 
ip -i; Santiílima Senhora noffa , que todos os 
m obfecuios , que lhe podemos fazer a ref- 
t\ ^ g P e * t0 dos glandes benefícios , que delia 
% W$yê : *j lcce bemos^heíem duvida nada, compa- 
^^is^&sfe rado com a noíTa divida : mas iuppoíta que 
asnoíTas obras, por limitadas ,naõ tem valor proporcio- 
nado á noífa divida, aináaaffim hejufta^que animados do 
Tom. I, A leu 



i INTRODUZAM. 

feu mefmo amor, lhe tributemos os íervicos q couberem na 
nofTa capacidade ,quefempreferam bem aceitos deita Se- 
nhora, que toda hepiedofa, & merece pelo fingular amor 
com que nos regala, &affe&uofo cuidado com que nos af- 
íiíte,cjue a amemos com todo o affedo,& que !he façamos 
todos os obfequios , que puderem caber nonoffo agradeci- 
mento. He efta Senhora a Patrona dos peccadores , & a 
S.Ephr advogada de todos os que vivem nefte miferavel mundo , 
firm.de coiri0 lhe chamou S.EphremCyro. Com o mefmo titulo a 
UudiíK i nvcca doutiffimo Idiota. O mefmo titulo lhe daõ S> 
*Mot L Gregório Nicomedienfe, S.Gregorio Nazianzeno, Hen- 
de con- rique Carthufiano,& S. Germano Patriarcha de Jcruíalem. 
templ. O mefmo Senhor que para noííb bem quiz fer filho de- 

Mar. w fia grande Mãy , & defía foberana Rainha , & advogada 
prol. noífa, quer que lhe fejamos agradecidos aomuytoque de- 
Gre & vemos à fua piedade; & goík que a firvamos, & bufquemos 
^ íC - com todo oaffeílo denoffos coraçoens : porque feeonfi- 
J^^derarmos as grandes demonftraçoens de amor , & nunca 
*T m bem ponderador benefícios, com que íingularmente fomos 
Re»r. favorecidos de Deos os filhos de Adam fobre as mais na- 
Can. in turezas intellecluacs , atè ornais levantado Seraphim^ a 
Pfal.dtrmyov de todos, fte o haver crendo danoífa mefmá natu- 
yirg* reza ,hua taõ excelíente creatura,como foy Maria San- 
S. G%rm tiffi vpja i j^ãy , & advpga da noTa, Virgem de Virgens, ad- 
de-Zofh mlra ç a g y & pafmo dos Anjos, gloria dos homens , & gran- 
tr *' de demonilraçaã da divina Omnipotência y a quemefeo- 
lheo,não fó como a querida Mãy fua; mas como aMãf 
m lyto amerofa noífa. E porque efta he hua das mayores 
ditas de que gozamos, os q eftamos na Ley da Graça, & de 
que nos podiam ter inveja os Santos da ley Efcrita ; deve- 
mos por efte tamfoberano beneficio aeíle grande, &mi- 
fericordiofo Senhor,, o amor de todo o naíío coração, Sc de 
infinitos coraçoens* 

Quem poderá logo comprehender as grandes obri- 

gsçoens 



INTRODUZAM. 3 

gaçoens cm qne eftamos a cite amoroío Ocos , & à infinita 
li' ;er didade defte poderofo Senhor? Nefta fomente de nos 
haver dado por Mãynoíia aquella Senhora ,qaeeíle efeo- 
íhcò para May ília , lhe devemos o mayor de todos os agra- 
decimentos» Creou Dcos a Maria Santiflima para que mais 
oamaTe, & para que os homens mais o engrandece Tem, 
amando , & engrandecendo a cila Senhora. Por efta caufa 
lhe devemos inftiitas graças à fua bondade ; pois naõ fó 
quizfer amado emíi,fenão emnoíTasmiíèricordias ,& be- 
nefícios. Nifto devemos eonfiderar hum grande privi- 
legio fobre os mais benefícios , & effeitos da divina Omni- 
potência, pois não fó podemos amar a Deos nclle ; mas ver 
que gofta, & manda que aífim o façamos , & nos encarrega, 
que o amemos; amando , reverenciando , & fervindo a Ma- 
ria Santiflima , livrando nella as dividas infinitas , em que 
lhe eftamos: porque elle fe acha devedor a efta foberana 
Creatu a com a mayor divida, que he adefer filho feu: 
porque he divida naõ menos, que da mefma vida. Com efte 
empenho quer noíTo Salvador, &amorofo Senhor Jcílis 
Chrillo, o deíempenhemos do que elle deve, amando , fer- 
vindo j & reverenciando a efta amorofa Máy fua , & fobe- 
rana Senhora noíTa. 

Obrigados de tantas dividas, quantas devemos os ho- 
mens a efte amorofo Deos , jufto he lhe demos gofto no 
que tanto, & tam juftamcnte defeja, como he amar , & fer- 
vir a efta grande Senhora , Patrona , & Advogada noíTa ; 
mayorm:nte que de nos empregarmos todos em feu obfe- 
quio, damos gofto a toda a Santiífima Trindade, pois reve- 
renciamos a que hc Templo,& cafa fua: alegramos aos An- 
jos , reconhecendo, & venerando a fua Rainha : augmenta- 
mos a gloria aos Santos, amando a fua Senhora; & ultima- 
mente damos gofto a todas as creaturas, honrando aquella 
que he a honra de todas. Gofta tanto Deos de que amemos, 
&firvamos a efta grande Senhora, que emmuytas coufas 

A Z quer 



4 INTRODUZAM. 

quer que o naõ hajamos cem elle immediatamente , fenão 
que feja por meyo deíía noíTa amorofa Mãy, & que em par- 
te deixemos a fua Divina MagdTade,pe!aít:rvir a ella. líío 
naõhe deixar deferviraDeos, mas ferviilo a elle mais; 
porque iíio he ferviilo como elle quer: porque a/fim como 
muy tas vezes ha goílado, que algumas almas fantas o dei- 
xem naoraçam,. òefedefa peguem defeus amorofos bra- 
ços, porq vaõ a íèrvir a algíía creatura parfeu amor : com 
muy ta mais razaõ quer que deixemos de acudir a íua Di- 
vina Mageílade immediatamente ; porque reverenciemos a 
fua Mãy; E aífim muy tas coufas, que lhe pedíramos y fem 
medkr ella, nos negara ;& porque acudimos a ella, no las 
concede mifericordiofa , & liberalmente. Oquehe claro 
final do muy to que fc agrada de que a fir vamos. Quem não 
vè o infinito numero de milagres > & prodígios , que fc fa- 
zem cada dia por meyo delia piedofa Senhora ? porque íc 
eoníiderarmosas Imagens milagrofas, que ha fuás em todo 
omundo,&emefpecial neftenoífoReyno, fendo tam pe- 
queno ,faõ muy poucas asdeChriflo^&innumeraveisas 
de Maria Santiífíma,& mais frequentadas, Sciítufires na- 
quelleslugares^aonde obra mais, & mayores maravilhas. 

Dos outros Santos diffe Chrifío^que fariaõ algus, ma- 
ycres milagres que os feus; pois comonaô havia de fazer 
efie Senhora Maria Santiffima^que o pario,& trouxe em 
fuás entranhas puri/IJmas, eíJa graça; fendo ella a mais í aif- 
ta de todos os Santos ., concedendo! he a prerogativa de que 
fizeffe mayores maravilhasse as fuás ,& que as de todos 
os Santos juntos ? E porque experimentamos, & vemos ifta 
cada dia em mayor augmento todos os filhos adoptivos 
defla grande^Sc íbberana Mãy; defejei com particular cui- 
dado inquirir,nãofóneftenoíTo Reyno>as milagrofas Ima- 
gesdefta Senhora com a fua origem, milagrofos appareci- 
mentos , & prodígios • mas por todaHefpanha , & por todo» 
<a myjido* Nefle pequeno ferviço , dedicado ao obfequio 

defla 



introduzam: s 

deita Senhora defejava louvar a feu foberano Filho , que 
tanto fe paga, ainda dos limitados ferviços , que fe fazem a 
fua amoroía Mãy. 

Naõ fó quer cumprir o noflb humildiffimo Jefus com 
os homens , não fó quer edificalos a fua infinita Santidade 
com efta fua humildade , &refpeito, que tem a fua May 
Santiflima, & honra que lhe faz, querendo darnos exemplo 
de honrar a quem quer que nós honremos; (porque muytas 
mais coufas faz por fua amorofa May, do que nòs podemos 
alcançar; porque não fó os milagres que faz , quando pedi- 
mos algua coufa por fua interecífaõ, no lòs alcança cila) 
mas em todas as maravilhas que obra por meyo de íeus 
Santos, & de fuás Imagens de Crucifixos, & tudo o cus lhe 
pedimos a ellc immedia ta mente , & a outros Santos do 
Ceo, ainda que nòs nos nam lembremos de Mr ria Santiffi- 
ma, nem lho peçamos a ella , naõ o faz Deos fem fer pela 
interceífaõ de fua May Santiffima : porque cila he taõ Mãy. 
noíía, que ainda fem nós nos lembrarmos delia, naõ fe def- 
cuida o íèu amor das noífas neceífidades, alcançandonos de 
feu amorofo Fi!ho milhares de favores, que naó conhece- 
mos; porque he tanto òque ama Deos a efla foberana ad- 
vógnda noífa, & o que goíla de que a amemos, & fírvamos, 
quehadifpofío naõ fazer, nem conceder graça alguma, qoc 
naõ ieja por íeu meyo : pelo qual di(Te S. Bernardino , que s Ber ' 
tinha jurifdiçaõ em os dons do Efpirito Santo. Tudoifto »****"• 
naõhefó piedade o querelo 'entender aílim; mis verdade 
muy fundada -em o íentimento comnvim dos Padres da 
Igreja : que não fe diípenfa , nem defpacha gra ça algua \\o 
tronode Deos, que naõ feja pelas mãos de Maria , pedindo 
ella para nòs-outros as mercês , que nòs lhenão pedimos, 
nem he poífivel,.que lhe pudeíTemos pedir tantas graças, 
como cila nos alcança, eílando continuamente impetran- 
donos milhares de benèfiçios>&. fazendo fempre para com 
noico oofficio de folielta , & amorofa Mãy, quando mais 
Tom. I. A j defeui- 



6 INTRODUZAM. 

descuidados efiamos ; de forte , que d dia depende todo o 
bem do mundo, & iodo o noííò remédio. 

Cfy amantiffiirja Senhora ,& May verdadeiramente no f- 
fa : quem tivera cm feu peito, & coraçam o fogo dos mais 
atr azados Seraphins, para que ardendo com tedoefie in- 
cêndio em amor de Deos , juntamente a rdefíe em amor vof- 
fc ! Quero tivera a í abedoria de todos os Cheruhins , pa ra 
a empregar toda em publicar a todo o mundo as graças fo- 
beranas, & as admiráveis prerogativas de que abundais, & 
de que liberal, & mifericordiofamente nos encheis! Ado- 
remvos todas ascreaturas, pois todas as adoraçoens vos 
faõ devidas 7 como verdadeira Arca do teflamento, & v cr- 
d::dciro trono de Deos. A Maria Santiffima adoraõ naõfó 
os Anjos , mas os mefmos demónios, que na fua prefença, 
de tcmor,& de refpeito naõ fó deírnayam; mas cabem mor- 
tos, & deícabeçados. Qiie era rcuella Arca do teftamento, 
de que falia a Efcritura , fenaõ húa Imagem de Maria * pois 
que fucccde^CoIlocam-na os Philiíleos em o feu templo de 
Dagon, & entrando no # templo, naõfó faz que o ídolo a 
adore como a Senhora ? fenaõ que a adore no meímo lugar 
aonde elle fc vè reconhecido .,& 'adorado. Super osfuum 
jacebat , (diz oToítado) ut poncretur tamquam adoram 
Arcam. Adorou Dagon a Arca : aonde ? Aonde clle. fc via 
adorado. Tam longe efleve de tribufar rendimentos à 
Arca, como cativa ao ídolo , que obrigou a Dagon apo- 
ílrarfe eomo efer avo, & a hunilharíe como rendido. 

Se pois os inimigos ainda depois de mortos, &defca- 
brçaios tribufõ adoraçoens à Imagem deíia grande Se- 
nhor, &M3ynolTa; nos que fomos os ílhos taõ favore- 
cido 1 ^ & obrigados, com mayor razaõ a havemos de ado- 
rar ? louvar, &tributarlhe osmayores obfcquios ,& ren- 
de ríhe or, rniyoresrefpeitos. Com os Portuguezes fallo, 
pois com muvta propriedade fe pode dizer , que o Reyno 
de Portugal he Reyao próprio denoffa Senhora; porque 

defde 



INTRODUZAM. 7 

dcfdc os princípios de npíTa Redempcaõ, foy Reyno feu, Sc 
terra faa : porque as primeiras Igrejas que nelle ouve , fo- 
raõ dçdicadas a efta Senhora , como vemos na Primacial de 
Braga , que fendo a mais antiga de toda Hefpanha , foy 
defde efte mefmo tempo dedicada a noíía Senhora. O rnef- 
mo fevé^em todas as mais Cathedraes^ que depois delia fc 
foraõ erigindo. Também efte Reyno experimentou em 
todos os tempos grandes recompenfas deita fua devoção^ 
nos grandes favores , que em todos clles experimentou da 
piedade defla mifericordiofa Senhora , nas maravilhas , & 
milagres , que as hiftorias referem, obrados por meyo das 
imagens antiquiffimas deita Senhora , como fe vè na de 
Nazareth cm a Villa da Pederneira; na da Lapa em Quin- 
tella; na de Carquerc junto a Lamegb, & outras . 

Depois no tempo dosnoífos primeiros Réys Pcrtu- 
guezes , em quem efta devoção da Mãy de Deos tanto fe 
accendeo, vemos os grandes favores que delia receberam. 
Em reconhecimento delles lhe tributarão o Reyno com 
religiofa fogciçàõ, como fdy elRey D. AfFonfo Henriques, 
que o fogeitou à Senhora de Claraval , com hum perpetuo 
feudo, que ainda hoje a piedade dos mefmos Reys pontual- 
' mente íhtisíaz , efeolhendoa por Senhora com livre fogei- 
çíõ, & Padroeira de ícfu Reyno* Depois recuperanejp dos 
Mouros a villa de Santarém, findou a Igreja collegiada de 
Alcáçova, dedicandoa a N. Senhora com efte mefmo titulo: 
& porq os Reys ficaiTem fempre freguefcs daquella Igreja, 
Sc à fombra de tam íbherana Tutelar, fundou htins paços 
junto àmefma Igreja, com intento dequcnelles viveífem 
íeus deíc t\\ Jentes. A efta media Senhora , por efta mete L.z.f. 
caufa ffetrsg todos os Reys Portuguezes outros ferrte- $*.&L 
Ifiantes fer viços, & largas doaçoens, como veremos, & 5./.2 f 
como fé acha nos livros da Efiremadura em a Torre do 
Tombo. 

Logo com muy to mayor razaõ nos devemos alegrar 

A 4 ' mais 



8 INTRODUZAM. 

Inan* ma * s doqueofazia Joaõ Adolpho Cypreo, oqual refere 
ndlib* comfanta, & religioíà jactância", de que o Principado de 
Epifi. Holfacia tinha por Advogada y & Patrona a Mãy de Deos 
Sféven- Mat^ia Sanfiflima , & Senhora noffa ;& que aefle receito 
tium l. todasasCntnedra£sdaque!íe eílado eramdainvocaçamde 
2. ff. 15. Maria Santiffima, fraella dedicadas. Ncs dizemos, que 
naõ fó todas as Ca'hedraes de Portugal faõ dedicadas a 
Maria Senhora noífa ; mas todas as Igrejas matrizes de 
todas as Cidades, Villas, & lugares,Sc muytas delias Tem- 
plos fumptuofiífimos,& de muy ta riqueza, &àlem deitas 
outros muy tos TempIos,& Ermidas. E fam tantas as Igre- 
jas em -numero, dedicadas nefte Reynoà May de Deos, 
que fó em Lisboa,começandopelaCathedral,ella fó tem 
treze Altares, ou Capellas dedicadas a vários myílerios de 
noíía Senhora, muytas delias tam fumptuofas ,& ricamen- 
te ornadas que caufaõ admiração. Muytas deftas fam afli- 
ilidas de Irmandades muy nobres- Os Conventos faõ na 
mefma forma com muy tos Altares, & Capellas dedicadas à 
Rainha dos Anjos , aflim públicos em feus Templos , como 
oceultos no interior de feus clauílros. Sirva per exemplo 
o Convento de S. Francifco , que fe chama da Cidade , ca- 
beça da Província de Portugal , que tem doze Capellas 
publicas (as mais delias com muy ta riqueza ornadas) de- 
dicadas a noífa Senhora. 

Os Conventos que tem Lisboa de Religioíòs , faõ qua- 
renta&feis; os vinte & cinco delíes faõ dedicados anoíTa 
Senhora ; a faber, 1 . Noífa Senhora da Craca de Eremitas 
de meu Padre S. Agoftinho, fundação detRey D. Joaõ III. 
2. N. Senhora de Penha de França da mefma Ordem. 3 . N. 
Senhora do Monte ^antigamente Convento de SantoAgo- 
flinho 7 &hoje cafa fogeita ao Convento de N. Senhora da 
Graça 3 cm que afllílehum Religiofo, que trata doculto da- 
quella Santa Imagem, cuja devoção he muy to grande na- 
quella Cidade. 4. Noífa Senhora da Conceição do Monte 

Olivete 



INTRODUZAM. 9 

Oliva e de/?oíiinhos defcalços extra muros de Lisboa, 
fundação da Screniffima Rainha D. Luifade.Gufman. 5*N„ 
Senhora da Bca Hora dosrr.cfrros. 6. N. Senhcrade Jeíus 
de Xabregas, cabeça da Serapbica Província dosAlgarves. 
7. N.Senhora dos Anjos da Porciuncula^chamaco vulgar- 
mente Saó Francifco d a Cidade , fundado y & augmentado 
por elRey D.Manoel. 8«N. Senhora de Jefus dos Cardaes 
da Será phica Ordem Terceira. 9. N.Senhora dos Anjos 
de Capuchos Fràncezes. 1 o. NoíTa Senhora das Portas do 
Ceojconvaleccnça da Província de PcrtugrlemTelhciras, 
fundação do Príncipe de Cândia. 1 1 . N. Senhora da Con- 
ceição , convalccença da Província de Santo António dos 
Capuchos» 12. N.Senhora do Vencimento do Monte do 
Carmo de Carmelitas calçados > furdaçaõ* do Condeftavel 
Nuno Alves Pereyra. i^ # N. Senhora dos Remédios de 
Carmelitas defcalços à Pampulha. 1 4. N. Senhora doRo- 
fsrio de Derninicos Irlandezes ao Corpo Santo. 1 5. N. Se- 
nhora. do Deíkrro de Bernardos. 1 6. N. Senhora da Af- 
fumpçaõ dos Padres do Oratório de Saõ Philippe Neri. 
1 7.*N, Senhora da AíTumpçao do Noviciado áa Companhia 
à Cotovia. 1 8. N.Senhora da Eftrella, Collegio da Ordem 
de S.Bento. 1 9. N. Senhora do Livramento da Ordem da 
Santiffima Trindade em Alcântara. 20. N.Senhora da Luz 
deCarnide deTomariftas, da Ordem Militar de Chrifto, 
fundação da Infanta D. Maria. 21. N.Senhora de Belém 
da Ordem de S. Jeronymo, fundação Real delRey D.Ma- 
noel. 22, N.Senhora da Boa Viagem dos Padres da Pro- 
vinda da Arrábida. 25. N. Senhora VallisMifericordias de 
CarruxosemLaveiras. 24 N.Senhora do Amparo de Ca- 
puchos em Via Longa. 2^N.SenhGra deNazareth^Colle- 
gio dosOrfeõs. 

Os Conventos de Religiofas > & Recolhimentos de 
rhuiheres faõ trinta & féis , &: delles dezanove dedicados 
a N.Senhora \ afaber, oi.R Senhora a Madre de Deos 

em 



io INTRODUZAM. 

em Xabregas , fundação da Rainha D. Leonor mulher de 
elRey D.Joaõ II. 2. N. Senhor 1 da Anrunciaia da Ordem 
de S.Domingos, fundação da mefma Rainha. 3 . N. Senho- 
ra da Saudação de Flamengas Capuchas da primeira Regra, 
fundação de Philippe II. em Alcântara. 4. N. Senhora da 
Natividade de Urbanas , a que tambcm charrnõ S. Martha, 
fundação delRey D. Sebaflnõ. 5. N. Senhora da Efperan- 
ça de Clariíks y Convento antigo, &: fundação dos Reys. 
o. N. Senhora da Encamac 10 da Militar Ordem de Avis, 
fundação da Infanta D. Maria filha delRey D. Manoel, 
7. Santa Maria de Odivelías da Ordem de Cifler, fundação 
delRey D. Diniz. 8« N. Senhora dos Martyres de Saca- 
vém, Capuchas da primeira Regra, fundação de Miguel de 
Moura. 9. No Ta Senhora dos Poderes cm Via Longa de 
Clarifías. 10. N. Senhora de Nazareth de Bernardas def- 
calças cm o Mocambo. 1 1. N. Senhora daRofa de Domini- 
cas. I2« N. Senhora do Bom Succeíío da mefma Ordem 
reformadas junto a Belém. 13. N. Senhora da Conceição 
de Marviíla d 1 Ordem de Santa Eriíida. 14. N. Senhora 
da Conceição aos Cardaes de Carmelitas deícalçis» 1 5. N. 
Senhora da Conceição junto aN. Senhora da Luz, da Or- 
dem ca mefma Conceição, 1 6, N. Senhora da Piedade de 
Convertidas. i/.N.Senhora das Mcrcès^Recolfiimento na 
Rua Ferqíofa. 1 8. N. Senhora do Amparo, Recolhimento 
a S. Chriítovaõ. 1 9. O Recolhimento de N. Senhora da 
Conceição da Bempofia, 

As Parochias faõ 43 .-& deílas faõ treze dedicadas a N. 
Senhora; a i.he a Sé Metropolitana dedicadaà AíTumpçaõ 
deN. Senhora. A 2. No'ía Senhora dos Martyres, primei- 
ra Fregu£íia depois de lua ultima rcfiaiir açaó- 3 . NoíTa Se- 
nhora da Conceição dçClcrigos da Militar Ordem de N. 
Senhor jcíu Chriíto, 4. N. Senhora da Vitoria à Caldei- 
raria. 5.N. Senhora do Soccorro junto ao Collegio da Corn- 
panhia. 6« N. Senhora do Lo: cto dos Italianos , hum dos 

mais 



INTRODUZAM. n 

mais íumptiioíbs, <?< ritos Templos da Corte. 7. N. Senho- 
ra do Alecrim. 8. NoíTa Senhora dos Anjos. 9. Noflâ Se- 
nhora das Mercês- 10. NoíTa Senhora do Paraifo. 1 1. N. 
Senhora dos Olivaes. 12. NoíTa Senhora da Encarnação 
da Ameixoeira. 1 5. NofTa Senhora da Ajuda em Alcântara. 
Deixo de numerar aqui N. Senhora do Amparo de Eemfíca, 
N.Senhora de Oeiras , & nofla Senhora de Loures , com as 
mais de Frielas, Unhos, & Sacavém, pelas naõcomprc- 
hender no numero das Parochias,Tem embargo de Ter tudo 
do termo de Lisboa. 

1 As Ermidas dedicadas a N,S:nhoia,Tam vinte .&novc; 
eflasTam as mais notáveis, &uiaõcompixhendo as muy tas, 
que Tenumerrõ pelas quintas, «5c ca fas de campo com por- 
tas publicas, aonde íefazicfía nos dias de Teu Crago: nem 
quero numerar individuando es titules década hía, per 
me parecer efcnTado. Do referido Te vè, que todo cílc 
noíToReyno he hu continuado Templo , & caTa da MSy de 
Deos, <5c danoíTa Toberana Senhora Maria Santiílimayoq 
naõ logra o Principado de Hol&cia. Epcr cie reTpeito 
concorrem nos Por tuguezes mayores raz^ens de confian- 
ça na Tua protecção, & amparo. Nos princípios do Reyno 
de Portugal , tudo o que lhe pertencia , ou o que elle abra- 
çava da Cidade do Porto tèGuimaraens,& terra da Feira, 
Te chamava terra de Santa Maria; porque tudo foydctado 
a N.Senhora. Os Coutos de Alcobaça, que comprchen- 
dem treze Villas, & alguns lugares J também he terra de 
noííà Stnhorn : porque fcy doada, & oíFerccida por elRey 
D- AíFonTo Henriques aN. Senhora de Claraval em Fran- 
ça, &Togcita ao Teu Convento, cerro cabeça do de Alcoba- 
ça, com hum grande feudo em (furo, que ainda hoje latis- 
fazem osReys de Portugal. O EiTpado de Leiria Te cha- 
.mav.a também terra de Santa Maria , por lhe haver feito 
delia, & de Tuas terras o meTmo Rey D. Afícnfo hua reli- 
gioTa íbgcíçaõ â Senhora daPçna^que he venerada noTcii 

Oikilow 



ii INTRODUZAM. 

Cardof Caftello. Omeímo fez omelmyRey cia Cidade de Évora 
-4f'W- (quando do poder dos Mwros a rcflauron aquellc vale- 
tom% ^ rofo, & d ~ítemid:> Capitão Giraldo) fogeitandoa àVirgenf» 
í?[ Maria,comaíUiCathcdral Igreja, pa- a oque concorreo 
3 ' comamayor parte dadefpcza que fefez na fua fabrica. 
Vejaô logo Joam Adolfo Cypreo, & os mais , fe temos nos 
os Portuguezes muyto nr.yorrazaõdenos jadlar mais al- 
tamente^ de appropriar anos (fallando ao nollò intento) 
aquillo do Angélico Doutor S. Thomís : que nnõ ha outra 
naçaõ tam grande em todo o mundo, que tenha hua Senho- 
ra tam grande por Protectora , como he para nos Maria 
Saiitiffima; porque cila he a que nos ampara, a que nos afli- 
íie, & a que nos defende. 

Quando ouve de dar principio a efte meu Santuário, 
me períuadí raõ alguas peífoas , o fizefíe pelos Templos , & 
as Imagens mais antigas da Virgem Maria Senhora noilà 
que no mundo fe lhe havião erigido , fc venerado E como 
neíks primeiros tomos perrendo fomente tratar das Ima- 
gens milagrofa 5 de Portugal, não achey tinha lugar o con- 
lelho que me àiStozo \ nem , havendo de tratar de cada hum 
dos Biípados , recolhendo em dive-rfos livros o que tocava 
acadahumdelles em particular, podia aceitar o me imo pa- 
recer: &(ómente podia tratar das Imagens mais antigas 
da Cidade capital década hum delles,& depois ir deícre- 
vendo as das mais terras da Dioceíi , aonde ellaõ ,&enta5' 
podia dar o primeiro lugar às que foífem mais antigas. E 
porque de algum modo não falte a efte avifo ,que me não 
defagradou , quero aqui nefta introdução declarar os 
Templos que a Virgem Maria Senhora nofla tçve em o 
munaó, ainda muy tos an-nefc antes de ellafer nafcida,quc 
íoy no tempo da Ley Efcritaj&logo declarar também es 
primeiros que teve no da Ley da Gra;a, vivendo ella, para 
íàtiaíazer de algum modo ao que fe me advertio no exórdio 
dcíiç aifumpto. 

Opri- 



INTRODUZAM. 13 

O primeiro Tempio/jue fe reconhece em a!ey Efcrita, 
dedicado à M5y de Deos ; & o primeiro que o mundo come- 
çou a venerar, como Templo da fempre Virgem Maria,foy 
na Cidace de Attica. Procopio Martyr (como refere Me- 
taphrafles em ítia vida y conta o moda com que fe edificou 
eíie Templo. Diz que aquelfcs celebres Argonautas, que 
commummente fe tem pelos primeiros Novarcos, & in- 
ventores da navegação , ou os antigos Pilotos do mar , em 
oannode 2821. da creaçaõ do mundo (fegundo a conta de 
alguns ) Jafon com mais de íincoenta companheiros , dos 
quaesosmais afamados for^õ Caftor^ & Polus ,Telamon, 
Orpheo > Hercules y & o moço Ki!as , Hcrces todos mag- 
nânimos y & chamados A rgonaittas y per íè embarcarem 
cmaNao Argos, inílituindoefta navegação paraColeos^ 
abufear o-VclIodeouro,tam celebrado dos Poetas > que 
guardava hum vigilantiiH.no Dragaõ> que porarte de Me- 
duza adormeceo y & elles o levaram à Grécia* Mas nave- 
gando ,& chegando com profpçra viagem a Attica y edifi- 
carão na fortaleza hum magnifico Templo, & mandando 
a alguns dos companheiros a Delphos ,a confultar o Orá- 
culo de A polío, para faberem a qual dos deofes o haviam 
de confagrarjApollo refpondeo com as palavras feguintes.. 
Ego três cupio JDtwn unum regnantem apudfupe- 
ros, cujas ab interitu alienum conceptum Verbum ih 
fimplki Virgine y nafcetur homoy bujus matris erit 
híce domusy Marta autem erit nomen ejus» 
Eu (querem dizer eílas palavras") tresdefejo, que fam, hun 1 
fóReynante no Ceo, do qual o Verbo, que cmfi hcalheyo 
de morte ,nafcerá homem na Virgem fimplez^Sc pura j & 
da Mãy defle fera eíla Caía : a qual Mãy terá po* nome Ma- 
ria. Todas eítas palavras fe lem cm o mefmo Procopio^ 
que refere Surio em o 4. tom. em 8. de Julho ; & he tam 
grande a fua authoridade, que o fegundo Concilio Niceno, 
na acçaõ 4.. as allega , pelo culto das fagradas Imagens., 

Dçincta 



i 4 INTRODUZAM. 

Donde vemos agora, que noíbbrccito annodez82i. da 
ereaçaõ do mundo , di< poz Deos que jà fua Mãy Santiffima 
começaífe afer venerada, aindique não exiíiia , nem era 
conhecida dos me imos, que lhe dedicavam o Templo. 

Na Cidade de Cyíico, que agora fe chama Efpiga Nato- 
lia em a Afia menor, fe lhe edificou fegundo Templo,como 
Lit.$6. refere Plinio , dizendo s que os tncfmos Argonautas indo 
c.i 5. para o Helefponto, chegaram à Cidade de Efpiga , & que- 
rendo deixar alíi algum veftigio de fua piedade , confultá- 
ram também ao mefmo Oráculo de Apollo Py thio, pergun- 
tandolhe, a quem dedicariam hum Templo, que intenta vão 
erigir ? & deulhe eflas palavras por repoíla: 
MarLe, Verbt <eterni genitricu 
Que haviaõ dedicar aquelle Templo, que per tendiaõcrígir, 
a Maria May do Verbo eterno. E efle foy o fegundo Tem- 
plo, que à Rainha dos Anjos fc dedicou 1 265. annos antes 
de feu nafeimento, na opiniam de muytos Authores. 

O terceiro Templo fundarão à mefma Senhora,**: fem- 
pre Virgem Maria , quaíi pelos mefmos tempos^ eftes mef- 
mos Heroes, em fatisfaçaô da morte de Cyíipo, que depois 
deíla conheceram fer feu parente. Ediíicáraõ-no , & man- 
darão faber do mefmo Oráculo de Apollo, a quem fe havia 
de dedicar, & tiveraõ por repofla, o q fe vè neftes verfos. 
AJidua virtute decus fublime parate 9 
At que tmum (fie mando) Veum qui cunefa gubernat, 
Cdlctti refidens folio , colite, atque timete: 
lllius tettrnum [upraomma facuia TSLatum> 
TSLejáaViYgo V ir i par tu pr<tnobil' ! .sedit, 
<gui Velut igniftris tmpulfa fagitta procelíis 
» Edomitum reddet Patri pro muneremundwn, 
Hujus, quam Maria: nomen manet , alma gemtrix 
jígnofcet templum propriumfibi dicatum. 
Eu vos mando (querem dizer os verfos) que aparelheis hua 
foberana, &alta honra com virtude continuada ; &quc 

honreis. 



INTRODUZAM. 15 

honreis , & temais a hum Decs que go\ eira tochas as cou- 
fas; o qual tem o fcuaffemo no Ceo. Ao filho aerno,fo- 
bre todos os fecuíos, deíle Deos todo podercío , ha de 
parir hua nobiliffima Virgem ? que não conhecerá varaõ* 
O qual Filho, aífi como hua fetta arrojada,reftituirá ao Pajr 
o mundo caíiigado com dilúvios de fogo- A MSv deite Se- 
nhor j que terá por nome Maria, conhecerá porfeu cite 
Templo > & a cila ccmmuyta razaõ ferá dedicado. Diz 
Cedreno , que cite Oráculo eflava expreffo em letras 
de bronze, & gravadas em hum mármore na entrada da 
porta; & como os Gentios tinhaõ adeofa Rhea,ou Cibel- 
les , por mãy dos deofes y creram , que a eila fe havia de 
dedicar o Templo ; o qual havia de fer dedicado àfempre 
Virgem Maria , conforme ao Cracu T o. E eíte erro emen- 
dou depois o Emperador Zenon, que imperou pelos annos 
490. chamandolhe Templo da Sagrada Mãy de Deos. O 
Patriarcha Phocio eoníeffa ver na fua biblioteca hum li- 
vro,oqual em vários Oráculos, feteflemunhos dos Gre- 
gos, Eabylonios, Caldcos, Perfas,Egypcios ? & ítalos con- 
tinhão a Encarnação do Verbo eterno, que encarnado he 
Chriflo, feu Nacimento, Pr yxão 3 & Refurreiçaõ ., & o no- 
me da Mãy de que havia de nafeer. 

Eíte Templo deve de fer, o que outros Authores dizem, 
edificara Jafon, Capitão dos mefmos Argonautas, em a Ci- 
dade de Athenas,como referio S.ProcopioMartyr diante 
deFlamiano tyranno, que oeflava martyrizando, dando 
razaõ daFè de Chriilo , & de fua fagrada Encarnação. 
Ainda que outros querem que eíte de Athenas feja o meí- 
mo que ode Cy fico , ou Cizto. A ffim o diz o Padre Aloníò **f 7? 
de Efquerra n© livro dos PaíTos de nofía Senhora. •• lI - 

OquartaTemplo que teve a Senhora, foy o que fun- 
dou oProphetaElias. E podemos commuyto fundamen- 
to crer, que lhe fora revelada a Encarnação do Divino Ver- 
bo A & o nome Santiffimo de Maria fua Mãy, que o havia de 

parir^ 



i6 INTRODUZAM. 

parir, & que eítas revelaçoens fe íheiariím no monfe 
Carmelo, quando nelle orava , ôclhe pedia fertiiizaíTe a 
terra, & mataííe a fede aos viventes ; mandando fe te vezes 
ao moço, que lhe affiftia , que foííe ver feda parte domar 
Regptm fubia hua nuvem pequena , como a pegada de h um homem* 
Ub. 3. Aonde muytos Eícriturarios entendem aquella feptima 
e. 1 8. vez pela feptima idade do rand®; em que a Virgem Senho- 
ra nefta nubecula figurada, vinha fubindojà com paífo 
apreííado, para dar ao mundo aquella mifericordioià chuva 
doCeo- E Joaõ Patriarcha Olviano , & Marco Polorib na 
ftia hiíiora geral, & outros muytos di^em, que a Elias não 
c íò foy revelado o noine de María;mas que no mefmo mon- 

te Carmelo edificara à Senhora hua Ermida , em a qual com 
ty™° os filhos dos Profetas , fub tanti nominis umbra Veo mili- 
*" ™" taVits Que vivia jààfombra do nome deita grande Senho- 
j>Aik.' ra# Ecfla Ermida, que fc chamava 5V«w<9?/,dizemoPad *c 
Lyreo,& oiuros,perfcverava no anno de Chrilio de oiten- 
ta Serres* 

O fer a Encarnação do Filho de Deos revelada naõ fó 
a Elias , mas a no(f es primeiros pays Adam , & Eva , o diz 
o mefmo Padre Lyreo; & eferevem outros Autores, & ain- 
Sovf. da o noffo Soufa de Macedo no feu Eva, & Ave , fc com 
p. j\ % ellaonomefantiíTimo de Maria (que havia de fer Filha dos 
meimos PaysJ depois das fentenças contra elles por Deos, 
ou por hum Anjo em feu lugar , lhe ferem intimadas: por- 
que <juiz Com eíía revelação temperar o fentimento de 
noífos primeiros Pays, considerando a divina mifericor- 
dia,qucdeík feu mal havia de tirar hum bem univerfaí 
ic'16 P aratoc *ososfeus defeendentes- 
&'lpud Também hc coufa digna de memoria, o que efereve 
Nqvat. ]° ? à Gerbrando, eferitor iníigne ,na lua Cronologia, que 
jíâ*g. n ° anno de 1 3 74. cavando os Chriílãos , em companhia 
55. ». dos Sarracenos, por mandado de Sibilla Rainha dos Un- 
1107. garos, com licença doSotdão de Babylonia,noValie de 

Jofaphat; 



INTRODUZAM. 17 

Jofaphat; no profundo da cava , ou abertura das pedras de 
Aaramhua fepultura feita de adobes, & dentro dei! a in- 
teiro, hum corpo deexcefliva grandeza; abarbamuyto 
comprida , & envolto em peites de ovelhas , &à cabeceira 
Ma pedra, na qual eíteva eferito com letras Hebreas ofe- 
guinteyconforme aonoíTo Portuguez: 

EuSetb terceiro filho de Adam , creyo emjefus Cbri- 

fio, Filho de Deos , & em Maria fua May, que h ao de 

fer meus descendentes* 
A cila eferitura quero referir outra , que traz Rodrigo 
Sanches, o Padre Caniíio Confentino , & outros muy tos \ 
os quaes referem , qíie no anno de 1220. pouco mais , ou 
menos , fendo Honório III. Summo Pontífice , Emperador 
de Alemanha Federico II. & Rey de Efpanha Fernando; 
abriohum Judeo junto a Toledo hua penha, para dilatar 
maishua propriedade que felhe limitava com aquelle im- 
pedimento : achou dentro delia hua concavidade , & nella 
hum livro dehíías folhas de madeira, &nellas íe tratava 
em lingoa Hebrea, Grega , & Latina de três mundos ; a fa- 
ber , de Adam até a vinda do Antechrifío ; & vem a fer, o 
primeiro ce Adam atéodiluvio,ofegundo do diluvio atè 
Chriíio , & o terceiro deChrifto atè o Antechriflo. E no 
principio do terceiro, dizia eftas palavras. 

In ttrúo mundo Filius Dei nafcetur ex Virgine Ma- 

ria,patieturquepro hominwn falute. 
No terceiro mundo nafeerá o Fiího de Deos da Virgem 
Maria, padecerá, & morrerá pelafalvaçam dos homens. E 
acerefeentaõ os me imos Authores , que eíte Judeo comto- 
da a fua família fe conve rtera , a noffa Santa fe. Com que, 
naõ pareceram incríveis eftas memorias aquemconíide- 
rar, fegundo o que fe acha nas divinas letras , como defde 
o principio do mundo, aquelles Santos Padres, forno fem- 
pre noticiando aos prefentes , para os futuros , o peccado 
de Adam > os damnos que íe feguiram delir; j & com os 
Tom. L " B olhos 



iS INTRODUZAM. 

olhos no remédio que efperavão , pela união de Deos com 
os homens , vivendo fempre nel T es a fé do Miffias futuro, 
& o conhecimento da Virgem May, que havia de fer a me- 
dianeira donoíTo remédio. 

Também ferve para confirmação defta indubitável ver- 
dade/} teíkmunho das Sybi!Ias,dasquaes meu grande Pa- 
dre Santo Agofiinho, S. ]eronymo,& outros Padres fize- 
v:ò tanto caíb) todas eftas forao molheres idufiradas. Fi- 
tas faõ, primeira a Perfica, íègunda a Libica 5 terceira a 
Delphica;a quarta a Cumea j a quinta Erithrea ; a fexta Sa- 
mia; a fetima Cumana; a oitava Helefpontica; a nona Phri- 
gia; lk a decima Tibur tina. E ainda que todas falláraõ my- 
fkriofamente da Encarnação, & de Maria Mãy de Deos, 
comtudo a Erithrea, & a Tibur tina exprimirão claramente 
o nome de Maria , porque deitas a primeira cantou neíla 
forma: 

Et breVis egrejfics MARIcs£,de Virginis afoo 
m ExoYtacíi noValux. 
A Tiburtina efereveo: 

Indhbus lUsexurget mulier de Jtirpe Hebr<eorum, 
nomine Maria >háben$ fponfumjofeph ,& procreabi- 
tur ex ea >fme commixtione V/W , deSpiritu SanCfo 
Ftlius í Z>/, Jefus nomine. 
Naquclles dias (diz a Sybilla^ nafeerá hua molher da des- 
cendência dos Hebreos, o feu nome fera Maria, feu Efpofo 
Jofeph , & delia nafeerá fem obra de Varam ; mas fó do Ef- 
pirito Santo, o Filho de Deos, que fe chamará Jefus. Affim 
oefereve Leonardo de Utino. 

Também no tempo da Lcy da Graça , fe numerao ou- 
tros quatro Templos , que fe edificaram em vida de Maria 
Santiííima. O primeiro edificou Augufta Ceíàr , no pri- 
meiro anno do nafeimento de feu Santiffimo Filho Jefu 
Ch riflo, reconhecendo ao mefmo Senhor, juntamente por 
Senhor fupremo ^ o qual lhe foy moftrado em os braços de 

fua 



INTRODUZAM. "T tf 

lua May Santíli:na, antes de nafcer , pela Sybilla Tiburti- 
na que entam vivia : a vifaõ f oy no ar, & o Templo, ou Al- 
tar foy em Ara Gtii ; aflim o efcrevem vários Autores , & Tom. r . 
Faria em a fua Europa. f>$ .#.ii 

Ofegundo Templo foy na índia , fundado por Chiri- 
pcrimaie Rey de Calecut, & Emperador do Malavar. Era 
Bracmane , & dos mais Sábios da índia , Sç o primeiro dos 
três Reys Magos, que guiados da Eflrella, fòraõ do Orien- 
te atè Belém , a adorar a Deos nafcido. E voltandofe ao feu 
Reyno,& Cidade de Calecut, metropoli de fua Monarchia, 
em memoria deite favor que doCeo recebera, edificou à 
Senhora hum Templo , & nelle hua rica Capella aonde co- 
locou hua Imagem ^que mandou fazer de noífa Senhora, 
com feu preciofo Filho nos braços , na mefma forma , que 
em Belém avio, & adorou. Defte Templo faz mençaóo ub.\ % 
Bifpo Oforio de Rebus Emmanuelis Navarro de Oratione, p. 6iu 
Barradas in concórdia Euangelift. Daça naChroivca de Navat. 
Sam Francifco. O Padre Alofa no feu Ceo Eflrcllado. de 0r - 

O terceiro Templo, foy em a Cidade de Braga , cabeça tom * s " 
cntaõ da Província de Galiza,& hoje da Província de Entre c ^ m 
Douro, & Minho- E efte foy o pfímeiro Templo que a Se- 10 ^ r % 
nhora teve em Efpanha, fundado pelo Apollo do Entre i.y.c.%. 
Douro, £c Minho Sam Pedro de Rates , o mais amado Dif- Daça. 
ci pulo do Pa traó das Efpanhas Santiago, o qual por imitar M-^ 1 - 
em tudo a feu Santo Meítre , & intimar a todos a grande c -* z - , 
devoção da Mãy de Deos , Maria Santiílima,que elíe lhe Ceo , e f . 
havia cníinado. Logo que começou a pregar em Braga, lhe tr \ ' ' 4 
erigio,&confagrou Altar, & Capella dedicada ao feu no- *~^ 
me, muy to antes que feu Meílre Santiago edirtcaíTe o Tem- 
plo da Senhora do Pilar de C,aragoça. 

O quarto Templo foy em a Cidade de C.aragoça refe- 
rido, que edificou o mefmo Apotfolo Santiago , quiri io 
acompanhado de feus Dífcipulos chegoua elia para pregar 
a Fe de íeu Divino Meflre jefu Chrifto. Aqui eftanao o 

B z Smte 



2o Santuário Manam 

Santo, & os feus Difcipulos, alta noy te cm Oraçaõ^lhe ap- 
pareceo Maria Santiífima (acompanhada dehumluftroío 
efquadraõ de Celeíliaes Efpiritos >que com hua fuave mu- 
fica a louvavaõ, & engrandeciam) & lhe diíTe em como era 
vontade do Altiflimo^que naquelle lugar fe lhe edificaffc 
Em Templo > em que ella havia de íer venerada. Traziaõos- 
Santos Anjos jà prevenida hua Imagem da mefma Senhora,, 
que elles haviaõ fabricado, que fervia de pianha hua colu- 
na cejafpe. Efia Santa Imagem lhe ordenou a Senhora^ 
colocaffe no novo Templo , porque nelle obraria Ceo& 
muytas maravilhas r &íe fariam patentes osthefouros da 
fua Divina iriíericordia- 



TITULO L 

Hífíoria de no/fa Senhora daPomhinka. 

HA vendo- de d?r principio aos noflos Santuários LuíT- 
tanos y & ahiíloria denoífa Senhora da Pombinha,, 
me pareceo precifo,.di2£r primeiro na Introduçam defíc 
titulo j.que odarlhe principio em Lisboa , foy por ler efía 
Cidade o Santuário geral de todoefle noflo Reyno : porque 
iam tantos os que nella fe nomeam , ( & de que havemos da 
tratar /que parece na© tem numero.. Mas para que digamos 
aigua coufa delia emeíle iuçar (por naõ fazer a Introdução 
mais ex tenfa) como da pátria da efpecial devoçam de Maria 
Senhora, & Prot-e&ora noífa : digo que efía Cidade > Empó- 
rio do univería, Rainha ,não fó de todas as deEfpanha ,, 
mas de todo o mundo,Metropoli,& Corte dos SereniíTimos. 
Reys de Portugal (em que me perfuadoelteve fempre viva,, 
& permanente a devoção r & o culto deita foberana Sc- 
ttfeora) fica na parte Occidental deEfpanha , últimos fins 
éaterra ,,.& aonde o dourado Tejo miítura fuás claras „ 

doces,. 



Livro L Titulo L íi 

doces , & ricas aguas , com as do falgndo Oceano. He no- 
tável pelo feu dilatado ,& gr ande* fitio, numero fa povoa- 
ção; & excellente porto, capaz denumerofas embarcações 
de alto bordo , donde fahem cada dia numerofas armadas 
para os .mares Atlântico, Indico, & Brafilico , as quaes vem 
carregadas deinextimaveis drogas , que a fazem não me- 
nos rica que poderofa, &apetecida, & comerciada de varias 
Naçoens. 

Vtratando defua fundação, pois não fera alheyodc 
hum affumpto tam grande , referir as grandezas do princi- 
pal lugar em q Maria fantiílima,he com tanta piedade vene- 
r a^a. Quatro opiniões mais principaes apontaõ os Auto- 
res. Da primeira he o grande Joaõ Goropio Becano , que 
*m vários lugares de fuás obras, publica ferfeu fundador 
Elifabifneto deNoè:$2*>9« annos (conforme ao computo 
de Tcrniello) antes da vinda deChriflo: querendo alguns, 
queddie tomafle o nome deLiíitania,ouLuíitanh a Pro- 
víncia toda. Da fegunda he Autor o Doutor Francilco 
Monçon Hefpanhol , que no feu livro intitulado : Ejpejo 
deVBrincípe Cbriíiiano $ com outros muytos lhe dà por 
fundador o fagaz, & afluto Grego o Capitão Uly pies , 
quando veyo a eílas partes derrotado da guerra de Troya,, 
cmfeguimento de Achiies, que achou no Templo deVe- 
fíaes em Chellas , fendo elle feu reflaurador , ou ampliador 
yiy. annos depois de fundada a primeira vez,deixandoa 
eternizada com feu nome, & coroada de foberbos muros» 
Deftas duas opinioens nos queremos aproveitar pelas mais 
verdadeiras, ôtqueabraçaô amayor parte dosAutores^ 
por mais ajuíladas; deixando a terceira de que he Autor 
ElRey D. Aftònfo o Sábio, que quer feja o fundador de Lis- 
boa hum neto de Ulypfes chamado do mefmonome,&de 
bua fua -filha chamada Bona , & que de ambos fe compunha 
o nome de Vlypíes-Eona, que depois fe corrompera em 
Lisbona, ou Lisboa. A ultima he do Eifpo Gcrunoeníc no 
Tom. L B 5 - ftu 



2 z Santuário Mariano 

feu Paralipomenon de Efpanha , dando por fundador a 
Abis, ultimo dos antigqsReys delia, do qual fe chamou ate 
o tempo dos Romanos Scabius, & depois Scalabis, cujos 
muros deixava banhado o Tejo, o que fe deve entender de 
Santarém (fegundo Fr. Bernardo de Brito, &LuisNunes 
com a multidão dos Geo^raphcs) & não de Lisboa* 

Fica pois eírá iílufíre Cidade em trinta & nove gràos 
da parte do Norte, de baixodo benévolo íígno de, Aries,no 
fim do ç. principio do 6. clima , fundada (como outra Ro- 
ma) fobre fete montes , olha para o Levante , & Mcyo dia; 
& por iífo he viíítada do Sol tanto quenafee, o qual com 
feus rayos desfaz as humidad.es da terra, & adelgaça os va- 
pores que do rio felevantaõ, purificando feus ares de forr 
te, que fica a mais falutifera do mundo. Nellanão ha ve~ 
ramrigurofo , nem inverno dezabrido: o temperamento 
he benigno, o ar tranquillo , & o terreno ubérrimo ;- refpi- 
rando em todo o tempo vapores íiiaves, amigos da natu- 
reza, & inimigos da corrupção , como oeferevem osef- 
trangeiros,admirados da perpetua amenidade de feus cam- 
pos, falutif eras crvas,odoriferas flores, faborofflimas fru- 
tas , <k íiiftanciaes mantimentos , porque faõ os melhores 
do mundo. He abundante de aguas, puras, delgadas, & 
criítalinas, copiofas em quantidade, & raras em bondade. 

Comdiverfos nomes fcy conhecida ,& nomeada eíla 
nobre povoação , variedade caufada pelos tempos , porque 
tudo corrompem , fe )\ naõ foíle das lingoas de feus con- 
quifladoreSp a faber Tordulíos, Gregos, Romanos, Alanos, 
Suevos, Godos, & Árabes Sarracenos : como Elifea , Uly- 
pfea, Uíyfipolis, Ulyfipo, Oiypfis , Olyfipon , Olyfipona , 
Ulixpona , Exubona , Lyílpo, Lyíipoa , & ultimamente 
Lisboa. Ifio he o que frequentemente fe acha nos Auto- 
res, & fó no tempo emque os. Romanos a fenhoreáraõ , lhe 
impuzeraõ o nome de felicitas Júlia. Eftes a ampliaram, 
& em nobreceram, fazendoa Colónia, .& Júlio Cefar, Mu- 
nicípio 



Livro I. Titulo L 13 

iiicipio deCidadoens Romanos , único naLufífania, que 
preferindoa a muy tas Cidades, lhe deu oneme de Felici- 
tas Júlia, honrandoa com muy tos privilégios , & izençoes, 
como fe pode ver nos Autores , & em Jorge, Cardofo no 5 . 
tomo dosfeus Agiòíogios pag. 6yi. 

Depois dos Romanos, fe fizeraõ fenhores delia os Ala- 
nos , & Suevos (naçoens feptentrionaes)os primeiros lhe 
puzeraò cerco noannode 412. Mas ella depois de expe- 
rimentar o auxilio dos feus Santos naturaes Veriffimo, 
Máxima, & Júlia, comprou fua liberdade apezo de ouro. 
Os fcgundos no anno de 464. a fenhoreáraõ , por entrega 
que delta fez aleivofamente Lucidio feu Governador, a 
Remifmundo Rey dos Suevos , & Godos ,de baxo de cujo 
domínio efieve muytosannos, até queos Mouros a ganha- 
rão por força de armas , no anno de 716, aos quaes a to- 
mou D. Affonfo o Caíto, no anno de/pS.vendofe neíla 
conquifta feitos dignos de eterna memoria. Pouco tempo 
fe devia confervar em feii poder, porque D. Ordonho Ili- 
de Leam , no anno de 952. a tomou, faqueou , & deílruío, 
tirando delia muy tos cativos, & riquezas com que fe vol- 
tou vitoriozo. Depois D. Fernando o Magno , entre as 
Cidades que conquifteu na Luíitania,hua delias foy Lis- 
boa, 5c parece que os Mouros a recuperaram logo ; pois no 
annode 1093.3 cercou D. Affonfo VI. aquém chamarão 
o Emperador , & dizem alguns & rendera a partido; outros 
que a ferro, & fangue. Mas também fe devia perder bre- 
vemente, porque no anno de 1 1 47. a recuperou para fem- 
pre o noífo Invidiííimo Rey D. Affonfo Henriques: o qual 
aífim como a ganhou a dedicou íogo a no^a Senhora, man- 
dando purificar amefquita mayor,que lheconfagrou. E 
com efla nova protecção fegurou a Cidade de todos os ini- 
migos, que a podiam combater, & conquifiar. 

Mas tornando aonoffo afTumpto, tenho por fem duvi- 
da, que a Senhora da Pombinha feconíervava ainda nas 

B 4 inva- 



24 Santuário Mariam 

mvazoens detam calamitozos tempos , quantas padecíaô 
osChriftáos,&aguardarjaõ alguns deli es que ficav^õ na 
Cidade, ou como cativos, ou como tributários. Perfuadc- 
me a iílo a tradição que ainda hoje feconferva emalguas 
peffoas, que afirmaõ ouviram dizer ,. que eík Imagem da 
Senhora, era a Titular da Parochia^u antiga Cathedral,, 
& que pelo fer, ainda hoje namefma Sè Metropolitana, de 
tempos immemoriaes, fe cofluma cantar no feu Altar todos 
os dias depois de Prima, hua Mifía pro Populo ^ fem duvida: 
por memoria , de que aquella Senhora era venerada na- 
quelle lugar, (que depois ficaria incluicfo no edifício da Sè) 
& em reconhecimento, & lembrança de que alli eflava a 
Parochia , & Cathedral y fe devia: dizer aquella MiíTa y pois 
naô fe fabe dar caufe, porque iftoafllnxfeja, & affim fe faça. 
E como; as coufas antigas faõ dificultofás de averiguar j 
porq fenão achaõ memorias que as certifiquem >tudo Vem. 
a fer faltar, & eferever por conjeduras*. 

O confervaremfe Igrejas x & muytas Imagens mila- 
grofashe certo , &conila de varias hiftorias (emque tam- 
bém entraria a Divina Providencia, para as defender, & 
eonfervar illefas de mãos facrifegas) como a cafa>& Ima- 
gem da Senhora do Pilar de C,aragoça : a de Atocha de 
Madrid; a da Senhora de Três de Yal, &a de Córdova, com 
©utras muy tas, as quaes não padeceriam ultrajes,nem irre- 
verências y porque as defendeo Deos para confolaçaõ dos 
feusfieis. Efla Santa Imagem fempre teve devotos que a 
ferviraô^ & venerarão com grande! devoção em todos os 
tempos. 

O IlluílriflTmo D João Mafcarenhas fendo Cónego da- 
cfuella Sè (& que depois foy Bifpo de Portalegre, & morrei 
Bifpo da Guarda) era devotiffimo deita Santa Imagem, Elle 
foy o Autor do novo, & fumptuofo tabernáculo de jafpes, 
cm qjie hoje efíà colocada com muyto mayor veneraça õ, & 
culto^que íkantcsv EjQe Prelado reparando em <juca Ima- 
gem 



Livro I. Titulo L . 1 5 

gem porantiquiífima eflavajà com alguns imperfeiçoens, 
aífim nas mãos > como também no roflo (porque era de ma- 
deira, & tambtm de roca , & de vertidos) mandou de novo 
fazer outra Imagem de excellentiffima efcultui a >& com 
grande perfeição eflofadã,que colocou emfeu lugar ,&. 
enterrar a antiga: a qual também fe pudera reparar, Reen- 
carnar de novo ,pois merecia pela fuamuyta antiguidade 
a confervaçaõ. Mas naõ fe reparou niílo, merecendo eíte 
matéria grandes reparos , como fevio em alguas Imagens 
cm que a Divina Providencia ,com as renovar milagrofa- 
mente ^moíirou fenaô obrigava de fen elhantes zelos. A 
nova Imagem he de rara íerrrofura , tem em o braço ef- 
querdoo bello Infante Jefus y & na mão direita fiua Pomba 
branca. O motivo que ouve para fe lhe por nas mãos a efla 
Senhora a pomba , & fe lhe dar o titulo da Pombinha fe 
ignora , poderia bem fer, para declarar aquelles epítetos, 
com q o Divino Efpofo a trata , denominandoa de fermofa 
como a pomba, & de que o feu animo era fantiífimo,& fím- 
pliciílímo : Columba me a immaculata ;wed;&deque afua Cánt.fl 
modeflia era toda foberana, &mais que Angélica, & que 
com elíafc exaltava mais afua fermofura: <gvampulchra Ctm.%} 
es arnica mea, quam pule hra zsloculi tui colum bar um. 

He efla Santa Imagem como fica dito, deexcellente 
efeultura, terá mais de fete palmos a fua eflatura. Eftá co- 
locada dentro do referido tabernáculo , obra moderna de 
ricos jafpes revertidos, ornado de columnas vermelhas,, 
que parecem porfidos ,oc eftá euberta para mayor venera- 
ção, com cortinas de damafeo carmeíim , franjadas de 
ouro. Fica efla Capeíla contigua à Capella mayor, da parte 
daEpiítola., & em paralelo da Senhora de Betancort P que 
eftá em outro femelhante, & correfpondente tabernáculo, 
Sc eflá tambemeercado em roda de huas grades de bronze, 
para mayor vencraçaõ>& refguardo, & de obra primorofe^ 

« TITlf- 



i6 Santuário Mariano 



TITULO II. 

Da Imagem de N. Senhora ia Ajfumpçaõ ,titular d& 

CathedraL 



c 



Elebra a Igreja o. Myflerio da AíTumpçaõ de Maria 
Santiffima com u Euangelho de S.Lucas , que diz > que 
entrou Chrifto errthumCaítello, aonde myfticamente fe 
reprefentaõ dous myfterios, o primeiro da Encarnação do 
Filho de Deos, & o fegundo, peia eleição que o Senhor fez 
de Maria Magdalena > myflicamente fe reprefenta também 
o myfterio da Affumpçaõ de fua Mãy fantiílima : que fe en- 
tenda pela entrada de Chrifto no Caftello a Encarnação 
La^ do Verbo Divino , o diífe o Doutiffimo Lacerda : Ingrejfus 
A ff r \ ifie fymbolwn , & timbra ef? ingredientis Fili] Dei in nf&* 
e M' m Ywn \nrginis \ & que pela eleyçaõ de Maria Magdalena , fe 
mmaí entenda o myflerio da AíTumpçaõ , o di Te Guarrico : Hoc 
ufum de Maria for ore Martbai fcriptwn ejl ,fed bodie vi Maria 
cone n. matre Dei plemus , &fan£tius impletum etf* A diferença 
.123. que ha neftes dous myíkriosj he, que o myflerio daEn- 
s carnação, he o primeiro da vida de Chriflo , & o myflerio 
j e * da AíTumpçaõ he o ultima da vida da Senhora. A Encarna- 
j4fsHpt. Ç a ^ ^ e ° principio da vida de Chrifto, & a AíTumpçaõ o fim, 
& a coroa da vida de fua fantiílima Máy. Nomyfterio da 
Encarnação vemos ao Filho de Deos defcer : Deícendit de 
Crtlis j & no da AíTumpçaõ vemos a Maria iiibir : ^jiafi au- 
rora confurgens. No primeiro vemos o que Deos fe hu- 
milha: HuniliiYit ícmrt ipfum ; no fegundo myflerio da 
AíTumpçaõ , vemos o que a Senhora íe levanta: Exaltata 
eB fantta ©■>/ ge nitris ; no my ííerio da Encarnação , vemos 
aoCreador unido àCreatura: Homo íaBus cst ; & no da 
AíTumpçaõ da Senhora, a Creatura unida ao Creadoí: Ma- 
|p • ria 



Livro I. Titulo II. 27 

ria Ytrgo affumpta eji ad áitrium talamun), in quo Hex re- 
gumflelatofed folio. A confonaneia que a Igreja lhe achou, 
para nos propor, foy o muyto que a Senhora fubio , & para 
iíio nos manda confiderar oqueDeos defceo; porque fó 
pelo muyto que Deos defeeo na Encarnação, fe pode medir 
o muyto. que a Senhora fubio emfua AíTumpçaõ. Como 
dizendonos , quereis ver o muyto que Maria fobe ? pois 
confiderai o muyto que Deos defce. Ií)6 baila em graça da 
feftividade da Senhora da AíTumpçaõ <Je que agora trata- 
mos. 

A Sé Metropolitana de Lisboa , que alguns querem 
fofTe edificada no tempo dos Rcys Godos, & pela mefma 
traça do Templo de Santa Sophia, de Conftantinopla - } 8c 
queferviíTede Mefquita mayor aos Mouros (quando erao 
fenhorcs da Cidade de Lisboa) fundou ElRey D. Afibnfo 
Henriques. Aflim o diz o livro velho dos óbitos da mef- 
ma $è> fallando delRey D. Affonfo. 

Idibus 'Decembris fub. &MXCXXU. obijt lllu- 
ttriflimus Rex ^ortugaltum V.Alphonfus an.Vttrtfu* 
78. regni Vero ejus ç& qui inter plura milttia gefia 
Civitatem bane apoteftateSarraccnorum eriputt 3 & 
operis Ec define ad honor em T)ei > & S- MarU V. re? 
gali munificentiá extitit fundator , &faãor. 
Elle mefmo mandou fazer a Imagem da Rainha dos Anjos, 
que he a Senhora, & titula r da mefma Sè, que fe colocou em 
o Altar Mór, que tem o titulo da AíTumpçaõ (como as mr<is 
Cathedracs de Portugal) &fe então naõ era denominada , 
mais que com o nome de Santa Maria, teve o titulo da Aí- 
fumpçaõ mais expreífc do tempo delRey D. Jcaõ o Primeiro 
para cá; em cujo feynado , foraõ dedicadas tpdas as Cathe- 
dracs aefte myíterio,nosnnode 1394- porconceçaõ de 
BonifacioXI. em memoria da celebre vitoria de Aljubar- 
rota., alcançada em 14. de Agoflo de 15 85- na vefpora da 
admirável AíTumpçaõ da Virgem Maria, 

Aeíla 



1% Santuário Mar iam 

A eíla Santa Imagem tinha õ todos naquelles tempos 
grande devoção. Alguns querem , que a Imagem que hoje 
vemos em o melmo lugar ào Altar Mór,fcja outra diíferen- 
te da primeira. E a perfeita efcultura com que he obrada 
o períuaie : mas como o meímo Rey D. Affonfo Henriques 
a mandou fazer, feria tal vez a Flandes, aonde hayia excel- 
lentes efeultores; porque verdadeiramente o defumado da 
encarnação , & o embaciado do eíiofado delia , indicaõ 
muyta ancianidade. Também lemos q aCapellaMór da- 
quella Sê, fearruináracom hu terremoto, &q a reedificou 
ElRey D AíFonfo IV. &a Rainha D. Brites fua molher, que 
nella jazem fepultados einlevantados, & foberbos Maufo- 
leos de pedra, à parte do Euangelho:5c entaô podia bem fer, 
que a primeira Imagem tiveffc algum perigo, aíTentando fer 
efta Imagem de diferente da primeira o que não creyo,fe 
naõ ler eíta a que mandou fazer ElRey D. AíFonfo I. & que 
neífe tempo fe mandaífe fazer a que hoje veneramos. Tam- 
bém invocaõ a eíla Santa Imagem, com o titulo da Senhora 
da Efcada, fem faberem dizer acaufa, porque affim feja; 
períuadome , que appareceriaalgíía vez ao beraphim An- 
tónio emaefeada docorô,aondeclIe(comoaffirma a tra- 
dição) como dedo formou hua Cruz , que alli veneramos , 
& reconhecemos por fua. 

A devoção que o gloriofo Santo tinha aeíta Senhora, 
foy muyto grande , ôede menino a amou, & venerou como 
a mãy muyto fua ; quando era menino do coro daquella Sé. 
Com eila converfava , & tratava ,5c ailim mereceo que a 
Senhora lhefizeífe muytos favores *, & naõ a Senhora de 
Eetancort, como erra lamente dífferaõ alguns: porque efta 
Senhora he muyto moderna, pois foy colocada naquella 
Igreja no tempo delReyD Manoel. Cornélia teve tam- 
bém muyto gran le devoção outro menino do coro damef- 
ma Sèj elte foy o Padre D.Francifco das Neves, Cónego da 
Congregação de Santa Cruz de Coimbra > Religioíò de 

íànta 



Livro L Titulo III. 2$ 

fantavida> que à imitação do gloríoío Santo António de 
Lisboa ^depois de fer moço do coro, foy também a tomar 
o habito ao Convento de Sam Vicente de fora. Da Senho- 
ra da Aííiimpçaõ>efereve Jorge Cardofo em a vida de San- 
to António tom,^. pag. 678. & navidadoPadreD.Fran- 
cifco das Neves, tom. 2. pag. 3-28- A fagrada Imagem he 
grande , terá oito palmos. Eftá eolloeada em hum nicho y 
no meyo doretabolo do Altar mór , & tem o Menino Jefus 
nos braços >& affim a Senhora^como ofoberano Menino^, 
tem ricas coroas nas cabeças* 



TITULO HL 

Da antiga Imagem da Senhora da Jluietaçam da 
mefina Sè* 

D Amos os peccadores a Maria Santiflíma ,0 titulo d# 
Qmetaçaõ j> porque el!a he onoffo focego 7 & o def- 
canço>& alivio dos nòlfos trabalhos ; porque iflo íignifie» 1 
a palavra latina: Sjitesy como lemos no Levitico ^aonde fe 
à\7;.T)i?s feptimus rfuiaSabbathYequtes efiy.Vncabitur San- 
ffus. Efie Sabbado > diz Joamde S. Geminiano >t he figura 
da Scnhorx ? porquciSeataYirg<}totacjuietafukjper metf- 
tts abftraãionem , & difcurfibusVacationem , wide-, & ti 
attrtbuitur Sabbatum yipiodeft dies quietis; ou também pele 
focego, &quieraçaõ>que a intercefTaõ' da Senhora cauía 
em os íeus devotes; ou por fer defeanço de Deos : Requte- 
\ut in tabernáculo mer. Diífe a mefma Senhora ^ou como 
lhe chama Alberta -Magno .-: Ibfa eff tbalamus diluiarum 
De>. 

Sam tantas as Imagens da May de Deos , que fevene- 
raõ na Cathcdral de Lisboa ^ que ál«m de ter treze Ca- 
pdlas dedicadas a vários myííenos feue^fóra ceíras, ainda 



$0 Santuário Mariam 

fe conta hum grande numero ; porque lo no Altar de Santa 
Anna, que fica no lado docruzeiro da parte do Euangeího, 
eftaõ três. A primeira noíía Senhora do Carmo, a íegunda 
noffa Senhora da Conceição, a terceira he a Imagem da Se- 
nhora , que fua May S. Anua tem nos braços , con\ o Meni- 
no Jefus no£ollo. Todas citas Santas I magens, faõ de ma- 
deira eítofadas. Junto a efia Capeila eftá outra , reedifica- 
da ao moderno, de jafpes revertidos, obra de grande curto, 
& perfeição. Nella fe venera outra Imagem de Maria San- 
tiílima muyto antiga, com o titulo de N. Senhora da Quie- 
tação. De fua origem não pude deícobrir nada ; porque 
como he muyto antiga, não ha noticias de feus principíos. 
Eftá aífentada, com o Menino Deos no regaço ; moftra fer 
de madeira, & de talha, fem embargo deeftar adornada de 
roupas ricas , com toalha , por devoçam dos que a fervem; 
na cor he trigueira., & nella fe reconhece mais a fua muyta 
ancianidade : mas eftá tam fermofa , & belía , que o mefmo 
tempo confumidor, podia dizer: Et macula non ef? inte. 
Com a fua mageftofa fermofura , infunde grande refpeito, 
& reverencia > nos que a contemplaõ. Tem féis para fete 
palmos deeftatura, &he fervida, &bufcada com grande 
veneração, pelas maravilhas que obra. 



TITULO IV. 

Da Imagem de noffa Senhora dos Martyr es , primeira ?a- 
roebia de Lisboa. 

fíym. r^i Oronaria certautitrn , chamão os Gregos a Maria San- 
Gr*€. \^ tiílima, acudindo aqieVas Matronas, que colmmavaõ 
apud. tecer capelias , &: grinaldas de rofas aos vencedores , a 
***** P* quem o Poeta Ftaco chamou : Corona opifices ; & deixando 
a *' as muy tas coufas que deftas coroas efereve Paíchalio lib.2. 

coron. 



Livro I. Titulo IV. 31 

ccron. d*. Convcm muytoefle titulo a Maria Santiffima, 
que es Gregos lhe attribuem. Porque áquineíle mundo, 
aos que varonilmente pelejaõ pela Fè, & padecem] pelas 
virtudes , tece efia Senhora coroas alcançandolhe animo, 
valor, & fortaleza ; para que faindo vencedores , mereçaõ 
as coroas. E afllm chama o Doutor Seraphico a eíla divina 
coronária: Confortâtrix Martyrum, porque he Maria San- Tom. i% 
tiflima a que os anima, & conforta a merecer, as coroas *P*fi*h 
do Martyrio ; & a alcançar as palmas de vitoriofos , & for- h h 
tiffimos guerreiros; & por iflb lhe damos o titulo da Se- 
nhora, & de Rainha des Martyres. 

Ji fca affentado no titulo primeiro, em que havia de ir 
defere vendo (nefles meus Santuários ) em primeiro íug ar, 
osm^is antigos comeflando pela cabeça de cada huadas 
Dioceíis ;& depois paffar aos das mais terrns Dioceíànas: 
& por i(To naõ deferevo outros da mefma Igreja Ca the- 
dral, refervandc~os para mais adiante, por ferem mais mo- 
dernos j&aflim continuarey pelos outros mais antigos da 
Cidade, dos quaes o primeiro que fe nos oíferece, he a cafa 
deN. Senhora dos Martyres., primeira Freguefía de Lis- 
boa , depois de fua ultima recuperação , & reílauraçaõ do 
Bárbaro, & Maometano poder. 

Allentadoo Santo, & invi&o Rey Dom AfFonfo Hen- 
riques com as grandes, ôcgloriofas vitorias, que o Ceo lhe 
havia dado, contra os inimigos da Cruz de Chrifto ; affen- 
tou coníigo fitiar a grande , & popuíofa Cidade de Lisboa, 
cabeça, & principal povoação doReyno Português, & 
como Príncipe tam fanto, & Catholico , que fó attendia a 
m yor honra, & gloria de Beos, & ao dilatar a fua Fè, con- 
fiado em omefmo Senhor que o havia de ajudar emfeme- 
Ihante empreza , ajuntou com grande deligencia as fuás 
gentes, para efteeffeito; & o Senhor lhemoílrou logo 6 
muyto que fe pagava, dos feus piedofos intentos; porque 
eftando em Cintra, coníiderando o modo da fua expediçaG 

todo 



3 z Santa arfa Mariano 

todo perplexo , porfer aempreía árdua; tanto ,como era 
expugnarhua Cidade tam populofa,-& tam guarnecida de 
gente , alem damuyta que fe lhe havia agregado , afllm de 
Santarém , como de Leiria , & outras te :ras. Quando re- 
pentinamente defeubrio em o Mar Oceano huma muyto 
grande, Sduílrofa armada, cujas nàosvinhaõ adornadas 
de bandeirascom cruzes vermelhas em campo branco: En- 
tre a admiração, U o alvoroço , mandou aos íeus Capitães 
que reconheceífem a armada , &: a gente que trazia. Tive- 
raõ por re pofla , que vinha das partesdo*Norte , & que era 
gente de guerra, que hia emfoccorro de PaleíUna, a pele- 
jar contra 05 Mouros , que offendiam aquelles fantos lu- 
gares; & que o General da armada era Guilleímo de Longa 
Efpada , irmão do Duque de Normandia , & Rey de Ingla- 
terra^ em cuja companhia vinhaõ muy tos Príncipes, & Ca- 
valíeiros* 

Animadas as efperanças, 5c os fantos intentos do noíTo 
Heroe Português , lhe mandou rogar oquizeíTem ajudar, 
em hua empreza tam fanta ,como a que elle intentava , que 
era fítiar,& tomar Lisboa aos Mouros, porque fe achava 
cem pouca gente para oscombates ; por quanto os bárba- 
ros fe haviam fortificado nella,& juntado as gentes, que 
haviam efcapadp de Santarém , & de outras muy tas partes: 
& cria, que nefta occafiao os trazia Deos , paraconfegui- 
rem deites hua grande vitoria. Como aembaixada era tam 
pia,&tamjuftificada, afieítáram aoccaíiam,& prometerão 
acompanhar a ElRey, debaixo de alguas condiçoens. Com- 
punhafe a armada de cento & feífenta nàos, & trazia treze 
Môn. m y homens de peleja , fera a marinhagem. Defembarcá- 
Lbj&í rão, & tonando por fua conta a parte cccidental da Cidade, 
£ r £ aíTentárâo nella o feu ArrayaL Brandam na fua Monar- 
ca;. '3. chia,&Cardoíb no feu Agiologio dizem, que no tempo 
pag. do íitio, fundara ElRey D. Aífonfo nefla parte , a Igreja de 
32 3. N- Senhora dos Martyres , em louvor da mefma Senhora, 

para 



Livro I. Titulo IV. 33 

-pára a obrigar a lhe dar vitoria contra os inimigos da Fè, 
&para nella fc enterrarem os mortos que acabavao nos 
conflitos; & que eíte fora o feu pio , & cathoíico fim. E de- 
via fer iíto fomente alguma Capdlinha junto ao exercito 
que fe havia benzido, para feputtura dos mortos. 

Ecomo os Eíirangeiros também eraõ muyto devotos 
<3a Virgem Maria noíia Senhora , fe he que elles não deram 
o titulo àCafa, elles foram os que collocáraõ logo nella a 
Santa Imagem ; porque elles a traziam de Inglaterra m fua 
rmada , com outras Imagens , como a de Sam Leonardo, 
que ainda hoje fe venera, na Igreja Matriz da Viíla de 
Atouguia ; & aígfias relíquias , como o affirma o noífo Fr* p , 
António da Purificação em a fua Chronica, De forte que a 
Senhora (digamolo aííim) de Inglaterra, veyo com eík íoc- 
corro, para que ElRey D. Aífcnfo reliituiife aquella nobre • 
povoaçárn, ao cul to, & à Fe de íeu preciofo Filho, da qual 
a havião a ppartado os Mouros, em caíHgo dos peccados de 
feus habitadores. E com eíla foberana Auxiliadora , quem 
podia duvidar da vitoria? 

Com tanto zelo andava ElRey nefta matéria , que logo 
fez erigir aílim eíla Igreja, como a outra em o feu quartel, 
que ficava para o Oriente, fazendo voto de fundar aílim 
cite como no outro lugar, dous Moíteiros , feDeos lhe 
deífe vitoria- Affim eíla Igreja da Senhora dos Martyres, 
como na outra, que dedicou a noíia Senhora , & ao gloriofo 
Martyr Sam Vicente, fecelebravão os Divinos Òfficios: 
Qual foífe o primeiro. titulo , que a Santa Imagem tinJfe, 
naõ íèrá fácil de íabír. O dos Martyres fe Ihepoz; porque 
ediícando-fe a Igreja , para que nella fe pudeífe dar fepul- 
tura aos Chriflãos (lègundo o.Ritu da Igreja Catholica ) 
que em íêr viço damefma Igreja, & em obfequio da Fe acâ- 
báraõjjulgandoíc aefles taes por Martyres, fe denomi- 
nou dalli por aiante a Igreja , com o titulo de HDffr Senho- 
ra dos Martyres. E come/te mcfmo titulo itnpoíio I Santa 
Tom. I. C Lundus 



34 Santuário Mariano 

Imagem, começou elía a fer venerada , & bufada dos ChrL 

£&os, em fuás neceílidades. Pio IV. na Eulla que paíTou no 

snno de 1561. faz mençsõ da Senhora dos Mrtyres^& 

diz, que a fua Igreja fora fundada fobre o langue dos Mar^ 

tyres. 

Em vinte &hum de Outubro, dia dedicado às Onze 
mil Virgens , com as ciíaes tinhaõ aílim osEfirangeiros, 
como ElRey, grande devoção , fe deu hum combate tam 
grande, & porfiado, que naó podendo jà os Mouros fofrel- 
lo , fe cuveraõ de render ; & em acçaó de graças por tam 
iníigne vitoria., & cm que morrerão dos Mouros duzentos 
mil, reconhecendo o piadofó Rey, que a Senhora fora a fua 
benigna. Auxiliadora, mandou continuar, ou dar principio 
às obras da Igreja, & Convento de ríoífa Senhora dos Mar- 
• tyres ; que logo erigio em primeira fregueíia D. Gilberto > 
(aquernElRey havia eley to Éifpo de Lisboa) como fevè, 
deíla inferi pçao, que eílá na pia, que ainda hoje fe confer» 
va naquella Igreja: 

MH a he a <Pia em que fe bantifou o primeiro Cbrijlao 

nefia Cidade , quando noanno de 1*47. fe tomou aos 

Mouros. 

Neíla fe fcpultéraô todos os Chriftãos , que em deffenfa da 

Ff acabarão a vida , cujos oífos, ainda hoje fe confervão 

neiía,comode Martyres debaixo do Altar das Almas com 

muy ta honra , & veneração. E deíks podemos applicar a- 

jípocíiL quelle lugar do A pofíolo S.João: Vidifnbtus altar e animas 

*• pitcrfeãorum. O cerco (naopiniam de alguns) começou 

em 1 3 . de Mayo; mas na opinião de muy tos , que íègue , & 

refere Cardofo no feu Agiologio , he que começara cm 28. 

de junho vef porá dos Apoítolos S.Pedro, &: S.Paulo. 

Depois que ElRey fe vio pacifico, fenhor da Cidade y 
tratou de dar (como fica dito) fatisfaçaó ao voto q havia 
feito, de edificar dous Mofteiros naquelles dous lugares, 
c|ue havia mandado benzer para Cimiterio, dos que glo- 

riofa- 



Livro L Titulo IV. 35- 

riofamente havião dado as vidas em tão fanta guerra. Para 
iflo convocou o Arcebifpo de Braga D.João Peculiar, foos 
mais Bifpos, & fenhores feus vaífallos , que o acompanha- 
rão; & dandoíhe conta do voto que havia feito, & de como 
intentava da rlhe logo inteira fatisfaçaô , lho approváram: 
íignificandolhe feria obra muyto grata a Deos , &: de gran- 
de credito à ília peífoa. Affentado ifto nefta forma , man- 
dou ElReydifpor tudo o que era neceífario para cfte fim» 
Mandou logo abrir osalicerfes para os dous Conventos , 
&difpor as plantas em forma, que oscimirerios ficaffem 
dentro das Igrejas. Lançoufe a primeira , & fundamental 
pedra da Igreja com muyta alegria % aílim delRey como dos 
Eftrangeiros , Prelados , & mais Senhores , & fe lhe deu o 
titulo referido,, pôr devoção dos Eftrangeiros ; por julga- 
rem piamente ^ que todos osfeus companheiros, que alli 
haviaõ dado as vidas, & eíhvao fepultados naquelle lugar, 
dcvião fcr tidos por Mar tyres, pois pelejando pelo nome de 
Chriffo y& péAa exaibcao da íua Fè , havião dçrramado o 
Tangue, pelejaiidocontra os inimigos delia > fem mais eíli- 
pen::Uo, que o de dilatar amei inaFè, & procurar a íua 
mayor honra & gloria. 

Dizem os Autores, qie com grande cuidado-, & dili- 
gencia •, mandara EiRey continuar -com' a obra dos dous 
Conventos ;fe"m embargo <5eque arnim fe me reprefenta^ 
que neíte da Senhora dos Marty res fe iria mais lentamente. 
Deu também ElRey conta de tudo a Eugénio III. que então 
prefidia na Cadeira de S-' Pedro, & lhe pddio a cònftrnwção 
para o novo Bifpo de Iiísbaa D. ©liberto V& a approvaçan) 
dos dous Conventos, o que o íôntince eílímóu, mandando 
logo hfia, & outra confirmação; Pára habitador c&do Mo- 
íieiro de noíTd" Senhora dos xMàrtyres , toy de padecer o 
Bifpo D. Gilberto, fe puzeffem nèlíe os Clérigos que vie- 
raõ riaaímad i; r> ^vm<t vinhaõ -íifella mUyfos íbgcííos de 
grandes letras r ^^rnvck^&cpè^dreftíi Igreja ífer áífi 

C z we 



36 Santuário Mariano 

que eflavão fepultados os Eftrangeiros , tinhao eíles na 
preferencia mayor razão. Abraçou ElRey o parecer do 
Bifpo, & affim aos Clérigos Eftrangeiros fe deu a Igreja, & 
Convento, que devião perfeverar nelle pouco tempo, com 
forma de Communidade, & de Religião : porque, como re- 
fere o Padre Fr.Manoe! da Efperança, jà no anno de 1 2 1 7. 
naõ havia memoria de taes Clérigos , que viveffem regu- 
lar mente ,. & fó confiava fer hua das mais antigas Paro- 
chias. E da fundação do Convento de S. Francifco da Ci- 
dade (que nefie tempo devia ter feu complemento o voto 
dofanto Rey D. Affonfc) confia não haver alli, alem da 
Igreja de noífa "Senhora:, muytos edifícios ,.& que o fitio 
crão huns montes livres, &defocupados, & fó perfeverava 
a Igreja da Senhora, ficando tudo tao unido, que as Igrejas 
efi aã encoflada s h ua a outra. E o Convento de S«Francifco 
fecomeflbu no anno affima de 121 7. cem o favor delRejr 
D. . AfFonío II. & foy ampliado depois pelos Reys D. Ma- 
noel, -&D. João III. ElRey D. Manoel, porque reedificou a 
Igreja;- & como era tam generofo , queria que a fua edifica- 
ção íe.extendt íTe muy to mafa , 5c (forno a cafa da Senhora 
dosMartyres lho impedia, intentou mudala a outro fitio, 
para que affim dçzembaraçado o terreno, ficaffe a Igreja do 
Convento de S.Erancifco mais grande , & magefiofa. Para 
fazer, efta mudança tinha jà licença, como ftvè de hum 
Breve de LeamX* que refere o mefmo Efperança. Mas a 
Senhora, que efiava muyto paga daquelle lugar, parece o 
impedia > movendo Deos aos; Religiofòs o encontraírem > 
com dizer a Elftey, lhes bafava o fitio que tinhao. E tam- 
bém o mefmo Rty confiderando melhor o negocio, defiftio 
do feu intento> porque a Senhora fe não offendeífe; ou por- 
que fenão perdeífe a memoria ,. de que daquelle fitio havia 
â Senhora ajudado aos Çhriftãos , a defiruir aos inimigps 
daFè» O certohe^que a Senhora: amava muyto aquelle feu 
pitmçiro domicilio 1 & affim: 0iaãaquiz defemparar y para 



Livro L Titulo IV. 37 

que viveílc perpetuamente na noífa lembrança aquelle 
grande beneficio. 

Também perfeverou efte Templo em fregueíia atè o 
prefente , cuja Dedicação fe celebra aos 1$. de Mayo , & 
nefte* ; dia vay aquella cafa^todos osannosemprociffam) 
o illuflrc Senado de Lisboa , & o nobre Cabido Metropoli- 
tano em ac cão de graças à Senhora dos Martyres , por fer 
tradição, q naquelle dia fe puzera o cerco a Lisboa ; porém 
não parece fer efla a caufa y mas a de cair nefte dia a Dedica- 
ção da Baíilica de noífa Senhora dosMartyres de Roma, 
que mandou purificar Bonifácio IV. (que era atèentam o 
celebre Panteun , aonde eraõ honrados pelos Gentios to- 
dos os falfos deofes) Scconfagrarà honra da Virgem Ma- 
ria, & de todos os Martyres, imperando Focas. Outra pre- 
rogativa tem eíla Parochia \ & he , que por a mais antiga , 
celebra de tempo immemoria! afeita do Santiííimo Sacra- 
mento na vefpora de Corpus Chr ifti, eíiando o Senhor pa- 
tente. Cada vez mais fe foy augmentando aquella cafa , & 
no anno de 1602. fe reedificou, & ornou de excellentes 
pinturas, íègundo moílra o letreir o feguinte > que tem fo- 
bre a porta principal 

Templivn dicatum Deo ? Vaque Matri in gloria 
Martyrum, anno Domini \\\y % quoà tembus edax 
triVefatiCbri&iaytàpietas retfauravit. Anno \6oz. 
Nefles no Tos tempos ha fido nviy to mais mageíbfa,&: rica 
outra reedifeaçaõ, como vemos emhua novaCapdíarna- 
yor, tam magnifica que fe diípendéraõ nel!a mais de íínco- 
enta mil cruzados , & ainda a piedofa devoção dos Irmãos 
do Sacramento, por cuja conta corre a deípefa, não. fez 
termo na fua liberalidade, antes com novo fervor , & com- 
petência fanta vay continuando em augmentar \ & enno- 
brecer aquella cafa da Senhora, dos Martyres. Eiiá collo- 
cada eíla Santa Imagem em o altar mayor } em hua rica tri- 
buna, ck poíta emhum magnifico trono, feito comgrsride 
. Tom, L C 5 áftificio, 



j8 Santuârao Mariano 

artifício ,. & valente efcultura. He a Santa Imagem de ta- 
lha, eflofada ,& fobreella aveíkm de ricas telas , & bor- 
cados. Compoem-na com toalha , a cor he trigueira , mas 
de grande fermofura^&mageflade. A altura he de quatro 
para cinco palmos, &comhav r mais de quinhentos, Sc 
cincoenta annos r que aíii fe collccou ofendo de madeira* 
eflá a sncarnaçam tão viva, ? &: perfeita ,que caufa admira- 
ção. Tem ao Infante Jefus fobre o braço efquerdo, olhan- 
do para a May. Debaixo do Coro fe conferva a memoria da 
reíiaurrção ce Lisboa em hum grande quadro, aonde fe 
vem diante da Penhora, aquelles Príncipes, & Generaes da 
Arir ada dandolhe as graças pela vitoria. Defla Santa Ima* 
gem [azem menção a Chroniei antiga do Convento de S. 
Vicente, Alemão na Vida de Santo António, o Padre An- 
tónio de Vafconcellos, A*i2cephal..2~pag. 449. D.Rodri- 
go da C tinha na hifioria de Lisboa , Viegas na Vida delfiey 
D. Aífbnfo Henriques L 5. Diogo de Teyvel-2, O Padre. 
Efpc rança p. r. Lz*c 5. Erandaõ na Monarch. Lufit. p. j. 
1. 10. c. 1 8. Carcofo no Agiol. Luf. tom. 5. pag. 254» & 
outros. 



TITULO V. 

Da Imagem da Senhora da Enfermaria ^que fe Veneram 

LonVento de Sam Vicente y tk Cónegos Re gtdares de 

N.&rSantojígoJlinbo. 

INtituIou ElRey D. Affonfo Henriques a hua Imagem de 
Maria SantiíITma, que trazia no feu exercito, com o ti tu- 
lo de Enfermaria : fkcommuyta razaô; porque não falta 
efla Senhora em acudir com íumma caridade aos enfer- 
mos •& não fó aos que ainvocáo com merecimentos; mas 
ainda aquelles que os nafí teta* Reparou o doutiflimo Padre 

Sylvcira- 



Livro L Titulo V. 39 

Sylveira em que a Cananea pedindo fau de pá alua filha , 
naõ chamaoe a Chrifto Filho de Deos fe não Jefufili Da- ^ ^ ^ 
Yid\ & diz affim : jftr l/ir?umn netnpe Mar iam confie bit, iU ^ 
ut falutem ,.(? fanicai em baberet. E Santo Antonino d:z* 
Non reperitur ali quem Sanãomm ttaãdjuVare inwfirm- 
tatibus fpiricualibm > & corporalibus ,ficnt r £esita Vifgo Q raUX 
Mana* Sam ]oam Damaíceno lhe chama çj&grottffttihus j e / or i 
medicina. m:tt 

Conquií Sada peío noiTo invitiífimo Rey Dcm AiFonío 'Afarie. 
Henriques a Villa de Santarém do poder dos Mouros no 
anno de 1 147. & deixandoa prefidiada íufficientemente, fe 
fefoiveo em por cerco à primeira, & principal povoação de 
Portugal que era a Cidade de Lisboa 9 como fica dito que 
^eraji naquelks tempos o empório doimndo* St o havia 
fido, & por efta califa defendida dos Mouro.-; com grande 
cui jado, Sc vigilância. Deu principio ao cerco (como tarri- 
- bem jà fica dito) pelos fins domez de Mayo, 011 de junho,, 
•como querem outros domei mo anno^&efcoihcndo para 
íi > & para o feu exe rcito o fitio Oriental da Cidade , aonde 
fioje vemos o Convento de Sam Vicente para nelle aíTentar 
o íeu arraya 1 '; dti>ando (como também referimos acima) 
aos Eímuigeiros no -fitio oppofío da parte do Cccidente , 
aondchoje eftá a Igreja de rioíTa Senhora dos Martyres , & 
o Convento de Sam Francifco^cabeça da Província de Por- 
tugal. 

Começrrâm/edehua ,&ontra parte os combates com 
grande valer; & como os finados eram valentes , rcíumm 
de forte que tóo.faltavaõ mortos & feri los âi parte dos 
fitiadoris- Attendendo ophdoio Rey a que o^eavalícl- 
ros y que cavam a vi Ja em tam fauta guerra > fe lhe dtvhm 
nnytohoiirofo; íepulchros ,ordenoufe afiinaTtm algu-.s 
lugarbs fagrjd^s para eík miniílerio. E côTtimimicmâ® 
eííes íetis intentos cjm o. Areebifpo de Braga D. fozm Pé- 
ediar; lhe kz íagrar dou^ o primam, o d 1 pai te Orienta! 

C 4 J$£É 



4o Santuário Mariana 

para enterro dos Portuguefes;&: o fegundo para os Efirau- 

geiros em a parte Occidental. 

Sagrados efles doas lugares, fez o Santo Rey voto de 
edificar nellesdous Conventos para Religiofos, fc Deos o 
ajudaííe , &lhedeífe bom fuece fio contra feus inimigos, 
como em parte fica referido. 

Ordenou também, fe erigiffe no feu mefmo arrayal hua 
enfermaria de tendas, paranella fe curarem os feridos qi>e 
íahiííem dos combates; como também os enfermos, cJUe 
adoeciam d o exccílivo trabalho daque lie profíado cerco; & 
no fim deila fe levantou hum altar, aonde mandou collocar 
huma muyto devota Imagem da Rainha dos Anjos Maria 
Santifllma, com o titulo da Conceição, ou a que hoje íedà 
o titulo da Conceição, que trazia em fua companhia. E por* 
que eíia Santa Imagem fe poznaquelle lugar, a começaram 
a invecar todos com o titulo da Enfermaria \ fem duvida 
porque iiaõ íabiam outro nome : nem o titulo da Conceição 
era naquelles tempos muy commum,fem embargo de o 
começar a ter dsfti a poucos tempos , experimentando os 
enfermos daquella enfermaria tantas maravilhas, que à fua 
viíiaíeachavaõ repentinamente faôs,& valentes para po- 
derem tornar aos combates : <k fe refere em memorias an- 
tigas, que alguas vezes, fallava a Senhora aos feridos , di- 
2endo!hes:Levantayvos,& ide ajudar aovoííoRey contra 
os Mouros infiéis. E ficavao faõs no mcfmo inftante , às 
vozes dofeu lòberano preceito. Defta Cafa, & Capelía da 
Senhora da Enfermaria faz menção o Papa Pio IV. na Bul- 
k ? que paífou no annode içójjâinflancia delRcy D.Seba- 
fiiam, que lhe pedia concedeífe todas as ir d ulgencias , que 
fe ganham em Roma nafefiadeS. Scbafliam, ao Convento 
de S. Vicente de Lisboa. 

Eraõjà paflados quafi cinco mezes de fitio (fegundo a 
primeira opinião) em que os Chriftaò não fó pelejava© com 
©s cercados , mas com outros muy tos Mouros, que de 

varias 



Livro L Tkulo V. 41 

varins partes , por mar ,& terra vinhaõ feccorrer aos da 
Cidade, obrandofe notáveis acçoens de valentia per huns, 
& outros fitiaderes: mas como os cercados fenão quizef- 
fem render, determinou ElRey com o parecer de Guillel- 
mo de Longa Efpada , General dosEfirangeiros^darlium 
grande affalto com todo ofeupoder, para que afíimefca- 
lando a Cidade , fe entregaíTem os inimigos. Para efte ef- 
feito depois de tudo preparado fe aífentou, que no dia 21. 
de Outubro , dia dedicado ás Cnze mil Virgens , com as 
quaes ElRey , & os Eilrangeiros títthsô grande devoção, 
deífeefte ul timo combate. Neíkdia ao romper da manhãa, 
invocando todos^o Senhor dos exércitos, muytos ano(Ta 
Senhora, outros a Santiago, & S- Jorge , depois de durar a 
combate por efpaço de féis horas , foy entrada a Cidade,, 
com morte de muy tos milhares de Mouros; havendofe ne- 
fie dia todos com notável valor contra os inimigos. Ven- 
dofe os Mouros entrados, Seque não tinhãojà para onde 
recorrer, fe ajuntarão alguns em hum lugar fcrte>&dalli 
pedirão fe lhe eoncedeífern as vidas, que per ellas, lhe en- 
trega ri áo os thefouros, que havia naquella Cidade. Acei- 
tou ElRey o partido, mandando ceifar o combate. 

Entrada a Cidade, mandou ElRey purificar a Mefquita 
mayor, que dedicou a nolfa Senhora, refiituindoa ao Bifpa 
(como Seque havia fido no tempo dos Godos) nomeando 
I iípo delia a D* Gilberto Inglczdenaçaõ, fogeito de gran- 
des virtudes, & letras, & parente dos principaes Senhores 
da Armada ;.moflrando neíla nomeação, quam gratos lhe 
íoraõosfervkos, que neíla occafião lhehavião feito na 
tomada de Lisboa- Concedeolhe parte daquelle defpojo, & 
também da Cidader porem aceitando os defpojos, dimitirão 
a ofíer ta da parte da Cidade : & fó alguns , que fe refolvè- 
raõ-a ficar,.acei tàrsõ algíias fazendas, como forão Chil Ro- 
lim -, D. Lingel , & D. Roberto , & Guillelme, irmãos; aos 
quaesdeu a Azambuja, Almada^ & Atouguia, 

Premia- 



1 4i Santuário Alariam 

Premia los os Solda J os , que com tanto valor ajudarão 
a reítaurar do Bar barifm i aquelia grande Cidade , íe reí®l- 
yeo ElRey (coaahua íolem ie pr^ct Ía5) ir dar as graças a 
Deos,&a ília May Sanciíli m por támgrmle vitoria; dif- 
pondo, que cila havia de íaíiir da Capelia da Senhora da En- 
ferma rh, & que to íe finaUfar na Sè,que ji cíhva purifica- 
da* Foy eíle grande trium pho em 15, d~ Outubro, dia .dos 
Santos Mar tyres Crifpim., <5cjCrifpiniano ? aos quaes tam- 
bém invocavão por Patronos da mefma Cidade; & concor- 
rerão todos os Prelado3,& tod d o exercito com grande ju- 
bilo-, & de voçaõ. Ainda hoje todo; osannosnette dia de 
$fy de Outubro contínua o muyto nobre Senado de Lis- 
boa^ & o illufíre Cabid ^ em ir a S. Vicente a dar as graças 
a noTo Senhor, 5c à Senhora da Enfermaria pela vitoria. 

Deícanfado \\ ElRey dos trabalhos daquelle profiado 
cerco, tratou de comprir com os feus votos, como have- 
mos d';to ; mandou abrir os a T icerfes da Q ifà , & Convento 
de noífa Senho a da Enfermaria , *c S Vicenre Ma tyr ; la- 
vrar as primeiras pedras , queíelrwião de lançai nos ali- 
cerfes; & bentas na foram , q o ordena a Igreja , foy ElRey 
acompanhado de todos os Prelados,& S enhores com gran- 
de jubilo, & alegria de todos, .os que afliiíirão a eíla folem- 
nidade , ao lugar do Cemitério dofeu arny a! , 6c lançou a 
primeira pedra naquella paragem > aonde depois na fabrica 
do Templo, que hoje permanece fe achou com cila inf- 
cripçaõ: 

Hoctemplum MífffioiVtt Rcxfortngalli^ Alfaiftts L 

tnbonorem B.Mirue Viy?vus,& S^^inccntij Mar- 

tyris.xLCcúerhtVccrmhrh fnb.fr a MCbX XXV. 

Delia coiíla íèr edificado aquelk Templo , & dedicado a 

Maria Santiífíma , &. roglpriofoMartyr SamVic.nte. A 

caufa porque ElRey D. Aífonfo dedicou cííc Templo tsm- 

bema S. Vicente, tby, porq íe como trazia grandes delèjos 

de tresiaiu as fiasreli-j ila s do Cabo, que íeiníítula de S. 

Vicente, 



Livro I. Título V. 4? 

Vicente, ou des Cervos 7 cen-o então fe cF-amava"*, queria 
rcrií c prrprrdo esfa ,, serie as pudeffe collccar 3 & ebri- 
gafo, para lhe fazei o favor c.e lhe manifeflar o feu corpo, 
(ejac citando na que He lugar do Cabo dos Corvos , fe nao 
fabiacomcerte.faa paragem^ para o nomear Patrono, &de- 
'fcnfor de Lisboa, como efereve Andredè Refende. 

Poflas as obras dos dous Conventos em termos que fe 
podfaõ habitar, determinou ElRey, que feelegeFem Reli- 
giofos , ou Clérigos de fànra vida , para nelles louvarem a 
noffo Senhor, & celebraremos divinos efficios. Ccnfultá- 
dooBifpo D. Gilberto pcrE?Rey,lfie propez para o Con- 
vento de Sam Vicente alguns lUligioíos Preironflraten- 
fesquecomo feu AbbadcGua!tero h avião vindo de FJ an- 
des na Armada y & na rr.cfrra nào em que elle havia vindo^. 
por ter experiência do trato , que com elles tivera na via- 
gem, ferem Reli«*ofos de muyta virtude, & religiam. Eítes 
foram m primeiros CapellaCs ,que a Senhora da Enferma- 
ria tevej&eflesforaõ os que por alguns annos habitara©^ 
aquelle Convento, atèque os Cónegos Regulares de Santa 
Cruz lhe fuftítuiram o lugar y&naõ entrarem clíeslogo,, 
foy pelos cativarem os Mouros, quando vinhão de Coim- 
bra para eíieeffeito. 

Neílanova Igreja começou afer venerada, & fervida 
a Santa Imagem da Senhora da Enfermaria,quehe de gran- 
de fermofura } & mageilade : he de pedra de ançan , & terá 
cinco palmos; eftá collocadahoje em a Capella do cruzeiro 
da parte do Euangelho, £c ali i he muy to venerada de todos r 
osque conhecem a fua antiguidade , & as maravilhas , que 
obrava em outros tempos. Cornélia tinha muyto cordial 
devoção ElRey D. Affoníõ Henriques , & por iífo a trazia 
fempre em fua companhh, & principalmente nasoccaíiots 
de mayor perigo, para que a Senhora o livraífe , &aos feu$ 
de todos os inimigos. Ea Senhora da Enfermaria efere- 
¥tm todos os Chroniflas , Brandão na Monarch. Cardofo^ 

no 



44 Santuário Mar iam 

no Agioíogio Lufitan. tom.^.pag. 234. Viegas na Vida de 

ElRey D. Affonfo, & outros. 



TITULO VL 

7)a Senhora dos Remédios , que fe Venera no Convento das 
Religiofas do Salvador* 



H 

diar,í 



Bem. 



E Maria Santiflima todoonoíTobcm^âctodoonoflò 

remédio : porque não ceifa ella piedofi May de reme- 

[iar , & favorecer a todos : ella he a que continuamente nos 

alcança de feu amado Filho todos os bens > & peias fuás 

máos nos vem da divina todos os no ffos remédios : aflim o 

diz Bernardo; 'Síibilnos *Deus babere Voluit>quodper Ma- 

piçil*** rí ^ mams non tranjiret. Bem experimentarão aquelles 

Nattv. ditofos Efpofos que merecerão asaíliítencias de jeíiis ., & 

Dm. de Maria , o quanto eila pede para com feu Filho , pois na 

mayor neceífi jade em que fe viam , at tendeo ella ao feu re- 

Jdsm médio , logo que aconheceo , dizendo ao Senhor ; Vinum 

Bem. non babem. Sobre que diz o mefmo Bernardo: Compaffa 

fer.i. ejl eorum VerecundU ,ficut mifericors,fi.ut begninijfíma. 

Domi- ^uidde fonte piet at is proceder* t nifi Piei as. Naõ ouve até- 

me. gora, nem haverá quem invocade a eíla Senhora > que naõ 

*'P?ft achaífe logo prompto o feu remédio. Aflim o exclama o 

j^ tph ' mefmo Santo: Sileat mi\ertcoràiam tuam , Virgo Beata , 

&' m Çiquis efl qui inVocatam te in neceffitatibusfuisjibnnemine- 

de^Af.' rit deftiijje. 

fmmp. Depois que ElRey D. AíFonfo Henriques tomou aos 

Mouros a Cidade de Lisboa y tratou logo de a povoar com 
todos os habitadores que ihefoy poffivel, para que nffim 
pudeííem na fúa aufencia reíiftir aos Bárbaros, fe intentaf- 
fem o reíteurala. Começarão a gozar osChrifíãos paci- 
ficamente, o muy toque tem d: r:ga!o aquelk ddiciofo, & 

benévolo 



Livro I. Titulo VI r 45 

terevolo terreno: fahião à caça , quthr,veriamuytana- 
qnelle tempo ,..& hora a outros divertimentos a que os ex- 
ercitava o ceio em que fevião. Hum dia (nãorruytosan- 
nosdepcisdareflauraçaõ)hum fidalgo curiofo da caça fa- 
li io com alguns criados a fe entreter emhua mata(íitiocm 
que hoje fe vè fundado o Convento do SaIvador 3 & entran- 
do no mais eípeffo delia, vío junto a hua palmeira, arvora- 
da hua Cruz, que efíava fixa na terra , & nella pendente a 
Imagem deN.Senhor JcfuChrifto,acuiospèshaviaõ fa- 
bricado as abelhas cem os feus favos , hum devoto altar. 
Eíla maraviihoíà vifla y parece lhe meteo mayor curioíida- 
- de de achar novas maravilhassem que todo dtvoto, & fer- 
\ Vorofo, movido por Deos , começou com fuás mãos a def- 
montaralgíía parte daquella brenha ,& em íir ai também do 
refpeito,& veneração que merecia aquelle Senhor, a quem 
osmefmos animaes femdifcurfoomoflráraõ ter para ob- 
fequiofos fev viços, a que os homens (muytas vezes por 
fenão lembrarem de que deu por ellcs a vida em hõa Cruz) 
lhe faltaõ. Quando com novo gozo , & alegria de feu co- 
ração defeubrio hurra imagem da Rainha dos Anjos, em 
cujos braços defeanfava aquelle Senhor , õ criou os Ceos, 
& aterra. Admirado, & juntamente gozofo, por haver 
defeuberto em o campo daquclla inculta mata,naõ hum,, 
mas dons tefouros, & de tam exceffivo valor , deu a toda a 
preffa volta à Cidade, que naquelle tempo ainda não feria 
coufa muy to grande; & manifeílando a fua ventura, acudio 
logo a gente cem alegria , & aívorofo ao fitio. Quebrarão 
penedos, que es havia naquelle lugar muytos , & grandes,, 
cortarão -arvores, & deixando unicamente a palmeira para 
memoria, tratárr-õ de levantar alli logo hua Ermida^em que 
fe collocaífem as Santas Imagcs, que não feria muyto gran- 
de T . fegundò a brevidade com que fe fez , &■ puzcráõlhc 
por titulo Sam Salvador da Mata- Começou logo o Senhor 
a.obrar infinitos milagres^Sc maravilhas por meyo das fuás 

Imagens* 



46 Santuário Mvriano 

Imagens ,& da de fuaSarniíTima Mny , & por efte rcfpcito 
acorrerrietodooReynoinnumcravelgenteem romaria a 
vifitar aquellas Santas imagens. 

A Imagem da Senhora, que he a que agora pertence ao 
noflò afiumpto, perfeverou na Ermida com o divino Infaiv 
te em feus braços ate o tempo , que as Religiofas lho tira- 
rão, para o terem mais perto de fij & tinfião direito para o 
fazer^ que eraõ fuás Efpoías- Nciia Ermida ftR venerada 
por muy tos annos» E como as maravilhas, que Deos obra- 
va por aquellas Santas Imagens , eraõ muy tas., aíTim íèhia 
cflendendo cada vez mais a devoção da gente , que conti- 
nuamente , em grandes turmas , as vinhaõ venerar. Tam- 
bém fehiao augmentando as e imolas, & com ellas a Caía, 
& oculto das Santas Imagens. Foramfe edificando junto 
à Ermida muy tas cafas térreas , para reparo , & abrigo dos 
peregrinos ; em algõas deflas andando o tempo , fe reco 
Ihèraõ algumas molhe r es virtuofas , & grandes íèrvas de 
Deos, as quaes vivíão com tanto retiro , que lhe chamavaõ 
Emparedadas^ & com tanto exemplo , que a todos edificava 
a fua vidamortificada, & penitente; & foy crefeendo tanto 
a fama de fuás raras virtudes, que cada dia felhe agregavi.Q 
outras; & feofitio das fuás pobres cafinhas dera lugar, 
ainda foraõ muy tas mais, pelo numero grande das que o 
pertendião. Reynando ElRey D ; Fernando, fe fez Padro- 
eiro da Cafa da Senhora hu Fidalgo muy to feu valido , cha- 
mado João Efleves;& também das Emparedadas, as quaes 
ajudava com fuás efmolas , qne eram jà nefle tempo vinte. 
Depois no Reynado de ElRey D. joaó I. o Bifpo do Porto 
D. Joaõ Eíleves , muy to grande valido domeímO Rey D. 
Joaõ, & fobrinho do ou tro Joaõ Efleves, ( efle Prekd J com 
os valimentos, depois de ter aqueila Igreja, & outras, veyo 
a fer Arcebifpo de Lisboa , & depois Cardeal por creação 
do Papa Joaõ'XXIIÍ. ) movidodas grandes virtuds da- 
quellas devotas molhercs* as v tomou debaixo de lua pro- 
tecção; 



Livro f. Titula VI. 47 

tecçí-6;& tamgrrrdeeraocoiiceitoquetinha defuafanti- 
dade ,que cem ofavordelRty alcançou do Papa Bonifá- 
cio IX. licença para fundar naquelle lugar hum Convento, 
-&ferem ellas as fundadoras, & primeiras Religioías; co- 
mo fez entregando-o à Ordem de S. Domingos , no anno 
de 1392. fazendofe íeu Padroeiro, como fe vede hum le- 
treiro, que cila na capella mayor > para a parte do Euange- 
lho,quedizaflim: 

Jgui ja^ o muyto honrado Senhor T>. João EfleVes, 
Arcebifpo de Lisboa-, & Cardeal de Roma , Varão f a- 
bedor % & Yirtuofo. Em Bolonha fokmnifou afepultu- 
ra de Sam Domingos , cm Roma fundou o Mofteiro de 
Sam feronymô > & cm Lisboa efie } em que fe mandou 
fepultar. 
Succedeo o Arcebiípo D. Joaô no padroado afeu tio João 
Efleves, o qual pela grande devoção do Salvador, & da Se- 
nhora dos Remcdios/e tinha feito Padroeiro da fua Igreja, 
& fabricado nella hua Capella para fuafepultura, dedicada 
aoEfpirito Santo, que ao depois fe chamou aCapeilã do 
Cardeal, por refpeito do Arcebifpo Cardeal, q erafeufo- 
brinho, como f ca referido. Continuou o Arcebifpo as 
obras do Convento com grande fervor ;mas aíuaantici- 
pada morte lhe não deu lugar a acabai! as; & fiífimficáraõas 
Religiofas com algum difeomodo atèque a fanta Rainha 
D. Leonor , mulher delRey D. joaõIL (illuflriífima pelaS 
tnfignes obras P que fez nefleReyno, & ce tanto agrado a 
Dcos) fe refolveo a acabar o Convento, & a Igreja ,como 
fezno anno de J458- 

A Imagem da Senhora dos Remédios foy collocada na 
Capella, cue João Efleves, tio do Arcebifpo, fundou para 
feu enterro, & nella cíieve ate que o Arcebifpo edificou. 
a Igreja, & fez o Convento; &: reedificou tambenfa Capei- 
la de feu tio, também para eíla foy outra vez treslacada sú 
Imagem da Senhora, que havia eftado nefle meyo tempo 

entre 



48 Santuário Mariano 

entre as Rcligiofas , as gu^cs lhe Kaviâo tir;do de feus bra- 
ços ao miiagrofo Menino , que parece íênão atreviao a vi- 
ver eufentes da ília viíia^ peio grande amor que lhe haviao 
tomado j&aífim para gozarem de mais perto dafuavifta, 
o coilocáraõ no coroem hum nicho, que fe lhe fez de gran- 
de cuíio. Naõ fe lábia cualfoífeonome d a Senhora: por 
€Ítar*iacapqlla do Cardeal, lhe chamavão a Senhora do 
Cardeal, defde o tempo, que foy coílocada porelienaCa- 
pella. Depois correndo os tempos , foy a Senhoig fervida 
de revelar ah uaReligiofa de íanta vida o feu entigo, & pri- 
meiro nome ; & foy nefia maneira. Havia naquelle Con- 
vento hua Religiofa devotiíTima de no Ta Senhora , a qual 
lhe fazia particulares ia viços, & devoçoens. Eilando eíla 
hum dia no coro em oração, meditando nas excellencias da 
Senhor .-i, &encomendando:elhe muyto,fefoydevando 
de maneira ,quecahioemhum íuave,&eípiruual fomno. 
Parecialhe m He, que a mefma Senhora a deípertava , & lhe 
dizia; A mim naq me cbamao a Senhora do Cardeal ; o meu 
nome he o da Senhora dos Flemedws: di^e que ejie he o meu 
mm , & fttf com elle me búò de iuVcc.tr. 

Deu conta a Religiofa à Priòrcfa do que lhe fuecedera, 
& affim fe publicou , não fó entre as Religiof às , mas entre 
os freguefes da Igreja do Salvador, & daqui a todos os 
mais, Sc todos fe alegraram de que aienKora neila manife- 
ílaçaõdofeu titulo, djeelaraíTe^quc ellahe o remédio em 
todos os trabalhos, & neceffidades dospeccadoresk&de 
entnm até hoje , le chama aquella foberana Imagem, a Se- 
nhora dos Remédios; & todos achão naquella foberana 
piíeina de graças, quando a bulcão, o remédio cm todos os 
ieus trabalhos. 

Em hum d a da feita da Purificação delia Senhora , em 
que as Religiofas a celebravão , fe lhe poz nas mãos huma 
vela , como era coítum" ; elleve aceía em todo o tempo da 
Mida,& Sermão; &d:fcuidandole depois, de iha apaga- 
rem 



Livro 7. Titulo V7. 49 

rem ardeo toda ate a mão , &nella fe apagou : Equ ande 
chegou à mão , (apagado o lume) acudindo a ver ] a acháraõ 
naõ queimada^como de madeira; mas inchada^ com empo- 
las na circunferência da vela , como fe fora maõ de peffoa 
yiva , & naõ maõ de huma Imagem de madeira. Duas cou- 
fas digna s de admiração fe notáraõ neííe fucceíTo ; a pri- 
meira, naõ fe abrazar a Imagem fendo de madeira feca ,& 
muyto antiga; & a fegunda, o acharfe a maõ da Senhora, 
não fó affombrada do fogo , mas inchada nota velmente , & 
cem empolas , como pudera fueceder na queimadura de 
hua pelfea viva. Nefta forma fe confervou eíiá Santa Ima- 
gem por muy tos annos, até que no de 1568. mudandofe 
a Senhora defte lugar , ouve quem comfumma imprudên- 
cia lhe mandou confertar a maõ, (devendo confervarfe a- 
quella maravilha) fufpendendofe comeíte indifereto íèr- 
viço, o milagre que a todos era patente. O que ainda hoje 
tentem as Religiofas com grande dor de feus coraçoens. 

Depois que effa Santa Imagem appareceo , & a jio Se- 
nhor Menino, & a do Salvador crucificado ; foymu^to de 
notar, que havendo tantos annos paffados dofeu apparc- 
cimento, nunca nellas íè viraõ defmayo nas cores ; & na da 
Senhora principalmente, que por eftar mais na terra, aonde 
he íem duvida efraria muytos annos ^ porque fe foy efcon- 
dida pelos -Crmítãos na entrada dos Mouros em Efpanha , 
haveria mais de quatrocentos annos perfeverava naquelle 
lugar, & ainda hoje fevècomhuas cores muyto fermofas, 
refpiandecentes, &frefcas; & as madeiras tam inteiras , 
fans,&incorrruptas,que caufa , admiração, finalmente 
fe cadahúa daquellas Santas Imagens fe acabarão de en- 
carnar, & de fazer^naõ podiaõ parecer mais frefeas, & per- 
feitas, do que ainda hoje feconfervaõ* A Imagem da Se- 
nhora he agigantada , tem alguns íete palmos de alto, he 
de roca , & de veftidos ;o roflo grande * & aboectado , mas 
íermofo ; na face direita tem hum finai grande, & preto, 
Tom» L D que 



jo Santuário Mariano 

que parece foy de eftar encoftada a algum ramo das arvo- 
res, entre que foy defcuberta; & fem embargo de que fe lhe 
fez algfia diligencia por fe tirar ,naõ hc poffivel. Eftá fe- 
cheda em hum nicho de vidraças > & fe não abre > fenao em 
asoccaíioens das feitas, ou por devoção dealgua peffoa 
particular, que pede fe lhe moflre- & afllm eftá com grande 
veneração, & conferto , como he bem que feja. Peta gran- 
de devoção que fempre fe lhe teve a efta Santa Imagem > 
tem no Mofteirohuma particular Confraria. Mas a eftar 
efta Santa Imagem em algum Convento de Religiofos, po- 
dia ferfe lhe afliftiria commuytomayor culto , &-venera- 
çaõ,como fe devia ahua Imagem, que ainda hoje hehum 
continuado prodígio. Os Autores que fazem memoria de- 
ite S. Imagem , faõ muy tos. Delia faz mençaõ o Padre Fr# 
Luis deSoufa p. 2.daChron. de S. Domingos de Portu- 
gal } Fr. Joaõ Lopes na Geral. p. 5 . Rodrigo da Cunha no 
Catalogo dos Bifpos do Porto. P.2.C.4 £. Sor Maria Baup- 
tiftanahift. doConv. do Salvador 5 Fr. Luis dos Anjos,no 
Jardim de Portugal n.89. Jorge Cardofo no AgioL Luf. 
tom. 1 . p.254. 1. c. & outros* 



TITULO VIL 

Htâoria da Santa Imagem da Senhora da^urificaçaõ^on 
da E/cada > junta ao Convento de Sam Domingos de 

Lisboa. 



A 



Efcada por onde todos os homes podem fubir ao Ceo> 

he Maria Santíífima; porque ella com os feus mereci- 

S.Ephr mentos >&i nterce flkõnoío faz patente: affimodiffeSanto 

de laud. Ephrem Çyro: Scala afcenfmque omritum. E affim como efta 

-& % y m 'amorofa May dos peccadores foy a efcada cckftial > por 

onde o foberano Rey do Ceo, humilhado^ abatido defceo 

3LQ 



Livro L Titulo VIL )t 

ao mais baixo da terra , como diz S. Pedro Damião : Scala P*rl 
calettis 3 per cjuam fupernus Rex bumiltatus adima defcen- *? am ' 
dit : affim tambcm he Maria SantiíTima a efcada peta qual o *£'£ f 
homem começando domais baixo da terra, fobe ao mais BK 
altodoCeo. Aflim o diz JoãoGeometra: Scala percjuam j oa '„ s * 
afcendit homo 7 aterra quidem inctpiens ,fed ai Càdumper* ceom. 
tingem. , i* cant* 

A fundação da Ermida de N* Senhora da Purificação Or- 
ou da Efcada, (como vulgarmente he chamada) hetam an- derí h 
liga, que íè não poderá facilmente raílejar com os feus 
princípios* O fer muyto mais antiga efla Igreja que a de 
£ Domingos, naõ tem queftaõ algua* Fica fituada, & unida 
ao Templo do Convento deS. Domingos da parte doEu- 
angelho, quecahe para" a parte do Norte, &tammyilica 
comefte Templo do Convento, que lhfc pudéramos cha- 
mar, ou fegunda nave daquclle lado , ou hua cafa de tribu- 
nas Pveíies: porque das tribunas que tem para a Igreja do 
Convento , affiftiaõ antigamente os Reys aos divinos ofí- 
cios. Ficáeíia Ermida levantada fobre as Capellas, porque 
lheficaõ alguas debaixo, & muyto efjtaçofas. Tem a íua 
ferventia pelo atnodomefmo Templo, & Convento, com 
Ma efcada larga de 7, i . degraos. Do tempo de ElRey Dom 
Affonfo Henriques fcachaõ meonorias da grande venera- 
ção, que ]í lètiftha com a Senhora da Purificação , pelos 
muy tos milagres que obrava. 

Nefla Ermida, he tida em fumma veneração , hua anti- 
quiflima Imagem de noífa Senhora, de cuja origem , & prin- 
cípios fe fabe muyto pouco* Naõ fe fabe fe appareceo na- 
quelle lugar , depois que Lisboa foy recuperada do poder 
dos Mouros; ou íèeílava alli oceulta no tempo delles. 
Chamava-íè antigamente noífa Senhora da Corredoura , 
que devia fer o nome do íitio. Depois fe intitulou noífa Se- 
nhora da Purificação, fem duvida, por fe feílejar nefle dia; 
& nas fuás vefporas coflumava iremprociíTaõ o Senado, 

D 2 &o 



jt Santuário Marram 

& o Cabido de Lisboa â fua Caía. Toda a Cidadezinha para 
com eítamrlagrofa Imagem huacordealdevoçaõ ;&muyto 
particular a gente marítima: entendiaõ,q no feu patrocínio 
citava o ferem profperas, & felices as fuás navegaçoens : & 
como naquelles tempos chegava o mar, quaíià Igreja da 
Senhora, alli vinhaõ a ancorar diante delia os fcus navios* 
para que na fua viíla eíliveíTem feguros* Depois fe inti- 
tulou noíTa Senhora da Efcada , aludindo fem duvida a 
grande y & fermofa efcada ^ por donde fe fobe para a fua: 
Cafa; & converte titulo, he hoje vulgarmente conhecida. 

Querem alguns Autores que efla Igreja foífe a Capclía 
Real-, no tempo em que os Reys de Portugal moravão nos 
Paços dos Eflaos. ElRey D. Affonfo III. tinha grande de- 
voção com efla Senhorâyk abufcaVa muy frequentemente* 
EílcRcy foy o que fundou o Convento de S.Domingos; &. 
por gofar de hua r & outra Igreja > elle feria o que lhe man- 
dou fazer a tribuna que tem para a Igreja do Convento, 
ElRey D. Joaõ L também foy muyto devoto deita Senhora;; 
& pela grande affeiçaõ q moflrava à Cafa da SeríKora iníti- 
tuío a Camcra de Lisboa hua prociiTaô de graças, pela vito- 
ria de Aljubarrota r em dia de S.. Jorge;- na qual levavaõ a 
Imagem do Santo, &fahia da fua freguefia, que fica entre a 
Sè, & a freguefia de Sam Martinho, & hia finalizar na Cafa 
da Senhora da Efcada: com eíle titulaa ndtaea aChronica 
defle Rey. Efía prociífaõ continuou , ate que os Reys de 
Efpanha íoraõ Senhores de Portugal ; no qual tempo elles 
a mandarão fufpender^ & também, a que em 1 4. de Agoflo 
fahia da Sc,& hia ao Convento- de noífa Senhora da Graça- 
OmefmoRey D./oaõ,recolhendofe para Lisboa darViltai 
de Alconchete > donde oaífalteou a ultima doença , de que 
morreo; & fentindo que morria delia, quiz antes de entrai 
em o feu Palácio, entrar na Cafa da Senhora da Efcada a 
drfpedírfe delia r & atomarlhe abençaõ,para com ella; 
fazer a jornada para o;outro mundo* 

ElRej* 



Livro I. Titulo VTL. fj 

ElRey D.Duarte feu filho, & iucceflòr , naõ fe conten- 
tando com as obras que ElRey D,Jcaõ feu pay havia feito, 
íiaquella Cafa da Senhora^ mandou concertar de novo , & 
pôr na grandeza em que hojeeftá,comefmoIa parahuma 
alampada perpeíua,que de continoardeíTe diante da Senho- 
ra. Aqui nefh mefma Ermida , pela grande devoção que 
tinha com a Senhora da Efcada o Infante Santo D. Fernan- 
do , fe conf effou , & commungou , quando ouve de fe em- 
barcar para A frica , & deíla Cafa , & não da de El Rcjr íéu 
irmaõ, quiz fahir paraaembarcaçaõilevantando toda a Ar- 
mada as ancoras para darem à vela , em dia de Santiago d* 
annodei437- 

Da mefma maneira ElRey D. Affonfo V. indo a tomar 
Arzilla, & Tangere_, fe fcy primeiro oíFerccer a fi, & a to- 
da a Tua Armada,a elía divina General dos exércitos. Con- 
feíTou-, & commungou na manhãa de fua AfTumpçaõ 1 5. de 
Agofk>;&<ia Cafa da Senhora fefoy embarcar,, & na mefma 
tarde deu à vela. ElRey D.Manoel mandando fair do Con- 
vento de S.Domingos todos os Frades que nelfe eraõ mo- 
radores, pela morte dos Judeos , que fuecedeo no anno.de 
1506. exceptuou fomente o Frade ,qiie tinha cuidado da 
Caía da Senhora da Eícada. Tam grande era a veneração 
& o refpeko que tinha para com aquella milagrofa Senhora 
ElRey D. Joaõ o III. verdadeiramente pay das Religioens, 
dando hua grande efmola para o reparo do Convento de S. 
Domingos, que quafi todo ie arrumou com os tremores da 
terra , do anno de 1551 ^ teve particular lembrança deík 
Cafa da Senhora, encomendando ao Prior > que namfícaífc 
cila fem reparo, 

O Padre Scbafliaõ Barradas, Religiofo de grandes vir- 
tudes ,era muyto devoto deíia milagrofa Senhora 5 ainda 
antes de entrar na fagrada Religião daCompanhia de Jcfus. 
E orando hum dia, (como diz a Monatchia Luíitana,& Car- 
doío no feu Agiologio) diante defta Senhora, lhe diífe , fer 
Tojtl L D 3 renta^c 



j4 Santuário Mariano 

vontade fua, q foffe aífentar praça na Companhia de Jefus 7 
&neftafanta Religiam foylogo aceito, naõ tendo ainda 
mais que quinze annos de idade ; & tantos tinha deVaraõ 
Santo*, porque de menino refplanckceo cm virtude ,<k en- 
tidade. Sendo Gapellaõ delia Senhora, &Emperatriz da 
Cço, o Padre Fr. Fernando do Cadaval Religtofo de S. Do- 
mingos, decia dos braços da Senhora o Menino jefus, & fe 
punha fobre o Altar, para o regalar > & abraçar, Todas ef- 
tas grandes mercês lhe alcançava aquellaíbberana Senho- 
ra, pela fingular devoção com que a vcnerava,& fervia. Fi- 
nalmente, toda a gente da Cidade de Lisboa, tinha,& ainda 
tem, muyto grande devoção para com a Senhora da Purifi- 
cação, ou da Efcada, (fe bem jà hoje fe vê algum tanto ref- 
inado o fervor da antiga devoção ) & aííim concorre muy ta 
gente àfua Cafa, principalmente, nos dias confagrados 
aos feus myflerios. A Imagem da.Senhora eftá moftrando 
a fua muy ta antiguidade,tem ao Menino Jefus fobre o bra- 
ço direito ; terá pouco mais de finco palmos de alto , he de 
efeultura eflofada , & moílra fer de madeira ', eftá em hum 
nicho noretaholo do Altar mayor, que he obrado ao anti- 
go, & de excellentes pinturas dosmyfterios da Senhora, 
A í rmida he muyto grande , tem dous Altares colaterais. 
Eícrevem da Senhora da Efcada D. Rodrigo da Cunha na 
hifioria Eccleíiafticade Lisboa p.2.044. Faria na Europa 
tom.3. part.$.cap.i 1. Cardofono AgiologioLufit.tom.i. 
pag.6i . livro 9. Souza na Hiftoria de Sam Domingos. O 
Padre Eufebio nosfeusVaroensillufírespag.Çcp. & ou- 
tros rnuytos. 




TITU- 



Livro L Titulo VIII . yj 



TITULO VIIL 

HíBovia da Santa Imagem de nojfa Senhora do Monte s 

hoje Ermida fogcita ao Convento de noffa Senhora 

da Graça de Lisboa. 

PAra a parte do norte da ínclita Cidade de Lisboa fe vem 
três montes, coroados todos com três cafas dedicadas 
aquella Senhora que he monte dacafa do Senhor , prepa- 
rada em o mais fublime , & levantado dos montes. Todas 
íáõ da Ordem de meu Patriarcha S. AgoíKnhoda Província 
de N.Senhora da Graça. A primeira delias he a cafa ? & Con- 
vento defla Senhora, q he a cabeça da Provinda, Sc hua das 
mais principaes da Corte. A fegunda he a Cala de noiía Se- 
nhora de Penha de França ;& a terceira que fica no meyo, 
fie a cafa da Senhora do Monte^ tam antiga , que foy funda- 
da pouco depois da tomada de Lisboa aos Mouros. A pri- 
meiraCaíi que tiverrô os filhos de meu Padre S. AgofUnho 
cm Lisboa depois deíiia recuperação, foy a de S. Cens, 
fundada em om~fmo anno da recuperação de 1 147. em o 
fugar, a que ainda hoje chamao o Almocovar, aonde faõ os 
fornos do ti jollo. Odedicarfe a efte Santo, foy por haver 
ainda alh naquelle lugar hua Ermida fua, ou a cadeira em 
que clle coftumava pregar, & doutrinar as fuás ovelhas. E 
Podia bem fer , ouvefie ainda em Lisboa alguns Chrifíãos a ? 
porq fempre entre eftes Bárbaros ficáraô slgus,em qu-afi to- 
das as terras de Eípanha, como confla das hiltor/as daqucl- 
les tempos. Eíle Santo,' foy natural de Lisboa, & Bifpo da 
m:fma Cidade, &martyrizado nella pelos annps de 353- 
como quer Fr. Francifcode Bivar , comment?dcr de De*> p t2 .L% 
iro f aliando dofeu martyrio: & o deixa atTentado onoFc tmt. 3. 
Purificação na fiia Cbronica. Os moradores de Lisboa , §.<>. 

D 4 .quizeraõ, 



y 6 Suntuavto Mariano 

quizeraõ, por eternizar a memoria dofeu S. Prelado, que 
os Pveligiofos fundaíremnaqiKllefitio-Scnelle perfeverá- 
raòatèoanrco de 1245. 

Compadecida hua nobre Senhora chamada D. Suíana, 
do grande difeomodo, queosReligiofospadeciaõ^ern hú 
fitio todo encovado ,. doentio, &tam diílantc da Cidade, 
que cafíava muy to aos moradores delia o poderemfe apro- 
veitar da fua doutrina como defejavaõj lhe fez doação db 
monte q lhe ficava iminente >& de todas, as terras circum- 
vefinhas a elfc. Para eftcfftio fe paflaraõ,& nelle começarão 
a levantar algíascellas; mas como o fitio era muy to falto 
de agua,.& exporto aos rigores dos ventos -q-alli faõmuyto 
grandes, & no Inverno muytodefabridos , não viviaõcom 
Gonfolaçaô: mas Deos os preveo de outro melhor fitio^que 
he, o de Alrnafala , aonde hoje eftá oGonvento da Senhora 
da Graça. Vinte & oito annos efiivera&em o Monte- Tam^ 
bem efía Cafa teve o titulo de S~-Gens£ & para efta Cafa 
trouxeraõ osRetígioíòsa fua cadeira ^em que elle em fua 
vida fe fentava a fazer praticas aos feus fubditos ; a qual a- 
inda hoje fe \pè no alpendre da Cafa da Senhora do Monte* 

Nefla Cafa r pois^he venerada huadevotiííima, & muy* 
to ralagrofa Imagem de noíía Senhora ,,& de tanta antigui- 
dade,^ me perfuado,.a que }à no primeiro íitio de S. Gens^ 
que ficava emasraizes do monte , da parte do norte; era 
venerada da gente da Cidade ^.& efiariaem algum Altar co- 
lateral; como ordinariamente eítá a Senhora da Graça ;em 
quafi todas as Cafas da Província dos Eremitasde noíío Pa- 
dre S.Agoflinho; & neíTes tempos podia* bemíer^qiie ofi- 
mlofoffeo daGraça ^ououtroque lhe dariaõ os -fieis; o da 
Monte , pela faia em que eílava \ & fe lhe daria por diffe- 
renç a da nova Cafa da Graça. Nefle Santuário, coma- Ata- 
laya da Corte,, (como a intitula,. & invoca o Padre Fr. Ago- 
flinho da Cofia,, em hum Sermão que eílampou no-anno de 
1687*) cila defendendo aquella Cidade, & roubando os 

coraçosnS: 



Livro L Titulo VIII. 57 

coraçoens de todos os que a bufeaõ*. porque he de hCa rara, 
&mageítoía fermofura,, &enchendo-os de graças >&far 
vores. 

He a Imagem da Senhora , de mais de féis palmos de 
alto , hc de veíí idos , & de roca ao que parece ; tem as mãos 
poflas na forma que fe cofluma pintar a Imagem da Senho- 
ra da Conceição; eftà compoíla com toalha, & veftidos,que 
faó de ricas relias jfaõ cortados ao antigo com mangas de 
ponta : a fua fefta , he ordinariamente na fegunda feira, de- 
pois das oitavas da Pafchoa, em que fe feíteja a Senhora dos 
Praferes. Eftá collocadaem humrico trono, dentro de hua 
grande ,& mageíbíà tribuna ,que novamente fe lhe fez 
cm a Capella mayor, obra de g ande eufío,.& de excellente 
architedura , que lhe fabricou o fervor dos feus-devotos-; 
em que fcy o primeiro, (& com liberal mãoj o Contador 
mòr Plácido daCaflanheira ,,aquem fe deve attribuir ver- 
dadeiramente a obra toda „pelo muytoque difpendeo- Ef- 
creve da Senhora ctaMonte , Purificação na2.p.daChro- 
nica da Província dos Eremitas de noífo Padre S-Agoílinho 
dePortugaLl.^.tit,^. §.12.. 



TITULO IX. 

HiJloYtã du Sen hora? d* Oliveira , Ermida em afreguesa 
deSamfulidm.. 

NO adro daParochía de S.juliaõ de Lisboa, para a 
parte do-Sul, & fobre o chafaris, qiíe chamão dos Ca- 
vallos^aflirn chamado por caufa de dous de bronze que allí 
eftavaõ, como o efereve Duarte Nunes deLeaõ^naChro- 
nica # deÍRey D. Fernando, fol.205. que fica em a rua Nova 
dos Mercadores ; eílá fituada a Ermida , ou Igreja de noíTa 
Senhora daX)liveira, que outros querem,fem fundamento,, 



5 8 Santuário Mariano 

feja de Mm Goa falo de Amarante , pprrsfpeito de haver 

eítado m;iyt:r> anãos em o Altar mayòr a imagem deite 

Santo, gue hoje fe vêcollocada em hfia Capella, fronteira á 

por ta, para a parte da Epiíioía. Efta Ermida fundarão , & 

dedicarão a N r Senhora Pedr ^Efíeves, & í ua mulher Clara 

Giraldes naturaes deCuirnaraens. Jorge Cardoíò no feu 

Agioíogio Luíitano diz q elía Ermida havia rrnis de 350. 

7om t annos fora edificada; & fundafe, em que delia fe faz menção 

v. 1 03! n0 ^ vro 2# ^as D°açcens ddRey D- Fernando, que eftá na 

£ç. ' Torre do Tombo. 

Porem eu creyo que efta fundação foy muyto mais de 
cem annos, antes defta era queelle aponta: fundome,em 
que muyto s annos depois da fundaçaõ,fe eregio nefta Cafa 
hu hofpital pelos Eremitas de Santa Maria de Rocha Ama- 
dor, o qual fe fundou muy tos 'annos antes, como iremos 
vendo. Do novo titulo do Hofpital fe começou a invocar 
a Senhora da Oliveira j> Santa Maria de Rocha Amador. O 
primeiro titulo quefe deu á Senhora de Oliveira, foy por íè 
fundar aquella fua Cafa junto a hua oliveira ,qtit havia na- 
quelle íitio \ & os que lhe não fabiaõ outro , lhe deraõ efte 
de Oliveira > que foy tam poderofo , que permaneceo , & fe 
efqueceo o primeiro cj feus devotos fundadores lhe deraõ* 
Ehe de crer > que haveria por aquelle deílríto mais arvores 
defla qualidade, que naõ podia fer muyto povoado, pois 
chegava entaõ o mar naõ fó a Santa Juila , mas a S. Domin- 
gos. A qual arvore ainda per feverou muy tos annos adian- 
te: porque em varias memorias antigas feacha,queohof- 
pitaleílava limado junto á oliveira, como veremos. Eaf- 
fim parece que íè equivocou o / utor da Corografia Porta- 
gueza; porque a Senhora da Oliveira de Guimartns,come- 
çou a ter eííe titulo noannode 1342. 

Também fe chamou cila Cafa o hofpital de Fr.Joaõ. 
Era efle da mefma congregado de Rocha Amador ,& íuper- 
intendente do hofpital ; & por fer peifoa veneranda , &na- 

cuelle 



Livro L Título IX. 59 

quelle tempo cíliirado, per fuás muytas virtudes ,fe cha- 
mava do feu nome, o hofpital de Fr. João: que era omeímo/^ .\ 
que o hofpital do fervo de Deos Fr % Joaô. Do livro da&fil. 6. 
memorias delRey D. Diniz confia quenoanno de 1299. 
dera à Meflre Julião feufobre Juiz , licença para ter hum 
carniceiro nas cafas de Lisboa , aonde chamão a oliveira, 
junto ao hofpital de Fr. João. Tam aíTentado eflava jà o 
nome defte fervo de Dcos,que ainda nas memorias da Tor- 
re do Tombo, fe náo nomeava o hofpiral com o feu primei- 
ro nome. 

Teve principio efta Religião de Santa Maria de Rocha 
Amador no Réyno de França , pelos annos de 1 1 66. Seus 
princípios ferro prodigicfos,(ccmo referirei em feu lugar) 
&coíTíO a Senhora naquclla primeira CafaobraíTe muytas 
maravilhas, & milagres, era muy to frequentado aqueíle 
lugar, de Peregrinos, & Romeiros, & celebrado por todo o 
mundo. Com o grande concurfo que havia de todas as pro- 
víncias do Norte, & de outras apartadas , fe congregarão 
alguns Varoens de virtude , & caridade ; os quaes cregirão 
hofpitacs para os Peregrinos. E crecendo a devoção em 
todas as partes, não fó os Príncipes Eflrangeiros oflerecè- 
rão à Senhora fuás dádivas , & efmolas, para aquelía Cafa 
de Rcch a Amador; mas em feus Reynos admittirão aos feus 
Ermitoens , fundandoíhe cafas, &hofpitaes,emque pu- 
deífem exercitar afua caridade , na cura dos enfermos- E 
em todas as cafas tinhão o titulo de Santa Maria de Rocha 
Amador. 

O noffo Portugal não fcyoque menos fe affinalou no 
grande fervor, & piedade, para com efies Santos Varoens: 
porque nelle fe fundarão muy tos hofpitaes deita Rehgíarru 
A primeira caía que teve nefle Reynofoy a da Villa de Sofá 
noEiípado deCoimbaa, junto a Aveiro, para aparte do 
m:r,<kfoy tam grande a liberalidade ,&adevoção deÍRey 
D.Sancho o I. que não fó lhe fundou a Cafa t mas lhe ãcu a 

Vilk 



6o Santuário Mariano 

Villa gracio r amentc, como fe v.c ceflas^palavras da doaçaôt 
Ecclejid Sanãcí Maft& de Rnpe Amatoriu de Villaqu* Vo- 
catur focia } &frjtribus ibidem T)eo fervientihns ;foy feita 
efla mercê no anno de 1 1 92. Confirmou ElRey efta doa- 
ção com muy tos Senhores, & Prelados, como íè vè na Mo~ 
^•4« narchia Lufitana. Parece que vierão .eíles Religiofos de 
Rocha de Amador na Armada Inglefa > que dous annos an- 
tes no de 1 1 90 . veyo a^ íle Rey no, & ajudarão a ElRey D. 
Sancho, comra oMiramolim de Marrocos, que então en- 
trou por efie Reyno de Portugal- 

Efíamefma piedade de D. Sancho I. imitarão feus fuo 
ceifares; porque também confia que ElRey D. Affonfo III. 
Torre confirmara a Fr. Hugo Prior do Moíteiro , & hofpital de 
AoTom- Sofá de S, Maria de Rocha d-e Amador , a erdade de Mama- 
do /-3* rofa, que fieu irmão ElRey D. Sancho II. lhe tinha dado. 
A* tf ElRey D. Diniz também confirmou a Fr. Guilhem MoíTel 
tremad. p r i or dç S, Maria de Rocha de Amador , o q a Ordem tinha 
/•***• nefte Reyno, & adoaçaõ da Villa de Sofá, & a fentenca que 
feu pay Affonfo III. deu «m favor daqadles Priores; de- 
clarando mais, que os moradores daquella Villa ? lhe ha- 
viaõ de reconhecer fenhorio. A mefma confiraiaçaô tez 
depois ElRey D.Fernando, Não faltarão nefta Religião 
de noífa Senhora de Rocha de Amador fogekos de grande 
credito, & nome, affim nas letras, como nas virtudes^entre 
os qiws fcy muy to conhecido Fr.Vafco Confeffor,& Me- 
}*• *■ flre delRey D. Duarte , fendo Príncipe : aefle Fr.Vafco 
DloL deu ElRey D -J oaõ L a juri r diça6 de Sofá por pertencer aos 
j'fil*° Priores daquellc Convento, Efla jurifdicaõ feconfervou 
£2 / nos Priores daquella cafa , ate o tempo delRey D. Atroníò 
V. que fez delfa Comenda. O Hofpital da Cidade do Porto 
que adminiílra a Miíèricordia em que fe carro muytos en- 
fermos: dotou D. Lopo de Almey da > chamãolhe o Hofpi- 
tal de Rocha Amador. Cunha no Cat. doPort. p* 2.c. 4^ 
No jiQÍfo Hofpital de Lisboa de Santa Maria de Rocha 



Livro I. Titulo IX. ói 

de Amador r junto à oliveira y era Provedor no anno de 
1 495. (Rey nando ElRey D. Joaõ o II.) Pedro Nunes efeu- 
deiro ^em cuja prefença , hum Diogo Delgado Cavai leiro, 
& Comendador de Fonte Arcada, deu Ruas cafasde fua 
filha Catharina de Oliveira na freguefiade S. Niculao, por 
troca de hum olival que citava junto à quinta de Santa Ma- 
ria dos Olivaes ; & diz-a eferitura , fer feita dentro do hof- 
pitai de S. Maria de RochaAmador > fituado na freguefia 
de Sam Giaô* Defta memoria fe colhe, que jà mõ havia no 
hofpital Frades de Rocha Amador nbfie tempo. O certo 
Re,-que eík Congregação floreceo com muy to bom nome' 
até o tempo do mefmo Rey DGm João o II- nãofabernos a 
caufa de fe atinnar >) .& extinguir; pois jà hoje não ha memo- 
rias «defia Ordem em todo eíkReyno. O mefmo fuecedeo/ 
á Ordem de Santo Antaõ ,.que devia entrar nelle quafí pe- 
los mefmos tempos ycuja cabeça era oMoíleiro de Santa 
Antaô de Benefpera no Bifpado da Guarda r queeílá hoje 
incorporado noCollegio da Companhia de Coimbra r que 
deíla qualidade faõ todas as coufas do mundo 5 huas come- 
çaô 7 outrasacabaõy como vimos no hofpital de Santa Maria 
de Rocha Amador de 'Lisboa x que jà hoje fenaõfabe em; 
que parte ficava. 

Mas tornando à Senhora da Oliveira ^ & à fua Origem^ 
que fcy prodigiofayfegundo a tradição confiante, Scalgíías; 
memorias que a tocaõ: he nefta maneira. No tempo em que 
vivião Pedro Efíeves r & fua mulher Clara Giraldes^que 
unho por Tem duvida r foy no Reynado delRcy Dom San- 
choo I .)em aquelle mefmo lugar em que vemos hoje a Cafa 
da Senhora da Oliveira >fe achavaõ femfilhos ; &como ti- 
nhaõbens em abundância r defejavão terfueceíforque os 
HtrdaíTe ; eraõ de votos de N. Senhora ,& por feumeyo > &:. 
interceflaõ os pediaô a noífo Senhor r & alcançarão huma 
filha, que criáraõ com grande cuidado,** com boa doutri- 
na,. Sendo cila jà deidade de lhe poderem dar o eílado de. 

cafada^ 



ài Santuário Mariano 

cafada, o .procurarão pôr em execução. Quando andavaô 
neíta diligencia, repentinamente adoeceo adonzelíadc 
hua aguda febre, ■ & em poucos dias a levou Deos para íi. 
Foy tao grande ofcntimento dospays,quenaõadmittiaô 
coniolaçao algua; naõ comiaõ, nem dormiaõ; & como gente 
que havia perdido o juízo, p^ece caminhavão para a fepul- 
tura , a fazer companhia à filha, Ncftc eítedo fc achavaõ, 
quando Deos os quiz aliviar na fua pena. Eftavaô hua noy- 
terecoIhidos,&ouviraõ a campainha da Irmandade , quç 
acompanhava naquelle tempo aos jufliçados,& hum gran- 
de tropel de gente ; & juntamente hum pregaô que dizia : 
Juítiça que manda fazer ElRcy neíiamolher , (nomeando 
pelofeunome afilha defunta daqucllesdous cafados) por 
commetter adultério contra íeu marido. Levantoufo Pe- 
dro El leves , & chegando à janella reconheceo que a pade- 
cente fe parecia com fua filha. A vifla defla vifaõ myíle- 
n ° ía > conheceo o favor que Deos lhe havia feito , em levar 
afuaiJha, ames de cue dia pude ffe chegar a umpo em que 
o pudeffe afirontar, & também fe pudeíTe perder. De cem- 
mumconfentimentoelle,&fua mulher dedicarão toda a 
lua fazenda a noíTa # Senhora, edificandolhe aquella cafarque 
iem duvida per ter rendas bnfíantes^a pertendéraõ os Ere- 
mitas denoífa Senhora de Rocha de Amador , para erigir 
alli o hofpital de que jà hoje não ha noticia. 

Os Padres da Igreja começaõ, & não acabão, f azendofe % 
lingoas para encarecer qual feja a protecção de Maria ian- 
tiflíma para com os peccadores, & as almas que cada dia 
tira dos abifmos da culpa, & que eíiãodeíiinados ao eterno 
fupplicio. S. Epiphanio a aclama , porunicaefperançados 
dciefperados , porque todos os que oeftaõ do remédio , & 
da faivaçaõ, a confegjiem no divino tribunal, por leu 
meyo; & os que naõ achaõ remédio em outra parte, o achaõ 
promp to em Maria. Fites cafados acháraõ tudo, m que he 
conloiaçaõ dos affiictos , paz , & paciência dos deíeif era- 

dos» 



Livro I. Titulo X 63 

dos. He verdadeiramente Mãy de mifericordia; & cila he a 
Senhora da Oliveira. 

A Imagem da Senhora he de grande fermofura ; he de 
roca, & de veflidos que os tem muyto preciofos ; terá íínca 
palmos de altura > & eftá com as mãos poflas , porque naõ 
tem Menino. Eftáemhíía rica tribuna (na Capelía princi- 
pal) feita ao moderno, & muyto bem dourada; & toda a fua 
Igreja eftá cozida em ouro, & adornada de pinturas. Tem 
alem do Altar mayor, duas Capei Ias metidas em as paredes 
da Igreja, que fazem frente hfia a outra ; a da parte do Eu* 
angelho he dedicada a Chrifto crucificado; & a outra a Sam 
Gonçalo de Amarante. Hamuytosannosque adminiílraã 
efta cafa os confeiteiros de Lisboa; não confia em que tem- 
po começarão. Também entravão na adminiíl ração os 
pe fcadores, porem efí es fomente lhe fazem a fua feita, que 
he,em as fegundas oitavas das três Pafchoas , Natal, Paf- 
choa de Refurreiçaõ , & Pentccoflc. Os confeiteiros , fe- 
ftejaõ a Senhora no dia de fua Natividade. De noífa Se- 
nhora da Oliveira faz mençroCardofo no tom* i»do AgioU 
pag.105. Mon. Lufít. part.5~fiv.17tcap.49w 



TITULO X. 

Da Imagem denoffa Senhora da&iedade da terra foka na 

Se de Lisboa. 

NA Clauflra da Sè Metropolitana íe venera , com 
grande devoção, & concurfo do devoto povo ,hua 
antiga Imagem de noífa Senhora da Piedade, de pincel, que 
agora em noffcs tempos, a quiz a bondade divina fazer ce- 
lebre com os milagres, & maravilhas, que por fua interce- 
ção experimentão os que a bufeão. Os princípios defla 
Santa Imagem, & fua Orige m he muyto antiga j o que conf- 
ia? 



($4 Santuário Mvríano 

tcihe, que jà pelos annosde 1230. rtynando ElRey Dom 
Sancho o íí . chamado o Capello, havia na meíma Sè huma 
Santa Irmandade , a qual jà naquelles tempos uíàva nos 
acompanhamentos de hua bandeira com a imagem de ríofla 
Senhora com o Filho Sant íTim^morto em feus braços ,& 
cíle era o brazaõ daquella devota Irmandade, intitulada da 
Piedade- O exercício delia era enterrar os mortos» viíltar 
os encarcerados, & acompanhar aos que hiana a padecer 
pelos feus crimes. Porque nefle tempo acompanhou efla 
meíma Irmandade aopay dogloriofo Santo António (glo- 
ria de Pádua , & honra do noííò Portugal , & de Lisboa fua 
Pátria, que foy a gozar os prémios de fua eximia Santidade 
noanno de 1 23 1, rcynando o mefmo Sancho II. tendo de 
idade trinta & íeis annos, & de Religião vinte &hu) quan- 
do ajufliça o levava a padecer, pelo homicidio, que telhe 
havia imputado. 

Efla Irmandade eíHvaafTenta 3a em huma Capella da 
Clauftra, & aíli perfeverou muy tos annos, ate que come- 
çou atermayor firmeza, & eft abelidade peio fervor, & 
cfpirito do Venerável Padre Fr. Miguel de Contreiras, Re- 
ligiofo da Ordem da Santiílima Trindade , & ConfeíTor da 
Rainha D. Leonor mulher delRey D. João o II. que foy o 
feu primeiro Provedor, fazendo pela fua própria peífoa as 
obras de piedade , em que efla fanta Irmandade , intitulada 
hoje da Mifericordia fe exercita; porque pelas ruas, Sc 
praças da Cidade pedia efmola para os prefos , & para os 
mais pobres neceííitados^ acompanhava aos defuntos, re- 
zavalhe asoraçoens da Igreja , a te os lançar na fepultura. 
Ellevifitava oscarceres ,avogava pelos prefos, confefla- 
vaos a todos , exortando os à paciência , & aos padecentes 
acompanhavaosatè ofuplicio, animandoos a morrer con- 
formes com a vontade de Deos, & outras muy tas obras 
defta qualidade. 

Dl tal maneira abrazeu no fogo da caridade a todos os 

mora- 



Livro I. Titulo X. 6$ 

moradores defta grande Cidade de Lisboa, aquelíe Santo 
Religiofo , que os Reys'foraõ os primeiros quenefta Ir- 
mandade entraram mais fervorofos. No anno de 1498. 
teve principio a fua erecção ;& das relíquias da antiga Ir- 
mandade da Piedade, fe levantou a nobiliffima daMiferi- 
cordia , que he a honra , & o credito de Portugal , & a mais 
celebre , & aílinalada de toda a Europa, como o confeíTam 
os mcfmos Eilrangeiros. E porque efta nova Congrega- 
ção, & Irmandade tivefíe Cafa própria, aonde fem eíiar fo- 
geita às variedades que outras muytas padecerão, íb orde- 
nou, fe fizeffe,para nella fe aflentar izenta,& livre de quak 
quer outra jurifdiçaõ, para oquc,osSummos Pontífices 
lhe concederão muytas graças, privilégios , Scizençoens: 
& ainda para os que affiílem, & íè curaõ em feus hoípitaes. 
O mefmo Fr-Migucl de Contreiras , que foy o reftairsdor 
da antiga Irmandade, foy o que fez os eflatutos , &oque 
difpoz eíla nova, & fanta Irmandade , & em tal forma , que 
fempre foy, & vay em mayores augmentos. 

Edificarão para Cafa defía nobiliflima Congregação , 
hum fumptuoíiííimo Templo de três naves, teda de pedra- 
ria, & de foberba arefritedura, com bum grande , & nobre 
recolhimento para donzellas orfans , & hum hofpital para 
entrevados pobres; cafas de defpacho,& cartórios, com 
outras muytas officinas para recolhimento das fabricas da 
meíma Irmandade, &commodo dos officiaes, & familiares 
da mefma cafa . O que depois augmentou mais Manoel Ro- 
drigues daCofla, com outro recolhimento, obra mage- 
ftofa , para quarenta donzellas orfans , fazendo trdeira 
aquella cafa de fua fazenda, que era muy ta, com rendas naõ 
fó para fuitento das quarenta donzellas , mas com dotes 
muyto grandes para cafarem. Concorreram para a fabrica 
deite Templo com grandes efmolas, o Sereniflimo Rey D. 
Manoel , que quiz , naõ fó fer dos primeiros Irmãos deita 
íanta Irmandade , mas perpetuo Prote&or delia , & de to- 
Tom. h E da* 



66 Santuário Mariano 

das as mais do Reyno;oque imitarão todos os Reysfeus 
íucceííòres. A Rainha D.Leonor Ria irmãa, & a Rainha Di 
Maria fua mulher, &os Infantes, & outras muy tas peTòas 
ricas, & devotas ;cujo exemplo feguiram depois todos os 
Senhores da Cafa Real, deixando nefia cafa grandes lega- 
dos, & efmolas, para fç di! penderem em os officios da Pie- 
dade, & mife rico relia- 

No anno de r 55 4. reynando já EiRey Dom Joaõ o III. 
fe paffou da Se a Irmandade , à fua nova Caía ,.cm que hoje 
a vemos. Compoemfe de féis centos & vinte Irmãos , tre- 
zentos nobres , & trezentos macanicos , & vinte letrados;, 
huns, & outros provam limpeza de Tangue, para ferenk 
nella adrnittidos. Dilatoufe por todas as Cidades, & Vil- 
las deite Reyno, & por todas as Províncias de fuss conqui- 
ilas. He governada por hum Provedor, hum Efcrivão , hu 
Thtfoureirojdous Confelheiros,&feis Irmãos nobres, & 
outros féis macanicos. Chamafe eíla Irmandade da Mife-. 
ricordia; porque nas fuás fete obras , & em dous hofpitaes > 
hum de entrevados, & outro de incuráveis , fe exercitaõ os 
Irmãos delia com grande caridade, difpendcndo neflas 
fintas obras, grande fomma de dinheiro, parte de dotações 
cios Reys, Rainhas ,,& Infantes de Portugal ,& de peífoas 
de vaus, que emportão em cada anno perto de cem mil cru- 
zados; & neíie de 1 697. emportou o recibo daquelia Càfa> 
em noventa & hum mil trezentos, & dezafete cruzados, Sc 
duzentos & trinta & quatro reis* 

Tem feífenta Capellaês que rezaõem coro as horas ca- 
nónicas, & fe fazem ne Ha Cafa os divinos officios com 
pompa, mageílade, grandeza, & muyto aceyo. Tem muy to 
boa unifica. Tem mais a Irmandade a íèu cargo a admini- 
ftraçaõ do Hofpital Real de todos os Santos fundado por 
ElRcy D. Joaõ o II. &augmení<:do porElRey D.Manoel 
com grande manificencia , & riqueza; porque temmuytos 
snií cruzados > que feparadamente adminiílraõ. Curarefe 

&e!íc 



Livro l Titulo X. 67 

■nclíc todo o género -de enfermidades, com cuidado, lim- 
peza , & regalo, a que acodem com caridade mais de cento 
& íeíienta Irmãos , deflribuidos pelos rnezes nas enferma- 
rias. He Maria Santiííima a Patrona, 6c a titular delia fama 
Congregação , & fertejada por ella no dia da Vifitação : dia 
verdadeiramente da Irmandade da Mifer;cordia ; pois ne- 
íla feiia nos propõem a Igreja a mifericordia q a Senhora 
ufou com fua Prima Santa Iíabel, indo a vifítaiía, Sc fervil- 
la. Celebrafe efta feita commuyta grandeza 7 não fó em 
Lisboa quehe a cabeça, (mas em todas asinais Misericór- 
dias do Reyno) á qual coftumão os Reys aííiílirfempre en? 
as primeiras vefporâs, acompanhados de toda a Corte. 

Mas porque fe não efqueceffe , que da antiga Irmanda- 
de da Piedade naceo a nobiliífíma da Mifericordia ; ainda 
hoje confervaõ Qtrazella pintada de hua parte,& a Senhora 
daMiícicordia da outra > em as bandeiras com que acom- 
panhaõ nos defuntos. Na parte da bandeira, aonde fe vè a 
Senhora da Mifericordia pintada, fe moíira a igualdade 
com que a May de Deos favorece , & recolhe a todos de- 
baixo do manto de lua clemência ; & a hum lado ^ fe vê o 
leu fundador Fr. Miguel de Contreiras, o que femanJou 
fazer logo depois de íi*a morte para fe coníervar,como por 
brazaõ emoícu retrato y o haver/elle fido o inííituidor da 
Irmandade. Efk fcy o mayor premio que teve ci na terra, 
por eíla tam iníigne obra. Depois fe começou a variar com 
o tempo, mandando pintar czàa hum o Santo que lhe pare- 
cia : ate quenoanno de 1^74. O Padre Fr. Bernardo da 

dre de Deos fendo Provincial da Ordem da Santiffima 
Trindade ? mofirou em como o Venerável Padre Fr. Mi- 
guei fora o inftituidor 'da 3 . mandade : a qual movid i de toÚ 
juitificados documentos, emendou os erro § pa lados ,& fez 
aíFento no feguànte anno , que (para coníervar a memoria 
^o Fundador} fe pintaífe fempri nas bandeiras da Caía, a 
copia do leu retrato jeonieítas letras F,M. I. que querem 

E % dizer, 



<S8 Santuário Mariam 

dizer, Fr. Miguel li íftituidor, & para que em nenhum tem- 
po fe duvidaffe defta verdade., alcançou depois o Padre Fr. 
Bernardino de Santo António, íendo fegunda vez Provin- 
cial da mefma Província daSantiílima Trindade a 26. de 
Abril do anno de 1 627 hua Provifaô Real , para que todas 
asbandeirasdas Irmandades da Mifericordia , que ha pelo 
Rcyno, foíTem copiadas pela de Lisboa. 

Atèquitemos dado conta da Origem, & antiguidade 
da Senhora daPied<de da Terra folta; &não neceílíta de 
prova fer a pintura da fua Imagem bandeira , que fervia em 
feus princípios, à Irmandade da Piedade , de acompanhar 
aos mortos; porque ella o eílá moftrando com tanta evi- 
dencia, que todos o confeflam. Com a nova mudança da 
Irmandade da Sê, para anovaCafa da Mifericordia , ficou 
aquella bandeira por velha poflaem amefmaCapella,fcm 
mais cuIto,jnem veneração : & totalmente efquecida. Mas 
não feefquececDeos, qquiz em as maravilhas queobtou 
por fua interceçam, darnos a entender omuyto que nos 
devemos lembrar de fua Santiílima MSy, & também a gran- 
de devoção > & reverencia com que devemos tratar a fua 
Imagem.* 

Succedeo pois que no mez de Setembro de 1689. ^ 
correndo hua afflita viuva à Senhora da Piedade, que na 
Cipella da Terra foi ta eflava efquecida , (chamavafe affim 
aqudlaCapelia,porq não era lageada,nemladrilhada)para 
q ella a reuiedsaíTe a dar eflado a hua filha donzella q tinha, 
pobre, Scdcfemparada. Acòdia todos osdias àquellaCa- 
pella , & diante da Irmgem da Senhora lhe pedia com lagri- 
mas o remédio para fua filha. Ecomo efía Senhora nunca 
defemparaaos affligidos, comoMãy amorofa que he dcllcsj. 
difpaz que chegaífe nefte tempo de f óra do Reyno hum pa- 
rente feu: & tendo a mulher noticia da fua vinda o foy buf- 
car, pela razão do parentefeo , para que etle lhe deífe algíia 
cfmola, para ajuda do dote da filha. Defpedioa defi feca- 

mente.» 



Livro /. Titulo X 69 

mente, com dizer, que não tinha parentes em Lisboa. Sa- 
hio a pobre viuva infle, ôcdefconfolada daprefença da- 
quelle emque fe lhe reprefentava acharia confolaçaõ; & 
voltando a noíTa Senhora que he o verdadeiro alivio dos 
triíles , & defconfolados , & com muytas lagrimas lhe pe- 
dio a remediaffe, poisfóellaera,aqueopodia fazer. Feita 
a fua oraçam, & voltando para cafa lhe fahio logo aoen- 
contro o mefmo parente, & lhe pedio a filha pormulher, 
E defta forte remediou a Senhora a pobreza da trifte viuva, 
& odefemparo da donzella. Publicado o milagre , come- 
çou a acudir a gente á maravilha; & a Senhora a obrar dalli 
por diante muytas, em todos os que emfeus trabalhos a 
invocavaõ. A vifla delias começou a crefcer a devoção, 
para com a Senhora, & juntamente as efinolas. 

Alguas peffoas por devoção da mefma Senhora , toma- 
rão à fua conta o fervilla, erigindo huma fervorofa Irman- 
dade ; & aflim cuidarão em primeiro lugar , de lhe edificar 
hua Capella, aonde a pudeíTem collocar com maisdecencia. 
Efla fe fe z com tanta mageilade , grandeza , & perfeição , 
quefe difpendéram nella mais de trinta mil cruzados .; & 
affim he hoje efiaCapella hum dos grandes Santuários da 
Corte. Nelle fe vêm como tropheos das maravilhas que 
obra aquella Senhora da Piedade, muytas memorias de 
cera, muytas mortalhas , & muytos quadros de pintura, 
quedeclaraõ eífas maravilhas. Os mefmos Irmãos alcan- 
çarão da Santidade de Innocencio XII. hum grande the- 
fouro de indulgências, que ganFaõ os que vifítaõ aquella 
Capei-la em ^s feflas pnneipaes da mefma Senhora, & prin- 
cipalmente na oitava da Pafchoa , .& na primeira do Nafci- 
mento deChrifta emque afeflejaõ* De noffa Senhora da 
Piedade efereve Cardofo no feu Agiol. tom.i . p.289. Joaõ 
EaptifiaLayanha na entrada de Pheíippe em Portugal am- 
bos na Vida do Padre Fr. Miguel de Contreiras- O Padre 
Anton. de Vaie. na diferiçao de Portugal pag. 546. 
Tom. I. E 3 TITU- 



yo Santuário Mariana 



TITULO XL 

Da Imagem de nojfa Senhora da Conakaõ^quefe Venera m 
Contenta da Trindade. 

OS Padres da Ordem da Santiífima Trindade , funda- 
raó em Lisboa alguns fíncoenta, & tantos annos, de- 
pois de entrarem em Portugal. Deraô principio a efta 
fundaçaõ> pelos- annos de 1294. reynando AfFonfo III. Os 
fundadores deíle Convento foraõ quatro que vieram de 
Santarém, todos varoens de muy ta fantidade. O que veyo 
por Miniftro fe chamava Martin Anes ; tornarão pofle em 
hua Ermida de Santa Catharina Virgem > & Martyr ; junto 
da qual fe começou a edificar o fumptuofo Convento que 
hoje vemos; para cujas obras concorreo com grandes ef- 
moí as, a Rainha Santa Ifabel,que era muy to devota dos 
Ileligiafosdaquella familia > 8cfeconfeíTavacomhum del- 
Ies, Varaõ de grande efpirito >& letras , chamado Fr. Efle- 
vam de Santarém. E pela grande devoção que a Santa Rai- 
nha tinha aefla cafa, edificou nella hua Capella dedicada á 
Conceição de Maria puriflí ma. Mas como efta he a primei- 
ra vez que falíamos em Santuário dedicado a efte foberano 
myíterio; he razaõ diga o tempo cm que teve principio a 
fua feftividade, & celebridade* Eftahe tam antiga, que a 
podemos aflínar ainda no tempo da ley eferi ta, porque nao 
menos, que em tempo de David, fe começou a celebrar eíta 
grande feftivídade, &eftafefta toda Real ,que ao depois 
havia de fer afefta dos mais foberanos Monarcas x & dos 
mayores Príncipes do mundo ; porque naõ contentes com 
oscommuns apríaufos, juráraõo defendela,& votáraõ o 
feíkjar , & celebrar para fempre a puriffima Conceição de 
Àíark Santifltma» 

Foy 






Livre I. Titulo XI. 71 

Fcy o Santo Rey David tam devoto da Conceição im- 
maculada defta fua IIluftre defccndente , que em figura a 
celebrava , & fazia celebrar a feus vafTallos , com as mayo- 
res demonflraçoens de grandeza, & com os mais aventeja- 
dos finaes de alegria. Ecm fe vêiílo noPfalmo8o. S«<r- 
cinate mNeomema tuba , in infigni dtefolemnitatts Vtjtr*. 
Aonde mandava a feus vafiàllos , que no dia que no Ceo 
começaífe a nova Lua a luzir, (q iffo quer dizer,Neomenia) 
feflejaíTem com toda a grandeza, &applaufo aquelledia; 
porq çra a fua fefte mayor,& a fua mais mfigne foiemnidade; 
In infigne ée [olemmtatts Vejfr*. Por cita Lua nova en- 
tende S* Agoftinho meu Padre, a Maria Santiífima, em a fua d.Au£. 
Conceição immaculada, naquellas palavras : H* c lume ce- 
lebra to j noVem cr e aturam , nempe Mariam,<fu* per Qhrt- 
JiumfdãtieB ,pr*)iunciabat 3 & ainda q o S. Doutor o naõ 
differa , jà oEfpirito Santo o havia dito : porque Lua lhe 
chamou em fua punflíma Conceição: 2lu<z ejl iíta qu<tpro- 
greditur % pulchraut Luna. Eifaqui como jà a Conceição de 
Maria muytos feculos antes que viefle ao mundo era cele- 
brada em figura, ou em profecia. t 

Mas diícorrendo com mais diflinçaô ( com a brevidade H*ub. 
que pede o noí^o aífumpto; defde o tempo da LeydaCr - emAr- 
ça,o foberano myílerio da Conceição de Maria Santiífima, <£«'"'• 
(debuxado emdiverfas figuras da Efcritura , & previnido 2 . 
com oráculos de Santos Profetas , aonde fe acha fuflicien- ~ a " m 
temente motivo para que fe poíTa definir) foy pregado pe-JJj. 
los Santos A poítoíos,& definido por elles em hum Conci- rhe/ph 
lio , como refere Hauberto, ( 1 ) & fe acha no livro de Sam «g««* 
Thefiphonte difcipulo de Santiago ,(2) achado no monte Lu^er. 
fantode Granada. Com os trabalhos q padeceoa Igreja em dift. 1. 
íeus princípios feoccultáraõ por algfi temso, ou fe perde- de c ° c - 
raõos teíiemunhos eferitos fobre cita determinaçaõjfican- J acoL 
do fomente a noticia da verdade deite myfierio em a me- //^ 
m jria, dos qu ie s fe foy por tradicçaõ derivando aos que fr ái r ** 
.Anefeguiam. E 4 Daqui Jf * * 



71 Santuário Mar iam 

Mad. Daqui nafceo naõ difputarem os Padres em feus efcri- 
m hift+, tos ^ febre efte myflerio ; mas ícmeme exprimiremnoío , 
d* lf b' como verdade, em que ienaõ duvidava : os mais claramente 
Grana- fl f U pp €Cni j& alguns femdifficuídade a exprimem. Porem 
wHtl como ° facrilego Pelagio , por<n?o conhecer a neccíTidade 
«^^doremedbdadivina graça, negaíTe a chaga original dana- 
dePref. tureza : para feopporem a efle erro, pronunciaram os Pa- 
l\ de (ires mil vezes auniverfal do peccado original de todos,, 
Cíw.^como fevè emogrande Agoítínho meu Padre f$) que re~ 
f-fi c -4~,£trc a muytos,como Xrineo, Cypriano , Hilário, &c. Sem 
Joan. exceptuar expreffamente a algum. Outras vezes, como fe 
LtzjMéF^ no mc ^ no Rv*ro,& em S. Lcam (4) eximindo fomente a 
m apoL Chr ií o T & dando por razaõ da excepção , o fer fem obra de 
proCM. Varaõ concebido* Com efias univer&es loeuçoens dos 
c. 1 3 » Padres y que exceptuam fomente a Chriflo 3 & por razara^ 
5 que ícnaõ acha em fua Santiflima May , fe efeureceo algum 
D"4*g* tanto em os ftcuíos feguintes,, a noticia defle myíkrio. 
l' ue °*~Sfàtm x nem porefta caufa deixou de ficar baflante luz > 
*** 2 ' P ara ^ a devoção P^ a encontrafle com a verdade j pois effes 
I>. Lto wefrnos Padres(5) como refere o noflh ^Egydio Imíitano, 
jp^. Salazar, & outros muytos; na© dizem, que aqueilacaufa de 
fer. de excepção feja preciía ;& quando chegaõ a fallar individua 
JVa/iv. almuite de Maria Santiflima', ou a livram expreffamente da 
Salvau original mancha, ou lhe concedem tal enchente de graça-* 
f Suam Angular pureza , que naõ fecompadefle com haver 
*^p • tidoculpa;ouemmateriadepecead©,n3oadmittemfedif- 
ikcic' P ute ^ Maria. Nefla difpuíiçaô, correo íem controvertia 
d rfl a fentença da ímmaculada Conceição de Maria purifllma * 
1. dr 2, P ^ eípaçode quafimilannos. 

Svkz* Befvanccidas jà as névoas Pelagianas pelos armos, 
j.42. 1 100. fe começou a venerar o foberano myfíerio com cul- 
tos Eccleíiaflicos. Deu principio à feík,(ou àfoa reíiau- 
ra pó) na© algua leve apprehençaõ dos humanos , mas a di- 
vina vontade, manifefiada comaígpas rcvelaçoens dadas 



Livra I. Titulo XI. 73 

em diverfas partes do mundo. A primeira foy pelos annos 
de 900. feita a hum Irmão delRey de Ungria > devotiflimo 
de noffa Senhora; o qual depois fe fez monge, & veyo a fer 
Bifpo,&Fatriarcha de Aqueleya. Afegunda peles. annos 
de 10 66. feita a Helvino Abbade da Convento Eecenfe era 
Inglaterra» A terceira em França a hu Sacerdote Cónego, 
& depois penitentifltmo Anacoreta. Todos cífes três de- 
votos de Maria Santiffima^tivcraô com a revela çaõ,precei- 
to de celebrar a fefta da Conceição da Senhora em oito de 
Dezembro ,& de a publicarem , & pregarem ao povo T ex- 
ortando a todos os fieis a mefrra devoção. Fielmente o 
cumpriram todos, com que fe começou aentroduzir efía 
fefta logo^em Inglaterra, França, & Ungria. 

Comefk novidade fe começou a duvidar, (como con- 
fia de Santo Anfelmo (6) )à da verdade da iunecencia orig/- $ 
nal da Rainha dos Anjos >') 1 da decência da celebridade : E #. j^p 
daqui teve feu principio a controvcríia. Chegou aos ouvi- ferm. de 
dos de Santo Anfelmo r então Arcebifpo de Cantuaria,& Conce- 
averiguada com maduro exame a verdade das revelações p'"*- 
referidas ; inteirado do fenrirdos Padres y fe fez pregador 
domyfterio, & promotor da fefla- Efcreveo pelos annos 
de 1095. húa carta aos Êifpos feus contemporâneos, em 
que, referido as revelaçoens que deram principio à cele- 
bridade ,. os* exorta para que a continuem ;.& juntamente 
publicou hum infigne Scrmaõ > Schum livro admirável da 
Coneeiçaã da Sacra tiffima Virgem Senhora noífa y donde 
com vivas razoes psrfuadeafua original pureza. Coma 
authoridade, ôteferitos de Santo Anfelmo, fe focegáran* 
alguas perturbações, que a novidade havia levantado cm 
Inglaterra: 

Em França naõ fe dilatava com tanto fervor efla fefla^ 
(& fenapela menor autfioridade daque a introduzio) pcis 
feteve pelos annos de ri ^5. por novidade imprudente^ 
eelebrafeai-na os Cónegos da Igreja de Leam. Chegou à 



74 Santuário Mariano 

noticia de Sam Bernardo que Jlorecia nelíe tempo, & o San- 
to cheyo dezello Ihesefc~eveo hua carta, em que naõío 
os reprehende por introduzi rem fem authoridade da Igre- 
ja Romana, nova feita; mas que de propofko pi ova que fe- 
7 naõpódc celebrar, por naõ ter devido objedto- Tudo fe 
D : íi Ber0 pódc ver nomefmo San to />)& também em o Padre Fr. 
W- Francifco Vivar, & Angelo Marique* 
Fitar ^ e ^ e tem P° havia navegado a nào da Sentença pie- 

iufio doza, & a fua fefta ; & com a affiílencia do Divino Efpirito 
cpere havia corrido com profpero vento. Porem aqui fe encon- 
SS.P*. tráraõ os ventos, alterouffe ornar, emfoberbeceramfe as 
tresP7- ondas , &como fe o Senhor dos elementos dormiffe , que 
dicatt. feíde os f eus princípios lhe aflifle , padeceo , naõ nauíra- 
jfjjf 9 gio , q a verdade nunca quebra , ainda de grandes tormen- 
tom T \ taS a P crta( ^ a: P or( I u e como a authoridade de Sam Bernardo 
An. * era naquclles tempos tam grande , que fe tinha por impie- 
aft. dade o refiilirlhe , vendo a fua refoluçaõ contra a fefía , & 
ad.a». afeu objedo; & naõ fe havendo defeuberto atè então o 
* 1 34- ponto de fua defenfa , fe encolhiam os ânimos, (ainda dos 
mais affe&os à Senhora) Sc fe voltou a fefla em lagrimas. 

Seguiofe a S.Bernardo o tempo em que começarão os 
Theologos Efcolafticos , & com o rigor da fua efeola , fe 
tornou aexaminar com mais rigor o ponto da feita) porém 
com tam infeliz fucceíiò, que a mayor parte daquelles pri- 
$ meiros Efcolafticos , fe inclinou à opiniam de Sam Bernar- 
Petrm do , & ainda que naõ faltavaõ devotos (8) como foy Ricar- 
ét Alvt do de S. Viflor, Pedro Comeflor, Pedro Abeslardo , & ou- 
tros muytos que cita Pedro de Alva,que defendeífem a fan- 
tidade do obje&o da feík , nenhum dava no ponto. Huns 
diziaõ/jue Maria hav;a fido fantifícada em feus Pays, puri- 
ficando Deos afeminai matéria, antes do congreflb mari- 
tal; outros que na mefm a Conceição carnal; outros que de- 
pois da formação do imbriaõ antes que foflê animado: com- 
que a piedade , & devoçnp por mal fundada , naõ achava 

azilJo 



Livro L Titulo XL 75 . 

azilío em os Dcutos. Daqui teve motivo Maurício Bifpo 
efe Paris, (peles annos Ce 1163.) para prchibir por hum 
Decreto a celebração da feíi a da Conceição da Senhora, 
em á Igreja Parizicníe* E naô parou aqui a tormenta 3 por- 
que ajuntandofe toda a Univeríidade de Paris em clauftro 
pleno, condenou porherefia o dizer, que a Senhora fora 
íantíficada antes defua animação. Ecomo os mocos que 
entam tinha a efeola em defender a Santidade do obje&o da 
feíta,convinhaõ todos em que Mariahavia íido fantificada 
antes que fe animaffe a íua orne ,fe vio a opinião de fua 
Conceição afperamente deilerrada daUniverfidade,mais 
celebre do mundo. 

Em mayor tormenta fe vio a opinião do mvílcrio j por- 
que feguindofe o tempo dos Princepes da Theologia efeo- 
laflica , Alexandre de Ales , Alberto Magno , Santo Tho- 
mas, S. Boaventura , o noflo Egydio Romano , Ricardo de 
Mediavilla, Henrique Gondavo; também fe inclina vaõ à 
parte menos pia. Dífputavão a queftão no modo que a 
acháraôj (como fe pode ver emos referidos aíHma (9) Ale- 9 
xandre de Ales, Alber ta Magno, & nos mais) fe havia Ma- Al *x. 
ria Santiflima fido fantificada emfeusPajrs,fe na fua car- **/""•■ 
nal Conceição, &c. E a tudo refpondiáo conforme ao De j£%* 
creto da Univerfidade de Paris- ,, & Ç m 

Só Sam Boaventura deu no ponto, tratando aqueftão ^4 ^ 
em próprios termos- (10) Porem levado jà da Redempçaô q, 9. 
univerfat de Chrifto ;jà das authoridades geraes daEfcri- j*lk 
tura, & Padres- jà de fer a opiniam menos pia commum fen- Ma í' 
rir dos Efcolafiicos daquelle tempo,fuppofto ainda que não fi^, 
difputado ,& principalmente denaõ ter Doutor cíaífico a ífl"?^ 
quem feguir , pois aflirma ,que nenhum de quantos havia 9J '£ 
vifto,& ouvido com feus ouvidos , fe achava , que ouveíTe % Qn% & 
dito, que a Rainha dos Anjos Maria Santiflima , fora izenta 3 . dtp. j 
na fua Conceição da original culpavnão fe atreveo a querer q.z.apt. 
para fi a gloria deite triumpho ^& affim íe arrimou à parte ** 

entam 



?6 Santuário Mariano 

entamcormuia* Nelte eíiado fe achava ncfte tempo a opi- 
nião do iiiyilerio da Conceição da May de Deos , & a fa- 
zião ainda mais temeroza aíguas propoíicões de Doutores 

1 1 claíTicos (ti) como fe vè em Santo Thomus. 

®}v. Appareceo no mundo neííe mefmo tempo, que era pe- 

Thom. [ os annos d e i ^ 04. o Venerável Doutor, & fútil João Duns 
* 2 ? Efcoto, que profeguia então a lua leitura comapplaufos 
ru ** fohre os fentenciaríos ,cma Univerfidade de Oxonia em 
Inglaterra. Chegou â díírínçáo ^ do 5 . 1 ivro , theatro en- 
tão defía criminal contenda , fem defenfor da Innocencia. 
O ardor da fua devoção para com Maria Santiflima, aquém 

12 fe impunha aculpa, (como fevè no mefmo EfcotoJ (12) & 
yc*u o preceito que tinha damtfma Senhora (a quem por voto 
%d?â x ^avia P romet *do íèrvir , por hum grande favor recebido : 
*' * porque lhe mandou a Senhora, que profeguiffe os efludos, 

&que com ellesa ferviífe) & o agradecimento atam gran- 
de benefício, lhe fizeram examinar , com toda aapplicaçáo, 
& diligencia o ponto. Cavou na inteligência das eferitu- 
rascomhum profundo juízo, revolveo as obras dos San- 
tos Padres com viva diligencia, ponderou os fundamentos 
contrários com a juítado exame, & (não fem luz do Ceo) en- 
controu coma verdade deíle myíkrio. Defcubertoo the- 
fouro determinou communicar fiel , o quebufeou devoto, 
f & encontrou venturozo, & vendo que a ftntença piedoza, 
#. A* (paraelle jà verdadeira) tinha centra íi a apparencia de hu 
Itb. de * Decreto cruel da Univerfidade Parizienfe , a authoridade 
Nat. & dos Theologos mais infignes , & o iequito commum dos 
gmúA vulgares, com o horror de huas propoíicões > que pareciam 
firca efpantozas cenfaras, lhepareceo ao Venerável Padre Ef- 
m ta$u coto,quenãoeran£ce!Trria meros mancha, para a introdu- 
eíceãtm z * r nas cíco * as > Sí ue ^ ut ^ eza P ar a a defender , & engenho 
rirçi* P ara a P cr íuadir. 

nJt c. Primeiramente fe armou com as authoridades de Ago- 

18. flinhofficu Padre, & de Sanjo /.nfcImo.(í 3) ^quelle, que 

íuppocm 



Livro I. Titulo XI. 77 

fuppocm tarn acentada a fua innoccncia , que não permitte, 
que entre Msria em diff uras de peccado: & cíle q concede 
tal pureza a Maria, q fenao pede perceber mais abaixo de 
Deos. Começou logo a desfazer os argumentos contrá- 
rios com tanta fut Ueza, que naô fó os defata , mas que com 
elles mefmos concluo a verdade do myflerio, como fe pode 
ver em Armando Seraphico,(i4) & para melhor vcnccr ^J* 
cila batalha , & refolver efte ponto, poza caufa nas mãos ^ '^ 
do contrario, fez Juiz ao affefto menos pio. Dizendo;^ * 
fendo excellencia de Maria Santiífima o fer concebida fem O pof. 
culpa: fe aauthoridade da Igreja o naõ contradiz, nem âfoU. 
Efcritura o repugna , nem a razaõ o encontra , nem temos 
aos Padres contrários; queCatholico haverá tampouco 
affeítoa efla Senhora, que pezando a dignidade de Mãy de 
Deos ,lhc não conceda efla graça. Foy eík razam, (fobre 
as que dotitiffima , havia dado efcoIaíUcamente)a mais con- 
gruente, que podia imaginara humana futilleza , pois fiua 
fentença com apporencias de defterrada da efeola , nem fc 
pode mais fuave mente introduzir, nem perfuadir com mais 
cffícacía. 

Eílaqueftâõ difpofía comefia arte, deu Efcoto a feus 
difcipulos, em a liçaõ que lia na fua cadeira- naõ coníta ecr C J* 
tamente^ocomo entaõ arecebeo a Univeríidadè de Ox o- Q x ^} m 
nia. Mas como a novidade acertada, a huns excita à inveja, €n c aaSv 
& a outros move a applaufos, he certo naô faltarem na 1200. 
qtiella Univeríidadè de huns, & outros fogeitos,para hum, *pud 
& outro affe<flo: mas a mayor parte da Univeríidadè a rece- Crifp& 
beo com alegria. O primeiro , porfie eíta feflividade ef- cmm im 
tavajà dilatada em Inglaterra^defde o tempo de Santo An fi?™" 
felmo,comoconfta do Concilio Oxonkníe (15) ^^^ cathol 
provou pelosannos j zoo. O íègimdo,porverreftaurada Arntt ~ 
cantiga, & piedofa fentença de S* Paulo. O terceiro, pela Seràpb' 
authoridade de Efcoto, a quem aquelkefcola venerava co- i n ^; 
mo a oráculo doCeo. Começou- pois apiedoza adefen-/^*® 

deríc 



7% Santuário Mariano 

deríc publica mepte, naseico^s d-; Oronia com felicidade; 
&ainda q le teve poi-rofos contrários, fervia a oppo- 
fiçaõ de nv.yor gloria para a Senhora- 

Chegou cita noticia de ; a 1 entenda a Univerfi- 

dade de Paris; que como nind \ pcrfiííia cm o ítntir y em que 
a havia pofloaquelíe feu nntigo decrete, & o doBifpo. 
Maurício referidos, naó fez muy to caio delia iiizernõ fim 
muy tocaio osMeíires, &Lcytores do grande Convento, 
que a Religião Seraphicatem emamcímaCorte de Paris, 
que eraõ muy tos, &-fapientiíIimos. Eítes examinarão a 
queílaõ da innocencia original de Maria Santiffima , que 
Êfcoto havia eícrito, &comtam firme affeníò appr ovarão 
todos a refolução , que alentarão em a defender com todo 
ova*or. Comeíle começarão os Meftres, & Theologos 
Francifcmos de Paris, a introduzir a fentença piedoza, em 
as efeolas caquella Univerfidade , concorrendo os mais 
Religiofos do mefmo Convento, Secada hum em o modo 
que podia : porque huns a enfmavão , & outros em os púl- 
pitos a prêgavão : & afllm f oraõ excitando ao povo na de - 
voça6deílemyPierio,& ao Clero, na renovação da fua fe- 
ita. E com tanto valor, o íaziaõ todos, que fe chamava na- 
quellcs tempos a fentença que defendia a innocencia , &a 
honrada Senhora, a opinião dos Menores. El ta valente ie- 
íòluçaõ dos filhos de Sam Francifco, ou eífa fervorofa de- 
voção em pub!icar a todos a innocencia da Senhora , pnde- 
ceo grande contradição de toda a Univerfidade; porque 
não fe armou fomente denzoens , &de fundamentos pro- 
feridos com modeíKa : mas de palavras fcas , & injuriozas, 
vomitadas com ira efcondiJoza ; como íe pôde ver em Fr. 
Bel» d e Eernnrdo de Buftos. [i 6) 

Bufl!$fí Chegou o c -tio nos ouvidos do Summo Portifce Be- 

Ojfi Ct nedicloXI. o qual tratou Iogo*delocegar osefcandalos, 

CÕtept. quenafciamemoPovo d.iquclía cruel cençura. Mandou 

que em Paris fe fizeílehua folemne difputa,em que da parte 



dos 






Livro L Titulo XL 79 

dos Menores fe deíendeffe a piedofa íen tença, oppondoos 
contrários todas as razoens, que contra ella tinhaõ, com a 
aíímencia dos feus Legados,que aflinou por Juizes da cau- 
fa; para que fe viífe , (com a exaçaõ , que tam grande nego- 
cio- pedia) fe a opinião dos Menores era prova vel , ou me- 
recia algua theologica cenfora. Etaneíie tempo Geral de 
toda a Ordem Seraphics, Fr.Gonçalo de Valboaj a eíle(que 
eftavanaquellaoccaíiaõem Itália, aonde pouco antes havia 
fido eleyto no Capitulo geral de Aílis , que foy pelos annos 
de 15 04.) havia íido intimado o Decreto do Papa. Repre- 
fentoufelhe logo a grande conveniência de que foffe o mef- 
mo Efcoto, Autor da fentença pia, o ícu delenfor em a jun- 
ta determinada: para que sílim fe affeguraííe melhor a vito- 
ria. Fezlhe avizo paraquefem dilaçrópaniffe para Paris,, 
enviandolhe juntamente patente, pnraque fe preíentaíTe,& 
comeÇaífe a a&uar na n eímaUnivcrfidade de Paris, para 
recebernellaograode Doutorem Theologia, que jà tinha 
emOxonia. Tudo iftopareceo conveniente ao prudente 
Geral: para que os Doutores daquella Univeríidade , co- 
nhceeííem a grande fabedoria daquelle Venerável Padre T 
que ji conheciaó pela fama. 

Chegou Efe oto a Paris, & fuecedeo logo, que fazendo- 
íehum ado,em hum dosCollegios daquella grande Cor- 
te, no qual fe defendia, que a May de Ceos havia íido ori- 
ente manchada vpediraõlhe os Meílres do feu Con- 
vento quizeífe acharíè nelíe, fem fe dar a conhecer* Foy ao 
lugar da contenda, que eílavaaífiilido de hum douto, & 
niirnerofoauditorr) , ck cabenaolhe o lugar começou a ar- 
guir ; profunda o difeurfo , previne a repoila , reconhece 
os nervos docontrario; cerra todas as portas àfuga,& 
com íutil viveza lha tira a concluir, arrojando em cada hííai 
de fiias propofiçoen-, nac hum rayo mas muy tas ,com que 
íè eííremeceo a Aula, fe turbou o fufkntante , tropeçou o> 
Prefidente^&featurdlo o auditório. Entamhudaquelles 

Douta- 



8o Santuário Mariano 

Doutorei afilíkntcs fe levantou, & di ! Teemvozalta:ou 
tu es algum Anjo doCeo , ou demónio do Inferno , ou Ef- 
cotode Duno. Com eíles princípios femanifeítou Efcoto 
à Univerfidade de Paris t aonde com applaufos grandes 
foy brevemente laureado com a borla de Doutor. 

Chegoufe o tempo daquella iblemne difputa , ordena- 
da por preceito Apoíiolico; juntáraõfe os Legados do Papa 
como Juizes, & de hua parte Efcoto, & os Metires, & Dou- 
tores da Ordem Francifcana; & da outra os da Univerfida- 
de, com os das mais efeolas, aonde fenão defcuidáraõ os 
aceufadores da piedoza fentença , de convocar Doutores, 
(ainda auzentes) de fua parte: porque concorrerão quafí 
innumeraveis ao ado. A fama de tam infigne certamen , 
convocou também hua multidão incrível de ouvintes. Ape- 
nas rompeo a manhãa quando o Geral da Soborna > que era 
o teatro daquella contenda , fe achou cheyo de innumera- 
vel povo. juntáraõfe os Legados, Cancclario, Doutores, 
Me íires, ocos mais que veríavaõaquella nobre Univeríu 
dade para o a<fío : & quando o Venerável Efcoto , fahia do 
feu Convento, paflando por hua Capella, em cujo pórtico 
eílava hua Imagem de Maria Santiflíma de pedra, pofto de 
joelhos diante delia, lhe diíTe com muy ta devoção aquelle 
verfo: Dignare me laudare te Virgo Sacrata, da mibi Ytr- 
tutem contra hojles tuos. A Senhora lhe fez aquelle gran- 
de favor que em fua vida fe refere, que lheabaixuu a ca- 
beça, cemo prometendo que aflimo faria. Entrou Efcoto 
ria Univerfidade , & fubindo à cadeira , naquella occaíiaõ 
afíuante, & Prefidente; & havendo propoflo a queftaõ com 
lacónico eflyllo , hum dos Legados fez hua breve pratica , 
em que declarava em como Sua Santidade para atalhar as 
inquietações, quehaviaôoccafionadomuytosdos Theolo- 
gos daquella Univerfidade, notando a íèn tença, qué o Me- 
fire Efcoto havia enfinado publicamente emOxonia,& 
defendia a fua Religião ; mandava que naquella difputa fe 

exami- 



Livro I. Titulo XI. 81 

examinaffe a probabilidade do feu fentir;oppondo os Dou- 
tores que mais a contradizia õ, á fua razaõ; & refpondendo 
Efcoto. E fendo o fim daquelle adie fomente o exame da- 
quelle tam grave ponto, foffem os argumentos fobre a dif- 
iculdade que tinhaõ contra a opinião, &que o Mertre Ef- 
coto procuraífe fatisfazellos. 

Na conformidade defta ordem do Legado de fua San- 
tidade, como diz Pclbarto (17) começarão os Doutores ? l J m 
oppoftos a impugnar com todo o valor, &fciencia a fen- y m% if$ 
tença pia. Nenhum fe divertia hum ponto do intento; to- f íi0 
doscntravaõfem digreífaõ no ponto mais apertado do feu StelUr. 
difcur fo. Naõ foy mayor o numero das impugnações, que /.4-p.*. 
xapezo. Duzentos por conta forao os argumentos: a te- *>*•?• 
dos (que repetio fielmente) refpondeo por fua ordem , def- 
atando fuás intrincadas dificuldades, &efcuros iylogii- 
mos com grande facilidade. Naõ fe lhe oppoz texto da 
Efcrituraque naõ declaraífe com fidelidade ,nemcmríbne 
-de Concilio, que fem violência naõ explicaífe, authoridade 
de Padre que naõ interpetraífe a fua mente. Toda aequi- 
vocaçaõ diflinguio; toda a confuzaõ desfez; toda a duvida 
delatou; nenhum inconveniente deixou de atalhar; nenhua 
razaõ de fatisfasfer ; nenhum fophifma de deflruir. Sobre- 
pofle a toda a eminência , oppdmio toda a agudeza , & def- 
vaneceo todo o orgulho. *E havendo affim desfeito à ma- 
neira de Sol todo o nublado que fe lhe oppoz;communicou 
já íem embaraço ^ õs rayos da verdade , provando com 
tnuytas^&efficazes razoens, que a SantiíTima Virgem Ma- 
ria, foy concebida em afermozura da graça 3 & fem a leal- 
dade da primeira culpa. Finalmente , com as repollas que 
deu emmudecèraõ aqudles orgulhoíos impugnadores da 
fua original pureza. 

Ceifou a difputa , & levantados os Legados , começou 
o applaufo entre todos! No dia feguinte fe ajuntou a Uni- 
versidade, com os Legados, & em clauífro pleno , fazendo 

Tom, h F juizs 



8 1 Santuário Mariano 

juizo doacfio antecedente ,.& por elle inteirados os Dou- 
tores dá verdade do myílerio da Immaculada Conceição de 
,g Maria Santifllma (i 8)ct>mò tíferem muy tos. Autores, & fc 
Jo*n« vê em ]caõBaconio Carmelita ,& conremporaneo'dt Efco- 
ftw»* fo > m.idí'raõdte parecer. Approvíraõ com grave acordo a 
** 4- fente nça piedoza ., condenando, & prohibindo as cenfuras 
àift.z.. ojrpofías. ReceberaS-n^^ordóufrina própria da Univer- 
1* 4 * f dade } h zend ò foífe ebmmuá -, a que antes chamavam ff n~ 
í r/r 3 " guiar. E naõ contente aqnella itkflre TJniverfidade, jà fer- 
vòroíamcnte devota da Immaculada Conceição; com haver 
dado iam gloriofa approvaçaõ, a piedofa íentençâ, fenaõ* 
que par,! borrar de roxWâqafclle Decreto de MáUricio^cont 
çonfulta, &approviÇ^õdôBif^odeParis^fezvoto dece- 
Jebrar cada aiííio fo.lemnemente a fefía deíie myfíerio , or~ 
danando fcencomendaíTe fempre a MiíFa ao Bifpo, & o Ser- 
mão a Rum. dos feus Doutores. Também naõ íb prchibio 
queTeenfinaíTe a doutrina oppofla :. mas publicou aquelle 
celebre Decreto (em o anrtõdeq8?- . que depois imitarão* 
asmaísUniverfídadesj que naõ pudeíTe fer graduado ne- 
nhum £ogeito,que naõ juraíTe primeiro defender a pureza 
original de Maria Santiffima.. 

O Concilio Lateranenfe feito em tempo de LeaõX» 
confirmou a ..íintsença piedoza da Conceição,. no anno de 
t$tÇí O Papa JoaõXXlL pelos annos de 1% 1 6. mandou, 
celebrar a fefta da Corceiçaó (oito annos fomente depois, 
da morte do Venerável Efcoto , que fuecedeo no anno de. 
Í.JÒ8. que afiavia defendido) em a Cúria , concedendo in- 
dulgência plenária, como oefcreveoP. FrancifcoMartins 
** Carmelita , Autor daquelle tempo .(19) Sixto IV que fcy- 
Mart P c l?s.annos J 476. infiituio^&approvou humCííicio ei : - 
*>, t/at. P eci ?l da Conceição immaculada da Senhora para toda a 
àeCõi íg re J 1 i& concedeolhe todas.as.indulgencias,qae_eftavaõ 
V.M* concedidas á feila do, Sacramento. Júlio II. que regia a 
u*..Kt Igreja pelos annos de i$o|. também approvou a mefma 



Livro L Titulo Zf. S3 

feíla: & approvou a Religião $ que debaixo do titulo da Im- 
maculada Conceição, fe iniiituío. Paulo V. publicou hum 
Decreto em que põem perpetuo filencio nasdifputas^ & 
prohibe, que nem nas efcolas fe difpute , nem nos púlpitos 
íefeguiffe a opinião contrariai Conceição. O que exten- 
deo, & ampliou mais largamente Gregório XV. Tiiandando 
a todos em gerais aííim Ecclefiaflicos como Regulares , re- 
zem da Conceição immaculada, com nome daConceiçaã. 
Ultimamente Alexandre VII. por hum Breve declarou fer 
obje&o do culto ornyílerio daprefervaçaõ^&aíantifíci- 
Çaõ da Virgem emoinílante real de fua animação. 

Finalmente , a primeira Univeríidade que jurou de- 
fender a Conceição da Senhora, foy a de Paris, tf oy o jura- 
snento em 1 7. de Setembro de 1 497. & a exemplo feu a de 
Colónia, a q/fçguiraò outras muy tas q naõ refiro. A no Ta 
de Coimbra foy em 28. dejuiho doanno de 1646. por 
mandado delRey D. Joaõ IV. de gloriofa memoria ? o qual 
•ordenou íejuraffe a opinião favorável, obrigando fe a elía 
(todos os pcofeffores das faculdades , que nellafe graduaô , 
íendo Reytor Manoel de Saldanha Bifpo eleyto de Vifeu; 
& depois eley toem Coimbra, 

Pelos ânuos de 1 149. jà no noíTo Portugal fe celebra- 
va , & feiíe java a Conceição de Maria SantiíTima (20) como 
diz o Autor daHiítoria EcclefiaíHca de Lisboa, aonde ^ 9 ' 
traz: que em oito de Dezembro defte mefmo anno, dia con- /J ç Um 
íagrado à Conceição de Maria , á qual naquclle tempo íe n f, am 
tinha grande devoção em PQrtugal , como confia dos feus ? . 2 . Mu 
Breviários antigos; doara Elftcy D, Affonfo Henriques *.tf. 
trinta cafas para morada dos Cónegos, & mais Miniftros da 
Sè,& as rendas, & terras de Marvilía. Pouco depois, por 
dcvojaòdomcíino I^ty D. Affpnfo fe edificou hua Igreja 
cm a Villade Alcobíiçadedicada ao myfterio da Conceição 
daSuihora^choje períevera •sm£?eguefia,&.de.que ha- 
vemos de traur a diante. 

F 2 - Beks- 



20 



84 Santuário Mariano 

Pelos annos de 1320. depois daquelle folemne afta r 
quando Portugal fe via perturbadiffimo com as guerras 
civis, que havia entre ElReyEV Diniz ,. & feu filho o Prín- 
cipe D. AfFonfo , andando todos os Eíiadbs inquietos, na5 
faltou quem levado* de hum fanto , & reltgiofo zello acil- 
diííe a augmentar a devoção dos fieis , & ampliar , & em- 
grandecer o culto de Maria Santidlma proteítora da paz, 
(de que en tam fe neceííi tava tanto) como May do Rey paci- 
fico Chriíio jefu. Quem foy o autor deftá religiofa acção, 
foy o Bifpo de Coimbra D. Raymundò , Varam de grandes 
virtudes , & letras ; havia» entrado naquella Cathedral no 
anno de i^i 8. favorecido do Papa João XXII. Moflrou 
mais eflc Santo Pr elíado a fua grande virtude , em que fen- 
do a fua Dioceíi de Coimbra aaffifkncia doPrincepeD. 
AfFonfo , & aonde fomentou a guerra civil , que fez a feu 
Pay, nunca o Eifpo cooperou neftas. defordens , antes oc- 
cupadotodo no governo efpirkual de fuás ovelhas, fedcf- 
viou fempre das parcialidades- AflifKa ordinariamente no 
lugarde Vacariçn, três legoasde Coimbra. E para a fervo- 
rar aos feusfubditos,& mais fieis em a devoção, & culto da 
Mãy de Deos, promulgou hua conftituiçaõi em que orde- 
nava , & mandava , que na Cathedral de Coimbra fe cele- 
bra Te daquelle tempo em diante a fefla da Immaculada 
Conceição de Maria Senhora noíTa ^como fe vè deílas pa- 
lavras. 

Etfdelecemos > & mandamos , que nanolfa Igreja Ca- 
thedral de Coimbra,façaõfe&a em cada hum anno, no oitaVo 
dta do mi ^ de "Dezembro , no qual dia a Virgem glerwfa 
Santa Maria, foy concebida $ajim como afamem pelas ou^ 
trás terras yét como aella mandou fa^er. Eftas faõ as pala- 
vras fuftanciaes daquelle Decreto , expedido no lugar re- 
ferido a 17. de Outubro de 1520. Alludia aqui efte Santo 
Prelado as revelações que a Senhora havia feito defte my- 
fierio; como a de Santo Anfelmo^& outras- Imitando o 

zello 



Livro L Titulo XI. % 

zelío defte Santo Bifpo D.Ray mundo feti fucceíTor (alguns 
annos diante)*D. Jorge de Alrneyda appiicou renda, paraque 
todos os Sabbados doannofecelebraífe Miífa defta feiíi- 
vidade, 

Declara o Bifpo no feu Decreto , que efta fefta fecele- 
brafTe aílim como a faziaó pelas outras terrasjdaqui fe deixa 
verj, quanto eftava jà praticada , Steftendida pelaChriftan- 
dade;&não he de admirar, pois a deduzem do tempo dos 
Apoflolcs, os que propugnaõ a immunidade da Rainha dos 
Anjos. Mas com mais fervor, fe começou a divulgar por 
todo omundo,defde o tempo em que Santo Anfelmo em 
Inglaterra deu principio à liia celebridade : o que depois 
feintibiou por algum tempo com as contendas, & diípu- 
tas de França» Porém renovandofe outra vez , pela de- 
voção, & grande fabedoria do fútil Efcqto : a reftaurou em 
Portugal o noífo Bifpo de Coimbra D. Ray mundo , que era 
Francez, &refpekava muyto asrefoluções daUniverfí- 
dade Parizicnfc, & conformandofe comodifpofto por ell<i > 
depois das difputas do mefmo Efe® to; introauzio no noífo 
Reyno efta mefma fentença , dignamente applaudida de to- 
dos Oo fieis neiíe noífo tempo>&: naquelles mais antigos,re- 
cebida tsõ vulgarínente^m todas as províncias de Europa. 

A imitação daCathedral de Coimbra fefoydírivando 
nas mais com reíigioíá emulação. Eaííim a primeira foy a 
de Lisboa, na qual conforme o que fe vê do feu Kalendario 
antigo , Joaõ Efcola Cónego daquclla Sê , deu vinte libras 
da moeda daquelle temgo , para que a 6. dos Idus de De- 
zembro, que íaõ oito domefmomez, fecelebraííè a mefma 
feita : iítõ em quanto naõ affignava renda fixa. As pala v ras 
faõ eftas. 6- Uns Deambrts, tn tf! o Jje dehci celbrarc 
(entendefe o Cabbido) cwn fex capis fe&um Conceptio ms 
0'anãct Amue $ quando concepit Bcatam Miriam , & €úpi- 
tidum debet bxíere uujlo die vigviti UhrasJòanmsSckollu 
quoufque afltgwt pojfejjioms per qms diãm Capitulam 

i.om, L F 3 ' pojk 



t>6 Santuário Mariano 

pojfit babere diãam pecuniam. Efle joaõEfcola foy filho 
de Lourenço Efcola Porteiro mor daRainha r SantaIfabel, 
& dacreaçaõ da Santa Rainha devia aprender a devoção, 
que tinha a efle grande myíkrio. # 

Neflc tempo em que o Eifpo de Coimbra mandou cele- 
brar a fefta da Conceição i nmaculada da Senhora , mandou 
edificar > ou criyr em o Convento da Santiílima Trindade, 
ameíma Santa Ifabel Rainha de Portugal, hua Capella que 
dedicou a efle rnyflerio ^coilocando no feu Altar hua de- 
vota Imagem da me fira Senhora de veltídos; que ella mef- 
mo fazendofe foaaya^veflia,, Sc ornava > para farisfazer 
aflim a fua fervorofa devoção, vefitava-a muy tas vezes ne- 
fle tempo, os annos que efleve em Lisboa ,que naõ paffa- 
riaõ de quatro , porque no anno de 1 5 25. eflava em San- 
tarém aonde ElRey morreo. Com efta Santa Imagem ti* 
nha a Santa Rainha amorofos colloqutos, a ella lhe dizia 
muy tas finezas : & quando por haver fido efta Imagem (fen* 
duvida) a primeira que fe vio em Lisboa com efle titulo , Sc 
era razaô fe confervaífe, com toda a veneração, & culto, & 
fe ti veffe em tabernáculos preciofos , & ricos; hum impru- 
dente zello y (ao que parece) de evitar qualquer fombra de 
profanidade humana , nos ornatos daquella Santa Imagem, 
fez que os Irmãos da fua Confraria, mandaflem fabricar 
outra de talha, que collocáraõ em fçu lugar, recolhendo a 
primeira na facriftia da Irmandade , com grande pena ,& 
fentimentodaquelles^quecompiedofos affedos bufeavao 
naquella primeira Imagem os effeips de fuás devotas ora- 
çocs.Fez-fe efta muáança pelos ahnos de 1 670. pouco mais 
ou menos» 

Por morte da Rainha S. Ifabel, q foy no anno de 1 3 ; & 
deu feu filho ElRey D.AffonfoIV. o padroado defla Ca- 
pella no annode 1342. ao Almirante Manoel Peçanha para 
feu enterro, & agora hc dos herdeiros de André Soares da 
Yeiga , como CQnfta das memorias do Convento da Trin- 
dade* 



Livro L Titulo XI. 87 

dade. Fica efta Capelía immediata,aoarco daCapella ma- 
yor da parte daEpiftola. He fervida efta Senhora por hua 
niuytolufirofa Irmandade. 

Deite tempo para cà, foy fempre crecendo em mayores 
augmentos a devoção da Conceição Immaculada de Maria, 
& veyo a ter ainda mayor augmento noanno de 1 646. em 
2ç. de Março, que cahio em a T>omink acalmar nm ,no 
qual dia, juntos os três EftadosdoReyno em aCapella 
Real dos Paços de Lisboa, & congregados em Cortes de- 
pois de fc ler pelo Secretario Pedro Vieira da Silva,(depo& 
Bifpo de Leiria) o Decreto que omefmoRey D. JoaõIV- 
tinha feito, pelo qual jurou , & fez jufar a todos os feus 
Vaífallos aconfiíTaõ da Immaculada Conceição da Virgem 
Maria noíTa Senhora , aceitandoa por prote&ora de feu 
Reyno , & fenhorios, com feudo obrigatório de cincoenta 
cruzados em ouro, em cada hum anno â Igreja de no Ta Se- 
nhora da Conceição de Villa Viçoza , Corte , & afTento da 
Caía de Bragança. Comque,vcyo cile Reyno na fuaref- 
tauraçaõ aconfirmarfe na fogeiçaõ>quedelle havia feito 
em feus princípios olnvicflo Rey D. Affonfo Henriques, 
*queentaõ o fez fogeito a no Ta Senhora da Encarnação de 
Claraval , com feudo oíferecido também em Cortes de ou- 
tra tanta quantidade. Da Senhora da Conceição da Trin- 
dade de Lisboa eferevem muytos Autores, Cardofo no 
AgioLLuf Dom Rodrigo naHiftor.EcclefialVica de Lis- 
boa part-2.cap. 83 . 

Por remate deíle titulo quero pôr aqui o que fuecedeo 
tia Cidade de Ezija Arcebifpado de Sevilha em 1 7. de ju- 
lho do anno de 1605. em que hum menino de quatorze 
xnezes >que naõ fabia, nem fallar, nem articular palavras. 
A éftc dizendolhe fua may que era devotiílima da Puriffima 
Conceição de Maria Santiífima ,que cantaTe as coplas da 
Virgem da Conceição ; & cantou defla forte , com admira - 
çaõ dos que o ouviram, com palavras muy expreífas. 

F 4 Toio 



8 8 Santuário Mar iam 

Todo el mundo en general 
A Vo^es Reyna escogida» 
Diga que fois concebida 
Siri pecc.ado* original» 



T I T U L O XII. 

T>a Imagem de nofa Senhora da Graça do Convento de 
Santo Agojlinko» 

NO annode 1362. emoReynado deElRey Dom Pe- 
dro I. de Portugal x ou alguns annos- antes deite > fe- 
gundofecollige de algíis Autores , lançarão certos pefea- 
dores da Villa âc Cafcaes, (íituada cinco legoas de Lisboa 
rio abaixo paraa parte do Gccidente) fuás redes ao margem 
a Vigília da Affumpçaõ de noffa Senhora, com animo de lhe 
offe recer tudo o que tecolheíTem naquelle lanço : & como 
cm outros que haviaõ feito antes, tiveraô grande quanti- 
dade de pefeado, pareceolhes feria aquelle lanço mais co^ 
piofo, pela devoção, & piedade com que o haviaõ offereci- 
do à Virgem noífa Senhora. Foraõ também afortunados. 
em o lanço , que ao levantar das redes asacháraõ naõ fó 
cíkyasdc toda a variedade de peixes ; mas preza pela parte 
de fera emhua malha , hua fermofa Imagem daquella Se- 
nhora aquém haviaõ ofFerecido myfíeriofamente o lanço; 
Admirados deite prodígio,, os pefeadores, & muyto mais* 
de que a Santa Imagem eítíveífe femlefaõ algua da agitação 
das ondas, fendo a Imagem de efcultura, & eilofada: antes 
a viaõ taõ frefea no encarnado doroífc, & colorido das 
roupas ) que fenaõ via nella a mais leve macula r nem cor- 
rupçaõ^comque a humidade das aguas coíluma defanimar 
a graça,,&a vivefa das pinturas., 

Aviftadefias maravilhas x que na Soberana Imagem fe 

reco* 



Livro I. Titulo XII. 89 

reconheciam, poli rados osventurofos peicádorçs diante 
delia a adorán;© ; & ao precioíò Filho Menino >c A ue trazia 
em os braços ,. com humildade profundiflíma : porque alem 
de fe reconhecer que diflillava em os refplardores que 
acercavaõ abundancias de graça > &fermoíúraj era tanta 
a mageítade,& belíeza de feu roíio > que lhes infundia em 
as almas hú fobrenatural refpeito« Naô acabavao de agra- 
decer à Senhora o lanço que íhesdera, &que cem eíles 
havia tido tam aventajado ao da fua offerta ; pois fora fer- 
vida de fe lhe dar afimefma^emremuner^taõdo lanço dos 
peixes que lhe haviam oíFerccido. E attribuindo efie bene- 
ficio a particular mercê ,& graça da Senhora 7 naõfem fu- 
perior deftina-a começáraã a invocar com o titulo de Santa 
Maria da Graça. 

Tanto que fe divulgou efte fucceíTo, concorreo a gente 
do contorno a ver, & a adorar a Sacra tiflima Imagem da Se- 
nhora j&difcorrendo fe feria mais conveniente levantar- 
lhe Altar emaquelle fitio, oulevaremna a algum Templo 
circumveíinho > cmquefoíre dignamente venerada. Refol- 
veo a fua perplexidade a voz de hua menina de peito x que a 
mulher de hum dos peícado: es trazia nos brrços; dizendo. 
Efta Senhora quer que aleVem ao Mo fieira- do* [em Frades, 
Chcyos de alvoroço os pefeadores com a voz daquella me- 
nina,, cujo dito tiverao por celeftial oráculo; emofeguinte 
cii^cuefcy odefuaglcriofa Affumpçaõ, acompanhados,, 
& guiados por aquelfa divina Effrella , & verdadeiramente 
Eítrella do mar; tomíraão caminho de Lisboa r & atravef- 
fendo aCidace pelomeyo, naõ paráraòfenão em o Con- 
vento de Santo Agofíinho 7 aonde entregarão aos Religjo- 
fos delle a Santa Imagem,, relatando tudo o que com ella; 
lhes havia fuecedido. 

Cheyos os Religioíos de Rua inexplicável alegria , fi- 
carão fabendo que a Soberana Senhora os havia efcolhido, ; 
garafeus Capei laens;& movidos todos dchíí devoíiffimo 

aífedia, 



^o Santuário Mariano 

afFecfto,fe davam afi mef mos o parabém de tam boa fortc^ 
tendofc por fummamcntc venturofos , pois achavaô graça 
cmos olhos de Maria Santiíllmi para lhe ferem agradáveis 
feus obíequios. Ordenarão logo hua folemne prociffaõ, 
cm que ieváraõ a Santa Imagem , & depois a collocáraõem 
o Altar mor com a devida reverencia. E cantando diante 
delia com grande devoção a Salve Regina, deraõ principio 
à dtvoçaõ q ha naquelle Convento de fe cantar folcmnif- 
íimamente todos os Sabbados, efta agradável Antiphona 
daSenhoratmofeuAltar: e>ercicio,que logo fe praticou 
em todos os mais Conventos da Província Eremitica de 
Portugal. E em breve tempo fe cflabeleceo em todos os 
mais Conventos da Religião Auguftiniana, Obf. r vante, & 
Recoleta* 

Efla Antiphona àa Salve &>gwd,dizGavanto , tivera 
por Autora Pedro Com poflellano como quer Durando; ou 
a Hermano Contrado , como quer Tritemio. juliano, diz, 
que os Apofblos a compuzeraõ e n Grego , & que do Gre- 
go a traduzio D. Rodrigo Arcebi po de Santiago, na feido 
na Suécia dos Condes Veungenfes , &' que efie entrara na 
Ordem de S. Bento pelos annos de 1040. Gregório IX. 
mandou que ferezaífe nas Matinas, no armo de 1239. por 
todo o mundo; por occafiaõ daperíeguiçaõ,quelhe moveo 
FedericoII. na Igreja, ôebuícando remédio para quieta- 
ção, & foccego delia mandou ao Clero a cantaffe , para que 
a Virgem Senhora lhe alcancaffe a deYejada paz. Paulo V. 
conerdeo duzentos dias de indulgência aos que fe acha- 
rem prefentes nas Igrejas da Ordem de Sam Domingos , 
quando a cantão* Atè o aftno de t z% 9. fomente fe dizia : 
Regina Xftferkordi*; &node 1568. feacrefeentou em to- 
da a Igreja Miter Mife>'ic>rdi<t> Bem podia íèrque a ex- 
emplo da Religião Auguííiniana , acomeçaífem cm outras 
Religiões, aonde naõellava tam aííentada a dizer, com a 
grande íolemnidade que hoje fe faz cm todas. 

OCon- 



Livro I. Ti tu/o XII. 91 

O Convento naquelle tempo era dedicado ao grande 
Cotitor da Igreja S. Agoflínho,noffo Padre , cujos prin- 
cípios eraõdoanno de 1271. porque fe havia tresladado 
do fitio de Sam-Gens * ou de noffa Senhora do Monte, como 
hoje fe chama, ( & também paraefte haviaõ paíTado do pri- 
meiro que tiveraô no tempo que Lisboa foy reflaurada dos 
Mouros por ElRey D. Affonfo Henriques, o qual Conven- 
to fe Sundou no mefmo anno de 1 148* & o fegundo de S&m 
Gens teve principio noannode 124:5.) para o fitio em que 
hoje fc vè: & com a occafiaõ da vinda da Senhofa da Graça, 
perdendo o titulo deS* AgoflirJho, conftrvou, Sccon- 
fervará perpetuamente o de noffa Senhora da Graça. 

Achafe em osrefiftos da Ordem , no tempo do Revê- 
rendiffimo Geral Fr.Francifcodo Monte Rubiano, oitavo 
Gerai de toda a Ordem Augufiiniana hua patente , paffada 
cm 5. de Março de 1 3 05. em a qual ordena, que o Mofleiro 
de Santo Agoflinho de Lisboa fe dedique a Virgem noffa 
Senhora , em comprimento, & fatisfaçaó de hum voto , que 
em nome de toda a Ordem havia feito em Roma diante da 
Imagem de N. Senhora do Populo,qefíá emhu Mofleiro da 
meíma invocação , & da mefma Ordem , (ainda que da Con- 
gregação deLombordia) venerada com fuperiores cultos 
pela tradição que ha de fer, ver dadeiro retrato da Mãy de 
Deo s, copiado por Sam Lucas, do mefmo originaI,que re- 
prefrnta. Naõconíta porem naquella Provincia , da exe- 
cução da tal patente ; nem das Efcrituras daquelle tempoíe 
collige mudança algua, em o titulo de Mofleiro» O que 
ftippofto fica fendo manifefb que os Religtofos Agofti- 
nhos deite Reyno , nem em feus princípios ,nem nas mu- 
danças de Conventos , nem por obediência do Padre Geral 
fe chamarão Frades de noffa Senhora da Graça , fenaô do 
tempo em que efta Senhora os efeolheo por Capelíaes léus» 

Sendo- Provincial da mefma Provincia o Venerável Pa- 
dre Fr. Miguel Valente* pelos annos de 1^64. dous annos 

depois 



$i Santuário Mariano 

depois que a Senhora vey ), pira o Convento ; mandou que 
no Altar da Senhora, janaquelle tempo titular do Conven- 
to, fecantáffe todos os Sabbados huaMtíía da feílada An- 
uunciaçaõ: Tor Ji^er o Eu wgeihi (íaõ as palavras da Ley) 
que nefte myfltrwlhe chamou o Anjo ch<y& de Graça. Da- 
qui fe colhe que tanto que a Senhora entroiuiaquelle Con- 
vento perdendo eile o primeiro titulo que era de Santo 
Agoílinho, fe denominou oMofleiro denoífa Senhora da 
Graça; & em veneração deííe honorifico appellido, lhe 
mandava o Provincial cantar MiíTa todos os Sabbados. O 
que ajudou tambern a confei vaçaõ defle novo tkulo , íby a 
multidão dos milagres , &: maravilhas que a Senhora logo 
começoua obrar^&agrande devoção,, que todo o povo lhe 
tinha, Eaflim era notável oconcuríò^ôc a continua fre- 
quência dos devotos,, que buícavaô a efla Senhora com ro- 
marias ^ St novenas. Daqui começarão a fer chamados pelo 
mefmo reípeito, Frades Gracianos^ os que ate alli não eraõ 
nomeados fenaõ com o titulo de Frades Agoíiinhos , como 
filhos donoílb Patriarcha ; & verdadeiramente entaó co- 
meçarão a fer fi!hos de noíia Senhora, & frades íeus, como 
a Senhora os nomeou pela beca daquella innocente meni- 
na , que dos peitos de fua mãyproferio o que a Senhora 
queria. 

A grande devoção que todos começarão a ter a eíla mi- 
íagrofa Senhora, defpertou nos feus devotos , inftituirem- 
ífe em o mefmo Convento hua luílrofaGonfraria<,&:hea 
mai s antiga de quantas ha em Lisboa : que em breve come- 
çou a fer muy to rica comas íiberaes efmolas, que a piedade 
dos fieis lhe offerecia. Paítavaõ de vinte mil os Irmãos que 
fe numerarão emonnno dei 401. fendo as Peílbas Reaes, 
& os Fidalgos mais illufires 7 os que comi eu exemplo mo- 
viaõ os popular vS^ a eík piedpío, & devoto exercício. Os 
peícndores, ôcmariantes eraõosrmis contínuos , no fer- 
yiço da Senhora, & íe confervirap muy tos annos nefigi 

poífe 



Livro L Titulo XII. 93 

poííe cm rremoria de haverem elles trazido àquelle Con- 
vento a Sagrada imagem , & por efla caufa hiam todos os 
Sabbados aíTifiir à íua MiíTa P offerecendo os pefeadores fuás 
offer tas de peixe> & os mariantes as efmolas que. tiravaó no 
mar, em remuneração de hua vela benta y que lhes davaõ os 
officiaes da Confraria em nome da Senhora; aqualacen- 
diaõ quando fe achavaõ em algua tempeftade > & perigo de 
Coífarios ,& comefta fé experimentavas continuamente 
eífeitos milagrofos. 

Serviaô naquelles tempos de Juiz da Irmandade os Sc- 
renifíimos Infantes D, Henrique ^ terceiro filho de Dou* 
Joaôl. & feu irmaõ D. Affonfb, primeiro Duque deBra- 
gança> & outros Fidalgos da mayor nobreza ^afTeguranda 
com o patrocínio da Senhora o vencimento de perigos r & 
os bonsfucceíTos em occaíioens arirXcadas, comovo experi- 
mentou Matthias de Albuquerque, que fendo Vice-Rey da 
índia , quando lhe difparáraõ em os peitos hum mofque te 
reforçado; naquelle inevitável perigo a Senhora ofoccor- 
ro com taô opportuno , & efficaz auxilio , que o meímo fojr 
dizer: Virgem da Graça de Lisboa Vakim e;quc cahiremlhe 
os pellouros aos pés, fem o offender; quebrandolhe porém 
a vidraça de hua lamina da Senhora , que trazia em o peito, 
para final de que alli topara. Em memoria defla maravilha 
mandou pòr em o feu Altar , dentro em hum caixilho o pel- 
louro pendente de hua cadea de ouro, que ainda fe con- 
ferva na facrrflia do Convento. 

Noannode 1474. era official da Confraria ©Beato Fr. 
Joaõ de Eflremoz , Religiofo da mefma Ordem , a quem a 
Senhora appareceò, fendo fecular, junto ao lugar do Lu- 
miar ,indoacazarfe :& dizendolheque fe voltaífe , porque 
ella queria fer afua verdadeira Efpofa r & que logo fofíe à 
ília cafa , aonde a ferviria toda a vida : oque elle cumprio 
pontualmente, tomando o habito de Religiofo Leigo no 
meímo Convento,, no qual viveo muytos ânuos , fervindo 

a Se?- 



94 Santuário Mariano 

a Senhora com afervorado efpiráo., & morrco com repu- 
tação de Santo em o anno ck 1517-. 

Foy também Irmfa daqndla Irmandtde «, a Sereniifima 
Infanta DnMaria/akírnafaha deiRey D Manoel, a qual em 
o anno de 1 52.8. £má£l Juizi da Irmandade , mandou cu- 
brir de prata batida todo o corpo da Imagem da Senhora,, 
que he cè madeira cVcypreíte;, ficando looroíto,&ae 
mãosafTim da Senhora 7 -como do Menino Jeíus ? que tem 
nos braços por cubrir . Alem das líberalifTimas eímolas, de 
ornamentos, ôcjoy as com que eí te devota Princeza enri- 
queceo a Irmandade da Senhora, de que muy to fe prezava 
der álurnnaem fua vida) por lua morte lhe deixou o Breviá- 
rio por onde rezava todos os dias o officio divino ., & o da 
Senho 'a;o quaVhe de letra demaõ eícrito em pergaminho 
fino encadernado cm veludo verde com broxas ? & guar- 
nições de prata. .Efle Breviário levou o Arcebiípo de Bra- 
ga D- Agoftinhode Caflro, para o Santuário do leu Coilc- 
giodo Populo^ aonde fe con ferva , & moflra como joya de 
grande preço. 

Antes que ElRey D. Joaõ I. alcançaffe a memorável 
batalha de. Aljubarrota delRey D. Joaõ % de Caflella, emo 
anno de 15 85. Dizem as noffasChronicas 4 os Morado- 
res de Lisboa faziaõ votos a Dcos N- Senhor , & a lua Máy 
Santiflima-, para que os quizefTem ajudar y& comonaquelle 
tempo foíTc a Senhora da Graça tam venerada, '& bufeada 
pelos muy tos milagres que Deos por ella obrava; fe fizeraõ 
alguns deíies votos na prefenca de fua Santiflima Imagem. 
Nefla occaíiaõ íizerão certas Matronas virtuofa^s de Lis- 
boa hua novena anoífa Senhora, pedindolhe melhcraíie 
a caufa dos Por mguezes : & antes de concluída vicaõ a fua 
petição bem deípachada : porque na-mef ma -hora em que ,fe 
deu a bataiha em os Campos de Aljubarrota , ft foube em 
Lisboa o fucceíTo delia , declarando a Senhora , haverem 

alcançado vitoria. os Portuguezes. foy efle fucçe^° n °- 

tono 



Livro I. Titulo X1L ' 95 

tório em a Cidade , Separa perpetua lembrança fôeraõ o 
Cabido Ecclcíiciiuco>& o Senado da Camará da mefma Ci- 
dhde hum inviolável voto > de hirem todos os.annos em o 
mefmo dia da batalha ao Mofieiro de nofla Senhora da Gra~ 
ca, em proctffaõ com aquella. íblemnidade ,,& fefla que co- 
fhimão fazer em o dia do Corpo de Deos, a dar à Senhora 
as graças da vitoria. Efla íblemnidade feextinguio em o 
anno de 1.58 1. com a entrada dos Reys de Efpanha neíte 
Reyno ; renovoufe depois em o dei 641. com a fellice ac~ 
clamaçam do Sereniilimo Rey D.Joaõ IV- 

Tamniunerofo era o cencurfo dos forafleiros *que de 
todòo Reyíio vinhaõ a.dar à- Senhora as graças de fua li- 
berdade, a 14. de-Agofto,. dia emquefe deu abatalha , que 
por não terem alojamento na.Cidade para todos,, fe accom- 
modavac em turmas pelos arrebaldes do Mofleiro ,f cando 
as portas da Igreja toda a noy te abertas,, para ccmmayor 
comrnodidade íecfferecerem.à Senhora. Depois de com- 
prido o voto de fua romaria % com infirumentos , & muíicas^ 
cantava õ. à Senhora os louvores da vitoria, o que faziam 
também pela Cidade, dandoihc de madrugada alegres alvo- 
radas.. Era naquelles tempos tam grande o alvoroço, & a 
alegria dos Portuguezes ,,comos repetidos vivas daquelk 
vitoria, que cada dia dafefla da Senhora , lhes parecia hum 
dia de triumpho* Autorifava mais efia romaria hua gran- 
de feira,que o mefmo Rey D.. Joaõ I. franqueou de todos os 
tributos. Efía fe e^tin^uio; no mefmo, anno de 158 1- em 
que fe fufpendeo a prociíTaõ- 

Concederão os Reys de Portugal grandes privilégios 
aos Irmãos da Confraria da Senhora ,. como farão Dom 
João-L D. Duartc,.D.Affonfo V. D.Manocl , D.. João IIL 
dos quaes> feconíervão. ainda noCartorio da Irmandade 
muytos Alvaris. Os Summos* Pontífices Iheconcedérão 
também muytas graças , i 8tindiiígqicias ? & outros privi^ 
legio5,& indultos Apoflolicos perpétuos ^ que fe podem 

ver 



$6 Santuário Mariano 

ver largamente em o livro intitulado Família Augnfiinm- 
na. O Papa Bonifácio. IX. concedeo noannode 1400. a 
todos os Cem frades por cada vez que viíi tarem o Altar da 
Senhora, em todos os Sabbados do anuo , & Domingos da 
Quarefrm, fete annos de perdão das penitencias importas, 
& que o ConfeíTor por elles efcolhido os poffa abfolver no 
artigo da morte de todos os peccados, & ceníuras, & con- 
cederlhes indulgência plenária. 

O Papa Pio 1 V.paííòu no anno de 1 565 . hua Bulia per- 
petua, para a Confraria da Senhora, em a qual concede a . 
todos, & a cada hum dos fieis Chriftãos , que conte (Tados , 
&commungados viíitarem o Altar da Senhora da Graça, 
em as feitas de fua Conceição , & Affumpção , & a hi reza- 
rem alguas orações, pelo feilice eftado da Santa Madre 
Igreja, Indulgência plenária ,&remiflaõ de todos ospec- 
cados , &lhes dà faculdade para elegerem ConfeTor ap- 
provado que osabíolva de todas as fuás culpas , crimes, 
cxceffos,quehajãocommettido por mais graves , & enor- 
mesque fejão, Sc ainda dos peccados refervados à Sè Apo- 
llolica, excepto os da Bulia da Cea: & que o ConfeíTor lhes 
poflfa commuttar quaefquer votos , em outras obras pias, 
tirandq-os de Jerufklem, Roma, Compoflella , &os de Ca- 
ftidade, & Religiam. E quer queefía graça dure para fem- 
pre , & fe naõ comprehenda fobre quaefquer fufpencoês , 
revogações., refhçoes j >& limitações de femelhantes Indul- 
gências. 

Não contentes os Irmãos com eflas , & outras muy tas 
graças procurarão unir à fua Confraria, a Archiconfraria 
da Corrêa de Santo AgoíHnho , cue fe iníHtuío na Cidade 
de Bolonha debaixo do titulo, & patrocínio deN. Senhora 
da Confolação, pedindo ao Reverendiffimo Padre Fr.Ago- 
flinho Corneto Vigário Geral que entaõ era da Ordem de 
Santo Agoftinho, a uniífe , & agregaffe a de Bolonha , pela 
autoridade de hua Bulia de Gregório XII L paílãdano 

anno 



Livro I. Titulo XII 97 

ânno de IÇ79. Foraõ paífadas as letras dauniaõnoanno 
de 1599. & defde entaõ ficou incorporada m de no Ta Se- 
nhora da Confolaçaõ de Bolonha 3 & por vimdc delia go- 
zaõ todos os Irmãos, & Confrades as graças, & indulgên- 
cias, que concederão mais de cincoenta Pontífices. 

Sendo pois a Confraria defta Senhora a mais nobre , a 
mais antiga de todas as q hacm Lisboa, & a mais acredita- 
da emfeus princípios, pelos contínuos milagres da Se- 
nhora , a mais affifiida , & frequentada dos Príncipes da, 
terra, a mais honrada com privilégios , a mais rica de gra- 
ças, a mais cultivada com orações, amais abundante de 
Fuffragios , & finalmente a de mayor gloria da Senhora; 
veyo a<lefcair tanto, que por alguns annos , quafi naõ. ha- 
via noticia do que havia fido. Porem do tempo da acclama- 
çao, tornou outra vez acrecer com nova, & fervoroía 
devoçaõ;& naõ fe deixou de reparar que começara oefque- 
cimento * quando fe fulpendêraõ as procí (Toes com a uniaõ 
a CafteNa, & fe renovou com a contínuaçam delias. 

He efta Santa Imagem, como fica dito, de madeira de 
Cipreíte, mas eftá toda cuberta de prat% excepto o ro- 
fto , & mãos da Senhora , & o rofto , & mãos , & pês do 
Menino, que eftá em pè fobre obraçoefquerdoda May; 
tem a Senhora de alto pouco mais de trespalmos. Nos feus 
princípios fe collocou no Altar mayor da Igreja velha, 
aonde perfeverou ate o anno de 1 564. em que foy tresla- 
dada pelo venerável P.M.Fr. Luis de Momoya, à inftancia 
dos Irmãos da fua Confraria, em a reedificaçaõ do novo , & 
fumptuofo Templo , q hoje exifte , Cara a Capella do cru- 
zeiro que fica à parte do Euangelho , que hc deexcellente 
fabrica, & de preciofas pinturas ; obra, & defpeza de Lus 
Comes da Matta,Gorreyomòr deík Reyno, Vara© de 
grande piedade, pelas grandes efmolas , que exerci touem 
v"da,& legou na morte,o qual a dotou com grandeza. Nelfó 
-cita o Santiffimo Sacramento, & a Senhora em hua linda 
Xom. L G írib^iu 



^8 Santuário Martam 

tribunaricamenteornaiaj&ciiHerta comdobradas corti- 
nas. Efcrevem da Senhora da Graça de Lisboa muyto& 
Aurores, como fae o Padre Doutor Fr. Manoel Leal cm 
hua Relação particular 7 Fr. Joaõ Marques na origem de 
Santo Agoftinhocap.19. §. 3. Herera no Alfabeto Augu- 
íKniano 1. V. deMonafl. Fr. Phelippe Elíio no Encome- 
aiiicon^pag- 667 \ Fr. Joaõde S. Jofeph na Família Augu- 
fliniana foLçK?.& * 1 1. Joaô Baptiza Efpada,, no Summario 
das índu ! g>ncias da Corrêa pag. 27* Fr- António da Nati- 
vidade nos Montes ,& Corois deS. Agoftinha monte 2* 
coroa 1 . $. *; n. 4. Fr. Luis dos Anjos de Vita , & laudib. 
SrAugwfí. liv.4* cap.4. Fr. Anton- da Purificação , Fr. Ja* 
cobus V vikmart m hiit. facrat. par. 1 . cap.58- o Arcebiipo 
Fr. Aleixo de Menezes >. & outros ,..& as memorias do Ar* 
chivo do Convento da mefma Senhora, 



TITULO XIIL 

VaLmgeif denoffa-SenBota daLtt^emCarnicfe* 

ADoráraõ antigamente os Gentios o Sol ^dandolhe ,& 
attribuindolhe divindade,^ ainda hoje ha muytos na 
AM X & na Africa y que por fnlta da luz Euangelica cahem 
neíie trro)os Egypciosoadoravaõ com o nome deOíiris, 
outros com nome dcPhebo, outros com nome de Apollo: 
os Ferias com nome de Mithra ; & finalmente outros 7 de- 
baixo ce vários nome5,.& títulos ,lhedavaõ adoraçcens p; 
como fefoííeDeos: &buícando nefle planeta a luz^ eíia 
mefma lhe fervia de trevas, & efeuridade na crença : & eha- 
mandofe aquclles na divina Efcriptura trevas ^tanto que 
cheg,aõ à Virgem Maria^flc a Virgem com fua oraçaõ> & pa- 
trocínio aelles, ficaoGentio,&o Mouro hum Sol :J^/<3 
imòra» ó Virgem da melhor luz »non obfcurabuntur a 

th 



Livro L Titulo XIII: 99 

te , & nnx ftcut dies illwninabitur, porque as treva^iflohe, 
os «que virem às efeuras , & tanto às efeuras que parecem a 
tneima efeuridade , fem luz alguma do conhecirEcuto de 
Deos , naõ íèraõ efeurecidos , antes alumiados por vós ; de 
«nodo que a raoyte de íua ignorância fc imdc em h um claro 
dia , 5c de melhor Sol , que de vós faindo feus ray os , como 
fimbrias de yoííòvcftido, alumiem a todos aquelles , que 
fora de vó s cegavaõ com os rayos , & f ermofiura deik Sol 
eresdo. Vós fois a hiz que o Senhor fez para alumiar efhs 
trevas ,figmficadas já naquelia com quem logo no princi- 
pio fallou: Ttixitque Deus: Fiat lux: quafijam diceret Ma- 
r/«e,explica Kvc^túOftlludlfaUiDeditte in lucem gentium. 
Deos vos deu ó Virgem da luz para luz das gentes, pedilhe 
«qucToí&s rayos penetrem o fundo doscoraçoes mais tene- 
hffofos , para que íê deixem ver, Sc vejao aqiaella luz merca- 
da, que começanâocomo entre vapores, & nuvens do Ori- 
ente defla vida, Uicappareça clara no meyo dia da outra : & 
afim feri; porque diz voflo fervo o Beato Cyrillo : Marta 
adjutrice veniunt gentes tdptKmtentiam* Sem duvida dos 
*pocaeílcs cegos defejavaô lhes apparecefle a verdadeira 
luz, foy invocada Maria Senhora noíTa comeíle luminoíò 
titulo, com que veneramos hoje a fua imagem da Caridade,, 
CMJahiíbriahe defta maneira, 

Alguns annos antes do de 1 463 . foy cativo em Africa 
humventurofo homem, chamado Pedro Martins, que fen- 
do natural do lugar de Carnide , termo de Lisboa , íituado 
fiíia legoa diítante para o Noroeíte, & faindo, como íuecede 
a muytos^a bufcar vcntura,<kucomíigorao Algarve,aonde 
cafou comhua mulher por nome JnezAnes: 5c voltando 
com cila para Carnide y vtvconcfle lugar alguns tempos 
commofíras de virtude, 3c Chriíiandade. Por vários fuc- 
cefíbs foycatiyoem Africa, naõfe fabe com certeza em qtíe 
tempo f®ífe;cre-fc que íeria no tempo ern que ElRey Dom 
Atíonto V» paitou li^aoiide Gcativaíraõem alguma íaida. 

G 2 Por- 



roo ° Santuário Mariam * 

Porque confia, que veyo a Poiscugal por favorde nofla Se- 
nhora no anno de 1 463 . Entendefe que o tempoqut* eíie- 
ve naquellas infernaes masmorras de Afriea^íèria Jargo^ & 
também grandes as vexações,,^ crueldades , que nellas pa- 
deceria r que ajudado da graça divina ,,tolerou comgrande 
paciencia^aonde fe naõefquecerla de invocar a piedofâ Májr 
dos pccc2dores> de quem era muyto devoto; para q oaju- 
daíTe a levar aquelle trabalho ~ ao q a mifericordiofa Senho- 
ra naõ faltou; Porque lhe appareeeo cercada de refplande- 
centesluizcs^cuja vifita ellcrecèbeo comadmir avel devo* 
çaõ^como fempre tivera^ E naõ foy iflo híia vez fomente^ 
n as muytas no efpaço <k trinta dias: & íntíruindo-odoque 
intentava obrar por feu- meyo ^lhediílct. Filho ^confolatc 
que eu rc livrarei deíle cativeiro ■„ com tanta r quevendote 
em tua liberdade^me faças.no lugar de Ca£nide,em que na- 
cefie , fobrea fonte do Machado huma Ermida, conforme 
tuas podes ^da invocação da Senhora da Luz> por fer cite 
titulo^ o que mais comigoíimboliza > &de que meu Filho 
mais fe agrada , n&quai ha de fer meu nome glorificado, 
honrado > & augmeiuado com innumeraveis milagres, 
obrados naquelles,.que com fé viva fe valerem de minha 
poderofa interceffaõ. E advirtotc,que quando là chegares* 
acharás de minha ÍU!Z> & claridade ve£tigios r que teus na- 
tura es e^ perimtntáraó ha perto de hnm anno ,fobre a mef- 
ina i brite- Alli cavando acharás. hua Imagem minha,,a quem; 
dedicarás aFrmida que te digo/ 

Eepois deram celefliaesvifitas que teve o devoto Pe- 
dro Martins x com grande jubilo,. & alegria de fua alma^ 
cílandopelo partido,,& coneereo que a Senhora lhe fizera,, 
fe achou por fobren^fural^&ineíFavel modo, livre do pc- 
nofo cárcere , & cativeiro >coi!i. os raefmos ferros ,& gri- 
lhoens que o tinhaõ prezo > na fna própria terra ,átcafa. 
Divulgada a nova defaa milagrofa chegada, veyo logo híi- 
âufobrinha vifítallo^mas eflie como era muy íingcUo-^Sc: 

dotiídb 



Livro L Titulo XIII. 101 

dotado deíanta íimplicidade , naõ ie atrevia a defcubrir 
(ainda a fua mulher) asmilagrofas appariçoes que tivera 
no cárcere; praticandofe entaõ nas luzes , & refplandores, 
que appareciam havia muyto tempo fobre a fonte ds Ma- 
chado, revelou o fegredo que tinha efcondido em feu pei- 
to, contando miudamente o apparecimentoda Senhora , & 
circunítancias dellc. Obrigáraõ-no logo aquequizefle ir 
à fonte a defcubrir o celeílial thefouro; & deixando-o para 
anoyte,íe partirão no mayor íilencio delia os três ditoiòs 
companheiros : convém a faber, Pedro Martins , fua mu- 
lher, & fobrinho ; levando por guia hua miraculofa luz, à 
maneira da EftreUol que encaminhou os Magos ao portal de 
Belém: porque affim como elles davaõ o pafíò, aífim também 
fe mpviaorefplandor daquella tocha, ou luz, até que pa- 
rou em hum eípeffo bofque. 

Vendo Pedro Martins, que o Ceo demonílrava íer eíle 
o campo que guardava á pedra preciofa da Imagem Sacra- 
tiflirna,cheyos de efpirito , refpeito , & devoção , tanto ca- 
varão alli, até que foy achada fobre hua lagem de fino már- 
more ; ou dentro de hua caixa de pedra cuberta com a la- 
gem. Pareceolhes que eílava a Senhora veítida de Sol, &? 
çomhum roílo tam bello, & tam fermofo,que alem de fe 
reconhecer de quem era , parecia fer obrada pelos Anjos : 
roubava com a fua graça os corações de todos os três com- 
panheiros, &pofto que cada hum delles lhe dava mil reve- 
rentes ofculos, Pedro Martins (como mais obrigado) co- 
nhecendo ícr a própria que lhe apparecèra, com incrível 
devoção poílrado por terra, & derramando copiofas lagri - 
mas defeus olhos, lhe rendia a alma com todas as po- 
tencias. 

. No proprio.lugar fe lheerigio lo^o hum Altar e n que 

a collocáratii. E divulgada a nova da maravilhou appari- 

eaõ, concorreo o povo com grande fervor a venerala : & a 

Penhora feita hfia perenne fonte de faude P começou a obrar 

Lom. I. G J ai 



i o i Santuário Mariano 

as fuás cofíumadas maravilhas. Neíle comenos fe partío 
Pedro Martins para o Algarve a vender huma fazendinha 
que lhehaviaõda.do em dote , para com o preço delia co- 
meçar a defempenhar a íua promeíTa , donde voltando com 
a mayor brevidade, deu conta de tudo a Dom AíFonfo No- 
gueira, (que entaõ era o Bifpo de Lisboa) para que lhe con- 
eedeífe licença para fundar a Ermida; o qual, como Varam 
Santo ? o teve por grande alvitre, &naõfó lheconcedeo a 
licença, mas feoíFereceo a lançar a primeira pedra, &tud* 
ornais que íaíTe neceffarib, dandofe os parabéns de fer tarra 
ditofb , que nofeu governo fuccedeífe tam eftranha ma* 
ravilha. 

Deputado o dia , revcftído em pontifical , prcfente El- 
Rey D. AíTonfo V. com toda a Corte ,fe fez a ceremonia 
com extraordinária foíemnidsde, & alegria» A Ermida po- 
íta que na fabrica humilde, & limitada, como Dcos a tomou 
àfua conta > em poucos dias fe reconheceo nella,que as 
mãos dos Anjos obravao muytomais que asxlos homens» 
Noferviçodeíle íàgrado Santuário, & milagroío domici- 
lio fe perpetuou Pedro Martins, atè acabar ávida fanta- 
mente no obíèquio daquella miraeulofa Senhora. Na mef- 
maFrmida collocou os me finos ferros com que eítívera 
prezo em o cárcere ^que quiz a Senhora os trouxefle para 
nuvor uemonftraçaõ do beneficio -osquaes(queeraõhuas 
cadeasgroífas) fe conferváraõ muytosannosnaõ fó na Er- 
mida velha, que o mefmo Pedro Martins havia fabricado ^ 
mas na nova Igreja que depois fe lheerigio , para perpetua 
lemt rança de ta© cftupenda maravilha ^como a Senhora 
havia obrada, &ccmo ainda hoje fe vè emalguas pinturas 
deikfuccelo , principalmente na que eílá a írefco em hua 
parede da facriilia, aonde fe lè efíe dilHcoí 

Virginis intuitu recreatus Tetras ah Afris 
Iv pátrios remeat compede liber agros.. 
Tomou poífc a Rainha dos Anjos da pobre Ermida que lhe 

edificou 



Livro I. Titulo XIIL 103 

edificou o feu devoto Pedro Martins : & foy tam grande a 
devoção que o povo, 8c nobreza de Lisboa tomaram à San- 
ta Imagem , <[ue logo inítituiraõ hua Confraria , em que fe 
aíTentou por Irmaõ o mefmo Rey D. Affònfo V. & o Arce- 
bifpo D. Affonfo Nogueira , com toda a fidalguia , Sc no- 
breza , cuja adminiftraçaó correo por ella atè o anno de 
1467- em que foy eleito o Arcebifpo D. Jorge da Coita , o 
qual a tirou aos Confrades^ annexandoa àParochial Igreja 
de Sam Lourenço de Carnide. E ultimamente ElRey Dom 
Joaõ III. no anno de 1545. a deu aos Religiofos da Ordem 
de Chrifto , para fazerem nella Convento , em que reíidem 
de ordinário trinta, em fer viço da May de Deos* 

Começando os Religiofos a nova Igreja , a engrande- 
ceo comfoberbaCapellamayor,decxcellente fabrica, & 
architediura a Sereniíllma Infante D. Maria ? filha delRey 
D.Manoel, no anno de 1 575. exornandoa de valentes pin- 
turas , & eftatuas de mármore ; paramentandoa de ricos 
orn amentos, enriquecendoâ de peças de prata , & copia de 
relíquias; & ultimamente foy tam grande a devoção que 
teve à Senhora , qãc naõ fó fe mandou enterrar à fua vifta 
no folio da me ma -capellaj mas edificou junto ao Convento 
fiumHofpital tam magnifico, que íè tem por hua das mais 
cxcellentes fabricas de Portugal , o qual aindaque foy do- 
tado com grande liberalidade: porque tinha féis mil cruza- 
dos derenda:(naquelle tempo dote fuperabundante) como 
as rendas ficaram amayorparte emEfpanha,&outras em 
França, nas heranças defuamãy a Rainha D.Lçonor,fe 
diminuíram de forte, quefammuy to poucos os enfermos 
que hoje nélte fe curaô. 

Eiíá fogeito efteHbfpitalaos mefmos Religiofos cio 
Convento da Senhora da Luz. Eàtem defta-s d^noiflra- 
çoCscom que acjbiella Santa Princeza exprirnio o feu amor, 
& devoção para tom a Mãy de Deos, & Senhora no ia , dei- 
xou muytos legados perpétuos que fe haviaõ de íatisíazcr 

G 4 no 



104 Santuário Mariano ) 

n o mefmo Convçnto da Senhora y que íbppofio mancarão í 
ãs rendas confignadas para elles ^que eraõcoufamuyta de £ 
notar, & por iflb os quiz também exprimir y corro cafarem- 
fe nove órfãs a fincoenta mil reis, (grande efmolanaquelle 
tempo) &fe haviaõ de receber na Dominga infraodlava da 
Viíitaçr õ; & das nros do Prior do Convento haviaõ de re- 
ceber o dote. Mais trezentos mil reis emeada hum anno 
para reígate de três meninas , &dous meninosdo poder dos 
Mouros, 6c na ília falta três mulheres , &dous homens ,os 
quaes tanto q chegaffem a Lisboa , havtaõdeir dar as gra- 
ças à Senhora da Luz. Nove mulheres pobres que haviaõ 
de fer nomeadas pelo Provedor, & Irmãos da Mifericordia 
de Lkhop. , que fe haviaõ de veflir cm oito de Setembro, dia 
da Senhora; a qual efmola haviaõ de receber das mãos do 
me imo Prior > veíiidos feitos r &: dar no mefmo dia as gra- 
ças à Senhora. Mais íè haviaõ de veflir pela mefma forma 
em QuintaFeira mayordoze Sacerdotes pobres por ordem 
da meimn meia da Mifericordia; os quaes veftidos fe haviaõ 
de ir veíhr no mefmo Convento da Senhora. Também fc 
haviaõ de v^ílir pela mefma Ordem trinta & três pobres na 
Sefta Feira Santa- Tudo ifío diipoz^&fez aquella grande 
Princeziemobíèquioda Senhora da Luz. 

De muytas coufas deíhs que aqui temos referido ,nos 
daõ -n : ticiaos letreiros que eflaõ na fachada que fica à parte 
do Su^ pela parte de fora da Igreja , fobre a fonte do Ma- 
chado, ronde fe vè também a pedra levantada do cham fo- 
bre hum pedeflal, (ccmhua grade de ferro em roda , por 
mais rei peito, & veneração, & porfenam fobirem íobre 
cila) em que appareceo a Santa Imagem, por cuja agua obra 
o Ceo evidentes milagres. Os letreiros queJfe fegue hum 
ao outro, faõ naforma feguinte. No anno de 1463. rei- 
nando em Portugal T>. dffonfa V. os .ypfinbos de Carmde 
com devoção das reVelaçoens , que Tedro Áfartins, natural 
deite lugar 2 teVe emfeu cativeiro , donde fabio mtlagrofa- 

mente A 



Livro L Titula XIII. icj 

mente } lbe ajudarão afazer huaLapella a rwffa Senhora da 
Lu^ (obre e ff a fonte. O lugar como determinado pela divina 
providencia para efle efettoje via dantes claro^ér refplande- 
cente com Vtfaík & lumes do Ceo, como depois feVio refplan- 
decer com grandes ,& innnmeraVeis milagres na terra. E 
fe guindo em tudo a ordem , &reVelacaoqueaV°trgempurtf~ 
fima inspirou a Fedro Martins , lhe pu^erao o nome que tem 
daLu^i em cuja memoria y&louVor a Infanta V. Maria, 
filha delRey 2>. Manoel y o primeiro àefie nome y Rey de Por- 
tugal y & daChrifttamjfxma Rainha V* Leonor Infanta de 
CaBclía y mandou reedificar y & leVantar o Templo de noVo, 
mfia ordenança , & grandeza y no armo de 1 575. 

A Imagem da Senhora he tam pequenina quenaõ chega 
a dous palmos: a matéria dequehe ,fe ignora ;moflraíèr 
de talha, & a adornaõ de veflidos. Hum Sacriífaõ daquelle 
Convento quiz examinar a matéria de que era, &levan- 
tandolhe a roupa ficou cego emcaíUgo de fua imprudente 
curiofidade : & aflím naõ oufou outro a querer faber o que 
Deoslhenaõpermitio ao primeiro. Tem hua túnica inte- 
rior, em cue nunca fe lhe tocou, fobre efta he que a veflem. 
A fermofura he rara , & mageftofa 5 & affim juiftaimnte in- 
funde temor , & devoção. Eftá collocada em hua tribuni- 
nha, que fica nomeyodoretabolo do Altar mayor , fobre o 
Sacrário, & cubem de ricos cortinados. 

Dos infinitos milagres que tem obrado efla Senhora, 
quero referir hum que traz o Padre Balthefar Telles na fua p árt% £. 
Chronica , que refere nefla maneira. Hua mulher pobre, ub. 5% 
mas honrada, & recolhida, que vivia em Lisboa, tinha por <*/*; 51; 
devoção ir todos os annos em certo diadefcalça anoíTaSe- 
nhoratía Luz ; & para cumprir melhor com efta fua roma- 
gem ,%oflumava fazella muyro de madrugada. Succedeo 
que recolhendofe em hum diaà noyte com openfaínento 
de fe levantar cedo para cumprir com a fua devoção, acor- 
dou pelas onze horas ,.& como fazia grande luar, imagi- 

noui 



taé Santuário Mariano 

nou que ji era tempo de caminhar: (como muytas vezes 
íiiccede aos que coíiumão madrugar cedo para vencer jor- 
nadas, osquaes com a imaginação dedefpertar antes da 
manhã, fe levantaõ pela meva noyte , cuidando que he alto 
dia) com eík engano fahio de ília caía a devota mulher , & 
chegando aSam SebafHaõ da pedreira, quehe hum grande 
efpaço fora da Cidade , eií-que ouve dar meya noyte : cahio 
logo no engano , & também em hu grande fobrefalto , ven- 
doíè a taes horas fora de ília cafa, para onde naõ podia vol- 
tar fem perigo, & muy difiante da caía da Senhora da Luz, 
para onde naõ oufava ir, & continuar o caminho, pelo me- 
do que a folidaõ do lugar , & o íilencio da noyte lhe caufa- 
vaõ* Re folveofc em fe recolher, &encoftar ahumaporta 
para efperar alliodia , encomendandofe de todo o coração 
á Virgem Senhora da Luz, ficando maisfegura nas luzes 
defla Aurora foberana , para a defender , do que no retiro 
do lugar que a enganara. Agora veremos como odiabo a 
pertendeo tentar, &como a Senhora tratou de a defender. 
Naquelle mefmo tempo paífou por alli hum fidalgo a 
cavallo; o qual porfua muna devoção fe recolhia da cafa do 
jogo àquelfes horas para hua-íua quinta; (que deites antí- 
podas do tempo fe achaô infinitos em Lisboa) éfte vendo a 
mulher, lhe pergumtou quem era , & que fazia àquellas ho- 
ras em tal paragem* Contou ella com toda a finceridade, 
& fingeleza o íuccediio. Naõ quiz o jogador perder o lan- 
ço, naõde ganhar , mas de perder aqueila pobre mulher, 
fque também deites devotos abunda a corte.) Começa a 
perfuadilla que fe ponha no mefmo cavallo, pois naõ ficava 
alli bem ;& que lhe dava fua palavra de a por às portas de 
rroíTa Senhora da Luz. Naõ pode a mulher naquellcaperto 
tomar outro cônfelho, Ôcaífim obrigada da violcndi que o 
cavalleiro lhe fazia, & da palavra que lhe dava , encomen- 
dandoíe de novo à Senhora da Luz , começa a caminhar 
com elle, que com danado iiii eiato,tomau para a ília quinta* 

Neíia 



I Livro I. Titulo XIIL iojt 

\ Nefla occafiaõ ouvem ambos clara ,&diflintamente a 
\\ voz do Padre Igmcio Martins (que naquelles tempos era 
ouvido nas fuás Doutrinas ?como hum novo 'Apoflòlo, 
pelo fruto , que com ellas fazia nas almas) & a muíica da 
fuai Doutrina,que por aquelles campos no filencio da noy te 
melhor foava. Hía o fidalgo caminhando, & cada vez Xe 
chegavaó mais a elle aquellas vozes ; ate que no mey o deite 
cfpanto, &fufpenfaõ decoufa tam nova , temendo que o 
Padre Meftre Ignacio o encontrafle com a preza^fezdeícer 
t mulher ,& lhe diffe que oefperaffeaté ir primeiro atar 
layar o campo, & faber aonde nia 7 ou que per tendia o Me^ 
ftre Ignacio com fua doutrina , por aquellas c ft radas , I 
meya noyte. 

Hia o fidalgo andando & cada vez ouvia que a muíica 
da doutrina felhe adiantava, & quanto maisapreífavao paf- 
fo, tanto mais lhe fugiaõ as vozes, ouvindo^mas naõ ven- 
do , perque igualmente lhe foavaé^lhefugfeí^atèque 
depois de caminhar hum bom efpaço, deixando de ouvir a 
muíica, tornou atraz coní ufo , mas naõ convertido ;mara- 
vilhado do que ouvira; mas n^õ mudado do que intentava t 
porem por mais voltas que deu para achar a mulher, que 
cuidavao efperava, ficou fruílradodofeu intento ; porque 
cila infpirada de Dcos,& animada com a muíica do P. Me- 
ftre Ignacio, q a taes horas ouvio, voltou atraz com gran- 
de preíTa,& teve bom efpaço para o fazer à fua vontade. 

Quando o fidalgo vio ofucceífo eahio emfi ,entendeo 
o lanço deite novo jogo, em que Deos o quiz ganhar >co- 
nheceo omyflerio das vozes do Padre Meflre ígnaçio, a 
quem Deos por fua altiflima providencia tomàra,para a- 
talhar feupeccado,& para defender a honra daquelía devo- 
ta mulher- Teve elle oc?fo ent2m por miíagíofo , & ao 
outro dia o contou a varias peííoas, que eom todas efías- 
circunf. anciãs o referirão a muytosReligiofos da Compa- 
nfca, os quaes também diziam o uome daquelk fidalgo, que 

© ChiK>- 



108 Santuário Mar mio ) 

oChronifta naõquiz declarar , por fer affim conveniente," / 
dando to Jos as graças à Virgem Santiflimi , pela que Deos / 
communico x às vozes do Padre Meftre Ignacio *, das quaes 
íe valeo, naõ fó para converter aquelle peccador, mas para 
livrar aquella devota fua ,afliftindolhe com divinas luzes, 
pois ainda de noy te a buícava. Da Senhora da Luz fazem 
mençaõ Fr. Roque do Severalnaíuahift- de no (Ta Senhora 
da Luz, o Padre António de Vafconc. in defcriptione Luf# 
pag. 535. Manoel de Faria tom.3. P a §-?- ° Padre Hipoly- 
toMarracio no livro intitulado Reges Marianicr.g. 12. 
o Padre Álvaro Lobo, & o Padre Telles na Chronica da 
Companhia de Portugal part. 2. liv-5.cap.51* & outros. 



TITULO XIV. 

Z)d Imagem de nojfa Senhora do Rofario do Convento de 
Sam Domingos* 

O Convento de Sam Domingos de Lisboa fundou El- 
Rey D-Sancho II. & acabou feu Irmaõ D. Affonfo III- 
Logo defde feus princípios começou a fer venerada tra 
hua magnifica Capella domeímo Convento, hua devota 
Imagem denoffa Senhora com o titulo do Rofario: &he 
tam grande a devoção deita Senhora , que continuamente 
hevifítadadeq^iafitodo aquelle numerofo povo, com uni- 
verfal concuríò , em efpecial nos primeiros Domingos de 
cada mez, cuja Irmandade enriquecerão os Summos Pontí- 
fices com innumeraveLs indulgências Os milagres qobra 
faô muytos, & contínuos. O Padre Meftre Fr* Ltris dos 
Anjos , & o Padre Alonfo de Andrade referem hum mila- 
gre notável, & he neíte maneira. 

Havia em Lisboa hua mulher caíkefe , natural doltigar 
de Cham de Canas de Senhorim, Bifpjdo de Vizeu, a quaí 

era 



Lhm L Titulo XIV. T09 

eramuyto devora da Senhora ,rezavalhe todos os dias o 
íèuRoíario com toda a devoção que lhe era pcífiveljcha- 
mavafe Águeda Peres: o Padre Fr.L tfisde Soufa diz Águe- 
da Lopes: & era caiada com hum homem em tudo oppoíío a 
cila , trata va-a mais como a eferava, do que como a fua mu- 
lher, & aífim padecia a pobre hum continuo martyrio>da- 
quelíe para cila cruel tyranho,&: chegou a tanto o feu abor- 
recimento- r que aaceufou de adultera ante a juílifa ,• pro- 
vando com feftemunhas falfas ò delito que naôcommettè^ 
raj & affim foy fentenciada à forca. Q^e faria a pobre mu- 
lher achandofe porhua parte ihnocenre , & por outra fu- 
mergida em hum mar de penas r màos tratamentos, angu- 
flias y defemparos ,& por remate de feas affiicçoCs„; & da- 
mefma morte taõ afrontofa^fem ter quem lhe valeíre? Acu- 
dioneítes apertos à Mày de Mif^ricordia como a amparo» 
fe^&confolaçaõde affligtdòs, & remédio dos de fempara- 
dos,,&rogoulhe acudiífe pela fua ínnoeencia ^livrandoa 
daquclles apertosem que fe achava, pois fempre T íie rezara; 
o feu Roíario. Facilmente pudera a Beatiífíma Virgemdef- 
eubrir a fua innoeenci^ & li^ralla daquelle aperto ; porèmp 
dilatou eíta mercê, deixandoa padecer mais , p?ra augmen- 
to de fua coroa 7 & mais oikntaçaõ do divino poder, & dos 
favores que faz aos-feus devotos* 

Chegouodia da execução ,levàraota com pregoes a- 
froatofos à forca de Santa Barbara; levava em fuás mãos 
Roíario,porque nunca deixou de o rezar y: & o coração, & 
a confiança da Rainhados Anjos. Cfiegáraõ à forca, & pen- 
duraraõna para efearmento de femelftantes crimes ;&clla 
naquella hora clamou muy to à Senhora do Re fario para iqut 
lhe valeífe. De tarde deu líoença a jufliç^> paraque a pu- 
defíem enterrar ;& tiraram-nada forca? em tal férma ,quc 
ainda que na© fera moria, o meáo bailava pa#a lhe tirar a 
vida- Levaram- na quaft de raflos a enterrar à Igreja de nof- 
íà Senhora dos Anjps^ & quereiidoa amortalhar para a me- 
terei» > 



i*d Santuarh Mariano j 

terem na cova, abrio os olhos, & levantou as mãos dizen-/ 
do eítas palavras: Virgem SantffimadoRo'àrio. Ficáraqí 
attonitos os prefaiíes,&vendoavrva clamarão: Milagre, 
milagre. Vieraõ dar conti aos Rdigiofcs de Sam Domin- 
gos da mefma Cidade, «que acudirão logo , & a trouxeraõ ao 
Conventoconi grande multidão de gaite queosfcguia ,& 
entrando pela portada Igreja , começarão todos a pedir a 
Deos mifericordia ; porque ainda naô fabiarn todo* eftava 
viva; & afligi movidos dê caridade pediao a noífc Senhor 
tivefie rnifericirdia dcíla. Puzeraõna cm os degráos do 
Altar da Senhora do Rofario ; aonde defcubrmdqlne o .ro- 
tfo, pondo os olhos fitos na Santa Imagem, lhe -deu as gra - 
çascUquelle grande beneficia Como agente era muyta, 
temendoosReligiofosque aapertaííem, &abafaflèm, a le- 
varão para a faerirtia , aonde lhe achàraõ o Rofario ao pef- 
coçoj&danJolhe de comer efleve aflimacjuclle dia, que era 
íefta feira, & oíeguinte. No Domingo em que fc fazia a 
fefla da Senhora \do Rofario, efleve à Miíía , & referio <ào 
Provincial da Ordem , em comofempre fe havia encomen- 
dado à Senhora , &muytomaís na hora da morte, tendo 
grande confiança que havia de livrala; & que a Virgem Ma- 
ria lhe apparecêra naqueile aperto, & a confortara com 
liias palavras, affegurandoa; <}ue a naõ deixaria, & que nem 
morreria entaõ, Sc que em fé difto lhe havia affiítído aquel- 
le tempoconíèrvandon viva , ainda que parecia eflar mor- 
ta; & que todos eftes favores lhe fizera , por ftr devotado 
feu Rofario. 

Agradecida a mulher de tam grande favor > que a Se- 
•rihora doRoôrio lhe havia feito ,fe dedicou toda aofer- 
viço da mefma Senhora ,ftrvindoa,& a noííb Senhor em 
aquella Igreja , o tempo que viveo, que íbraõdous annos, 
no cabo dosqíiaes toy a gozar da gloria. Pelos annos de 
1580. vivia na Cidade de Lisboa hum homem tentadifli- 
PK) de ciúmes. Tinha eíkhua imilhcr muytohoIieíía,^c 

virtuofa, 



Livro L Titulo XIV. ttx 

Tirtuofa, &fotre tudo dcvotiffima denoíTa Senhora do 
MjRokrio, a cuem tcdos os dias rezava o feu Santo Rofario, 
fe encomendara: conheceo a boa mulher o deslumbra- 
men to do marido, & via que cego da fua louca tentação lhe 
cjucria dar a morte, com o que andava com mil temores , & 
fobrcfaltos. Hum dia de feita pela tarde., eflando todos os 
criados fora da cafa , achando occafíaõ para executar o feu 
daranado intenta;, cerrando a porta da rua , levou comfigo' 
hum punhal, para tirar a vida àinnoc ente mulher. Eftava 
entaõ efta rezando ofeu Rofario à Senhora em hum apo- 
fento das primeiras cafas : & fubjndo o rórido pela efeada 
paraefíeitaarafua diabólica tentação, ouvio dar grandes 
golpes na porta da rua. E defeendo a ver quem batia , achou 
lium mancebo de muyta fermofura y & galharda difpofi- 
çaõ^que lhe difle^que em todo o cafo fofle com el!e logo ao 
Convento de Sam Domingos; porque hum Padre feu co- 
nhecido o chamava , &o eílavaVperando , para tratar com : 
clle hum negocio, que a eíle mefmo tocava. 

Foraõ ambos ao Convento de Sam Domingos , & en- 
trarão na Igreja, ao tempo que fe cantava a Salve a noíTa 
Senhora depois das Completas , com afolemnidade que fe 
eoftuma na Ordem. Rogoulhe o mancebo, que entraííe na 
Capella da Senhora , em quanto fe dizia a Salve , Sc fahia o 
Rcligiofa Ajoelharão diante do Altar da Senhora, & feita 
breve oraçaõ, quando o homem voltou os olhos naõvioo 
m • ncebo, que o havia levado, nem vio para onde foííe, nem 
em que parte eíliveíTe, nem como defapparecèra. Entrou 
logo em o Claufi ro , & encontrando ao Religiofo , cm cujo 
nome lhe dera o recado, & perguntaudolhe para que o cha- 
mava , refponde que nem tal recado mandara, nem tinha 
nenhum negocio com elle, A vifta diflocahio ohomem na 
conta, ôcentendeoque Decs por intercefTaõ da Senhora do 
Rofario o quizera apartar de tirar ávida a fua mulher- E 
períiiadiofe^ <jue o mancebo ^ue o chamara fora algum 

. ; Anjo* 



iii Santuário Mariano 

Anjo ,qie pelos merecimentos dafua Rainha Sereniflimi; 
dequcmfua mulher era devota , fizera aquella diligencia./ 
Daqui fe fegnio fer muyto amante de íua mulher , & tainA 
benvda Senhora do Rofario. 

A Imagem da Senhora hemuytogrande,& muyto ve- 
neranda , & de grande fermofura ; terá fete palmos; hc de 
efeultura de madeira, & ttm emíèus braços ao Menino 
Deosjhe fervida comnuiyia grandeza, &riqucza,&fc 
IheoíFereeem peças de muyto valor. Na íua prcíença ar- 
dem muyras alampadas de prata, ôcmuytas delias de muy- 
to valor , & primoroiâmente obradas. Eftá collocada no 
mais alto dehua muyto grande , & perfeitiflima arvore, 
aonde lhe fazem companhia defeum, & outro lado doze 
Patriarehas, &Rcys fcus antecedentes. Da Senhora do 
Rofario , & de feus muy tos milagres fazem mençaõ , alem 
dos Chroniflas Dominicanos, o Padre Meftre Fr. Luis do$ 
Anjos no Jardim de Port n. 1 09. o Padre Joaõ Rebello no 
livro dos Milagres do Roí ar io, & o Padre Alonfe de An- 
drade no Patrocínio de noífa Senhora tit.J 1- § 5.. ambos da 
Companfúa de }êfus ; & o Padre Fr.Luis de Soufo na fua 
Chronica part. 1 . liv.f. cap.25. Fr. Luis de Cacegastia hift, 
manuscrita , & Fr. Alonfo Fernandes na íua liv.6* cap.21 . 



TITULO XV. 

' Da Imagem de mffaSenhova deRettelo em oConVtmô 

de fàeUnu 

O Convento de Belém , cabeça da muyto reformada 
Ordem do grande Doutor S.Jeronymo,ficahua le- 
goa rio abaixo daquella Cidade , de quem dizem os Hefpa- 
íihoes fér a mayor de Efpanha , & de Europa , igual com as 
#nayores,& a Jienhua íegunda na opinião dos qmaisatenja- 

mente 



Ltvró L Titulo XV. 11$ 

menteoconfideraõ. OPadre Sigucnçadiz, que fe Europa, 
m Eípanha era no mundo hum anel , Lisboa era nelle a pe- 
Ir a que eílava engaftada. Neíle fitío pois que antigamente 
fe chamava Reílello , cílá fituada a magnifica', & Real Cafa 
de noíTa Senhora de Belém, obra digna dagrandeza delRcy 
D. Manoel. Ncflc lugar havia antigamente hua Ermida 
dedicada anoíla Senhora, com o titulo do mefmo lugar de 
Reílello, a qual reparou ,3caugmentou muytoo Infante D. 
Henrique, filho delRey D. Joaõl* & primeiro Duque de 
Vizeu, &> Meílre da Ordem de Chriílo. A quem deve, naõ 
fó Efpanha, mas todas as nações da Europa a navegação do 
Oriente, & Occidente. 

Foyeíle Príncipe muyto affey coado às Mathematicas, 
Aílrologia Jk Cofmografia/t à Nautica,& com o continuo 
efludodeflas feiencias ,veyo a entender naõ ferem inha- 
bitaveis as regiões, que ficaõ debaixo da Linha Equinocial: 
que havia antípodas , & que a Zona tórrida naõ era tam in- 
aceffivel , como fe lhes havia antojado aos Antigos. Com 
cilas noticias adquiridas pelofeu engenho, &eíludos,fe 
refoivecanimofamente adefeubrir os mares pelas coilas 
de Africa ; para faber fe as navegações tinhaõ fundo , & íe 
fedefcobriaõ outras novas Regioens , & fe os filhos de 
Adam haviaõ povoado toda a circunferência da terra. Ne- 
íla fua emprefa efeolheo por ília principal eílrella a Maria 
Santiflima , & aos Santos Reys Magos , rogândolhes , que 
lhesmoílrafTem outra g novas Eílrellas , novos homens , & 
novos mundos. Sahiaõ as armadas daquelle fitio, ouda- 
quelle lugar de Reílello , q dizem fechamava antigamente 
EllrclIa, & por corrupção do nome vcyo depois a chamar- 
fe Reílello * & daqui quereii) vieffe o titulo à Senhora 
deRailello. , Efía Ermida reedificada ,.&augmentada peíá 
dtvoçaõ do Infante, queremque ellc folfe o que a fundeie , 
& que depois adeífeaosReligiofos da fua Ordem de Chri- 
ífo , como Meílre que era delia, para quealiijfetviíTem a 
Tom. I. H nollo 



x 1 4 Santuário Mariano 

noflò Senhor, ôcvencràílèm a Maria Santiffima fua efpeciaí / 

Patrona das navegaçoens- / 

Morreo o Infante , fem lograr inteiramente os frutos \ 
dos feus defejbs } noarino ác 1 460. & entrando a rtynar 
ElRey D.Manoel pelos annos de 1495- ^íejofode dilatar 
oíeu Império com os grandes cí) úritos^què Dcos lhe ha- 
via dado para coufas altas, -profírguiò, & rematou feliz- 
mente a iuvegacaõ começada pelo Infante. E coíbo da- 
quellalrn ida da senhora deRefiello fe havia dado prin- 
cipio acsdeícu;hrimentos,quiz o generofo Monarcha eri- 
gir, Sc levantar delia hua grande ,& magnifica Cafa,.& que 
nella h-bitaffem os Monges de Sam Jercnymo^aqueíèdeu 
principio no a-n-no de 1497. daido em recompenfa aos 
Religioios, ou à Crdem de Chrilio/uitra Igreja em Lisboa: 
dedicada á puriffirna Conceição;, que he Templo mageftofo*. 
& foy mimos tempos freguefía >; emque afíiíkm Freires,ou 
Clerigos da meíma Crdem» 

Ce mo a f rimeira Ermida era dedicada a noíTa Senhora,, 
& aos Santos Reys y que do Oriente guiados de hua mila- 
grofa Eílrell?, haviaõ ido a Belem,quiz ElRey qucefte fofle 
o ú tulo do nc vo Convento : porque affim como ate Belém 
guiara a Eítrella aos Santos Reys ; & dalli daquelle lugar 
pedira a Infante aíllma Maria Santiffima, como aos Santos 
Rcyiogaiaííem aelle com o feu patrocínio nos feus deíig- 
nios: affim também efperava o piedofo Rey D. Manoel , que 
por aquelie novo Belém, que edificava, íéhaviaõ de tribu- 
tar à' Coroa de Portugal os thefouros do Oriente. He o 
íitio deita caía nao íó lalutifero , mas muyto agradável , & 
dejicioíb, & ternmuyta, & excellente agua,fica quaíi affen- 
tadana praya, teíp o rio aomeyodia, Lisboa ao nacente, & 
o mar aoOccidenfcç, 

A Senhora de Réftello fe venera em hua Capella colla- 
teral da parte doEuangelho,que he hua das duas grandes 
Capellas que ficaõ nos topos daquelle^efiupehdo , & mara- 

vilhofo 



livro T. Titulo XV. iiy 

yilhofo cruzeiro, cada hua das quaesCapeíías podia fetvir 
de grande Igreja : porque cada hua tem dentro de fi nove 
Capellas, quatro com Altares > & finco com maufoleos dos 
Reys, & Príncipes. Em hum deites Altares que eílaô or- 
nados de pinturas de Michael Angelo ^fevé a Senhora de 
RefleUo, que he lindiflima^ & de admirável efcultura ; terá 
pouco mais de três palmos* Querem alguns a mandaíTe a 
ÊlRey D. Manoel o Santo Papa Júlio II. Porem eucreyo 
q naõ he efla > fenão a Senhora das Eftrellas y da qual adi.n- 
te f aliaremos- A Senhora he de madeira; & dourado tudo 
o que fam roupas. O Menino Jpfus tem a Senhora da par- 
te direita , & íufíentafe com muy ta graça , com os pês em 
fiua laçada de hua liga que pende da cintura da Senhora. Em 
feus princípios foy milagrofa :) & aílim a invocava o Infante 
por Patrona defeu defeubrimento ; & por efla caufa a ella 
fe devem attribuir naõfó os felices fucceíTòs de íiias nave- 
gaçots jinas.a grande feienciaque o Senhor lhe deu para 
fer o novo Inventor da agulha, & carta de marear. Eícr e- 
iferpda Senhora de Reílello Siguençana Chronica de S. Je- 
ronymopart.5.1íV.i.cap,r7«Card.noAgioI.tom-2.p.6óí. 



TITULO XVI. 

,T)a Imagem de nojfa Senhor a de Belém. 

NO mefmo Real Convento de Belém he tida em gran- 
de veneração a devota Imagem denoíTa Senhora, a 
que comnuinirnente fe invoca com o titulo de Belém. Eflá 
collocadaema fegunda Capelía dasdua^queíicaõencoira- 
das à ilharga da Capelía mayor, da parte do Euangelho , ou 
entre a Capelía mayor^& a grande Çipeila dotjpo do cru- 
zeiro, que fiei affima referida. Efta Santiffima, & milagroíã 
Imagem fe entende a mandou fazer a Sereniílima Rainha 

H z D.Ma- 



1 1 6 Santuário Mariano 

D. Maria, mulher do rrefmo Rey D.Manoel, que foy Prin- 
ceza muyto devota, & dizem muy tos que por feu confelho/ 
edificara ElRey feu marido aquella grande cafa. He aSe-* 
nhora de foberana fermofura \ & aflim era as delicias das 
Rainhas, & Princefas; porque fenãopodiaõ apartar dafua 
prefença. E verdadeiramente naõ fey quem fenaõ affeiçoará 
àceleílial fermofura daqueUa milagrofa Imagem , & àfúa 
magefíofa prefença. Ainda hoje he o alivio, & a confolaçaõ 
das Senhoras da Corte , que com muy ta frequência a viíw 
taõ;quenaõ he pouco, em tempo que ha tanta falta de de- 
voção. Vaõ a pedirlhe filhos , para fegurarem a fucceíTaõ 
de fuás cafas , & a eífe refpeito furtacT à Senhora o Santiífí- 
mo Menino, que tem nos braços ; porque muy tas vezes he 
vifta fem elle, 

He deeflatura muyto agigantada, porque terá oito 
palmos de altojhe de veftidos,& rffim tem muytos,& muy- 
to ricos , & preciofos , que lhe offereceraõ as Rainhas , Sc 
Princefas: & ainda hoje as Senhoras da Corte lhe offerecem 
as galas preciofas de feus defpoforios. Todos os annos a 
põem osRelígiofosemoPrefepio(que fempre fedDÍhima 
fazer naquella cafa com grandeza, & apparato) Som o bello 
Infante Jefus nas palhinhas, Imagem também de excelíente 
efeultura , & de tanta fermofura , que naõ ha quem o naõ 
uexje furtar, & levar para cafa. A de voçaõ que os Reli- 
giofos tem àquella Senhora, & ao belle Menino,naõ fe pode 
encarecer. Nenhua peífoa entra naquelle Templo que naõ 
fique muyto aíFeiçoada àquella foberana Senhora. Fefte- 
jale em 6. de Janeiro ; porque o feu primeiro, & principal 
ti tulo , he o dos Reys , & a*titular daqueUa Cafa ; fem em- 
bargo de lhe darem o titulo de Belém, que foy o lugar aon- 
de os Santos Reys a venerarão, como a Rainha , & Mãy do 
Soberano Rèy a quembufeáraõ. 



T1TU- 



Livro L Titulo XVIL 117 



TITULO XVIL 

Da Imagem de nojfa Senhora dasEJlrelUs do Convento 

deBellem. 

NO mefmo Templo de Belém fevencraô outras muy- 
tas Imagens ; entre ellas a Senhora das Eílrellas naõ 
pode deixar de entrar nonoflb Santuário, pois he Imagem 
de grande devoção naquella Cafa; & aífim he fervida, & ve- 
nerada com particular culto. Eíia Santa Imagem mandou 
de Roma, por joya de grande preço, a ElRey D. Manoel o 
Papa Júlio IL & com ella a Imagem do gloriofo Doutor 
Samjerqnymo (que he obrada com tanta excellencia,que 
parece eítávivo: &aílim referem os Religiofos daquella 
cafa, que vindo a ella Philippe II. & vendoa, fica ra fufpen- 
fo, & diflera cheyo de admiração : No me babksjeronymo^ 
& a do mellifluoS. Bernardo, & outras que eftaõ colloca- 
das em varias partes daquelle grande Convento. Todas 
faõ de pcrfolana; mas de muyto valente efcultura* E fendo 
todas hum prodígio no obrado ', a Senhora dâs Eftrel/as 
/'também deperfolana) arrebata os fentidos dos que co- 
nhecem que coufa feja efcultura. Eftá collocada em huma 
Capella efpecialmente fua, que fica da parte da Epiftola^ em 
parallelocom a Capell^ da Senhora de Belém. Deraõlhe efte 
titulo das Eftrellas (não fe lhe fabia o titulo que tinha) por 
ter n«a cabeça hua Coroa de prata dourada , toda cercada de 
Eflrelias: terá de comprimento cinco palmos. 



Tom. L H 5 TITU- 



1 1 8 Santuário Alariam 



TITULO XVIIL 

Da Imagtm de nojfa Senhora cia Encarnação , onda At- 

ntmáada.. 

NO bairro da Mouraria, & na Traída do monte do 
Caftello x ou na ribanceira delle ,.. que fica para a Rua 
dos Cavaileiros, eflá o Collegto de Santo Agoftinho, a que 
ainda hojechamão alguns Santo Antaõ oVelho(porcaufa 
de fcr em algum dia habitação de frades finas*) Efta cafa, que ^ 
eflá em fitio pouco alegre, & agradável, não falta quem di- 
ga ^& rffir me fora no tempo antigo morada dosTempl arios; 
y , 6c depois de freiras da Militar Ordem de Santiago» Jorge 
4°X * Cardofo nofeu Agioíogio diz q fora melquita de Mouros t 
Abril. (& poderia btm fer, pois ainda o bairroeonfervaonome dai 
Mouraria)& que a virtuofa Rainha D. Leonor ^mulher del- 
Rey D. joaõ 1L alcançara de feu marido ,que fe punficafíe* 
& que convertida em Igreja fe dedicaífe ao Myfterio da En- 
carnação ^debaixo do titulo da Annunciadav erigindo allí 
hum Convento de Religiofas Dominicas debaixo do mef- 
Tom. i. mo titulo. Tudo refere omefmoCardofo. Mascomoeíte 
$ag.i95 idg^rr foffe muyto deíaccommodado para as Religiofas , & 
devaçado da imminencia do monte: no tempo delRejr Dom 
Joaõ II I. fe mudarão para ovalle(qu£ chamaòhoje porfua 
caufa) da Annunciada , para oíitio que fica defronte das 
cafas dos Condes da Ericeira > por troca que íè fez com os. 
Padres de Santo Antaõ Abbadc , que alli viviaõ- E ainda 
ho)e"íe conferva a fua memoria com hua Imagem do mefmo 
Santo, que eftá fobre a porta da Cidade, que fica em aquelle 
lugar : 6c no da Mouraria, ou no fitio do Caítell© , viveraô> 
©s Padres de Santo Antaõ muytosannos. 

Senda Commendatario ctefta Caft de Santo Antaõ , o 

Bifpo 



Livro L Titulo XVIIL 1*9 

A BIfpo D. Ambroíio Brandão Pereira , chegarão a Portugal 
\\0sReligi0Jbs da fagrada Companhia de Jefus; & por naõ 
J terem aonde fe accommodar , lhedeuèíía cafaoBifpo em 
- troca, pela antiga Igreja denoíTa Senhora de Carquere , na 
Diocefí de Lamego, de que lhe havia o mefmoRey feyto 
mercê, para onde mandou os Religiofos, ièm embargo de 
naõ irem íènaõ para Benefpera. Tomáraõ poíTe os Padres 
da Companhia defia cafa em 5. de Janeiro de 1542, Mas 
como o íitionaõ permitia fe alargaflêm nelle , ouveraõ os 
Padres de tomar o do jogo da pela , abaixo de Santa Anna; 
aonde fe lançou a primeira pedra em onze de Mayo de 
*579* aonde fe trabalhou com tanto fervor, que em me- 
nos de quatro annos iè paíTáraõ ao novo fitio,que fcy a 
oito de Novembro de 158?. levando configoo titulo de 
-Santo Aíitaõ; aindaque a cafa nova he dedicada a S. Ignacio- 
Mudados os Padres venderão oíitio aos Eremitas obíèr- 
vantes <3e meu Patriarcha Santo Agoílinho , que he (como 
fica dito) Collcgio, & dedicado à Converfaõ do Santo Dou- 
tor. E naõ falta quem julgaíTe por grande inadvertência . 
aos Padres da Companhia, largarem de todo çfla Cafa, que 
foy a primeira q tiveraõ no mundo, depois de Roma. Alli 
elieve SamFrancifco de Xavier, era quanto naõ fez viagem 
pataoQriente; &alli tinha grande devoção com amila- 
grofa Senhora da Encarnação , &com a Senhora doEom 
Defpacho. 

A Imagem da Senhora he antiquiffima , &fempre fe 
coníèrvou na mel ma Cafa P em meyo de tantas mudanças, &: 
variedades, quantas ouvenella ; final de que eflimava muy- 
to aquelle lugar. Eflá collocada em a primeira Capella col- 
lateral da parte da Epifíola; antigamente eftava em h ua tri- 
buna aonde íè viâ dehíía parte a Senhora de joelhos , tods 
abforta, Scàttonita com a embaixada, que ocekílc Para- 
nimpho lhe trazia, & com a dignidade que Ihe.nnnundavs; 
o qual ficava da outra parte em amefma tribuna com os 

H 4 olhos 



i io Santuário Mariano 

olhos pofíos na Senhora,como quem f aliava com elía. Hoje 
com o novo retabolo que fe lhe fez, tiráraò daquella tribu- 
na o Anjo, & ficou fó a Senhora em hum nicho mais pe- 
queno : & com os ornatos ricos y &preciofos de que ufa 
agora a devoção dos que a fervem > fe vè de algum modo 
eflranho o rnyflerio,que antes mais fe manifeflava : & ver- 
dadeiramente naquell e tempo em que a víamos em a fua an- 
tiga tribuna , infundia muyto mayor devoção nos que a 
bufcavaõ,.& viaõ. Que as Imagens Sagradas de Maria San- 
tiffima entaõ infundenimaisrefpeíto,& veneração, quanto 
mais íe apartaõ delias os ornatos , que inventou a vaidade 
humana >aflim nos veflidos extravagantes,como nas cabel- 
leiras affe fiadas ,& improporcionadas á Santidade , & hu- 
mildade da Mky deDeos- A Imagem da Senhora moftra 
fer deroca;naõ he muytofermofa;masafua modefíia in- 
funde reverencia em todos. He fervida de hua grande Ir- 
mandade, que fe compõem do officio dosefparteiros, os 
quaes a íervern , & feíkjaô em z$. de Março com muyta 
grandeza. A eíiatura da Senhora moflra ter cinco para 
íeis palmos. Efcre vem da Senhora da Encarnação, Cardo- 
fo no feu Agiol. nos lugares referidos , Telles na Chro- 
nica da Companhia par t. i . liv. i • c. 1 7- 



TIT.UL O XIX. 

Da Imagem denoffa Senhora da Conceição junto ãKna 
dos Praieiros* 

A Igreja de noíía Senhora da Conceição que muytos 
an-nos foy Parochia, & efíá íituada entre a Correaria, 
& Rua nova da prata, he fogeitaà Ordem de Ch riflo. Efte 
Igreja naõ fó he tradição confiante , fora íinagoga dos Ju- 
deosy mas o affirmão vários Eícritores, Hepoisdefaber 

que 



{ 



Livro I. Titulo XIX. ih 

que nos tempos antigos fe permitio em Lisboa íinagoga 
«aos judeos , aonde fe ajuntavaõ , & faziaô as fuás ceremo- 
ias*. & paraque elles fe pudeffem reduzir a fé do verdadei- 
ro MeíTíasChrifíoJefus, emque elles duvidavaõ , fe lhes 
mandavaõ em certos dias da fomana Pregadores, que lhes 
prégaífem. Neítesdias lhes hia pregar o Venerável Padre 
Fr. Miguel de Contreiras da Ordem da Santiflima Trinda- 
de; fazendo-a âquella cega gente com tanto fervor , & ze- 
lo que reduzio a muy tos à noffa Santa Fè. Mas porque em 
hua Cidade tam Catholica fe não viífe íinagoga de judeos > 
pedio o mefmo Padre Fr, Miguel de Contreiras á Rainha 
D. Leonor, de quem era ConfeíTor ,fizeífe com feu irmaõ 
EIRey Dom Manoel a mandaffe purificar , & confagrar em 
Templo dedicado ao Myfterio da Conceição immaculada 
da Virgem Maria noífa Senhora,. como fez;,& juntamente a 
mandou reedificar, o que ainda fe vè no feu pórtico; & tam- 
bém no meyo delle a Imagem da Senhora da Conceição , & 
aos lados as Imagens de Sam Pedro ,& de Sam Paulo, Sam 
Francifco, & S- António, & as ernprezas do mefmo Rey D,. 
Manoel, que faõ as Armas Reaes, & a Efphera. 

Depois os Irmãos dó Santifllmo Sacramento , com. 
grande defpeza ^novamente a augmentárao , & alargarão: 
& eilivera hoje cozida emouro,fenaõ foraõ as duvidas,, 
que ouve entre o Arcebifpode Lisboa o Cardeal D. Luifrdc, 
Soufa , & os Freyres , fobre matérias de jurifdiçaõ ; pelas 
quaes o Arcebifpotresíádou ,& mudou a freguefia para a 
Igreja de noíTa Senhora da Vitoria, que cflá na Caldeiraria^ 
aqualfevè hoje novamente edificada no meyo da rua No- 
va. O principio donde naceo fer efta Igreja da Ordem efe 
Chrifto, foy, que fundando ElRey D. Manoel o Real Con^ 
vento de Belém,. & incorporando nelle a Ermida denoíTa 
Senhora de Refiello, que era dosReligiofosda Ordem dè 
£hrífto r que lha havia dado o Infante D. Henrique , fendo 
Meítre delia -.porque na&ficaíTe aOsdem defraudada da- 

quellai 



f it Santuário Manam ) 

quella cafa totalmente , lhe deu por cila a Igreja denoíTa / 
Senhora di Conceição :& de entaõ para ci feconferva em/ 
poder de Clérigos Freires da mefma Ordem. \ 

A Senhora da Conceição eítá collocada no Altar mòr; N 
tem cinco para féis palmos de eftatura;he de talha de ma- 
deira , & adornaõ-na com mantos ricos , fegundo as cores 
da Igreja , & fobre o manto que pende da cabeça tem hua 
Coroa rica. Eíte he a mefma Imagem que fecollocou na* 
quella Igreja, logo que fe purificou, £c mudou do primeiro 
cftado que havia tido. He milagrofa,& o foy fempre,fe bem 
a falta da fé , 8c do fervor , tem diminuído muyto a corren- 
te dos milagres. No anno de 1 697. vieram à Senhora huns 
homens do mar defcalços ,& com hua grande vela de na- 
vio às coftas y a offerecerlha, porque invocandoa em hum 
evidente perigo, em que viraõ fe perdiam, com a invocação 
defta milagrofa Senhora fe foffegou a tormenta; fairaõ do 
perigo ? & chegarão a Lisboa com bom fucceífo- Efcrevem 
da Senhora da Conceição Cardofo tom.i . pag.285. Sc tom* 
2. pag.425. Síguença part. 3 . liv. í . cap. 1 7. 



TITULO XX. 

S)a Imagem de nojfa Senhora chamada a Madre de T)eos 

de Lisboa» 

NO anno de 431. foycondemnadaaherefiadeNeílo- 
rio, Scfedefinio no Concilio Epheíino (que a conde- 
nou) que a Virgem Santiílima naõ fó fe devia chamar Mãjr 
de Chriffo, mas também Mãy de Deos; que he o mefmo que 
dizer, naõ fe havia de chamar fó Chriflipara, mas Deipara. 
E mandando Cyrillo Patriarcha de Alexandria, 8c os mais 
Padres , que fe acháraõ em Ephefo , & o Emperador Theo- 
doíio a embaixada ao Summo Pontifice Cekílino, que entaõ 

gover- 



Livro L Titulo XX. itj 

y govcrnsva a cadeira de S. Pedro, dandolhe os parabéns de 
vtfícarde todo poflrada a herefia deNeftorio: a Igreja deu 
cfpeciaes graças a Deos , por íe definir a Divindade do Fi- 
lho, & a honra da Mãy,& que fe podeffc em toda a parte , & 
por boca de todos louvar ^ & pregar por May de Deos, a 
Virgem Maria noffa Senhora; & foy devotiffima a fefla,que 
fizeram as mulheres, pela gloria que lhes cabia neíí a defini- 
ção, faindo com tochas aefperar aquelles Veneráveis Pa- 
dres do Concilio^ dandofe todas a íi os parabéns , & a elles 
mil graças, & louvores. Defíedia fepoztodo o cuidado,, 
paraqiK: atè as crianças logo com o primeiro leite, bebef- 
íemeífo doutrina nas efeolas, em que aprendiam. Deftes 
tempos para cà começara© os fieis 7 naõfó a invocarem a 
Rainha dos Anjos com o titulo de May de Deos , mas a re- 
tratala,, & lavrar Imagens fuás, para porefie meyo faze- 
rem mayores proteftaçocsdafuafé,&dafua devoção. 

Hua Imagem venerada comeíie devotiííimo titulo fez 
celebre ao reformadiflímo Convento deReligiofas Fran-' 
cifeanas Defcalças da primeira Regra , chamado por razaã 
da milagrofa Imagem, que nelle fe conferva, o Convento da 
Madrede Deos, que he naõ íó entre todos os da Corte o de 
irmyor nome, <5c eílimaçaõ; mas o Santuário entre todos os 
dd Reyno , o mais venerado, prerogauva fingular devida 
à veneração , que fe deve à Rainha dos Anjos. Teve efla 
cafa principio no anno de 1509. Foyfua primeira Abba- 
deça a Madre SorColleta com outras féis companheiras, 
que vieraõ do reformado Convento de Jefus deSetuval. 
Nas muytas revelações que ouve, antes defla caía ter prin- 
cipio, fereconheceo em todos os tempos o quanto Deos,, 
& fua Santifllma May a amavaõ, & amaõ, que he hum Semi- 
nário de Santas> nelle fe recolherão, defde o feu principio, 
os fugeitos. mais illuftres do Reyno,- deixando o mundo 
com grande admiração de todo elle, Sempre fe viveo nefía 
Caíacom notável exemplo,. fervor ^ &zelo daReligi^m,& 

fudo> 



ii4 Santuário Mariano 

tudo fe deve attribuir a influencias daquelfa Lua feni 
mancha , que naquellas Virgens, & Efpofas de feu precio 
fo Filho, communica as fuás virtudes. 

A primeira revelação foy a hum grande fervo de Deos 
companheiro doConfeífor do Convento de Santa Clara de 
Gandia em Efpanha, Varaô de grande virtude; o qual entre 
outros favores, que recebeo de Deos naoraçam,foyhuin 
que eftando huma noy te recolhido nella , diante da devota 
Imagem da Rainha dos Anjos, que eftá no Altar mor da 
Igreja do mefm® Convento de Santa Clara , vioque fahiaõ 
debaixo do manto da Senhora fe te Eftrellas de maravilhofa 
claridade, que brilhando com grandes refplandores,dava5 
volta portoda aquella Igreja, cadahua por fua parte. Ad- 
miroufe o fervo de Deos , & defejando faber o que a vifao 
fignificava, perfeverou na oraçaõ, pedindo a D eos, lhe de-* 
claraífe aquelle myfterio. Foylhe revelado , que daquella 
Cafa haviaõ defair Religiofas , que havião de fundar ou- 
tras fe te. 

O tempo verificou a revelação , 5c mofírou a verdade 
delia; porque fete Conventos fe começarão em breve tem- 
po, & defta Cafa fairaõ as fundadoras para todos. O Pri- 
meiro foy o de Santa Clara de Girona , o fegundo o de Je- 
fus de Setuval, o terceiro o Convento de Jerufalem na Ci- 
dade de Valença; o quarto o de Santa Clara de Caíklhon 
em Ampurías, no mefmo Rey no; o quinto o de Santa Veró- 
nica de Alicante na própria Província ; o fextò as Defcalças 
de Madrid ; o feptimo o de Santa Clara no lugar de Rioxa , 
cujofitio por pouco falutifero, foy defemparado. Eaílim 
não teve effeito , para que entrafíb nefíe numero ,efle da 
Madre de Deos de que tratamos. Para o de Jefus de Setu- 
val foy a Madre Sor Colleta , que foy nclíe a primeira Ab-, 
badeça, & outras Religiofas de foi efpirito. 

Defejava a Sereniílima Rainha D. Leonor, mulher del- 
Rcy D.João II, fundar hum Convento de Religiofas refor- 
mada^ 



Livro L Titulo XX. 225 

ma das , como jâ havia em Setuval , da Ordem de Santa Cia- 
'a, para o que tinha }à licença da Sè Apoftolica, & intenta- 
da iazello nas fuás cafas, que eíiaò defronte da Igreja de 
Sam Bartholomeu, junto a Santo Eloy. E como tivefle no- 
ticia^ que hua mulher muyto illufirada ,& grande ferva de 
D eos, que vivia na mefma Cidade deLisboa , tivera hua vi- 
fam, na qual vira hua efcada , cujos pés fe firmavaõ no mef- 
tno fitio, onde hoje vemos o Convento da Madre de Deos , 
& as pontas delia no Ceo , pela qual fobia muy ta gente. 
Movida defla vifam , fe refolveo a fundar nefle lugarj 
comprando para eíTe effeito as cafas que alli havia , & ti- 
nhaõ fido de Álvaro da Cunha , o qual quando as fez, man- 
dou guarnecer os forros doste&os delias, de cordoes de 
Sam Francifco;& perguntado porque razaõ em caía de fe- 
cular punha divifa de Rcligiofos; refpondeo (parece que 
com fuperior luz) que aquellas cafas ainda haviaõ de fer da 
Ordem de Sam Francifco, & Deos nellas maravilhofamen- 
te fervido,& louvado; como fe vio no difeurfo dos tempos. 

Começcufe a fundar o Convento noanno de 1509. 
como fica d;to por Breve de Júlio II. &em comprimento 
de outro do meímo Pontífice , o tomou debaixo de fua pro- 
tecção^ Vigário Geral daObfervancia Seraph ca,emque 
lhe mandava, que em tudo obedeceífe aoque a Rainha lhe 
ordena^pafa poder trazer aelleReligiofas de qualquer 
Mofteiro q quizeíTe. Eaffim efeolheo do de Jefus de Setu- 
val a Madre Sor Colleta, para Abbadeça ,& íeis Religiofas 
•mais, todas degrõnde efpirito , as quaes tomarão poffe da- 
quclla nova Cafa em 1 8. de Junhode 1509. & a 23 . do meí- 
mo fe começou a edificar a Igreja, que' benzeo o Arcebif- 
po de Lisboa D- Martinho, eflando preíènte a Rainha fun- 
dadora. 

Andava a Rainha cuidadofa do titulo, & invocação, 
que daria aeíle feu Convento ,&nefla fua perplexidade, 
eíiando nos feus paflbs, vieram dous mancebos , que no 

traie^ 



ii6 Santuário Mariano } 

traje , Sc fcrmofura pareciaõ flamengos , os quaes trazíany 
híi? Imagem deN. Senhora, que moíMraõ à Rainha, parar 
ver fe fe agradava delia, & vendo que fe obrigava muyto dL 
fua fermofura,& perfeição, lhe pedirão pela manufadura * 
delk hum preço tam exceffivo, que fenao concertarão : pe- 
lo que os mancebos , Flamengos fingidos , & Anjos verda- 
deiros, a deixarão nas mãos da Rainha, dizendo que ao ou- 
tro dia tornariam: os quaes nunca mais apparccèram- G> 
nheceo a Rainha Ter ifto favor do Ceo , tomou a Senhora 
collocou-ano Altar da fua Capella, Sc em fuás rtiáos entre- 
gou as chaves da Cafa, & do novo Convento: ao qual poz o 
titulo da Madre deDeos, porcaufa defte fingular beneft- 
cio, que o Senhor lhe fizera em lhe dar aquella devota Ima-' 
gem deíua-Mây San tiffima , pára ennobrecer com ella a- 
quclle íeu novo Convento , que fundava. Succedo logo \ 
ElRey D. Manoel (não fabendo o que paffava) mandaffe pe- 
dir com muyta infiancia à Rainha D. Leonor eftas caías, 
jpara fe paíTar aellas a Rainha D. Maria fua mulher , que 
muyto defejava morar naquelle fitio : a quem refpondeo a 
Rainha D. Leonor^ que jà entregara as chaves delias a ou- 
tra Rainha mayor, que era a dos Ceos; & com eíias palavras 
fe efeufou. 

Daqui teve motivo o chamar àquelle Convento, o da 
Madre de Deos,com a vinda da Soberana Rainha dos Ceos, 
&Mãy deDeos. He eilaSantiííima Imagem obrada pelas 
mãos do Divino Artífice , & não he poflivel que fora das 
divinas mãos ,ouveíTe quem obraíTe Imagem tam perfeita; 
& tam admirável; he de pafla ao que fe entende. A fua vifia 
fufpende, & arrebata os corações; Sc a fua grande modeftia, 
& reverencia com que adora ao Soberano Menino, que tem 
diante de ú , reclinado em hum rico berço de prata , os en- 
ternece. He do tamanho do natural; eftá collocada em híía 
Capella collateral , que fica fronteira ao Cero da parte do 
Euangciho; eítá de joelhos comas mãos polias, como quem 

da 



Livro L Titulo XX. .117 

, j& gtttyas r.o Divina Verbo , q vè reclinado ,- de a eleger 
\VorMuv fua. Aqui íèreprefenra às almas devotas ,eftar 

aòlta Sen&ofca , como em huaaltiífima contemplação dos 
grandes Myílerios^que feencerravaõ nofeu nacimento. 
A maõ direita fica Samjofeph; & affim fe vè alli perpetua- 
mente aos olhos de todos o Myíkrio de Deos nafeido. 

Temas Religiofas a eíla Soberana Imagem fempre com 
mageÍTofo ornato , de preciofos veílidos, .conforme os 
tempo s& ákm de outras ricas joyas com que eflá ornada, 
íem ordinariamente hua rica coroa de ou -^o, & pedras pre~ 
ciofas, que cuflou treze, ou quatorze mil cruzados , feita: 
comas deípezas dos Irmãos da fua Irmandade^ que he rica, 
&muy grave. A Igreja, que he obra celRey Dom Joam 
III. hehumCeo aberto; naõ fópela efpiritualconíòlaça& 
cpe recebem em fuás almas todos os que nella entnõ J-iras 
ainda nos ornatos , aceyo , & riqueza delia, que efíá toda: 
cozida em ouro, & ornada de ricas ,&:excellentes pintu- 
ras, asmais delias doinfignepmtcr Eento Coelho. ACa- 
pella mayor no edifício , perfliçaõ ,■& riqueza , he das -boas* 
fabricas do P v eyno. Tem muyta prata, & toda rica. He fre- 
quentada eíla cafa de toda a Corte ;.& efpecialmente he ma- 
yor o concurfo nos Sabbados,& Domingos defde o Natal 
até a Pafchoa. E como a faida he alegre , & o íitio delicio- 
íò, ainda faz mayor a frequência. Fica pouco diftantedos 
ultimosmuros da Cidade para a parte do Nacente. 

■ Entre asmuytasreliquias que fe yenerão nefla Cafa , a 
principal he o Sinto Sudário , que fé moílra de hua janella 
aapovo em Quinta Feira mayor, que concorre em tanto 
numero, que ate o mar, q lhe fica muyto viímho, fe vè cu- 
berto deinínitos barcos. Deite Santo lançol faltaremos- 
quando eferevermos os Santuários de Chriflo. Saõ Pa- 
droeiros delia Cafa osReys de Portugal, q fempre a ama- 
rão, & eflimáraõ muyto,favorecendoacom copiofas efmo- 
las. Naclaufíra do meftoo Convento eítáfepultada a Rai- 
nha: 



ii 8 . Santuário Mariano 

nha funda do ra,& junto a cila a Senhora D.Ifabel Duqueza / 
de Bragança fua irmãa , mulher do Duque D.Fernando:/ 
também eíievealli em depoíito a Infante D. Maria Filha de 
ElRey D.Manoel, que ate na morte dcfejavaõ as Senhoras^ 
daquelle tempo não fe apartar daquclla milagrofa Senhora* 
Os milagres que obra faõ fem conto , & fem embargo de 
que nunca fe fez memoria delles, vi eu pender de fuás pa- 
redes alguas infígnias, quadros, velas de navios , & outras 
coufas femelhantes, de que jà hoje fenão vè nada deflas 
coufas : por não cubrir o excellente ornato de azulejo do 
Norte de que eftaô guarnecidas as paredes dos quadros 
para baixo. Da Senhora Madre de Deos fazem menção 
Cardofonofeu Agiologiotom.i.pag. 574. Manoel de Fa- 
ria na fua Europa tom. 3 . pág.3 .cap. 1 1 . & outros. 



TITULO XXL 

*Da Imagem de nojfa Senhora dos Martyres de SacaVem. 

A Hum Convento de Capuchas da primeira regra > he 
bem fe liga outro : efte he ode Sacavém , dedicado a 
no^Ta Senhora dos Mar tyres , que fundou Miguel de Mou- 
ra, Secretario delRey D. SebaíHam,(hum dos finco Gover- 
nadores doReynonotempo das alterações) & fua -mulher 
Brites da Coita; pedindo para efle effeito ao mefmo Rey D- 
Sebafliaõ a antiga Ermida de no ífa Senhora dosMartyres; 
o que ovirtuofoReyconcedeobegninamente. Morto Mi- 
guel de Moura , fe recolheo logo Brites da Cofta à compa- 
nhia das Religiofas (outros querem, que em vida do marido 
acompanhaffe as fundadoras, quando tomáraõ poífe) aonde 
começou a refplandecer tanto a virtude daquellas fervas de 
Deos, que ao cheiro delias defcrnparáraõmuytas Senhoras 
a Corte, por lhe fazer companhia , entre as quaes entrarão 



Livro L Titulo XXL 12? 

naquelíe Convento duas Irmans , filhas de Joaõ Rodrigues 
de Sà , Veador da Fazenda do Porto , a primeira das quaes, 
>que fe chamou Soror CatharinadeJefus,(eítevaviuvado 
' Conde de Matoíinhos) & afegunda,que fe chamou Maria 
do Efpirito Santo y apalavrada com o Bifconde de Ponte de 
Lima : & ambas acabarão fantamente. 

A origem da milagrofa Imagem que naquella Cafa fc 
venera, he tam antiga , que teve feus princípios na occafiaõ 
do cerco , & tomada de Lisboa aos Mouros ,emo anno de 
1 1 47. & foy nefla maneira. Vendo os Mouros da Eflrema- 
dura , & de outras terras viíinhas a Lisboa , o grande peri- 
go em q ficavaõ , fe os Chriíiãos tpmavaõ aquella Cidade, 
íe animaram a lhe mandar hum foccorro com que obrigaf- 
femaElRey D. AíFonfo a levantar. o cerco, ouaporemlhe 
emmayor contingência aquella empreza. Ajuntaram fin- 
co mil decavallo , & algua infantaria, & com muyta bre- 
vidade fe fizeram na volta de Lisboa , dez dias depois de fe 
lhe haver poílo o cerco. Seiido avifado ElRey D. Aífonfo 
d$ vinda dos Mouros , a tempo que vinhaõ chegando a Sa- 
cavém , que fica duis legoas diíhnte de Lisboa , mandou 
logo mil & quinhentos cavallos, 5c alguns Infantes , para 
lhe impedirem o paífo ; & ainda que ouve boa diligencia no 
caminho, jà a mayor parte dos Mouros tinha paífado o braço 
domar que alli entra , pela ponte que entam havia, de que 
ainda hoje ha vefligios , ( a qual depois que cahio nunca 
mais fe levantou, por incúria verdadeiramente dosPortu- * 
guezes, aonde fe puderam evitar muytos perigos,que fuc- 
cedem naquella paíTagem,como aliviar aos pobres paífa- 
geiros das demoras., & dadefpeza dos feus vinténs.) Era 
grande o numero dos Mouros , comtudo osChriítãos os 
acometeram com tanto valor , que depois de huma dura 
peleja vieram a confeguir a vitoria. Ouve muytos mortos 
de ambas as partes, com que íe prova bem a diíficuldade da 
baralha, & íe acredita o favor, particular da Virgem Santil- 
Tom. I. I fimn % 



130 ~ Santuário Mar iam 

fima , communicado aos Chritiãos naforçadomayor peri- 
go. Ganhoufe também o Cafkllo que havia norecoíloda 
monte , fazendo delle entrega oAlcayee Mouro, que ie\ 
coríverteo , 6c fez Chriftaõ , por ver a Virgem Maria em o 
conflicio acompanhada de celeítiaes guerreiros 7 animar, & 
ajudar aos Chriílãos. O que confia do livro dos privilégios 
da Torre do Tombo, donde quero repetir eíias palavras, 
Livri que bailarão para prova do referido. 
dos pri- TSlefle tempo vieram emfaVor dos Mouros de Lisboa 01 
vil. do c fe Tomar , & Torres noVas , Alemquer , & Óbidos ; eram 
únno d eji nc0 mí [ j e caVallo, (& corredores. Tanto que EIRey ofqube, 
Ineode mmc l° H '&{#* S ente mil m & quinhentos de caVallo ,ÍP corre- 
15S2. d° res > todos Portugueses , para os desbaratar; & tnuyta 
foL 42 . prejpt <IM fe àerao , ja os Mouros eraô paffados pela ponte da 
rio, braço de mar y p ar a d banda de Lisboa, l? pegado ao braç& 
deSopeouVeram bua grande batalha, & milagrofamente os 
(portugueses Vencer ao\pofio que morreffe a mòr parte da 
gente , & dos Mouros morrerão três mil, & tantos , Z? por 
na fugida nao caberem tantos pela ponte , dos que fe efeapa- 
Váõ ,fe lançaVaõ ao mar , & muytos fe afogaVao ; & oftbri- 
flaos for ao entrados no cimo do tefo. EIRey mandou logo fa- 
%er alUbum Oratório denoJfaSenhara dos Martyres; <ts o 
primeiro Ermitão, que teVe cuidada delle ,foy TSe^ayZaydey 
Mouro, Alcayde do Caftello y que eftà no cimo alto, no braço do 
mar, o qual foy neUa Volta , if/fugiopara ojeu Cajlello , & o 
' entregou logo aos Lhrijlaos , dizendo que vira a Virgem em 
VifaÕ,C?lbe dijfera que haviam defer desbaratados ,&etfe 
Mouro era muyto amigo dos Cbrijtaos ,i? caridofo a todos , 
&fefe^ ChriJiaÕ , & tal morreo. Foy de muytoèoa Vida , & 
morreo nefla cafa ha muyto tempo, & fua mulher, & filhos to- 
dos morrerão ChriHãos. -Acabada ejld batalha ,forao enter- 
rados os Chriíiãos fobre o dito braço do mar, ao redor do Ora- 
dor da Virgem , & muytos juntos , & Vtííos os muytos mor- 
tos que hetoia, Ihi pu^eraõ às cabeceiras da parte do chaõ 

Cruzes 



í 



■A 



Livro I. Titulo' XXI. i$i 

\ Cruzes de pedra para faberem que eram Cbriftaos. Enejla 
| Volta fe affirma, que Vir ao os Cbrijlaos muytos homens efira- 
T nbos entre elles, que os ajudaVaÕ a rogo da Virgem, que ejta- 
Vapor eltes rogando y devia fer a [eu bento Ftlbo\pelo que efta 
cafafoy a primeira que fefe^ de redor de Lisboa , quefe co- 
meçou ade^ dias depois da batalha, & Vinte depois do cerco,* 
Atèqui as palavras do livro. 

Deíla memoria fe vè em como ElRey D. Affòníò , obri- 
gado daquelle grande beneficio, que recebera daMãy de 
Deos, lhe mandou logo erigir hua Ermida, que com o titulo 
denoífa Senhora dosMartyres feconfervou atè o tempo 
delRey D.SebafKaõ, em que Miguel de Moura deu princi- 
pio àquelíe fanto, & reformado Convento. E deufelhe eíte 
titulo, por memoria dos Cavalleiros, que alli acabarão pe- 
lejando pela fé : porq naquelles tempos fe tinhaõ por Mar- 
tyres, todos os que morriaõ pelejando contra os Mouros , 
como contra inimigos da fé. Iftomefmofevc em noífa Se- 
nhora dos Martyres de Lisboa , a quem fe deu ( peia mefma 
caufa) femelhante tituío. Também por efta memoria da 
Torre do Tomba fe convence por errada a opinião de Mi- 
guei LeiMõ de Andrade, que quer nas fuás Mifcellamas, 
foifeeíte íucceífo íinco annos mais adiante. 

A Imagem da Senhora , que ElRey D. Affonfo Henri- 
ques mandou í azer, 5c collocar naquella Ermida,(que foy a 
primeira caía, que nos arredores de Lisboa fe vio dedicada 
à Rainha dos Anjos) fe venera ainda hoje em o Altar ma- 
yor daquella Igreja , &eilà collocada em hu nicho abaixo 
da tribuna, que ferve de expor nella o Santiífimo Sacra- 
mento. Healmngem da Senhora de roca , & deveftidoS. 
Sua eilatura he de íinco palmos. Tem ao Menino Jefus fo- 
bre o braço efquerdo, que eftà olhando para a Senhora : & a 
ívíãy Santiflimi olhando também para o duíciíTimo Filho, 
com huaattençaõtaõ grande, que parece eíiar ouvindo oq . 
elle lhe falia , &lh« diz. He naõfó de grande, mas de rara- ■ 

I z fermo 



A 

131 Santuário Mariano 

fermofura, & fe vè nella (& fe tem porcoufa indubitável) 
que naõ foy encarnada fegunda vez: & tem húa tam grande, J 
gctamceleflial mageikde, que fe divifaõ nellahuns cornos 
refplandores foberanos , que parece obrada pelos Anjos. * 
Naõ fó as Religiofas daquelle Santo Convento, mas todo 
aquelle povo de Sacavém, & feus arredores tem grande de- 
voção àquella foberana, & antiga Imagem de Mana Mãy de 
Deos , que he o Santuário daquella terra. E a Senhora lha 
fabe remunerar com os favores q lhe alcança de feij amado 
Filho. Efcrevem da Senhora dos Martyres de Sacavém Fr. 
António Brandão na 3 . p. da Monarch. Luf. livr. 1 o.cap. 1 7. 
Cardofo no Agioi tom. i.pag.4çi.tom.2.pag.g09. Andrade 
nas Mifccllanias Dial. 2. A Torre do Tombo também a tem 
em feus regiíios nohv. dos privilégios allegado foi. 42. 



TITULO XXII. 

Da Imagem de N. Senhora a Grande, ou de *Betancourt que 
fe Venera na Se de Lisboa. 



H 



E invocada Maria Santiflima com o titulo de Grande: 
& diraõ todos com muy ta razaõ/jue parece curto elo- 
gio da fua grandeza: & porquecaufa fe haõ de omitir os ter- 
mos fuperlativos, que encarecem aíumma foberania ? Se 
Maria Santiflima he tam fublime, tam excelia, & tam levan- 
tada; porque íe lhe naõ havia de dar o titulo mais alto; por- 
q fe naõ havia de chamar a Senhora de Betancourt a Senho- 
ra Máxima , fenaõ a Senhora Grande ? Verdadeiramente 
parece que eflé titulo he omayor que fe lhe podia dar ; por- 
que naõ fera titulo indigno da Senhora, o que he titulo pró- 
prio do mefmo Deos. Porque o titulo de Grande lhe daõ as 
Tob*i i. Efcrituras. Grande lhe chamou Tobias: Magnas es Domine 
^~ ! ' in étternum. Grande lhechamou David; Magms ^Dominusj 

& 



Irara l Titulo XXII. ; ' i$3 

i\ >é &X tnagnus.. Grande lhe chamou Saiamaô: Si mim Do- p - M 
W, minus magms Voluerit ; & acerefeentaõ, que he grande fo- J m% 
// bre todos osqueaaffeiçaõ doshomês confiderava Deofes: 
Magnus fuper omnes Deos. E porque aqui fobre tudohe 
grande -, parece que lhedeviamos de chamar máximo •.por- 
que as coufas e xceífivaihente grandes , & fem competência 
íuperiores,naõfeexplicaõ porfuperlativos. FallaaEfcri- 
tura do Templo de Hierufalem, & diz que fora dedicado 
ao grande Deos, Magno Deo; falia dasoffertas ,que no 
meftno Templo fe dedicavaõ, Stchamalhe máximas: Maxi- 
tnis mwienbus illujirarunt. Vemos asdadivas^asofFertas 
que íe ofFerecem a Deos ferem máximas , naõ tendo Deos 
mais titulo que o de grande, A razaõ he; porque Deos he 
infinitamente grande ,& naõ necefli ta de encarecimentos, 
para que avulte: as dadivas, como eram dascreaturas , eraõ ■ 
íimitadns , & para avultarem era neceffario acreditalas de 
maximrs, Slaximis. O mefmo havemos de coníiderar,com 
proporção ao noííò intento, com a Virgem Maria Senhora 
nofía, que hc tam eminente, & tam alta fobre todas as crea- 
turas, que para que avulte aos nofíòs olhos, naõ necefli ta de 
q lhechamem Ài^c/wz^baftalheotitulode Grande. Com 
eíle titulo he invocada a Santa Imagem de quem agora ef- 
crevemos. 

Entre as muy tas,& milagrofas Imagos da May de Deos, 
que fe veneram na Igreja Metropolitana da Cidade de Lis- 
boa, foy fempre tida em grande veneraçam do devoto povo 
delia a Senhora de Betaficourt, ou a Senhora Grande; cuja 
eítatura por fer agigantada, que terá nove para dez palmos, 
lhe grangeou eíle grande titulo. Grandes diligencias fiz 
por faber com certeza a origem, &: os princípios delia San- 
t i filma imagem, &: ó modo com que viera à Cidade ^Cor- 
te de Lisboa , tk naõ pude achar mais noticia , que a que de 
paífagern refere Jorge Qrdoío no feu Agiologio Luíitano; 
acnde diz, que cila Santa Imagem a trouxera de França, & 
Tom. I. I ^ de 



1 3 4 Santuário Mariant ) 

de hu Portochamado Betancourt o famofo General Martiní 
Affonfo de Sôuía,que depois foy VifoRey da índia no tem- I 
podoSereniffimo Rey D. Manoel: algunsdizemque a com- V 
prára a hum Herege, que a tinha fem aquclla reverencia 7 ^ 
& refpeito que fe lhe devia, em hum lugar muy to viL 

Hum Cónego da meíma Cathedral me referio hua notá- 
vel tradição: dizia, ouvira ahu Thefoureiro velhodamef- 
ma Sè,peífoa de verdade, & de muy ta capacidade , que 
achara cm o Arquivo da mefma Cathedral o fueceífoque 
agora referiremos. Chegando aNào,emque vinha a Se- 
nhora de Betancourt, a Lisboa,& lançando ferro defronte 
da Igreja de S. Paulo, a defembarcáram , 5c fe collocou logo 
na mefma Parochia com grande alegria. Acodio a toda a 
prefía o Cabido para a haver de levará fua Cathedral (como 
íiiccedeo na Tresladaçaõ de Sam Vicente , que foy o mef- 
mo Cabido*, & também os freguefes de Santa jufta o impug- 
naram, & comas^rmas quizeraô impedir, fe lhe naõ levaf- 
fe da fua Igreja) & fem embargo de que o Parocho , &mais 
Clérigos, & Parochianos repugnarão, & quizeraõ irnpedil- 
loj mas como o poder do Catido(& também entraria aqui a 
authoridade do Prelado) era mayor, ouvèraô de ceder por 
entaõ , afíim o Parocho ^como feus Freguezes i & foy a fa- 
g ada Imagem levada com grande alegria dosConegos/& 
naõ pequeno fentimento dos freguezes de Sam Paulo) & 
a collocáraõ nomefmo* lítio , & lugar aonde hoje he vene- 
rada. 

Reconhecendo os fregueíes de S. Paulo que tinhaõ ra- 
zão , & jufliça para fazerem pleito à Cathedral, para que 
lhe entregaffe aquetla fagrada Imagem, que primeiro havia 
tomado pollo,& lugar na fua Igreja; porque nem elía vinha 
defhnada para a Sê * nem hnvia adquirido direito em virtu- 
de de algua doação , que fe lhe fizeffe; & fó fe podia enten- 
der pertencia àquella Parochia, pois neilaquizera fercol- 
locada : & que eítavaõ Jà tfe poile pacifica , & por força lha 

hayiaõ 



^ Livro l Titulo XXII. Í5; 

)fia\ríâo tirado. E também o General fe lançaria de fora dei- 
xando àdifpofiçaô divina o lugar, que o Senhor queria ti- 
) vcíTe o íimulachrodefua Santiflima Mây. Fcz-feo plcito,& 
fahiraõ osfreguefes vencedores, porque alcançarão fen- 
tença a feu favor, julgandofe, que a Imagem da Senhora era 
da Parcchía \ & afíim obrigarão ao Cabido, para que lhe en-* 
tregaífe a fagrada Image da Senhora. Difpoz-fe hua íòlcm- 
ne procitTaõ, & nella levarão a Senhora com muyta alegria, 
& feíla : porque naõ cabiaõ de goflo de fe verem outra vez 
de poífe daquella foberana joya. 

No dia feguinte (cafo maravilhofo!') faltou a Senhora 
cm S. Paulo, & fe achou collocada na Cathedral > em o me£ 
mo lugar em que de primeiro fe havia collocado. E fendo 
efla poderofa Senhora levada por mimílerio de Anjos, 
quiz ella darnos a entender , que por noflb amor dava muy- 
tos paffos,&que fora pelos feuspés; porque fe acharão 
cFioca^oiifinaes da lama em as orlas da túnica. Eíle pro- 
dígio abnlentoii grandemente a devoção da Senhora, & da- 
quclle úix adiante começou a obrar grandes milagres, & 
prodígios em todos os que fevaliaõ dosfeus poderes; & 
foy fempre bufeada peia devoção dos fieis. E muy tas almas 
devotes , que com eíla tinhaõ efpecial devoção ., receberão 
de fm piedoía interceífaõ grandes favores de noífo Senhor. 
Daíerva de Deos Frioianja Vogada, (cuja vida efereve 
Cardofo no feu Agiologio , & Fr. Manoel da Efperançá na C*rd* 
fua hiftoria Seraphica) fe diz que tivera grande devojaõ à t0m ' u 
Senhora de Betancourt, & que muy tas vezes a regalara em *£j? " * 
m:mfeíias yifoens* E que também o Divino Menino, que j^ 
em feus braços deícança, com fua Santiflima Mãy a encami- Cm2 '^ 
nháraõ na perfeição das virtudes. Tocfôs as jaculatórias de- 
ita feiva deDeosfedirigiaõ à Imagem da Mc nino Jeíus, 
& eile a regalava também obrigado dos feus requebros. 
Q^e fe paga njuy toeíie Diviao.Eígqf<>das Almas, qi*e com 
ytrdideirocoraçaõo bufcao gamara. De comino lhe ap~ 

1 4 parecia 



\$6 Santuário Mariano 

parecia aquella amorofa Mãy,&; affim ella como fcu bemçfito 
filho a animavaõ , fortaleciaõ > & armavaõ contra os conv 
.bates dos inimigos, q muyto a perfeguiaõ, & maltratava©. 
Eftá collocada efta Santa Imagem em hum rico taber- 
náculo de jafpes precioíòs > adornado de coíumnas falomo- 
nicaSj, & cuberta ordinariamente de ricas cortinas, & quan- 
do eftádefcuberta, hefempre com luzes acefas. He de pe- 
dra ,cujas roupas eflaó femeadas de fores de ouro jmas 
adornaò-na de preciofos veílidos guarnecidos de ouro, 
com toalha. No braço efquerdo tem o Menino Jefus, tam- 
bém vefiido, & ambas as Imagens tem ricas coroas de pra- 
ta dourada. Eftà o rofta muyto pre to, & defumado , & tem 
alguas manchas na encarnação, que podiam proceder do lu- 
gar em que efteve , fegundo hua tradição > que me referi- 
rão, & foy,que quando Martim Affonfo de Soufa chegou 
àquellc Porto referido de França ,fouberaque a tinha hum 
herege em hua logea debaixo de hua efeada, (com que dâ 
humidade podiaõ proceder) & adevoto General vendo a 
Santa Imagem a refgatára do poder daquelle herege , para 
enriquecer com elía a fua pátria. Alguns Clérigos daquella 
Sè me affirmáraõ, que mandandofe renovar a encarnação do 
roflo da Senhora, de nenhum modo o confentira : porque 
logo faltava fora. E affim eftà na mefma forma em que 
veyo. Naô hc fermofa , mas ainda affim tem hua mageflade 
tam grande, q infunde temor , & reverencia. Fazem men- 
ção deík Santa Imagem Jorge Cardofo no fcu Agiologio 
tom.3. pâg. 678. Efperançanafuahiftoria aflima ailegada* 



TITULO XXIII. 

t>a Imagem de nojfa S . do Vencimento do Monte do Carmo, 



A 



Quelle animofo Cefar Portuguez o Conde D.Nuno 
Alves Pereira, todas as vitorias^qu^ alcançou, fora© 

fcn> 



(t 



' Livro I. Titulo Xllll. f %? 

i\ feir pre pelo favor, & aífiikncia da Virgem Maria nofla Se- 
1\ nhora ,ac,uem invocava porfua valcdora , antes de entrar 
nas batalhas, difpondofe pára cilas nao fó com jejuns, & 
dílcipiinas, mas com votos, &oraçoens,attribuindo fem- 
preobomfucceíFo de fuás armas ao poderofc) Senhor dos 
exércitos , como fe vio em diverfas occaíioens , & princi- 
palmente neíl a de Aljubarrota de que agora tratamos; na 
qual fentindofe apertado recorreo à fua piedofa protecto- 
ra, prometendolhe,que fe o campo fícaffe pelos Portugue- 
zes , ore eraõ os q da fua parte tinhaó a juíHça , lhe edifi- 
caria hum fumptuofo Convento, em que foíTe venerada , & 
torado feu Unigénito Filho. Tal foy oeflrago quefefe- 
guioà promeíía,que na vefpora de fua gloriofa Afiumpçaõ, 
fendo os Portuguczes fomente onze mil , desbaratarão , & 
vencerão a oitenta & fete mií Càftelhanos. Eíle foy oCon- 
vento do Carmo de Lisboa , que ainda hoje tefiemunha fua 
grande piedade, & magnificência, intitulado por edla caufa 
noíTa Senhora do Vencimento , (ou N. Senhora da Vitoria, 
comodiz o Padre Lezana) titulo q eftà dizendo o gloriofo 
tnumpho, que tiveraõ es Portuguezes por efpecial favor 
deita íempre vCcedora Senhora.Ea particularrazaõ,qeíie 
grande Heroe teve, para efeolher para feus Capellaís mais 
aoshlnos do Santo Patriarcha Elias, que aos de outras Re- 
itg:oens,era a cordeal devoção , que fempre eítes Religio- 
los tiveraõ a Mana Santiflima, a cujo obfequio fe confagrá- 
rao da primitiva Igreja até o fim do mundo , confliruindoa 
lua 1 itul?r,& Patrona.E a Senhora fe pagou tantodefla fua 
iogeiçao, que por vezes a tem confirmado com expreffas 
maravi!has,&finaes, 

Edifcado o Convento, o que fov noannode 1422. co- 
mo diz Lezana, em fatisfaçaõ dovoto pelaconfegnida vi- 
toria, que toy no anno de 1 5 85. que por refpeito , & vt nc- 
racao da meima Senhora dotou o Santo Conde cem tanta 
ttDeraudade, & magnificência, como akda hoje fevena 

graav- 



\$$ Santuário Mariano 

grandeza daquclla Caía, 5c nos muy tos Religlofos , que mU 
la fervem i noto Senhor ; mandou fazer a Imagem , que ha* 
via de collocar no m:fmo Templo , que era aquclla Senho- 
ra,quenos mayores conflictos lhe era propícia, &fahioel la 
de tanta ferm^fura ,q=ie he híia fufpenfaõ olhar paraella, 
pelo refpeito que infunde, & veneraçsõ que caufa em todos 
osqu: nclía põem os olhos. He de proporção da natural 
eftatura: he de vertidos , & ft mpre da cor parda, que he a de 
queaquelles feus filhos ufaõ ;m;?s de preciofas telas. Tem 
no braço efquerdo ao Infante jefus , &namao direita hua 
Vela, íêm duvica, para nos dizer,que elía he a luz, que com 
afua protecção nos alumia na tenebrofa noite deita mife- 
ravelvida. Eftá em hu perfeito nicho pouco imminenteà 
banqueta do Altar mayor , ck aíTim fe gozaõ melhor os feus 
devotos da fua fcrmofa viftn. 

A Capella he de tanta riqueza, que a naõha femelhante 
na Corte : porq não fó o retabolo he dourado com hua ma- 
gefíofa tribuna; mas todo o corpo da Captlla, & com excel- 
Jentes pinturas, em que íe vem dous Santuários, que cerne- 
ção fobre as cadeiras do coro, de notável traça, & gran- 
deza, & com notáveis ,& preciofas relíquias, em meyos 
corpos, outras emambulas de crifíaes, &: muy tas em cu- 
fiodias, & viris de grande preço, & feitio. Na magnifica 
íumptuofídade da Igreja que he de três naves , em defmcn- 
furada altura, fempre os olhos tem em que fe oceupar. Tem 
nos topos do Cruzeiro duasCapelks muy to principies, a 
da parte doEuangelho dedicada a Chriflo Crucificado, ou 
a noffa Senhora da Encarna ção, tm que ha hua luzida ,& rica 
Irmandade de eferavos da Senhora, & a da parte da Epiftola 
ao Divino Sacramento, ambas à competência revertidas de 
ouro, com riquiffimas pinturas. Outras quatro lheficaõ 
fervindo decollateraesà mayor, & todas eíias faõ dedica- 
das àVirgun noffa Senhora debaixo dç difíerentes títulos* 
como veremos adiante , que cada hua delias podia acreditar 

a hua 



Livro I. Taulo XXIV. 139 

a hfia gn».nde ,&tcrmofa Igreja- Pelo corpo da Igreja de 
.f)Cr,& outra p^rtc fevcm dezohoCapellas àfrceiguaes, 
& todas de pedraria aorrcderno 7 muyto ricamente orna- 
das, com a do Santo Chriflo refgatado. Na Capella mayor 
da parte doEuangelho eflá fepultado oSanto-Conde fun- 
dador , & no mefmo Convento a Condeça de Earcellos fua 
filha D. Brites Pereira, que feu Pay tresladou de Chaves* 
Efla fie a fumptuofa Cafa , & o iníigne Santuário da Senho- 
ra do Vencimento do Monte do Carmo ? que emacçaõde 
graças , & em gratir? caçaõ de feus favores fe lhe dedicou: & 
contínuas gratificações lhe deve dar fempre o povo de Lis- 
boa pelos favores^que continuamente recebe deita fua in- 
eeífante intercedora- Efcreve da Senhora do Monte do 
Carmo Cardofonofeu Agiol. tom.J, pag.214. Lezana tom* 
4. de feus an.ad annum 142*. 

TITULO XXIV. 

Da Imagem de mjfa Senhora Madre de Tkos do ConVen* 
to de Sam Francifco* 

ENtre as fumptuofas Capellas r qne fe vem no grande 
Templo de Sam Francifco , cabeça da Província de 
Portugal , he muyto nomeada a da Maíre de Deos T peto 
grandeza x & riqueza de feu adorno, & aceyo cuidadofo, & 
devoto de feus Confrades. O principio , & a erigem ddla 
milagrofa Imagem refere o Padre Fr. Manoel da Efpe rança 
neíla fornr, Concorrião em Lisboa por razão do feu com- 
mercio muytas naçoens tílrangeiras ; em particular as de 
Efpanha^asquaesaJguas vezes fevia muyto grande def- 
empdro. Os prefos não tinhão favor para o feu livramento* 
os enfermos morrião pelas erialagens 7 ou pelas ruas ,fem 
haver quem os curaffej & aos mortos faltava a caridade 

dos 



140 Santuário Mar iam "" 

dos vivos , para lhes dar conveniente fepultura. Confide- t 
vou tudo ifto hum ourives da prata chamado Pedro de Sam jf 
Pedro, & compadecido de miieria tam grande, inflituío hua \ 
Irmandade ,que tiveíTe por officio acudir a eftas grandes 
neceflidadcs. Os companheiros que para eíla obra 'tanto 
do agrado de Deos ajuntou , poflo que aflifliam naCidade, 
quafi to Joseraõ tombem eífrangeiros,Bifcainhos, Arago- 
nczes, & Caflclhanos. E tomando por Prote&ora a Senho- 
' ra Mãy de Deos em dia de Santiago Mayor , Patraõ das Ef- 
panhas,em25, dejulhodoanno de 1502. congregados no 
Convento de Sam Francifco da Cidade, & na cafa do Capi- 
tulo delle elegerão decõmum confentimento os primeiros 
òfficios ,que havião defervir. Pela qual razão ainda hoje 
nomefmodia feftejãohua Santa Imagem deite Santo Apo- 
ílolo, que o dito Pedro de Sam Pedro, indo depois em roma- 
ria, trouxe comíigo de Roma. 

\ A Irmandade foy crecendo tanto na eflimaçaõ ,& opi- 
nião do povo, & no ferviço de Deos, que os Romanos Pon- 
tífices lhe concederão muyto grandes privilégios. E que- 
rendo muytaspeííòas devotas grangear o amparo da Se- 
nhora na hora da morte, fefazião feus Irmãos. Outros 
para irem defcançaios, lhe deixavão entregues as fazen- 
das, como defcargo de fuás almas; noqueella femoíirava, 
& moftratam pontual, que ha annos em que chegao asMif- 
fas a quatro mil & quinhentas , &: a finco mil , entre canta - 
das, & refadas. 

Mandarão fazer a Flaades a Imagem da Sacratiffima 
Virgem noffa Senhora, a qual eftando em hum armazém da 
Cidade, com muy tas drogas , & fazendas, tudo amaífou ,& 
defpedaçou o edifício, que ino f >inadamentecahio;& fomen- 
te o fardo, ou caixão em que eíiava metida a Imagem da Se- 
nhora ficou iilefo,&fem!xfaõ algua. Obrigado deite calo, 
que parecia milagrofo, oEfcrivão da Irmandade ,Hierony- 
mo Illuminador , & morador na rua Nova , qual outro Obe- 

dedon 



\ '* Livro I. Titulo XXV. 141 

a dcaon arecçiheo cm fuacaíã, donde depois a conduzirão 
losRcligiofos do mefmo Convento em prociffaô àfuaCa- 
/pella^aconipan/iando-a também osReligiofos da Santifli- 
ma Trindade, de Sam Domingos , & do Carmo , com innu- 
meravel povo, cujos applaufos acendeo ainda mais hu ele- 
gante Sermão, que pregou o Padre Meíire Fr.Luis de Raz, 
Provincial da mefma Religião Seraphica. 

Tanto crefceo a devoção nos feus Irmãos, que logo 
começarão hua Capella taõ grande , & mageífofa , como 
pedia a foberania da Senhora,que a havia de occupar, a qual 
occupa o vaó de duas das daquelle Teàplo; & em quanto fe 
fabricou, efkve a Senhora no cruzeiro, &quandpveyo no 
anno de 1 559. jà a Senhora eftava tresladada à fua cafa-Tem 
os Irmãos na mefma Capella o Santiflimo Sacramento,& do 
leu Sacrário fe lhes ^dminiftraõ as communhoes todos os 
Domingos, & dias Santos: porque he grande o concurfo, & 
atrequencia com que aquelles devotos Irmãos recebem os 
Divinos Sacramentos. 

A Imagem da Santiffima Rainha dos Anjos reprefenta 
devoção, & magetfade , no trono em que eftá aflentada , & 
tem a parte direita o Menino Jefus; he de madeira, & repre- 
lenta (na forma em que eftá) a eftatura de finco palmos, 
v endo o povo a corrente de fuás mifericordias , & maravi- 
lhas, a elía recornaõ cada hora comTuas petições. A Cida- 
de também em fuás grandes affiicçoes,& apertos, ou fof- 
lemieus,ou doReyno,oudo EfíadoCatholico,a tirava em 
prociííao pelas ruas , rebatendo com efle forte efcudo as 
lanças, que do Ceo contra ospecoadores fe vibravaõ- E 
erao tantos os favores que a Senhora a todos fazia, que em 
teitemunho delles noannode 1517. pendião dofeu reta- 
Doio muytos corpos, &muy tas partes de outros de prata, 
conforme a relação dos livros da Irmandade , donde illo fe 

talha C * a dC ° UtraS mUy íaS m€morías & ccra > & mór ~ 
v Era 



í4* Santuário Mariano 

Era iam grande a devoção em todos os &eys , Prínci- 
pes^ 5c Senhores ? que todos queriam entrar na ília Irman- 
dade, aventajandofe mais as Rainhas D.Maria,fegunda mu- 
lher delRey D.Manosi, & D. Leonor , fua terceira mulher* X 
a Intenta D. M iria ília filha, a Rainha D.Catharina, mulher 
de Dom joaõ IÍI. todas elias foraõ irmãs da Senhora. E da 
Rainha D. Leonor fedi'/, que nunca faltara nasVefporas, 
nem no dia daíiià fefia. Enviuvando delRey D. Manoel , 
&cafaado depois em França com ElRey Erancifco I. de là 
lhe mandava fiias efmolas, E vindo aBadajòs a ver afilha 
depois da morte do Prahcez^dahi efereveo & Irmandade hua 
carta com os quartéis que devia. Vindo também a efteRey- 
npdePormgal Philippe ILdeCafklla, pedio fer admitido 
a Irmandade da Senhora. Com eiias demonflrações muyto 
dignas de Príncipes taõ Catholicos, ; ficou reprefentando 
Lisboa os piedofòs obfequios comque emConílantinopIa 
defenderão incaíafavdmente o Emperador Theodoíio o 
menor ,& i-iia Irmáaa BeataPulcheria Augura > o nome- da 
Mãy de Deos 'neíía Piiriffima Senhora. Ainda hoje he erta 
foberana Mãy de Deos fervida dos feus Irmãos com gran- 
de fervor, <k piedoíá devoção , não reparando no muyto 
que difpendem em feu obfeqtiio. Efcreve defía Senhora Eí- 
perançana fuahifíoria Seraphica part.i- liv.2. cap*6. 



TITULO XXV. 

Da antiga j&milagrbfa Inagem He nojfa Senhora da?ie~ 
dade y que[e Venera na Pawcbia de Sam Martinho. 

NA Parcchial Igreja de Sam Martinho de Lisboa , que 
ficajunto ao Limoeiro, circere dos prezos,& malfei- 
tores, he tiia em grande veneração hua antiquiffima Ima- 
gem da Mãy de Deos , com o titalo da Piedade , em cujos 

braços 



Livro I. Titulo XXV. 143 

braços fc vê ao Santiffimo' Filho morto. Da origem, &an- 
Itiguidadc deita Santa Imagem fenaõ fabenada :mashecer- 
Jtjo que já pelos annos de 1 222. era mtiyto venerada , & ce- 
lebre por maravilhas v porque deite tempo fe acha hua pe- 
dra, em que fe vè de leiras getiess, falecera em 22. de Fe- 
vereiro doanno de 1222. hum Vigário, que eíava enter- 
radonaquella Igreja defronte da Senhora da Piedade. Ea 
Senhora eflà moflrando a fua. grande ancianidade. Refe- 
reie também por teílemunho de hum Beneficiado da mefma 
Igreja, o entrando ellc a fervir nella pelos annos de 1 650. 
lhe dizia outro Beneficiado muy to velho, chamado Fulano 
•Amado , que nacecafirõ em que a Cidade fevira ferida, & 
muyto apertada do mal da peite, a tirarão da fua Igreja, & a 
levarão em prcciíTâô por toda cila , rogandolhe íècompa- 
deceííe de feus moradores 7 & que fora o Senhor fervido de 
impender logo o açoute. 

Os homens domar , movidos também das maravilhas, 
que a Senhora obrava naqudles tempos antigos, a toma- 
rão por fua Patrona, para lhes fer propicia em fuás navega- 
ções, & nílim lhe erigirão hua luílrofa Confraria , como 
conlta dofeuCompromíííò.que ainda hoje ftconíerva no 
arquivo daquella Igreja. Mas o tempo que tudo acaba es- 
triou; de tal forte aquelle antigo fervor , que jà hoje não ha 
noticias deíia Irmandade. Tem noífo Senhor obrado por 
meyo deíia Imagem de fua Santiílima Mãy muytos mila- 
,, gres,fuppofla que com as obras da reedificaçaõ que fez 
naquel/a Igreja o Conde de Villa Nova D. Luis de Alenca- 
iírequeíaõ os feus Padroeiros , fc tem perdido asmuytas 
memorias delles.que os teítemunhavão : mas a devoção 
ainda hoje he confiante : & affim he bufeada de muy tas pef- 
loas,que em fuás neceffidades achaõ propicio oieufavor. 
He eíía Santa Imagem formada em madeira do tamanho da 
natural eííatura. Eíiá como roft o direito, como quem pu- 
blica a grande pena, q experimentou o feu coração , vendo 

morta 



y 



144 Santuário Mariano 

morto em feus braços a feu Sãtiffimo Filho Author da vida. 1 
Infunde em todos grande compunção, na dor, & fentimêtck 
q reprefenta. Tem na cabeça hua rica diadema de prata dou-( 
rada adornada de pedraria, poemlhe toalha,&manto;& o 
Senhor eftá cuberto com hum rico veo de velilho de prata. 
Eítá coilocada em a fegunda Capella da Igreja , da parte do 
Euangelho , em híía tribuna detalha dourada, & cuberta 
com cortinas com grande culto .,& veneração. Eíta Paro- 
chia no tempo emque os Rey s de Portugal viviãonos Paços 
do Limoeiro , fervia dr Capella Real, & nella affiíHaõ os 
Reys aos divinos oílicios. E jà neík tempo parece que era 
tida em grande veneração, pelas rtfaravilhas q Dcos obrava 
pela fua interceffaõ . 



TITULO XXVI. 

Damilagrofa Imagem deTSl. Senhora de Tenha de França. 



N 



Otavel he o a (Fedo com que a Rainha dos Anjos Ma- 
ria Sannílima ama os montes; pois vemos quenelles 
quer íer venerada : ftnão he que delíes como de atalaya 
quer fempre vigiar fobre os feus devotos: ou que como cila 

IfaUs Senhora , fegundo o que delia refere a Efcritura : Erit tn 
noViffimis dlebus pr^ep aratus monsdomus 1)omtrit in Vi rtice 

D.Gre- rnontium. Eaííim S. Gregório lhe chama monte fubíime; 

gor. in porq na fua alteza refplandeceo mais que todos os Santos. 

l/k.Reg. He monte fundado fobre a alteza dos montes: porque nel- 
les quer que a bufquemos com a veneração , que nos merece 
o feu amparo.Em Roma quiz fer venerada no monte Exqui- 
lino j deíignando cem neve o lugar da fua cafa: em Nápoles 
fc venera no monte, ^ue íe diz monte da Virgem : em l 7 ra> 
ça em o monte dos Mar t yres, aonde Santo Ignacio recebeo 
da mefma Senhora muytos favores: em Catalunha em a mi - 

lagroia 



Livro I. Titulo XWl. Hf 

lagrofaCafa de Monferrate : cm Valença no monte Santo: 
fem Caíiella a Velha em Penha de França : & finalmente no 
JioíTo Portugal em muytos montes: & em Lisboa vemos 
três montes juntos , deixando outros , como faõ noíTa Se- 
nhora da Graça, nofla Senhora do Monte , & noffa Senhora 
de Penha de França, de que trata efle titulo. 

Entre as Imagens da Virgem Maria aquellas faõ tidas 
em mayor veneração, que o Ceo manifeítou depois de efla- 
rem encuber ras por muytos annos , por caufa da perfegui- 
çaõ dos infiéis , que perfeguindo aos Chriflãos, eíks as ef- 
condiaõ , pelas não deixarem expoflas às irreverências , & 
facrií egos defacatos de feus inimigos , como fe vio em toda 
a Efpanha , quando foy entrada, & poffuida dos Mouros. E 
pondo depois Dcos os olhos de fua clemência no feu po- 
vo , dandolhe forças para poder lançar outra vez de Efpa- 
nha aos Infiéis , foy manifeftaiído com o tempo muytas 
Imagens, aífim fuás, como de fua Mãy Santiífima , obrando 
por ellas grandes maravilhas. Entre eflas foy hua a Sobe- 
rana Imagem de Penha de França, por fer achada em hua al- 
tiflima Serra , que tem omefmo nome em Caítelia a Velha, 
féis, ou fetclegoas da Cidade de Salamanca: a qual Soberana 
Imagem foy defeuberta noannode 1454. para oqueefco- 
lheoDeoshu homem íimplez,&dcfantavida,Francez de 
naçaõ, chamado Simaô Vella* a quem em França o revelou, 
mandandolhe buícar aquelle lugar: o qual depois de difeor- 
rer alguns annos por varias partes do mundo, bufeando 
efle lugar, quando mais defeuidado eftava de o poder defeu- 
brir, então o achou , &nelle a Santa Imagem , como tudo 
largamente fe conta em hum tratado, que deftahiftoria ef- 
creveo humReligiofo da Ordem dos Pregadores , em cuja 
Ordem eílà eiía Senhora , & efta cafa defde os íeus princí- 
pios. Porque entendendo ElRey D. joaõ II. de Caflellâ, em 
cuja tempo foy eíie defcubnmento , quanto era mais con- 
veniente fer adminiítrada aquella Caía, & fervida aquelia 
v Tom. I. K mila- 



iq6 ' Santuário 'Marlani 

milagrofa Senhora por Religiofos,do que por feculares, a 
mandou entregar aos da Ordem de Sam Domingos, que alli J 
refidemcom grande edificação , aproveito do povo que f , 
alíi concorre. Eaffim o devoto Simaõ Vella poflo que era 
homem Santo , & efeolhido por Leos psra porfeu meyo 
defeubrir aquella Santa Imagem ,.naõtcve pormuyto tem- 
po a admimííraçaõ daquella Caía j porque logo que fe edifi- 
cou, foy entregue aos Religiofos de Sam Domingos. Mas 
o fe r rvo de Deos acabou alli a fua vida em o ferviço daquel- 
la Soberana Senhora. A qual defde o feu apparecimento 
começou a refplandecer com muy tos milagres , como ainda 
hoje continua. 

Defle fucceíTo fe vè em como Deos com fua infinita Sa- 
bedoria fe ferve de inífaumentos fracos ,& efeolhe osme- 
yos que lhe parece para effeito de fuás maravilhas , & quan- 
do eftes faõ mais fracos, entaõ moflra elle mais a fua Divina 
Omnipotência. Daqui podemos entender que porefteref- 
peito moveo os corações de António Simoens, & deíiia 
mulher , moradores na Cidade de Lisboa , para que de feu 
trabalho, &dealguas efmolas mais ,mandafTem fazer huá 
devota Imagem de noífa Senhora. Feita a Santa Imagem, & 
faindo em tudo conforme com a fua grande devoção, fica- 
rão indeterminados no nome q lhe poriam. Ouvirão neflc 
t empo ( naõ fem myíterio , nem acafo) referir a hiítoria do 
apparecimento de noífa Senhora de Penha deFrança,àde 
Cafklla a Velha referida , & as maravilhas , que noífo Se- 
nhor por ella obrava; & como também na Cidade de Tole- 
do, na Igreja da Santiffima Trindade , havia hum altar dedi- 
cado à mefma Senhora , comefle titulo em memoria da de 
Penha de França da Serra de Caftella a Velha,aonde do mef- 
mo modo obrava noífo Senhor infinitos milagres. 

Movidos pois por efla fama intitularão a efta Santa 
Imagem com o titulo da Senhora de Penha de França % & a 
«allocáraõ na Igreja de noffa Senhora da Vitoria, que fiest. 

dentro 



Lívio I. Tituk XXVl. x 4 ? 

dentro de Lisboa em o fítio, que chamão da Calde iraria, no 
1 bairro de Valverde. Alli eíteve eíta Santa Imagem por al- 
guns annos^Sc naquella Igreja era venerada,& fç tinha com 
ella grande devoção, & aífim a feftejavaõ todos osannos 
com efmolas que ajuntavaõ. 

Depois defejando António Simocns edificar cafa pró- 
pria a eíia Senhora, & bufcando fitio conveniente, teve no- 
ticia do monte chamado naquelle tempo, Cabeça do Alpor- 
che, aonde pela parte do Norte fe remata aquclle, que tem 
ofeu principio na Cafa de nofla Senhora da Graça; &flqa 
fobre o chafariz de Arroyos , de donde fe defcobre hua fer- 
mofa, & dilatada porçaõ de terra, & de mar com muytas 
quintas, hor tas, & jardins por todas as partes. O qual fi- 
tio parece o efeolheo efla Senhora para fi,que he muyto 
alegre, & deliciofo. E fe refere por tradição, que indo 
àquelle fitio hum Padre da Companhia grande fervo de 
Deos, o qual morreo martyr nas partes do Oriente , & que 
faltando com o companheiro diífera (faltando da fermoíura 
daqucUe íitio , & cm profecia ) que efperava em Deos , que 
naquelíe monte, fe havia de fazei 4 hua devota Cafa deReli- 
giofos à honra da Virgem no Ta Senhora. 

Com as noticias pois deite fitio, bufeou António Si- 
mocns a Aífonfo de Torres , & Magalhaens , de quem elle 
era^&defua mulher D- Confiança de Aguilar,&lhespe- 
dioouveífèm por bem de lhe dar naquelle monte íitio para 
edificar hua Ermida a noífa Senhora, & como clleseraõ no- 
bres, & muyto pios, & devotos de noífa Senhora,faciImen- 
te concederão a António Simoens o que pedia, & aílim lhe 
deraõ liberalmente o campo aereffario para a edificação da 
Ermida, que queria edificar, pondolhe fomente por condi- 
ção, que fendo cafo, que vicíCc aquella Ermida a fer Con- 
vento deaígíia Religião , poderiaõ tomar para fi a Capelfc 
mayor de noTa Senhora, { como pronoílicando o que havia 
defer) pagando ielles o ciiilo que yfe,QUVçí[e feiro^ Epara 

K z poder 



"\ 43 Santuário Mariano 

poder o dito António Simoens edificar cafa em que pudeflc 
viver, íhè aforarão em fatiota campo bafíante commode-/ 
rado foro. Succedeo ifto no principio do anno de 1 597. Sc 1 
cm vinte & finco de Março do me imo anno, dia da Encar- 
nação do Divino Verbo , fe lançou a primeira pedra, &fe 
começou a Cafa da Senhora; mas de fabrica humilde, fegun- 
do a capacidade de António Simoens, o qual ajudado dos 
vifinhos , & de alguns devotos, que o animavaõ com efmo- 
las,profcguio na fua empreza atè pòr a Ermida em eflado de 
fe poder celebrar neíla. 

Acabada a Ermida, procurou logo António Simoens as 
licenças, para fe poder dizer MifTa nella, do Arcebifpo, que 
erjD, Miguel de Caílro, & confeguidas , tratou com a mef- 
ma "diligencia de trazer a Imagem da Senhora para a fua 
Cafa, o que fefez comfolemne proci(faõ,&foy collocada 
cm o mefmo anno , naõ fem admiração de todos ; mas como 
Deos fe agradava defta obra , concor ia comosmeyostam 
efficazmente , que em nada havia # difficuldade, oudsfcuido. 
Collocada a Senhora na fua nova Cafa , começou afer vifí- 
tada,& frequentada , &fuppofta que ainda naõ era conhe- 
cida de muy ta gente, por ficar o lugar algum tanto defvia- 
do da Cidade, & fer o caminho pouco frequentado , & eflar 
com pouco credito na opinião de muy tos : a Senhora naõ fó 
o acreditou; mas com as fuás maravilhas , que foy obrando^ 
o fez frequentado de todos. 

Succedeo caftigar Deos com o mal da pcíle a Cidade de 
Lisboa; por cuja caufa fedefemparou da mayor parte dos 
moradores, (q tiveraõ commodo para o fazer a lugares fe- 
guros ) & como os trabalhos coflumaõ defpertar fempre 
aos peccadores , nefla afflicçaõ bufeavaõ em Deos o remé- 
dio pela interceffaõ de fua Mây Santiffima , indoa bufear 
àquella fua Cafa nova, & pobre ; & ella como Mãy de mife- 
ricordia aceitou a fua devoção, alcançando a muy tos dos 
que a bufeavaõ p & invocarão com o titulo de Penha de 

Fran- 



' Livro L Titulo XWI. 14$ 

França ^a faudc perfeita, izentando-os do golpe daquella 

•á cruel efpada. Correo a fama deftas maravilhas , & foy cada 
dia creícendo, & augmcntandofemais a devoção, & fazen- 
dofe efta Senhora mais conhecida. 

Começou a crecer o mal de forte, que nos fins de Janei- 
ro de 1 $99* eraõ tantos os mortos , & feridos , que havia 
dia de fetecentos;&fem embargo de que felheapplicavaõ 
com toda a charidade os remédios humanos; como eftes naõ 
baftavaõ , tratarão de recorrer aos Divinos : & aflim o Pre- 
fidente da Camera D. Julianes da Cofta, com os mais do go- 
verno da Cidade , que aflifliaõ a efte grande trabalho , con- 
íiderando,que fó de Deos podiaõ efperar o remédio de tam 
grande mal, movidos também, ao que parece, do mefmo Se- 
nhor, tomáraõ por medianeira , para alcançarem o remédio 
deita grande tribulação , a Soberana Rainha dos Anjos de- 
baixo do titulo de Penha de França, a quem de commum 
confentimento fizeraõ o voto feguinte, comoeflá nofeu 
original» 

AíTento que fe fez em mefa a 28. de Janeiro de 
mil & quinhentos noventa & nove. 

gnz a Cidade fa^ Voto a N- Senhora de Tenha de Fran- 
ça que ella lhefardafua Capella com/eu ret abolo, & lhe dará 
hum ornamento bem feito , com o d Cidade parecer, &que 
tanto que ella for fervida de alcançar defeu bento Filho fau- 
de para efta Cidade , lhe f ar d hua procijfaÕ, quefakird pela 
manhaa muyto cedo da noffa Igreja de Santo António , & na 
dita prociffao fe leVard afua Imagem à dita Cafa > na qual 
irão o Trejidente , & Vereadores, & ntais Offiaaes da Mefa y 
ér Cidadãos , que quiserem, defcalços , ó* todos leVarào fnas 
Varas nas mãos >& ctrios na outra, osquaes ficaram deef- 
mola^ AMefairàfemnada na cabeça, & na Capella fe por* 
lnu âivifa \ & outro fi promete a Cidade , que eftaproci(faõ fe 
Tom. I. K 5 fará 






j jo Santuário Mariano 

fará em cada hum anuo .perpetuamente no mefmo dia em qúê 
fefi^er a primeira prociffaÕ, & no letreiro que fepu^er m\ 
Capellaje declarara também efta obrigação. Eair a Udade \ 
de] calçapromete por eftaVt^: porque os que Vierem aforam o 
que lhes parecer no ir defe alças ; & neftapíociffaõ iraoTrefi- 
dente> <? mais Officiaes da Mefa confejfados para na Mi ff a 
quefediffer tomarem oSantijftmo Sacramento ; & atè o cabo 
delia eJtaràmdefcakvs. OVrefidente. Henrique daSilVa. 
Frahcifco íCardofo. Luis Mendes. Domingos Fernandes* 
António Dias. Gafpar Antunes. Gafpar de Siqueira. 

E o Tovo be contente de affinar napromeffa , que a Cida- 
de tem promettdo para mffu Senhora desenha de Fr anca ? 
no que toca d Çapellamòr ,&ret abolo , & ornamento, par a 
fe celebrarem os OJf cios divinos 7 em o qual fe poderá gaftar 
finco j ou féis mil cruzados fomente , ér mais nao. Com decla- 
ração que no arco da Cafrdla mòr fefarà declaração de como 
o ToVo deu efta efmola. 1 borne Antunes. António Dias Fia- 
lho. Gafpar de Siqueira. Àntonto Dias. IPedro Soares. Ben- 
to Soares, Fr ancifcoTereir a Ferreira. Lucas Soares. Fe- 
dro Mendes. JoaeT)tas. Adriam Martins. Domingos Fer- 
nandes. AlVaroGomes. Amónio da Cofta. 

A primeira prociffaofefe^ afinco de Agofto do mefmo 
anno de 1599- dia de nojfa Senhora das TSleVes, i? no mefmo 
dia fe farão as mais daqui em diante. Frefidente. Fran- 
cifco Cardofo. Luis Mendes. Gregório de Moraes. Gafpar 
Antunes. Gafpar de Siqueira. 

Obrigoufe a Senhora de Penha de França tanto defle 
voto, que com feus rogos alcançou logo de feu preciofo Fi- 
lho , que daquclle dia por diante fe começaíTe a aplacar o 
contagio, até que no dia das Neves domeimo anno fefez 
a primeira prociífaõ,foiemnizada mais com lagrimas , & 
penitencias, do que com ceremonias exteriores, com que 
ellas fe cofiumão fazer, indo a buícar a Senhora defcalços, 
cabeças defeubertas, & velas acefas nas mãos; para com 

cite 



# Livro L Titulo XXVL i ji 

cftc habito 'de penitencia afliflirem à MiíTa, & Sermão, que 
\ elegantemente pregou o Padre Fr. Manoel da Conceição* 
Pregador de Sua Mageflade , a quem a Cidade o encomen- 
dou , & acompanhou também a Communidade de nofla Se- 
nhora da Graça: o que naquelia occafiaõ naõ deixou deter 
myfterio. Parece os quizncfta occafiaõ habilitar Deos para 
Capellaensdc íua Mãy Santiflima. Acabado o Sermão, fc 
c ontinuou a MiíTa ate o fim } & ao tempo da offerenda foraõ 
à ofFerta todos os Officiaes da Camera da Cidade , que hiam 
íia prociíTaõ, começando pelo Prefidente Dom Julianesda 
Coíla;oqual defuacafa oíFereceo hua coroa de prata dou- 
rada comfua diadema para a Santa Imagem da Senhora, que 
he a que ainda hoje ufa , &com ella duzentos cruzados em 
ouro, para as obras da íua nova Igreja. Eaelicfefeguiraõ 
os mais , que juntamente com os círios offerecèraõ cada hu 
conforme a fua devoção, & poffibilidade. 

Recolheo eftas efmolas o Doutor Lourenço Mourão 
Arcediago da Santa Sê de Lisboa, (que na mefma prociíTaõ 
fcy deícalco, & cantou a Mi Ta) & a teve em depofito até fe 
começar a nova Igreja, que a deu aos Religiofos de meu Pa- 
dre Santo Agoflinho, que jà naquelia occafiaõ tinhaõ toma- 
do po,'íè da Cafa da Senhora. No fim da MiíTa comungarão 
todos os quchaviaõidodefcalços na prociifaõjCommoítras 
de grande piedade. Dallipor diante continuarão o feu vo- 
to , que até hoje perfevera, fem fe faltar nunca ao cumpri- 
mento delie em o mefmo dia das Neves, faindo a prociíTaõ 
da Igreja de Santo António à hua hora depois da meya noy- 
tc , a # qual. acompanha ainda hoje a Communidade de noífa 
Senhora da Graça, , & vaõ todos com círios acefos,que 
offerecem à MiiTa, conforme a primeira obrigação do voto. 

Também foy coufa maravilhofa, & muyto digna de no- 
tar, que no tempo da prociíTaõ havia .ainda algifris rebates 
do contagio, por não efhrem asesfas purificadas como 
convinha, & ajuutandoíè pela occafiaõ da prociíTaõ muyta 

K 4 gente 






-i 5 1 Santuário Mariano 

gente da que eflava pelos lugares, & quintas ao redor , naô 
ouve naquelle dia rebate algum^mas antes delle por diante, / 
ouve notável melhora nos doentes da cafa da faude. E por 
efías, & outras maravilhas, & favores , que recebiam muy- 
tas peflbas pòrintercefTaõ da Senhora de Penha de França, 
fe começou a dilatar cada vez mais a ília devoção, cftender- 
fea fua fama, & a crecer grandemente a fua romagem. 

Foy continuando António Simoens a obra, & fez o 
corpo da Igreja, que fervio cm quanto fe não deu principio 
àque hoje tem a Senhora, & as fuás cafínhas junto aella, 
correndo com toda a adminiílração dasefmolas, aífim de 
Miffas , como de offer tas , fem outra peíToa algua fe intro- 
meter niíTo, ou lhe tomar conta. E porque havia algumas 
mdecencias , em que fe podia reparar , & diminiur a devo- 
ção , defejavão os moradores daquelle contorno , & ou- 
tras muytas peflbas , que nefta Ermida efíivefTem alguns 
Rcligiofos, que confeflaflem, & facramentaffem , & trataf- 
fem as mais coufas do ferviçode noffa Senhora , como con- 
vinha. Daqui tomáraõ motivo os Religioíos de Sam Do- 
mingos,para pedirem a Affonfo de Torres, que lhes fizeífe 
doaçaô do que tinha naquelle fítio , &daauçaõ daCapelía, 
& do direito fenhorio dascafas do Ermitão , com certas 
condiçoens de que fizeram contrato no anno de 1600. E 
logo começarão a tratar com o Ermitão de lhe largar o mais; 
porém defavieram-fe de modo fobre as condições, que não 
concordaram com elle ; & pela doação de AíFonfo de Tor- 
res fe intentou tomar poíTe da Igreja. 

No principio do anno de 1 601 . offerecèram António 
Simoens , & fua mulher , de fua livre vontade, a Ermida, & 
juntamente ascafas em que viviam ao Provincial , & mais 
Religiofos da Província de noíta Senhora da Graça, dos 
Eremitas ck meu Padre Santo Agbflinho , que era naquelle 
tempo o Padre Fr. António daRèfurreiçaõ, ou da Silva, 
para a fua Ordem , com quem prinieiro tratara AíFonfo de 

Tor- 



Livro I. Titulo XXVI. *TÍ 

Torres. E cm quatro de Janeiro do mefmo anno fizcrão 
* Í livre doação da dita Ermida à mefma Ordem , de tudo o que 
podião: &no mefmo dia fe fezaefcritura do contrato, &le 
tomou poffc jurídica. E pofto que o Ermitão refervou para 
fi a adminiftração da dita Ermida em fua vida , affim , & da 
maneira que nellaeftava,&que os Religiofos entenderiao 
fomente em conf eflar, & facramentar ; comtudo , logo fica- 
rão dous Religiofos confervando a porte, para o que a Reli- 
gião mandou edificar huascafas , que ainda hoje fervem as 
peffoas que alli querem ter novenas. Sobre efta potte mo-» 
veraõ os Padres Dominicos demanda, çertendendo ler a 
fua primeiro. Correndo o pleito via ordinária , fe perten- 
deo,queElRey deffe Juiz particular , que fummariamente 
julgaffe a caufa ; mas naõ tiveraõ recurfo, & fe mandou con- 
tinuaffe o negocio no juizo ordinário. No qual foy julga- 
do pelo Corregedor do Civel, não ferem esbulhados os Pa- 
dres Dominicos, por naõ fer a fua poíTe jurídica , como a 
dos Padres Agoftinhos: o que vendoos Padres Dommicos, 
como Letrados, & Religiofos deíiftiraõ da caufa, & larga- 
rão a Affoníò de Torres a auçaõ do contrato, para o poder 
fazer com quem lhe pareceííe ; & aífím fe contratou nova- 
mente com os Eremitas de Santo Agoftinho do mefmo mo- 
do, c;ue o havia feito com os Padres Dominicos; & foy com 
certa obrigação de Miflas , que fe dizem na Capejla da Se- 
nhora f aonde t em a fua fepultura) fegundo a doação que ti- 
nha feito ao Ermitão António Simoens. 

Deite modo ficaram continuando os Religiofos de San- 
to Agoiiinho no ferviço da Senhora de Penha de França 
atè oanno de 1605* no <l Uíl * por verem quam mal fervida 
eftava a Senhora daquelle modo, tratarão com o Ermitão, 
q logo lhesiargaífe toda a adminirtração , & lhes vendeíTc 
as íuas cafas para nellas viveremr E vindo nifto fe concor-* 
dáraõ, & fizeraõ hua eferitura com certos confertos , em o 
primeiro de Agoflo do mefmo anno de 1 603 . pagandoíhas 

muyto 



t ^4 Santuário Mariano 

muy to bem, & faz:endolhe outros favores. E tomando pqfle 
de tudo cm Outubro feguinte , ordenarão o feu recolhi- ) 
mento, que era muy to pobre,& humilde, pois naõ continha ' 
mais que as pobres cafínhas, q havtaõ feito ,.& as do Ermi- 
tão, em que per íeveráraõ em quanto fe naõ fez o Convento 
novo que hoje tem, que fie o mais perfeito qtie tem a Pro- 
víncia , por ler de e > celícntc obra ao moderno. 

Deraõos PLeligioícs a António Simoens naquelle íitio, 
q lhe havia dotado Affónfo de Torres , lugar baflanre para 
edificar outras caías \ & elle as começou a fabricar : porém, 
oupezaroíò de haver largado a Ermida , ou ambiciofo dos 
emolumentos, & offertas que nella perdera, intentou fazer 
outra Ermida em hum olival feu forro , & izento, que tinha 
junto à eflrada, que vay para a mefma Cafa de noífa Senhora; 
& para fe fegurar , fez doação do dito olival à Comenda de 
SamBras da Religião de Malta , & lhe foy aforado , & dada 
licença , por feus privilégios , para edificar alli hua Ermida 
de Sam joaõ Baptilk. E de fado começou o edifício de ca- 
fas, & Ermida, deixando a obra que primeiro fazia. Vendo 
os Religiofos o grande prejuizo > que fe fazia à Cafa de noífa 
Senhora, havendo naquelle lugar outra Ermida; fizeraõ pe- 
tição a ElRey no Confelho de Madrid em q fe lhe deu conta 
do que pairava. Deferio ElRey por carta lua eferita no 
anno de 1605. aoDefembargo do Paço , para que feman^ 
daffe a hum Corregedor notificaífe ao dito António Simões 
parafíc com a obra, & que fe annullaffè a doaçaõ,que fizera 
do olival. Ultimamente apertado António Simoens meteo 
valias aos Religiofos, para que lhe deixaflfem acabar as pri- 
meiras çafas , cj começara junto aN. Senhora : porque elle 
queria deíiítir da outra obra. Tudo os Religiofos concede- 
ram por amor ca paz : & íè compuzeraõ com elle com outra 
eferitura feita em oito de Outubro do mefmo anno de 1 605. 

Tendo noticia ElRey em como aqueíla Cafa eftava cm 
poder dos Religiofos de Santo Agoiiinhò , & que nella reíi- 

diaõ 







Dé0. Titulo XXVI f lyj 
dilío, inteirado da lua pobreza lhes concedeo Provifòes para 
% mandarem pedir efmolas pelos Bifpados para as obras da* 
ouella cafa; o que fenão continuou por razoens que ouve 
f>àra iífó. OSummo Pontífice Clemente VIII. também fa- 
voreceo aquella cafa com graças, & privilégios à petição 
dosReIigiofos,comofoynoannode 1,605. concedendolhe 
que fenaõ pudeffe edificar de novo outra aígua Ermida, em 
qualquer íitioque feja, nem com quaefquer privilégios (aitv- 
da que feja com os de Sam João de Jerufalem ) em diíhnciá 
de três milhas da dita caía de nbffa Senhora. No mefmo an-- 
no concedeo outro privilegio , para que nos Reynos, & Se- 
nhorios de Portugal fe não poíTa edificar outra aígua Igreja 
com o titulo denoíTa Senhora de Penha de França. Tam- 
bém concedeo no mefmo tempo muytas indulgências aos 
Irmãos da Irmandade dos mareantes da índia, inflituida 
na mefrna cafa por D. Jeronymo Coutinho, vindo por Capi- 
tão mòr no tempo da mefrna peíle, pelas mercês que aquella 
Armada recebeo na viagem por interceffaô da mefrna Sc- 
nhora^ que tomarão por advogada. E concedeo mais o mef- 
mo Ponrifíce hua indulgência plenária, ScrenuíTaó de pec- 
cados perpetua a todos os que do Porto de Lisboa parti- 
rem para partes onde a viagem cofluma durar de hum rnez 
para outro, fe dentro dos últimos oito dias ordenados para 
fe embarcarem , confeífados , & commungados viíitarem a 
cafa de noíTa Senhora. 

Tanto que os Religiofos eílíverão de todo de polTe pa- 
cifica de toJa aquella cafa, tratarão' logo com aCamera da 
Cidade fobre o cumprimento do voto, quanto à fabrica da 
Capellamòr. Levantárãofe logo alguas duvidar, per fer o 
padroado delia, &' jazigo de Affonfo de Tonres, como fica 
dito, & ie vierao a refoíver entre íi a CamerIJos Religiofos., 
& Aífònfo de Torres cm certa compofíção , de que rio anho 
de 1604. fe fez contrato pelo Tabelião das coufas da Ci- 
dade >pelo que logo mandarão fazer a planta pelo Archi- 

tefío 









i$6 Santuário Mariano 

teclo delRey Theodoíio de Frias; &fe poz a obra em pre- 
gão, que arrematou o Meftre pedreiro Adrião João. Tra- / 
toufe logo de fe lançar a primeira pedra > o que fez o Pro- 
vincial , que era o Padre Fr. Chriítovão Corte Real, a que 
affiítio aCommunidade do Convento de noffa Senhora da 
Graça com muyta folemnídadejaífiítíndo aoaâo oPrefi- 
dente da Camera D. Joam de Caflro, com os mais officiaes 
da Cidade; o que fc fez em hua fefía feira depois da Afcen- 
çaõ do Senhor do mefmo afino de 1 604. cantandofe pri- 
meiro Mifía de nófla Senhora. A obra da Igrej a que perten- 
cia aosReligiofos também fe começou logo a tratar delia j 
& aflim correo tudo por conta do mefmo Meílre. 

As maravilhas, & milagres que efla Senhora tem obra- 
do faõ infinitos, como fe manifefla nas innumeraveis me- 
morias de que eftà cuberto todo aquellc feu Templo , & 
ainda a facriíKa, & via facra, como fa5 quadros , mortalhas, 
muletas, cadeas,pontas de efpadartes,pellcs de grandes la- 
gartos marinhos, braços, & pernas de cera ,& corpos in- 
teiros : Scbaihnte he o milagre referido da peite para fc 
conhecerem as grandes maravilhas , que Deos tem obrado 
peia interceffaõ de fua Santitfima Mky , & por meyo da fua 
Imagem de Penha de França. Eílá a Senhora collocada na 
tribuna da Capella mòr , dentro de hua rica charola de ta- 
lha ricamente dourada. A Santa Imagem hc de madeira. Po - 
rém a devoção dos que a fervem a tem vefiida de prata em 
chapa femeada de pedras ricas. Tem pouco mais de quatro 
palmos em alto, he eftofada y no braço efquerdo tem o Me- 
nino Jefus,& na mão direita hum cetro , como Rainha que 
he do Ceo, & mais da terra : poemlhe mantos de ricas tèlàs, 
fegundo as cores de que ufa a Igreja; tem toalha feita da 
mefma efeuitu^, rnas de prata : na fermofura he admirável: 
parece eftáattrahindo afi os coraçoens de quantos a con- 
templão. Eíté collocada fobre hua pianha de prata de altura 
de finco palmos» , primorofamente lavrada , & com algumas 

figuras 



' Livro I. Titulo XXffl. .%* 

f gúras do mcfmo metal: a qual affenta fobre outra de íafpe, 
\ que fe levanta de outro pedefial quadrado de jafpes bran- 
cos, &reveflido de cores, que faz alguns dez palmos por 
cada face. Sobre eíle affenta hum fitiai de oito cortinas j& 
fevè a Senhora com grande veneração, ôcmageftadc Ei- 
crevem da Senhora de Penha de França o Padre Fr. Manoel 
da Conceição em hua relação manuferita: & o Padre Fr. An- 
tónio da Natividade, nos feus Montes,Mont.2.Cor.i. 



N 



T I T U L O XXVII. 

Da Imagem de nojfa Senhor a daferjia. 

O Convento de noffa Senhora da Graça dosEremi- 
p tas de meu Padre Sdhto Agoftinho , fe venera com 
grande devoção, & culto hua Imagem da Mãy de Deos com 
o titulo de noffo Senhora da Períia, (que te bem entre neite 
lugar depois da Senhora de Penha de França) cuja origem 
refere o Padre Meflre Fr. António da Natividade , nos 
feus Montes, & Coroas, nefta forma. Havia hum Mouro 
mercador em a Cidade de Hafpam , no Reyno da Períia ,o 
qual tinha na fualogea, ou tenda, havia doze annos^numa 
Imagem de noíTa Senhora 3 & qual feria a veneração com 
que a tratava, fe pode crer da feita que elle prof effava: por- 
que fendo Mouro , & inimigo ( como o faõ todos) das Ima- 
gens de vulto, a que chamaõ Ídolos •, he certo ,que nenhua 
reverencia lhe teria , como na verdade era v E affim andava 
a Santa Imagem pelos cantos da cafa, entre as mercadorias 
delia, & pordebaixo dos bancos; & nella forma feria trata- 
da a Santa Imagem com grandes irreverências , & oefpre- 
zos,&alguas vezes pizada daquelles torpes, & bárbaros 
infiéis Veya cita Santa Imagem àsmãos daquelle Mouro 
depois da perda de Ormuz, que fqccedeo no anno de 1 622 



fc 



158 Santuário Mariano 

&como foy entrada por Mouros inimigos de Chrifto, & de 
todoofagrado,tudooqu: era pereceo,ôtfoydcftruido , 
& profanado. Nefta occafiam pois , por vários caminhos, 
& acontecimentos, difpoz Deos , que a fagrada Imagem de 
ília Santiflima Mãy vieífc ao poder daquelle bárbaro. 

Teve noticia hum Religiofo Eremita da Ordem deN. 
Padre Santo Agoílinho,que aítualmenteera Prior do Con- 
vento que a Ordem Augufiiniana tem naquella Cidade , & 
( Corte da Perfia. Não lhe fofreo a fua catholica piedade, & 
zelo do culto, & veneração, que fedeve às Imagens da 
Mãy de Deos , que aílim foíTe tratada efta com tanto def- 
prezo, & que eíKveífe em tal lugar. Procurou logorefga- 
tala; & pode a pouco cuílo eííeituar os feus defejos : porque 
não pode tanto comaquelles bárbaros o ódio que tem às 
Imagens , como o amor , & ambição do dinheiro. Effei- 
tuadaa compra , trouxe o Prior a fagrada Imagem para o 
Convento, aonde fcy recebida dos Religiofos, entre lagri- 
mas de gozo , £%alcgria , com hymnos, & cânticos de lou- 
vor, que davaõ a Deos > &a fua Santiflima Mãy, pelos ha- 
ver eícolhido por recompenfadores dos defacatos , que 
àquella Santa imagem fe haviaõ feito em lugar tam alheyo 
da fumma veneração, que merecia. 

Aiguas coufas muyto dignas de ponderação fuecedè- 
raõ, que não poífo deixar de referir, para que os feus devo- 
tos na fua devoção mais fe afervorem. Foy a primeira, que 
citando os Religofos refolutos a collocar na fua Igreja a 
fagrada Imagem, para que foíTe venerada dos que entravaõ; 
& porque naquella mefmn Cidade , em q primeiro fe lhe ha- 
via faltado com o culto, & veneração , foíTe novamente re- 
verenciada, & triumphaíTe do infernal inimigo em fua pró- 
pria cafa. Eíte zelo fe esfriou de forte, cue parecendo fal- 
ta de devoção , foy certamente alta difpofiçaõ da divina 
Providencia: & aílim a recolheram, por parecer que pri- 
meiro era neceíTario reparala (dos mãos tratamentos , q em 

cafa 



Livro I. Titulo XXVII. ij$> 

cafa do mcrc < cor Mcuro, fe lhe haviaõ* feito) antes que a 
expuzefícm cm púbico, & para efle eífeito a recolherão em 
hum armário da Sacritfia: refolução de que naíceonao tor- 
nar a íagrada Iíragem a paefecer os defacatos, & defprezos, 
que em cafa do Mourohavia padecido. 

A fegunda foy ,que o Mouro havendo alcançado por 
experiência, que a fua cafa ,& trato padecia grandes detri- 
mentos , & diminuições na venda das fuás drogas > enten- 
dendo certamente , que tudo lhe nafeià da venda da Santa 
Imagem , fe foy ao Convento a pedif lha tornaíTem a dar, 
& que recebeíTem o preço que pelo refgate lhe haviaõ dado. 
Efobre iflo ameaçou aos Religiofos , que fe lha naõ refli- 
tuiffemfe queimaria aoRey. E porque defta queixa pode- 
riaõ remita? mayores defacatos à Santa Imagem da Senho- 
ra, &: grandes damnos aos Religiofos do Convento , fe lhe 
efeufáraõ, dizendo, que a ha viaõjà mandado para as terras 
dos Chriflãos,para fer delles reparada das quebras com 
que fahira da íua logea. O que puderam dizer fem mentira; 
.porque aílim odeterminavaõ fazer, & podiaõ dar por feito, 
oquetam próximo eftava a fe executar. 

A terceira coufa foy, (& aílim pareceo neceffario para 
aquietar o Mouro) oíferecerlhe que correífe livremente to- 
do o Convento, & o bufcaífe, para que naõ achando nelíe o 
que bufeava ( fiavão da SanrifTima Virgem , que em confc- 
quencia da confiança que delles fizera, occultar ia ao Mouro 
a fua fagrada Imagem) defifliífe da pertençaõ. Bufcou final- 
mente o Mouro todo o Convento : & difpoz noíTo Senhor 
que paffando peia Sacriflia, fó defla naõ AzeíTe cafo, nem a 
bufcaífe. Entaõ ( he a quarta coufa) perguntado pelos Re- 
ligiofos, porque fazia tantos extremos por recuperar hu3 
peça de que na fua logea naõ fazia cafo, refpondeo,queem 
quanto t; vera aquella Imagem na fua cafa, que ha via doze 
annos,(tantos havia era perdido Ormuz)ganhava todos os 
dias certa foma de dinheiro ; &<juedepoís que a vendera , 

outro 



i6o Santuário Mariano 

outro tanto perdia todos os dias, & que eftava com a expe- 
riência eníinado , & períuadido j, que daquella Imagem lhe 
náfcèra o ganho, quando atinha^& a perda, depois que a 
deixara. Quiz Deos que da boca do inimigo fahiífe o tefle- 
munho primeiro da gloria, com que fua Santiflima Mãy 
quer fer neila fua Imagem venerada. 

A quinta coufa he , que logo que ao Prior do Convento 
fe lhe offereceo o vir de Hafpaõ para Goa , & delia para eftc 
Rcyno, aífim opoz-logo em execução, procurando trazela 
com tal recato, ao menos até fairda Períia,quenaô pudefle 
perigar hua joyadetam grande preço. Que digo perigar? 
Ella foy a que em tam larga jornada, como da Perfia à índia, 
& da Indii a Portugal, naõ fó 9 livrou de todos os perigos, 
& trabalhos, que ordinariamente fe experimentaõ ;mas fez 
que elle chega Te a Lisboa comprofpera, & feliz viagem: 
porque no difeurfo de tantas legoas , naõ experimentou o 
menor defeonto. 

Chegando o Prior de Hafpaõ ao Convento de noífa Se- 
nhora da Graça de Lisboa, tratou logo de collocar a Santa 
Imagem em parte, donde fe lhe deífe todo aquelle culto , & 
veneração, que felhe devia, em fatisfaçaõ dos defacatos, 
que na Perfia padecera. Collocou-a no Altar de Santa Anna 
fua gloriofa Máy , ( no anno de 1 645.) que também fe pôde 
attribuir a myíkrio; porque fe naõ entendeífe, que entrava 
cm cafa alhcya, mas em cafa própria, qual era a de fua Santa 
Mãyj&como naquelle Altar naõ havia Imagem de vulto, 
ficou ella no meyo do Altar tam Senhora da Capella, que ]à 
hoje fe naõ nomea de Santa Anna,mas a Capella de noífa Se- 
nhora da Perfia. Efla Capella he a collateral da parte do 
Convento, que fica no meyo do topo do cruzeiro; he mage- 
flofa , & grande. Eftà a Santa Imagem da Senhora em hum 
tabernáculo dourado de talha muyto miúda feito na índia. 
Por induftria, cuidado, & devoção do mefmo Padre, que íê 
chamava Fr.Francifco Ribeiro, ajudado de muy tos devotos 

fe 



livro l Tituto XXWIL i6i 

íc ordenou logo hua nobre Confraria , tam favorecida de 
efmolas, que em poucos annos começou a vencer a muy tas, 
na riqueza das peças,& ornatos com jazigo para os Irmãos 
defuntos , & feflasque à Senhora fe fazem com grandeza, 
& apparato. Tem duzentos mil reis de renda infallivel 
para dotes de quatro donzellas, filhas de Irmaõs , & outras 
rendas mais. 

Naõ foraõ poucas as maravilhas que a Senhora come- 
çou a obrar nos feus devotos : mas q muy to , pois as obra- 
va na Perfía, em quem a naõ conhecia, mas a defacatava l He 
cila S. Imagem de madeira; defcfcultura,& eftofada; tem 
perto de três palmos ; tem o Menino Jefus fobre o braço 
efquerdo; he trigueirinha, mas de muy to lindo, & engraça- 
do rofto ; & tapto , que parece eftar roubando os coraçoens 
dos que a vem. Efcrevem da Senhora da Perfia o Padre Fr. 
António da Natividade nos feus Montes , & Coroas mont. 
2. coroa i. Fr. António da Purificação nafuaChronica part. 
2,tit.5.§,i8. 



TITULO XXVIII. 

Da Imagem de nojfa Senhora de Belém em Santa Ciará. 

NO tempo em que fe reformou na regular obfervan- 
cia o Convento de Santa Clara de Lisboa , que foy 
pelos annòs de 1529. pouco mais, ou menos, fendo afua 
fundação no de 1 287 vivia ema meíma Cidade hum Cléri- 
go de fantp j & louvável vida. Efte fervo de Deos ouvio em 
fonhos por três noites repetidas, que lhe diziam foífc à 
pn ya de Eelem ( q naquelles tempos fe chamava Reftello) 
& que nella acharia hua Imagem de noífa Senhora ; & que a 
levaíTe ao Convento de Santa Clara , extra muros da mefma 
Cidide; porque alli queria fer venerada entre as Efpofas de 
Tom. I. L fcá 



'ufa Santuário Mariano 

feu Santi/fimo Filho Jefus Chrifto : & que por feu meyo , & 
interceffaõ fehaviaõdefaivar muytas almas. Levantou fc 
o devoto Clérigo, & pornaõ fer ingrato ao favor que a 
Rainha dos Anjos lhe fazia, fe fcy às prayas de Refkllo , & 
nellas achou a preciofa concha que o mar ,fem duvida por 
fenao achar digno de a pofluir , havia poílo branda , & fua- 
vementefobre a arca. Contente com o rico thefouro vol- 
tou para cafa o virtuoíb Sacerdote , & tratou logo de ir 
fazer entrega daquella rica joyada Santa Imagem àsReli- 
giofas: às quaes referio o fucceífo, de que eilas ficáraõ muy 
contentes, & alegres; pois feviaõ viíitadas, & favoreci- 
das da Mãy deDeos,&muyto mais pormofírar a mefma 
Senhora fatisfazerfe dafua companhia ;&elegelas a eilas 
entre as muytas Efpofas, que o mefmo Senhor tinhana mef- 
ma Cidade, 

NaõíabiamasReligiofas aonde, & em que lugar colfo- 
eariam aquella Santa Imagem da Senhora,que mais lhe agrá- 
daffe ; tentaram muytos, & ultimamente acollocáraõem 
hum lugar aonde pudetíe fer viíta, & venerada detedas^ 
puztram-na em hum nicho, que ficava fobre a porta da en- 
trada daefcadaque faye dos dormitórios para ocoro:para 
que nefla paffagem tiveífem fempre lugar de a faudar, quan- 
do hiàõ>& quando vinhaõ. Collocada nefte lugar, ficarão 
as Religiofas muy alegres: porem na manhãa feguinte a 
acháraõ menos. Bufcàraô-na por todo o Convento ;& ul- 
timamente a foraõ defeubrir em hum nicho , que ficava em 
hum dos ângulos doClauftrofque he cemeterio das Frei- 
ras) no qual eílavaõ duas Imagens, hua de Sam Jofeph ,& 
outra de Santa Annajnoffieyo delias eflava a Senhota. En- 
tendêraõas Religiofas, que alguém havia feito efta mudan- 
ça; rellítuiraõ na outra vez ao primeiro lugar,& comodtl- 
le aachaffem menos fegunda,& terceira vez, a fecharão 
com hum cadeado, para que dalli anaõpudeífemtirar( per- 
fuadiramfe a q alguém ohavia feito*) Porem como aachaf- 
fem 



Livra I. Titulo XJtflIl &$ 

fem menos, & a grade fechada com o mefmo cadeado, defen- 
ganaraõfe entaõ, julgando que aSenhora era a que feiíaõ pa- 
gara daquelle lugar: porque queria cafa mayor, & que harta? 
efeolhido o lugar do Clauílroi 

A vifta deita maravilha procuraram as Religiofas de 
mandar romper o nicho até baixa, & fazer nelle hua Capela 
linha no groífo da parede , naõ fe perfuadindo podia haver 
lugar para mais ; para que pudeíTe eftar nelía a milagrofa 
Imagem com mais decência, & veneração* Ao romper fe 
achou hua cafa grande , q alli eítava , fem que as Religiofas 
tiveífem noticia delia : & examinando depois , que cafa era 
aquella, 6c a razaõ de eítar tapada , acháraõ h ua tradição nas 
mais antigas, que ouvera naquelle Cenvento doenças con- 
tagio fas, & que naquella cafa morrera hua Religiofa daquel- 
le mal : & porque fe naõ pegaffe às outras, a tapáraõ de pe- 
dra, & cal. Acháraõ dentro fomente hua dobadoura,inítru- 
mento prop io de Religiofas, que depois das oceupaçoens 
de Maria àproveítaõ o tempo nos exercícios de Martha, 
fiando , & dobando. • Havia naquelía cafa mais hua eícada 
de pedra , q parece tinha ferventia para outra parte; mas ti- 
nha poucos deg • aos. Fica èíta c^a com as coitas na Capei- 
la mcr. 

Deita cafa fe fez hua rica Capella, em que alguas Reli- 
giofas particulares tem difpendido muy ta fazenda ; nella 
eftà aSenhora commuyta veneração, &ofeu Altar com 
muy tos , fc preciofos ornatos , & adornos. Teve fempre 
Ermitoas, que a ferviaõ por fua devoção. Hua fe nomea de 
grandes virtu ies,da qual asoutras. Religiofas contaõgran- 
des coufas , & qy e o Menino Jefus , que a Senhora tem nos 
brnços, lhe f aliara. Os milagres que a Senhora faz , & tem 
í ei to , faõ innumeraveis , & affim he grande a devoção que 
as Reiigicfasíhe tem , as quaes recorrem a eíia Ata amorofa 
Mãy, que fenda hum mar th graças, he juntamente a pifei- ; 
raa de todos osreipçdios, &ríetía .a^aÔ-a&vdo ,&coníbla- 

L z ção 



( 

1^4 Santuário Mariano 

ção cm todos os feus apertos, & necefíídades, 

Deramlhe o titulo de Belém, por fer achada nas fuás 
prayas,no mefmo tempo cm que ElRey D.Manoel ipudou o 
titulo, ou o nome de Reftello cm o dcBelcm. A Imagem 
da Senhora parece de pedra, ou de barro, pelo q peza; por- 
q certamente fe na6 acaba de conhecer a matéria de q he : 
he de muy to boa efeultura, & pintada a óleo, como ordina- 
riamente faõ as Imagens antigas. EflàaíTentada emhuma 
cadeirinha com o Menino Jefus nos braços, &elle tomando 
o peito na boca. A efl atura fera palmo , & meyo. As Reli- 
giofas antigas daquella cafa, porque a quizeram ter com ve~ 
ftidos, lhe cortarão as maõs da cadeirinha , & à Senhora lhe 
mandarão tirar a coroa da cabeça, que era damefma maté- 
ria de q a Senhora he formada, para lhe porem cabelleira, 
& coroa de prata. Efcreve da Senhora de Belém o Padre Fr* 
Manoel da Efperança na fua hift. Seraphica par uz. L 6. c.7. 



TITULO XXIX. 

&a Imagem de nofaSenfar a do Jmparo do Convento de 
Sam Francifco. 

Ainda que a Soberana Rainha dos Anjos Maria Santif- 
íima fe aufentou defle mundo, não fc aufentou de 
amparar aos peccadores quanto ao favor , & ás oraçoens 
diante de Deos,como fallandocom Deos a Igreja lhe allega: 
Munera no/Ira, Domine ^apud cíementiamtuam Deigeni- 
tricis comendet oratio,quam ideircode pr<efenti [(tculo tranf- 
tulifit , ut pro peccatts noftris apud te fiJucialtter inter ce* 
dat. Recebey, Senftor, como encomendadas por voífa Mãy 
Santiffima nofías dadivas , a qual mudaíks deíle mundo, 
para diante de vos confiadamente interceder por nos pecca- 
áorçs. Sempre ha fido para nòs efta Mãy piadofiflima, todo 

noíTo 



Livro L Titulo XXIX. Mj 

noííb bem, & todo o noiTo amparo, & por efta razaõ a invo- 
camos com efte titulo. 

Com efte msfmopara nos favorável úrilo ,fe venera 
no Convento de Sam Francifco que chamaõ da Cidade , 
por diftinçaõ do Convento de Xabregas , em Lisboa , hua 
devota Imagem da Soberana Rainha dos Ceos, cuja piedâ^ 
de ,& clemência fie digna defte titulo, pelas maravilhas 
grandes que obra (por meyo defta fua Imagem) em todos os 
que fe valem da fua interceffaõ. Não neceíli ta efta Senhora 
de que a inculquem para obrar maravilhas a favor dospec- 
cadores : mas he tal a bondade de Deos , & a clemência de 
fua Mãy Santiffima à vifta danoíTa pouca fé, &: devoção, 
que feaproveita deftes meyos pára nos encher de miferi- 
cordias. -Havia naquelie Convento hum Religioíò chama- 
do Fr.Manoelde Amorim, adornado de grandes virtudes, 
& de grande íinceridade. Efte fervendo na devoção defta 
miíericordiofa Senhora , com todo ofeu affedo procurava 
de a fervir. Tam defvelado o trazia efte amor da Senhora, 
que até decomer ft efquecia. Opanoque lhedavão para 
bragas, parte de fua reção, as velas todas,que lhe da vão nos 
enterros, alguas cfmolas , que pedia aos devotos , tudo ifto 
ajuntou por muytos annos com licença dos Prelados, & 
com elie cabedal ajudado dainduflria , lhe preparou apo- 
fento,fenãooque convinha a quem era May de Deos, ao 
menos aquelle a que pede chegar a fua devoção, & dili- 
gencia. 

Conçertoulhe a fua Capella , fezlhe retabolo novo , 
deulhe ornamentos, & peças curiofas, que fervem noíeu 
Altar ,inftitu. o Confraria , &deixou-*a emeftado,que os 
fieis tinhaõ goílo ce a fervir,& de a poderem bufear em fuás 
neceflidades^&tllacccaííaõ de lhes dar ofeu amparo. Com 
iílo andava tam consolado o fervo de Deos, que ou na fua 
prefença, ou no coro donde via a Capella, iènaõ chegava a 
devaríe no fervor da Oração, pelo menos dava muytos 
Tom. I, L 3 fmaes 



\66 Santuário Mariano 

finaes diífo- Querendo pois a Sacratifljma Senhora noíTa 
fatisfazerlhe a caía , que elic lhe fez na terrado chamou para 
afua do Ceo no dia da fira fefla da Purificação, como elle 
havia pronoflicado a 2- de Fevereiro doannp de 163 8. & 
neffe dia os Pregadores daquella Cafa,que tinhaõ Sermão 
na Cidade, louvarão muy to as fuás virtudes. 

Fica a Capeíla defta Senhora em o fegundo luga aquan- 
do fe entra pela porta principal, à ma 5 efguerda > & fica con- 
tigua à porta travcíía, que fica para a Igreja de noífa Senho- 
ra dos Martyres. He cila Santa Imagem de dous palmos 6c 
meyo; he de roc^i, & de vefiidos com toalha ,&: tem as mãos 
poflasj he muy to bonita : jà hoje fe ha esfriado algum tanta 
o primeiro fervor da devoçaõj& fe acabou a Confraria : mrs 
ainda es devotos da Senhora fe não efquecem de lhe ac- 
cenderafuaalampada>&:delheporem velas no feu altar* 
Eícre ve deita Senhora o Padre Fr*Manoel da Efperança na 
fua Hiftor. Seraph. part. i . liv. 2. cap.6- 



TITULO XXX. 

Damafc ® a I fna i em & no Jf a Senhora cio Milagre* 

oràt. i. TT E Maria Santiífimatamcontinua em obrar milagres, 
de nÀ~ Li & maravilhas, que lhe chamou Samjoam Damafcenó 
tiv. abifmo de milagres >& portentos : Miraculorwn abyffus. E 
B. M. Santo Epiphanio diííe que era Maria no Ceo hum eftupen - 
Epiph. do milagre : Miraculam flupendum in caUs* E para que fc 
°™'-^ veja que não fó no Ceo he Maria milagre eftu pendo , nos 
landa. <jj 2 s.Ephrem fer a mefma Senhora hum grande milagre em 
p e ?'~ todo o mundo: Miraculumpr<eflanttJ[imumum°ver(i orbis 
./, r [ terrarum. He próprio defta Senhora obrar maravilhas , & 
l t y m milagres perpetuamente: & por perpetuo milagre fe venera 
B m. a Imagem de noífa Senhora de que agora tratamos* 



Livro I. Titulo XXX. i6 7 

Jà deixamos referida a fundação do Convento do Sal- 
vador de Re ligioías-Dominicas, no titulo da Senhora dos 
Remédios, & o modo como foy defeuberta : & a Imagem do 
Salvador da Mata j mas como eftas Santas Imagens foraõ 
deícubertas nomefmo íitio,emque asReligiofas habita- 
vaõ, fentião naõ as poderem lograr de mais perto , por fica- 
rem fora na Igreja, & fó poiíuhiaõ a Imagem do Menino 
Jefus, que ellas embargarão em hua occafiaõ, que havia ido 
là d:ntro,& com i era leu Efpoíb,tivèraõ razaõ para o que- 
fe rem ter fempre à fua vifta, A eftas fuás piedoiàs queixas 
qulzDeos acudir, com lhe dar outra milagrofa Imagem de 
lua Mãy Santiíli.na, pela que na Igreja ficava na Capella,que 
na nova edificação ficoufuftituindoado Cardeal. Succe- 
deo pois, que abrindofe hunsalicerfes para fe alargar mais 
a cafa: Logo q fe poz maõ à obra, fe defeubrio naquel!as pa- 
redes, ou alicerfes hua Imagem de noffa Senhora, nefta for- 
ma. Eftà a fentada emhua trepeça , dando o peito ao Meni- 
no Jeíus; he de r.ca efeultura , o rofto quanto pode fer de- 
voto • o tamanho pouco mais de dous palmos , & meyo : & 
porque fennõduvida(fe,que tem igual antiguidade como 
Santo Crucifixo , <5c cóm a Senhora dos Rem :dios , he com- 
poftadosmefmos materiaesdepafta , feita de panos, & be- 
tume, & óleo, & pintura. 

AsReligiofas naõ cabiaó de alegria à.vifla defta pre- 
ciofa Margarita achada nocarnoo da fua Gafa. Collocíram- 
na em hum Alta-, que lhe levantaram no Dormitório, aon- 
de a tem com grande veneração. Tem alampada com luz 
perpetua^ às vezes com três ,& quatro. A devoção cjm 
que a fervem he grande com extremo; porque a hua voz af- 
íi maõ todas, que em luas petiçoens lhes alcança bomdef- 
pacho- 5c em todos os feus trabalhos alivio, &con r oía:aõ. 
E referem neíie argumento alguns fuece los íruravilhofos: 
ao que fe ajuntai , sffirmarem muytrs, que todas zs vczzs qUe 
a buicaõ , & lhe oíiesecem ftus Rofarios , enxergam nelk 

L 4 <£uè 



1 68 Santuário Mariano 

que troca o femblante , fcgundo a qualidade dos myf erios, 
que à fua vifla vaõ confiderando , jà fereno , & rifonho nos 
alegres; jà cahido ,& magoado nos triítes. O roflo, dizem 
asRe-igiofas, quehe hua fufpenfaõ olhar para elle; porque 
fempre eflá refplandecendo , & com haver citado enterrada 
tantos annos , & naõ felhe haver tGcado, temhúa cor tam 
fermefa^que fe podia duvidar fe eflava viva. 

Naõ tinha nome particular efla Santa Imagem, com que 
foíTe invocada, aindaque a feíkjaõ no dia dos Prazer es j(& 
efle era o titulo com que a invocavao) deuíelhe oda Senho- 
ra do Milagre , por hum que obrou efiupendo,&fcy,que 
em 14. de Março de-1624. fuccedeo(ícm fe advertir; pe- 
gar o fogo, arder o Altar, frontal, toalna delle,& cortinas, 
& chegando à íagrada Imagem, queimarlhe o manto que 
lhe punhaõ, & a toalhinha, ficando a Senhora livre, & illefa 
das chamas. E ficando as paredes muy to feamente tifnadas, 
& negras da força das labaredas , & fumo , na Sãta Imagem, 
fendo matéria difpofta para o incêndio, como eraõpanos,& 
betume feito de cera, & o!eo,naõ fe vio nella nem nua man- 
cha do fumo. Cõeite efíupcndo milagre ficou de entaõ para 
cà intitulada delle. Hoje a tem as Rçligiofas com muyta 
mais decência, & cuítolos ornatos , & adornos. Deíia Se- 
nhora do Milagre , ou dos Prazeres, como antigamente a 
invoca vaõ > efereve o Padre Fr.Luis de Soufa na hiíloria de 
SamDomingos de Portugal part.2. liv.i.cap.i 1. 



TI T U L O XXXL 

Da Imagem milagrofa de nojfa Senhora do Tè da Cru^ 
do mefmo Convento. 

JA temos referido nos títulos 6. & no antecedente a 
noticiadas milagrofas Imagens, & inven joens da Senho- 
ra 



Livro I. Titulo XXXI. 160 

M dosRcmedms, & d*doMil.igre,ou dôs Prazeres: agora 
a d f .rcrr.os ca Imagem da Senhora do Pé da Cruz, ou do 
Coroca qual cífrmaõasReí^oihsdomeímoConventodo 
-.alv£dor,lora tambt machada com a do Senhor jefus,& 
Rey Salvador, & cem a Senhora dos Remédios. ÊMSkmà 
imagem he a que alguns invocaõ com o titulo da Senhora 
do cero, iem duvida por lhe naó faberem qual fofle o titulo 
queiínna. , fambem he da meíma matéria de pafta como faÕ 
as ma 1S Imagens. Efiàcollocada emhuaricaCapelIa doco- 
-o, aonde elíahua Imagem grande de Chrifto crucificado, 
& aç pe da meíma Cruz do Santiffimo Filho , acompanhada 
das Imagens ae Sam joam, & da Magdalena. A efla Máy de 
piedade recorrem asReligiofas em todas as fuás penas, & 
iempre a amoroía Máy, ainda que eírà repreftntando o lu- 
gar oas mas penas, lhes acode, & concede os alívios emas 
^JrT tnUO - Efíà empénafcrmaemque affiíuono 
monte Calvário, como diz o Euangelifta Saõ Jcanr.óV^f 
ÁZe^TC E re P refer <ta bim nofentimento,que mo- 
;],L, ff roj : o ^ iu gardaquelIe monte das pc- 
naS f*f 3nàc ^or c jUe havia trefpalTado o feu coração. 
™ ÍJT , ° CCarao a W^rzo as Religiofas mandar reno- 
Sn? a í J ^? Wl5 dWem desbotadas :&pu- 
fe n^Tfr CÇ ? de h " a mo $ a > ^ ue P° r fer a Santa Imagem 

tíSfc Ú íl cmbargo de le i § rande >P or ^ e he d0 ^ 

S octn a pr ° P í )rc,onada «"^nâo tinha demaíia- 
Sff' re ° Ça ° fcnII ° tam § randc > ccm fer valente , & 

&&2S? f u - cos pa / os > cuydou morria : p° r s ue fe ,he 

n,,Ít? F c ? ? nao P° dla tom ar a refpiração: parece õ não 
ferí o" S n n í° ra ' qUe aS m " aos dos ^anos pintores 5 S 
bS^Z f òan , taIma g™- Tanto que ariráraõdada- 
lo£ rí?*' v a J he pcdio * uc lh£ va ^ & deffe faude, 
te!?n£ fr f WWÍO f C0U fem( > ue ^ aI ? Ca J&dalK por d"an- 
&Sb IS;" 1 ? 10 "T dcVOta da Senhora; comei 
lucceíío fefufpendeo a devoção das que a queriam mandar 



reno- 



i7o Santuário Mariano 

renovar. As miravilfus que obra o Senhor por meyo da- 
quella Santa Icmgemfam tantas, que )\ as Religiofasas não 
numer aò. 



TITULO XXXIÍ. 

t>a milagrofa Imagem de noífa Senhora da Natividade do 
Germ. ConVento de Santa Mar tb a. 

crat. de 

Nat. ^T^OJos fábem,que he Maria Santifllma em feu naíei- 
B.M.y Jl mento a alegria do mundo: affim o diffe Sam Germano: 
L<Mr. Gaulutn covwme mundt', porque alem de o cantar tam- 

a ^ em a< ^ irn a ^o re ) a: e ^ a f°y a °l ue com as f uas luzes alegrou, 
s "\ - e Scdcftcrrou as trevas > & as efeuridades do mundo, como 
B A?' àWt S. Lourenço Juiiiniano : Lnx mtvidh Lua clariffima 
Innoe. Q í xz desfez as lòmbras da noytc, Aurora na madrugada , & 
$*ferm. Sol do meyodia. Tudo diffe InnocencioIII. Luna noftru 

2. de in nocêe, Aurtra in dilucido \ Sol in die. E eíiando o mundo 
■Affump cheyo de victos, com ella nos naíceoaMeftra das virtudes; 
Lvir. MagiflfA Virtnrirti ; affim o diffe o mefmo S. Lourenço Ju- 
Jufii*. fliniano. Ella he a honrei de toda a natureza humana: f)eo*i 
B**/* natur tf, como \hç chamou. João Geometra. O credito dos 
7 f ' homes ., diffe também o me fmo Juiiiniano: Decus bominum. 
Geom. A gloria , & o ornamento de todas as molheres > & a no- 
Hymn. breza , & fidalguia de todos os eícolhidos, como diíTc Sam 

3. de Gregório. 

B. M. Entre as grandes obras que fez o piedofiflimo Rey D. 
Jftft. Sebaftião de immDrtal memoria para os Portuguezes,fcy 
f erm : de mmàzr ediPcar o Recolhimento deS. Msrtha para filhas 
^M decrindosièus tj ficarão Gffans,&defemparadas no tem- 
S.Gm. P° dapeíie grande; dotando-o de mil cruzados de renda 
j'm.% annual, & vinte mòyosde trigo: o qual Recolhimento eri- 
ePlfl* **> gio em Convento o Cardeal & Rey D. Henrique - 7 o que le 

cíix i - 



livro I. Titulo XXX1T. }7* 

e&ittiâu por íiia morte no anno de 1 58 f. tendo Arcebifpo 
de Lisboa D.Jor^e de Almeida,que o tomou debaixo da lua 
protecção ,& obediência. ObfcrvaõeflasReUgiofas a Re- 
gra de Santa Ciara. A fundação fov em <. de Novembro do 
mefmo anno por Breve de Gregório XIII. AsRehgiofas 
que deraõ principio à fundação, vieraõ do Convento de 
Santa Gafa de Santarem^das quaes a Prelada fe chamava Sor 
Maria do Prefepio. 

Na Igreja deite reformado Convento he venerada hua 
milagroía Imagem denofla Senhora, (cujo titulo heoda 
Natividade) com devoção gerai de todo o povo de Lisboa, 
que por todo o anno concorre a bufear no feu patrocínio os 
defpachos de fuás petiço tns, o alivio de feus trabalhos ,0 
remédio deíuas tribulaçoens,&:afaude em fuás enfermi- 
dades. A origem, & principios defla {'agrada Imagem refe- 
rem aquellas famas Religiofas ne fla forma- Pelos annos de 
1580. oualguns annos antes , (porque foy antes dafunda- 
çaõ do Convento, & no tempo que ainda era Recolhimento 
de Donzcllas ,. & dedicado a nofTa Senhora do Amparo; ti- 
tulo impoflo com grande propriedade aquella cafa.^ E deve- 
mos crer ■ foy ifto obra íuperior : porque he Maria Santií- 
íima o amparo das Donzcllas pobres, Stvirtuofas ,como 
craô aquellas; &por feus rogos o iní pira vaCeos àquclle 
virtuoíò Rey) chegaram ao Recolhimento duas mulheres,. 
movidas da grande virtude que nclle flor ecia, com nua Ima- 
gem de noíía Senhora > para que as fervas deDeosquealli 
vivido, a tiveíRm com toda a veneração em depofito. Acei- 
tarão cfcm muyta alegria aquella preciofa joya , & a eítima- 
raõcomonrercca. 

Erigindoíe depois aquella Cafa em Convento, tornarão 
as mcfmas mulheres a repetir a fua dadiva :como asReli- 
giofaseraõ muy to fartas, (& fempre aquelle Convento reí- 
píandecco em fantidade) & muyto deíàpegadas ,. não duvi- 
dárce em fazer arcílituiçaõ que fe lhes pedia da Senhora 5 

porque 



171 Santuário Mariano 

porq fomente fe lhes havia entregue cm depofito. Quando 
foyà entrega, de (conhecerão as m ilhcres a S.írmgem.por- 
q quando a entregarão nos a;inos antecedentes, era muyto 
pequemiii ; & como a vira ti mayor } diííeraír, nam era a- 
quella a tua Irnigem : Scaffim a deixarão, &naõ quizerão 
aceitar. Daquicom-çon a Ter mayor a veneração nas Reli- 
giofasparacom a Santa Imag :m , pois conhecerão as traças 
da Divina Providencia 1 para que ellas não per deitem huma 
joya de tanto preço , & a Senhora tiveffe liaquelia fua ima- 
gem, miyorc ai to, & veneração. 

Começou logo a obrar noifo Senhor grandes milagres, 
&eihipenchs maravilhas pelos merecimentos de fua Mãy 
Santífllma> & por meyo da fua Imagem , como fe vê nas re- 
laçoens que delles conftrvaõasReligiofas j dos quaes o 
primeiro foy ocrefeera Imagem da Senhora, & tanto, que 
deu motivo àqueiias molheres para a defeonhecerem; o que 
fe comprovou depois no exame que fizeram dos veflidos: 
porque de nenhum modo fc lhe pudèraõ accõmodar por ef- 
treitos, & curtos : ( & para mim he muy to mayor o milagre 
de crefcer o vertido que a Senhora tinha veítido) de tudo o 
referido ha memoria naquelle Convento. 

Com a fama defíe milagre começou a fer tam grande a 
devoção da Senhora d a Natividade, (com efte titulo a invo- 
carão fempre)que todo o poVQ concorria a bufcala, & a ve- 
nerala. Pelos annos de 1 620. fe começou a Irmandade , & 
fe lhe fez a rica Capdla em que eftá coHocada; & as Religio- 
fas cuydaõ muy to de que a Senhora eíkja ricamente ador- 
nada, &compreciofos veflidos; tem pouco maia dedous 
palmos de altura. Faz memoria de noífa Senhora da Nati- 
vidade Cardofo nofeu Agiologio tom. 1. pag. 522. &do 
Convento de Santa Martha, Telles na Chronica da Com- 
panhia part.2. liv.4. cap.40. 



TlTt I 



Livro L Titulo XXXIIL ^73 



TITULO XXXIII. 

T>a Imagem de nofa Senhora da Fiedade do mefmo 
Convento* 

NO meímo Convento de Santa Martha de Religiofas 
Francifcanas Urbanas ,fe venera em o coro hua de- 
vota Imagem da May deDeos, com o titulo da Piedade, 
com a qual tem aquelle Convento defde os princípios da fua 
fundação hua affe&uofa devoção ,& todas aquellas fervas • 
de Deos alcançaô da liberalidade daquella Senhora grandes 
favores.Referem tcdas,& he confiante tradição, fallára por 
aquella fua Santa Imagem muytas vezes com a venerável 
Madre Sor Maria da Afíumpçao,(Irmãado quinto Conde 
de Atouguia, terceiro Avò doq hoje vive;) com ella con- 
fultava as matérias da fua falvaçaõ ; & a Senhora a animava, 
& alentava para vencer aos inimigos , que a perfeguião , & 
moleflavaõ. Ainda hoje experimentão todas as Religiofas 
daquelle Convento grandes f a vores, milagre s, & maravi- 
lhas de noffo Senhor , alcançadas pelos merecimentos de 
fua Santiífima Mãy. A Senhora moftra fer da proporção de 
finco para féis palmos; tem a feuamorofo Filho morto em 
feus braços; he de madeira cftofadâ; & as Religiofas a con- 
certam com toai ha, & mantos ricos, aindaque decores tri- 
fles. Fazmençaõ deíia Santa Imagem Cardofo no AgioL 
Lufitanotom.3. pag.265. 



TITULO XXXIV. 

Dalmagem de N.Senbora do Coro das Religiofas de Chilas. 



E 



Ntre asilluftres,&affinaladas Religiofas emvirtudç 
<}ue deu oantiquiffimo Convento de Santo Agoflinho 

de 



1 74 Santuário Mariano 

de Chellas (que he de Conegas Regrantes) a noTo Senhor^ 
foy hua delias a Madre Phelippa doEíp.irito Santo : a qual 
deidade de xt $ze* armós foyrtam devota do San tiflimo Sa- 
cramento daEuchariflia^quc fenaõíàciava de dar conti- 
nuas graças a noífo Senhor pela infinita caridade , & libera- 
lidade comquefeofferece em iguaria aos feus fieis. Tam- 
bém era devoriffima dos mais myílerios do Filho deDeos 
feifco homem , ao qual trazia fcmpre prefente , Sc diante dos 
Qlfeos de fua alma. Por efía caufa recebia do rnefmo Senhor 3 
<$wt he infinitamente liberal , grandes favores. No meyo 
•delles a acompanhava a pena de não poder ter também na 
mefma forma a Soberana Rainha dos Anjos Maria Santif. 
ílma prcícnte. Havia naquella Cafa huma muyto devota 
Iinagem de noíTa : Senhora , com a qual todas asReligiofas 
tinhaó grande devoção, &eílavacollocada em hua Capclla 
do coro. A efla Santa Imagem recorria também a ferva de 
Deos Phelippa do Efpirito Santo. Ecomo andava com efla 
grande pena, foy hum dia à Senhora aofferccerlhe hum 
fermofo ramalhete de flores., porem como a Senhora era aL 
ta, 6c de mais a mais,eílava fobre hua peanha, naõ podia, por 
mais diligencias, que para iífo applicava, pôr o ramalhete 
nas mãos da Senhora. Porém a Mãy de mifericordia , que 
eílimavaoBÍFedocomcueaquella fua ferva lhe offerecia o 
ramo ; para lhe moftrar que o aceitava , fez que a fua Ima- 
gem fe inclinaífe , & dobraíTe , recebendo com fuás mãos o 
ramo, que aquella devota Reíigiofa lhe offerecia. 

Succedeo cite milagre pelos annos de 1550. pouco 
maisj cu menos; porque dizem as Religiofas fora antes que 
acudia Cafa tiveífevotodeclaufura. A Imagem da Senho- 
ra' heantiquiffima; fua eítatura he dotíimauho donatural, 
efiáemhuaCapelia rica em o coro ;&íazendo as Religio- 
fas nelle todos os annos prefepio,apoemnelle, porque he 
àt roca, & de veílidos. Confia deíie milagre por hua íetó 
çâõ feka por Domingos Velho em2&. de Outubro de 161 8. 



Livro I. Titulo XXXV. Ujfc 

fcandacmhíi livro intitulado, Principio do amor de :Dc os. 
Faz também memoria deíia Santa Imagem o Padre Mcflrc 
Fr. Luis dos Anjos no. Jardim dePortugalmim.i8i. Ou- 
tros muytos milagres tem ofcrado Deos naquellaCafa pe- 
los merecimentos de fua Mãy Santiflima ,& por meyo da- 
quelta Santa Imagem , que referem asReligiofasdaquclk 
Caía- 

I ■ I ■ i| ■ ■ ■ I III l l ■! 

TITULO XXXV. 

*Da Imagem de nojfa Senhora da Vitoria na Cal- 
deiraria. 

NA Caldeiraria, junto ao poço do chão, em a Paro? 
chia deSamNicolao,eílàhum fumptuofo Templo* 
em que he venerada hua devota Imagem da Virgem Maria* 
cuja origem , mais por tradição , que por eferituras , he na 
maneira feguinte. Havia nayuelle fitio hu Hofpital de mu- 
lheres incuráveis dedicado â Santa A nna, annexo ao Hofpi- 
tal Real de todos os Santos, por cujo Provedor , & mais Ir- 
mãos corria o feu provimento, & fuflentação: porque aelfc 
eítevaõ também agregadas as fuás rendas. Entre as enfer»- 
mas deite Hofpital havia hua velha, (que dizem era junta- 
mente cega; a qual era devofiífima de noffa Senhora ,com a 
fua devoção (infpirada, ao que parece também, pelamefma 
Senhora) mandou fazer hua Imagem da mefma Senhora corft 
efmolasque ajuntou, & lhe minifírárão algíias peffcasde- 
votas, que a favoreciam por virtuofa. Depois de fe fazer a 
Santa Imagem ,. adornada de ricos veflídos , ( porque hedç 
roca) a collocou no Altar, ou Capella do me imo Hofpital; 
& intitulou- a da Vitoria, por aígua devoção particular, que 
teria para com alguma Imagem da Senhora com eíle ú* 



t-ulo» 



Coifo- 



( 

.i y6 Santuário Mariano 

Coltocada a Sagrada Imagem, fe accendeo nos viíinhos 
para com ella, hua fervorofa devoção , & tanto , que a co- 
meçarão a feftejar todos os annos com grandeza. Depois 
lhe erigirão hua Confraria, para que defta forte ficaffe mais 
eftabekcida afua devoção ,& augmentando cada dia mais 
efta para com a Senhora da Vitoria, fizerão compromiffo 
emoannode 1550. paraobom governo da Irmandade, De- 
fejavão os Ivnvos que a Senhora tiveffe Cafa própria: ou 
ella os movia, a que lha edifícaflem ; porque aquella em que 
citava era alheya ; porque era Hofpital fogeito ao de todos 
• os Santos; & como a devoção da Senhora eftava jà efpalha- 
da por toda a Cidade, pelas maravilhas que obrava, & obra- 
ria,muytas naquellas enfermas do Hofpital; teve noticia 
dos pièdofos defejos, que os Irmãos da Senhora tinhão, hua 
devota Beata da Terceira Ordem de Sam Francifco, chama- 
da Margarida Lourenço , moradora abaixo de Sam Vicente 
de fora, entre as portas da Cruz, & o poftigodo Arcebifpo. 
Efta lhe offereceoascafas em que vivia , que eram glandes, 
& hua boa cerca unidaa elías, para que acabaífem hua Ermi- 
da quchavia começado , & trazerem para cila a Senhora da 
Vitoria. E logo fez doação de tudo aos Irmãos em dez de 
Julho de 153 6. nas notas do Tabelião Gaípar Gonçalves: & 
que efta doação teria efFeito por fua morte , & que em lem- 
brança defta fua offerta , feriam os Irmãos obrigados a lhe 
fazerem todos os annos hum anniverfarío. 

Eram aquellas cafas foreiras à Ordem de Malta , & era 
Prior do Crato o Infante Cardeal D. Henrique jídevia en- 
trar nefte Priorado por morte do Infante D.Luisj que ten- 
do noticia que Margarida Lourenço intentava fazer Igreja, 
a que queria pòr o titulo de no/Ta Senhora da Confolação, & 
queria fazer alli hum Mofteiro, lho impedio,& negou a li- 
cença para a fundação. Morreo Margarida Lourenço, & 
confirmou pelo íeu teftamento a doaçaõ feita à Senhora da 
Vitoria, deixandolhe mais outras peças, & propriedades;^ 

de 



Livro I. Titulo XXXV. 177 

de tudo tomáraõ poífe os Irmãos da Senhora. Confíderan- 
do sfles a diíí anciã quehia da Caldeiraria , ou do poço do 
cham , aonde elles viviaõ ,ao fitio dascafas de Margarida 
Lourenço , fendo elles homens officiaes,& que tinhaõ as x 
fuás tendas naquelle díftri&o 3 & juntamente a dificuldade 
da licença, para haver de fe acabar a Ermida começada pela 
ferva de DeoiiMargarida Lourenço) refolvèram entre fi, 
no anno de 1545- de fazer hua fupplica ao Pontífice, para 
que lhesdeífe licença para venderem as cafas, & fazerem 
com o preço delias outra Igreja junto aoHofpitalde Santa 
Anna , aonde eílava a Senhora. Tudo confeguiram da be- 
nignidade do Papa Paulo III. 

No anno de 1550. renderão as cafis , &cóm o preço 
delias, & com as efmolas dos Irmãos fe comprou o fitio, 
que eraõ duas moradas de cafas que ficavaõ junto ao Hofpi- 
tal; & paraque a obra pudcíTe ficar com mais grandeza , ou- 
veraõ licença dos Adminiftradores do Hofpital Real , para 
agregarem a fi o de Santa Anna , obrigandoíe a fuitentar as 
pobres incuráveis delle àeufla das rendas da Senhora da 
Vitoria, & com as fuás cfmoIas,obrigandofe mais a ter per- 
petuamente quatro mulheres pobres , & incuráveis : &di- 
mitiram as rendas q o Hofpital tinha,& aífim ficaram incor- 
poradas comas do Hofpital Real, quantas cilas eram. Eílas 
quatro mulheres incuráveis, & hua enfermeira, que ha para 
as fervir , & ter cuidado da limpeza da Igreja , fuftentaõ os 
Irmãos,na forma do referidocontrato,à culta das rendas da 
Senhora , fuprindo elles o mais q falta com as fuás efmolas- 
# Feitas eflas diligencias, tratarão de dar principio à no- 
va Igreja com omefmo titulo de noífa Senhora da Vitoria: 
& porque lhes faltava ainda hua ifençaõ da Parochia de Sam 
Nicolao , (em cujo diftrito ficava) & de feôs Priores, & Be- 
neficiados, fizeram logo com elles hum' contrato nas notas 
de SebaíUaõ Rodrigues, Notário A poltelico, em 1 7. de Ju- 
nho de 1556. pelo qual fe obrigarão a lhes dar todos os 
Tom. 1. M annos 



| L 



i 7 8 Santuário Mariano 

annos três mil reis , (como ainda hoje pagaõ) dimitmdo os 
ditos Prior ,& Beneficiados tudo o que pudeffem haver da 
dita Igreja da Senhora da Vitoria. Com que ficáraõ livres 
para fempre, para fazerem asfuasftiias,fem dependência 
algua da Parochia. Acabada a Igreja , que he de perfeita 
traça, & tem fobre a porta principal eíta infcripçaõ: 
Sacro Templo de no fa Senhora daVitoua edifi- 
cado m em 6. dias dome^ de Agottoanno de 1556. 
em tempo do muyto poder ofo Rey 2). Joam ILL 
dejíe nome: 
tratarão os Irmãos de ornar (como fizeram) a fua Igreja de 
retabolos, & pinturas , & de muyto cuílofos ornamentos, 
cálices , cuflodia , & de outras muy tas peças de f rat?. In- 
ftituiramfe Capellas, aííim pelos Irmãos , c: mo por outras 
peffoas nobres particulares j&aílim fam muytas asMiíTas 
que fe dizem naqueila Cafa pelos Capellaens delia ,& por 
. outros muy tos Sacerdotes feculares, & Regulares, que por 
devoção alli as vaõ dizer, & acham tudo prcmpto; porque 
niflo tem os Irmãos grande prevenção , ôccuydado. Orde- 
naram que ouveíTe humCapellaòmòr, o qual precede aos 
mais,masnão rezaõ emcoro,cantaõíi todos os Sabbados 
MifTa a noffa Senhora de canto de orgaõ , & nas mais feflas 
da Senhora. 

Depois de comportas todas eflas coufas , tratarão os 
Irmãos^de rcíormar o ftu CompromiíTo, ( o que fizeram em 
2.0. de Dezembro de 1595-) emendando algumas coufas 
do primeiro , & revogando outras. Nelle ordenarão , que 
a feita principal da Senhora da Vitoria fe fizeffe cm oitoíc 
Setembro > dia de fua Natividade. Ordenarão mais fe ceie- 
braífe a fefta da Purificação da mefma Senhora a 2. de Feve- 
reiro , por memdtía de que em femelhante dia do snno de 
1530* fe inflituira ã Irmandade. E que naSomana Ssnta 
fe fizeífem todos os Cfficios dellai, defde a Dominga de Ra- 
mos até o dia dePafchoa. O que fazenveom muyta gran- 
deza 



( 

Livro L Titulo XXW. 179 

3eza> &tem oSantíffimo Sacramento expoífo noSepul- 
chro, & aíTim mefmo nas mais feftividades. Ordenarão mais 
que a fefta do Nafcimento de noflb Senhor JefuChnfto 
fe c !ebra' r e tombem; o que fazem também com cuíío, Sc 
c ;m hum devoto prefepio- Depois que a Igreja da Senho- 
ra feerigio, fe efqueceo totalmente o titulo do Hofpital, 
que era de Santa Anna,& aflim fe chama hoje o Hofpital de 
nolfa Senhora da Vitoria. O governo deita Cala coníla de 
treze peffoas,a faber, o Provedor, Efcri vão, Thefoureiro, 
Procurador , & nove Irmãos 2 & todos faõ eley tos por for- 
tes. 

Os privilégios , graças , & indulgências de que gozão 
os Irmãos da Irmandade deita Senhora, fam innumeraveis : 
porque defde o anno de 1 561 . fe agregarão ao Hofpital de 
Sandi Spiritus in Saxia ds Romi, & gozão por efta agrega- 
ção de todas as graças,prerogativas,& privilégios de que 
gcza o tal Hofpital , como fe contem em a Bulia que guar- 
daõ no feu -arquivo, &anda impreífa em três folhas de pa- 
pel, quevem afer humthefouro exceílivo. Etudoeftáatè 
o preíente no feu primeiro vigor, como confta dehua cer- 
tidão, que do Hofpital de S. Spiritus teve aquella Irmanda- 
de no anno de 1696. aoqual fe lhe paga todos osannos 
dous efeudos de ouro , em final de fogeiçaõ,& reconheci- 
mento. Ao preíente he aquella Cafa da Senhora da Vitoria 
freguefia de empreílimo por confentimento dos Irmãos : 
porque tem privilegio para anão poderem fazer íemotal 
confentimento- Também tem outro privilegio de poderem 
levantar tumba, & enterrar nelta aos feus Irmãos ; & para 
poderem trazer opas, ou capas, na forma que as trazem os 
Cavalkiros. 

A graixle devoção , & aífeduofo cuidado com que os 
Irmãos ferviaõ aquella mifericordiofa May de Deos , a 
obrigava a fazer grandes favores, & foberanas maravilhas, 
&affim era granula devoção, com que todos procuravão 

M z entrar 



180 Santuário Mar iam 

entrar na fua Irmandade, & fervilla. Com efla Senhofa ti- 
nha grande devoção o Irmão Pedro de Bailo (da Compa- 
nhia de Jefus) fendo ainda fecular. A efla Igreja da Senhora 
hia todçs os dias a ouvir Miffa defde o tempo , q entrou cm 
Lisboa, quefoynoanno«de 1570. por lhe ficar perto da fua 
habitação 3 com ella tinha grande fè , pecindolhe fempre o 
livraíTe, & lhe deífe vitoria contra todos*os vicios > & prin- 
cipalmente dos q o pudeíTen) apartar da angélica virtude da 
Caflidade, & para melhor á confeguir, fez voto a noíTo Se- 
nhor diante defta Soberana Imagem , de guardar virginda- 
de por toda a fua vida, aindaque lhe cuftaffe muy tas. A ex- 
periência lhe moftrou, o quanto a Senhora o amava , & de- 
fendia nos afTaltos , & baterias com que o demónio perten- 
deo defpojalp deíla jpya ; porque em varias vezes fe vio a- 
Qutir. cometido de mulheres; mas ajudado da divina graça ,fou- 
Hv. 1. be fugirlhes, como outro Jofeph. O q Deos lhe pagou com 
c - $• grandes favores, como fe pode ver na fua vida. 

Entrando hum dia efle fervo de Deos na Cafa da Se- 
nhora da Vitoria, a darlhe as graças pelos favores que delia 
recebia em as tentações, & perigos de que o livrara, pe- 
dindo a Deos por fua interceffaõ o dom da pureza, & inno- 
cencia ; vio que do roíto , & coroa da Santa Imagem da Se- 
nhora fe dilatava humrayo de grande refpIandor,& que 
vinha direito ao feurofto, com oque ficou todo abforto,& 
enlevado, & tanto, que do tempo da MiíTa, em que iflo fuc- 
cedeo, ate perto da noyte perfeverou fempre de joeIhos,& 
não deu acordo de fi. 

Também teve coma Senhora da Vitoria grande devo- 
ção a celebrada donzella Joanna Vas , Dama da Infanta D. 
Maria, filha delRey D.Manoel, & depois da Rainha D. Q- 
«v d therina mulher de D. Joaõ III. da qual diz o Padre Meflre 
dePêrt Fr# . Lu * s ^ os A " J os > f ora tutore* por vários modos , entre 
n.ixu " as Matrona^JPortuguezas; porque alem das muy tas virtu- 
i.u des cm que refplandeceo,he digna deperpetua memoria, 

pelo 



Livro I. Titulo XXXV. 181 

pelo borneílylo,comque cfcçevia quaefqucr matérias na 
língua Latina^ & pela grande promptidaõ com que declara - 
va qualquer Poeta, ou Author q lhe metiaô nas mãos. Efla 
devotíf donzella pelo cordeal affecfto com que amava aquel- 
la Senhora , dedicou à fua Cafa huma relíquia doinfígne 
Martyr Sam Jorge , que he o cotovelo de hum braço , & íè 
guarda com grande eftímaçaõ com outras reliquias em hua 
cuítodia de prata na Capella dos Cunhas, & que hoje poffuc 
D* Pedro da Cunha. 

Efta collocada a fagrada Imagem da Senhora da Vitoria 
em a Capella mcr , em húa rica tribuna , de boa talha dou- 
rada, (como faõ as mais Capellas; he de veítidos, & tem de 
eftatura quaíi féis palmos, &eftá com as mãos poftas. O 
titulo de Vitoria acney nas noticias que fe me deraõ , fe en- 
tendia fora impofto, para que todos conheceífemos , que na 
guerra em que noífos primeiros Pays nos deixarão no mun- 
do caufada pela fua defobediencia , fora Maria para nos Vi- 
toria nas .batalhas dcífa guerra com o feu Nafcimcto , & por 
iífo decretarão T&fcretamente os Irmãos em feu Compro- 
miíiõTc fizeífe a fua principal fefia em femelhante dia ; para 
que obrigada a Senhora deík feílivo obfequio, ftiffem to- 
dos os feus devotos com vitoria em todas ^s batalhas dos 
infernaes inimigos; porque bailaria reconhecellos por feus 
filhos o demónio, para nem de longe olhar para elles. Aílim 
o diz Sam Bernardino de Sena, que com tal extremo temem 
os demonics a Maria ,& fogem de fua prefença, que a ne- 
nhum lugar aonde efta Senhora aflifte, fe atrevem elles a 
chegar, nem de muytoíonge: Vtemtnes ne demarno fpntm Div. 
úudent illi appropwquare.Efando pois debaixo daprotec- Bernar- 
çaò da Senhora da Vitoria os feus Confrades, & devotos, <*'*• 
como poderá o demónio tentalíos, ou acometellos- 

Ponderou hum moderno qual feria^arazam porque o 
demónio tivera atrevimento para tentar a Chrilto no cefer- 
to depois dos trinta annos, &naõ antes; porque a idade 

Tom. I. M 5 mais 



i?i Santuário Mariano 

mais fogeita, & ainda inclinada às tentaçoens, a menos for- 
te, & a mais bifonha para as reíiftencias he muyto antes dos 
trinta annos: pois porque naõ tentou a Chrifto, nem Chri- 
fto obufcou ,ou defafiou para fer tentado nos primeiros , 
ou últimos verdores da adolefcencia, idade, que nos outros 
homens he a mais ardente , a meno s defenganada , & a mais 
aparelhada para fer vencida? RefpondemgraviíTimos Dou- 
tores, que naquella idade , & em todos os annos feguintes 
ate os trinta ,afíifiiafempre o Senhor, & morava com fua 
Santiífima May , & debaixo de fua fogeiçaõ , & obediência, 
comoconfla dos Euangeliftas :& por iífo òdemonio*em to- 
do eíte tempo não teve oufadia para o tentar , nem efpc ran- 
ça de o vencer : porque onde Maria aífifle,ouhe afliílida , 
não fe atrevem chegar os demónios- Efía parte bafta aò 
noífo intento. He Maria San tiffima da Vitoria a aífolaçaõ 
do Inferno, & a fua mortal ruina : Mortalhas inferrit ; aflim 
Gr7c! ocant 5o em o fcu hymno os Gregos. Tonitruum conjter- 
avxd nans mimtco's 7 cantaõ os mefmos : porque he a voz., & o po- 
Bhl. der de Maria da Vitoria hum trovão, hunrxayo , que afTola, 
^.123. & arruina a todo o inferno , & a feus tartareos miníftros. 
Idem yjrmarium Vita lhe chamou Chry íipo ; porque he a Senho- 
V- 1 3 5 • ra da Vitoria hum srmazem de fortiífimas armas, com que 
Chryf t0( j os 0S q Ue a amaó , & veneraõ , armados podem efperar 
^ certas as vitorias contra feus inimigos, 
*** Havia entrado D.João de Auítria f lho de Philippe IV. 

pelo Alentejo,governando como General das armas deHef- 
panha o mais poderofo, & luftroíò exercito, que atè aquelle 
tempo lançou o poder daquclla graflde Monarchia. Tomou 
a Cidade de Évora em vinte , & dous de Mayo de 1 66] . & 
dalli fazia grandes hoítilidades em todos os lugares cir- 
icumviíinhos até Setuval (-que faõ alguas dtzafete legoas) 
com a fua cavai laria. Neltes apertos recorria o povo de 
Lisboa a Deos,& a fua Mãy Santiífima pedindolhe nos deííe 
vitoria contra noffosinimigos.Faziamfe muytas prociífots 

publi- 



Livro l Titulo XXW. i«j 

publicas, tirando neiks alguas Imagens miíagrofas. Não 
quizerão faltar os devotos Irmãos da Serhora da Vitoria 
em húa acçaõ tam pia, fizeriõ também a fua prociiT 5, & ti- 
rarão a Senhora, & poíta em hum rico andor, a levarão pela 
Cidade. Ao recolher da Senhora para a fua Cafa , chegou 
nova em como o noíTo exercito governado pelo General D. 
Sancho Manoel ,fahira de Eftremoz em demanda do inimi- 
go, (que temerofaji domao fucceífo que havia de ter, fe hia 
retirando) acometendo em 10. de Junho ao exercito do 
inimigo o rompera , & deflruira, & alcan jando delle huma 
muyto gloriofa vitoria , em que não fez pouco o Príncipe 
D. Joaõ de Auílria 7 efeapar de ficar morto , ou prifioneiro; 
ficando a mayor parte da fidalguia de Hefpanha, q o leguia,- 
& acompanhava , ou morta , ou prifioneira. A vifla deite 
grande favor ,que oSereniílimo Rey D. Affonfo VI. attri- 
buío à Senhora da Vitoria, fe lhe fezlcu feudatario, offere- 
cendolhe logo quatro arrobas de cera, obrigandofe a conti- 
nuar tedos os a'nno§ com a mefma oíFerta - y o que fe conti- 
nua atè o prefente, & de que fe guarda no archivo daquella 
Irmandade o Alvará da mercê. Efcrevem da Senhora da 
Vitoria o Padre Queircs da Companhia ema vida do Irmão 
Pedro do Bailo affima citado: Cardoío no 2. tom. do Agio- 
logioLufit.pag.691. & alguas relações manuferiptas, que 
fe guardaõ no feu cartório. 

Também íè vinera na mefma Cafa da Senhora da Vito- 
ria, outra' devota Imagem da Rainha dos Anjos, com o ti- 
tulo da Lembrança, qef tá collocada em a Capella colíate- 
rai da parte da Epiflola , em húa tribuna muyto perfeita , Sc 
de excelletae talha. He efía Santa Imagem deefcultura de 
madeira , & eftofada*, terá de efíatura pouco mais de três 
palmos. Fundou efta Capella, & a dedicou à Senhora ca 
Lembrança hu grande devoto- fcu, cujo nome não pude al- 
cançar , o qual iPiflitute) nella hua boa capell ania „ que an la 
cm feus defcendent«%& a tei# hoje Q Padre Manoel Gon.es 

M 4 que 



i §4 Santuário Mariano 

que mora em Palma , entre Sam Sebaííiaõ da Pedreira, & 
Telheiras Heafliílida doscfficiaes de Caldeireiro, que a 
fervem com grande fervor , & devoção , & aflim fe vè rica- 
mente ornada aquella Capeila com muyta prata , & ricos 
ornamentos: &: elles como Adminíflradores pagaõ a capei- 
lania. H$ bufcada com muyta devoção dos freis , & lhe pe- 
dem fe lembre delles na prefença defeu amorofo Filho, & 
no bem que experimentaõ, reconhecem omuyto que vai a 
íiia lembrança, i 



TITULO XXXVL 

Da Imagem de noffa Senhora da Quietação, quefe Venera 
na Tarocbia de Sam TSLicolao. 

TOda a paz , todo*o foffego, & toda a quietação dos fi- 
lhos de Adam eflá avinculada à piedofa protecção de 
Maria Santiflima ; porque ella he, & foy fempre o noífo ali- 
vio em os trabalhos, a noíTa quietação em as perturbaçoens 
do animo, & hum mar tranquillo, & foífegado em todas as 
tempeftades, & tormentas de trabalhos , que padecemos os 
mortaes no arrifeado mar defíe mundo. Aflim odiffe Ma- 
m ?biUL theus Fhiladelphio Bifpo Ephefino: guies trancjwlla na- 
erat. ad ^ig an tmm in Uculi pélago. E S. Boaventura acrefeenta , q 
Bt * r * neítas tormentas,& tempeflades que fe padecem heífe mun- 
dano Oceano de perturbações, de triftezas , & de miferias, 
he Maria a paz , o gozo , a confolação , & a lalvação : Fax, 
$°»*' gaudium, confo!atio>í?fatus mundi; porque nas mayores in- 
vent.in q U i e j a ç 0e ns , guerras, difeordias , &ftvoluçocs recorren- 
La " do a efta piedofa Mãy , nella achamos a paz defejada, a con- 
* . cordia firme, & os nublados das perturbações desfeitos :& 
mm% quando mais opprimidos de noíTos inimigos, aflim viílveis, 
comoihviíiveis, he a Senhora da Quietação para nos huma 

forta- 



Livro I. Titulo XXXVL i8j? 

fortaleza inexpugnável y aífini o diiíe Silvio no Catheme- 
renon Grego: Tv <efidium inexpugnabile rpprefforum* Bem Cath$ M 
o experimentou Lisboa , & todo Portugal no patrocínio da ««•• 
Senhora da Quietação, que fe venera na Igreja dç.Sam Ni- ® r **i 
colao. 

A origem deíla Santa Imagem fe acha noCompromiíTo 
da fua Irmandade, & hc ncíía maneira. Pelos annosde 
1 580. fe via efie Reyno grandemente perturbado; naõ fó 
por experimentar em fi os caíligos do Ceo fulminados com 
aefpadadehúacontagiofa epidemia; mas também comhuas 
grandes in^uktaçoens ,& guerras, originadas com a mor-* 
te do Cardeal Rey D.Henr que, que por não declarar o fw> 
ceífor da Monarchia, a expoz a padecer grandes ruinas , & 
trabalhos» Compadecida hua devota, & vir tuofa Matrona 
chamada Maria Fernandes, à vifta de tantos males, quantos 
via ,clamava ao Ceo,pedindolhe k compadeceífe de Lisboa, 
& deffe paz, & foffego a efle feu Reyno portamos títulos, 
& o Ivraífe da cruel pefte , que havia começado. Recorreo 
taipbcm à Rainha dos Anjos, pedindolhe com lagrimas ,& 
devotas iníí anciãs , fe compadeceífe do mefmo Reyno, pois 
era delle a íinguíar Protedora, & lhe deífe quietação. Para 
iíio ( infpirada ao que parece do Efpirito Santo") mandou fa- 
zer hua Imagem da me fma Senhora, q collocou no Altar 
mor da Parochia de S .Nicolao da mefma Cidade, & lhe poz 
o titulo da Senhora da Quietação , para por meyo defle ti- 
tulo conceder a efle Reyno a de que muy to neceflitava ; no 
qual Altar eíkve muy tos annos , atè que fazendofe o novo . 
retabolo, mandarão os Irmãos da fua Irmandade renovala, 
&fazerlhe hum corpo de talha, &ceftofar,( porque atè alli 
atinhaõ de veftidos)& depois do retabolo, acollccáram 
nelle, aonde fevè à parte doEuangelho. Os apertos, & o 
mar de tribulações em que os moradores de Lisboa fluflua- 
vaõ,os acendeo tanto na devoção da Senhora da Quietação, 
que logo Ihe-erigiraõ hua muy to nobre Irmandade,a qual fe 

empre- 



1 86 Santuário Mariam 

empregou fcmpre emfervir a efia Senhora com grandeza^ 
& difpendio. Sempre a féflejáraõ, & feíiejaõ ainda hoje cm 
8. de Setembro , dia de feu Nafcimento. 

Obrigada a Senhora dos rogos daquella devota Matro- 
na, & do pio obfequio com que todos os moradores daquel- 
la fregueíia fe empregavão em a feíkjar , fcy ferviua de al- 
cançar para eíte Reyno a paz que logo fe feguio y & juntai 
mente as melhoras daquella cruel epidemia, que os auri- 
bulava- com que crefceo ainda mais a devoção para coma- 
quella Imagem Santiffima,& afíimabuícavaõ os fieis em fuás 
'mbulaçoens, trabalhos , & infermidades ;& nelía naõ íó 
achavaõ a quietação que pçdiam ; mas evidentes favores , Sc 
milagrofas melh; ras em íèus males. Eitá collocada (como 
fica dito; no Altar mor , cm paralelo com Sam Nicolao Eifr 
po , & na mefma Capella mór ielhefazafcílatodos osan-» 
nos. A fua eítatura , feraõ féis palmos. Tudo o referido 
confia do mefmo Compromiílo da Irmardade confirmado 
pelo Arcebifpo de Lisboa Dom Jorge de Almeida a 1 8. de 
Abril do anno de 1585 • & de noticias que fe nos deraõ. | 



TITULO XXXVII. 

■Da Imagem de najfa Senhor a do Valle de Santo Eloy. 



H 



E Maria Santiffima a Rainha do Ceo y a MSy da vida, 

& a fonte da miiericordia, ( como diílc Amedeu Lau- 

fanenfe) Regina c^eli^ Kfater Vit<€,hons mifeYicordue. Eque 

digo cu Rainha do Cecr he Rainha, & Senhora ,& a todas as 

creatuiías fuperior } (como dilTe Santo Ephrem)/?f guu nc 

Ephre Domina CHnãts fuhliwioY* Sendo Maria efia na realidade 3 

i»L4ud &n na noffa veneração, ellafefaz na fua efiimaçaõ taõpe- 

B.K quenina , que fe conte ífa pela efers va do Senhor , & como 

tal à imitação de feu amorofo Filho, (quando apparece no 

valíe 



Livro I. Titulo XXXVIL 5*8? 

valle das lagrimas emfcrmaceftrvoj^iLzccmo amorofa 
Mãy não fó aceitar os humildes títulos com que a invocaõ 
os peccadores ; mas regalalos,& beneficialos , quando hc 
invocada com eífes títulos. Saò os valles no mundo os lu- 
gares mais humildes , & inferioresdelle. Pois eíte humil- 
de titulo eflima Maria mais que osmayores .Monarcas do 
mundo, o titulo imperial, & mageftofo. Celebra com muy- 
tos feftivos applauíòs a devoção de Lisboa a Senhora do 
Valle ? collocada no Real Convento de Santo Eloy, aonde 
os mais doutos Oradores Euangelicos a acclamaó grande 
com os títulos da Conceição , do Valle , da Natividade ,8c 
das Lagrimas. Na Conceição; porqueefia Santiflíma Ima- 
gem em algu tempo foy m voe ida com efte titulo. No Valle, 
por fer bufeada dos fieis com eítoutro.Na Na tividadc;por- 
que no cia de feu gloriofo Nafcimento he feflejada. Nas La- 
grimas , pelas que fe reconhecerão em feu foberano rofío. 
Com eftes títulos, ou circunstancias engrandecem fuás ma- 
ravilhas, pois quando acontemplaõ noCeo com o titulo 
defua puriffíma Conceição: Stgnum tndgnum apparuit in 
CiielOy entam vem aefiimaçsõ que faz do titulo do Valle, 
quando delle a invocamos: In hac lacrymarum Vd//e;bufcan- ^ H g* 
donos ne!!e, defeendo lá do Ceo: Fugtt i»foíttudiwm. Com fe* '*• 
os da Natividade >& Lagrimas; porque com aquellâ nos J ^ 
amanheceo a todos a nofla felicidade ,& com eltas nos foli- §r4f * 2 
cita es noíTbs efpirituacs alívios. deJíf 

Nasmefmas dreunítancias a acckmão como flor, ou /# W p. 
com os títulos de varias íiores, (porque he Maria flor do Na*. 
campo ? como diife Agoftinho- meu Padre : Fios campi 9 de ora. ij 
cjuo crtum tft pretiojum Itlium conValhutn ; Flor incorrupti- **<&»* 
vel, Fios VKorrupttoms , como diíTe André Cretcnfe; Flor "ff /# , 
fem mancha: Fios yit<e iwmaculatus ^omo lhe chamou Gre- 6 ^** 
gorio Naziãzeno; & Ficr immarccfávcUFIns immarcefctbi- apfi / 
lis , como cantaõ os Gregos) a^uellesdoutiffimos Oradores But.p. 
Com ot.tulo de Angélica, de Perpetua , de Maravilha , & 135. 

de 



1 88 Santuário Mariano 

de Amor perfeito. Angélica emfua puriífima Conceição; 
Perpetua no titulo do Valle; porque comefte perfeverou 
fenipre em Portuga! : Maravilha cmfeu Nafcimento; por- 
que nellefoyhuma maravilha da graça, hua maravilha da 
gloria, & hua maravilhada natureza ; & Amor perfeito nas 
Lagrimas; porque entrando o amor pelos olhos ; & não ca- 
bendo no peito, para defabafar , torna a fair pelos mefmos 
olhos. E como erta amoroía Mãy eftima , & ama tanto aos 
peccadores, muy tas vezes fe vio chorar pelo feu remédio. 

Entre as magnificas obras que o Bifpo Dom Domingos 
Jardofez} (ainda fendo Bifpo de Évora) foy hua delias o 
Hofpital de Sam Paulo nafreguezia de Sam Bartholomeuj 
que agora mudado o nome he o Convento de Santo Eloy. 
Alcançou o Bifpo licença do Cabido de Lisboa, na Sede va- 
cante , para a fundação do Hofpital emir. deMcrço de 
1 286- & applicoulhe a Igreja de Sam Bartholomeu , que lhe 
havia dado El Rey D.Diniz. IníHtu'10 aqui doze Capellaes, 
annexandolhe muy tas rendas,aílim para os CapellaC&como 
para os enfermos, & para muy tas merceeiras, &eííudantes 
pobres. Porem como otempodeíiroe tudo , por mais cui- 
dado que punhãona fua confer vaçaõ os Deaens de Lisboa, 
que erão os Adminiflradores, & os que vifítavão eíle Hof- 
pital, foraõfe perdendo as rendas de ferte, que pelos annos 
de 1440. reynando ElRey D. AffonfoV. & governando 
feu tio o Infante D. Pedro por elle , jà havia poucos veíti- 
gios da grandeza , que havia tido o Hofpital de Sam Paulo. 
Com que movido o Infante do zelo da honra de Deos, al- 
cançou do Summo Pontífice Eugénio IV. fe deífe o Hofpi- 
tal aos virtuofos Cónegos de Sam Salvador de Villar de 
Frades, (que hoje chamamos da Congregação deSam Joaõ 
Euangelifta.) Eraentam feu Prelado o Mefíre Joaõ Vicen- 
te, que depois fcy Bifpo de Lamego, & Vizeu: & elíe foy o 
que das mãos do Infante aceitou aquellacafa. • 

Nefta Igreja pois chamada antigamente de Sam Paulo, 

& 



Livro I. Titulo XXXVll 189 

& depois de Santo Elcy , por haver neila hua Capella deite 
Santo Eifpo, fe venera hoje comgrande culto , &-reveren- 
cia híía devota, & muyto milagrofa Imagem da Rainha dos 
Anjos ,com o titulo denofla Senhora do Valle: cuja ori- 
gem he nefta maneira. No fitio, ou valle de RoncefvalheSj 
(celebrada veiga doReyno de Aragão pela memorável vi- 
toria, que contra Francezes nclla alcançou Bernardo dei 
Carpio)havia hua Ermida,aonde eítava collocada hua devo- 
ta Imagem da Mãy de Deos ; romagem univerfal naquelles 
tempos de todo Aragam , pelos muy tos, & admiráveis mi- 
lagres, & maravilhas que a Senhora alli obrava. Muytas ve- 
zes fe ouvirão naquelle fitio, &cafa da Senhora vozes de 
Anjos, que cantavaõ em louvor da fua Rainha Soberana, a 
Salve Regina. O titulo com que entaõ a invocavaõ era o 
da Conceição. Daquelle Reyno , & daquella fua Ermida 
trouxe efla Santa Imagem para o noflò Portugal fpela An- 
gular, & cordeal devoção q lhe tinha)aRainha D. Leonor, 
mulher delRey D.Duarte, & filha de D- Fernando I» Rey de 
Aragam , & de Sicília , Prircefa muyto celebrada por fuás 
grandes virtudes,&prudencia,noannode 1457- Depois 
de eílar cm Portugal, attendendofe ao lugar, ou fitio de 
Roncefvalhes , aonde -primeiro fora venerada, lhe puzeraõ 
o titulo da Senhora do Valle. 

-Muy tos annos efíeve na Matriz doCaflello , aonde a 
Rainha D- Leonor a jnandou collocar , para a ter mais perto 
de íi,. pela affiítencia que os Reys entam faziam no Palácio 
de Alcáçova, ate que com fua mudança pára os Paços da 
Ribeira, & jornada que a Rainha fez para Caflella, ficou a 
Santa Imagem êfquecida , & menos venerada. Sabiaõ os 
Cónegos de Santo Elcy a grande veneração , em que a de- 
vota Rainha fempre tivera aquella Santa Imagem , & junta- 
mente osfeus milagrofos, & antigos princípios, &affim 
fe refol véraõ a pedilla,para a terem na fua Igreja com aqueí- 
le culto,que lhe era dcyido: confeguiraõ-no p & affim a trou- 

xeraõ 



190 Santuário Mariano 

xeraõ da Igreja de Santa Cruz p?ra a do feí* Convento com 
grande pompa , & folemnidade. Collocáram-na. em huma 
Capella da Igreja velha, que ficada junto à porta da Via Sa- 
cra, que era dedicada aogloriofo Samjofeph. Alli efteve 
fempre com grande veneraçam, a quaí crefceo depois muy- 
to mais com asmuytas, & grandes maravilhas , &t mila- 
gres que a fé dos devotos experimentava^ recebia por fua 
interceífaõ, & patrocínio. 

As maravilhas, & os milagres excitarão tanto a devo- 
ção dos Religiofos do meimo Convento , que fe refo 1 vè aõ 
a íhe erigir entre íi hua devota Irmandade, para o que con- 
correo também o grande fervor , & devoção doM.R. P. 
Doutor Gregório dos Anjos , que depcis morreo primei o 
Bifpo doMaranhnô^ & outros nviytos Religiofos Padres 
daquella Cafa, como foy o devoto Padre Manoel do Efpiri- 
to Santo , que foy o primeiro CommiíTario dn Senhora ue- 

fois do milagre das lagrimas •,& o Padre Francifco de Sam 
aulo, que hoje oceupa o mefmo lugar de CommiíTario, por 
morte do referido Padre Manoel do Efpirito Santo , &: ou- 
tros Religiofos, te dos naturaes de Lisboa. Celebravamlhe 
a fua fefta no dia de fua Natividade , para o que concorr aõ 
com efmolas poííiveis ,& competentes a hua plauíívcl ce- 
lebridade , em, que faziaõ prociífaõ pelo clauftro com o 
Santifllmo Sacramento, &elegiaõ todos os annos por Juiz 
d^fefta aogloriofo Ulyffiponenfe Santo António, levan- 
do-o na prociffaõ emftguimento do Santiífimo Sacramen- 
to, poflo em hum andor , com vara de prata na mão direita, 
demonflradora do Juizado , & na outra o Menino jefus. 
Aífim continuou eíia feftividade, fempre devota, & au- 
mentada. 

Pelos annos de 1681. fuecedeo que fendo Sacriilaõ 
mor do mefmo Convento o Padre Ambroíio da Conceição 
também natural 3e Lisboa, & alumno também da mefma ir- 
mandade da Senhora ^havendofe defazerafeftapordia da 

Nati- 



Livro I. Titulo XXXVII. i$i 

Natividade, como era coíiume, fc havia de veflir a Imagem 
para fe collocsr no Altar.mcr; obfequio que repetia D. Ar- 
changda, mulher de D.Joaõ de Cãflro Telles com duas de- 
votas Donas:& por eflar hua delias extremofamente enfer- 
ma, chamada Ifabelda Silveira, íe fufpendeo o virem à Igre- 
ja, como coílumavao, veflir a Senhora. Neítes termos ar- 
bitrou o Padre Manoel doEfpirito Santo, que felevaíTe a 
Imagem da Senhora na antevefpora dafefta acafa da de- 
vota Ays,para dela vir veflida;oque impugnou o Padre 
Sacriflaõ mer, dizendo, que parecia indecencia levar a 
Santa Imagem fóra da Igreja , quanÕo outra qualquer de- 
vota aviria nella. compor: mas prevalecendo o arbítrio de 
que à dita fidalga D. Archangela íè manda(Te,para continuar 
noobíequio de vcftilla,fc executou affim. 

Succedeo que veflida a Santa Imagem, veyo hum Sa- 
cerdote Capellaõ da mcfmaCafa,&diíTe ao Padre SacriftaÕ 
mòr, com grande alvoroço, todo infiado , attonito , & cor 
mudada ; que foflem a toda a prefTa acáfa de Dona Archan- 
gela, porquanto a Imagem da Senhora do Valle jà eílava 
veíiida , & ornada , & fe ha viaõ admirado em feus olhos ai- 
guas lagrimas comefpanto de toda agente decafa. Deufe 
parte ao Padre Reytor António da Madre de Deos Chi- 
chorro , que com os mais Padres do Convento , & muy tas 
peffoas viíinhas, foraõ logo à referida cafa , & todos igual- 
mente obferváraõ as lagrimas vertidas da cor doalambrej 
o que vifld, & admirado, trouxeram a milagroíiffima Ima- 
gem em prociíTaõ folemne, cantando ao Omnipotente Deos 
louvores ^&hymnos em rcçaõ de graças-Naõ d; ve apie- 
daae dos fieis negar o credito afeirelhantes maravilhas; 
porque de exemplos deíles ándaõ cheyasas hiíkrias:dif- 
pondo oCeo, para gloria da Senhora, &confufaõ nofía, 
que com eiias demonflraçõcsf c publique o feu empenho, & 
fe defptrte u noíio defeuido. 

Pafianuc a Senhora peíarua de Santiago, fuecedeo fol- 

tarfe 



xyi Santuário Mariano 

tarfe da portxde hum ferrador hum macho feroz, & bravo^ 
que correndo precipitado pela mefma rua,&confundin- 
dofe, & revofvendofe o innumeravel povo q havia concur- 
rido a admirar o lacrymofo , & cítupendo prodígio , nunca 
aquellc bruto offondeo a Communidade, nem menos a per- 
turbou , caminhando fempre compofta, cantando alegre os 
louvores da Virgem Sagrada ; fendo q por taõ perto gyrava 
bravo,& feroz, q todos igualmente temerão q a Communi- 
dade dos Padres fedefcompuzeíTe, & o andor da-Senhora 
cahiíTe por terra: febem obfervandofe por proiigioque o 
bruto naõ offendeiukfo íagrado feafaftava refpeitofo, fe 
defpertou a lembrança de que jà a brados do juiz da feita, 
Santo António de Lisboa, outro bruto fanjinto defprezou 
o fuflento là em Tolofa de França, fó por render adorações 
ao Divino SacramentoiaíTm também na Corte Portugueza, 
cm obfequio da Soberana Mãy de Deos , outro bruto enfu- 
recido cedia de fua braveza , fó por render v^neraçoens à 
Virgem Sacratiífímí. A devota D. lfabel da Silveira, pe- 
rigofaenferma,& motivode que a Imagem da Senhora foífe 
levada a cafade D. Archangela, melhorou ,&farou logo 
de repente. 

Concorreo infinito povo à fefla que logo fe fez à Se- 
nhora y & a obfervar as lagrimas, que ainda hoje fe admiraõ. 
Eaffirmão Pintores peritiífimos nãofer poííivel (natural- 
mente)quealgua humidade do lenho feco-por tantos fecu- 
los , trefpaffaffe o encarnado da pintura , demonftrando a- 
quella affluencia lacrymofa, mayormente, que continuando 
a mefma D, Archangela em veftir a Santa Imagen^ lavando- 
lhe o roflo com agoa cheirofa, aindaque na repetição fe de- 
molira o encarnado da pintura com algua diminuição, as 
lagrimas fe demoftraõ íêmpre da mefma forte. 

Foraõ crefeendo os milagres, & juntamente a devo- 
ção, & concurío ; & fendo Commiífario o Padre Manoel do 
Efpirito Santo , Religiofo devirtuofos procedimentos, & 

que 



Livro L fttulo XXXP7L 19; 

que fervia em zel o do culto, & veneração da Senhora, fe lhe 
inflituío huma illuflre Irmandade de feculares , da qual he 
Protector ,& Juiz perpetuo EÍRey noflb Senhor D. Pedro II. 
Efcrivaõhum dos principaes fidalgos da Corte, Procurador 
perpetuo D. Joaõ de Caftro Telles, (q foy até fua morte, q 
fuecedeo noanno de 1 697.) Mandoufelhe fazer de efmolas 
hua perfeitiflima tribuna na Capeíla do Sacramento, toda 
dourada, & com excellentes pinturas, & com tam ricos or- 
natos, que não havia mais que ver, nem que defejar. Para 
el/a foy tresladada a Santa Imagem do Altar de Sam Jofeph, 
em que havia de primeiro fido coílocada. Celebrafelhe a 
fua fcfta a féis, fete, & oito de Setembro , eftando todos os 
três dias o Senhor expoflo, com três Scrmoens , que fazem 
hum Pregador do Convento, &dousdefóra, com fuave 
mufica , & viftofa armação , & todo o género de apparato , 
accy o, & regozijo: ainda aoprefente fecontinuão os mila- 
gres, oue tem fido innumeraveis, como tefíemunhaõ as pa- 
redes cubertas de payneis, de mortalhas, de moletas, & 
de outros deípojos da morte, & da enfermidade , & trof eos 
Verdadeiramente gíoriofos da protecçaó,& poderes de Ma- 
ria Santiííima. 

Pelos annos de 1694. fendo Reytor daquelle Conven- 
to oP. M.Jofeph dos An jos , fe mandou derribar a Igreja 
por fer antiga, & de duas naves com columnas, & arcos pe- 
lo meyo,& não muyto clara, & fedeu principio a hua nova, 
& de tam excellente fabrica, & archite&ura, que feri das 
melhores da Corte , pelo que moítra a traça, & a planta • hc 
oitavada, metida em hum paralelo gramo de fetenta , & fete 
palmos de vão , & cento de comprido , fora o Coro , & Ca- 
peíla mgyor, que tem trinta & féis palmos de largo , & qua- 
renta de cumprimento. Ocorpo da Igreja temoitoCnpel- 
las, quatro década hum dos lados, & no meyo dellashum 
púlpito , com oito tribunas fobre as oitoCapellas, todas 
livres para receberem, & darem a luz que tanto alegra, & 
Tom. L N afer- 



ap4 Santuário Manam 

afermofea os Templos. Todo eíte edifício he de mármores, 
& de jafpes de varias cores , & embutidos , que ficará vifío- 
íiflimo depois de acabado. A Senhora eftàao prefente col- 
locada no Altar mor dehuma Igreja que cempuzernõ, em 
quanto fe acabava o novo Templo- Efcrevem da Senhora 
do Vaiie oPM. Francifco de Smn Maria no feu Ceo aber- 
to, ouhtfloria da Congregação deSnmjoaõEuangelifla li- 
vros. cap.20. &Cardofonofeu Agiclog. tom.3. pag. 290. 



TITULO XXXVIII. 

7)a milagrofa Imagem de nojfa Senhor a do Ro farto daRe- 
Haurnçaõ^quefe Venera na [na Ermida do Grilo. 

MUdos chama Eufebio Emifleno a todos aquelles que 
para os divinos louvores naõ fabem abrir a beca , Sc 
Eujèb. f a õ furdos àsdivinas infpira coes: Mutus eíi } qul in Vei lau- 
*f' des lábia [na aperire nefett. E daqui parece que veyo a dizer 
S. Bernardo , que quer Deos que com os louvores do feu 
Rofario veneremos a fua Santiílima Mãy , & que naõ feia- 
mqs tíbios , porque com a devoção do feu Rofario recebe- 
remos todas as couías de que neceílitamos; porque efías 
Bem. nos ^ a õ de vir pelas mãos de Maria : Mar iam Venerari Vult, 
ferm.de V u ^otum nos babere per Mariam Voluit. Para impedir o 
Nat.B. ferviço da Senhora, & a devoção do feu Rofario faz ode- 
MarU. monio quanto pode, &afllm trabalha porque os homens fe 
façaõ naà fó mudos para os feus íbuvores ; mas furdos para 
àsdivinas infpiraçoés. E como pela .devoção do Santo Ro- 
fario fe lhe faz híía grande guerra, por iíío naõ fó a aborre- 
ce, mas a perfegue, tirando da boca as fantas palavras , das 
maõs as boas obras, & do coração os fantos defejos» Porem 
a Senhora como nos ama,como a filhos, pela devoção do feu 
Rofario, todas eftas ciladas vence, todos eíies enganos 

. deliroe: 



Livro l Titulo XXWIIL i 9 f 

deflroerpara q osfeus de votos naõ faltem ao feuferviço, 
nem percam os merecimentos da fua devoção. Bem claro 
fe verá iílo na hifloria da Senhora doRofario daReftaura- 
çaõ, de que agora tratamos. 

Depois daquelle memorável Sabbado primeiro de De 
zembro do anno de 1 640. porque fe obrou aquella herói- 
ca acçaõ da felice acclamaçaõ do Sereniífimo Rey Dom Joaõ 
o LV. de faudofa memoria, fahiraõ vários fidalgos a render 
as fortalezas, q à Cidade de Lisboa ficavaô vifínhas. Hum 
defles foy Dom Gaftaõ Coutinho, que tinha fido hum dos 
quarenta que concorrerão para a liberdade da Pátria, ti- 
rando o Reyno de Portugal da fojeiçaõ de Caítella, redim- 
indo- o àSereniflima Cafa de Bragançana quem havia tantos 
annos eftava ufurpado. A efte Fidalgo tocou ir render a 
fortaleza deCafcaes, em que depois do grande trabalho 
que de taes acçoens fe originarão , entrou dentro nella em 
os dez do mefmo mez, & anno. E tratando de ir dar as gra- 
ças, a quem pelo bom fucceífo do rendimento fe deviam; foy 
à Ermida da mefma fortaleza, em cujo Altar achou hua Ima- 
gem de noífa Senhora do Róíàno , ("que he a mefma que hoje 
fe venera na Ermida do Grilo, entre o Convento dç S.Fran- 
cifeo de Xabregas , & os do Monte Olivete de Agoflinhos 
Defcaiços, & Agoftinhas Defcalças)àqual depois de lhe 
dar as graças pela mercê que Deoslhe tinha feito de lograr 
aquella facçsó tam defejada 5 pedio favor à mefma Senhora 
para a continuação da começada emprefa da acclamaçaõ, ôc 
reííauraçaõ do Reyno , prometendolhe que fe lhe deiTe bom 
fucceífo nella, lhe faria hua Cafa aonde com mais decência 
foífe venera dá. 

Feito eíle voto, q D. Gaílaõ Coutinho naõcommuni- 
cou a peííòa algíía, tomou a Imagem da Senhora do Altar , 
naõ como defpojo dò inimigo ; mas por premio da vitoria , 
£ deixando emfeu lugar outra que para íífo mandou fazer 
Iogo)"& a mandou a fua mulher D.Ifabel Ferrai, para que a 

N z collo- 



i $6 Santuário Mariano 

collocafle no oratório da quinta do Grilo, que era defett 
cunhado Franciíco Gonçalves da Camará, & Atayde , aon- 
de cila entaõ morava. Vencida de todo à fortaleza de Caf- 
caes y fe recolheo D. Gaflaô à fua cafa , donde logo ElRey 
D. João o mandou por General da Província de entre Dou- 
ro, & Minho, para onde partio no primeiro de Janeiro de 
1641. aonde afliftio com a mefrra oceupaçaõ atè ofimdo 
anno de 1642. Na referida quinta do Grilo deixou a jiia 
mulher, em cujo fcrvtço havia huma moça muy to fimplez, 
mas muyto devota denoíTa Senhora, a quem o tempo 00- 
cultou o nome, deixandolhe fó o de Antunes , com q fem- 
pre entre a gente de cafa era nomeada. Era efla moça natu- 
ral de Lisboa, & nafeida na freguefia de Santa Jufta : aella 
appareceo a Senhora por repetidas vezes , & lhe mandou 
date/Te a D. Gaftaõ Coutinho , lhe fatisfizefíe a fua promef- 
fa , edificandolhe a Cafa que lhe prometera. Naõ fc achava 
a moça Antunes digna da embaixada, &affim com íinceri- 
dade diííe â Senhora que elegeflè a outra peíToa; porque a 
ellalhenaõhaviaõ de dar credito. E como para iranifeíia- 
çaõ de fuás maravilhas queria Deos , & a Senhora, que a 
fincera moça fole a menfageira, lhe tornou adizer a mefma 
Senhora , que o fizefle > porque fe lhe havia de dar inteira 
credito. 

Na manhã a do feguintedia, acharam a Santa Imagem 
fobre acama da moça,tendo a Senhora as contas ao pefco- 
ço , & três voltas em hum braço da mefma moça. Divul- 
goufe ofucceífo pela cafa, &viíinhança, chegando a noti- 
cia aos Conventos de Sam Francifcò de Xabregas, & aode 
Sam Bento, que fica mais adiante do fitio em que depois 
fundarão os Agoftinhos Defcalços, & todos em pouca di- 
flancia da quinta do Grilo. Viéraõ os Reiigiofos delles 
com grande concurfo de povo, & cmprocilfaoleváraõa 
Santa Imagem da camera em que a moça dormia para oora- 
torio das cafas,, aonde a collocáraõ como de antes efíava , Sc 

aULi 



Livro I. Titulo XXWIU. 197 

aiíi repetidas vezes aviraôfuar, & fazer muy tas maravi- 
lhas; porque deu vifta a cegos, farou coxos, & aleijados ,& 
deu faude a muytos enfermos, que vindo de romaria â Se- 
nhora ,&: untandofe com o azeite da fuaalampada, volta- 
vaõ livres das enfermidades que padeciaô. 

Deufe avifo a D.Gaftaõ Coutinho , o qual para dar cre- 
dito a tantas maravilhas, lhe baflou ver praticar em publi- 
co o voto, que elle a nenhua peffoa havia communicado, & 
fóoconfervava emfeu coração* Adoeceo a moça Antunes 
gravemente em o principio doanno de 1645. í ( í ãc ^°7 ° 
mefmoemque D.Gaftaõ ferecolheo da Província de entre 
Douro, & Minho,) & a rogos de hua tia com quem fe havia 
criado na mefma cafa , fe foy com ella para a Cidade , para 
là fe haver decurar da doença, que fe lhe aggravou de forte, 
que delia veyo a morrer , & pouco antes da fua ultima hora, 
mandou dizer a D. Gaftao Coutinho, q fenaò queria edifi- 
car a noífa Senhora a Cafa que lhe prometera, tornaííè a le- 
var a íiia Imagem à meíma parte donde a tirara. Vendo elle 
queoadrnocftavaõdoqueaninguem tinha dito, quizlogo 
dar principio à Ermida ,& vendofe perplexo na efcolh.a do 
íi tio que feria mais a propofito para a edificação 5 nefla fua 
indehberaçam fe fentio hum tremor de terra. ,& feviraõ 
milagroíàmente abertas huas covas, que rnoflravaõ feros 
alicerces da nova Cafa , que a Senhora queria naquelle fitio, 
emque hoje íè vè a Ermida , que entaõ era hum quintal da- 
quellas mefmas caías, 5c quinta do Grilo.. A qual logo Fran- 
ciíco Gonçalves da Camará & Atayde, & fua mulher D* 
Phdippa Coutinho irmãa de D.Gaftaõ offerecèraõ à Senho- 
ra para edificação da fua Caía., entendendo que aquelle fi- 
tio era efeolh ido pela mefma Senhora do Rofario. 

Ficava defronte húa pedreira" de que ainda fe nao havia 

tirado pedra, que era de António de Oliveira de Azevedo : 

pediraõlhe aquizefíe vender, ou dar apedra quefoífc ne- 

ceífaria para íe dar principio à Cafa da Senhora j&.nam o 

Tom. I. N 5 que- 



içS Santuário Mariano 

querendo elle fazer, em breve tempo fe vio outra nova ma- 
ravilha : porque fe vio eflremecer a mefrna rocha , com cujo 
tremor cahio ainda mais pedra da que baflava para a nova 
Ermida; de que admirado ,& compungido António de Oli- 
veira, foy logo offerecer à Senhora, naõ io a pedra , mas o 
cham da pedreira para adro daCafada Senhora. PaíTados 
alguns annos, vendeo omefmo António de Oliveira a pe- 
dreira, fc terra que fe lhe feguia , a Luis Gonçalves Couti- 
nho da Camará , filho do lòbredito Francifco Gonçalves da 
Camará, & Atayde Jk de D.Phelippa Coutinho,fobrinho,& 
fucceflbr da caía de D. Gaflaõ; porque naõ teve filhos. Em 
a qual venda £ ou eferitura fe poz hua claufula , em que fa- 
zia aquelle contrato, refalvando o que havia dado para a 
obra da Senhora. 

Continuou a obra com tanto fervor , & cuidado , que a 
Senhora fe collocou na fua Ermida em dia de Sam Joaõ Bap- 
tifladoannodei644. levando-a do oratório em prociífèõ 
as mefmas Communidades, que na occaíiaõ da maravilha 
referida atraz, nelle a haviaÕ repofta Foy grande o con- 
curfo da genre que concorreo a efla folemnidade, & mudan- 
ça: o que fe fez com grandeza, & aceyo, em que ouve MiíTa 
cantada, & hum elegante Sermaõ. No anno de 1 652. iníii^ 
tuíraõ D. Gaflaõ Coutinho , & fua mulher D. Ifabcl Ferras 
hum morgado , em que ( por naô terem filhos ) nomearam 
para fueceífor delle a feu fobrinho o referido Luis Gon- 
çalves Coutinho da Camará, aquém mandarão compraífe 
hum foro que tinha aditaquinta,&ameteflTe no morgado, 
para que a Ermida , que intitularão noffa Senhora do Rofa- 
rio da Reítauraçaõ, foífe cabeça delle; para aíTim moftrarem 
a grande devoção que tinhaõ à Senhora , & a reverencia 
com que defe javaõ, & quer iamí ofTe fervida. E naõ fe ia tis- 
fazendo de a venerarem, & fervirem emfua vida , difpuze- 
raõ emfeus teítamentos que depois de mortos lhe deíTem 
íepultura à vifta da mefrna Senhora : aonde feu fobrinho lhe 

mandou 



Livro L Titulo XXWIIL i 9 ? 

mandou lavrar dous mageítofos túmulos de ricos mármo- 
res, com elegantes epitaphios, & armas de fua nobreza. 

Também refolvêram fe fatisfizeflem na mefma Cape lia, 
ou Ermida as obrigaçoens do referido morgado; porque 
deixarão quatro Ca pellaens perpétuos, que quotidianamen- 
te dizem MiíTa pelas almas dellssinítítuidores, & por todos 
osfeus afcendentes, & defcendentes : hum dosquaes or^ 
denáraõ foffe Capellaõ mayon para que tiveíTe a feu cargo o 
faber , fe os mais fatisfaziaõ a fua obrigação ; & que ouvefle 
também hu Thefoureiro,que ajudaíTeàsMiflas. Também 
difpuzeram,queafefta principal da Senhora foíTe todos os 
annos em 2. de Julho no dia da Vifitaçam de nofla Senhora. 
Atudoiíto deu inteira fatisfaçaõ íeufobrinho Luis Gon- 
çalves Coutinho da Camará , mandando edificar as cafas 
para morada dos Ca pellaes, defronte da mefma Ermida da 
Senhora, com a perfeição que ainda hoje fevè, aonde fefe- 
íteja a Senhora do Rofario com muy ta grandeza , & íòlem- 
nidade. No dia da fefta,àlem da armação da Ermida, fe 
poemnella as bandeiras , que D. Gaftaõ Coutinho ganhou 
afllm aos Galegos na Província de Entre Douro , & Minho; 
como em Tangere aos Mouros. He Vifitador deíla Capei- 
la o Geral da Congrcgaçam dos Cónegos de Sam Joam Eu- 
angejiíia. Tem naquelíe dia Jubileo para todos os fieis, 
que vifitarem aquella cafadefeíe as primeiras até asfegun- 
das Vefperas. 

Naõ me pareceo alheyo defla narração declarar a quali- 
dade da peífoa de D. Galho Coutinho , & o illuílrc de feus 
Progenitores. Foy D. Galho Coutinho filho de D. Henri- 
que Coutinho^ Comendador da Commenda de Santiago de 
Caldellas da Ordem de Chriíto, & de fua mulher D. Joanna 
de Brito do Carvalhal ; & neto de D. Diogo Coutinho Co- 
mendador da mefma Commenda, & de D.Catherina de Ca- 
íh*o;&bifneto de D. Caíiaõ Coutinho também Comenda- 
dor da meíma Commenda^ & de D.Brites de Vilhena;& ter- 

N 4 'ceiro 



20 o Santuário Mariano 

ceiro neto de Dom Diogo Coutinho , & de D. Francifca de 
Gufmaõ, filha natural de D-Henrique de Gufmaõ, fegundo 
Duque de Medina Sidónia; & quarto neto de Dom Gonçalo 
Coutinho , fegundo Conde, de Marialva , & da Condeça D- 
Brites de Mello, avôs de D.Guimar Coutinho , Condeça de 
Marialva, que cafou com o Infante D. Fernando, filho de 
ElRey D.Manoel, 5c da Rainha DMaria. 

A km de fe r Comendador D. Gaflaõ Coutinho da Co- 
menda de Santiago deCaldelías ,que foy defeus Pays,& 
Avós 7 foy também Senhor da Villa da Pica lie Regalados, 
Alcayde mer de Torres Vedras, General das armas na Pro- 
víncia de Entre Douro ,& Minho ,& Governador de Tan- 
gere , do Confelho de Guerra delRey D. Joaõ o IV. Da Se- 
nhora do Rofario da Reílauraçaõ nos fez relação ,&deuas 
referidas noticias D. Gaflaõ Jofeph Coutinho da Cambra, 
Fidalgo bem conhecido por fuasmuytas prendas em a Cor- 
te, & fobrinho do referido D. Gaftaõ Coutinho, Fundador 
da Ermida da Senhora do Rofario: & faz tampem delia men- 
ção o P.M. Francifcode S.Maria na fua Chron. I,2.cap.^ u 



TITULO XXXIX. 

Da milagrofa Imagem de nojfaSenhora da Graça do 
Hofpital Real. 

NAs coufas mayores,&mais notáveis de Portugal, 
encontrarão fempre ,& encontrão osHifloriadores 
motivos de fentimento, na falta de mdividuaes noticias, & 
emalguas taõ poucas, q deixando de as referir, fó referem 
queixas, & todas bem fundadas ; pois por mais que cavem, 
nunca acham fundo às fuás duvidas, nem podem tomar pê 
no alto mar das confufas tradições. Tal he a noticia da ori- 
gem, & antiguidade da milagrofa I*nagem de N, Senhora da 

' Graça^ 



Livro I. Titulo XXXIX. ao* 

Graça ,que fc venera no Altar mcr da Igrfja doHofpital 
Real de todos os Santos, cujas noticias faó tam confufas, 
que cíiive para as naó referir. 

He certo qucefta miiagrofa Imagem he muy to antiga* 
&que da horta do mefmo Hofpital foy trazida para o Al- 
tar ma yor daquelle Templo: mas fendo muy tas as maneiras 
com que fe refere a fua invenção , acho fer a mais verifimil 
a de fe achar no poço da mefma horta. Otempohedifficul- 
tofo de ajuftar. Fundou eíí e Real edifício ElRey D.Joaó o II. 
em hum dosladosda fermofa >& dilatada praça do Rocio, 
ennobrecida toda em roda de magníficos > & fumptuofos 
edifícios. Verdadeiramente fe manifefia fer efte edifício 
obra de feu generofo , & piedofo coração : & porque a naõ 
pode confummar, deixou em feu teílamento fe ccn-tinuaíTe; 
& como ElRey D.Manoel, que lhe fuecedeo, foy verdadei- 
ramente imitador de fua piedofa magnificência > (como ve- 
mos nos fumptuofos Templos que erigio)tomou tanto por 
fua conta efía obra, que peííòalmente lheafliftia muy tas ve- 
zes. E ou foífe em feu te mp o y ou no de feu anteceífor El- 
Rey D. Joaíio 1 1. alimpr ndofe hum grande 7 & antigo poço 
que eflá na horta do mefmoHofpital , o qual eflaria bem en- 
tulhado; ao alímpallo, dizem por tradição ? que fe achara 
nelle aquella Santa Imagem da Senhora. E fobre iílo difeor- 
rendo me acccmmodo com os q tem para íi V <q^ie gs Chri- 
fíaõsalíi a efeonderiaõ, por evitarem as irreverências com 
que os Mouros a poderiaõ tratar , quando temáraõ Lisboa, 
íé he que os mefmos Mouros > pelo ódio que tem às Imagcs, . 
anão lançarão nelle, Outros querem que ai 1 í na horta ap- 
pareceífe no rcynado delRey Dom Manoel: &que ellelhc 
mandara fazer a Ermida em que a eollocáraô. E por outra 
tradição querem algunsque o mefmo Rey D. Manoel man- 
daííè fazer eito Santa, & miiagrofa Imagem^ & juntamente a. 
Ermida , & que nelía affiflia* à Miíía todos os dias que hia a 
ver as obras do Hofpital^ 





ióí Santuário Mariano 

Oqtle hecçrto que a Senhora appareceo,&que logo 
Gómeçou a obrar muytos milagres, &proiigiofas maravi- 
lhas, de que eraõ boas teitemunhas as muytas memorias, 
que o publica vaõ, & pendiaõ das paredes da fua Ermida,das 
quaes vieraõ muytos quadros para a Igreja doHofpitai a- 
onde os vimos ,& depois por alguns refpeitos fe recolhe- 
rão. Perfcverou*a Santa Imagem na Ermida, que lhe edifi- 
cou ElReyD. Manoel, muytosannos,& depois que fe re- 
edificou a Igreja do Hoí pitai da ruinadaquelle fatal incên- 
dio, que areduzio a cinzas cm tempo delRey D. Phclippc 
II. por fe evitarem alguas deíòrdens , que às vezes íiicce- 
dem, & que fe intentaõ com a capa da devoção em humas 
paífagens tam apertadas, & efeuras, como as que faziaõ ca- 
minho para a Ermida da horta; fe mandou collocar a Santa 
Imagem na Igreja do Hofpital, aonde a vemos hoje à parte 
da Epiíiola junto ao Sacrário, fobre hua rica peanha doura- 
da, & quando a collocáraõnefla mudança, foy fomente fo- 
bre a banqueta do AÍtar mayor, (aonde a vi ha mais de qua- 
renta annos) depois fc lhe fez lugar junto ao Sacrário co- 
mo £ ca referido , adornada de cortinas para mayor vene- 
ração. Da outra parte lhefazcorrefpondencia outra Ima- 
gem também milagrofa com o titulo de noíTa Senhora do 
Repoufo, a qual fe mandou fazer à imitação da Imagem de 

Íedraque cítá collocada em o pórtico da mefma Igreja do 
lofpital. Efta Imagem he de madeira eltofada , & da pro- 
porção natural; eftá fentada com o Menino Jefus deitado 
nofeu regaço ,& com a cabeça para a parte direita da Se- 
nhora ás aveças do que fempre feeoftuma obrar, aflim na 
pintura,como naeicuítura. He de grande fermofura,&eítà 
fobre outra corre fponden te peanha, & com femelhante or- 
nato de cot tinas; & aííim a Senhora, como o bello Menino 
tem coroas muyto ricas , fie de grande feitio. 

A Imagem da Senhora da Graça he de pedra , & da m- 
fcural proporção de hua mulher j etfáaífentada com o Me- 
nino 



Livro I. Titulo XI. 103 

nino nos braços, & toda inclinada ao Menino, que COH) mo- 
firas degrande anciã lhe efiá tomando o peito efquerdo; o 
que a Senhora ajuda com a fua mão direita, para que ellc fe 
aproveite daquelíe ioberano licor. Também tem affim a 
Senhora, como o Menino ricas , & grandes coroas de prata 
(na forma das outras.) O principal dia em que he feíkjada, 
fe na Dominica in Albis ; & ha muy tos annos que corre 
(atè o prefente)adefpeza por conta da ferva de Deos Luiza 
Rodrigues, que com gra»de fervor fe emprega em a fervia 
Ocoucurfojá hoje não he tam grande como foy antiga- 
mente : porque entaó era innumeravel o numero dos fieis, 
<jue à Pikina deíia Senhora hião bufear a faude, & os remé- 
dios de todos os feas males , trabalhos , & af fliçoens. 



TITULO XL. 

Da Imagem de nojfa Senhora dofopulo do Convento das 

Inglesas. 

Diz Sam Bernardo, interpretando aquellas palavras 
dos Cantares Jejua multa , que fe entendem por ellas Cm.%1 
os Povos, & as Naçcês remidos com o Sangue do Divino Bern 
Cordeiro Chriílojefus: fPopulimulti: &queeíTa redemp y~ r 2 " 
çaõ, Non Mojfitfed Àgnifanguinefaftaejt, liberando; nos faêft* 
prefiguram a yana noJira coriVerfatione hujusfxculi ,fan- Pafch % 
gume Agm immaculati. E Agoflinho. meu Pacire fobre as Joa*. 
palavras de S. Joaõ, ExiVit fanguis, & a<jua 7 diz q , In cor- l *• , 
de erant Hat tones. E Berchorio acerefeenta : Rof<e fwitfi- A "& rr 
deles. Donde podemos inferir q no mar immenío daCfta- ^*° 
ridade de Maria Santiffima eflaõ fymbolizados , & também r ^^ é 
unidos pela protecção, &anYparo todos os povos, & to- mor jJ 
das asnaçoens,&queparaeíIafaõ os feus de votos filhos, í2m cJ 
& rofas 1 & aílim com muyta razão a devem invocar cem © 1 $ $» 

íitulo 



202j. Santuário Mariano 

titulo do Populo; pois à imitação de feu Filho, que em feu 
doce coração tinha as cândidas rofas de fcus filhos , & fieis; 
ella como amorofa Mãy , & coadjutora de noffa Redempção 
tem no feu coração, como aguas,a todos os feus filhos, qiie 
para ella faõ como rofas , Ro\<z funtfileles. 

No Convento de Santa Brifida deReligiofas Inglezas, 
fundado no Bayrro da Efperança, ou junto ao Mocambo, fc 
venera hua Imagem de no'fa Senhora do Populo , copia da 
que fez o Euangelifla Sam Lucas, & fe venera em Roma. O 
meyo por onde veyo a ella Gafa eí ta Santa Imagem , he na 
maneira fcguinte. O Sacerdote Joaõ Cerveiro de Vera , 
Acolyto que foy do Papa Clemente VIII. era homem vir- 
tuofo,& devoto : defejou muyto vifitar os lugares Santos 
dejerufaiem,para ifío alcançou licença do Pontífice. Ti- 
nha efte fervo de Dcos grande devoção com a Senhora da 
Populo, & para que ella o defendeífe nella fua peregrina- 
ção de to'bsos perigos, mandou pintar de excellente mão 
hum quadro com a copia daquella Santa Imagem, a qual lhe 
vdeo muyto; porque o livrou de muy tos, & mortaes peri- 
gos, em que fe vio no difeurfo de fua peregrinação, que foy 
muy larga. Depois de viíitar todos aquelles (agrados lu- 
gares com a devoção, & reverencia devida aosíoberanos 
myíkrios,quealli fe reprefentão , veyo a Hefpanha vene- 
rar osmilagroíòs Santuários, affim o Angelical do Pilar de 
C,sragoça , como o de Atocha em Madrid , & o de Guada- 
lupe, trazendo fempre em fua companhia o quadro da Se- 
nhora do Populo. 

Eftando pois cfle fervo de Deos cm Valhadolid , com 
fervorofos dèfejos de voltar a Jerufalem , para rematar 
íeus dias naquella Santa Cidide ; perplexo no lugar em que 
depofitaria a Sagrada Imagem da Senhora ,pedio a S. Gre- 
gório Magno (a quem tinha confluuido feu Patrono) lhe ai- 
cançaífe do Aitiílimo, qual era a fua divina vontade. Neite 
tempo ouvio hua voz que lhe dizia ; Em Santa 'Bri^hh de 



T 



Livro I. Titulo XL. 205 

Lisboa. Reprefentandofelhe entaõna fantczia o Padre Cô- 
fejTor daquella Cafa, (que era Fr. joíèph do Salvador) com 
eiteceleílial avifo partio logo alegre, & contente para Por- 
tugal, & chegado a Lisboa, começou acorrer os Conven- 
tos que nella ha , inquieto o feu cfpif ito de naõ encontrar o 
que bufeava. Entrando em dia de Pafchoa na Igreja de San- 
ta Bnzida, viooConfcflòr, & conhecendo que aquelle era 
oque tinha viítointeriormcnte,commuytas lagrimas (ten- 
didas primeiroas graças ao Omnipotéte Senhor , por haver 
achado o lugar defignado peloCeo) fe lançou a feus pês, 
narrando miudamente o milagrofo fueceflb ,& como vinha 
a entregar naquellaCafa aquella Soberana Imagem da Vir- 
gem Maria. 

Deu parte o Confeííòr à Madre Abbadeça,que vindo 
comas mais Rcligiofas, ouvirão todas o que fica referido, 
& aflim entregou logo o fervo de Deos a Santa Imagem, 
dandolhe reverentes,&faudoibsofculos,dac]ual com fo- 
Iuços,& lagrimas fenaõ podia apartar. Collocáraõ eíkS. 
Imagem no altarcollateral da parte direita , que he a do Eu- 
ang£lho > & a primeira Capella do corpo da Igreja,eom gran- 
de confolacaõ de todos ,& lagrimas do Paire Vera , aonde 
celebrou duas vezes. Neífe tempo aiTalteado dehú agudo 
pleuriz , aoquinto dia % gozar da coroa da gloria na ceíe- 
luai Jeruíaicm. Sepultarão o feu corpo à vifla da mcfma 
ianta Imagem. Dahi a alguns annos abrindofe a fua fepul- 
*ura, ocachandofe o íèu corpo envolto nos Sacerdotaes 
paramentos, foy tal o fervor ,& a devoção das Religiofas, 
que muy tas delias feaquinhoàramdefcusoífos,como de 
prçaolas relíquias > rcfrdcandole nefte tempo fua venerá- 
vel memoria. 

Succedendo em aquelle Convento de Santa Brizida a- 
queuelaliimofo incêndio, que o abrazou,,&cònfumio todo- ' 
emo. de Agofíode 1 651. ft íaivou oretaboío da Senhora * 
tanque aqueíías vorazes charoaslhefizeiremamenor 1'efaõ.. 

Deila. 



i 06 Santuário Mariano 

Dcfta Santa Imagem efcreve Cardofo nofeuAgioIogioLu* 

íitanotom. 2. pag. 649. 

- — •' •• "" — " ■ ' ■■ ■ * 

T I T U LO XLL 

' Da Imagem de nojfa Senhora da Ajuda fregue fia de 

Selem. 



D 



Iz Santo Ambroíio que o eílar Maria Santiffima aò 
v _ _ pè da Cruz, naõfoy tanto por confolar ao Filho em 
os tormentos de tam cruel morte , como lhe via padecer j 
mas para implorar com elle do Eterno Pay a faude 7 & a Rc- 
dempçaõdo género humano : <Pijs oculisfpeftabat, non Filij 
mortem yfedmundt falutenu Aqui te ve verdadeiramente a 
Senhora o titulo da Ajuda y fobre que Santo Ambrofio con- 
templou (> que aquella Real antecamera do Soberano Rcy da 
gloria ornada de todas as graças , & dons do divino Efpiti* 
to , affiilindo ao pè da Cruz, vendo neíla ao dolorofo Filho 
offerecendo a vida pelos homens, julgou de fi o podia tam- 
bém ajudar em aquella commum neceffiJade dos peccado- 
res : Aula regalis putabat fe ,Z? fua morte publico mimeri 
aiiquià adjuturam. O Cartuílano a intitula não fó Senh ora 
da Ajuda; mas lhe dà o titulo de Salvadora; porque foy tan- 
to o que os homens lhe cuftáraõ , que parece , nos mereceo 
verdadeiramente efíe titulo*. Amantijima "Dei Vngo dki 
potefi mundt falvatrix , propter eminentiam , yirtuofita* 
tem \ & meritum fu<e compajionis', qua patienti Filio ,ac 
acerbijjimè condolendo excellenter promeruit , ut per ipfam, 
boc efi per preces ejus, ac menta, Vir tus ac meritum pajfio- 
riis ChriflicommitnicetuY hominibus. 

Junto ao lugar de Eelem , (que antigamente fe chamava 
Reliello) ennobrecido com aquelle Real, & magnifico Tem- 
plo,queneíle fundou à ordem de S, Hieronymo o Sereniifi- 

mo 



Ltvro I. Titulo XL1. &>» 

mo Rcy D. Manoel , fc fundou 'antigamente hua Frmida de- 
d caoa a Rainha dos Anjos , debaixo do titulo denoflà Se- 
nhora da Ajuda que hoje hea fregueíia domefmolugarde 
bciem. A occaíiaõ foy o apparecer nomeimo íitio.fem 
m hoje íe ve a lua Capella) hua milagrofa Imagem fua. O 
tempo, òc a forma em que foy, naõ he poffivel o averiguar- 
ie, podia fer no Reynado delRey D.Manoel, & ainda pode- 
rá ler mais antigo o feuapparecimento. Começou a obrar 
por cita banta Imagem o poder Divino infinitos milagres, 
f P° rtei ^fts maravilhas. Por eíia caafa era naquelles 
tempos efla Cafa celebre Santuário de Lisboa , & de todos 
os leu, contornos; porque ainda naóeflavaõ fundados ou- 
tros muy tos, que depois fe erigirão por caufa de outros fe- 
mcihantcs appawcimentos/que naõ ceíTa Maria Santiffima 
em buicar, em cuidar, & defender aos feus filhos; como fo- 
ÍSm c t alas e dG P° rt0 Salvo, Boa Viagé > Bom SucceíTo, Li- 
vramento, & Nece/fidades ; todas para aquella parte do 
^ccioente. trao mnumeraveis os fieis que acodiam aVene- 
S uel ' a ' aata imagem, & a flim muytos os votos, & as 
elmolas & muytos dos feus devotos da Senhora obrigados 
de íeus lavores, lhe doaraó os feus bens, terras,& moradas 
decaias, cecujo rendimento fe íuftenta ainda hoje oCa- 
?ni? TcV Ml ? » os domingos, & dias Santos per 
tenção da fua Irmandade. Naõ faltavaõ também os Reys, 
as ; linhas & as Princeíàs em vifitar a cila Soberana Se- 
nhora, & Rainha do Ceo : porque todos tinhaõ grande con- 
íolacao uc a ver, & de irem à fua Cafa. 

UkeverenduTimo Padre Fr. Miguel Manoel, Vigário 
Caíade^H ° y / a0rdem ^SamHkronymo,& Prior da 

LjoKíS'^ °a RdÍgÍ0f0S vdhos da ™<™ ^ > 
de R \tí \S ,r nfta * *f re ««ndofe para o Convento 
D l £ o ^ mm ^ R3i '*a D. Catheriía, viuva delRey 
D.Jo.poiíp comtodaafuacaía^familia^iuytas vezes 

fahia 



io 8 Santuário Mariano 

fahia doMofteiro pela porta do cerco, & principalmente 
emosSabbados;ellacmhuamula de Silhaõ , que levava de 
rédea hum feu Eftribeiro: & as fuás Damas , ôc Donas a pè; 
& que o fazia com a devoção , & piedade, que fe devia crer 
da virtude de hua tal Rainha , & que com muyta humildade, 
& reverencia vifitava a Rainha dos Anjos. E que adoecen- 
do a Rainha, &aggravandofelhe a queixa, fiada mais nos 
poderes daquella foberana Senhora, do que nos remédios 
da medicina que felheapplicavaõ, (porque a naõ podia ir 
ver a fua cafa) a fizera trazer delia à fua prefença , fiando as 
fuás melhoras na fua vifta. E que com efle motivo a trou- 
xeraõ à fua Camera , & puzeraõ na fuá Capella , & que nelía 
eítívera alguns tempos : mas porque a fua cala naõ eíHvefle 
fem copia fua , lhe mandara logo fazer outra Imagem que fe 
collocou no feu lugar, & Ermida. E a Senhora milagrofa 
mandou pôr depois emhu Altar daquelie fumptuofo Tem- 
plo, aonde a mefma Rainha a fua viíítar muytas vezes, quã- 
do hià ver as obras de fua Capella mayor, que ella edificou. 

Em quanto efía Sereniffima Princefa viveo,naõ ouve 
quem procuraffe, fe reílituiífe a Senhora da Ajuda à fua 
Cafa, nem quem featreveíTe afazello: mas por fua morte, 
diz o mefmo Re verendiffimo Fr. Miguel, ouvera hua gran- 
de demanda , que fe venceo a favor do Moíteiro; ou íe mò 
concluío de todo por algíis refpeitos, & aífim ficou a Santa 
Imagem naquella cafa. Depois fazendofe dous Santuários 
no cruzeiro do mefmo Templo de Belém ; em hum que he o 
de Santa Paula Romana , & fica à parte da Epiftola , em que 
cítàhum nicho, ou cha rola por remate do mefmo Santuá- 
rio, fe collocou a milagrofa Imagê daSenhoradaAjuda,& 
nellc eítá com grande veneração fechada com vidraças. 

He efta Santa Imagem de madeira ; etfá fentada cm hua 
cadeirinha com o Menino Jefus nos braços, & dous Anjos 
de hum , & outro lado. O roflo he alegre, & devoto , & in- 
cita a mais c] ordinária reverencia,particularmente aqueUas 

almas, 



Livro I. Título XLL 209 

almas, que com mais particular devoção a bufcaõ, & ímpio 
raõ ofcu favor. Tudo o referido hc do mefmo Revcren- 
diflimo i Geral: & diz elle, que replicando alguas vezesafua 
mãy(que lhe havia referido também eftas coufas fem acre- 
centar palavra) que aquillo pareciaô contos de velhas , pe- 
las naõ ter lido , nem ouvido a outras peffoas, (ifloera an- 
tes deferReligiofo)lherefpondèraque aquillo lhe conta- 
va feu avo, que depois de viuvo íê ordenara de Sacerdote , 
& fora cura da mefma Igreja, aonde ejftava fepultado; & que 
© mefmo ouvira fempre a peffoas muyto antigas da mefma 
freguefia. Etudoifto depõem debaixo de juramento paffar 
m verdade, íirmando-o de feu nome cm 15, de Abril de 
1698- 



TITULO XLII. 

Da Imagem de néffk SenhôYa da Salvação do Convento 
de Santa Catbarim de Riba-mar. 

COm muyta razão invoesõ os homens a Maria Santif- [j e 
íima por fua Salvadora, & com o titulo de Senhora da £^ # 
Salvação : affim a nojnea o Carthuíiano : Jmantijfima Dei may. 
Firgodicipoteft mktichfdVatrix; porque* com os feusro- c. 2$. 
gos i & interceíTaõ nos grangeou a faude eterna. Quafi to- Theofi. ' 
dos os Padres a invocaõ com efie titulo; &aflimTheofleri- orat.in 
íloa acclama, Salw omntum bominum; & Santo Ephrem ^• JVÍ * 
lhe chama, Salus firma omntum ChriBiancrwn ad eam rc~ c ^' 
cttrrentium. E Joaõ Geometra a intitula Salvação do mun y- r ' . 
dovifivel, Salus mundivifibilis. Eporefta mefma razaõ o g f ^ 
Carnotcfe fobreaquellas palavras, Multer, eccefilm tuus, j ^ t 
diz, que a Senhora cooperara muyto na íàlvaçaõ, fcvc-Geom. 
dempçaõdo mundo, (íegundo o feu modo; porque animara hym. ?*, 
muyto ao Salvador o leu piedofo aífeçílo a favor dos pteca de B. K 
Tom. I. O dores, 



2 ia Santuário Mariano 

dores, â quem o Senhor amava tanto, que por elles facrifi- 

J*™&tfcavaavida. Saõ as palavras do Padre itooperabatur tamm 

Cdrnot.pltiYimnniyfecundúmmodum fuum r ãd propitiandum Deum 

traEi.de tile matrh affeítus. EafTim devemos com muyta devoção 

f. Verb. implorar o favor da Senhora da Salvação , pois fempre a te- 

taos propicia com o feu affe&o para interceder por aòs. 

No Convento de Santa Catharina de Ribamar , he tida 
em grande veneração hua devota Imagem da May de E)eos, 
invocada com o titulo de Senhora da Salvação; cuja origem 
mais por tradições , do que por eferitos, he rfefía forma. A 
Sereniflima Princeza D.Ifabel^filha do Duque de Bragança 
D. Jayme, que foy caiada com o Infante Dom Duarte , filho 
delRey D* Manoel , pela* grande devoção que tinha à Pro- 
víncia da Arrábida , lhe fundou hum Convento á fua eufla 
noanno de 15^1. que he o de S. Catharina de Riba- mar, 
diítante quaíi duas legoasde Lisboa para a parte doOcci- 
dente, fobre a rocha do mar; para o qual pedio o Infante D. 
Luis ao Prior , & Beneficiados da Igreja de Santa Cruz do 
Caflello hua Ermida, que elles alli tinhaõ annexa fua, obri- 
, gandofe a lhe dar cada hum anno dous mil maravedis em 
hua renda fua , &com licença do Arcebifpo de Lisboa, o 
Prior , & Beneficiados deram a Ermida ,& fizeram as eferi- 
turas,para oque também ElRey deu o feu confentimento: 
& quanio fe fezfcfla doaçaò, foy com a claufula, que fe em 
algu tempo os Religiofcs, para cuja habitação íè intentava 
fazer o ConvCto, o defemparaffem, naSfe poderia dar a Er- 
mida, & fitio aoutrosReligiofos,nem applicar aoutros 
ufos,fenaõ que tornaria à referida Igreja de Santa Cruz, 
' com a poífe que de antes tinhaõ. Tudo confla de papeis que 
fe achaõ na Torre do Tombo. 

Povoado o Convento, começam 6 a refplandecer nelle 
as virtudes de feus fantos habitadores. Entre elles ouve 
hum grande fervo de Deos, chamado Fr. António das Cha- 
gas, homem de grande íinceridade - 7 era efle fervo de Deos 

devo- 



Livro I. Titulo XLIL iit 

devotíífimo da Rainha dos Anjos, & delia recebia grandes 
•favores. Pela grande fama q havia da fua virtude lhe tinha 
grande aífeiçaó,& devoção a Sereniífima Rainha D.Catha- 
rina,viuvadelRcyD.Joa5oIIÍ. & aflim goíhva muyto de 
lhe fallar, & converfar com ella , & também de lhe fazer al- 
guns favores. Sabendo etta Senhora a grande devoção que 
eftc fervo de Deos tinha com aRainha dos Anjos , lhe deu 
feua Imagem fua muyto devota , que fe tem por obra do Eu- 
angelifta S.Lucas. He pintada em hua lamina, que terá per- 
to de dous palmos de alto , & palmo & meyo de largo. He 
menos do meyo corpo , & na proporção do natural. Com 
eíla Santa Imagem, a que tinha muy to particular devoção, o 
ouvirão os Religiofos daquella Cafa fallar alguas rezes , 
eftando clíe fechado, & recolhido na fua cella;& refpondcr 
a Senhora; porque fe affirma fe ouvirai#ambem as fuás fo- 
beranas palavras , refpondendo ao feu devoto fervo, & re- 
galando o como amorof i Mãy que he dos que com amora 
frrvcm. 

Quando efte fervo de Deos morreo , que foy no anno 
de .com alguns cem annos de idade, pondo o feu cor- 
po na Igreji ,puzeraõ também, naõ fem particular provi- 
dencia do Ced, a lamina da Senhora ao pè da Cruz, q fe lhe 
poz no altar, à cabeceira do tumulo» Concorrerão às fuás 
exéquias, Scofficio da fepultura muytas Senhoras da Corte 
fuás devotas, porque todas o veneravaõ muyto ,&obuf- 
cavao em feus trabalhos: & o fervo de Deos lhes valia com 
aefficacia de fúas orações, como fe vio na perda delRcy D. 
Sebaftiaõ, que a muytas declarou ferem feus maridos vivos; 
a húas, que brevemente lhes entrariam pelas portas de fuás 
cafas ; & a outras dizendolhes ocftado em que feachavaõ» 
E tudo fever.ficou como elle o dizia. 

Na occafiam pois em que o fervode Deos morreo, veyo 
aDuqueza de Aveiro affiflir às fuás exéquias, & vendo a 
lamina ao pè da Cruz , ficou muy contente , parecendo! he 

O 2 que 



iiz Santuário Mariano 

que a podia furtar: (jà fabia que aquella Imagem da Senhora 
era a com que o venerável Padre Fr. António tinha os feu^ 
colloquios, & que por ella lhe fallíra a Senhora muytas vtr 
zes,*)& quando foy ao levarem o corpo à fepultura, fe 
chegou com diffimulaçaõ aonde a lamina eílava , tomou- a, 
& deu-a a hu efeudeiro , encarregandolhe que logo a levaífe 
afua cafa; & dizem alguns Religiofos, que com eíFeito o 
fizera, & que tanto que a poz em cafa da Duqueza, fe achara 
outra vez a lamina no Convento. Outros dizem, que pon- 
dofe o efeudeiro a cavallo,com defe jos de ir voando como a 
Duqueza lhe recomendava ; que naõ foy poflivel, por mais 
diligencias que poz, querer o bruto dar hum paílò; pica- 
va-o, & elle levantandofe no ar refiflia a nao fe querer mo- 
ver. Intentou tomar para a banda de Cafcaes ; mas nem af- 
fímfoy poífivel obrigallo a fe mover daquelle lugar : pro- 
vou voltar para o Convento , & logo foy voando. A vifla 
deite fucceífo , reconhecendo naõ era a Senhora fervida 
de que a levaííèm daquelta Cafa , nem da companhia dos 
Religiofosfeus devotos Capellaes, apeoufe, & entrou pela 
Igreja dentro publicando o milagre, & referindo à Duque- 
za, o que lhe havia fuecedido. 

Ainda aífim fenaõ deu a Duqueza por-fofíegada nos 
feus piedofos defe jos de poder lograr a companhia daquella 
Santa Imagem. Para iíto procurou hum pintor deliro que 
lhe copiaffe a Sãta Imagem em tal forma , que fe naõ conhe- 
ceífe o furto , ou a troca que intentava. Para iflo foy dif- 
pondo , & obrigando ao GJuardkô do Convento,mandan- 
doihe continuas, & grandes efmolas ,& prefentes;atèque 
fe declarou com elle , pedindolhe lhe defle aquella lamina. 
Difculpavafe o Guardião dizendo , quç como o podia elle 
fazer àvifla da grande devoção, que a Província tinha à- 
quella Santa Imagem ( nefle tempo a tinha© jà fechada em 
hum Sacrário,) com tanta veneração, que anaõrrioftravaõ 
fenaõ com iuzcs> & com a alfifíencia de çiuy tos Religiofos; 

& 



Livro I. Titulo XLTL 21$ 

& como a Duqueza lhe facilitou que a havia de copiar hum 
infigne pintor em tal forma } .que fenaõ havia de conhecer 
qual delias era a original. A vifta deftes apertos condefeen- 
deo o Guardião em tudo o que a Duqueza pedia : Sc o pintor 
a fez com tal perfeição, que poftas as Imagens juntas fe não 
diftinguia facilmente hua da outra* 

ComefFeito levou a Duqueza a Imagem original da Se- 
nhora, femque osReligiofos conhecefTem o furto; exce- 
pto o Guardião , que era o que intervinha em tudo o que fc 
obrava. Tanto que a Senhora ficou em cafa da Duqueza, fe 
vio com experiência fe não agradava daquella mudaiaça; 
porque fe não viaõ naquella cafa as benções da deObede- 
don : porque fe começarão a experimentar caítígos : porque 
adoecendo o filho morgado à morte, & depois o fegundo, & 
logo hua filha, ainda affim a Duqueza não entendeo donde 
lhe vinha aquelle damno; & que a Senhora fe não pagava dç 
toda c ih fua devoção. Nefte tempo adoeceo gravemente o 
Duque; então abrio os olhos, & veyo a entender, q todos 
efles males eraõ cafHgo da fua temeridade. 

Refiituio logo a Imagem da Senhora ao Convento , & 
feita a rehiriiição, logo começarão a melhorar os enfer- 
mos, & em breves dias £cáraõdeto o faõs. A vifta delle 
íiicceífo tratarão osReligiofos dallipordisntedeter com 
mayor refguardo a Santa Imagem, para que lhenãofucce- 
deile íemtlhante furto; & affim a fecharão no mefmo Sacrá- 
rio. Reedificando o Eminentiflimo Cardeal & Arcebifpo 
de Lisboa D. Luis de Sou! a aquella Igreja, q he hoje do Pa- 
droado des Marquezes de Arronches , mandou collocar a 
Senhora em hua dasCapellas do cruzeiro ,&eftá em hum 
cemo tabernáculo nomeyo do retabolo cercado de faíloCs 
def:oresvaí!das,couíá muyto precioía , ornando a lamina 
com hua vidraça,&cortinas dobradas de precioías teias; 
& aflim eííá fempre cuberta , & com roda aquella venera- 
ção , ôc reverencia que lhe he devida. Tudo o referido 
Tom. I. O 3 he 



2i4 Santuário Mariano \ 

he por relaçam dos Religiofos velhos daquella Cafa,& Pro- 
vinda. 



TITULO XLIII. 

Da Imagem de nojfa Senhora da Graça, que Veyo de 
Tangere. 

NO mefmo Convento de S. Catherina he tida tam- 
bém em grande veneração outra de votiílima Imagem 
da Rainha dos Anjos, invocada com o titulo denoíTa Se- 
iihora da Graça; & outros querem que o feu titulo, quando 
eftava em Tangere, folie o da Conceição. Eftá coilocada 
em outra Capella do mefmo cruzeiro, & he a collateral da 
parte do Euangelho, &fíca fronteira à da Senhora da Sal- 
vação. Efía milagrofa Imagem era o amparo , o refugio, & 
.o,afylo daquella triík Cidade, quando era dosChriflãos; 
porque recorrendo em todos os feus trabalhos , em to- 
dos os cercos , & affliçocns àquella íiia- amorofa Mãy, 
achavSo na fua piedade promptiííimo o remédio. Contafc 
que emhua occafiaõ fe vio aquella praça, & Cidade de Tan- 
gere repentinamente cercada de hum innumeravel exerci- 
to de Mouros, & que a puzeraõ em tam grande aperto , que 
chegarão a lhe encoíiar efcadas,&fubir porellas aos mu- 
ros- RefiíHaõ os Chriílãos, & defendia o a praça com gran- 
de valor ,& esforço matando muytos Mouros ; mas como 
eileserãoinnumeraveis, julgarão por impoífivel deixar de 
fer cativos, & a praça de fet entrada. Neflesapertos recor- 
rerão à fua valeroía defenfora com fuípiros , & lagrimas 
para que lhes valeíTe : & a Senhora o fez de forte , que afro- 
xando o. 'furor dos bárbaros, & prevalecendo os Chriíiãos, 
fe virão ir caindo precipitadamente os Mouros, que jà ef- 
tavão em os muros, dos quaes ficarão muytos cativos. E 

tam 



Livre I. Titulo XLIIL ii f 

tam defpavoridos ficáraõ , que logo levantarão o cerco, &r 
defpejáráo a terra > & fe forão.. Referirão então os Mouros 
que ficáraõ prifíoneiros no confliclo \ q no mayor furor da 
peleja fe vira guerrear contra elles hua mulher muy to fer- 
mofa vePida de branco, & com hum manto azul. Alguns 
deites entrarão na Sè, & vendo a Senhora apontavão com o 
dedo, & dizião que aquella era a mulher que os perfeguira, 
& vencera. 

Em outra occafiao fe refere por tradição, h avendo hua 
grande feca , & f azendofe aeíTe refpeitohumaprociíTaõde 
preces, levando a Senhora oito homens em hum andor, ao 
fubir de hua ladeirinha, (por inadvertência dos que a leva- 
vão , & porque era mlyto pezada , que he de pedra, & muy- 
to grande) voltara a Santa Imagem para tra>, porque a não 
levavão preza : pode fó hum homem fuftentala nos braços, 
& levantalla em pezò, & pola direita nomeímo andor , co- 
mo fe foíe de hua madeira^muyto leve. 

Noanno ié 1470. & depois de tomar Arzilla ElRey 
D. Affonfo V. fe lhe entregou Tangere,que mandou po- 
voar logo de Chriffóos , erigindo emCathedral amefquita 
mayor. E foy fagrada aquella Igreja em 28. de Agofío, dia 
de Santo Agoi .inho,tendofc a grande myfíeno ofagraía 
também hum Religbfo filho feu,& nomeado cm Bifpo da- 
quella me ima Cidade onde feu Santo Patriarcha o havia 
íido : era eí íe o Prior dos Cónegos Regulares de S. Vicente 
de fora. /cornou a liberalidade daquelle generoíò Prm- j? arí 
çipe aquella Igreja de Imagens perfeitiffimas,& deprecio- evit'».^ 
fos ornamentos., &vafos façrados* Entrc.asm3islmagesr.23' 
qufà mandou aquella Cidade y hua delias foy a da Senhora da 
Graça, ou da Conceição, titulo dom que làera venerada } & 
como efla Santa Imagem tememíéus braços ao Menino 
Jefus, íc\n duvida por eftacaufa lhe mu.braõ aú Rdigioiòs 
daquelle Convento o titulo em o que hoje tem /porque he 
Maria Santiflima a Graça das graças, & a May de todas as 

O 4 graças 



z 1 6 Santuário Mar iam 

graças,como difíè Joaõ Geomctra: Gratia gratiarumj Ma- 
Joati. ter gratiarum. 

Geom. Collocáraõ a S. Imagem na Igreja Cathedral , & nelfe 
in hym. era ^ a em g rân d e veneração, & alli a hiaõ bufear todos os 
i* Jf, moradores daquella Cidade , & fempre experimentavam 
muytos favores da lua piedade. Em2j. de Outubro do an- 
no d e 1 68 5 . em hum Sabbado fe entregou aquella trifte Ci- 
dade ( que tanto fangue euftou aos Portuguezes) outra vez 
à eferavidão dos Mouros; no qual dia fe viraõ prodígios em 
demonflração de que parece que ate o Ceo fentio aquella 
entrega, NeíTa mefma noy te fe embarcarão os Cónegos, & 
ornais povoChriflão, trazendo comfigo todas as Santas 
Imagens, qlà eraõ veneradas, &feconferváraõ com o de- 
vido culto , & reverencia , em quanto 'a mefma Cidade foy 
dos Inglezes. Vieraõ a Lisboa, & de ordem de S.M ageíladc 
fe repartirão pelos Templos, & igrejas dos Conventos- E 
affimefta, que he de excellente efeultura , mandou collocar 
oEminentiffimo Cardeal Arcebifpo de Lisboa D.Luis de 
Soufa na fua Igreja de Santo Catherina , & pintar riquiífi- 
mamente. A túnica he branca, toda femeada de flores de 
ouro , & o manto azul com as mefmas flores , & ramos de 
ouro; mas tudo obrado ricamente*Eíla he a devota Imagem 
da Senhora da Graça, aquém ainda hoje os feus faudofos 
Tangerinos invocaõ em feus trabalhos , & neceflidades. 



TITULO XLIV. 

Da Imagem denofaSenhorado Tilar , que fe yeyeraew 
o C&nVento de S.Fkente de Fora* 

gÍ7w. TT e Mar * a Santiffima hua fermofa columna , & hu ref- 
épttd ' jLX plandecente Pilar, que encaminha aos homens â cter- 
Mim on* na vida j affim odizem os Gregos no feu Hymno: Columna 

fiammea 



Livro I. Titulo XLIV. 117 

ftammea deducem ad [upnnam Yttam. André Cretcnfe lhe 
chsmou Pilar vivo , & columna vivifica ; naõ domo aquella 
que com a luz material guiava aos filhos de Ifrael; porque 
cfta defaparecia :masefpiritual,que guiaoshomes àquella 
luz permanente do conhecimento de Deos^itluílrando-os 
com luzes divinas: Columna Vivifica , non camalem per 1u- JÊ*ti 
cem deducens Ifraelem^ui fugatur ifedfphritalem > qui de- (rct , 
duettur ad inerrantem lucem cogrittionis, diYtnis illumwans ¥*%$ 
factbus. E q digohua columna í He Maria fete coíumnas> / ^ 
ou aquelles fete fertiffimos pilares , (como diz Bernardo) y ' 
fobre que a divina Sabedoria edificou a lua Cafa : H<tcfa- &< *n£ 
ptentia?ciu* qy e i erat,& "Deus erat de fim ^dtrtSyãd nos \e- »* rd * 
ntenstdificaYitfibidomum ipfamJcílketntatremfuamPir-*'. Vf : 
gmem Mariamúnquafeptemcolumnasexcidit: vu JS 

O magnifico Templo de S. Vicente de Fora, fendo idea ™ * 
verdadeiramente delRey D. Sebajftiam,foy edificado por 
Phelippe II de Hefpanha tam generofo nas fuás obras, que 
lo onoífo D, Sebafliao de faudofa memoria o igualou j pois 
naõ na.TernpIo, ou- Convento-,, aonde fe não achem monu- 
mentos de fua grandeza, & de fua piedade. Quafi todos os 
■ Convctos doOriente,& mais partes ultramarinas elle edi- 
ficou, & augmentou. Por devoção deíle generofoRey , fe 
havia dado principio a hu magnifico Templo, junto ao ter- 
reiro do Paço , q dedicava ao Invitf o Martyr S. SebatfiaÕ, 
para feaverdecollocar nelle hua relíquia fua,q o mefmo 
Rey tinha depofitado em o Convento de S. Vicente. En- 
trando Phelippe II. em Portugal, quando a obra eflava 
com poucos princípios, julgouque era melhor fe fizefie efía 
obra no C onvento de Sam Vicente , & que foíTe dedicada a 
ambos os Santos Martyres , Vicen te, & Sebaftiam, como 
Patroens efpeciaes de Lisboa- porque fendo a Igreja, & 
Convento de S.Vicente a primeira que ElRey D.Affonfo 
Henriques havia fundado em Lisboa , queria elle , que efla 
iOiTc também a primeira,, que em feu H©me feerigiífe,ou 

reedi- 



t 1 8 Santuário Mariana 

reedificai; para o que coníignou logo baftante renda, & fc 

acabou de todo noannode 1629. 

He eíle Templo hua d is maravilhas de Lisboa, & que 
muy to a ennobrece pelo mageftofo de fua fabrica, & archi- 
tecíiura; fundação Real, & fepuíchro delRey D. JoaõoIV. 
defaudofa recordação, & da Serenifllma Rainha D.Maria 
Sofia , & do Príncipe D. Joaõfeu primogénito; aonde fe 
celebraõ os divinos cfficios com magefíade^ <k grandeza. E 
fendo eítecafaafegunda daReligiam 3 merecia o titulo de 
primeira. Nefíe Templo pois he venerada, em hua rica, & 
mageflofamente adornada Capella , com grande devoção 
de todo o povo, a Santa , & milagrofa Imagem.de noffa Se- 
nhora do Pilar y que à imitação da de C,aragoça , que por 
mão dos Arí5os foy fabricada , mandou fazer hum fidalgo 
Hefpanhol>cujahiftoria he na maneira feguinte. 

Notempoemque o Rerno de Portugal fe achava uni- 
do àcôroa de Hefpanha, poucos annos antes de fua felice 
rcíiauraçaõj fc achava na Cidade de Qaragoça do Rtyno de 
Aragão o Capitão D. BalthcfarGraneiro, provido, nova- 
mente no cargo de Tenente do General da artelharia do 
mefmo Reyno de Portugal. Era efle capitão devotiffimo da 
milagrofa Imagem da Senhora do Pilar > que venera naõ fó 
Efpanha, mas o mundo todo, 8c mais efpecialmente a Cid.i- 
de de C^iragoça, por fer ella aquemereceo fer depofitaria 
da primeira Imagem da Virgem Maria , que os Anjos fabri- 
caram vivendo a fua Soberana Rainha. Havendo pois eíle 
fidalgode fazer jornada para Portugal, affentou comfigode 
a naõ executar, fem levar nafua companhia , para guarda, 
£k protecçp.o de fua peílha 7 hua copia muy to verdadeira da- 
oiella divina Imagem > & também para acollocar no mefmo 
Rcyno í comoaffeclo :) &-defejo grande que tinha deexten- 
der por todo o mundo a devoção defla milagrofa Imagem- 

Tratou comosRdigiofos daquella cafa , (que S» C o- 
negos Regulares ,& vivemdebaixo da Regra de meu Padre 

Santo 



Livro I. Titulo XLIV. êtf 

- SantoAgcílmho,deídeo annode 1141. quefoy o em que 
oEiípo deC,aragoça D. fernardo os fundou , porque atè 
aqucile tempo haviaõ fido Clérigos osqueaílíiliãoi Senho- 
ra :& para que foíTe tratado aqiitlle Santuário commayor 
veneração, & culto, quiz que lhe affifliffem Cónegos, como 
os da fua Igreja Cathedral ,que de 12. annos àquclle tempo 
a tinha mudado para a Igreja de Sam Salvador: efie Santo 
<Eii po que os fundou, lhes deu forma de viver, & aífim o re- 
conhecem por Fundador, & Author daquçlleConvéto,& 
I<ehgiam,comqfevê daBulJadelnnocencio IL & tudona gÇJ 
.hiitona defta Santa ín agem , que efereveo o P. Fr. Diogo J.\* do 
Mcnlho,) &Ihes pedio licença para q hú efeultor dos mais p L*[ « 
míígnes pudeíle à imitação daquella Soberana Imagem , fa- P g * ' 
zerlhc cutra em tudo igual , & femelhante naquellas horas 
em qu#a Igreja eftívefíe fechada. Conccdcraõlhe os Cóne- 
gos o defpacho da fua devota petição, & com elle deu o ef- 
eultor principio à fua obra, atè a acabar de todo na prefen- 
çadamefrna Soberana Imagem, que por miniflerio de An- 
jos , & por mandado da Rainha de todos elles, foy collocada 
íbbreaquelfc Pilar, ou columna. Em tudo ficou efía nova 
Imagem conforme ao feu original, & em tudo a elle feme- 
lhante. Tem aos pês circularmente entalhadas huasletrjas 
cm língua Cafklhana ,que dizem aíTim : Fjla lmagen es de 
la mi/ma medida ?& bechura , que la dei Vilar de C,ara S oca, 
hcatUdefu original ,qucettá enlafantaCapilla deladicba 
wuda r. hi^ofe a 6. de Otubre, ano 1 634. 

^ Vendo D. Ealthefar Graneiro perfeitiííimamente aca- 
baao a Santa Imagem, para a poder trazer a Lisboa, alcan- 
çou também hum debuxo da mefma columna ,ou pilar , na 
me.ma forma, & grandeza do deC,aragoça,emque a Se- 
nhora apparecco a Santiago , com hum teíkmunho authen- 
tico lo Doutor Joaõ LTom.ing.ues Ruís, Prior do Convento 
deiv.SeríhoradoPilar deC,aragoça, íífinado por elle, & 
pelo Doutor Domingos Miravae Capellaô mòry & feu 

admi- 



no Santuário Mariano 

adminiflrador : &dcfpachado pelo licenciado André Car-3 
rafeo, Secretario, & publico Notário Apofiolico damefma 
Caía, Sç íelladocom o felío delia, em que affirmão, em como 
aquella Santa Imagem , que o Tenente General Graneiro 
trazia , era o retrato da que deixou naqueíla Igreja de C,a- 
ragoça, a Virgem Maria Senhora noíTa. Edaò licença para 
que na Cidade de Lisboa fe lhe funde Irmandade, & Con- 
traria ; para que defla forte feja venerada por todo o mundo 
a invocação da Senhora do Pilar. 

Chegado efle fidalgo a Lisboa, communicou com al- 
guas peíToas em que lugar collocaria aquelIaSanta Imagem, 

(>ara que foíTe venerada com aquelle culto,& reverencia que 
he era devida ; as quaes foram de parecer , que fe collocafle 
noMoíkiro de Sam Vicente. Ecommaycr razaõ,por fer 
Cafa de hum Santo Aragonez, & que havia afliíiidcwia Caía 
damefma Senhora emC,aragoça , aonde alcançaria da mef- 
ma Senhora aquelle invencível valor, com que venceo naõ 
fó os cruéis tormentos, mas ao meímo Tirano. E também 
feria , que affim como a Senhora do Pilar de C,sragoça tem 
porCapellaens Cónegos, que guardsm aRegradeS. Ago- 
flinho j em Portugal foíTe também afliftida dos mefmos Co 
negos Regulares. 

Deule noticia aos Cónegos de Sam Vicente deíla refo- 
luçaõj&ellesa abraçaram não iòfem repugnância, mas ia- 
tes comaquelia alegria cem que ofizera quemachaffe hua 
joya de tam grande preço , como a que fe lhe offerecia, a 
aceitarão, & fededicáraõ aoferviço da Senhora; Mcrreo 
neíie Ínterim o Tenente General Graneiro, que fomentava 
efle negocio : & D, Maria de Graneiro fua mulher , fendo 
chamada ao Paço para o ferviço da SereniíTima Rainha D. 
Luifa (mulher dtlRey D- Joaõo IV.) o continuou cçm a 
mefma devoção até o concluir; porque aífentado o dia , que 
foy ode Santiago Mayor, ncífa tarde fora© dousReligioí os 
do mcfmç Convento de S. Vicente ao Paço, aonde jà affii iia 

D. 



Livro I. Titulo XLIV. ni 

D. Msriade Graneiro ,&aonde tinhaa Santa Imagem, que 
entregou nos Religioíòs , & clles a levarão em hua carroça 
até a porta da Igreja do feu Convento /aonde a ellava jà ef- 
perandotodaaquella Comunidade, que a recebe o debaixo 
de hum palio, & a collccou no Altar mayor, cantando a 
Ceos hum Te Veum laudamus, por acção de graças , por 
lhe trazer a fua Cafa â Imagem de fua Santiffima Mãy, & do 
Altar mora levarão para o relicário daSacriítia até o dia 
da fua fefta,que fe lhe havia de celebrar em finco de Ago* 
fio, dia das Neves, c ue fcy o anno de 1 644. 

Nas Vefporas deite dia a tornarão a collocar no Altar 
mor , aonde eíias fe lhe celebrarão com toda a grandeza, & 
applaufo que fe pede coníiderar , fendo os fogos artificiaes 
daquella ncyte, & luminárias tantas, que parece fe abrazava 
aquelle grande Templo em fogo. Na manhãa feguinte a le- 
varão emprociífaõ para a fuaCapel/a,quevem afer afe- 
gunda oue fica no corpo da Igreja da parte da Epiífoía , que 
fe avia ornado a todo o cuílo. Afliftio a efla celebridade o 
melhor da Corte , & grande concurfo do povo. E para que 
a veneração daquella milagrofa Imagem fe aumentaffe cada 
dia mais, fe deu logo principio a huajnuy to nobre Confra- 
ria , que fe fundou naquelle Convento em 1 5. de Outubro 
do mefmo anno, para fervir , & folemnizar asfeflas deík 
Senhora , debaixo da invocação do Pilar; dandolhe prin- 
cipio muytos Titulares,& peífoas nobilifTimas-,oque confia 
dos aífentos do livro da Irmandade. Perfeverou o fervor 
delia primeira devoção por alguns annos , feítejandofe em 
cada hum delles em a terceira Dominga de Outubro : mas 
como tiido efiá fogeito à ineonftancia dos tempos, deven- 
do os homens para eites particulares fer muy firmes, quaíi 
de todo fe extinguio aquella primeira devoção, & foy de 
forte, que nem Irmãos jà havia que pudeífem celebrar a fe- 
ita da Senhora. 

Porem como Maria Santifíima noffa piedofa MSy nos 

foliciw 



rr% Santuam Mariano 

folicita fcmpre merecimentos em o ferviço de Dcos ^ & 
feu , acodio a renovar outra vez a dcvoçaõ da fua S. Ima- 
gem, defpertando em o anno de 1 672. nos ânimos de algus 
Religiofosdevotifíimos da Senhora o zelo do feu culto, & 
veneração \ os quaes com novo fervor a torniraõ a pôr no 
auge em que hojç fe vè , confirmando-o a Senhora em obrar 
muytas, & grandes maravilhas, nos q devotamente aim- 
ploravaõ em luas neceílidades : fendo tam grande o nume- 
ro das memorias deitas mercês , que parece ]à não cabem na 
Igreja ,vendofe nellas fer impulfo efpecial damefma Se- 
nhora , tudo o que de novo fe obrava em feu ferviço. Co- 
meçou eíte como de novo : porque fe renovou aquella no- 
bre Irmandade com CcmpromiíTo confirmado por Alvará 
Real , alcançando juntamente os Irmãos da mefma Irman- 
dade, do Papa Alexandre Vll.muy tas indulgências para to- 
dos aquelles que de ham > & outro fexo procuraífem de alli 
adiante fervir a Maria Santlflima com otituIodoPi^ar. 

Aviíta do grande zelo cem que os Irmãos defla Con- 
fraria ferviaõ a noífa Senhora, lhe fezdoaçaõ oConvento 
daCapella em que a Senhora eftá; para que ella, como fua, 
aornaile , & fizeífe nella jazigo para os Irmãos que nella fe 
quizeíTem fepultar, &ifta fem encargo , ou eílipendio al- 
gum; nomeandolhe dousCapella£sparaaflimrem, & cui- 
darem do culto , ferviço, & veneração da Senhora; para o 
que fe fezeferitura em ç# de Abril do anno de 1672» A li- 
beralidade com q os Religiofos offerccèram, & deram para 
fempre a Çapclla à Irmandade,a obrigou a que em feu ador- 
no dipendeíie nella quantidade de mil cruzados. ^ Nem fe 
pode achar coufa mais rica. He efta Capella muyto grande, 
&toda fevè cozida em ouro, & ornada de preciofas alfá- 
yas, como adiante veremos. 

Nasoccafioensemquc fedefcobre a Senhora, he com 
particular veneraçaõ,& reverencia, accendendofelhe muy- 
ias luzes, & correndofelhe as cortinas,com que íêmpre cita 

cuber- 



Livro I. Titulo XLÍV. ii$ 

cubem para aumento da major devoção. Aqui concorre 
todos os dias muyra gente , que pedindo a efta Senhora re- 
médio em fuás neceífidades, a ac haó fempre propicia em to- 
das ,h de tal forte eftá dilatada a devoção* defta Soberana 
imagem, que naõ ha ma r, nem terra, aonde naõ feia hoje in- 
vocada. A forma , a matéria , & o tamanho defta Santa Ima- 
gem , legundo o que do feu original eferevem Fr. Diogo 
Munihonafua hiftoria,&D. Leonardo de SamTofeph em 
a lua copia, he nefta maneira- Tem o Pitar emque a Senho- 
ra elta collocada pouco mais de três palmos ; & o de C,ara- 
goca palia de oito ; o da Senhora do Pilar de Lisboa he re- 
dondo, como columna; de jafpe vermelho; naõ tem capitei, 
masiervelhe de remate híía rica peanha de prata, em que a 
penhora eftapofia ,cuftofamente obrada. A matéria defta 
òanta Imagem he de madeira, comooheadeC,aragoça. He 
de excellente efcultura,de altura de dous paImos,as roupas 
eltotadas : tem o rofto muyto engraçado , &comhúa mode- 
lUa tamreverenciaí, que a todos infunde veneração, & ref- 
peito. Us veftidos ,ou aqueilas roupas lavradas na madei- 
ra eitao moílrando a grande modeftia, & compoftura do 
trajoda Senhora; porque tem humeabeçaõ cerrado com al- 
guns botoens-zmhos atè o alto da garganta. Tem as rou- 
pas cingidas com huacorrea, & na cabeça coroa imperial, 
[J7™ 3 ° tamanho da Santa Imagem. Tem alem do 
ornato da eícuítura, (que em tudo eftà perfeitiffima , &gra- 
ciolamen,te obrada) hum manto de tela rico , que fe lhemu- 
da coniormandofe nas cores pelas feftas , como ellas o 

ffi\ ° S raços tem ao Dcos Menino ^uy to engra- 
Sn ™ - ■ C ? BI ^^^s-annastrocadas-húafobre doutra. 
^T a £ 2 UCrd V em o Menino hum pafTarinho apertado 
í, n^°^ aÇOdlrdto eíco ^ido fobreopeitoda Senho- 
Zih ™ c L° m a , m ãozi»ha em o manto. Acompanhaõ 
m^,i , adousAn J os tíehum,&ourro lado, de 
muvto rica- elcultura,&tíioíados com grande perfeição, 

que 



ii4 Santuavk Manam 

que ferve de ter luzes em cafiiçaes de prata'na prefençada 
Senhora. Na fua Capella tem preciofos ornamentos , & or- 
natos de ricas cortinas franjadas de ouro .;& a Capella def- 
dc o interior ate o arco de fora eftacuberta deexcellente 
talha dourada comricas grades deevano capríchofamente 
torneadas. Tem muy ta prata, affim de cafiiçaes, facras, pi- 
vetarios, & outros muy tos vafos do mefmo ricamete obra- 
dos: & do mefmo metal .1^5 as grades da tribuna da<Senho- 
ra, que faõ de maravilhoía traça. Eíiá a Senhora cuberta de 
ricas cortinas, que pendem de hum doccl; & de tal matéria, 
quefedivizaalgua coufa a Senhora pelo trarifparentc del- 
ias. Tudo efta obrado com grandeza, & com toda aquella 
veneração, & refpeito,que fe deve a t^5 Soberana Senhora. 
Efcreve deíla Santa Imagem- o Padre D. Leonardo de Sam 
Jofe ph no livro, q intitulou, A ç DtYtna Aurcra KLnjfa Se- 
nhora cloíPilar ,eílampado em Lisboa noannode 1677» Fe- 
ítejafe no dia da fua Natividade. 



TITULO XLV. 

JDa milagrofa Imagem de noffa Senhora da Boa Hora 
dos AgoH\nhos Vefcalfos de Lisboa. 

[ 

NA apertada hora da morte, &naquellc ultimo confii- 
do, em que fevem as almas ao deixar efía caduca, 
& breve vida,he Maria Santiífima hua fortiffima torre, & 
hum feguriífimç) muro; porque, como diz Sam Boaventura 
fallando com a Senhora, Glóriofum,& admirabile efi nomen 
tuurh, , M iria; cjut Ulud retinent >non expaVefcent in hora 
mortis. Bem o experimentaram muy tos Santos, quando 
naquella hora invocarão o feu nome. Sam Ricardo da Or- 
dem de Cifter, Bifpo em Inglaterra , chegada a hora da íua 
morte, pedindo hua Imagem da Virgem Maria, com o cora- 
ção* 



Livro I. Titulo XIV. 115 

çaô, com a voz , & com os olhos nella > diíTe aquellas pala- 
vras de que hoje ufa a Santa Igreja : com as quacs na boca 
V oou para o Ceo: 

Maria MatetgrarUy 

Mater mifericordU, 

Tu nos ab ho ff e protege, 

Et mortis hora fufcipe. 
Outros muy tos Santos nos eníináraó com o Teu cxem- 
içlio a invocação de Maria Santiflima na hora da morte /& 
tem moflrado a experiência, que ella no ultimo fim da vicfa j, 
he a noffa verdadeira May , pois Como amorofa Mky fe a- 
cha prefente;não nos deixando, como Agar oíílho,para 
que morreffe aufente de feus olhos,; porque nos íèus nos 
tem, & guarda fempre como cuidadofa Mãy , fazendo os 
naquelía occafiaõ muy tas vezes invifiveis ao inimigo, com 
os refplandores,ou protecção refplandecete de feus olhos, 
& de leu roílo. S. Hieronymo aquellas palavras do Profe- 
ta, Ahfconíes eos tnabjcondttofaciei fw^efcondelos-heis, 
Senhor , no cfcondido de voíTo rofto ; leo , in protettione 
Vnltus tni, na protecção do voíTo roflo: que o roílo , & pre- 
fença grave aonde refplandece a virtude, & a graça ; & mais 
ainda como na da Virgem Senhora, quando naqueilasocca- 
íioens afliíie, fedefcobrem nella huns como rayos da glo- 
ria, & he certa protecção para o moribundo, & he confufaõ 
para os eípiritos malignos, aos quaes afugenta como o Sol 
as nuves; para que aquella alma às claras,& fem impedimen- 
to poTa profeguir o feu caminho. O mefmo favor, &a 
mefmaamo ofa aífifterfcia fazeftamifericòrdiofa Mãy com 
as que em feus partos fevem também próximas à morte, 
confortando as , & aiiviandoas naqueíle apertado confíi- 
cio , dandolhe nelle felices íucceífos , como cada dia o ex- 
perimentaõ muy tas mulheres, que fiadas ema clemência 
delia grande Senhora, lhe pedem a fua aífiircncia; & por 
muy tas yezcs , em maravilhofos fucceifos , o experimentá- 
Tom. I. P raõ 



ti§ . Santuário Mariano 

raõ com a invocação da Senhora da Boa Hora. E fe ha viflo 
fer mais diligente efia Senhora da Boa Hora , em lhes acu- 
dir , que ellas em a invocar : porque tam diligente aííiíle às 
fuás devotas, que quando imploram o feu favor, jà atem 
prefente, para as livrar dos perigos- 

Fundoufe a Cafa, & Convento de noffa Senhora da Boa 
Hora no mefmo lugar que haviaõ occupado os muyto Re- 
verendos Padres Dominicos Irlandezes, que fugindo ás 
'gftmdes perfeguiçoís que padeciao em Irlanda , dos here- 
ges de Inglaterra ., vieram para as terras dos Cathohcos. 
Alguns defíes Padres vieraõ aelk Reyno , que he a pátria 
dos eflrangeiros, paíTando pelos Reynos de Caflella, pelos 
annos de 1 6% o. & tajntds , & por fuperior delles o M. R P, 
Fr. Domingos do Rofario , que depois foy Confefíbr da Se- 
reniífima Rainha D.Luifa de Gufmáo, &morreo Bifpoeley- 
to de Coimbra. Ncfteíitio pois que fe dizia as Fangas da 
farinha, no fim da rua nova de Almada , affiíUraõ os Padres 
Dominicos ate oannode 1668. em que fepaífáraõ para o 
fitio do Corpo Santo, aonde hoje vivem. Depois delles en- 
trarão em feu lugar os Padres da Congregação do Orató- 
rio, que inílituío Sam Philippe Neri ;& que fundou neíte 
Reyno oV, P. Bertholameu do Quental, varaõ de grandes 
virtudes, & que acabou comopiniam de fantidade. Foy a 
fua entrada cm 16. de julho do mefmo anno, dia de noíTa 
Senhora do Carmo. Perfeveráraõ neík lugar até oannode 
1 674. & pafTando para a Igreja do Efpirito Santo , (em 1 4. 
de Agoflo vefpera da AíTumpçaõ da Senhora) que fica mais 
aífima em amcfmarua; ficou efielifgar vago. Parece naõ 
queria Deos paíTaíTe a outro eftado de gente aquelle lugar 
que em feus princípios fe havia dedicado a fua Santiffima 
Mãy. E affim fez delle doaçaõ aos novos Agoíiinhos Def- 
calços, que havia pouco tempo fundara em Lisboa a refe- 
rida Screniífima Senhora Rainha D-Luifa dcGufmaõ^ o 
Vifconde de Barbacena, Jorge Furtado de Mendonça , de 

quem 



Livro L Titulo XLV. ti? 

quemera ò fitio, fazendofe Padroeiro do mefmo Convento, 

Tomou fe pofle defla Cafa no anno de 1 674* & no dia 
da entrada, difpoflas todas ascoufas para fe haver de can- 
tar a primeira MiíTa, faltava hua Imagem de noíTa Senhora; 
porque aella fe dedicava o Convento, EcomoosReligio- 
fos eraõ pobres , &não tinhaõ ainda toda a prevenção das 
coufas, que eraõ precifas para efla folemnidade; concorre- 
rão muytos vifinhos ,osquacs com devoto, ôcfervorofo 
zelo mandarão armar aCapetla com ricas cortinas ,pan- 
nos, & outras alfayas de fuás cafas. Entre eftes os q cõ mais 
a/Tinalado zelo fe empenháraõ,foraõ Francifco Maciel, Joaõ 
de Bailo, & outros. Vendo o Prelado dos PP. Agoflinhos 
Defcalços,q era o Reverendiffimo P.Fr.Manocl da Concei- 
ção , Confeflòr da mefma Sereniffima Rainha D. Luifa , que 
íànta gloria haja, que lhe faltava a Imagem da Senhora para 
fe pôr no Altar , recorreo aos mefmos devotos afliflentes , 
ptrguntandolhes fe tinhaõ algua Imagem de noíTa Senhora 
em lua cafa, para eftar no Altar no Ínterim cm que fc fazia 
outra, para ficar para ferapre. Refpondeo aefta pergunta 
Francifco Maciel, que el lc tinha em feu oratório nua devo- 
ta Imagem da Senhora ;& que elíe a mandava bufear logo. 
Ve) o a Imagem, & perguntandofe a invocação que tinha, fe 
diife, íè invocava com o titulo de N. Senhora da Boa Hora. 

Eflimou muyto oPadreCõmiffario Geral dos Agofli- 
nhos Defcalços , o P. Fr. Manoel da Conceição, o titulo, & 
o teve por prtfagio felix , julgando fer boa, &: faufla aquel- 
la hora para a Família Defcalça y & aífim quiz q com eík ti- 
tulo foffe nomeado o Convento. Paflada efla primeira fo- 
lemnidade do novo Convento , fe mandou fazer húa Ima- 
gem da Senhora, que fahio perfeitiflima ,& muyto devota; 
he de veflidos , & tem finco palmos de eftatura , que fe col- 
locou na tribuna, que fe lhe fez na Capella mòr,com o mef- 
mo titulo da Boa Hora. Tanto que foy collocada, fe accen- 
deo de forte a devoção em todos os moradores do grande 

P 2 povo 



2 1 8 Santuário Mar Iam 

povo de Lisboa, que parecia, nenhíía peffoa ficava que a n^ô 
vieffe a venerar. E foy tam grande a fé dos que bufeavaõ a 
Mãy de Deos, invocando- a com o titulo da Senhora da Bca 
Hora; que foy meyo , para que o Senhor obraíTe muy tas , Sc 
grandes maravilhas, como ainda hoje oteftemunhãomuy- 
tos quadros em que foraõ pintadas por memoria : fuppoflo 
que por incúria fe naõ autenticarão muy tas, que parece o 
mereciaõ. Não he incarecivel a grande devoção que toda 
acorte tinha com eflaSantiflima Imagem. 

No anno de 1 677- em oito de Setembro fe lançou a pri- 
meira pedra do novo Templo da Senhora com toda a fo- 
lemnidade, aífittindo como Padroeiro, que era do Conven- 
to, o Viíconde Jorge Furtado de Mendonça,que a lançou, 
&dediccu à Rainha dos Anjos Maria Santiílima, debaixo 
do titulo , & invocação de nolfk Senhora da Boa Hora , com 
a aíliíiencia de muy ta fidalguia, & nobreza,& de hum gran- 
de numero de Povo. Benzeo a pedra o Biípo de Pernambu- 
co D.EfievãoBriozo^cuja inícripçaõ era na maneira fc- 

gumte. 

ToBeritãti 

Sacrum Deipar* Matri,utriufquemundi 

Regin<e y 

Totius culprt tmmuni $ 

Soriíe HoYct Dominae, 

■Primum lapidem 

T>. & C. 

Georgius Vicecomes < BarbacenenJií t 

l & 

In deVotionis monimentum 

Bic 

Supplex pofuit die 8. Septembris 

Anno Domini 1 677. 

Fez-fe efla folemnidade fendo Vigário Geral jà da nova 

Congregação o mefino Reverendiflimo P. Fr. Manoel da 

Concei- 



* ; 



Livro L Titulo XtV. 2zp 

Conceição. Eaos 16. de Abril doannodei688. citando 
acabado o corpo do mefmo Templo , fe mudou a elle o San- 
tiflimo Sacramento , com hua folemne prociffaõ , a que aífi- 
flio hum notável concur fo de poro, & acompanhou a Com- 
munidade denoffa Senhora da Graça dos Eremitas Obfer- 
vantes de noffo Padre S. Agoflinho. Diflc a MiflTa em Pon- 
tifical o Eminentiflimo Senhor Cardeal Dom Veriflimo de 
Alencaftrc, Inquifidor Geral ; & pregou de manhãa o Padre 
Provincial de noíTa Senhora do Monte do Carmo,o Meílre 
Fr.Francifco da Natividade; & de tarde o Padre Mertre Fr. 
Manoel da Graça da mefma Órdcm,efl:ando todo o dia o Se- 
nhor patente ; & ao encerrar de tarde , afliftio a Magcflade 
do SereniíTimo Rey D. Pedro noflb Senhor, como Padroei- 
ro que he de toda a Congregação , levando na prociíTaõ hua 
tocha. Era neíle tempo Vigário Geral dos Agoftinhos Def- 
calços o Padre Fr. Sebafliaõda Cruz. 

Neíte mefmo tempo , & anno de 1 688- o Prior que en- 
tam era do mefmo Convento, por razoes mais caprichofas, 
que prudentes > mandou fazer outra Imagem de efeultura 
ciíofada , de alguns oito palmos de cftatura, obrada com 
grande perfe ! ção, & a coliocou no Altar mòr da nova Igre- 
ja, cm lugar da primeira, & milagrofa Imagé da Senhora da 
Boa Hora; o q a gente toda fentiocom tanto extremo, (por- 
que eftava muyto aífentada emfeus corações a devoção que 
lhe tinhaõ; principalmente as mulheres vifínhas ,que offe- 
recèram logo cem mil reis,quehavia feito de defpeza a fe- 
gunda , fó a fim de que fe lhe reflituiffe a feus olhos a pri- 
meira ', mas naõ lho permitirão. E tam fervorofas andavaõ 
nefla diligencia ,,que dariaô quanto poíTuiaõ, fó por naõ per- 
derem devifta aquella Santiífima Imagem. Ainda hoje et- 
peraõ,que fe lhes ha de reíHtuir outra vez àfuavifta; por- 
que ainda fufpiraõ pela ver nofeu primeiro lugar. Collo- 
cáram na na Sacriíiia, aonde eftà com toda a veneração, cm 
huma Capellinha fechada com vidraças, &alli he buícada 
Tom. I. P 3 de 



d&ffQpte g$J^fe^^<te cm alguns idias é<iaoí^febR3S 

01 mm q&àfcffllfefâfo feajuntaõ , pqt^^trarem a fffci? 
a Ççnhopa da 3m H®W> f^h^çowo dizem.) irçõ fó & <fev 
^Uê^ti^PJiWS tf&Snè^i^^ efperaõeftçsdiasi& 
4epots MHâP ^ScbD^rqfef^a d* Santa Imagem ,naq ha por 
iwM^Mh^^^im^ <fôí #bq^$egem por Madrjt 
nffe <fc feife $fe& y o&bff &£ <^n£nd^ muy to em ftuç 
par&fei |çiidp;5Q^$^^ nelíes ,cqmo â 

«qí^iajíaaaiíg^^ : porq algíjas) q 

mwttos tbmpasrfç rçk;$#Oín a mortedií-inte dosoiho^Sç 
eèí^pdiflOT^iP^i^^^s^e elegerão a Senhora d* 
BoaWora çm ^PbSfCJdRvér^wn mtlagrofcs , & feliçesr 
partos, [©wímprf^^iiig^^fi todas as Senhoras daCprre* 
^fk£zox^o^§ejtw^\^m^ Rainhas , que lhe fasiaç novet 
nas; & no favor, & protecção de t^m Soberana, & podero.í$ 
JáadrifihaipíQCHía^íèfl^prp affegiipar não fóa vida tempo- 
p^âdSl^étfl^9Í^4 ^terr^; ( para que naquella ultin# 
ItQrá tç^ çj^feiíáaj> ^i liíVpe 5;ôp^ a fua pqdfcrofa protecção á & 
os entí^wiíohfr p^ra agí®ria» .^Sçníiora íie degrande fer^ 
^qíW% &* d$ Y£Ôi4ps ^çomo fie^ dito; q os tem muy to pre- 
çfcíWffâM íPOgfafcf ffiãos pofías , & infunde grande reve- 
rQOQia^mf^dk^o^ <|TO a contemplam* 



54 •■■■ ÔS^OTSfc ; : VOHOOr! 



1 — r^*— 

4 :.;r!;:.u 273 



JT iT^Ob O XLYI. 

•-r.;.: ? &iáíí .v-< ■ : -r bttit? €1 &:o tarar \ , u&§ 
v &^ dos Remédios 

- ^ j ■ > de Alfama. : 6 : lsíi 

-á < . ! v.' " ;.\ ^rvfi-& ... :•■ !Ti:; .-. : L:j* . : ' : j . 3i á 

O Grande devoto de JMfória S&itiffiflfo S. Alberto Ma- 
gno , chama a Senhora UmbràcMluminfirmmum ;.& 
Ricardo de S. Lourenço, Rio Jordam, einqueao precciíode 
Elifeu fe refíituç; a carne a Naamàô, kpofo., comoa carjic 

; fcranda 



branda de hum menino peq^crK),?purificandòft ticífcfète 
vezes* O mefmo Padre the chama x>ko medicinal>ti)lconíc 
mifericordia ; porque he Maria aqwelle ofcoj qué pv&4*- 
deiro Samaritano Chritfo Jefuis lan^oii iiás-fèridas do ca- 
minhante , que cahio nas mãos dcteiadroÊs^ iflohe^ xk* gé- 
nero humano , fendo remédio paira as feridas docorpo,<& 
do efpirita í MariaíUudokurHmifericord^e eft, quoé Verftf 
Swiarhaws, idefl Cbrijlur>, infudit Wíneribus fimciati , 
ijejíygenmshumam. Pedro Blcfenfe lhe chama Frobatiqt 
&ifcingfi mas nãõltàm limitada na faude; pofè aquelía íkraya 
hum, & Mar ia -'Sântiflimã a quantps acoderb à pifcina daiiía 
protecção* O Abbade Guerrico lhe chama rcflituiçaír <fa 
íauda; E Gefario diz que não ha medicina , nem mais ef6- 
tazi riem mais proVcitofa, como he Maria: Medicinatâeatje 

lífó mefmó nõstM apregoando a Cafa daSenhqra dos 
Remfedio^d^ Alfama> que verdadéiramcíiftc vemos pifcitíá, 
emqiie ibacha Remédio para todos osmates , areílkoiçaS 
da faude, & hua efffeáz reedicinr de todas as enfermidades 
A Gafo de noíTa Sêrthorádos Remedíos> que eíté fitiíada iío 
f^íiicípio da rwx das pçrtâs daCru« em obayrrò de Alf$- 
%*<,íif à tWguçfw de Santo Eítevaõ 9 ntf8 coníla do tempo em 
quefoy fundada; mas deve ter mais de duzentos annos de 
^tfàguidíde; Hè dedicada ao Divino Éfpirito V &-nella fta- 
tapflc haraitidà ?h©je PlofpitaJ , fe bêm mais iimítaddí Edrft- 
tsâraéejfa Gafa os f>e féadores do alto do mefmóim^rroy os 
<pae;s moídos de piedade, (quando ainda não^havia a Gafa 
4a ^fiferic^fâlk,}24 unidos ftefte farato^ Sccamâiávo defejo, 
MWuiráo^teuâ fít&tt itmândâdèi pâr^JComtumba própria 
tfófôítfaftm tío^^^ cita a aíTérrr- 

-fássSi^Sfiíifàmúx. Hrtàôi tíhKafrGtóf propri^ jra ParpçhM 
Igreja dè^Sa^Mig^Wâ A>lfoíià$$c deíia Igreja fahi^p ao 
ieu^ii^àSvó^x^tete. ^Ktis j^ieVk^cmaigãas dúvidas, 
& contendas, quef arefce fe começarão logo a inover comos 

m P4 Clç- 



i$i Santuário Mariano 

Clérigos fobreintcrefTes de pouco portei animados do fcil 
fervorofo zelo efeolheramofitioaonde acaba a rua daRi- 
guÃra, & começa a das portas da Cruz , como fica dito , & 
nella edificarão hua fermoía Ermida , de boa > & valente ar- 
chitedura,& a dedicarão aoEfpiritoSanto: porque debai- 
xo do amparo detam divino Patraõ quizeram íègurar os 
merecimentos de tam pios, & efpir.tuaes exercidos. 

Aflim foraõ continuando por muy tos annos, & ifto por 
privilégios pontifícios , que para iffo alcançarão, fem que 
ouvefíe quem lho prohibiffe. Com a fua tumba levantada, 
& cuberta com hum rico pano de veludo preto,com barras, 
* ôccruzdeborcado de ouro franjado do mefmo,& Cruz ri- 
ca com manga na mefma forma , & tudo com as divifas , & 
empreza do divino Efpirito, que he hua pomba branca bor- 
dada em o mefmo borcado , cercada de num refpl andor de 
ouro, enterravaõ aos Irmãos , a fuás mulheres, filhos, & 
filhas , em quanto viviSo debaixo do pátrio poder ;&iflo 
fem nenhum interefle. E com a mefma caridade enterravaõ 
também aos criados , & eferavos dos mefmos Irmãos. Aos 
q eraõ pobres curavaõ comprompta caridade HofeuHof- 
pital, & lhes davaõ na morte fepultura, & mortalha, & lhes 
mandavaõ dizer certo numero de Xliffas ; o que ainda hoje 

continuaõ- 

Erigindofc depois a Irmandade dâ Mifcricordia , & in- 
tentando o Provedor, & Irmãos delia prohibir aos pefea- 
dores do alto enterrar aos feus defuntos com tumba le- 
vantada, como atèli haviam fei to, & com ornato, & pom- 
pa tam illufíre,como a Irmandade da Mifericordia euflu- 
mava fazer aos feus Irmãos; ouve nefla matéria hua re- 
nhida demanda; mas confiderando os Irmãos da Mifericor- 
dia, que ospefeadores eflavaõde poíTe, havia muy tos an- 
nos , de acompanhar aos feus defuntos, por evitarem ga- 
flos , & demandas trataram de fe compor, & aflim fizeraõ 
hua amigarei compoíiçaõ por hua eferitura de concerto, & 

tranf- 



Livro 7. Titulo XLVl 233 

tranftcçaõ entre huns , & outros, de que os pefeadores en~ 
terrarião os feus Irmãos, &: mulheres dos Irmãos, & aos fi- 
lhos, & filhas em quanto eftiveíTem debaixo do pátrio po- 
der, 5c não enterrariam outras peíToas de fóra. Fez-fe efta 
eferituraem 12.de Agoflo doannode 1602. cujos Procu- 
radores foraõ pela parte da Mifericordia o Doutor Marcos 
Teixeira, & Henrique de Soufa, ambos Deputados da Mefa 
da Confciencia ; & pela parte da Irmandade do Efpirito San- 
to dos pefeadores, António Gonçalves ,& Joaõ Vaz,& 
Duarte Lourenço. Era neíte tempo Provedor da Miferi-; 
cordia Mathias de Albuquerque. 

Da origem da Senhora dos Remédios naõ ha quem diga 
nada com certeza , fem embargo ( ao que parece) de não fer 
muyto antiga : porque na Efcritura referida do anno de 
1602. fe não falia em a Senhora dos Remédios; também po- 
deria bem fer que como a Cafa he dedicada ao Divino Efpi- 
rito, & o apparecimcnto da Senhora foy depois da fundação 
daquella Cafa , foíTc o feu apparecimento antes deita dema- 
da. O que pude defeubrir he , que naquella Igreja ha hum 
poço, que fica em o canto delia ao entrar da porta principal 
da parte efquerda. Nefíe dizem todos por tradição, que 
indo hu trabalhador, ou fervente de pedreiros tirar agua, 
para algua obra que na Igreja fe fazia, &que tirando o cal- 
deirão, tirara nelle a Sãta Imagem. Alvoroçado com o fuc- 
ceíTo, chamou pelos officiaes, & efles pelo Meflrc, & todos 
entenderão fer coufa milagrofa; & muyto mais por fer o 
poço baixinho, (que fe tira dclle agua com limita da corda,; 
& tirandofe delle continuamente agua , nunca fora vifía. 
Também fe admirarão mais,que eflando efla Santa Imagem 
naquelle poço, fe vifíe a pintura enxuta ,& fem lezaõ,o que 
naõ podia fer fem milagre , em hua Imagem de madeira , & 
eítofada. 

Afama deite prodígio fe começou a gente a mover, & 
a feílejar o apparecimento, & invocação da Santa Imagem; 

ain- 



£§4 X^^^t^YWMun&m. 

àtnCTCdU:ypor único remédio de íeus trabalhos 7 afflio- 
$>&&& ncceflfda^es; &cpmo no feu patrocínio acham 
f^çmptososretnediospari todos os feusrmlesi daqui naf- 
cétepèloqGfô dizem>eítç titulo dos Hemediosque fe lheim* 
p<m< Outros referem o apparecimento da Senhora noutra 
íòrMàimtt gtq^ appareceo, 

©U íòy radiada no poço ',• aipda qfte hoje fe ignofce n modo, 
&t*£câXHq^^ ©xomeçar a Sc* 

*^oiBáâ dbrárfogctiô^iitas hw avilhaç , fc vc ms inflame* 
ftór^ÍTiai^^dcflasj:,pitit^as em quadros,dc que fe vê 
cuberta toda aquclla Igreja^ rnortalhas, fie outros defpojos 

ttí)^qiiàcIbrvidçQtç -perigo defe percTerem eícapáraõ pela 
tóvocaçaô^jalScaitoríÊdos-Remcdios* A multidão dns^mas- 
«aráBias^ todos dop>i- 

é^roriírtódbqtteí la Gaiata denominaffem fomente como 
èipúo dos Jtámçdíos ; i E afíim ate oprefenre he conllantb, 
&pclFrn8nbiteradetfaçajSpara comefia milagrofa Imagem* 
ífeámddicba di ffi^&ominda a May de Deos em lhes álcarb- 
Içarde Deos o remtdierde^rlas as fuasneccffidades. 
súp JkÉr&rrr ^^ qdefapparece^fcfe 

^^n3^TOs:dbtoiiig^r4queHa Santa toageirij&áflirn fe 
ili2 comummente v^tóeudír^a defender y& a livrar aop 
^fetífe^efeadép^s do^íoy^dc^ perigou que rio mar fe encoii* 
%fào} áfcmdoibz&m\®#3 $94110 ! d#Mouk)S* E dizem que 
$fg%£ffireée8 tl^Ã^Qitóf^dâçíflkLdeque rios mares 
gladio aos quê tettef^rigmõ; Jíàqin femjduvidá nafeq- 
«ái :to msjld^ew QSl^^rdar^refíà (õste ào EfpkitoSàntip 
rfa^&~d image$flfô&^ lios Remédios > que no 

^{t^f^^èMfc^Wád^í^rajquç ferript ekhaffem os tem 
ikmfm^1&Tm&&iá(mi íõtaçaôv $ roífêdiõ^ A* Senhora 
terá hum palmo de alto; a matéria certamente na&í&fêbtft* 
4ué s feféy eiit^dê^íefídp^deíte. He etoíàda, mas rímy ro 

por- 



$^f£Íona£to Hm 'pequcnhez debaixo de humadéel ffarntój 
gcQ%$$inoj, & cubem com cominas. Ai Smfivmi^àné» 
$f$M irikma coberta, tia mcfma fôriaa jífe rieí«artiiiá© 
E^Igr : c]a em íi eíM tqda cuberta deiouró ■■■: pSrqurcDm^ 
J$f9fe pkda^e cuidam os pecadores ãacuka^atkfO-ySc 
e^natod^quclIaíOãCafa. V'^ 

" -" ; •' i 

— i s — — ; — - . ■■■ ■ . -; fv. 

TITU LO XLVIL ;' 
-* ■ 
4 Hi Vtnwkdn Imagem dinoffa Senhora dâíYirtH&t* 

kfê Cõ>?vent o de S* Domingos. * 

\ "' ' >: ; j 

'"\T Am podiaõ os homens dar titula m^ispraprioàRai^ 

Jl\| abados Anjos ^mminvocííla com nome maisvercta? 

deiro ,.quc o da Senhora das Virtudes: porque cem eflehê 

commummentemvocada dos Santos. Eaflíma invoca San* 

to Anfelmo v Sacrário aonde fé encerraõ todas as virtudes: Anf. • 

Sacrarlum ommwnViYtutim. Jardim de delícias y no qtíâl *Uof 

feadmiraõ tocos os géneros de flores, &feexperimentaa < *'' *** 

fragrância de todas as vinudes, lhe chamou Sophronio;: 

fiottus deliciárumytnqua covfitafunt miVet ia floram $el Scfhr. 

itera, éodorãmentaVtYtulurnlVot authora daí Virtudes^ *•»• d * 

intitda^Sam Bernardo: Juãrix VirtMum. Ê por hum vive ^lf um P 

exemplar das virtudes anomcajoâòGçotfçttayBxmfdá "' . 

Yrttdwrrvmtttjmi. '' v. \ ,^/^ 

No tope do cruzeiro do grande Templo de S« Demita ^, 

gos de Lisboa, à parte do Etíangeího ,' fc vè hua grande > & Jmh. 

. ricaGapella dedicada ãnôffa Senhora das Virtudesj& nèlla Gtom. 

colloeada hua fermofiffima ,& grande Imagem dâ Wãy <k &j»>- 5 

Deos> de cujos princípios efereve o P.Fr. Liiisde Souíaem * B -K 

afuaChrordcsjqciâiineíia forma. A Imagem dà milagrofà 

Senhora das Virtudes foy mandada fazer a Flandes pos 

EIRçy JD* Manoel, com tenção de a áaf ao Convento de S. 



i$6 Santuário Mariano 

Jcronymo de Évora, dedicado a noffa Senhora do Efpinhci- 
ro. Sendo chegada a Lisboa, a gabáraõ muyto aElRcy, o 
qual a mandou pôr no Convento de S. Domingos, para ahi 
a poder ver. Vendoa no Altar mòr , aonde a coliocáram, 
fe fatisfez tanto da fermofura do feu roíto , talhe , & pro- 
porção delia , que a gabou muyto aos fidalgos queoacom- 
panhavão. Tornando ao Paço a fallar nelía , & repetindo 
quam bem lhe parecera , hum valido feu , & da Ordem de S. 
Domingos muyto devoto, defejandoa paraaquella Cafa, 
valeofe da occaíiam, & pofto de joelhos diante delRey , pe- 
diol he de mercê, que pois taõ fatisfeito fe moflrava da Ima- 
gem da Senhora /foífc fervido contentarfe também do Al- 
tar em q a vira, & não confentiíTc , q fetiraífe delle; porq 
alli a poderia ver mais vezes,do que faria eftando cm Évora. 
Juntoufe o goílo próprio com a affeiçaõ do privado ,& afllm 
concedeo que ficaífe a Senhora no Convento de S. Domin- 
gos, & mandou que fefizeífe outra para o doEfpinheiro. 
Efteve a Santa Imagem no Altar mòr ate oanno ce 1558- 
que foy o em que fe acrefeentou a mefma Capelía , tudo o 
quenclla parece de obra moderna , & diverfa da antiga, que 
fe deixa muyto bem conhecer. Entam fe paífou para onde 
hoje eftá,(aque também chamaõCapella de Sarti Jacinto, 
poreflar nelía a Imagem defle Santo, ) & : aonde tem aíiia 
Confraria, & fe lhe faz foiemne fefla no dia de feu gloriofo 
Nafcimcnto a oito de Setembro. 

As maravilhas que o Senhor tem obrado por meyo de- 
ita Imagem de fua Santiflíma May , faõ muy tas , & admirá- 
veis* O Padre Alonfo de Andrade no feu Itinerário hifto- 
rial refere hua notável, tirada das obras do P. M.Graciano, 
o qual também a colheo dos Sermões do P. Fr. Luis de Gra- 
nada; a mefma refere o P.Fr. Luis de Souía \ porém eíle fem 
a cquivocaçaõ dos primeiros, porq como mais de cafa acha- 
ria as noticias mais indi viduaes. Foy o cafo , que havia em 
Lisboa hua Senhora nobiliílima j efta fe vio períeguida ( por 

delem- 



Livro L Titulo XLVIL 23/ 

defemparadaj depoderofos contrários , que quando a de- 
viam amparar, & defender > entaõ não fó a não favoreciaO; 
masamaltraavão,&perfeguião. Saõ as perfeguições co- 
mo as tempeíiades* que todos fogem delias -> & deft mparãô 
a quem as padece por fe pòr em falvo. Aílim fe achava eila 
Senhora fó, & deíemparada daquelles que em outro tempo 
a ferviam , & veneravaõ. Ecomo fe vio defemparada das 
humanas creaturas , recorreo ao favor de Deos, 6c ao am- 
paro da Virgem Maria noífa Senhora, & protedlora, indoa 
buícar na fua Santa Imagem das Virtudes, a cujos pês po- 
flrada, & feitos feus olhos dous rios de lagrimas/allavalhc 
como fe a vira viva ,& aílim lhe referia os feus trabalhos, 
maniíeflavalhe as fuás penas, & pedialhe favor, & ajuda e n 
as vexaçoens que fe Ihefa^iaõj&ifto com mais fiifpi] 
que vozes. 

Não eíkve furda a Mãy de piedade aos tafiímofos cla- 
mores daquella fua affliíla ferva : porque aliviandoa na fua 
affiiçaõ, rompeo o íilencio , & falloulhe pela boca da fua 
Imagem, dizendolhe cem amorofas palavras; Filha, não te 
defconfoles, que eu ferei tua advogada, &'te defenderey, & 
livrarey de todos os teus trabalhos , & com nuy tas ganân- 
cias. Naó fe pode facilmente explicar a coniulaçaõ , & for- 
taleza que aquella devota da Senhora das Virtudes recebeo 
em leu aft;ido coração, ouvindo eflas palavras da boca da 
Senhora. Fugio o temor, & atrifteza que a tinhnó toda 
proftrada ; refpirou o feu efpirito , todo cheyo de gozo , & 
ccnfolaçaõ: que os favores de Deos fobre melhoraremos 
corpos, enriquecem as almas. Deu mil graças à Mãy de 
Deos portam affinalada mercê; a qual lhe cumprio tudo, 
porque alivoude todos os trabalhos, dandolhe vi teria de 
todos os feus contrários, com muy ta honra , & reputação- 
E tm íinal de agradecimento aos favores que a Senhora lhe 
fez , foube empregar o reflante de fua vida em feus louvo- 
res > & a fazenda em feu fervíço. Conftderem ogora as Se 



nnora* 



238 Santuário Mariano 

nhoras da terra o muy to que ganhaõ cm faber amar , & ícr- 
vir a Rainha do Ceo , que como verdadeira Senhora íãbe 
eftimar, & regalar aos que a fervem, & amaõ. 

O meímo P. Fr, Luisde Granada, Cacegas, & Fr- Luis 
de Soufa,& Cardofo efcre vem que com efta miraculofa Ima- 
gem da Senhora tivera grande devoção a devota Maria 
Franca , mulher de grandes virtudes , & Mãy do fervo de 
Deos Luis Alves de Andrade, inftituidor em Lisboa, & em 
Portugal da devota ProciíTaõ dos Pálios. Bufcava muy tas 
vezes a efta Senhora em a fua Capelía, louvava a continua- 
mente; em hua occafiaõ lhe fez hua petiçaõ)& a Senhora pa- 
ra* lhe mofirar o quanto feagradava delia, (devia fer tam- 
bém muy to do agrado de Deos) lhe abaixou a cabeça: & por 
efta grande devoção , que tinha àquelia Senhora , pedio em 
fua morte a enterraífem à fua vifta. Eos Religiofos daquel- 
le Convento attendendo às fuás virtudes lhederaõ fepul- 
tura no plano do& degraos do feu Altar. Todas as Senho- 
ras da Corte tem grande devoção a efta Santa Imagem, & 
na fua prefença vão fazer as luas novenas , & íempre a 
achaõ propicia nos defpachos de fuás petiçoens. He efta 
Santa Imagem de grande fermofura, & muy to agigantada 
na eftatura; porque tem mais de fete palmos. He de excel- 
Icnte efeultura de madeira. Tem ao Menino Deos em ítus 
braços. Eftá collocada no meyo do retabolo , em hua como 
tribuna , com grande veneração, & ricos ornatos. E tem 
hua nobre Irmandade- Efcrevem da Senhora das Virtudes 
o P.Fr. Luis de Soufa na fua Chronica part.i . liv-$. cap 28. 
Cardofo no feu Agiologio tom* 2> pag. 413. Faria na fua 
Europa tom,$ . pag. 3. cap. 1 3. 



TITU. 



Livro I. Titulo XLVI1L *39 



TITULO XLVIII. 

Da Imagem de N* Senhora da ConfoUçao defrwte 

daSè. 

^T Aquelle fitioemque propriamente fe chama Lisboa, 
Sc que he abaixo da Igreja Cathedral , fica huma antiga 
porta, cjue quando naõ fcja fabrica dos primeiros fundado- 
res deita inclytaCidade/erá delRey D. Affonfo Henriques, 
ou dealgu;n dos antigos Reys que a tomáraõ antes delle 
aos Mouros : & por iflb fe diz q alli he Lisboa; porque dal- 
H começava a antiga povoação í & porque teria naquelles 
tempos algúa porta de ferro'- por efía razaõ fc confcrva a- 
quella entrada com o titulo da Porta do ferro. Sobre eít a 
porta, ou entrada da antiga Lisboa , que fará alguns t ^ t . a 
palmos de comprimêto , fica hua Ermida, ou Capella dedi- 
cada à Virgem Maria noffi Senhora com o titulo di Con- 
folaçaõ , aonde he venerada hua antiga , & devota Imagem 
da mefma Senhora com efle mefmo titulo. 

Da origem, & principio defla Santa Imagem não pude 
defeubrir coufa que declare com certeza de donde veyo, ou 
quemnaquelle lugar acollocou: nemdofeuarchivocon- 
íla nada que mepudeíle dar luz à minha diligencia. Só me 
deraõ huas tradições , em que efta Santa Imagem viera em 
coTipanhia da Senhora a Grande, ou de Betancourt, que fe 
venera na Sè : & que de França a trouxera Martim Affonfo 
de Soufa,indo com hua armada a hum porto daquelle Rey- 
no, que fe chamava Betancourt. Dizem também, que o lu-r 
gar ^que a Senhora hoje tem, não era aquelle cm que nos 
princípios foy collocada j porque íe affirma eftivera em ou- 
tro lugar, aonde hoje fe vèhua pedra metida na parede que 
fervia à Senhora como de peanna,ou repreza de hum nicho 



24° Santuário Mariano - 

emqueeílaya. E dizem outros que deite lugar afresladára. 
flua Senhora de quem não fabem dizer o nome , a qual com 
a occafiaõ de ter hum fonho de que fea marido hia a pade - 
cer morte natural , & afrontofa / lhe edificara aquellaCa- 
pella,&que nella acollocára. 

E acerecentaõ outros, queefta mefma matrona infM- 
tuiranaquellaCafa hua Capella com obrigação de nella fe 
dizer Miífa aos que hiaõ a padecer morte pela jufiiça % que 
femprepaflam por aquelle lugar paraofupplicio-.emacçaõ 
de graças, fem duvida, de lhe livrar ao marido doscffeitôs 
daquelle fonho. Porem tudo ifb tenho por apócrifo, & 
patranhofo; porque não ha alíia tal Capella, nem Capelíão, 
& a Mila que fe diz aos juíHçados, a manda dizer a Miferi- 
cordià , & para iíTo dá a hum Clérigo hua efmola , para que 
tenha o trabalho de efpeíar que o padecente chegue àquelle 
lugar. E os Irmãos da Senhora da Confolaçaõ fazem de 
caridade a defpeza de cera , vinho , & hoílias para eílas 
Miffas. 

Reynando ElRey Djoaõ o HL cõ os muy tos milagres, 
que efta Senhora, que he a Mãy, & a confolaçaõ dos pecca- 
dores,obrava,feacendeomuvto a devoção para com cila, 
& fe lhe erigio então hua grande Irmandade, que ainda hoje 
perfevera,febem diminuída jà do antigo fervor ;erigioíc 
efta no anno de 1 554. porém o CompromiíTo começando- 
fe logo, fe acabou no anno de 1 $66. &: foy confirmado pelo 
Arcebifpo de Lisboa Dom Miguel deCaftro, no anno de 
1 592. Tem Capítulos ordenados com grande piedade; mas 
de tudo jà hoje fe obferva pouco, ou nada. 

A Senhora fem embargo de fer de efcultura formada em 
pedra, he de grande mageftede, & de rara fermofura, & af- 
íim infunde em quantos acqntemplão grande veneração, 
& refpei to- He de muy to grande eílatura; porque tem mais 
de oito palmos ; mas não diminue nada eíia grandeza a ma- 
geflade , antes a augmenta. Sobre a efcultura a ornão com 

ricas 



livro l Titulo XLIX. 241 

ricas roupas : he fervida com muy ta devoção; & todos os 
moradores daquellc dcflrito a tem grande com efta miferi- 
cordiofa Senhora. Feftejaõ-na em a fegunda feira depois 
da Dominica ia Albis, que he o dia próprio da Senhora da 
Confolaçaõ, ou dos Prazeres. 



TITULO XLIX. 

€ Damiiagrofa Imagem da Senhora das Kecefidades de 
Alcântara. 

ANeceífídade, a pobreza, 8c afalta do necefTario,Fíe o 
rmt s forte, & o mais abfoUito império, que defporíc a- 
mente domina febre os mortaes \ naõ ha coufa tam difficul- 
toía , & tam árdua à natureza, q a naõ renda , & a nam obri- 
gue, naõ por vontade , mas por força, à duriffima iey da ne- 
ceffidade - A neceílidade he a que leva ao foldado à guerra, 
& o faz fem temor dos perigos efcalar afmuralhas. A ne- 
ceíTidadehe aq engolfa ao marinheiro nas ondas do Ocea- 
noy ella lhe faz fotrer os perigos, defprezar os naufrágios. 
A necííliiade he a que faz q o lavrador naõ tema as ngres, 
& os regclos do inverno ; nem o fegador as calmas do eftio. 
Até o ladrão , que defde o primeiro paflb com que aíTalteou 
os caminhos > & começou a caminhar para a forca , fe ao pé 
delia lhe perguntaíTem quem o trouxera àquelle miferável 
eftado , refponderia com o laço na garganta que a neceilida- 
de: & para que ninguém fe admire deite grande poder da 
neceffidade lebre todos; a razaõ he a que d à o Sábio; porque 
lodosos outros poderes faõ fogeitos às kys, & fó a necefli- 
dadenão tem ky : ISLeceJffitas caret lege. 

Aííim como os Sábios dos Perfas , & Medos deraõ o 
principadíído poder à verdade :aífimosGregos,& Latinos 
mais fabios que elies , fobre a mefma controversa, o deraõ 
•-.. "iom. I. Q^ ao 



i^ Santuário Mariana 

ao amor ; porque efles differam : (Mima Vmat amor. E não 
ouve naçaõ tam barbara ,que fenão aliflaífe debaixo delia 
fentença. Mas fe no mefmocafo concorre o amor, & a ne- 
ceffidade, quem ha de vencer? Claudianoodiífe; 
^aupertas mefceVapremityblanduíque Cupido; 
Sed toler anda f ames, non tolerâncias amor. 
Quiz dizer o Poeta : Se alguém fe vir apertado de hua parte 
da fome , 5c da outra do amor ; com a fome fer cruel , 5c o 
amor brando , a fome he tolerável. Porem eu differa que 
cile Poeta nefia occafíaò devia ter bem jantado , quando 
diíTe: Se à t okr anda f ames, non tolerandus amor: & não fou- 
be o que diffe : porque quando concorrem juntos o amor , 6c 
a fome; a fome triunfa do amor, & vence ao que tudo vence. 
Bem o confirma a Efcritura , quando nos relata a fome 
que fe padecia em Canaan, donde mandando Jacob de onze 
filhos que tinha , a dez aoEgypto a bufcar pam; & que. tra- 
zendo- o efles para alguns dias coma obrigação delçvartm 
lambem a Benjamim, quando foffem bufcar mais • como 
Jacob amaífe aBétijamim fobre todos os mais filhos &fi- 
zefle fobre eí}a propofla grandes extremos: inflando os 
mais Irmãos , a tudo Jacob reíiflia; mas comovo apertarão 
córnea neceffidade, ntó teve que refponder. Em quanto du- 
rou ô pam, eíteve Jacob forte,mas tantoque fe acáhpu^diífe 
aos filhos: Si c fie neccffi ejl facite quod yultis. Jà que affinvo 
pede a neceffidade, fazey o que quizerdes. 

Mas ^uem haverá que poíTa vencer a efle tam cruel , & 
pederofo contrario da neceffidade f Maria Santiffima , que 
*trn\ he fó a que com o feu poder pode vencer todas as noíTas 
fir. 7. nccc /fidades, & miferias: ella he a que vence a fome , & a que 
biTIpo €Xtin g UGa &de,aque vence a pobreza, & a que detferra as 
t*hp. " enfermidades, as moleftias , & as affiiçèes ; affim o acclama 
u.sl ° Mellifiuo Bernardo, dizendo ,que para tudo achará em 
gnum Mar *a remédio a noífa neceffidade: Maria omnfbus omma 
&t. falta ejljapimibus , <$• mftpknúbus copkfijfma cbaritate 

<hfc- 



Limo I. Título XLIX> 143 

elehetricemfefeat y ommbm mifortcordi^finum aperit , ut 
de pl.emtnaineejM accipidnt uniVerfi. Só Maria com alua 
piedade nos acode no temporal, & noefpiritual; porqufc 
naõ fó nos alcança o remédio nas neccflidades.do corpo; 
mas oquehemais,nasneceflidades da alma : affim o diz o 
mefmo Bernardo: Sitpittatistu<tipfam quam apud 7)eum serm. 
gradam hmnifti> notam fawe mundo, reis veniam, mediei- 4. de 
nant*gris ypuftllis cor de robur ,affliétis confoUtionem^pe- AJfumf* 
riclitantibiu adjutorium . 

A todos geralmente acode , & rerçiedea efta Senhora 
cm fuás neceífi Jades. Bem o experimentarão dous eafados, 
aquém a May deDeos poderofa fobre todas as neceffida- . 
des , naõ fó IJies deu a vida , & confervou a faude ; mas lhes 
mmiltrouo fuítento , & naõ foy fó por algus dias , mas por 
todos os que vi veraõ; & ao depois na hora de fua morte,ain- 
da os livra ria d* mayor neceffidade, & do mayor aperto, al- 
cancandolhe com a fua interceífaô a gtoria. 

Pelos pinos de mil & quinhentos, & noventa & nove, 
ouve na Cidade de Lisboa huma taõ terrível pcfte , & mor - 
tal contagio , que dcllc morriaõ cada dia fetecentas, & mais 
peffoas ; por cuja caiifa , todas os que puderaõ fugir da Ci- 
dade a lugares índios , & livres deite cruel açoute do Ceo 
o fízeraõ ; entre eltes havia douscafados em a Freguefia dos 
Anjos , & ambos tecelões , os quaes com o temor de que a- 
quella cruel parca lhes tiraífe as vidas, como havia feito a 
muitos dosfeus refenhos , deixando o feu pobre cabedal 
fe retirarão à Ericeira , aonde aífiftiraõ por alguns tempos. 
Freqtjcntavnõ cites dous confor te shuma Ermida deNoSTa 
Senhora , que cm algu tempo devia também fer cafa da Saú- 
de , & a Santa Imagem, que nellafe venerava, era invocada 
também com o titulo da Saude^feliz prefagio de que lha ha- 
via de confervar illefa, para com cila a fervirem) devia fer a 
Ermida pobre, & citava em parte muito folitaria. Aqui hiaõ 
os dous cafados a encomendaríè à Senhora, que eraíma- 

Qjt gem 



244 Santuário Mariano 

gem de grande fermofura., & devo^aõ, fe bem mal affiíhd^ 
& fervida com pouco culto y & muita pobreza ; & por efta 
caufa lhe fi-zeraõ voto > que fe os livraffe do contagio, a ftr- 
viriaõ ) & feriaõ feus perpétuos ermitães. 

Paífada aqtiella tribulação , & ferenados os ares daquel- 
la maligna infecção , ferefolvèraõa voltará fua terra. Lem- 
bra vaõfc d o voto, Scdefejand^cumprilo^aíTentàraõ conir 
figo levar a Senhora > para que em Lisboa lhe pudeíTem fa • 
zer huma Ermida aonde foíTe venerada •, & para a poderem 
fazer mais a feu fal vo, a recolherão em hum faco>para aíTim 
disfarçarem (femduvida )melhorofurto > &apuzeraõem 
hum jumento y trazendoa aermitaa diante de íi ;&comefta 
pérola preciofa , & mais rica que todas as que fecolhtm nos 
riosdacofk daPefcariaemaOriente, fefahiraõdasprayas 
da Ericeira ,&ít vieraô de mandar outra vez a Cidade de 
Lisboa y affeníando em osârrebaldcs doOccidente aonde 
chamaõaPampulha* Aqui (ao que fe entende movidos por 
Eeos, queaffimodifpunha^paramayor manifeílaçaõdas 
fuás mifericordias; efcolhéraõo íitio de Alcântara 7 em que 
ao prefente he venerada; no qual morava huma devota Ma- 
trona chamada Anna de Gouvea ; bufcáraõna os dous con- 
fortes > &deramlhe conta do feu intento, pedindolhe para 
execução delle/oíTefervidade lhes dar humpedaço de chaõ 
em qiie pudeíTem levantar à Senhora huma Ermida 5 & como 
erapiedofa, veyo facilmente em tudo o que lhe pediaõj & 
muita melhor o faria vendo a belleza ? & fermofura da San- 
ta Imagem.. 

A Icançâda a licença tratarão de lhe erigir cafa > quc feria 
fem duvida de efmolas; & ainda affim fahio bem pequena, & 
Kmitcda. Feita a Ermida, eollocáraõnella a Santa Imagem; 
& deliberando no titulo que lhehavkõdedar , achàraõque 
ferra muito próprio odasNeeeffidades; Scforaõ tantas as 
que logo remediou ,& os milagres que fez,, que podemos 
crer foy ordenado tufo pelo Ceo, A'vifia das maravilhas 

que 



Livro L Titulo XLIX. 24J 

<que Deos alli obrava ,corneço i a concorrer a gente, & tam- 
bém algumas efníolas 7 com que os pobres Ermitães reme- 
diavaõ a fi,& acudíaõ ao altar, & à alampada da penhora. En- 
tre os milagres que o Senhor alIiobrou,<3co pfimeiro que fe 
pintou , & que ainda hoje exifte pendurado na Capella , he 
efíe que agora referirey. Havia em Lisboa hum tofador de 
panos , chamado António Rodrigues ; tinha eíle huma filha 
menina de fete annos de idade j a efta lhe deu em o de 1 61 o. 
íium accidente de parleíia taõ cruel , que a menina ficou naõ 
fó tolhida ,mas fem falia; &affimperfeverou porefpaçode 
féis meies com grande magoa de feus pays: no fim defle 
tempo ) parece lhe appareceo a Senhora, & lhe fallou , man- 
dandolhe diííeíFeafeus pays, alevaíTem a NoíTa Senhora 
das NeceíTidades de Alcântara j affim o fez , & foy a primei- 
ra vez que a ouvirão faltar depois do accidente : mas dito if- 
to, ficou muda como até alli eíUvera. A o outro dia refolve - 
rôô os pays comíigo irem à Senhora, a pedirlhe as melho- 
ras de fua filha ; levaraõna nos braços , & chegando à porta 
da Ermida da Senhora , & reconhecendo que moítrava al- 
gum alento, a puzeraõ no chaõ , & e!ia fe levantou, & foy 
pelos feus .pés a téo altar da Senhora , aonde acabou derc- 
ceber perfeita faude & a fua falia.. 

Eíle milagre ( que por incúria , & defeuido próprio da 
noíFa Nacaõ fenaõ autenticou) fez com que fe accendeífc 
com mais fervor a devoção para com a Senhora. Outra ma- 
ravilha fuecedeo logo depois deita 9 & foy, que vindo huma 
inulher muy laflimada aencomendarfc à Senhora , &a pe- 
dirlhe remédio em huma grande neceílidade cm que fe 
via , & pedindo à Ermitoa lhe quizefíe abrir a Ermida pa- 
ra 'molhar no azeite da alampada hum lenço, nunca a Er- 
iròtoa oquizfazer , defeulpandofe com eftar muito oceu- 
pada, & que naõ podia. A viíla difío fe foy a mulher, & pof- 
ta de joelhos à grade da janelinha que entaõ tinha y & ainda 
■agora tem , começou a chorar , & a pedir à Senhora lhe va- 
Tom. I. Q^| leilb* 



%^6 • Santuário Mariano 

leffe. Reparou efta , que a alampada íe havia apagado :& af- 
fim voltou outra vez à Ermitoa a dizerlho, &que a fo-fe 
accender , para que a Senhora naõ cftiveííè femluz;. o que 
ella logo fez , dizendo ,. que íb o ir aecender a alampada a 
obrigaria a deixar o q fazia. Foy, &: abrio a porra > & depois 
de entrarem ambas > viraõ accenderfe a alampada por íi rncf- 
ma (tanto como iílo he a piedade daquella miíericordiofa 
May y em beneficio daquelles,que com devcçrõ ? & fé a bu£- 
caõ emfuas nectffidades; pois para que aqudla íua devota íe 
naoíbííe defconíolada , difpoz tudo iflo,-)& que o azeite 
delia começava a ferver cm tal forma, que de r^mandoíe do 
vidro, & depois da taça da mefma alampada, que hrtvemea- 
te encheojfe começou a derramar na Ermida em tanta quan- 
tidade > que correo até a porta em rego. 

Muito fe celebrou efie milagre > mas também fe naõ au- 
tenticou ; comtudo deentaõ até hoje fe faz todos osannos 
huma fefta à Senhora em memoria delle na primeira oitava 
do Efpirito Santo > que fe intitula a- fefta do milagre do 
azeite >•& mo Sermão fe refere fempre a maravilha. Logo 
que elle fuecedeo , fe inftituío pelos navegantes da carreira 
da índia huma luíirola Irmandade , que ferve à Senhora com 
devoção ,.& grandeza. A primeira ceuíà que fizeraõ os Ir- 
mãos y foy edificar à Senhora outra Ermida mayer , & mais 
capaz y muito bem ornada y & azulejada r que íe acabou no 
annode 1613. como confia de huma pedra que eftá fobre a 
porta da mefma Igreja da parte de fora. 

Depois comprou Pedro de Gaftilho, do Confelho de Sua 
Mageilade y & do Geral do Santo Cíficio r a Anna de Gou- 
vea as calas em que vivia, ( que ficaõ mifticas com a Ermida) 
que as renovou x & alargou mais : & como o aííento da Er- 
mida pertencia às mefmascafas r tomou para íi , & para feus 
herdeiros o Padroado , erigindo a Capella mòr á fua culta, 
(menos a tribuna que he grande ,- & eípaçoía y toda guarne- 
cida de rica pintura da vida da Senhora 3 & 4e talha doura- 

daj 



Livro L Titulo XLIX. 247 

da j obra da Sereniífima Rainha D. Maria Ifabel de Saboya, 
&ella mandou fazer também os quadros dote&o da Igre- 
ja; ) & inflituío também huma Capella que aprefentaó Teus 
herdeiros, & fucceífores do Padroado, com MifTa quoti- 
diana. E no annode 1 659. fe acabou a obra , como fe ve de 
humas inferipções que etfaõ nos presby terios. 

A Senhora eftá collocad^ em hua rica charola,que fica no 
meyo da tribuna ;he grande > & de quatro columnas , & no 
meyo tem hum Altar, &fobre elle fica a Senhora mais le- 
vai tada em humapeanha. A Imagem da Senhora tem fete 
palmos grandes, fobre o braço efquerdo ao menino Jefus, 
& na mão direita huma vara de prata com eaíiiçal, em que 
lhe accendemhuma vela; hedetaõrara fermofura, queos 
que a vaõ viíitar naõ fe podem apartar da fua prefença ; hede 
roca,(perfuadome que quando os Ermitães a trouxeraõ naõ 
trazia roca , & vinha fó o meyo corpo : porque he taô gran- 
de y que a vir inteira podia fer vifto o furto, ) & de vefiido s, 
& tem muitos, & muito ricos, dadivas das Rainhas, & Se- 
nhoras grandes da Corte; efiá toucada à figana , & fobre hua 
ricacabtlleira muito loura, & natural, lançado hum volan- 
te de prata , que lhe parece ricamente , & fobre elle huma 
rica , &: grande coroa de prata dourada com muitas pedras; 
& no peito lhe põem alguma joya , ou brincos efmalta- 
dos como flores : & todos os ornatos que tem a Senhora, ef- 
taõ livres dos artifícios com que a vaidade ainda às Imagís 
fagradas naõ perdoa nefks tempos , em que ella fe tem fei - 
to taõ poderofa no mundo. 

He hoje grande a frequência em a fuacafa, & principal- 
mente nos Sabbados , &. Domingos. Nos Sabbados de ma- 
nhaã a hia viíitar , & ouvir Miífano feu Altar o Sereniffi- 
moRey Dom Pedro ; & de tarde a Rainha Dona Maria So~ 
phia. A Rainha Dona Ifabel de Saboya tinha também gran- 
de devoção a eíia Sanfiííima Imagem; & bem o meflrou nos 
ricos veitidos que lhe deu,& outras muitas pecas ricas-Tcm 

0^4 mil ~ 



24& Santuário Mariano 

muita prata , ricos ornatos,& muito bons ornamentos. Fef- 
tejaõna no dia de fua Natividade a oito de Setembro» O Re- 
verendo Padre Fr. Manoel de Saõjofeph o velho, da Or- 
dem da Santiflima Trindade » nos deu a principal noticia 
defta narração; porque eonheceo na Pampulha huma neta 
<los Ermitães cue lho referia- 



TF I T U L Q L. 

T)<ilmagem deN( (fa Senhora do Rofario do Domini- 
cano Convento da Rufa de Lifboa. 

v*!tú TT ^creve J a cobo Boffio que os rofaes de Jericó na© temi 
r rta tLefpinhas,& que fuás rofasnaò fóeraõviftofas , &ga~ 
iT.ham. Ihsrdasymasqucefpiravaõfragrancias^&que tinhaõcadaa 
^ V * huma delias cento & cincoenta folhas. He Maria Santiífima? 
em a devoção de ftu Rofario verdadeira rofa de Jericó , to- 
da fermofa, & toda fuave , & para osque devotamente a fer- 
vem com a devoção do feu Rofario , alem de os livrar das 
efpinhas dos tráfegos ,& tribulações do mundo., lhes com- 
munica no fuave de fua fragrãeia favores com a fua aflíflen- 
eia ,& alívios em todos os feus trabalhos, &humas certas 
efperançasdefua falvaçaõ : bem o experimentarão aquellcs. 
de quem agora fallarc mos neíie titulo. 

Luisde Brito, Adminifirador dos morgados de S. Lou- 
renço de Lisboa , ík de Santo Eficvaõ de Eeja^foy cafado fe- 
gunda vez com D. joanna de Ataíde, filha do Senhor de Pe- 
nacova. Era D. Joanna devotiífima de Noífa Senhora do Ro^ 
ferio, & cc mo naõ tinha filhos, tratou de offerecer a Deos 
a fazenda do feu dote , que era muita , &boa em aquellcs 
tempos. Naõ goflava o marido deita refoluçaõ ', porque per- 
tíendiaqueD. Joanna IhedeixaíTe a fua fazenda para osfi- 
13ios que tinha c!o primeiro matrimonio : mas como Deos 

havia 



Livro L Titulo L~ M9 

ha v'a aceitado aoírem que fe havia feito a fua Santiffima 
Mãy , para livrar a fura ferva das contradições, & vexações 
do marido > fez que lhe appareceífe em fonhos Szõ Domin- 
gos y & que com hum fernblante muy fevero o reprehendef- 
íe , & intimidaífe para ns© impedir os fantosdtfejcsdefua 
mulher: de que temerofo Luis de Brito naõ fóveyo em tu- 
do o que a mulher intentava j mas elle fe offereceo também' 
para fer par te na mefma obra , dandolhe a fua terça ( fuppo- 
&o q efla naõ trve effeito. ) Desfeitos todos os obftaculos> 
offereceo Dona Joanna' quanto tinha à Senhora do Rofario, 
fundandolhe hum Convento para treze Religiofas % que 
haviaõ de fer da Ordem de Se© Domingos j cujas fundado- 
ras fiihiraõ dos Conventos de Aveiro ^Scde Saõ Domingos 
das Donas de Santarém. 

Fimdoufe efte Convento ao pè do Caítelío para a parte 
do Occidenre , & como efiá em lugar alto ,6c imminente ao 
Rocio y fica com huma è^cellehte vifla ; porque delle fe def- 
cobre a melhor parte da Cidade. Fezfe efl a fundação com li- 
cença délRey Dom Manoel, emquenaõfaítàraõ também 
os feus favores :. teve principio em 29. de Novembro de 
151 9. interpondo a fua authoridade o Doutor Brás Neto» 
(que depois foy o primeiro Fifpo de Cabo Ver de)como Juiz- 
Apoílolico, aquenioPapa LeaõX. cõmetcoeííe negocia. 
Entre as Imagens que a fundadora deu para o íeu Conven- 
to (que adornou de ricas peças, &preciofos ornamentos^ 
^uenolafíimofofogocue padeceo acuellacafanoanno de 
1 670. fe ecn fornir £ô y & fó a perda da Sacriftia fe avaliou 
em quarenta mil cruzados ) foy huma com o titulo do Rofa- 
rio , q fem duvida a tinha cm o feu oratório \ efla fe collocou 
na Igreja , & lèm embargo de que alguas Religiofas dizem q 
tinhaõ tradição de qeflivera no Altar collateral da parte do 
Euangelho,aonde hoje cita outra Imagem da Conceição ; eu 
julgo que eflava no />ltar mor > porque nelle perfevera hoje 
outra com o mefmo titulo,& a cafa era dedicada a efla mefmai 
Senhora- Co- 



s<jo Santuário Mariano 

Colíocada a Santa Imagem no Altar , começou a obrar 
Deos por m :yo da fua interceifaõ tantos milagres, & mara- 
vilhas, que as Fyeiras , (em duvida ? como eraõ fantas , por 
evitarem a inquietação que a gente lhe caufava com as fuás 
romarias , ou como eilas dizem, pelo temor de lha poderem 
furtar) a rec Mêraõ para dentro, 5c colocarão em hua Ca- 
pella, qcomo diremos ; & porque a Igreja,era dedicada à Se- 
nhora do Rofario , naõ ficaffe Icm a fua Patrona y mandarão 
logo as Religiofas fazer outra Imagem,que he a q ao prefen- 
te fe venera no Altar mòr^pela qual o Senhor começou a fa- 
zer também muitas maravilhas , que ainda hoje experimen- 
ta toda aquella Communidade ; & defíe argumento referem 
as Religiofas muy tos calos , em que naõ poífo deixar de re- 
ferir alguns* 

Tinha tomado à fua conta hua Religiofa chamada Joan- 
najde Jeíus feftejar todos os annos a Senhora : & nette dia 
o fazia com grande dií pendio , naõ fó no muito que gaftava 
na Igreja de armação ,cera ,& mais cou as pertenc ntes ao 
Altar ^ mascoma Communidade, em regalos, & propinas 
que a todas dava naquelle dia. Tinha efia Religioíà hua íò- 
brinha , que fe chamava Mariana de Saõ Domingos , muy to 
enferma ; & aleijada de huma perna, &com humamaõ tam 
apoflemada , que lançava de fi muitas matérias afqueroias, 
& fétidas ; 6c os médicos intentavaõ íazerlhe huma grande 
cura , porque affim o pedia a queixa : porem ella a nada fe 
queria iugeitar, antes de pairar a fefla da Senhora do Rofa- 
rio, No Sabbado antecedente ao Domingo da feita, lá pela 
madrugada aouvioa tia gemer ,& fufpirar; & com o cui- 
dado no que teria começo 1 a chamar pela fobrinha,pergun- 
tandolheoque tinha. A eilas vozes acordou dizendolhe: 
Perdoelhe Deos Senhora em me chamar agora , que efiava 
vendo a Senhora do Rofario veftida de azul , & com hum 
manto encarnado todo cheyo de el í relias , & com o menino 
Jefusnos braços, que mejdrzia : Levantate, & vay fe vir,& 

aju- 



Livro L Titulo L. tft 

ajudf r a tua tia íeni moleta. A y viíla dií o , lhe difTe a tia com 
grande fé :Pcis levar tay vos ,& experimentai o favor que 
a Sei hora vos fez. Levantcuíe logo faa de tedo , aífim da 
aíeijpõda perna , cómodo achaque dam^õ, ficando ícm fi- 
nal algum do que havia padecido até o dia aniecedente,gaf- 
tando aqueííe tm ajudar a fua lia taõ rija , &taõ valente* 
que fe achou com forças para tomar grandes pezos à cabe- 
ça ? como eraõ es taboleiros de bolos , que fehaviaõdedar 
a repartir pelas Rcíigiofas > & outros ferviços daquella fef- 
ta \ & fobre ifio íoy affiítir nocoro>& rezar com asmais^fi* 
cando rrs Religiofas admiradas do q viaõ , & na perfeita fau- 
de que moflrava dépcis de tantos annos enferma. 

Hurnamoça y que ainda hoje vive naquclle Convento^ 
cflavagraviílímamentc enferma ,& de hum achaque deque 
fe naõ tfperavaõ melhoras algumas ; & certamente por efia 
caufa a poriaõ na rua : efta no feu coração íè encomendou à 
Senhora do Rofario ,. pedindolhe lhe valeíTc neíla fua affii- 
çaõ. A Senhora o fez de maneira , que repentinamente fe 
achou faa ,. boa,& livre de todas aquellas grandes queixas 
que padecia, de que obrigada a moça começou de entaó até 
hoje afervir a NofTa Senhora com tanta devoção, &fervor> 
que tudo quanto tem defeja empregar em feu obíequio, &■ 
í flim com o que adquiria pelo feu trabalho, & induílria, lhe 
fez tres veflidos , dous de preciofa tela , cu borcado , 6c 
todos ríquifTimamente guarnecidos de rendas de ouro,& 
prata , & hum de feda ; & importando tudo muito dinheiro* 
íempre acha faz pouco pa a o muito que fe reconhece obri- 
gada aos favores deita grande Senhora, 

A Madre Sor PhifipadoEfpirito Santo (como refere a 
Padre Fr. Alonfo Fernandes na fua hiftoria) padeceohuma 
grande enfermidade , que achegou às portas da morte , & 
o acometimento domai foy taõ forte , & taõ furiofo , qu^ 
no terceiro crefeimento fe entendeo' naõ efeapava. Trou- 
xeraõlhe â celia a Imagem da Senhora do Roíario; como* 

pod^ 



ijz Santuário Mariano 

f)odefe entregou em fuás virginaes mãos^, promettendodc 
he rezar toda afua vida, Nomefmo inftante alcançou re- 
pentina , & rnilagrofa faude , com admiração de todas as 
Reíigiofas;& com novos, Scfervorofos affedos de devo- 
ção íè empregava em feu ferviço. 

Nò mefmo Convento fe achava nomefmo anno(que foy 
o de 1590.) a Madre Sor Ifabel da Coroa , com h uma grave, 
& perigofa enfermidade , & querendo o barbeiro fazerlhe 
huma fangria em hum braço } julgando que feria a vea ; deu 
o golpe em hum nervo , nil to fe lhe offendeo logo o braço, 
& no lugar da ferida fe lhe fez hum tumor taõ grande como 
huma noz. Tevefe por defefperada a cura , & afflida a Reli- 
giofacom tal fucceífo, acudioa valerfeda rnilagrofa Senho* 
radoRofario, prometendo de lhe rezar dalli por diante o 
feu Rofario. Pedioque lhe trouxeíTem o azeite da fua alam- 
pada y & ungindo o tumor > & lugar da ferida , no meímo 
ponto fe desfez ., & refolveo toda a inchação , & cobrou taõ 
inteira íàude naquelle braço 9 que nelle reconhecia mais 
forças que no outro. líío baila paraonoífc intento; por- 
que feouveífe de referir as maravilhas que Deos obra por 
meyo deita fanta Imagem y ou os favores que faz pela inter- 
ceííaõ de lua Santiffima May P feriaõ neceíTarios muitos vo- 
lumes. 

AsReligiofasdaquellaCafa tem grande devoção com 
efia Senhora , & lhe rezaõ o feu Rofario todos os dias com 
muito fervor , divididas em varias turmas, & por meyo del- 
le fe referem na hiííoria de S. Domingos de Portugal notá- 
veis milagres ? & prodígios , que Deos tem obrado naquel- 
leConvento. Só hum apontarei, quetrazentre outros o 
Padre Fr. Luisde Soufana meíma hiftoria part.}.liv.2.cap* 
6.& foy^que no annode 1 622.abrindofe a fepultura da Ma- 
dre Sor Ifabel da Piedade , tinha eomido a terra , & o tem- 
po quantocomellafe enterrou ;& deixando osoííòs fecos, 
fe achou fó com elles o Rofario que levava ao pefcoço, en- 
fado 



• Livro I. Titulo 'Li %j$ 

fiado em hum cordão ck retrós aíionaJo , taõ iam, & taõ in- 
corrupto , affira o cordão, corrn ns contas, queeraõde pàoy 
que mima Rdigiofa , que as ouve às mãos , rezou por ellas 
muytos tempos. Ifto mefmo fe acha em todas as fepulturas, 
que fe abrem naquella caía; vendofe os Rofarios enfiados 
fãos,ôc fermofos. Em que fe vè o quanto a Senhora do RpíV 
rio fe paga da grande devoção com que aquellas fuás fer- 
vas orezaõ;& delia matéria pudéramos referir muito. 

A Imagem da Senhora he grande, & deeftatura quaíi 
natural ; porque terá mais de féis palmos; eflá collocada no 
Altarmòr;he de veflidos,&eftá com as mãos levantadas; 
&he de muito mageftofa , & devora prefença. Efcreve da 
Senhora do Rbfario o Padre Fr. Luis de Soufa na fua hiíío- 
ria,p. ^.liv. 2. cap. 6.&liv.s-cap. 82. o Padre Fr. Alon- 
foFernandezna hift.doRofarioliv. 6. cap. 38. & 59. 



TITULO LI. 

Da Imagem de Nqffa Senhora da AJfumpçaõ que fe 
Venera no mefmo Convento da Rofa. 

JA fica referido no titulo antecedente, em como Dona 
Joanna de Ataíde , quando fundou o Convento de Nof- 
fa Senhora da Rofa.,oudoRofario, o enriquecera (com a 
fua muy-ta piedade; de fermofas Imagés , & de preciofas, & 
ricas peças , & alfayas ; & q a primeira, & principal Imagem 
da Senhora que neíle coílocára(que fe mereprefenta foy 
no Altar mòr , como protedora que era da mefma cafa )fo- 
ra a da Senhora do Rofario,pcla qual começou logo a obrar 
Deos tantos, & taõ grandes^milagres, que temerofas as Re- 
ligiofas lha fumíTem, por eíla caufa a fizeraõ recolher pa- 
ra dentro di claufu ra. Depois q a tiveraõ em as fuás mãos, 
lhe erigirão huma rica Capella no antecoro > aonde todas as 

Reli- 



15:4 Santuário Mariano s • 

Rcligiofas apudefíem fervir, & louvar de mais perto 5 af- 
fun quando entravaõ a rezar, como quando fahiaõ do coro. 
Defdequeacollocâraõ naquelle lugar , lhederaõ o titulo 
4a AíTumpçaõ/porque já haviaõ mandado fazer outra Ima- 
gem , para a porem no feu lugar da Igreja com o titulo da 
Rolario,) & como eftava comas mãos levantadas , julgarão 
que lhe quadrava bem eíle titulo. 

Os mefmos milagres, que por interceíTaõ defla Santa 
imagem obrava Deos na Igreja, começarão a experimen- 
tar as Religiofas também dentro no Convento, em benefi- 
cio de toda a fua cafa. De hua Rcligiofa referem as anciãas, 
que em hum dia,que fazia õ trovccns,fe fora com medo dei- 
les recolher na Ca pella da Senhora, para que cila alivraf- 
fc dos perigos , que às vezes fuecedem com os rayos que 
defpedem. Efiava efia Religiofa diante da Senhora , quando 
no mefmo tempo entra humxayo por huma chaminé que fi- 
cava íobre o antecoro , &CapelJa da Senhora ; & deícendo 
por ella abaixo , rompe o a parede, &cahio por entre a San- 
ta Imagem , & a Religiofa que efiava junto ao feu Altar. Ca» 
fo maravilhofo ! na Religiofa naõ fez damno algum; &na 
Imagem da Senhora , deixoulhe hum fínalzinho no rofio; 
que por vezes lho quizeraõcubrir, & naõ foy pcffivel, por- 
que logo fe manifeftava. Parece queria moítrar efia Senho- 
ra àquellas fuás fervas, que quempuzeíTe nella a fua 011- 
fiança , fempre havia de ficar livre em todos os perigos ; & 
que quando os ouvefle , queria ella padecellos em fi , fó pe- 
las livrar de todos : & por iífo queria fe viíTc , & perfeveraf- 
feaquelleíinaI,emtefiemunho de que nella teriaõ fempre 
amparo , & protecção. 

Havia na meima cafa huma Converfa , que fervia na 
Sacriftia ; a qual tinha para com efia Senhora huma grande 
devoção; 3c a llim cuidava muito doaccyo, & concerto da 
fuaCapella. Chegou o dia da fui fefia em quinze de Agof- 
to , '& à! em de concertar a Capella , & Altar com toda a per- 
feição, 



Livro I. Titulo LI. 15? 

feição, com muitas flores > & ramos ar tificiacs^ que os fa- 
zem naquella cafa com grande perfeição; lhepoz algumas 
joyas , & nas orelhas, huns brincos de ouro. Na noite de- 
pois da feita tirou as joyas , & porque lhe naõ pode tirar os 
brincos das orelhas, lhos deixou ficar, dizendo à Senhora 
que ella eftava muito carifada , & tam moída r que fenaõ po- 
dia ter em pè, que fe hia recolher , & que guardaffe bem as 
arrecadas , pois fabia muito bem que naõ eraõ fuás ; & com 
afuafíngelezaacrefcentou, dizendolhe, que fe lhas qui- 
zeffem tirar , ou furtar , que a chamaíTe logo. Foyfe a Con- \ 
verfa recolher muito defeançada nefta recomendação ; mas 
eílando no primeiro fomno a chamarão por três vezes , di- 
zendolhe: Maria da AfTumpçáõ acudi ao antecoro; já na 
terceira vez efiava defpcrta, 8c ouvindo as palavras ,levan- 
toufe com cuidado , &foy aonde lhe diziaõ; aonde achou 
humamoça fobre o Altar, qud tinha já tirado à Senhora 
huma arrecada da orelha y&etfava tirando a outra. Achada 
a moça com o furto nas mãos > pedio perdaõ à Converfa , & 
ella lhe diíTe o pediTeà Senhora a quem havia offendido; & 
nunca em quanto viveo defeubrio quem era a agreíTorajquc 
he baftante final da fua grande virtude. \ 

A efta mefma Converfa lhe fuecedeo ir hum dia muyto 
cànçada para a cel/a ,do grande trabalho da fua Sacriilia , & 
ferviço daCapella da fua Senhora, & parece quchiacom 
boa fome ; foy a hum almario aonde tinha hum pequeno de 
paõ d.ntro de huma pariella aonde o coftumava por , & def- 
cobnndoa naõ achou nada; foyfe a huma moça fua viíinha 
apedirlhehumpaõempreííado, & como lhe difíeíTeque o 
naõ tinha rccolheofe cutra vez a fua cafa muito defeonfo- 
lada; tornou ao almario, & afaftando a panella, reparou 
em que eflava muyto pezada; defeubrio- a , & achou dentro 
delia três pães muito fermofos. Defl as maravilhas tem fei- 
to a Senhora muitas; mas por ferem continuas, as naõ 
poemas Religiolàs em lembrança. A Senhora he também 

de 



ljó Santuário Mariano 

de vertidos , & de grande eftatura : dizem as Religiofás que 

he do tamanho de huma mulher , &que he de grande fer- 

mofura. 



TITULO LIL 

Da Imagem de Noffk Senhora das Mercês que fe Ve- 
nera nome/mo ConVe?2to. 



H 



E Maria Santiífíma Rainha dos Ceos , & da terra > & 
affim, como he grande Senhora, he muito poderofa a 
ília liberalidade : todos dependemos de fuás mercês , &el- 
la as naõnega a nenhum : ouvi a Bernardo fallando de fua 
Bem. generofa piedade : J§>«<e omnibus fuaVu ejt, omnibus mife- 
Qy ricordia finum apertt, ut de plenitudme eju* accipiant uni- 
AoL Ver fi > c ^h l ^ m redèmptionem, <eger curationem, triftis con- 
folationem ,f>eccator veniam. Por tanto fe os que devota- 
mente buícaõ aefla Senhora, & defeco alcançar de Deos- 
algumas mercês, roguem a Maria ; porque (tefíemunhao 
'Idem mefmo Bernardo que : tiihil nos T)em habere Voluit , quod 
fer. in per manm MarU non tranfiret. Jacobo Coreno fallando, a 
tfgilia efte propofito , dos grandes merecimentos defta Senhora 
2íativ. dizaflim: TSLondumerat, 1S Vcus propter ipfam populo If- 
Dom. Yaelttico non deerat ; ipfa non rogabat y ó"Deti4 propter ip- 
In-fuo famerogabat; nondum exittebat , &multis , ut ita dicam, 
Cljh L ajfiftebat. Antes de ter ferefta poderofa Senhora já logra- 
M* 1 3* va favores , & mercês fuás o Ifraelitico povo; porque fe- 
gundo o mefmo Bernardo , &c fegundo aquelle Rabino cha- 
Ber». ma do Acados: Deus propter iftam nobilem creaturam faU 
fer.6i. y a yip protopat 'entes noffros de prima eorum tranfgrejfio-. 
- &ne. N.GZ de diluvio inwaante* Abrabam de HurCbald^o- 
rum\ Ifatic de Ifm.iek; Jdcob de Efaw, IJraeltticum popu- 
lum de dJS/jpto , 1? de impia Tbjraonisjnanu y de mau 

ruir o, 



Livro 11. Titulo LU. tyr 

rubro y de capti vitate Babylomca,*? Àjfyriornm; *Dà\>idem 
de Leone, de Goliat ,& de Sauk infeJíiJJÍmo ejus hofte. Om~ 
nta denique beneficia âpontinoDeo collata funt ,propter 
hujufmodi bemdtãa Virginis YeVerentiam , & amnrevt. 
Finalmente pela reverencia , & amor deíía noííapiedo- 
fa Máy nos concede Deos rodas as mercês que lhe pedi- 
mos, &q lhenaõ fabemos pedir. Ehe tanto o q devemos 
aefla Senhora, que diz o meu Sam Fulgência, que jà os p H igj. 
Ceos tiverão arruinado ,& a terra cftivera perdida, fe 4 .-^ 
cfta Senhora com o feu poder > & merecimétos os nam fu MnhoU 
ftentára: Càtlum > & terra jam dudum rwjfent ,fi Mana 
prectbus non fuftmtaffet. Todas eítas mercês experimen - 
taõ as Religiofas do Convento de que agora tratamos, da 
fua milagrofa Senhora das Merccs. 

No referido Convento Dominicano de noíTa Senho- 
ra daRofa fe venera outra devotiflima Imagem de Ma- 
ria Santiífima com o titulo das Mercês. Deita Imagem 
affirmâo as Religiofas , que também fora dadiva de fua 
fundadora. Eftá collocada emhuma muyto rica Capella 
detalha dourada, em o Coro baixo. Antigamente efta- 
va emhuma Capellinha doClauftro^& porque naquelle 
lugar nam eítava com toda aquella reverencia que fe 
lhe devia , a tomou por fua conta huma Rcligiofa pobre 
chamada Ifabel da Viíitaçam > &: fem mais tença que a da 
fua induítria;&era tam grande, &tam affedluofa a fua 
devoção , que afllm no ajuntar algumas efmolas,que vo- 
luntariamente lhe davaô; como também na grande ap- 
plicaçam com que trabalhava em fazer flores > para dl 
procedido delias augmentar a fua obra , & adornar a 
Capella da Senhora > padeceo muytas concradiçoens, 
defprezos,& injurias de fuás parentas, & de outras me- 
nos devotas; ella fe achava cada vez mais anciofa de 
fervir â Senhora ^<5^de ampliar ,&:eíkn der muyto nms 
a fua devoçam. Alem da rica Capella que lhe mandju 
Tom. I. R .lavrar. 



^8 Santuário Mariano 

lavrar , fezlhe ricos vefndos, huns de tela com ricos 
renglazes, outro bordado; & fendo tudo deconfidera- 
vel valor, a fua devoção ,&indafíria o difpunha ,& go- 
vernava de forte , que tudo lhefahia quafi de graça ;& 
cila mefma fe admirava , & o reconhecia por grande mer- 
cê ,& favor de noífa Senhora. Quando a reprehendião 
de querer fazer tanto, fem ter nada de tença, a iíto fe def. 
culpava com dizer fe não podia reprimir ,& que lhe pa- 
recia , que a Senhora a impelia , & a excitava a eflas cou^ 
fas. Fazialhe feflas com muy ta grandeza , & defpezaj 
mas para tudo a Senhora a ajudava. 

Sobre todas eflas coufas que fam tidas por milagre* 
& maravilha da Senhora das Mercês , que a eífe fim as re- 
ferimos; fam muy tos os milagres, & mercês queDeos 
obra naquella Cafa por interceífam de fua Santiflima 
Mãy. Deita matéria referem asReligiofas muytas cou- 
fas notáveis: porque nenhua chega à fua prefença com 
alguma pena , trabalho , ou afflição , que de fua prefença 
nam íaya aliviada-, & com efperanças do remédio. As 
noviças que fe acham fem dote para profeífarem, re* 
correm a eíta piedofa May, & ella logo toma por fua 
conta mover aquelles parentes de quem nada efpera- 
vam , 5c ordenam tudo em forma queellas confeguem o 
quedefejaõ^oque fevio varias vezes. Huma Religiofa 
muy to pfibre fahio de hum officio tam deftituida de ha- 
bito, & defaya^que nam eftava capaz deapparecer em 
publico. Foy à Senhora das Mercês, que lhe acudi(Te,& 
a remediaífe. Logo em breve tempo lhe veyo tudo fem o 
cfperar. 

Ha naquelle Convento huma cifterna , que poreftar 
fundado em aimminencia dehum monte, hecom a fua 
agua o remédio delle. No inverno do anno de 1696. fe 
encheo por três vezes , & fempre fe lhe foy a agua , com 
que ficaram asReligiofas padecendo muy to com a fua 

falta} 



Livro II. Titulo LIÍI. iyjí 

falta ;aquelía a cuja conra eftava acerca , fentida do que 
,asmaispadeciam,fefoyá Senhora a j&edirlhe remedi n ria- 
"quelia neceflidade ; & em feu nome foy à dilema , & lhe 
lançou dentro hua fita tocada na Santa Imagem : logo 
vedou a rotura , & fe vio ter tanta agua em todo o verão, 
queotiverão por muyto mayor milagre. Outros muy- 
tosdefta qualidade contaõ as Religiofas que deixo de re- 
ferir. A Imagem da Senhora he de grande cílatttra ,& 
quando a collocáraõ neíta novaCapella, lhe abaixarão 
mais a roca; he de*grande fermofura , & fe vé hoje com 
humrofto tão refplandecente , que as" Religiofas não fó 
a defeonhecern da que antigamente era; mas fe admiram 
de a verem tam differente, fem que mãos de pintor algum 
a tocaífe. 



jr^„ 



TITULO LIÍI. 

*Da Imagem de noffa Senhora das Necejidades do Con- 
vento do Salvador. 

Diz Sam Bernardo que em todas as neceffidades em 
que nos acharmos , que bufquemosnellas a Maria, 
que como piedofa Senhora em rodas nos valerá : Si tnfur- - -, 
giintventt tentatwnum ,Jiinc'nrras fcopulos tribulationum > ^^£1 
V*>ca Mar iam • In perteults >inanguHi)s , in rebus dubijs y*p. ' 
Mariam cogita. Porque em todas as neceffidades ^&tra- Miff^fc 
balhos fe acha efta Senhora prefente para nos valer, 
& para nos acudir. Que mayor neceílidade , que a que 
experimentavão os defpofados de Cana ? mas que de-' 
preffa a Senhora a remediou : Vinum mn bahetit \ Advo- 
cata mikrorum lhe chamou S. Boaventura : porque invo- 
cada dos peccadores , ainda nas mayores miferias } &: ne- 
ceffidades } não falta .cila piedofa Senhora das Ncceffida- 

R Z des: 



%6o Santuário Mariano 

dcs:porg efía Senhora hetoda noffa. Servirão Abranam, 
Ifaac, 6c Jacob a Deos , £c não foraõ elles os que tomarão^ 
ofobrenomedoSenhor, fenãooSenhorodosfervos; não 
íc chamarão Abraham de Deos , Ifaac de Deos Jacob de 
Deos : mas Deos foy o que fe chamou Deos de Abraham , 
Deos de Ifaac > &: Deos de Jacob; aíTim o diffe o mefmo 
Deos a Moy fesr Eço [um Uem Abraham , Véus Ifaac > & 
£)eus Jacob. Affim Maria Santiflima, fendo nòsosneccíli- 
tados^toma o titulo dasNeceííidades que padecemos, 
para que com o mefmo titulo fe obrigue a remediar as 
noifas neceílidadeS; como o faz, & como o veremos. 

No Convento Dominicano do Salvador ( do qual jà 
falíamos nostitulos 6. Sc 31. fe venera huma milagrofa 
Imagem da May de Deos com o titulo dasNeceífidades^ 
Sobre a origem deíla Santa Imagem 3 dizem asReligio- 
fasdaqueíla Cafa, que pelos annosde 1640. pouco mais, 
ou menos > hum Religiofo da mefma Ordem ? &morador 
no Convento de Almada , a mandara a duas Irmans fuás, 
Rdigiofas que tinha naquella Cafa, que jà fam defuntas 
ha muy tos annos. Logo que veyo lhe tomáraõ as Reli- 
giof s grande aífeição,& devoção pelo titulo das Neceffí- 
dadesiraas defconfolavãofe muytodeque eltanáo foffb 
fermofa* porem o Senhor, que íabecompadecerfe da nof- 
fa fragilidade , que fó fe paga ds fermofura externa , fem 
attender,que aquella Santa Imagem reprefentava aquet- 
Ia Senhora que toda ■hefermòfura :Tbfa pulchra. Ellelha 
àm n^grokrpcntc iContuhtetiamfplendorem. E foy de 
jr*dtta ç mc qU(C as Rcliai^s, feadmiravao de a ver tam bellá. 

E affim eítá ar traindo os corações de todas, que confeíTaõ 
ver neíla retratada a Mãy de Deos. 

A eita Santa Imagem recorrem asReligiofas em tor 
.das fuás neceííldades > & a experiência lhe moftra os 
poderes daquella grande Senhora. De huma Novi- 
ça fe refere que andando no Coro alimpando o > ai* 

■- > facu- 



Livro II. Titulo LIIL itt 

faclidindoo , deu nelie hua queda tam defatinada , q que- 
brou hum braço foraõ muytas as curas, & os remédios 
<jue fe lhefizeraõ>&p©r largo tempo ,& nunca ficou boa, 
com que não eitava capaz de profeíTar. Era tam grande a 
fuapena >que nãofoiTegava, (fobreamayordasdorcs v & 
queixas que padecia) foy-íè à Senhora das Neceffidades 
com muytas 1 agrimas j pediolhe lhe defle algum alivio , & 
afaraflfe,oulhcdeífe aquellasjnelhoras,q baflaffempara 
poder fer freira ,. & profeíTar. Succedeo ifto em dia de 
Pafchoa da Refurreiçaõ , que era a vefpora do dia em que 
coftumavaõ feítejalla. Recolhendofcnaquella noy te , pe- 
dio à Senhora fe lembraffc delia naquelle feu dia- Çafo 
maravilhofoí Amanheceo fem queixas nem lefaõ,&aflitn 
fe recomendou ao Pregador fizefle no Sermão memoria 
daqueita maravilha , como fez, & todos louvarão os po- 
deres daquella piedofa May dos peccadores. Profeffou , 
Sc continuou as Communidadcs com muyto fervor , & 
defejosdfc não fer ingrata ao grande favor ,<jue a Senho- 
ra lhe havia feito. 

£íla Santa Imagem eftà collocada em hua rica Capei- 
la própria fua, em o dormitório, na qual eílá hum San* 
tuario,&. muytas Imagens. He muyfo pequenina, por- 
que não rem mais que palmo,& meyo de altura. Tem nos 
braços o Menino Jefus^&he de veflidos. Fcítejavafe na 
primeira oitavada Pafchoa da Refurreiçao com foiemni- 
dade publica. Mas como depois felheprohibio,&man- 
dou não ouveífe outra MiíTa , fenão a da mefma oitava ; là 
dentro a fefíejaõ com devotosexercicios , & ladainha ,& 
íBuy tas luzes. 



Tçm- 1. K 3 TITU 



%4% Santuário Mariano 



TITULO LIV- 

Da Imagem denoffa Senhora de Selem do mefmo Convento 

do Saltador. 

BElem he a patriadc Maria Santiffima > & defeuEf- 
pofo Jofeph; porque ambos faõ defcendentes de Da- 
vid ;&he também pátria de Chrifto;&porq nella havia 
de nacer>& dccer do Ceo o paõ vivo ; Egofum panis Vi* 
ynstfui de càclo defcendi, fe interpreta cafa de paõ: Tiomus 
farits. E Maria em quanto Filha de Belém também he 
cafa de pam: & affim os que fouberem amalla , & veneralla 
como merece, nunca lhe poderá faltar o pam da divina 
graça» Ègredere,pafce hmos tuos. A palavra egredere fig- 
Xiificao nafcimento; & quando Maria nafce em Belém, 
logo Deos a conflitue Paftora de cabritos. A Pedro no- 
meou Chrifto Pa&or iTafce oV.es weas > pafce agnosmcos. 
A Pedro nomee embora o Senhor Pafíor de ovelhas ,&.de 
cordeiros. Maria ha de fer Paftora de cabritos* As ove- 
lhas, Si cordeiros "chama Chrifto feus; aos cabritos no- 
mea-os de Maria, h&dostuos. Todos fabem que pelos ca- 
britos faõ fignificados os peccadores r & pelos cordeiros 
csjuftos: Pois guarde Pedro cordeiros juftos: mas Maria 
ha de fer Paftora de cabritos peccadores; porque como 
Maria nafceo na cafa do pam , com o pam da divina graça 
fará cordeiros dos cabritos ,&depeccadores juftos; por 
iffo a conftitue logo Paftora 'daquelles de quem heMãy: 
Tafceboedos tuos. 

No mefmo Convento dasReligiofas do Salvador ha 
hua notável devoção cõ a milagrofa Imagem da Senhora 
de Belém. Eftà efta Santa Imagem collocada em hua Ca- 
mélia de outro dprmuorio. Obra infinitas maravilhas , & 



Livro II. Titulo LIV. z6 3 

milagres,& he tam grande a experiência que as Religiofas 
tem dosfeus poderes, que quando fentem alguà grande 
pena, ou trabalho , logo q recorrem a cila encontrão com 
o alivio. Huafervidora daquclle Convento padecia hum 
grande achaque , que muyto a affligia : porque lhe impe- 
dia o poder fervir , & trabalhar fegundo o feu cftado ; da- 
qui lhenacia hum grande temor, deque por não poder 
trabalhar a defpedifíem do Convento, Recorreo à Mây 
de mifericordia; pediolhe fe lembrafle delia: & efiando na 
foaprefença de joelhos fazendolhe efta fua oraçam,vio 
que a Senhora eftava fuando em tanta copia, que feper- 
fuadirão as Religiofas que acudirão , que também derra- 
mava lagrimas. Vendo a moça ifk> (tanta era a fua finge- 
ieza)ihasquiz alimpar com a toalha , fem entender nem 
difeorrer nada. Acudirão mais Religiofas , & vendo a 
maravilha começarão a chorar ,& a pedir com lagrimas °à 
Senhora lhe alcançaíTe mifericordia ,& perdão do mal , q 
a feu Senhor , & Efpofo Jefus Chrifto fabiam fervir y & 
amar. Viram a Senhora toda inflammada \ & a Capella 
toda cheya de luzes* A moça fc levantou faã,&femrafio 
de queixa algfia ; porque os favores deita Senhora em tu- 
do faõ perfeitos : ainda [que fe tenhão por indignos os 
que os recebem, nem por ifíòdeixào de experimentar as 
fuás mifericordias. A Senhora he de roca, & de veftidos, 
& terá quatro palmos. 

• 

TITULO LV. 

Da Imagem de nofa Senhora da Saúde junto ás portais 
da Mowarh. 

A Medicina de todasas nofTás enfermidades \ foy fem- 
pre Maria Senhora noífa;ellahe a faude de todos -os 

R 4 noííbs 



ZÓ4 Santuário Mariano 

noffbs males, & chagas incuráveis» Aílim a intitulou Sam 
j er ™' Germano: Infanabtiium\wlnevum ?wftrorf(weSa>M.Pat>- 
Cent r & ta ^ a f aU( k ^ e c ^ am ^o em fcu hymno' os Gregos : Janua 
Pb.' falutis. PorMãy da faude a invoca S-Bernardo: Mater 
Hym». falutis. E Medicina do mundo lhe chamou Sam Boaven- 
Grsc. í úra : Medicina mundiy&. João Geometra -> medicin a de nof- 
<tpnâ fas enfermidades : 'Medicina agutudinum iiojframm* A 
**** morte he a porta da eternidade, & a doença a porta da 
t*& A p morte V por iflb diffe David y que a morte tinha muy tas 
ã*AA poetas: J$ui' exaltas me dv por tis morais : porque tantas 
vent». ftõasíuas portas, quantas fa& as enfermidades :&aflim 
Bona v. c/lãq obrigados os homens a entender, tanto que cahirem 
mPfrlt enfermos, que tem a morte à porta , ou que efiam às por- 
min, tas da morte r &que lhe importa muy ta obrigar aqudia 
qninq. Senhora, que he Senhora da vida , & da faude ; & tem po- 
2 -J ta "'dcv fobre a morte y &: que o melhor caminho por onde a 
^* om * podem obrigar,. para lhes alcançara faude em fuas^nfer- 
27ti, m idades ^ he ode obrigarem a Deos e&a fantidade das vi<- 
y é ° das. Com eíte faudavel titulo he invocada a milagrofa 
p/ai.. Imagem da Senhora. daSaudc que veneramos fora das 
portas da Mouraria;, 

Por oecafião da pefte , que por varias vezes tem opri~ 
mido aeíteReyno,,&tam gravemente •, que cmalguas o 
deixou quaíi defpovoado ; neíia afflição fe tomou em hua 
occafião deitas, por patrono de todo o Reyno aogloriofo 
Martyr S. Scbaftião ;;& pelos feus merecimentos fe vio, 
quenôíTo Senhor em muy tas partes fufpendera aefpada 
defua divina juftiça. Obrigados deite favor os artilhei- 
ros , unidos em hua fó vontade, erigirão entre íi hua de^ 
vota Irmandade a eíte Santo, & lhe edificarão hua Ermi- 
da^&nellacoliocárão hua Imagem fua ^pedindolhe foíTc 
feu medianeiro, para que Deos os livrafle defte cruel, & 
terçivel ma^&nella o ferviáo com glande fervor >& de- 
voçaô... 

Feios 



Livro L Titulo LK i6% 

Pelos annos de iç6p. & cantos fe vio Lisboa tam op- 
primida defle terrível manque procurando' feus mora- 
dores , que remédios haveria para fe verem livres dclle: 
acháraòque não havia outro maisefficaz > queoda inter- 
ceífaõ da Virgem Maria nolfa Senhora; pois fó cila heo 
antidotode todos os males , & o remédio mais adivò pa- 
ra desfazer eíte cruel veneno. Com ella confíderaçaõ re^ 
corre rãoà Mãy de mifericordia com oraçoês,& lagrimas, 
que he o melhor mey o para a inclinar a fe compadecer de 
noffos males. Ouvio-os a piedofa Mãy,& com fua inter- 
ceífaõ fufpendeo feu Clementiflimo Filhojuítamente in- 
dignado contra os peccadores, a efpada de fua divina ju- 
ftiça. A viíte deite favor mandarão logo fazer hua Ima- 
gem de noíTa Senhora , para com elia fazerem hua folemne 
procííFao em acção de graças portam grande beneficio, 
como confeffavão haver recebido da fua piedofa inter- 
ceíTaõ. 

Feita a Imagem da Senhora, ordenarão aprocífíao, 
que fe fez emhíía quinta feira, vinte de Abril, do anno 
de 1569. & comella correrão asprincipaes ruas da Ci- 
dade, & depois fe recolheram na Igreja dos Meninos Ór- 
fãos , aonde a collocáram , para que todos os annos fe pu- 
deffe repetir a procifíaõ, em memoria do grandp benefi- 
cio que tinhaô recebido* Aqui nefta mefma Cafa infíi t ui- 
ram huma Irmandade denoffa Senhora como titulo da 
Saúde :& aqui perfeverou por tempo de noventa &trcs 
annos } ate que os Irmãos por juftas caufasque a iffo os 
moverão, fe determinarão adeixaraqinella Cafa > & erigir 
híía própria à Senhora da Saúde. 

Tiveraõ noticia defta refoluçaõ os Artilheiros, Ir- 
mãos do gloriofo Martyr Sam Sebrítiam ^& vieraõ a offe- 
recer a fua Igreja aos Irmãos de noffa Senhora 1 para que 
elles mudaíTem , & collocaíFem nella a Senhora , com con- 
dão, que a dita Igreja fc intitulaffe denoda Senhora da 

Saúde, 



%6â Santuário Mariano 

Saúde, & as duas Irmandades íeunifTem > ficando os Ir- 
mãos dehua,Scoutra fendo igualmente Irmãos de noffa 
Senhora da Saúde, & deSam SebaíHam. E feria ifto fem 
duvida com o fentimento de lhe haverem levado daquella 
fua Igreja a Imagem da Senhora do Soccorro, que hoje fc 
venera na fua Parochia,como adianre fe dirá noliv.2. tit# 

5 4. Feito aílím efte ajuíte , fahio a Senhora da Igreja dos 
Meninos Orfaõs em prociíTaõ > em outra quinta feira que 
fecontavaõosmefmos vinte de Abril doanno de 1662. 

6 ao recolher a collocáraô os Irmãos no Altar mòr da 
Igreja de Sam SebaíHam , que hoje fe chama de nofTa Se- 
nhora da Saude^ & fe fez hua eferitura publica , que eftá 
no Cartório da Irmandade , com ascondições aflima de- 
claradas, & fe alcançou breve da Sê Apoílolica , em que fc 
confirma a uniam das duas Irmandades. 

• Depois lhe fabricarão à Senhora os feus Irmãos hum 
rico retabolo com tribuna de talha dourada , em que a Se- 
nhora eftá collocada em hum trono debaixo de docel, cu- 
bem com hua rica cortina i para mayor veneração , ^re- 
verencia, & fenão defcobre fenão em Domingos , & dias 
Santos à MiíTa , & nos Sábados , & dias da Senhora às La- 
dainhas. A Senhora he de grande fermofura;he de vefH- 
dos, & de roca ,&eítá com as mãos poftas;hemilagrofa , 
& por efla caufa he fempre grande o concurfo que de ma- 
nhãa, & tarde acode à fua cafa. 



T I T U.L O LVL 

H mrT ^ a I ma 3 em Jwojfa Senhora da Gloria. 

£ TJ E Maria Santiflima a Gloria de todos os bemaven* 
Bftt.p. JljL tarados j-affim o cantão os Gregos: Gloria San ff o- 
i$S, rum omnlum. He a Gloria ,& o Ceo em que Deos aíHfte , 

&o 



Livro I. Titulo LVI. i6y 

& òunico throno deDeos ,comodiíTeRuperto: Coelum Rnpi K 
'Dei yumca fedes Vomini. Os Santos Padres aíTen tão todos *• *• 
que a gloria da Senhora hc mayor que toda a de que gõ- c **** 
zaó todos os bemaventurados , affim homens, como Aíi- 
jo9. Confirmão efta fua fentença com aquellás palavras 
dos Cantares : J%u<e eft itta , qu<e afcendtt , ele ff a ut SoU 
Quacsfaô aspre rogativas dèíle planeta , o luzir mais que 
todos os Aítros? porque não fó excede a todos na luz , a 
todas asEíirellas í & a cada hum dos Planetas; mas a to-. 
dos , & a todas incomparavelmente ; por iffo no dia em 
que fobe a tomar poífe do Reyno da fua Gloria-, fe chama 
efeolhida como ô Sol : Ele ff a ut Sol. Tanto hc Maria a 
Gloria dos Bemaventurados, que parece , que aquelles 
mefmos efpiritos, que eflao gozando na Gloria a vilía de 
Deos , tem defejo neífa Gloria da vifla de Maria ,dizen- 
dolhe : Reverter e ut intueamur te. Os Anjos neífa Gloria, canil 
he certo que fempre vem a Deos : Angeli eorumfemper Vi- 6. 
dent fadem Tatris. Mas ainda affim nelia defejavão ver a 
Senhora; porque he tal a fua Gloria, que parece de algum 
jfiodo a faz maisgloriofa para elles ; & affim a defejão ver. 
E por ifTo-diíTe Plano: Ut Angeli <ttema gloria fruent et 
ipfamdefiderant intueri. Eífo Gloria de que Maria he Se- 
nhora , parece que eflá comunicando a todos os que vem 
a fua milagrofa Imagem de que agora tratamost 

Nas coitas da Cafa ProfeíTa de Sam Roque y da Goro* 
panhia de Jcfus, eflá hua Íngreme calçada, que fe chama i 
calçada da Gloria , por ficar no fim delia para aparte do 
Occidente^&nãomuytodiftante do Convento das Re- 
ligiões da Annunciada , a Igreja deN. Senhora da Glow 
ria;fica efla contigua às cafas dos Condes da Caílanheira. 
Nefla Ermida eflá collocada hua devota Imagem da Rai- 
nha dos Anjos comefte titulo^muyto venerada, &buf- 
cada da gente de Lisboa. A origem defla Santa Imagem 
quehoje fe vê naquella Cafa referem neíla maneira. Pelos 

anãos 



i6% Santuário Mariano 

annosdeiçôo. & tantos veyo a Lisboa hum ínfigne Ef- 
cultor , que alguns querem foíTc Francez» Poufou efte em 
huaeftalagcm do Rocio, & parece vinha enfermo ; & por- 
que não devia trazer a bolía muy to cheya , fez à eftalaja- 
deira alguns oito, ou dez mil reis de defpeza , q naquellc 
tempo era mais cabedal que hoje. Ecomo a mulher vio 
que o cftrangciro não pa gava", nem moítrava ter com q o 
fazerjfufpcndeolheaaífiftencia* A viíhdifto, animou a 
o Éítrangeira, & pediolhe lhe mandafle vir hum pouco de 
barro , & delle levantou hua Imagem de Chrifto atado à 
Columna ; depois de feca a mandou cozer , & encomen- 
dou à mulher puzeffe eíh Imagem na feira ( que em todas 
as terças feiras do anno fe faz no Rocio daquella Cidade,) 
& que vifle o que lhe da vão pela manufadiura. Fello aílim 
a mulher, ôclogo fe iheofferecéraõ porelladczmtl reis. 
Deu parte ao Artífice , & diffelhe que era pouco \ conti- 
nuarão os lanços de forte que lhe chegarão a dar vinte 
milreis. A vifta dolanço, mandou a defle,&quefe fatis- 
fizeffe dafua divida ,&que domais Ihefoffc acudindo* 
Efta Imagem dizem a comprara hum fidalgo^Sc que a col- 
Iocára no feu Oratório , & a unira ao feu morgado : tam 
foberana coufa era. A vifla da excellencia d© Artífice lhe 
pedirão os Irmãos do Santiflimo Sacramentoda Par-ochia 
de Santa Jufta, lhesfizeflealguas Imagens daPayxáo de 
Chrifto , para na Quarefma fazerem çs paflbs. E com ef- 
f eito lhas fez ( como hoje fe vè naquellà igreja) a Imagem 
do Senhor atado à Colutnna , o Senhor coma cana verde 
na mão, & huâ Imagem do Senhor com a Cruz, excepto o 
corpo 9 q làhirão todas perfeitiffimas. No mcfuio tempo 
Ce lhe encomendou a Imagem de N* Senhora da Gloria /q 
he de Soberana efcultura; & pelo fer fe tirarão delia algíis 
modelos; &eu vi emeafa de hum bom efcultor,huaca- 
beça que fe fez > ou vafou pela mefma Imagem , que çon- 
jfery a com grande eílimação, E#a he a origê da Imagem da 

Senhora 



Livro II. Titulo LVL t6$ 

Senhora da Gloria. Logo começou a obrar maravilhas^ & 
antigamente foj grande a devoção de toda Lisboa para 
com eíta Senhora , & ainda hoje he tida em grande vene- 
ração. 

Em 29. de junho do anno de 1580. entrou Philippe 
o II. Rey deHefpanha cm Lisboa /quando na morte do 
Cardeal Rey fe fez Senhor defte Reyno : & pouco depois 
de eUeeitar em Lisboa chegaram àmefma Cidade, que he 
a pátria commua dos efírangeiros,huas Religiofas Fla- 
mengas; expulfas de fua pátria , & Convento pelos here- 
ges : & como erão Religiofas reformadas , forão bufear o 
amparo, & abrigo do Convento da Madre de Deos, cujas 
Religiofas as agafalhàrão com grande charidade. Não as 
quizerão recolher dentro no Convêto > attendendo pru- 
dentemente , que fe o fizeflem , não teriam cafa própria 
facilmente, & affim viria a faltar abrigo a outras , que dos 
mefmos paífes podiam vir. Mandarão agafalhalas nas 
cafas das Beatas , que fervem de fora > mas là dentro lhe 
faziam de comer, & tudo o mais que lhe era neceíTario, & 
hiam aouvirMiífa àfua tribuna. Duas vezes entrarão 
na claufura , em companhia da Emperatriz Maria, irmãa 
delRey Philippe ,&neílesdias rezarão Vefperas no Co- 
ro com as outras Religiofas, & forão ao refeitório com a 
Communidade. 

Defte Convento as mandou recolher ElRey ; compa- 
decido do feu defemparo,em as Cafas da Senhora da Glo- 
ria ;& por efíe modo vieram ater cafa própria ,0 que ta! 
vez não terião, feeftiveíTem dentro da claufura do Con- 
vento da Madre de Deos , como aquellas Religiofas ante- 
virão ,& prudentemente coníiderárão. Aqui na compa- 
nhia da Senhora daGloria afliftiraô algus annos em quan- 
to não edificarão o Convento denoíla Senhora da Quie- 
tação, aonde hoje vivem. No tempo em que eíHverão na 
cafa da Senhora da Gloria, deu ElRey Philippe II .licença 

no 



\y<$ Santuário Manam 

no armo de I çR?. para fe aceitar huma Noviça Flamenga^ 
grande ferva de Deos, chamada Sor An na da Gloria, que 
foy quatro vezes Abbadeça deitas Religiofas ,hua neíla 
Cafa,& três na Cafa da Senhora da Quietação de Alcân- 
tara aonde faleceo > no anno de 165 .. E bem podemos 
crer , que a influencias daquella Senhora, de quem tomou 
o titulo, creceo de forte nas virtudes, que foy hum per- 
feito exemplar rntreaquellas efpofas de Chriíto. 

Foy efta Cafa da Senhora da Gloria do Padroado dos 

Condes da Caftanheira até o prefente \ & o modo com 

que véyoa efta Cafa foy neíla maneira. Vierãoa efte Rey- 

110 dous nobres Florentinos , que fe chamava o primeiro 

Lucas Giraldes , & o fegundo Nicolao Giraldes. Eftes 

forão progenitores de famílias muyto itluftres dcfíe Rey- 

no. De Nicolao Giraldes foy particular amigo Fernão 

Paes, nobre Cidadão da Cidade do Porto , Senhor do íi- 

tio aonde hoje fevè a Igreja denoíTa Senhora da Gloria, 

que elle edificou, por efpeciíl devoção que tinha ànofTa 

Senhora : como fe vè de hum epitáfio , que eílà na fua fe- 

pultura , que fe vè em o plano da Capella mòr da mefuia 

Senhora, que he neíta maneira. 

EH a jepu'tura he de Fer?iao Taes Cidadão da, Ci- 
dade do Torto , que edificou por fua devoção ejfa 
Cafa de nojfa Senhora y para fiy&feus herdeiros d 
- fudcujt.1. Tater no/ler. Fakceo naerade íjyft. 
Tinha efte fidalgo hua filha,( parece que não era cafa- 
3o •> )&vendofe no fim da vida a recomendou a Nicolao 
Giraldes, para q elle lhe deífe eítado fegundo a fua quali- 
dade ; deixandolhe pelo encargo parte da fua fazenda, ôc o 
mais para dote de fua filha, avinculada emCapclla,& 
morgado; & que fuccedendo morrer a dita fua filha fem 
herdeiros ^ficaffe elle Nicolao Giraldes por Senhor, & ad- 
miniftradot da Capella de N. Senhora da Gloria , & mor- 
gado. Morreo a filha de Fernão Paes fem herdeiros,. & 

por 



Livro II. Titulo LVÍl f %fi 

por fua morte ficou Nicolao Giraldes Senhor ; & admini- 
flrador do morgado, &Cafa da Senhora. Pormortede 
Nicolao Giraldes entrou na herança feu irmão Lucas Gi- 
raldes, & feus fucceffores , & foy o primeiro , que lhe fuc- 
cedeo D. Jorge de Ataíde Conde da Caftanheira: & por 
fua morte lhe fuccedeo no morgado, ( que importa hoje 
alguns féis mil cruzados de renda) fua irmãa a Senhora 
D.Anna de Ataíde & Caftro, Condeça da Caftanheira , 
que cafou com Francifco Corrêa da Silva. Por morte da 
Condeça da Caftanheira, faõ hoje muy tos os pertenden- 
tes ao morgado, ( de que tomou pofle a Senhora D. Fran- 
cifca de Vilhena > mulher do Almirante mòr, ) & princi- 
palmente os Portugaes, por entenderem ficão mais pró- 
ximos àfucceffaõ, por defeenderem do referido Lucas 
Giraldes; os quaes fazem tanta eftimação deite afeenden- 
te, que delle tomarão muy tos o nome de Lucas. Eíta he a 
origem que teve a Cafa , & Igreja da Senhora daGIoria. 



c 



TITULO LVIL 

3)a Imagem de noffaSenhora dctfobre^a que fe venera 
na Ermida de Santa Barbara do Cattúlo* 

Om grande propriedade fe deu a Maria Senhora 
m noífa , fendo a Emperatriz da Gloria 7 & a Mãy da- 
quelle Senhor , em cujas mãos depoíitou o Eterno Padre 
todas as riquezas/) titulo He Senhora da Pobreza 5 porque 
no affedto, no exercício ,& no defapego das coufas terre- 
nas, ninguém foy mais perfeito amante da pobreza que 
cila. Faltando deffa virtude da Senhora Jacobo de Vera- 
gine, diz aífim: V bique Regina cah ferVaVit pauperta- 
tem, íciltcet infuoconjugio; qiàa nonfuitdeíponfata In pêra* 
torijfed Fabro paupert : injuopmrpcrio' } quia nan halutt co- 
piam 



l7z Santuário Mariano 

pian cibwurn,fedpem4riawexrremam:infuo otfertomtfuk 
obtulitoblationem pauperum : infilij nutriwento-rfuia f ftctit 
dtxit Hieronymus, colo , & acu accfuirebat , mtde fí , i? fal- 
datarem nutriebat. Em todas as garres ( diz o Padre) ob- 
fervou a Rainha do Ceo a virtude da pobreza ; porq não 
foy defpofada com nenhum Emperador ,fenáo com hum 
pobre Carpinteiro: em fua cafa era muy to pobre; porque 
não tinha abundancias, Separa o fuftento apenas opre- 
cifo. Na fua ofFer ta quãdo foy ao Templo ofFereceo o mef- 
mo que os pobres. Na creaçam do Santiífimo filho , como 
refere S.Hieronymo, acquiriaofuftentocom oexercicio 
da roca , & da agulha. Sobre efta inimitável pobreza di- 
zem muy tos dis Santos Padres, fallando da Senhora, & 
da fua perfeição com que enfinou ,como Meftra da Igre- 
ja, a obfervar a pobreza^para que todos a obfervaffem co- 
mo de vião, a exemplo do Divino Meftre, que não tinfia 
fobreque reclinar a fua cabeça : que aquelia mulher qôe 
tyncal. Sam Joam vio no feu Apocalypfe , veftida de Sol > & com 
a Lua debaixo dos pês , Lnnafub pedi bus ejus , era a Vir- 
gem Ma-ria a Senhora da Pobreza. E porque tinha debai- 
xodospès a Lua/* pergunta o Padre Sylveira. Porque a 
tinha debaixo dospês.^Porque Lunatemporaliumrerwn 
fymbolwn^ ut.pote ommaterrena>(J? temporada comemnens\ 
como quem defprezwa todo o terreno como fazem os 
Ricard, verdadeiros pobres de efpiri to. E Ricardo de S. Louren- 
de S. ço diz da pobreza da Senhora : Afaria paupcrtattsfutt 
Latir, amdtrix: le ilU dicitur, cjuocí babebat Lunam fubpeJibm ; id 
eB) omrtem gloriam ,&mundt mutabilta. Por fer trõ aman- 
te da pobreza que feu Filho Jefus Chriíio veyo aeníinar 
no mundo > todo o ouro , q offérecèram os Reys no Prefe- 
ri » P*° > em ^ rev ' es dias, ( diz Sam Boaventura) que o repar- 
"^ tira com os neoeííirados: Z-. lans V trgo pro paupertate .Í7 
inii Vagens fi!/j 'volwitatem >tocum aumm infra patteos dias 
pauperibus trogaVu. E como não feria a Senhora tam afiei- 

coada 



Livro L Titulo LVIL t?$ 

coada a foceorrer os pobres,quando no aítefto ,& no cxcrz 
cicio foy fcmpre taõ affeiçoada à pobreza. 

Naânriquiffima Ermida de Saõ Miguel, a que hoje daoo 
titula de Santa Barbora, fe venera huma devota Imagem 
daMãydcDeos,aquemdaõ otituIodeNoíTa Senhora da 
Pobreza ; & verdadeiramente parece lhe vem bem ajuftado 
o titulo : pois fendo efla Senhora Mãj* do Creador das ri- 
quezas do Ceo, & da terra, ella eftá muito pobre \ & a 
Senhora aííimodifporá,& talvez que de a verem taõ po- 
bre , fendo taõ r ica, lhe deífem o nome de Pobreza; que naõ 
confta do motivo com que fe lhe deu , nem eu quero difçor- 
rer fobre eila matéria. Aífim a Senhora , como o Menino 
Deos que tem fentajo fobre o braço efquerdo,tem húas co- 
toas de folhas de Flandes,& ja taõ velhas,& comidas da fer- 
rugem, que pela decência fe lhe de viaõtirar.mas contentar- 
ftha com eiias a Senhora,para mayor dèmonftraçaõ do mui-; 
Do que ama o feu titulo. 

Da origem defta Santa Imagem , o que fe fabe pela tra- 
dição he, que fe achara enterrada em o Couto do Marquez 
de Cafcacs;& podia bem fer eíiiveíTe naquelle lugar muitos 
ntihòSj & que nelle a enterraflem os Chriílãos , quando os 
Mouros tomàraõ a Cidade de Lisboa ; porque elies lhe naô 
tfzeTem algum defaçato, como bárbaros, & inimigos da 
Ley de Jeíu Chrifto. Dizem que averà algus noventa an- 
nos poufco mais, ou menos :& por eíta conta entendo íè- 
fia-deícuberta no tempo em q fe abrirão no mefmo Couto 
os alkerfes do palácio , que alíi começou a edificar o Conde 
de Monfanto , q depois foy primeiro Marquez de Cafcies, 
ai feu pTy, junto ao poço do Bor ratem: &como o Conde 
de Monfanto era Alcayde mòr de Lisboa, & morava nos 
Paços de Alcáçova, qfaó os do CaiMlo, mandaria levar a 
Senhora , para que fe collocaífe na referida Ermida de Santa 
Barbora. O modoeom que fe defcobrio, & a occafiaõ certa- 
mente fenaõfabç. 

Tom, I. S He 



174 Santuário Mariano 

He efía Soberana Imagem da MSy de Deos antiquiíft- 
ma , como ella reprefenta na efcultura ; he formada em pe- 
dra ,& pintada de cores a óleo ao antiguo com algus perfis 
de oiiro \ o manto azul } a túnica rofada > & o Menino Jcfus 
com túnica da meíma efcultu a também azul \ & a fua eíla- 
tura faõ cinco palmos. Eftá collocada no tXtzx daquella Er- 
mida^que he único ,& antiguamenre foy Cape lia Real:& ainr 
da hoje exiík a tribuna em que osReys c uvi?õ Miffa:& con- 
fia que ja alii vivera ElRcy D. Diniz ,& viviriaõ feus pro- 
deceíioi es.) Fica a Penhora à maõ direita ,& Santa Barbcra 
àmaõefquerda. EflaCapella era dedicada ao Archanjo Saõ 
Miguel; o*que ie confirma com hum quadro grande que lhe 
fei Ve de retabolo pintado em taboa , em que ie vè o Prínci- 
pe da milícia do Ce o, & obra bem antigua, como ie reconhe- 
ce nas manchas , &esfoladuras da pintura; & cncofladoa 
cíie quadro grande fc vè huma Imagem muito devota de 
Chriiio , que íe diz fallára alguas vezes a Santa Ifabel Rai- 
nha y & mulher delRey Dom Diniz. Eftá debaixo de hum 
docel; & a Imagem molíra ter alguns cinco palmos , & nelia 
fe reprefent* huma grande antiguidade. Deíia Santa Ima- 
gem faz menção Jorge Cardofo no íèu Agiologio Lufta- 
no a 3 • de Mayo. 

Feílejaíe eíia Senhora em féis de Dezembro , porque íc 
começa em quatro , dia de Santa Barbora , hum triduo , no 
qual íe faz feita à Santa Virgem , ao Senhor ^ & â Senhora: 
o que fe faz entaõ com muita grandeza , & com muito fogo; 
& como entraõ os Soldados neíias felias^que faõosque fer- 
vem a Santa Barbora , & à Senhora > tiraõ muitas cargas de 
mofquetaria > & outros tiros de artelharia. A efta Senhora 
tem a gente que vive noCalíello grande devoção ,,& a m 
grande fé ainvecaõ em feus trabalhos;, &nectffidades j a 
que a Senhora naõ faltará; porque ainda que permita para 
comfigo muita pobreza ? he ella muito rica para nos acudir, 
& remediar a todos. 

TITU- 



Uvn 7. Titulo LVffl. 17$ 



TITULO LVIII. 

Ca Imagem de nojfa Senhora da Graça , que/e Venera 
no Convento de SaÕ (Bento em Xabregas. 

O Convento de Saõ Bento em Xabregas , da Congre- 
gação de Saõ Joaõ Evangclifta > extra muros da Ci- 
dade de Lisboa , foy fundado pela Rainha Dona Ifabc 1 , mu- 
lher delRey Dom Affoníò o V. Fundouíe efle Convento 
em huma Ermida do Patriarcha Saõ Bento , que era do Pa*- 
droado do Dom Abbade do Real Morteiro de Alcobaça, 
com todo o feu fitio , & diítrito ', a qual Ermida fundou Fr. 
Eltevãode Aguiar, Abbade Geral domefmo Real Mofteiro. 
Etía Ermida , & fitio delia , alcançou do Geral de Alcobaça 
ElReyD. Affonfo o V. noannode 1455. depois de varias 
' inftanciás , que para iflò interpo? > por comprazer à Rainha 
Dona Ifabcl fua conforte , Prote&ora da mefma Congre- 
gação do Evangeliík; havendoa já negado omefmo Dom 
Abbade à Condcçade Atouguia Dona Guimar, que a pedia, 
}>ara fundar naqueli e fitio o Convento de Saõ Franciíco de 
Xabregas,que depois fundou no fitio em que hoje o vemos. 
Tudo ifto confia dacarta do mefmo Geral para ElRey y a 
qual fe coníerva no ièu archivo. 

Comefiagracioa renuncia, que o Abbade Geral fez 
Tias mãos delRey , daquella Ermida* 8c fitio de Saõ Bento, 
fez o mefmo Senhor doaçaõ delle à Congregação dos Pa- 
dres Loyosde Saõ joaõ Evangelifta , noíeguinte anno \ & 
qúalconfirmouoPapaPioII. a 9. de Março de 1461. &a 
fabrica do Convento cor reo pelas defpczas da Rainha Do- 
na Ifabelj que fuppoíto ficou imperfeita com aíiiamorte, 
em feu teftamento deixou hú grande legado para fe acabar; 
& ElRey favoreceo tanto aquelles fantos Religiofos, que 

S z lhes 



íyó Santuário Mariano 

lhes deu o Padroado das Igrejrs de Saõ Miguel de Sintf a,8c 

de Saõ Leonardo de Atouguia. 

Qniz a Rainha pela grande devoção que tinha ao Evan- 
gelifla amado , que a Congregação o toma (Tê por feu Pro- 
tecflpr ,& Tutelar > & affim o pedio aos primitivos Padres 
della;&ellesofizeraõ por lhe dar goflo, deixando o ti- 
tulo de Saõ Salvador de Villar , que até alli tinhaõ ; & que 
a me ima Cafa,& Convento de S. Eento foíTe cabeça da Con- 
gregação nefteReyno;& tudo fe lhe concedeo. Tambcm 
foy devetiflima defla Santa Congregação a virtuofa Rainha 
Dona Leonor, mulher delRey Dom joaõ o II. & cila lhe deu 
também o Padroado da Igreja de Saõ Pedro de Alemquer. 

O magnifico , & íumptuoíò Templo novo daquelle Con- 
vento(de cuja Capella mor íàõ Padroeiros os Condes de Li- 
nhares ) fundou o venerável Padre António da Conceição; 
& deulhe principio com fete toílões que lhe haviaõ dado de 
efmola para Miiías cobrando Deos,cm quanto durou a obra, 
evidentes maravilhas. Heefte Templo de huma íónave, 
grande 7 fcrmofo,& muito alegre; temhua nageílofa Ca- 
pella mór 7 & hum efpaçofo cruzeiro; he finalmente de per- 
feitiflima architediura de ordem Dórica moderna y & tem 
hum foberbo frcntiípicio com duas elegantes torres, & tu- 
dode pedra lies mrito fino , & claro, com excellentes fi- 
nos. O fitio do Convento verdadeiramente he dos melho- 
res que tem a Corte pela fua alegre > & cfpaçofa viíla. 

Na Capella mer ceík fermofo Templo fe vècollocadaà 
iraiõ direita huma Imagem da Mãy de Lcos , a quem daõ o ti- 
tulo da Graça;& ella parece a eftá infundindo em todos corr 
a fua magefíola belleza,8c ft; rmofura: he de grande eílatura; 
porque tem alguns iete palmos. He de elcuhura de madei- 
ra, na formadas togadas; pcrc.ue a túnica , oufrya he ti- 
reita fem pregas, & a roupa fuperior comnangas de perna, 
compridas, & na mefma forma omanto, & toucado ao ?n- 
tiguo^íobre o braço efqutruo tem ao lyknino Jefu^tamkm 

de 



Imo I.Tituk LVIIL ±7? 

&€t àra fer mofura, refiflando com a viila a todos os que vaõ 
àCapelía. 

Inquirindo eu a origem deík foberana efEgie de Ma- 
ria SantiíEma , nem os mais antiguos Religiofosdaquelle 
Convento me fouberaõ dizer nada ; & nem no arquivo dei- 
fc Te podedefcubrir coufa , que tocaífeà Senhora-) &.fó di- 
zem fer m lito antigua. Eu me perfuado que eíiafagrada 
imagem foy joya que deu àquelk Convento, ou a Rainha 
Dona Iíabel * que o fundou , ou a Rainha D. Leonor ; por- 
que ambas foraô muito devotas: &bem pode íer <jue eíia 
Santa Imagem fo íe obrada tora de Portugal; & que algum 
Príncipe a^andaffe alguma deíías fantas Rainhas: & naõ 
feriaeík a primeira que fe offereoeo às Rainhas de Portu- 
gal; porque a Senhora da Conceição que fe venera no Con- 
ventodc Vai bem feito da Ordem de Saõ Hieronymo, a 
mandou a Senhoria Veneziana à Rainha Dona Maria, fe- 
gunda mulher delRey Dom Manoel. £ em Belém íeachaô 
muitas Imagens , dadivas dos Reys, que lhes mandáramos 
Pontífices. E -ainda me perfuado mais fer iílo affiiji , por- 
qqp em Portugal naõ tenho viiio outra Imagem de forma 
femelhante. 

Com erta foberana Prínceíâ da -gloria tem os Religto- 
fosdaquelle Convento huma grande devoção. Hum Reli- 
giofo grave , &amiguodelíe,ipe referio, que emalgíias 
oecaíiòes fe achara com huma pena , & afflicçaõ taõ grande, 
que morria, & arrebentava : & que recorrendo aos pés dei- 
ta Senhora ,<3e tal íorte defapparecia o feu fentimento , que 
íe recolhia àfuacella, naõfó livre daquella moleflia; mas 
alegre, &confolado. Mas como naõ fahiria conlolado m 
fua tribulação, & daprefença defoi Senhora cheyo de ale- 
gria, fe efla Senhora he a alegria de todo o género humano, s : y"* 
como a intitula Santo Ephrem Cyro: Lautui humant ge- J £ \ 

Tom. I. S* , TITM- 



i?$ Santuário Mariano 



T ITUL O um 

3a Tm agem de nojfà Senhora da^Pa^ > quefe Venera 
noConVentode SaõFrmcifco de Xabregas. 

PElos annos de 1 690. fc tantps , teve hum devoto Rpli- 
giofo da Ordem dos Menores , morador no Religiofo* 
Convento de Sa6 Francifco de Xabregas r noticia y de qua 
«m certa cafafe havia empenhado huma Imagem daqueila 
foberana Senhora , que he*MSy dáquelle rico^ poderofo» 
Senhor ^que nos refgatou do eaptiveiro da cnlpav Naô 'me 
eonfioudh quantidade do empenho; masdogrande fenti~ 
mtnto do devoto Religiofo : ou foífe porque a caía naô iça- 
ria de grandes refpeitos; ou porque o lugar tm que a puze~ 
ra&,, íèrja pouco decente :& também feria y porque a peffoa* 
quer fezo empenho , a naô poffuiria talvez com bom titulo* 
ZHòfopoiso fanto Religiofo da honra que fedevia à Ima* 
gemdaMáy de Deos ^tratoudearefgataircom toda actili- 
geneia , bufcando (o que feria pelos feus devotos )o preço^ 
do empenho ; depois de certificado da indecencia com que & 
fagrada Imagemdiava. 

Eeita a diligencia do relgate,a levou* o mefmo Religiofo* 
à ExceHentiflima Condeça de Penaguião, para que aman-. 
daífe veíiir,.& compor*, porfer de roca , & cc veíiidos y &; 
slíaofezcoma fua muita piedade ,,& devoção, preparan* 
dolhelògp dous vefíidos*Tambem concorrerão para a mef-~ 
tna obra do ferva ço , f & obfequio da Senhora ,,& adorno do> 
fèu^altar outras mulheres devoras,, & terceiras da Ordem; 
dcSaS Erancifcov&depoi^ que a fagradan Imagem eíkve: 
CRsii^ôacDmJi^^perTei^aQ^fe tratouídk fua còllbcação> 
comamefih» %rejp dicSaã) ErancircD>>faz;endòÍBÍfie: huma* 
ffiíiiacQmiNíifla~cantad% 



Livro L Título LIX. \y§ 

Fizerrólhe as devotas Terceiras hum taberjiaculo de 
columnas (como ainda hoje íevç^cmque a collocàraõ na 
quarta Capella da parte da Epifl(fa , aonde he venerada,* 2c 
fcuícada das fuás devotas ; o que a Senhora ihes pagará com 
4fua píedofaintercefTaô: uiapuzer^õlheotitulodaPaz.Naõ 
pude defcobrir o motivo com que ftlhe impoz; algum te*' 
mõosquelhopuzeraõ; ou já o teria impoíto pelos que a 
mandarão primeiro obrar • quecomo efia Senhora he Mãy 
do Rey pacifico, fempre nos alcança delle não fó a paz; mas 
todas as felicidades que com cila fe acfcaõ. He eíta Santa 
Iifcagem âc roca , & de veítidos, como fica dko j & a fua dí- 
tatura faõ quatro palmos; eftá com o Menino nos braços 
dentro doreferido tabernáculo, com cortinas de tafetá car- 
meíim , queíe véfobre a peanha do Altar da Capella , em 
quefojreDliocada. Ehe de faberqueefta Santa Imagem era 
tida em gi*ande veneração dos primeiros poffuidores 5 por- 
<pe em feus trabalhos, & jornadas tanto que a invocava© 
cm feu favor, logo achavaò a fua protecção, alivio, & re- 
médio ; & affim me confirmo, em que o titulo da Pazíkç fojr 
poílo defde osTeus princípios. 




S * SAN 




SANTUÁRIO 

MARIANO, 

E HISTORIA 
das Imagens milagrofas^de 

NOSSA SENHORA, 

Eda&milagrofamenteap parecidas. . 
LIVRO SEGUNDO. 

TI T U L O L 



mie Nnfa Senhora da fa^ x do Hofpitd 
Real de todos os Santos». 



A ; Igreja mayor da Cidade de Toledo, fie mui- 
to celebre- a devoção de Noffa Senhora da Paz, 
pelasmaitavilhas que. a May de Deos obrou a 
favotrda Rainha Dona Confiança r & do Arce~ 
MfpoDom Bernardo; eujja origem fe refere ne- 
F^^annosdc íoSj.poaaoi^ElKcy Dom Af- 




Livro IL Título l 281 

fonfoo VI. de Leso , a Cidade de Toledo aos Moiros , àc 
a fortificou muito bem, para que pudeíiem viver nellaíe- 
gurososChriftaas , ainda mifluradas comos Mouros ren- 
didos j que quizeraõ ficar na mefma Cidade. Depois de 
compor ElRey todas as coufas do governo politico } lern- 
brandofe de que aquelta Cidade era a Metropoli , & a cabe- 
ça de todas as de Hcfpanha , tratou de que fe eíegeffe nelk 
Arcebifpo, como fempre hz via tido : para ifío fez ajuntar 
Concilio na mefma Cidade,- & nellefov eleito Dom Bernar- 
do , que era adhialmçnte Abbade do Mofleiro de Sahngum: 
oque íuecedeo em f8, de Dezembro do íèguinte anno de 
1086. E anfes que fe defpediffemos Padres do Concilio, af- 
íignou ElRey , como generofo Príncipe , rendas, & terras 
àCathedralpara faftento efo.Arcebifpo, & Cónegos; & 
difpoftas eflas ceufas, fe partio para Leão , deixando a To- 
ledo muy bem guarnecida': & por Governadores a Rainha 
Dona Confiança ,& o Arcebifpo Dom Bernardo. 

Dava grande pena aos Chriflãosde Toledo, que os 
Mouros eftiveíTem fenhore s da Igreja mayor, & que a tivef- 
fem profanada , & convertida em Mefquita : & à Rainha, & 
ao Arcebifpo ainda lhe dava iflo mayor pena , coníiderando 
aquella cafa ,que havia honrado NoíTa Senhora com a íua 
§>refença,overem na convertida emeafa de abominação, 
fazendofe nella os ritos,& ceremonias do maldito Alcorão 
deMafoma. Para iflo fe remediar, confideráraõ os meyos 
que tomariaõ , & refolveraõ o das armas ; & como o confi- 
deráraõ , o puzerao em execução ■, fem advertir que ElRey 
Dom Affonfo havia dado fira palavra |ps Mouros de lhes 
naõ tirar as Meíquitas , & de os confervar na fua Lty* De- 
pois dt haverem tomado pór força *a Igreja mayor ,/e der- 
ribarão as portas da Mefquita, fe benzeoa Igreja ,puzc- 
3raõ- ft os íinos , loy convoca do o povo, & fe celebrou Mif- 
ía comgrande alegria dos Chriflãos , & com grande dor,& 
fentimento uos Mouros , que fe queixava© de fe lhes naõ 
• . gwwfcpr 



%$z Santuário Mar iam 

guardar a palavra, cjue telhes havia dado, no tempo em 
que a Cidade fe rendeo. 

Cheg àraõ eílas noticias a ElRey Dom Affònfo , que çf- 
tava em Sahagum,diílan;te de Toledo mais de trinta legoas, 
que as reeebeo com grande fentimento : julgando que os 
Mouros teriaõ para íi entrava elle nefta ohra ; Separa que 
fe viífe que naõ tinha parte , jurou de fazer hum grande ca- 
íKgo ailim naRainha, fendo a coufa que mais amava j co- 
mo no Arcebífpo, aquém também coimava muito; para 
que aílim feconheceíic naõ entrara naquella acçaõ , nem 
havia faltado à fua Real palavra. Soubefe em Toledo a in- 
dignação do Rey contra a Rainha Dona Confiança , & con- 
tra o Arcebifpo;& para applaear o íéu furor fahio a Ciere- 
fia , & mais povoem forma de # proci<Taõ a bufcalo ao cami- 
nho, & a rogarlhe mítigafíe a fua pena;mas nada bailou para * 
o foííegar , & fem duvida executara a fua ira , a naõ irem os 
mefmos Mouros a pedirlho. Confideçàraõefles entre fique 
a Rainha ,&o Arcebifpo eraõ peflbas muito eftimadas , & 
veneradas erntodo o Reyno, &quefepor fua caufa pade- 
ceíTem , choveria depois fobre elles a ira , & ódio dos Chrif- 
taos. Confidcradaseftas coufas/e ajuntarão os prindpaes, 
& atites queElRcy entraíTe em Toledo, fe lançarão afeus 
pés , & lhe pedirão por mercê perdoaíTe o erro commetti- 
do à Rainha,& ao Arcebífpo, & que nífto receberião mayor 
tn^rcc,doquefcexecuta(Ieocafíigo que determinava ; & 
que do aggravo,quchaviaõ recebido, fe davaõ por fatisfei- 
tos , com faber que fua Mageítade naõ havia concorrido, & 
que tudo fe obrara contra a fua vontade- Efhmou ElRey 
muito a fupplica aos Mouros , & deu infinitas graças a 
Deos > porque havia guiado aqddle negocio em tal forma, 
que iehaviaconhecido não faltara à fua Real palavra 5 & de 
que ficaífem com vida as peffoas ? que mais amava* 

Agrudcceo aos Mouros o bom termo j prometeolhes 
novas mercês , & affim entrou na Cidade muy alegre, 

mofi- 



Livro TL Titulo I. 28$ 

moftrando à Rainha , & ao Arecbifpo boa graça ; & affinv 
fe poz tudo em paz.O Arcebiípo de u muitas graças a Cecs? 
pelo grande beneficio que ihe havia feito; & a Nòífa Senho- 
ra,, pois havia fido a fua profe<íiora J ,& amparo, pela bca ten- 
ção com que a defejàrafervir , procurando que o lugar ron- 
de ella havia poflo os pès^naõefíiveíTe profanadodos Mou- 
ros ;& em agrade cimentodefte grande beneficio, fez que 
cm Toledo fecelebraíTe a fefla de NoíTa Senhora da Paz no 
feguinte dia depois da fefía «de Santa Hdefoníbv que fie a 
vinte &.quatro de Dezembro s& juntamente -a feftada àtf- 
©da que a Senhora fez, honrando;aquel!a Igreja^ Cidade* 
E <* rden ou também fechamafle Nbfla Senhora da Pas. Pois 
«lia Senhora havia traçado todos os fucceíTôs em tal forma, 
que naõ íuecedendo os imaginados infcrtunioS;, fe cem- 
poz tudoemfummapaz. 

E Re fueceflb deu motivo a que em outras muitas Cida- 
des de Hefpanha , & Portugal ,íèinvocafJea May de Deos; 
com o mefmo tituloda Paz ,, fâbricandòfe ,> & collccandofe 
muitas imagens fuás, que invocadas com efle titulo r acha- 
vao os heisna fua invocação amparo , confolaça© , paz em» 
luas almas, &rambem cofh feus inimigos > & contrários, 
com amefmadevoçsõ continuando ElRey Dom Manoel a 
igreja doHofpital Real de tpdosòs Santos,(a aue deu prin- 
cipio ElRey Dom Joaô o II.) obnrem tudo magnifica, & 
Kealy como era devoti/Iímo da May deDeos, dedicoulhc 
logohum Altar, em que foy collocadà hua Imagem fua y que 
fce ada parte da Epiítola,fc da outra a do inviéli/fimo Mar- 
tyrSaôJo gc(aquemosRcys dé Portugal também tiveraõ* 
grande devoção. ) E fcy tao grande o fervor da devoção 
com que logo naquelles principies fe começou ainírodu- 
zirnos^raçocs de todos cramor para com a Ser hora da 
laz^ que de todos era bufeadav & venerada ^ & afllmfe lhe 
engio huma nobre ,.&'infigneCc«ifraria ,>em que cntfrav&S» 
todos osJiomens dtíhe^)do ^ &a&úo ricx> ( como ainda* 

Hoj^j 



i8"4 Santuário Mariano 

fcojc fe reconhece das ricas peças , que fe conferVao , kioi 
ticos ornamentos com que a Senhora era fervida , & fe or- 
nava o feu Altar nos dias de fuás fefKvidades. Dizem ai- 
guinas peffoas antigas (que ainda alcançarão aque lies bons 
tempos ; que fe feíkja va a Senhoraflda Paz ; cuja folemnida- 
de he em odia dos Prazeres na legunda feira depois da Do- 
minica in Albis ; 8c fe fazia com tanta grandeza ,& appara- 
to,que fó a armação cuflava trezentos mii reis ,& mais; 
quantidade que para aquelles* tempos importava mais do 
<jue hoje fei ícentds, 

Em numa deitas folemnidades fuccedeo atcarfe afogo» 1 
& abrazar aqueik grande Templo;o que foy de grande dor f 
&fentimento pela grande perda quecaufou o incêndio; o 
que íuccedeo pelos annos de j 580. & tantos. E attendendo 
a Irmandade da Senhora da Paz , a que por ref peito das luas 
fefías fe havia incendiado aquelle Templo , tomou em brio 
os reparos daquellç damno , & aílim a expenfas fuás fe ree- 
dificou novamente ,& com grande defpeza. A tudo aífiíK- 
rao os Irmãos da Senhora da Paz generofameilte; aonde naõ 
hemenos.para admirar a grandeza de feus corações para 
os gaftos 5 mas a efcolha de feus entendimentos para a elei- 
ção do melhor ; porque fazendofe aquelle tedo, que he cou- 
ia admirável , cfcolhèrao o mais infígne pintor daqueiles 
tempos , que foy Fernão Gomes , para que oobraffe como 
veims ; 8ç para que em todas as idades- conítaífc de qucel- 
les reedif càraó aquelie Templo , azulejando-o todo, puze- 
raõ para memoria muy tos azulejos comadivifa de huma 
Pomba com hum ramo de Oliveira no bico, & por baixo 
efta letra ^á\ 9 como fe ve nos remates dos quadros do 
mefmo azulejo, 

Esfriand^fe depois aquelle grande fervor com que a 
Senhora da Paz era fervida , naó fe extingqio de todo o for 
goda de v.ocaõ;p.orquc aindahojea fervem os Contratado- 
res,. & lhe aíliitem com igual obfçquto, ainda que náofeja 

com 



Livro II. Título l 285 

com ?*gUAes defpezas, & quem ainda 20 prcfcnte accende 
o fogo de devoção em os mais, he Pedro Francico Ravafa 
Genovez; o qual tem tomado por fua conta fdiejar todos os 
annos a Senhora da Paz , conciliando os corações dosho- 
mensde negocio , para que felhe naõ falte com acuelle de- 
vido obfequio; & affim fefeíkja com muitas afíiílencias, 
tendo naquelle dia o Senf-or manifeíto defde as primeiras 
atcas fegundas vefporas , & neflas fe faz prociffaõ pela 
quadra do Ho fpital. 

A devoção do povo neíle cKa ainda hoje he a mcfmaj 
porque todo concorre a venerar a eík Senhora , & May do 
pacifico ReyChriitoJefus. As Senhoras da Corte tem tam- 
bém grande devoção com a Senhora da Paz % a ella elegem 
por Madrinha de íeus filhos , & cm efpccial dos primogéni- 
tos, entregando os ao ícu amparo ; & a experiência tem 
moftrado a muitas o acerto defla fua eleição 5 porque em 
doenças graves , & agudas, invocando o fa vc r daquella fo- 
berana Senhora, experimentarão repentinas melhoras, & 
cobrarão inteira faude. 

Eftá collocada a Senhcra da Paz emhuma rica Capella^ 
que he (como fica dito) a que fica à parte da Epiflola. A Ima- 
gem da Senhora he grande, & ainda parece msyor que a na- 
tural eftatura de huma bem proporcionada mulher. Hedc 
cleultura de madeira , r crleitlflimamente obrada, <k eílofá- 
da •, tem o Menino Deos fobre o braço efquerdo , & tem ri- 
CrS coroas. Muito deik noticia nos deu o CapellaõNicolao 
Fernandes Colares , hum dos muitos que tem aquella Cafa. 

TITULO IL 

Da Imagem de mffa Senhora dá Caridade da T^rodia 
dcSaÕ Ntcolao. 

E a Caridade virtude própria de Decs, & ?ffim ef- 
tima muito eiie Senhor , c^ue utila granut virtu- 
de 



H 



*?%6 Santuário Mariano 

de o imitem os homens. Vifitou emhuma|occaíía6 EÍRtjr 
Ocozias ao Príncipe jorao eftando enfermo; &he de ad- 
vertir , q no texto Hebreo naõ fe chama aquelle Rey Oco*. 
-zias , mas Azarias : DeKendic Acarta* R xjuia , &c.E 
tem grande myíierio o mudar Ocozias o nome nefta fua vi- 
íita j porque Azarias qucràizcr, A ijutortun Dei,.. Soccoi> 
•ro de Deos. Quem com caridade vifita, & ferve aosenrer- 
tnos, naõ faz offiaodc homem > mas officio de Deos : A íjtt- 
tonum Dei. S. jeronyrno diz : ideo mutatur et nomen m me- 
hus j eoquodjiixtaprctceptum f>omini adurfirmum ytfitan* 
dum defcenderet.Foy vifirar hum enfermo conforme as ieys 
da Caridade :]uxta pr&ceptfim Oonini, & aflím deixa o no- 
nie de home m,& toma o nome de Deos: Adjtitorwm Dá. 
Tanto como iitofe paga Deos do exercício dacaridadq& 
qual fera a que terá aquella Senhora , que he Máy da meíma 
caridade , com os que a ufaô com os íeu > próximos ? Certo 
que fera exceffiva: por jue hseíta Serihora huma enceadt- 
dacolumnano togo da caridade, paca todos os que viveiti 
. n efte mundo , como a acclamão os Gregos rio feu hymirj: 
2* H |p8Sft&í tçnea bis , qtu unt m tenebru,Vtvn drmonjtrantis. 
pa/.i 2 u Húa Conciliadora efficacifíima de toio o mundo , comodk 
£phreÀ% : . Ephrem : Conciliatrix tjficaajfvna tottus orbts terrarum^ 
in Utiâ. &por iífoconl muita razaõ apropria afio titulo de Can- 
^•^ dade, não ÍÓ para que conheção os homens a mu.ta que 
■^'^••comeflesufaj mas a grande que quer ufem entre í?, huns 
* p# ** 8 " com ós outros , os feus devotos. Por iíToella goíla , & pc- 
"pA// de a * eu amado Filho, que os homens a intitulem, &no^ 
Jori! "mcem pela Senhora da Caridade : Mater dileãionis , como 
* diz Ricardo de Saq Lourenço j& r Aíãw no^iamoru, co- 
mia invoca Sap Boaventura. 

Na Parochial Igreja de S.Nico!ao(hua das mais ricamen- 
te ornadas que tem a Corte,& aonde fe cuida do culto divi- 
no com muita graiVdc'za,acey o,& f érf or) he hoje venerada, 

&'balcada-coih jf rándc devo põ , hutaa milagroía Imagdfi* 

dê 



Bonav 

mtno 



Livro TL Titulo TL r%? 

da Mãy de Deos, cem o titulo da C aridade j a qual fe vc col- 
locada na terceira Capeila do corpo da Igreja , começando 
da entrada ,à parte da Epiflola. Eflavaefla Senhora cíque- 
cida (fendo ella pelo myílerioíò titulo que tem , tanto para 
lembrada) noanno de 1700. quiz a Divina Providencia* 
não fó para confufaõ da no Ta frieza, mas para mayor de- 
monilraçãodaíua piedade para com qs peccadores , faze- 
la lembrada. 

Nunca a devoção dos homens he taõ confiante , que na5 
deícaya do feu fervor ; com o tempo fe esfriarão os Irmãos 
da Irmandade da Senhora • de forte, que naõ fó já naõ havia 
raftos delia , mas nem havia quem lhe p uzeffe à Senhora np 
íèu /-ltar humas velas, nem lhe accendeííe afuaalampada: 
& aífím efiava a Senhora da Caridade^ tendo tanta com os 
homens) totalmente efquecida delles : & para que efks fof- 
fem lembrados do muito que elle.s devem à fua grandeza,<3c 
amorofa caridade, osquizreprdhendei com nevos benefí- 
cios. Em Sabbado fanto do annode 1700. fuecedeo, que 
achandofe a Campada da Senhora naõ fó feca de azeite , ma$ 
cheyadepò, comoalampada que havia mais de féis mefes 
<jue íe naõ avia accendido , nem fe lhe havia lançado azeite; 
neíte dia acetndendofe as outras por aquelles que tinhão 
eargo delias ;da da Senhora da Caridade, não ouve quem fe 
lembraíTe : neíte tempo ella fe accendeo por fi mefma ; ou a 
accendèraõ os Anjos 5 acujaviíla, & ao fervor do azeite, 
admirados todos os que viaõ , & reconheciaõ a maravilha, 
fe começar, õ a mover com nova devoção > '& a cuidar com 
novo £ rvor dofervico , & obfequio da Senhora : & foy taõ 
grandeefta devoção com que entrarão , que já hojeeflá re- 
novada a Irmandade , a C apelia com novos ornamentos > & 
íe íeíícja a Senhora com muita mais grandeza que antçs. , 

Naõ fe autenticou o milagre , fendo taõ grande , & ta5 
publico por negligencia^ delcuido, que nifto fe falta mui- 
tas vezes» Nas maravilhas que a Senhora de novo começou 

a obrar, 



i8$ Santuário Mar iam 

a obrar , moftra o muito que fe obriga de que a fírvno ; pari 
que nefte íanto exercício recebaõ da fua carid ide , neíte 
mundo muytos farores,& no outro prémios mediante a fua 
interceíTiõ. Sobr- a origem , & princípios defta Santa Ima- 
gem*5ccaufa do titulo da Caridade , o que achei fby-ofe* 
guinte. 

Pelos annos de 1640. ou alguns annos antes , ínvia 
em Lisboa hum fiJalgo chamado Dom António Dcça: era 
efte devotiíTimo deNoffa Senhora da Caridade ;( devoção 
que tomaria com alguma devota, & milagrofa Imagem deite 
titulo ) com cila comprou na Igreja de Saõ Nicolao hua Ca- 
pella y fazendoa titulo , & cabeça de morgado; que adornou 
: àfua cufiacomdefpeza., &riqueza; porque tinha muitas 
peças de pr ata, &nella collocou huma devota Imagem de 
NoíTa Senhora , que mandou fazer de rica efeultura de ma- 
deira \ & de venerando roita, a que impoz o título da Cari- 
dade ; he de eflatura d f ; cinco palmos , com o Menino Tenta- 
do no braço efquerdo, com fermoías, & ricas coroas na 
cabeça -.adornou o Altar com ornamentos de ricas, &cuf- 
tofasfedis : & embarcando c eíte fidalgo para a índia , de lá 
lhe trouxe hum ornamento inteiro da melhor tela que ha- 
via. 

Com a grande devoção que efle fidalgo moftrava â Se- 
nhora da Caridade , fe começarão a mover outras pcffoas 
devotas \ em defejos de fervir também á Senhora; & aflim fe 
congregarão em huma luftrofa Irmandade; (cm q je entrava 
também hum filho de Dom António, chamado Dom Duarte 
Deça ) fizeraõ feu compromiflò , que fe confirmou em vinte 
& íeis de Março do anno de 1650. pelo Reverendo Cabido 
Sedevacante. Feflejavaõ a Senhora eíksfeus devotos Ir-» 
mãoscum muita grandeza; tinhão o Senhor expofío, & 
acabavaõ a fua fefta com prcciíTaõ folemne , (efta fe fazia em 
O fegundo Domingo de Agoíio)como hoje novamente con- 
tiniião. Depois da mer te de Dojii Antónia, & aufentando- 



Livro II. Titulo II. 2 8$>, 

fc também dafreguefia feu filho D.Duarte, & outros Ir- 
mãos mais f ervorofos , fe começou a esfriar nos mais a de- 
voção ate íe vir a acabar quafi de todo. Também íuecedeo 
que hum Joam Pereira Peftana fez demanda a Dom Duarte 
(que ainda íè lembrava da Senhora,) afim de !he tirar o 
morgado , com a caufa de q havia faltado em algua claufuía 
delle exclufiva, que havia poílo oinftituidor , que com ef- 
feitolho tirou, & parece anda em feus deícendentes. A Se- 
nhora efíá coilocadaemhua tribuna adornada de cortinas, 
&cuberta com volante, para mais veneração. Obra muy- 
tas maravilhas , como o teílemunhão os muytos quadros , 
em que fe vem, & eflão pendentes na fua Capella, &: outros 
ínaes. 



TITULO III. 

Z>4 miíagrofa Imagem de noffa Senhora do DeBerrodos 
(padres Bernardos. 

OS Padres da Ordem deSam Bernardo fundarão em 
Lisboa noanno de i59i.emoito de Abril, como fe 
yè de hua pedra que eftá no Clauftro velho, aonde fe lc efla 
iníeripçam: — . 

- — Fundata eft domus ijía Ordinis CiBertienfís in 
laudem *Deipar<e Virginis Marine de Exílio , nec 
non Seatijimi Tatris nojiri Bemardi eximij Do-] 
ftoris aww ãNativitate Domuú 1591. ocfaVa 
die Jprilis. 
Emomefmo fitio em que hoje fe vè o feu magnifico Con- 
vento, elles mefmos deraõ o titulo do Defterro ao Mortei- 
ró, dedicando-o a no Ta Senhora , quando avifando o Ahp 
a feu Efpofo Sam Jofeph /lhe mandou foíTe para.o Egy pto; 
& também quando do Egypto lhe mandou voltaOfe para as 
Tom. Io T terras 



tgó Santuário Mariano 

; terras delfrael. Mandarão obrar hua perfeitiftima repre* 
fentação defia mj fleriofa jornada , com trcs Imagens de ef- 
cultura, nofia Senhora, o Menino Jefus, & S. Jofeph. De- 
pois decollocada a Senhora começou a fazer tantos mila- 
gres, que era naquellc tempo aquellaCafa o Santuário mais 
celebre da Corte; o que ainda hoje tefiemunhão os tropheos 
das vitorias q a Senhora alcançou contra a morte,& enfer- 
midades, em mortalhas, quadros, & outros linaes. ,: 

O primeiro milagre que a Senhora obrou foy emhura 
Religiofo domefmo Convento, que eftando jà deíUtuido 
de todas as eiperanças da vida, invocando o favor da Se- 
nhora doDeíierro, a alcançou milagrofa,& em acção de 
graças procurou eiíabelecer , & dilatar a devoção da Se- 
nhora, infíituindolhe hua Irmandade, que nosíèus prin- 
cípios fe compunha das peííòas mais illuítrcs da Corte- De- 
pois ficou nos Defembargadores j ,& nobres >& ainda hoje 
elegem por Juiz, & Efcrivão as peffoas mais nobres» 

Em quanto viveo aquelle Religiofo, que por obrigada 
dos favores da Senhora cuidava muy to de afervorar a to- 
dos aofeu fer viço, era fefíejada nosíète dias depois dos 
Rey s> com muy ta grandeza, & euflo : eftava o Senhor ma- 
nií eito todos eftes dias , nos quaes prègavão os mayorcs 
fogeitos da Corte : mas jâ hoje como falta quem accencao 
fogo da devoção, também he }à pouca a affiíkncia. Na vida 
da yciieravel Madre ior Brifída de Santo António fe refe- 
re , em q ellando no Brafil doente o Defembargador Jorge 
daHlvaMafcarenhas,&dehua doença tam grave, que ha- 
viaõ ddeenfiado da fua vida , elle fe encomendou à Senhora 
doDeíierro de quem era devoto ,& alcançou perfeita fau- 
de, & em acçíto de graças, tanto que chegou aoíUyno, lhas 
foy dar à fua Caía aílim coino defembarcou. Eíiá collocada 
a Senhcra em hum nicho grande prolongado com o Me- 
«inoLeos [ela mao,& da outra yarte íeuEipoío Ssmjo- 
ícph, He a Senhora de grande íennQiura > & todas as Ima- 
gens 



Livro II. Titulo IV. 2^j 

jgtnskm perfeitamente obradas de madeira de talha eítofa- 
dasjà Senhora lhe poem fomente manto. 



TITULO IV. 

S)a Imagem de nojfa Senhora do Refugio, quefe Venera 
no Convento de nojfa Senhor a doT>eJíerro. 

EM todos os trabalhos, & perigos da vida foy fempre 
para nos Maria Santiílima, o noíTo refugio, como diz o 
Padre Hieremias Drexelio no feu Nomendator : Refugi um 
in omni pericnlo tutijfimwn. E affim a ella he bem que re- 
corramos: porque ellahe todo o noffobem , & todo o noíTo 
refugio em todos os lugares, & em todos os perigos. Af- 
fim no lo perfuade , &açonfelha Sam Bernardo , dizendo : 
Si Seat a Maria pjè à nobispulfatafuerit, non deerit necejfi- BerfJ ; 
tati notírá, quoniam mifericors etf, & mifericordU Mater, ferm.zl 
Se a Bemaventurada fempre Virgem Maria for de nos pia- pofi 
mente com orações rogada, não faltará ànoíTaneceífidade, Epiph; 
porque ella he todo o noíTo bem , & refugio, & May de mi- 
fericordia. Quem recorre a-efta Senhora, & a efla Cidade 
de refugio, fempre acha abertas as portas da fua clemência: 
nella efeapamos de todos os perigos, & de todos os affaltos 
. denoffos inimigos. Aflim o experimentâo os que com ver- 
dadeira devoção bufeáo a efla Senhora em a fua Santiílima 
Imagem do Refugio, que fe venera no Convento dos Pa- 
dres Bernardos de noífa Senhora do Defterro , aonck era 
tida , & bufeada com grande devoção ; mas como eftaem 
nòs mais depreífa fe esfria, do que íe augmenta, jà hoje pa- 
rece que não he tam frequentada, corpo o foy em feus prin- 
cípios. 

Da origem defta Sagrada Imagem fe refere o que agora 
direy. No Ccnvento de nolfa Senhora do Deíkrro de Lis- 

T z boa 



tpi Santuário Mariano 

boa havia hum Irmão leigo chamado Fr.Cypriano, homem 
de grandes virtudes, & por tal efíimado, & venerado de to- 
dos. Era eík homem bem nafeido , &. nada ignorante 3 mas 
por fua humildade entrando naReligiam não (juiz paíTar 
do tilado de leigo. Fcy muytos annos Sacriflão daquelle 
Convento, &como era virtuoíò, tinha a fua Igreja com 
muytaaceyo ;& aífím pela devoção da Senhora doDeíler- 
rp, como pela caridade , & bom aviamento que o Saeriítão 
dava aos que naqucliaCafa frequentavão os Sacramentos > 
continuavão naquella Igreja muytas peíToas devotas , & 
muy tas mulheres nobres, & ricas. Entre eflas vcyo huma 
que também era muyto devota do Sacriflão, paga da fua 
muy ta virtudie, & caridade; &convcrfandocomelleem hua 
tarde, !he diífe., que havia mandado fazer huma imagem de 
Santa Catharina>&que eftava defgoftofa , porque lhe não 
fahira do feu agradoy porque não era tam lermofa como ella 
defejava que foífe. Diffelhe o leigo Fr. Cy priano a iíto: Jà 
queeífa Imagem não agrada a v.m. dè-maque eu a quero. 
Darey,difle amulherj&nodiafeguinte foy outra vez,& 
mandou entregar a Imagem a Fr. Cy priano ; que a eflimou 
muyto & lhe pareceo muyto linda , & muyto perfeita , & 
fern nenhum daquelles defeitos que a mulher lhe achara 
para não goflar delia. 

Começou oSantoVaraõnafua cella a louvar a Santa 
Irnagcjdizendolhe: Vòs me pareceis muyto fermofa,& não 
haveis de fer daqui por diante Imagem de Santa Catharina, 
mas Imagem da MSy de Deos, & da Rainha das Santas Vir- 
gens. Porém eu não fey o tituío que vos hey de dar: dizey- 
me vòs como quereis que eu vos intitule Na noyte feguin- 
tefonhou com a mefma Imagem da Senhora; ou a Senhora 
emfonhos lhe fallou,& lhe mandou queàqi^ella Imagem , 
que ella aceitava, pára nella fer venerada, lhe deíTc o titulo 
de noífa Senhora do Refugio. Defper tou o Irmão Cypria- 
nonjuy alegre, & deu asgrajas à Senhora, porque lhe qui- 

zera 



Livro II. Titulo IV. 193 

zcra manifeílar a íua vontade,§c o que fe agradava dos ícu* 
defejos. 

Em outro dia vieraõ de tarde á Igreja huas peffoas no- 
bres, <k ancians outras, que to ias eítimavão, & vencravão 
muy to a Fr. Cypriano ; & com eíta occafiam lhes foy falhr» 
&metendoas emconveríaçaõ IHesditTc: Qual de v.m. quer 
acudir a húa grande necefildade? Eu. conheço huma peiíoa 
muy to nobre, & muyto Santa, que eftá em hu grande aper- 
to; & tam grande he , que nam tem fsy a , nem tem man t© ; Sc 
talhe a fua pobreza, que nem camiza tem. Ecom a energia 
com que elle expunha aneceffidade,&apobí , ezadaquel[a 
Senhora , refpondeo hua : Effa peflba he donzdia , ou viu- 
va ? Se he donzelía , eu lhe offereço hum guardapc , cami- 
zas, & o mais que eu tiver: outras fe lheofferecèraõ que da- 
rião ftyas, manto , & tudo o mais de que aquella peflba ne- 
ceflitava , &-com que apudeflem logo remediar, para que 
fahiife daquellc grande aperto >&neceffidade que íhesre- 
prefentava. 

Depois de Fr, Cypriano as entreter na cóníidcração^ 
& difeurfos de quem feria aquella peffoa tam nobre , tam 
íanta , & tam ncceíTitada, como clle lhes propunha ; para as 
livrar daquelle cuidado enrque cílavaõ com a narração, que 
lhes havia feito, lhes pedio licença para chegar à cella , & 
que logo voltava. Foy, & trouxe cm íêus braços a Imagem 
da Senhora do Refugio.' Tanto que aquellas devotas mu- 
lheres viraõ a Senhora , cada hua delias fe offereceo para a 
levar para fua cafa, & para a adornar , & veítir com toda a 
perfeição, quando não foíTç como a Senhora merecia/quan- 
to a íua devoção, & poffes alcançaífem. Finalmente h ua em 
quem cahio avboa(prte,alevou para fua cafa, aonde ave- 
itk), & çompoz rica , & pteciofamente, & depois a mandou 
ao Sacrií}ão • & elle acolloçou em o AÍtarmòr aparte do 
Euangelho, aonde ainda ao prefente eílá. 

Elia mcíma Senhora que a veftio naquella occaíiaõ , to- 
Toip. I. T j xnoxi 



2^4 Santuário Mariano 

mou por íua devoção o veiíiiia íempr e, mudandolhe os ve* 
i .i os íegundo os tempos. Recolheofe cita nobre Senhor* 
em o Moi tetro de Santos, & de là continuou, tm quanto vi- 
reo,o rr andar veitir a Senhora: forque confervava nafua 
cafaocoíre emque tinha os veitiaos, & altayas da Senhora 
do Refugio. He efta Santa Imagem dedous palmos pouco 
mai s, ou menos: eftá comas mãos juntas com cabelleira, & 
coroa imperial. Succcdeo ifto em o anno de 1 670. & tan- 
tos :'& ofervo de Deos.Fr. Cypriano morreo no de i686# 
óu 687. 



TITULO V. 

Da Imagem de notfa Senhora da JfmpçaÕda maios 
Ourives da prata , ou dos Vrateirofi 

NO Rcynado do SerenifUmo Rey D. Manoel collocá-J 
raõ os Prateiros de Lisboa, em afuarua em que vi- 
viaõ> & tinhaõ as fuás officinas, (que antiguamente era tatíi 
€Íireita > que não podia paífarporellá hua beíta de carga: & 
tinhaõ por privilegio dosReys duas columnas aíTentadas 
íiòmeyo dos topos da rua ., para o impedirem j, & fomente 
pedia paflar hum homem de cavallo ) em hum nicho de hua 
das paredes delia , hua Imagem át noíTa^Scnhora^que fe- 
ítejavaõ com o titulo de fua AíTumpçaõ em 1 5. de Agoflo, 
& neíte dia lhe fazia© grande feita, fazendo alguns Altares 
emfeulçuvof comnmyta grandeza, &cuflo;efíèitos tudo 
da grande deveçaõ que tinhaõ à Senhora. Depois reynan- 
do ElRey Dom Affonfo o V I . mandou^) Senado da Cidade 
alargar a rua em forma que podem hoje rodar por cila três 
carroças emparelhadas: feita a rua nelia fórma, intentarão 
todos os moradores delia unidos , fe lhe edificaíTe à Senho- 
ta,não hum nicho na parede, como antes tinha; mas hua 

Ermida 



Livro II. Titulo K 195 

Ermida imgeftoía , & ornada a k>ío o cuíW Alguns annos 
paiiaraõ primeiro que fepuzefTe eme>ecuçaõ efle devoto 
intento, atè que no anno de 1 697. íc deu príncipe à Ermi - 
da , que uca no meyo da rua , na parede que fica.à parte do 
Occidente. Todos cftes tempos efteve a Santa Imagem em 
cafa de hum Pratúro, que a tinha com toda a devoção-, & 
reverencia 7 & fem duvida por fer o Obcdcdon deíla divina 
Arca, alcançaria a mefma bençaõ que elle mereceo. 

Acabada a Ermida da Senhora , qúc eftá feita com muy- 
ta perfeição; & adorno , fe collocou a Sara Imagem no mef- 
mo dia de fua Aífumpçaó, com grande folemnidade , & fe- 
fta,fazendofe f neíanoytchúaviftofa encamizada desfigu- 
ras a cavallo com os attributos da Senhora. Depois de coí- 
locada começou o povo a concorrer , & a venerar aquella 
piedoíà May dos peccadores cm a fua nova Cafa , & com 
grande fé lhe pedião alivio em fixas penas, remédio em feus 
trabaihos,&faude pari fuás enfermidades ;& tudo acha- 
vaõ, porq não faltava a piedofa Mãy em lho alcançar : muy- 
las tòraõ/& íaõ as mercês que todos recebem , como publi- 
caõ as innumeraveis memorias^affim em quadros , como em 
outros fiiaaes de cera, & mortalhas que o ertaõ dizendo. 

No mefmoánnode 1697. emo mezde Setembro fe re- 
fere, que encomendandofe hu homem à Senhora, o qual fe 
achava quaíi privado da vifta, 6c tanto, que naõ podia ler hã 
papel ; fezlhe.efte hua novena , pedindo à Senhora cõ gran- 
de devoção , para que lhe alcançàífe d: noífo Senhor a íua 
viftà jíc tendo acabado a nfoverm , & vendo que não tinha 
nenhuas melhoras ,nem efperança de as ter,aíTentou com- 
figoqueonaõ mer c cia à Senhora ,&affimquiz defillirdas 
fuás mflancias ,& depreca;oens. Animarão no os de fua 
cafa a que continuaífe , & fiaife muyto na piedade da Senho- 
ra, em que lhe havia dereftituir a íua vifta. No feguinte 
dia foy vifitar a Senhora ,&pofto diante delia commuyta 
humilaade, & de vocao, continuou a fua fupplica. Nettç 

T 4 tempo 



zy6 Santuário Mariano 

tempo ft lhe reprefentou /que via a Senhora commuy ta di- 
flinçaõ,oque atèli não experimentava j& querendo pro- 
var ibera engano, tirou da algibeira hua carta, para ver fea 
vifia eftava mais clara, comofe lhe reprefentava: leoa per- 
feitamente, & reconheceo a mcrcè que a Senhora lhe havia 
feito,& aflim fahio da Ermida, publicando os favores da Se- 
nhora. A efte íè feguiraõ outros muy tos, que deixo de re- 



A Imagem da Senhora he pequenina, porque temdous 
palmos > mas he muy to linda, & perfeitamente obrada de 
talha de madeira , & eftofada > & com haver tantos annos , 
que fòy feita, & eílar quafi expofta às inclemências dojem- 
pô; porque fomente parece tinha hua vidraça; eftá tam per- 
feita:, &tam livre da corrupção a madeira, como fe toíTc 
obrada de pouco tempo. Eftáemhua tribuna, que fica na, 
meyo dorctabolo,\que he de perfeitiífima talhadourada, 
debaixo de hum fitial ,& cuberta de cortinas ; & íctúo ex- 
põem, femeflarem luzes acefas:hemuyta a frequência do 
povo, que concorre a venerar continuamente a Senhora* 



TI T U L O VI. 

Da Imagem de noffa SenhoYa da Fè, quefe Venera na 
(PaYochia deSJofepb* 

NA Parochia de Sam Jofcph extra muros da Cidade âé 
Lisboa para a parte do Occidente, eftá collocada (cm 
afua SacriíliaJ híía antiga Imagem daMãydeDcos, ajque 
daõ o titulo da Senhora da Fé: porem ignorafe a caufa, por- 
que felhe deuefteappellido. Oqueachey por tradição, úv- 
ijuirincfo a origem delta Santiffirtia Imagem, he, que fora a 
primeira que fe venerou- na Igreja do a Con vento da Madre 
áe Deos da meíma Cidade, que fundou a Rainha D, Leonor/ 
." ' ' mulher 



Livro II. Titulo VI. 197 

mulher delRey D. JoaôoII. Seque coliccandofe depois a 
que hoje he venerada por obra das mãos cos Anjos , a leva- 
ram para o Paço , & ie puzera na fala dos Tudelcos , & que 
allieflivera. Depois da acclamaçaõ doSpreniflimoRcy D. 
Joaõ o IY. fe fez deita grande fala a Igreja da Capella Real, 
no intenm que fe fabricava a nova. Com efta oçcaíiaô al- 
gum Meftre de obras de carpentaria veria a efta Imagem jà 
commuyto efquecimento;com a grande devoção que teria 
aogloriofoS. Jofeph, arecolheo cmfuacafa,para acotio- 
car, como fez, em a Sacriflia do feu Santo : & era jufto que 
affim fòfle , difpondo Deos que a Efpofa ficaífe na Cafa do 
EfpoÍP. A Imagem moftra muyta antiguidade; eftá emhu 
nicho de pedraria fobre o lugar dos caixoens , aonde os Pa- 
dres fe reveftem para celebrar. Moftra na proporção finco 
para féis palmos; mas eftá ao que parece aíTentada. He de 
roca , & de veftidos. Eera juftò , que por efta antiguidade 
a tiveíTcm (fem embargo de eftar com toda a veneração) re- 
colhida, & fechada com ricas vidraças. Muyta gente da^ 
qiíclla f reguefia tem grande devoção a efta Senhora. 



TIT U.L O VIL 

3>* Imagem de Nojfa Senhora do Som Defpachç] que 
fe Venera no Collegio de Santa Agoftinbo. 

Ommunicou o Divino Efpirito àMSy de Deos na En- 
_ carnação ào Divino Verbo a mayor graça, que lhe pcH 
dia communicar : &ifio para que tiveíTe com Decs o mayor 
valimento que podia ter. A graça tem por propriedade o 
fazemos tam validos de Deos, quanto nos faz : Santos ;"&" 
como era neceffario que a Mãy dos peccadores , para nego- 
ciar com o feu Fiat o defpacho da Encarnação (em que efta- 
vã q remedio dos homens J tiveíTe com Deos o mayor vali- 

mento, 




i^S Santuário Maridni 

mento, convinha que ofcipirito Santoihecommunicaííea 
mavor graça: <{>intuf Satã as [upirVentet ince. Sobrequc 
^ Ber _ acrecctao msllifluo Bernardo: SuperVenire mmtiatur gra- 
nará* P ter abu } tda x itioris gratine plenitudinon. No grande defpa- 
cho daEncanaçaõ fe vè o valimento da Senhora. Foy a 
Encarnação do Verbo Divino hum dos grandes aefpachos 
que os peccadores alcançarão: &fe perguntarmos a Santo 
AgofKnho pelo tempo emque encarno j o D vino Verbo, 
refpondernos ha, que pelo tempo em que ornando fe via 
mais perdido; & pelo tempo em que fc vhp mais peccados 
no mundo: Ntimquam mundus jmmundfor fmt >quàm <ún 
Ver bum caro fatiam ?ft. Efte foy o tem; o cm cjuc.a Sçrhora 
do Bom Defpacho alcançou a mayor mercê aos homés, & o 
tnayor defpacho qus ellcs podiaò rer. 

Tamgrande he o poder da Senhora do Bom Defpacho a 
favor dos peccadores, que atè aos réprobos, aiz Guiíleimo 
Parifienfe, que aproveita. Diz Chrilto a Pedro: Tafce oves 
iw^j^&aMaria: Pafce fadas tuos ; pelas ovelhas feenteni- 
dem osefcolhidos ; & pelos cabritos os réprobos : pois fc 
os reprobQs fe não haõ de falvar, porq ha de fer Maria fua 
medianeira? Ouvi ao Padre: (PafceJmíostus,qnia eos, qui 
âfimUris tnjudicto erant collocandijttta vitvrcejfwnteffi- 
des., ut collocentur à dextris. Encomendavos, ò Virgem 
Maria, Sc Senhora do Bom Defpacho, o cuidado dós répro- 
bos; porque muy tos no dia do juízo ham de ir com voífo Fi- 
lho para o Ceo, que íe vós não fôreis, fe haviam de conde- 
nar. Muy tos haõ de ter naquelledia o defpacho mais im- 
portante , que fenão fora a voífa interceífaõ , teriam ó def- 
pacho mais infeliz. 

Na jnterceífaõ da Senhora do Bom Defpacho de que 
agora tratamas , fe tem vifto o como os alcança felices aos 
feus devotos. No bay.ro da Mouraria para a parte do Ori- 
ente fica hum monte, em que eftá íituado o Caítello de Lis- 
boa, quç vay quebrar ao poíligo que chámaõ-dc Santo Ar*- 

dre, 



Lkro II Titulo Vil 19$ 

àtt; nas raizcs dcfle monte,para aparte ddKorocícfcvê 
íituado o CollegiodemeuPatrUrtha Sinto Àgo{\itiho^ãc 
que jà falíamos rífima no Titulo da Senhora da l nccrnaçaõ, 
ou daAnnunciada: porque tocas as Imagens dencííaSe^ 
nhoraque fevcntraõnaquella Caía, faõ milagrofas. Nella 
fiemuyto venerada hua antiga Imagem da Rainha cos An- 
jos, com o titulo do Bom Defpacho; porque jà no tempo em 
que os Padres da Companhia al/i entraram, era muy to ve- 
nerada^ & fervida de hua grande ,& devota Irmandade, & 
fe lhe faziaõ grandes feflas; mas jà hoje ( porque o bom naõ 
dura muyto) eftá algum tanto deícaida aoiella antiga ; & 
fervorofa devoção. Comefta Santa Imagem teve particir- 
lar devoção o gloriofo Padre Sam Francifco Xavier ; dlantç 
delia oraya, & com ella fe recreava todo o tempo que fe de- 
teve em Lisboa, & em quanto naõ fez viagem para o Orien-^ 
te. Pelos annos de 1658. pouco mais, óu menos, adoecen-» 
do graviflímamente ElRey D. Aííonío o VI. fendo ainda 
moço,& eflando debaixo da tutela da Sercniílima Rainha 
fua mãy , depois de citar jà defeonfiado dos Médicos , & 
quaíi cuberto , fe valeo a Sereniffima Rainha fua mãy dos 
poderes , & valimento da Rainha do Ceo ; & tanto que lhe 
lançarão fobre ocorpohu manto da Senhora do Bom Def- 
pacho, fe viraõ logo rielle repentinas melhoras,, & em bre-* 
vc convalefceo , & ficou fam. 

Efia Santa Imagem fempre foy de talha , & de efeultura 
dé madeira como he hoje; mas eílava o corpo,pelos muy tos 
annos que tinha de duração, taõ crivado da traça, que fe 
citava desfazendo; mas a cabeça, & as mãos, que hetoda a 
perfeição , eflava fem lezaõ algua ; &aílim felhe mandou 
fazer outro novo corpo, que he de e^cellente efcultura; 
nellc fc accommodou 2 cabeça , & as mãos , & ficou com no- 
va perfeição reparada. He 'imagem mageftofiffima , ft ba- 
ftantemente grande, porque ;erá mais de fete palmos; cílà 
com asmãos poftas^&coilocada em aCapella que fica no 

corpo 



300 Santuário Mariano 

corpo da Igreja aparte do Euangelhò , & em paralelo com 
a da Senhora da Conceição, A Capella he de talha' dourada, 
ricamente ornada com exceli entes ornamentos, & nrdytos 
vazos de flores artificiaes. 



TITULO VIII. 

7)a milagrofa Imagem de nofa Senhora da Conceição, que 
i ^mfi Venera em omefmoCollegie. 

NAô ha lugar no mundo por mais humilde, & abatido 
que feja, que deixe Deos dcoaccitãr,&elhmar. Bem 
ie vio iflo, que nacendo em Bel em, nem deíprezau o eíia- 
bulo, cj'ie era o lugar em que os brutos defeanç ivão, nem o 
prefepio, que era o íugar em q eífes mefmos brutos comiaó. 
Sua Mãy Santiífima • como quem em tudo exercitava a fua 
dou trina cambem fe naõ dedignou dos lugares humildes, & 
defprezados. Tudo fantifica Deos aonde chega , & Maria 
aonde afTiifc. Aquelles Padres que na Perfía refgatáram a 
fua Santa Imagem ., que fe venera em o ConvÊto de noífa Se-- 
nhora da Graça , experimentarão ifto muy bem : porque 
com fer defprezada de hum bárbaro Mahometano , que a ti- 
nha ahuni canto da cafa fem reverencia, não deixava de lhe 
áugmentar os çabedaes, fazendo que eftes creceíTem fem 
numero. Em a Cidade de Lisboa fuecedeo^não o mefmo> 
mas outro caio, em que naõ faltou a reverencia y mas fobe- 
java a íimplicidade. 

Era a Mãy de Deos emhuma Imagem íua ? que he a da 
Conceição de que agora tratamos, o remédio, & o augmen- 
to dos cabedais de hua pobre 7 ScruíUça mulher , cuja oc- 
cupaçaõ, & trato era vender coufas cojnc/Uveis. Tinha eiía 
húa Imagem de noífa Senhora da Conceição, de veflidos, de 
altura de pouco mais de deus palmos^& tinha tanta fé coai 

ella* 



Livro II Tituh VIU. [ 30? 

ella, que para fazer boa venda nas coufa s com que tratava % 
punha a Imagem da Senhora fobre ellas, ou fazia cuc a Se- 
nhora as tocaífe , para que aífím ficando bentas do feu cou- 
tado, fe lhe vendefíem logo: & tinha jà nefta matéria tanta 
experiência, que o mcfmo era ufar deita diligencia, que iuc- 
cederlhe como defejava, Advertio niífo hua mulher vir- 
tuofa, & portal avaliada na mefma Cidade depeffoas de 
muyta fuppofiçaõ, & defejou muyto que a mulher lha deífe 
para a collocar em parte aonde foffe venerada ; para jflo lhe 
fez grandes inítancias ? efíranhandolhe o q obrava, & taea 
coufas lhe diífe, que a mulher tratante, fem embargo ce re . 
conhecer , que a Senhora era todo o feu remédio, não tu/g 
outro fenaõentregarihe a Senhora* 

Tinha efta ferva de Deos muyta devoção com Santo 
Agoftinho, & por feu refpeito amava muyto aos feus filhos: 
& tanto que fe viocom a Santa Imagem em feu poder, logo 
a inclinou o feu affeâo a que a IevaíTe ao CoHegio do Santo 
Doutor , & que a entregaíTe a feus filhos , para que a collo- 
caífem em hum altar publico. Aflim ofzeraõ,&deraõas 
graças a Senhora , pois os hia bufear aelles. Collocada a 
Penhora no Altar, muyta gente tomou com ella devoção; & 
nos favores que por meyo defta Santa Imagem alcançavaõ, 
reconheciaõ o muyto que o Ceo a eflimava. O anno em que 
luecedeo ífto, & foy collocada, foy o de 1 675. Os Refigio- 
íos daquelle Collcgio procuravaõ fervilla com todo aqueile 
culto, aceyo,& perfeição que podiaõ. PaíTáraõ alguns an- 
nos, obrando fempre a Senhora muy tas maravilhas nos que 
amvocavaõ. Pelos annos de 1682. adoeceo hum Meftre 
do meímoCollegiograviíTimamente ,&no mayor aperto 
da enfermidade, quando jà o confideravaõ fem alguas efpe- 

rm ftu a V Jt ' fe encomenáou à Senhora da Conceição , a 
qual lhe ded^Das melhoras taõ repentinas , que todos as ti- 
Verao por#vorgrande da Senhora. Comefía mercê feita 
naquelíe Padre, crefeco a devoção de forte, que fe efpalhou 

a fama 



^oi Santuário Mariana 

a fama por toda a corte - y & o Padre Meftre cuidou muyfo de 
fer agradecido, tratando logo de lhe fazer hua Capella,* 
qual fe vè hoje ricamente ornada. 

Com a fama das maravilhas que a Senhora da Concei- 
ção obrava , a tomáraõ por Protedora Suas Mageíhdes ^ 
quando a Sereniflima Rainha D.Maria Sophia em o fegund© 
parto que teve, ( que foy mal fuccedido ) por juízo de muy^ 
tos Médicos fe julgou que difficultofamente teria mais fi- 
lhos, Ncfta occafiaõ teve hum feiiciffimo pnrto ,em que 
nafceo o Sereniílimo Príncipe D. Joáõ, & depois delle con- 
tinuarão outros muytos com feliz fucceífo, de que obriga- 
doo Senhor Rey D. Pedro, lhe deu duas alampadas de pra* 
ta, & hum jurode cem mil reis perpétuos para a lua fabrica: 
& a Sereniflima Rainha hua joya de valor de três mil cruza- 
dos. Avifia defle grande favor, que recebeo aCafaReafj 
recorreo a noffa Senhora a Marqueza de Marialva, (que 
havia alguns quatorze annos era cafada fçmefperanças de 
ter filhos) pedindo! Senhora da Conceição lhos concedtfle- 
Também os Médicos julgarão da Marqueza fer dificulto*! 
fiffimo oconfeguir o que intentava ; mas como os poderes 
de Maria Santiffima íaõ muytqmayoresdoqueos poderes 
da Medicina, deulhe noíío Senhor pela interceíTaõ de fuâ 
Santiflima May hua filha, que hoje vive , & he a Senhora D* 
]oachina; que na fua boa índole ,& de vota inclinação para 
os pobres,moílra fer filha da interceíTaõ da May de Deos.E 
aíTim confeíTáraõ os Médicos , que fó por milagre, & por 
efpccial favor de noffa Senhora , alcançara a Marqueza a- 
quella filha. A elte miiagrofo parto fez André Rodrigues 
de Matos efle elegante Soneto. 

SON ET O, 
Para dar fer à pedra mais luzida 

Gyra o Sol pela eíphera m uytas Ve.^es, 9 
[Deveram de fer 'Diamantes õs Mene^es^ 
Tots por filhos do Sol lhes tarda a Vida: 

Com- 



Livro II. Tituh VIII. 30 j 

ComVofcâ a heróica lu^ Vio renajuda 

Em largo tempo, o Sol dos Portugueses > 

Vósnotranjcurfo de duzentos meçes, 

Gyrdíieseftajoya ejclarecida*, 
Mas logre a devoção melhor emprega 

TSLas aras aonde be mais, qmm maisfe humilha, 

Dando fe a gloria a Virgem da Pureza: 
$eja da May da Graça a illujlre Filha, 

Sue vir por maravilha a natureza, 

Heter pornature^a amaraVilka. 

Também o Marquez não quiz fer ingrato aeíle bene- 
fício: porque deu também anofla Senhora hum juro perpe- 
tuo defmcoenta mil reis. Outras muy tas maravilhas tem 
obrado aquelia poderofa Senhora, que deixo de referir, por 
me naõ apartar do meu eílylo. 

Antigamente (como fica dito) era efia Santa Imagem 
de vefíidos 5 porém os Religiofos , logo no primeiro mila- 
gre tratarão de lhe mandar fazer hum corpo deefcultura 
de madeira, geneiíe accommodáraô a cabeça , & as mãos da 
Santa Imagem, & fi^hio acabada com grande perfeição. Eflá 
çollocada em hua rica Capella, com hum retabolo de muy to 
excellente talha dourada. Eítá em hum trono debaixo de 
hum rico docel,cuberta com cortina ,& não fedefcobre, 
fem primeiro lhe acenderem luzes. Tem muytos ; , & ricos 
ornamentos, & muyto preciofos ornatos, cortinados de 
damafeo carmezim franjados de ouro para as feífas , & ou- 
tros do mefmo damaíco com franjas de retrós para quoti- 
diano; muy tas peças de prata, como Sacra, Euangelho, La- 
vabo, cafíiçaes, & outros muytos vazos , & jarras pa ra flo- 
» res, com outras muytas peças defía qualidade. Fica efía 
^ Ca pella no corpo da Igreja àpsrte daEpiftola,&frcntcira 
^ à da r Senhcra do BomDçipachoj & toca acuella Igreja > 
(aonde fevem linco Capellas) parece humCeo na terra. 

Nos 



jo4 Santuário Mariam 

Nos princípios foy Sua Magetfadeque Deos guarde, o Se- 
nhor Rey Dôm Pedro , o Juiz perpetuo dafua Irmandade: 
porém hoje o he o Sere niffimo Príncipe Dom Joam. 



.TITULO IX. 

Da Imagem de nofla Senhora da Graça , que fe Venera 
fobre hua porta das da Cidade de Lisboa. 

NO mcímo bayrro da Mouraria , mas para a parte do 
Occidente, em hua porta que fica mais affima do Jogo 
da Pela, caminho do Rocio de Sam Domingos para o Col- 
legio da Companhia de Jefus,fevé collocada hua Imagem 
de noffa Senhora com o titulo da Graça , a qual fc collocou 
fobre a mefma porta em dez de Janeiro do anno de 1 657. E 
íahioeíta Santa Imagem da Igreja de noTa Senhora do Soe- 
corro com hua folemne prociífaõ^aqueafliftio innumera^ 
vel povo, acompanhada da illuflre Irmandade dosEícravos 
de noífe Senhora da Encarnação, que eftá fundada no Con- 
vento de hoíTa Senhora do Carmo da me/ma Cidade de Lis- 
boa y em cujo traníito, & co! locação pregou com grande 
applaufo o Doutor Jeronymo Peixoto da Sylva, Cónego 
Magiíiral da Sè do Porto- Efia Santa Imagem he de pedra, 
& antiga , & tem o Menino Jefus nos braços; a íua eílatura 
he de três palmos, ou pouco mais; eftá collocada em hum 
nicho fechado cõ vidraças: o nicho he de pedraria & todos 
os anrios he feftej ida pelos vifinhos q a iervem com grande 
devoção, & a Senhora lha paga nos muy tos favores q lhes 
faz : & aífim a ella recorrem muytas peííbas com fuás peti- 
ções, como vem os que paffaô poreílarua; & fevem os 
bons defpachos , que lhes alcança, com a perfeverancacom 
que lhas fazem» 

TITU- 



£ 



Livro II. Titulo X 30 j 



TITULO X. 

T>a Imagem âe nofii Senhora do fiopulo , cjuefe Venera 
no Collegío da Companhia de Lisboa. 

OS grandes peccados do povo Romano em tempo de 
S. Gregório Magno > í oraõ caufa de que Deos defem- 
bainhafíe a efpada da íua juftiça , para acabar com elle 7 por 
meyo de huma grande pcfte ; para que deíla forte paga'íè o 
que merecia. Tira o Santo Pontífice em huma prociffaõ hua 
Imagem de noífa Senhora, que pintou S. Lucas > & logo 
cefíou o contagio , fugio ocafíigo, &o povo ficou livre. 
Compunhafe eíle de peccadores , & de juílos; que muitas 
vezes eftes per viverem na companhia daquçlles partici- 
paõ dos feus caftigos. Mas Maria SantiíTima he taõ Mãy do 
povo , que a juflos , & peccadores aproveita de forte o feu 
favor , que a huns , & outros remedea , & alcança o per- 
dão. 

Diz o Euangeliila 8. Joaõ, que quando Chrifto morreo ; 
que affiftia Maria no Calvário ao pè da Cruz : Stabdt juxta 
Lr uam Jefu Mater ejtis. Hç certo que efla Senhora naó 
sííiftionacea , quando Chrifto mílituhio o Sacramento da 
Euchariflia ; porque alllm o dizem osjnais dos Padres. Pois 
íe o corpo > & o fangue que Chrifto nos deu na Cruz } & no 
Sacramento errô de Maria, (como dizAgoftinho) porque 
naõ affifte a Senhora ao Filho , quando nos remedea no Sa- 
cramento , aífiftindo quando nos remedea na Cruz* Porque 
o remédio da Cruz era para todos ,era para todo o povo 
Hebreo,& Gentio ; o remédio do Sacramento era para al- 
guns. Foy © remédio da Cruz para todos, porque morreo 
Chrifto alli pelos peccadores, & pelos juftos: foy o remé- 
dio do Sacramento para alguns , porque os juftos achaõ a!íi 
Tom. I. V vida 



30Ó Santuário Mariano 

vida ? & os peccadcres morte : J$ui manchftâ indigne, ituli- 
áumfibi mnnducat - y & como Maria he May de todos , todo 
o feu cuidado eftá em nos remediar a tórios > & affi.Tinaõ 
quiz interpor o feu pat ocinio na inflituiçaô daquelle Sa- 
cramento^ onde fe particularizava onofToremtdio. 

Por efia maravilha que a Senhora obrou a favor do Po- 
vo Romano fe lhe deu o titulado Populo/Ie cuja copia ago- 
ra tratamos. No tempo em que o Padre Ig na cio de Aze ve- 
do íby a Roma, era en*aõ Geral ã$ Companhia o gloriofo 
S. Francifco de Borja. Depois do Padre Ignacio de Azeve- 
do concluir onegocioaque havia ido ^tratou de alcançar 
do Summo Pontífice muitas graças, & indulgências > & 
também muitas relíquias para repartir no Brafihenrre as 
couíàs que trouxe > foy hum retrato da Imagem da Virgem 
Maria noífa Senhora do Populo , tirado muito ao natural da 
que pintou Saõ Lucas, que até entaõfenaõ permitira co- 
piar y por mayor veneração de taõ preciofa relíquia. Fila ía- 
grada Imagem fez copiar com particular licença doiummo 
Pontífice y S. Franciíco deBorja , por hum taõ íníignc pin- 
tor , que com hum agradável engano dos o^os que a víaõ> 
naõ íabiao fazer dífferença da copia y & do original ; & co- 
iro relíquia de tanto preço a mandou pelo Padre Azevcdoà 
Streniffima Rainha Dona Catharina, mulher delRey Dom 
jcaôoIII. Antes que fe fizefle delia à SereniíTi ma Rainha 
entrega y a mofirou cç>m grande folemnidade o Padre Igna- 
cío ç e Azevedo aos Padres do Coilegio de Évora y pondofe 
todosde joelhos > & indo de dous em dousa beijar , £c revê. 
rendar demais perto aquella Imagem de tanto preço. Ceíie 
retrato rnrndou fazer quatro copias por hu Irmaôda Com- 
rprnfíia pintorj»das quaes deu huma ao Coilegio de Santo 
I^nscio, vulgarmente chamado de Santo Antaõ > que os i 
ladres delle co!lcc«ra© na Capeila dodormitork) , & alli hc 
'VcncrfidadosRcligiôíòsjosqtiaes em qualquer trabalho, 1 ! 
fcu.fííkf aõ recorrem aeíla Senhora y& tem recebido delfa 

muytos 



Livro II. Titulo XI. 307 

muy tos favores. Efcreve deite Santa Imagem o Padre í?al- 
thefar Telles na iúa Chronica da província da Companhia 

de PnrttiPaf n. 2. 1. A. C 7* 



TITULO XI. 

2)a milagrofa Imagem de nofa Senhora da Graça r da 
cafeda JpproVaçao da Companhia dejefus. 

ACafadcApprovaçaõ da Sagrada Companhia de Jefus 
fundou Fcrnaõ Telles de Menezes , Governador que 
foy da índia , & fúa mulher Dona Mariana de Noronha , & 
deraõlhe principio ema fua quinta de Campolide > com o 
titulo de noffa Senhora da Affumpçaõ , applicando para a fa- 
brica , & fuflento dos Religiofo.s vinte mil cruzados no 
melhor parado de fua fazenda; dê que fe fez eferitura em 
Lisboa no anno de 1597. Ecelcbroufe a primeira Miílano 
di'a da Expe&açaõ em 1 8 . de Dezembro do me imo anno; po- 
rém como cite fitio ficava muito defviado da Cidade ., trata- 
rão os Padres de bufear ouxro; & de vários que fe lhe offere- 
céraõ , efcolhèraõ o da Cotovia, ou Monte Olivete , por fi- 
car mais perto \ &fer fitio de excellentes arçs, de vifla dila- 
tada ,& muito alegre , & agradável, com outras muitas co- 
modidades. Nelle fe lançou a primeira pedra em 23. 'dç 
Abri! do anno de 160$. debaixo da qual fe depoíiràraõ 
muitas medalhas de noffa Senhora, de Saõ Pedro, deSaõ 
Paulo , & S. Ignacio , com varias moedas de ouro , Sc pra- 
ta ? que deu o Fundador. A infcnpçaõ que tinha era elta. 

Be^Trmo^anOy&B. ^irg.jatf zf. Aprilu an. 

Dm- 1 005 . hora nona Ferdmando Telles de Me?ie^es y 

& Z>. Mana de T>loronh.ae']m uxorefimdatonbm. 

^pXlement.^IlLRegeThilippo II. Pr<epr;$toGen. 

Societ. Gáudio Aqua viVã, frov. Joanne Correu. 

V z En~ 



3 b 8 Santuário Mariano 

'Entre as Sífgradás Imagens que ha nnquclla Cafa, fe ve- 
nera huma de noíTã Senhora, com o titulo da Graça, muita 
imlagrcfa .: a qual fe vé coílocada em a Capella colíateraí da 
cruzeiro di parte do Euangelho. Defta Santa Imagem era 
devoriffi no o venerável Irmaõ Domingos da Cunha, pin- 
tor psrfeitiffimoroqualna uítipia e ífermidade de que mor- 
reo,paiecendo com notável fof rimento muitas dores, & af- 
fiiçoes, offerecendoas a NoíTo Senhor em fatisfaçaô de (eus 
peccados , paíTando hum dia pelo Alta r da Senhora da Gra- 
ça, (de quem recebia muitos favores , ) & fazendolhe pro- 
funda humitiaeaõjfentio interiormente que havia de ir à 
Gloria pelos merecimentos de leu bendito Filho ; cujo 
rayodcluzdoCeo lhe deu com tal alegria , &gozo, que , 
fez grande força para o reprimir ; ficando novamente ro- 
borado para mais o amar ,&:fervir. Heeíla Santa Imagem 
de madeira cftofada , & de grande , & fermofa prefença , <5t 
ertatura; com eíla Santa Irmgem tem todos íos Religiofos 
daquella Cafa grande devoção. Efcreve defta Senhora Car- 
doíò na vida do Irmaõ Domingos da Cunha no feu tercei^ 
rotom. pag* 182» 



TITULO XIL 

Da mihgrojalma-gemdemjja Senhora da Lembrança,qt& 

fe Venera naConVento dos "Padres Terceiras de nojfa 

Senhora de Jefw* 

A Principal Cafa q tema Ordem Terceira do Seraphico 
Padre S. Franciíco > he o Convento de # no Ta Senhora 
de Jeftis» Fundoufeefk em Lisboa nofitio quechamaodos 
Ca?daes> tomarão delíe poífeos Padres em diadefeu Pa- 
trhrcfw SJFrahcifeo a 4 . de Outubro de 1599- & no dia de 
SaõMathias de iéz^fediíTe a primeira MiíTa na fua nova 

Igreja, 



1 



w 



Livro II Titulo XÍL 309 

igreja , o que fe fezcom grande íòlemnidade. Saô Padroei- 
rosdeííaCafa os Condes de AtaIaya,&foy feu Fundador 
o Illuííriffimo Arcebifpo de Lisboa , Dom Joaõ Manoel, 
que enriqueceo efte Convento de muitas , & notáveis reli- 
quias^ de ricos , & cuítofos ornamentos , & de fermofas ,.& 
curicfas peças ,& vafos de ouro, & prata para o culto di- 
vino , & a viver mais annos feria cite Convento o mais rico 
de todos os do Reyno emcoufas defía qualidade- 

Neíía Cafa he tida em grande veneração , huma devota 
Imagem da May de Deos , que nos princípios da fundação 
daquelle Convento , collocou em huma das Capeilas da fua 
Igreja oBifpoD.Fr. Paulo daEítrella, Reíigiofo damef- 
ma Ordem, & fua Irmãa Hieronyma Dias , grande devota 
de noíTa Senhora ;&impuzeraõlhe o titulo da Lembrança; 
querendo obrigar fem duvida a efta piedofa Mãy dos pcc- 
cadores, a que com efle titulo muito felembraífe deliesj 
& como efta Senhora> íegundo diz S. Bernardo, he folicita, 
8c cuidadoíà medianeira para com aqueíle Senhor , que he o 
íingular medianeiro para com o Pay : Mediatrtx ad meilia- 
tarem 7 heccrto fe lembraria muito delles. Eiles mefmos 
fcconftituíraõfeus Padroeiros com huma Milfa quotidia- 
na ;& tem, hoje eíte Padroado os filhos de Domingos Bar* 
reiros , bifnetos de Hieronyma Dias. 

' Ouaefpecialidadedotituio da Senhora da Lembrança 
a fez naquelle tempo mais celebre a eíta Santa Imagem ; ou 
pela fua muita fermofura motivou aos fieis o fervillacom 
mais devoção :porque logo felheerigio huma Irmandade, 
que a feítejava todos os annos com grandeza, & aparato. 
Esfrioufe o fervor dos que a começarão a fer vir y & faltou 
nos Reíigiofos o cuidado em fomentar , & accender a mef- 
iria devoçaõ,paraque outros à imitação dos primeiros, con- 
tinuaífem o fervir à mefma Senhora > & affim a devoção que 
começou cm incêndios, feextinguio de maneira, que nem 
fcuma breve faifca jà fe enxergaífe. 

Tom» Ié V J ' Pa- 



3íô Santuário Mariam 

Parece que fentio Deos o efquecimento para com aquef- 
la Senhora., que íendo toda lembranças para comos homís, 
fpoisfernpre roga por elles)cahiífem na falta de efqueci* 
dos \ fcaífim moveo a hum Coriíia virtuofo , que fervia na 
Sacriília, (foyifío pelos annos de 1 691 . ) para que tomaífe 
muito a íeu cargo ofervir, & cuidar daquella Santa Ima- 
gem: íacudia a íiia Capella , acea va o feu Altar , & cuidava 
muito de oornar fempre com flores; & de tal forte fe infla- 
mou em amar,& venerar a cfta Senhora, q tudo.quanto pela 
interceíTaõ delia lua Santa Imagem lhe pedia,a Senhora lho 
alcançava. Muitos milagres fe referem , dos quaes indivi- 
duarei dous. O primeiro foy , que embarcandofe algus Re- 
iigioiosemhum WcodeCaíTilhas, que hiaõ afazer huma 
feita para aqucllas partes, & levavaõ em fua companhia 
dous Cavalheiros , que íem duvida eraõ os q os conduziaõ 
para a mefma fefia ;de repente fe armou no rio hua taó gran- 
de tormenta ^quLdefpedaçada^ & levada dos ventos ave- 
1 a,fxàraõ todos taõ atemorizados, juntamente com elles ós 
barqueiros, que jánaõ davaõnada por fuás vidas. Nefla 
grande affiicçaõ em que fe achavaõ todos, os animou o Co*, 
rifla, (que também os acompanhava) clizendolhes que invo- 
caffema fua Senhora da Lembrança , & lhe prometeffem d© 
ir à fua caía , que ella os livraria do perigo. Affim o fizeraõ; 
& no mefmo ponto parou a tormenta , foffegàraõfe os m a- 
res,& ficando o mar em bonança, chegarão felizmente a 
terra, aonde obrigados à Senhora lhe foraõdar as graças. 
Aiíentàrao de lhe fazer huma feita , & o compnraõ com to^ 
da a grandeza , como pedia o beneficio. 

O íegundo milagre(que por tal fe deve julgar) foy, que 
indo por aquellas partes o Conde de Atouguia em hum fe- 
ge>ocavalb que o governava tomando o freyonos den- 
tes o intentou deípenhar, & levando o fera docaminho fc 
íiia a precipitar de hum paredão abaixo. Advertiraõlhe que 
i&vccaííè a Senhora da Lembrança ^elioaffim^&o caval-to 

caindo 



livro II Titulo XII ^ 

èáhàom baixo fe achou fora das prizoens dele. 
cm cima íeguro : fahio o Conde fem lezaõ : o cavala 
ve perigo , &ofege ficoafaõ , & inteiro. A pè foy k t 
Conde dar as graças à Senhora, &dahi a breves dias . 
fez huma grande fsíla. 

Na fua Capelía , & nas que ficaõ myilicas a ella , fe vem 
iDuy tos quadros de mercês, que a Senhora tem obrado, & 
muitas memorias de cera, qije tefíemunhaõ outras muitas 
? que obrou. Finalmente a devoção da Senhora he hoje gran- 
de , & ainda fora muito mayo**, fe os Religiofos cuidarão de 
publicar as fuás maravilhas. Eflá hoje collocada em a fe- 
gunda Capella do corpo da Igreja , quando fe entra nella da 

Íarteda JEpiftola , em hum nicho no meyo do retabolo , que 
c de, muito boa talha dourada , & guarnecida a Capella de 
ricos quadros de pinturas de Roma; eitá com muita vene- 
ração, cuberta com cortinas, &comamefma fedefcobre* 
A Imagem ds Senhora he de rara fermofura ; tem o Meni- 
no Jeíii em pè fobre as mãos , & com multa graça eftá com 
-proflo inclinado para a May , & na mefma forma a Senhora 
com olhos, & attençaõ toda pofía no Soberano Menino, co- 
mo^uemiheeftá fallando,& ouvindo o que elk diz: he 
deexcellenteefcultura, de madeira eftofada, tem maisde 
féis palmos a fua eftatura. Q q fica dito nos referirão aquel- 
les muito Religiofos Padres indo àquelle Convento, aonde 
vimos, & veneramos eíta milagrofa Imagem da Senhora. 



TITUL O X XIII. 

S)a milagrofa Imagem de nqfa Senhora da Efperança, 
no Convento de RtUgiofas do me/mo titulo* 



E 



Ntre as flores a da Açucena hcjmuito celebrada entre 
os Authores, aflim Gentios,como Catholicos. Porque 

V 4 àaçu- 



Santuário Mariana 

cframaõ os Latinos Lilium , os húiànosGiglio) 

.cezcs L/j; os Polacos L/Z/a; osUngaros Liliov; o$ 

czcs A\ilii(t\ cílç nome vem de So\ana ,nome Hcbrai* 

.,, & corruptamente íe diz fofena, & iucena 7 &com o 

^ ^ articulo Arábigo a , afucena , & mudado o í, eme, fediz 

2I# * açucena. Defta diz Plínio , que em nobreza he muito vizi- 

£>/*/£./. nhaà-Rofa:Diofcorides diz, que he flor real: Pierio Valei 

3. ít. io. riaftò , que íe chama flor real , naõ denominandofe da Rai- 

jW*r. /. nha Juno , (da qual fingem huma fabula) mas da alteza real 

51. A de que goza: porque feaventaja às mais flores com tanta 

'**• alteza , que fuecede levantarfe trescovados. 

Tem mais eftagraciofa flor, fer fymbolo, & geroglifi* 
co de muitascoufas; de que feachaõ innumeraveis exem- 
plos nas divinas letras : aííim ovemos naquelles braços 
do candietrd que mandou fazer Moyfés, donde diz o Sa- 
ngrado Texto , que fahiaõ da haflia féis ramos, ou braços, Sc 
cada hum tinha três vazos a modo de nòz, ou três globos? 
pequenos , & três çucenas. 
3 Também era fymbolo dó Reyno dos Ceos fymbolizada 

, . nos dez candieiros q Salamaõ poz no Têplo ;(os quaes eraõ 
~? "d ^ a me ^ rna f ó rrna dos que fez Moyfés^como diz Torniello,) 
*** ' Ir & fymbolo da Pátria Celeftial(como explica Saõ Gregório.) 
dTzoxo Também era fymbolo de Chrifto Senhor noflò a Açucena; 
*. 16. cm cujo nome diffe Salamaõ em os Cânticos : Ego fios carn- 
Greg. pi y & lilium conVallium, Também he íymbolo dos Anjos; 
fíom.6. que a.flun o fentt S. Hilário explicando aquellas palavras 
f*£^c^dc Chrifto Senhor noífo : Conftckrate ItUaaçri; querefe- 
c*m.i. rem s. Matheos,& S. Lucas : he fymbolo dp bom cheiro, 
fíil ' . porque naõ ha flor que exhale tanta fragrância : he fymbolo 
€ J£ t £ da fertilidade. Deflas três coufas acharemos exemplo nas 
6. *L»c. palavras da Efpofa :-^ui pafdtur inter lilia ; donde a Efpo- 
12. * fa pelos lirios,quefaõas açucenas, íignificouobomcheiró^ 
&a fermofuradopaflo, que oEfjpoíò Chriíto noífo bem 
da ás almas , & a fertilidade da terra ooue as apafeenta; 

por; 



Livro 11. Titulo X1IL 3 T J 

porque onde fecriaõ açucenas, he fertiliffima* 

He fymbolo da caiiidade , virgindade , & pureza , fe- fíM 
ígundo a explicação de S. Hkronymo,&de Santo Thomasj a dj vl 
<& fegundoo explica também Gislerio , com as palavras an- D. Tho* 
tecedentes,quizdizeraEfpofa: Meu amado para mim, &*» C*n$ à 
euparaelle; oqualhe fermofo, adornado de infigne Iim- 2 - 
peza de tal maneira,que ainda que apafeente asliias ovelhas, ^ <Pr a 
naõ fe lhe pega dos paftos coula que o manche : porque an- 7H? 
■dará taõ limpo , & taõ aceado , como fe fe apafcentaíTe entre 
açucenas. Também o Efpofo quiz fignificar a pureza , lim- 
peza ,& virgindade de fua Efpofa , quando lhe diífe : Ven- ■ • 
ter tuutficut acervus tritici , Vallatus lilijs: He o voífo ven- 
tre como hum monte de trigo cercado de açucenas , o qua! 
emfentidomyíHco, feapplica a Maria Santifíima Virgem 
puriflima ,q com jufto titulo fe chama virgem das Virgens: 
porque com eminência^ foy limpa , pura , & Virgem , affím 
na akna , como no corpo j & fe bem Mãy (que iíío fignifica o 
Efpofo Santo , dizendo que o feu ventre era como monte de 
^rigo ) ficou taõ pura , & virgem como antes que parifle. 

Enaõ fem myfterio ufaõ os pintores pintar na Encarna* 1 
çaõhumvafo de açucenas junto à Virgem, para denotar 
ijue o filho que o Anjo lhe annunciou havia de parir, naõ 
havia de fer com detrimento da lua inteireza ,& yirginda- " 
de. Por iffo a Igreja comparando-a á açucena , lhe canta: O 
Mar ta fios Vtrgmum , Velut rofa , Velut Itlium : O Maria flor 
das Virgens, taõ fermofa como a rofa, &taõ cândida, & 
pura como a açucena. E fe tornarmos à corrente da Efcrip- \ 
tura mais atraz , veremos, que (fegundo o afíírma Torniel- 
lo)aquellas açucenas do candieiro de Moyfés, eraõ fym- 
bolo da caíhdade , & innocencia que haviaõ de guardar as 
que tem dignidade na Igreja, fcofficio de enfinar aos de- 

He também a açucena fymbolo da fecundidade ; & aflim 2 , '"' * 
di^PIinio^ que nenhuma coufa ha taõ fecunda comoaaçu- 50 ^ * 

cena/ : 



3T4 Santuário Mariano 

cena ; a qu?rí , fe bem fe confiderar > lança na raiz quinhcntoi 
cafcos, que plantados cada hum depor fi> produz huma 
mata de açucenas. Também hefymboloda boa fama, pela 
ijTtYg, feu íuave cheiro ; & he ultimamente fy mbolo da efperança, 
mAneid & portal ativeraõ os antigos. Virgílio ufa deite lymbolo, 
*• para fígnificar a efperança que havia concebido de Mareei- 
HorAt. lo : & Horácio Flaco uíou também delle a outro propofito; 
pj« ."*• porem quem mais claramente ,& com eminência ufou deite 
jpíer l fymbolo,(como efereve Pierio) foraõ os Romanos, na moer 
55 .de da que mandou bater o Emperador Alexandre Pio Augufr 
filio. to;eftava huma deofacom huma açucena na maõ direita, 
&hum tituíoque àmr.Spes publica; coma mefma figura,& 
titulo mandou bater as fuás o Emperador Emiliano : na 
moeda de Tibério Cláudio eftava também huma deofa 
com huma açucena na maõ direita , & huma letra que dizia: 
Spes Auguíta. Finalmente na do Emperador Adriano cf- 
tava a mefma figura com o titulo: Spes r Topu!i Romani. Se 
os Gentios entenderão, quenaquella divindade enganofa 
eftava a fua felicidade , & a fua efperança , attribuindolhc 
fer a efperança publica > efperança Auguíta , & a efperança 
do Povo Romano; com muito mayor razaõ devemos nòs 
os Chriftãos dizer , que Maria Santiffima he para nòs a Spe\ 
gloria yfpej nojira Jpes única , fpes publica , & jpes^ Vopult 
CbriBiani : porque em Maria como em Senhora muito po- 
derofa, devemos ter os Chriftãos toda anoffa efperança; 
& a mefma Igreja enfinada pelo Eí piri to Santo , nos eftá in- 
citando a que com eíte titulo a invoquemos em noífo favori 

Spes nojira. . , e 

O Religiofo Convento da Efperança de Lisboa tun- 
aouí rcynandoElRey Eomjoaô o lILemoannodc 1530. 
tendo dez de governo) huma Senhora illiiftre, que veyo 
de Caíklla com a excellente Senhora , & fe chamava Dona 
Ifabet de Mendanha; &dotou-o com a mayor parte da lua 
fazenda. AsReligiofas que deraõ prmcipioà íundaçaò^o- 



Livro II. Tituk XriL fi j 

ízõ onze ; nove vicraõ do Convento da Conceição da Ci- 
tladc do Funchal ,na Ilha jda Madeira y & as cuss doCon- 
$c :nto de Santa Clara de Santarém ; & a cita Santa devia fem 
duvida fer dedicada aquelia Caía; porque o titulo daEfpe- 
rança o tomarão as Religioías porcaufa das -grandes ma- 
ravilhas , que obrava Deos por mcyo de huma Imagem de 
íua May Santiffima , que intitulavaõda Efperanca. Fra eík 
Santa Imagem de pintura , & eíiavanoAitarcoIlaíerai da 
niaoefquerda,ouda parte da Epiftola, (aonde ainda hojefe 
^vccollocadá outra de vulto, )& logo nes princípios da 
kuhdaçaõ começou a obrar Deos tantas maravilhas , que os 
pilotos, & meílres da carreira de 5. Thomè,(devia fer entaõ 
muito frequentada eíia navegação, ) & os pescadores do 
alto , querendo no patrocínio da May de Deòs fegurar hus 
o logro de fuás peícarias , & outros o bom íucceffo de fuás 
navegações ( porque patrocinados daquella íòterana Se- 
nhora, que he a Eflrella dos mares, &ofeguro Ncrte cos 
que navegaõ , naõ podiaõ deixar de fe aíTegurarem nos 
bons fucceííos , como verdadeiramente o experimentavaõ) 
ilevados defles favores que da Senhora da Eíperança rece- 
fbiaõ , formarão huma Confraria, que intitularão também 
da Efperanca, a qual crefceo com tanto zelo, & devoção, 
& teve taõ grande nome, por fer a primeira cuc fe erigio em 
Lisboa debaixo deffe titulo, quche ainda hoje única ;& af- 
IfimoMofleirocomasReligiofas delle fe começarão a de* 
nominar defde aquelle tempo , com o titulo daFfperança» 
Movidos pois do fervor, & da devoção excitada com 
■as maravilhas , que experimentavaõ coma protecção -da- 
ii quella Senhora, que diz de fi, que ella he a Mãy da Santa Ef- 
Kperança , mandarão fabricar a Imagem de vulto, que hoje fc 
'fvè, &he venerada no mefmo Altar , pela qual coneçou 
tambémo me fino Senhor a obrar muitas maravilhas; por- 
que todos os que a bufea vaõ , & ainu hoje buícaõ o feu am- 
f aro,& patrocínio/ naõ ficaõ de nenhum medo fraiâra* 

das 



31 6 Santuário Mar iam 

das as fuás efpcranças. Igualmente confeífaôfer devedores] 
& obrigados a eíla Senhora,naõ fó as pcífcas de fonemas a 
Religiofas daquclle Convento ; & para teítemuntas das ae 
fora y baftavaõ as muitas memorias de cera , & outras dcíie 
argurneiito^que à Senhora fe tem offerecido. He eíta Santa 
Imagem da Mãy |de Deos , formada em madeira de muito 
boa efcultura, &do tamanho da natural proporção} eíU 
cm pé com as mãos levantadas. 



TITULO XIV. 

Da devota Imagem de noffa Senhora do faraifo y que » 
fe Venera nome/mo Convento» 

NO interior do referido Convento denoffa Scnhoit 
da Efperança ha huarica Capella , aonde he tida tara- 
bemem grande veneração huma milagrofa Imagem de Ma- 
ria Santiffima , aquém as Religiofas deraõ o titulo denot 
fa Senhora doParaifo. Referem as mais ancians, portra. 
diçaõ confervada entre ellas , que nos princípios da fun 3a« 
çaõ | daquelie Convento chegarão à portaria dous rn^n 
cebos , & que eftes perguntarão às Religiofas fe queriac 
comprar a manifa&ura de huma Imagem da Mãy de Deos, 
pedirão ellas lha moftraffem para a verem; & taõ pagas fi- 
carão da fua fermoíura, que logo ajuftáraõ o preço com ©$ 
homens, que a traziaõ>& recebendo a Santa Imagem, quan- 
do voltarão para fatisfazerem oajuítado, jànaõ pareciaõ 
final de que vinhaõ de parte aonde tudo fe dá de graça, & 
naõ correm là as moedas da terra, nem ha naquella regiac 
neceífidade do ouro , & da prata do mundo. 

A'vifhdefte milagrofo fucceífo ficàraõ as Religiofas 
muito alegres , inferindo da grande fermofura da Senhora, 
cjue fó no Paraiíò fe podia obrar Imagem taõ perfeita j # 

que 



Livro II. Til ião XIV. J \\7 

que fó os Anjo ; a 'podiaõ trazer aq^iella Cafa > pira que nel- 
la foffc venerada corno fua Rainha ; & verdadeira "nente 
quemvèa iermofura defta Santa Imagem, fójulgaqueos 
ÂnVosforao os artífices de tanta perfeição ytn lyormente 
fenio obrada em pedra , aonde os artífices mais primos en- 
contrarão muitas dificuldades no lavor, & no delinear; pa- 
rece animada ,& viva aquella Santifllma Imagem. 

Defde efte tempo lhe cobrarão aquellas Religiofas gran- 
de amor, &aífim a fervem com grande fervor, Scbufcaô 
com grande veneração , & reverencia \ não fó as Religiofas 
feempregaõemafervir, mas ainda as moças do Convento. 
Huma deltas lhe tinha grande devoção , & com efta lhe fa- 
zia certo obfequio em o dia em que a coftumão feftejar , quç 
he no dia de fua AíTumpçaõ. Eftando efta moça hum dia mui- 
to cuidadofa , reprefentandofelhe , que depois de fua mor- 
te não haveria quem lhe cominuafTe aquelle obfequio, com 
que elia^a defejava obrigar : a Senhora lhe fallou dizendo- 
Ihe , foííe a certa Religiofa , ( nomeandolha pelo feu nome^ ) 
& que de fua parte lhe difTeíTe^que por fua morte (da mefma 
moça)feencarregaíTedelhe fazer aquelle feíkjo:àffimo fez> 
& com grande alegria ília foy bufear a Religiofa nomeada 
pela Senhora ,que aceitou com grande vontade , & alegria 
de fua alma tão grande cõmiffaô,& ainda ^oje vive efta Re- 
ligiofa , que continua com grande amor >& aevoçaõ em fer- 
viràMãydeDeos. 

As palavras que a Senhoradi[Teàmoça,ío ellaasouvio; 
mas as que a moça diflfe à Senhora , ouvirão algumas , & re- 
ferem as Religiofas daquella Cafa , que naõ foy fó efta vez 
a que a Senhora fe dignoude lhefallar*, & também cila pro- 
curaria fabello merecer t porque fempre as almas )uftas > &, 
amantes das virtudes y íograõ de Deos femelhantes favo- 
res- He efta Santa Imageinde pedra como fica dito-; a fua 
eftatura hede quatro palmos* tem emfeus braços ao Meni- 
no Jefus. Aáoroaô-na aquellas Religiofas com ricas ? Õc 

frec|- 



5 1 8 Santuário Mariano 

precipías roupas , & taõ próprio lhe vem o titulo do Parai- 
fo , que fó deíle ^ &ncllc fe podia obrar tanta belleza , & 
fermofura. Tudo ifto nos referirão aquellas Religiofas, 
em Relação particular que nos deraõ. 



TITULO XV. 

7)a Imagem de noffa Senhora da Conceição do mefmO 

Convento. 

][ Unto ao coro alto do fobred?t o Convento da Efperança^ 
I haoutraCapellaem que fc vè collocada outra milagrofa 
magem da Mãy de Deos , invocada com o titulo de fua pu- 
riífima Conceição ; & dizem as Religiofas , q he taõ antiga, 
como o mefmo Mofíeiro: porcj defde os feus princípios co- 
meçara a fer venerada nelle- He muito milagrofa, 6c refe- 
rem q tres vezes fuára copiofamente. Da primeira knlo 
lembraõ qual foíTe o motivo ,por haver fuecedido ha muitos 
annos Da fegunda dizem, q fora quando os Hereges Olan- 
dezes tomáraõ a Eahia de tedos os Santos y & que a terceira 
íoy,quandoos Cafielhanos tomáraõ a Cidade de Évora. Saõ 
muitas as maravilhas que tem obrado; & as mercês que cada 
dia faz aquellas Religiofas que a invocaõ em. feus traba- 
lhos, & affiicções.He efbi Santa Imagem de veílidos, & tem 
tres palmos em alto; pcrèni nefta eíbrtura tão pequena mof- 
trâ hua mageflade taõ grandey& taõ foberana, que caufa ad- 
miração em todas as q s contemplão ; &affim he toda a de- 
voção, &confoiaçSodaquellas Religiofas, que com muita 
frequência a bufeão , & com grande afecto a fervem. 

Nas cofias deíia Santa Imagem fe vè hum quadro , em 
que eflão pintadas de excellentcmão 5 .as de Jefus , {Maria, 
i&jofeph. A Santa Imagem que eftá pintada naquelle qua- 
dro ( a da Senhora digo ) raínbem fevio fuar coptólàmeo- 

te 



Livro II. Titulo XVI. 319 

te tcdas as vezes cj a Imagem de v«lto da Senhora da Con? 
ceiçaõofez; &aflirn por razão deíia maravilha he muito 
venerada das Religbfas , & com particular devoção a buf- 
cão muitas. 



TITULO XVL 

T)a Imagem de nojfa Senhora do Trefepio , em o mefmo 

Convento. 

NO coro baixo do referido Convento de noíTa Senhora 
di E! ptrança , tem as Religiofas hum Preíepio ; & na 
lapinha delle eilá collocadahuma devota Imagem de nof- 
£a Senhora , a que d^raõ o tjtulo. do me imo myíterio que 
reprefenta > naquelle abreviado , & humilde lugar , em que 
o Salvador do mundo quiz na fecr. He tradição confervada 
entre todas squcllas Religiofas y que efía Santa Imagem a 
reígatára hum hemem Portuguez, queefiava captivo em 
terra de Mouros,(naõ confia do nome, nem em que terra de 
Berbéria eilava captiva, )& que refgatando a a trouxera a 
cila Cidade, & a kvàra àquclle Convento, para que na 
companhia daquellas Santas Religiofas foífe fervida , & ve* 
nerada. ' 

Tinha nos feus princípios o rofb tciogroffeiro, que paf- 
favaafcyo, de que as Religiofas muyto fe defconíolavãot 
porque como as mulheres naturalmente amaô a fermofu- 
ra 7 & na fua materialidade não vão ao fígnificado > & paraô 
pela m?yor parfe no apparente ,& exterior \ por iffoatguas 
não unhão muita devoção a eíU Santa Imagem* 

Sentia muito iflo huma Rel^iofa, que lhe tinha mais 
verdadeira devoção que as outras>& cuidava moitode a fer- 
vir; & para remediar efie inconveniente* mandou vir hum 
imaginário > para faber fe lha podia concertar. Reparou ef- 

te, 



3io Santuário Mariano 

te que a falta nafcia da iuípcricia do primeiro pintor que a . 
encarnar a; ôc.aílim pegando de hu ferro para lhe tirar a en- 
carnaçaõjfoyfe defopegando do roflo da Santa Imagem hua 
como capa , ou maícara que a cubria 7 <5c ít vio debaixo delia 
hu roílo tão perfeito - , & taõ engraçado , que bem moftrava 
era roílo de Imagem daquella Senhora , que nòa teve ma- 
cula,, nem imperfeição - ? & aífim a concertarão , & ficou tão 
bella , que he hoje a devoção de tedas aquellas Religiofas. 

He efta Soberana Imagem quafi proporcionada à natu- 
ral eftatura de huma perfeita mulher : he de veftidos > & as 
Religioías a veftom com ricas roupas y 3ç na modeftia, gra- 
ça , & magefUde , fe vè bem que he copia da Rainha do 
Ceo. Todas eftas noticias nos derão as Religiofas daquelle 
Convento. 



TITULO XVII. 

DaSantaTmagem deno(fi Senhora de U Anttgua, que ft 
Venera na foirochia de Santa Catbarina. 

REfufcita Chrifto , & apparecendo aos Di r cipu!os , fc 
acha TÍiomèaufente: vindo efte,referemlhe os mais 
o favor que o Senhor lhes fizera. Duvida Thomc dizendo: 
TsLifi Vidíroin mini bus ejus fixaram claVorum,non credam. 
Entra S. JoãoChryfofíomo , & diz: Sabeis porque duvida 
Thomè ? Para que aífimfe reconheça no corpo deChrifto- 
mayor grandeza , & foberania: Uc maior em cetytuíinem 
Yccognofceret in cor por e Um (li. E aonde eflava aqui a gran- 
deza \ Porque achou Thomenaõ havia m?yor credito para 
a divindade , que ver q hum corpo mor to, & com fínaes de 
morto coniervava operações de vivo,& lograva glorias de 
relufcitado:&[por iífo tantotjue vioemChriíloeíles finaes, 
togo o reconheceo por Divino: 'Dominusmeu* 9 & "Deus 

meus 



Livro II. Titulo XVII. 311 

meu*. O mefmo que vimos em Chriflo, fe vé na Senhora de 
la Antigua. 

Eftava cila Senhora copiada em huma parede , aonde 
aíFalteada da tyrannia,a cada golpe que lhe davSofahiaôma- 
res de fangue. Se perguntarmos ao Ceo a caufa deite pro- 
dígio , parece que nos refponderia , que "foy : Ut maiorem 
celfimctintmrecognrfceret in aorpore Virçinis : Para que re- 
conheceíTemos na Senhora mayores créditos de divindade; 
pois não podia haver acçaõ mais prodigiofa, que de huma 
copia inanimada fahlrem rios de fangue. 

Quanto ao titulo de la Antigua. Vio Daniela Decs em 
frumttonodemageftade, todo adornado de roupas bran- 
cas: Vtjlbnttum ejusficut nix,êz neíta occaíiaõo appeilicfa 
Antiguo , para declarar a excellencia de grande : A^tiquuí 
dierumfedit. Maria Santiífi ma hetaõ grande, que para de- 
clarar a fua grandeza o Efpirito Santo , lhe dá o titulo de 
Anrigua; Ab eterno ordinata fum, & ex antiquis. Antiqua^ 
como diz Lorino. Tudo ifto fe vè na prodigiofa hirtaria da 
Senhora de la Antigua. 

Na ParochiadeSantaCatharina de Monte Sinai y in- 
tra muros da Cidade de Lisboa, he venerada com fervoro- 
fo culto huma devotiflima Imagem de NoíTa Senhora , a que 
daõ o título de la Antigua; copia da que fe venera emaCa- 
thcdralda Cidade de Sevilha. He efía Santa Imagem degran- 
de eítatura \ porque terá algíis doze palmos em alto :eita cõ 
o Menino Jefusfentado no braço efquerdoj he de pintura, 
& a Senhora eflá veíhda de branco, & o manto fe vètodo 
femeadode roías de ouro. A forma da pintura he à imitação 
da Imagem que pintou S. Lucas, que invocamos com o titu- 
lo do Populoj&adiverfidade eítáemque eira Santa Ima- 
gem he toda veftida de branco , & a de S. Lucas , pelo que 
íe vê em fuás copias , tem a túnica de cor rofada , & o man- 
to azul. He efía pintura de excellente maõ , parecem cita- 
rem vivas aquellas Santas Imagens. Eftá em huma Capelta 
Tom. I. X g^nde, 



32 1 Santuário Mariana 

grande , que faz nave diftinta do corpo da Igreja , &{Tca a 
parede da Capella pelo eflorcidodo arco dá Capèila mavorj 
& da parte oppofla fica outra Capella , que líé a do Santiffi- 
mo Sacramento, na mefma forma. He fervida efta Senhora 
com grande devoção, &aífimnodíadaíita folemnidade fe 
efcol hem os Oradores de mayor nome que ha na Corte , & 
fe achaõ muitos Sermões impreíTos defta f sftividade,& ncl- 
íes íe referem os prodígios defta Senhora , & fua origem. 
Dom Rodrigo Caro, & Alonfo Morgado, efereven- 
doahiftoriade Sevilha, & referindo a invenção da devo* 
tiffíma Imagem de noífa Senhora de Ia Antigna , naõ refe- 
rem a maravilha que o Senhor obrou com efta Santa Ima- 
gem; &affimnos valeremos da tradição, &do queefere- 
vem outros Authores. Dcfta Santa imagem fediz, fora 
pintada no tempo que os Romanos eraõfenhorcs deHef- 
panha \ & que fora no tempo do Emptrador Conííantino; 
Ma9;no,ou pouco depois. Coftumavão pintar as Imagens de 
Chrtfto , & de nofTa Senhora com grande eftatur?? , para in- 
timarem mais aos que as veneravão a fua grandeza , fobe- 
rania , & divindade» Confervoufe efta Santa Imagem^quc 
era pintada a frefeo, em Rua Capella da Igreja velha , aonde 
todosabufcavaô,&veneravaõ. Entrarão depois os Mou- 
ros na geral perda de Hefpanha , & comoefíes faõ irrtnigós 
das Imagens , quizerão (pela não ver)picar a Santa Imagem 
da parede em que eftava , & quantos golpes daváo , fahia 
iogoíàngue, & defle fe formava huma fermoíiílimaroíà, 
(& â iíTo alludem as muitas de que fe vé matizado o veftido 
èa Senhora ) de forte , que tantas feridas , & picadas derpô 
naquelía Sagrada Imagem > tantas rofas fe viao neila. AVif- 
ta deite prodigiofòfucceífo, difpozDeos parafFem aquel- 
tes facrilegos bárbaros , & quandoàvifta delle fedeviaõ 
sonverter , náofó o não fizeraõ ; mas porque feus olhos ce- 
gos não viífemaguclía foberana luz, lhe correrão hum pau* 
Btp de parede por cima>.&aí£ni ficou efcoodida nas coftaa 



Livro II. Titulo XVI L 313 

deite. Sentirão osChrifiãos eíta perda > &: fem embargo, 
que fempre entre elks fe confervou a noticia da Santa ima- 
gem y veyo com ô tempo a fc ignorar o lugar aonde efava* 

Tomando depois o Santo Pvey D.Fernando a Cidade 
de Sevilha ,&defejofos os Chrillãos de defcubrir eíle the- 
fouro, por muitas vezes fízeraõ diligencia pelo achr.r- mas 
não era poffi ve! > emquanto o Senhor o não permitio : por- 
que reparandofe depois em hiima parede que parece fe via 
deíigual das mais, julgando que poderia fer, que alíi eíti- 
vefle efcondido oíeu thefouro^ a mandarão derribar^ & de- 
baixo delia ie defcobrio a Santa Imagem, acujavifta diffe- 
raõ os que fe achavaõ prefentes > com alegria huns para os 
outros: EJldesla Antigua ;&daquitcve principio o deno- 
trcinarfe com eíte titulo. Deite lugar a paííaraõ para o novo 
Templo a hua rica Capella , cortando aquella parede em tal 
forma , que naò perigaífe a pintura : & depois de cortada, 
emhumarrçachinaque fe fez de madeira a levarão , Salien- 
tarão na rica Capella em que hoje fe vê , que he mageftofa, 
& ardem diante deita Santa Imagem fcíenta alampadas« 
Com taõ grande fervor } &culto he fervida naquclla Cida- 
de eíla copia , & retrato da Mãy de Deos. 

O modo como a Imagem , ou a copia daquelia pintura 
veyoaeítaCafadeSantaCatharina fe ignora; fomente fe 
fabe viera de Sevilha ; tnasnaõ fe fabe quem a trouxe , ou 
a mandou vir ; & nem o Padroeiro da fua Capella o fabe di- 
^er , ainda que reconhece que feus mayores tiveraõ fempre 
cm grande veneração aquella Santa Imagem. He Padroeiro 
hoje delia Donyjofeph de Menefes,íilhode Dom Diogo 
de Meneies* 



X Z TITU- 



314 Santuário Mariano 



TITULO XVIIL 

2)<a milagrofa Imagem de mffa Senhora da Piedade, 
da Igreja das Chagas* 

NO Generalato do Padre Meftre Fr. Theobaldo MoK-' 
tor jy que foy pelos annos de 1542. era Minifíro do 
Convento da Santiffima Trindade da Cidsde de Lisboa o 
Padre Meflre Fr. Diogo de Lisboa , Varaõ de grandes vir- 
tudes, & devotifíímò das Chagas de Chrifto. Efle Padre al- 
guns annos antes que fofíe Miniftro naquelía Cafa , pela 
grande devoção que tinha às Sacrofantas Chagas, infiitu- 
jhio hõa Irmandade em o feu mefmo Convento , que fe com- 
punha dos homens ? que verfavaa a carreira da índia , com 
o titulo das mefrnas Chagas do Senhor. Ncfíe Convento 
perftverou a Irmandade por alguns annos , & fe feflejavão 
eíles fagrados íinaes de noffo Redemptor com difpendip, 
& grandeza. Depois por algumas razões que os Irmãos ri- 
veraõde defeonfiança com as Religioibs , quedevião fet 
bem- fundadas > omefmo Padre Miniftro Fr* Diogo tratou 
de lhe fazer humaCafa própria , aonde fem dependência ai- 
gua pudeífem fervir a noiTo Senhor com a fua cofiumada 
devoção, & fervor. Para ifto lhe edificou à ftmdamenris a 
Igreja que hoje vemos dedicada às me imas Chagas de noffo 
Redemptor Jefus Ch riflo ,( que para aquelíes tempos era 
magnifica ) para a parte da Occidente da Cidade em lugar 
JHpminente fobre as Ribeiras do Tejo^entre as Parochias de 
Santa Catharina de Monte Sinai y & a de no/Ta Senhora dos 
Martyres : que fendo fagrada emdia de Santo André- A po 
ftolodoanno-de 1542, & celebrada a primeira Miífa nofe- 
gttinte anno de 1545. fe trasladou a elia a irmandade. 

Naêtfe fatisfezo íervordo venerável Padre Fr. Dio- 
go* 



Livro II. Titulo XVII I 32 ? 

go^com ter accommodado taõ bem aos feus devotos Irmãos 
das Chagas ; porque depois lhes alcançou hum Breve da Sé 
Apoftolica, peloqualoSummoPaftererigio aquelía Cafa 
emParochia, paranella fc adminiftrarem os Sacramentos 
aos homens do mar, & navegan tes da índia , fem dependên- 
cia do Prelado Diccefano; & tem por Confervador Apof* 
tolico defla graça aos Bifposdo Algarve , como o referem 
o Padre Meftre Fr. Joaõ Figueira Carpi , in Chronicon 
OrdinisSandiíIim£Trinitatis,adan. i49^,-&o Padre Fr« 
Pedro Lopes de Altuna na I. part, da fua Chron. liv. 2. 
pag. 21 o.&em o generaíato do ReverendiíTImo Theoba T do. 
E a caufa porque na entrada das nios da índia fe repicaõ os 
fmos daquella Igreja , he por razão de ferem os Irmãos da- 
quella Irmandade ,os homens que mareão , & governão as 
nàos, que vem da índia , como fica dito ; & os que com fuás 
efmolas aííifiemaos gaftos, & defpezas daquella Cafa; mo- 
íirandocom aquelles íinaes fe alegrão com a fua chegada. 

Em omefmo tempo, em que fe edificou a Igreja das 
Chagas, fe fundou juntamente a Capella da Senhora da Pie- 
dade , que fe vê debaixo do Altar mayor; que por ficar efie 
imminente, não fe diminuem as luzes, nem a fermoufra 
daquella; para a qual tem de hum lado humaefcada, que 
defce para baixo, para a Capella da Senhora, como do ou- 
tro lado outra, que faz ferventia para oAltarmayor: no 
meyo fica hum arco de pedraria com grades , por onde fe vê 
a Senhora, ftm defcerem abaixo.Nefla Capella, pois, collo- 
cou a Irmandade hua Imagem de noíTa Senhora cem o San- 
tiflimo Filho morto em feus braços, para que nelle viiTem 
fempre patentes (os que entra vaõ naquella Cafa) os íinaes 
quehavião de interpor ao Eterno Pay , para confeguir o 
perdão das culpas ; & à Senhora para fer fua medianeira pa- 
ra lho alcançar. 

He eita SantiíTima Imagem , queinvocâõ com o titulo 

da Piedade x muito devota , &no fentimcnto que moflra em 

Tom. I. X 5 feu 



5 1 6 Santuário Mariano 

feu roílo , eíH enternecendo os corações de todos os que a 
conternplaõ: &afTimhc grande a devoção com que os fieis 
a buícão todos os dias P valendofe em feus trabalhos do feu 
amparo ,3c patrocínio > queachão tão propicio, como o tef- 
tificaõ as muitas memorias de quadros , & de vários íínaes 
de cera queoefbo publicando. Não tem efla Senhora Ir- 
mandade particular;mas tem muitas devo tasque tomão por 
fua conta lerem fuás mordomas para a feftejarem : o que fa- 
zem com grande fervor, &difpendio em cinco dcAgoftoj 
& tudo fe faz pela adminiftraçaõda Irmandade das Chagas. 
Eiíá eila Capei la rcamente ornada com muitas peças de 
prata ,& boasalampadas domefmo. A Imagem da Senho- 
ra he pouco menor que a proporção natural; hedeefeuf- 
tura de madeira , eíiá em hum grande nicho prolongado 
corno tribuna, fechado com ricas vidraças : aos pès do Se-» 
nhor lhe fica a Magdalena , & do outro ladoo Evzngelifla. 



TITULO XIX. 

Dalmctgemmitagrofa de no f a Senhora de Atocha > que fe 
Venera no Convento dos RtUgiofos Eremitas de $* Êaulo. 

Vivia em Lisboa hum pintor Hefpanhol , & ao que pa- 
rece natural de Madrid , chamado Gabriel dei Barco. 
Efte por certas razões de conveniências deixou a fua pá- 
tria , & fe veyo a Lisboa , aonde aífentou o feu domicíio, 
&aqui vi veo muitos annos . Era Gabriel dei Barco devotif- 
fimo da milagrofa Senhora de A tocha, que fe venera no Do- 
minicano Convento de Madrid, & fempre a ella feenco- 
mendava. Noannode 1682, adoeceo de hum grave acha- 
que , & fcmbrandofe dos prodígios > & milagres que a Se- 
nhora de Atocha de Madrid obra em todos os feus dev6- 
tos^fe encomendou muito de veras a ella^ pediadelhe lhe 

vale/Te^ 



Livro II. Titulo XIX. ~ 3 1 ? 

ValelTe, & o livraíTedacuellepenofo achaque que padecia* 
Naõfoya Senhora farda para as deprecações de Gabriel 
dei Barco 5 porque lego lhe alcançou denotTo Senhor per- 
feita feude , Sc o livrou da queixa que padecia. Obrigado el- 
ledefie taõ grande beneficio da Senhora , por naõ parecer 
ingrato,, defe jou agradeceriho muito , & a/Tim lhe offereceo 
a fua Imagem , ou hum próprio retrato feu. 

Mandou fazer hua Imagem em tudo femelh ante âmef- 
ina Senhora de Atocha de Madrid , com tençaõ de a col- 
locar em parte aonde foífc venerada , & fervida. Eufcou pa- 
ra eftc fim todns as Igrejas de Lisboa, para ver cm qual fi- 
caria melhor. Depois de difeorrer por todas , julgou que a 
Igreja dos Padres Pauliftas era muito a propofito para o 
feu intento :tinh a íe acabado de pouco, &aeífe refpcito ti- 
-nha muitas Capellas defocCupadas;& aíHm lhe pareceo, que 
alli ficaria bem a fua Santa Imagem, porque podia^er nefle 
iermofifllmo Templo Capella própria j & como ficava em 
caía de Religiofos ,poderianelIafermiíybemferv r ida. 

- Affentaníonifto Gabriel dei Barco, fe foy a enleada 
do Congro, (que he aonde os Religiofos Eremitas deSaõ 
Paulo primeiro Ermitão vivem, & aonde fundarão poucos 
annos depois da AccIamaçaõ,com o beneplácito do Serenif- 
íimoRcyComJoaõoIV. que mmto os favorecia , & aonde 
edificarão hum fumptuoíiílirro Templo, que dedicarão ao 
SantiíTimo Sacramento,)& fallandonoReytor dnquella Ca- 
fa , lhe deu contada fua tençaõ , & devoção , & que d Peja- 
va mui to que elle lha approvaffe , & admitiTe. Não duvidou 
o Rcytor , antes eftimou muito que a Rainha dos Anjos 
clegeiíe aquella Igreja , & moveífe a Gabriel dei Barco , a 
xjue fó cila entre todas as da Corte de LisboafTendo muitas) 
lhe agradaffe ;&c também gratificou à Senhora aquelle gran- 
de favor , que a fua Religião lhe fazia , preíei indoa às mais. 
Ficou muito fatisfeito Gabriel dei Barco, de ter já Ca- 
ía em que pudeife coliccar a fua Senhora , & aífim ordenou 

X 4 tudo 



3*8 Santuário Mariam 

uiJooqueeraneceffario para a levar. Difpoz hum andor; 
que ornou ricamente, & tendo tudo difpofto commuito 
sceyo, & perfeição , levou a Imagem da Senhora para a 
Igreja de noffa Senhora do Loreto dos Italianos , que lhe 
fic&va viímha , & juntamente convocou alguas danças, que 
entaõ ha v ia ern Lisboa,, charamelas, & outros infírumenr 
tos alegres , & também alguns amigos ,& conhecidos, pa- 
ra que todos o acompanhaTern debaixo da Cruz de híía Ir- 
mandade. Veyo também a Communidade dos Padres de S. 
Paulo , & difpofta huma folemne prociífaõ ( com licença áo 
Ordinário) fahio a Senhora de Atocha da Igreja doLoreto, 
para o que a havia elegido;& foy ifio no ^nno de 1 68^. 

Fez fe a prociífaõ com grande fefla/* alegria em huma 
manhãa ; & todos os que ouvião as v07.es, & os instrumen- 
tos alegres, fahiaõ às portas, & janellas, & todos fe ale- 
gra vão á viiía da Mãy de Deos,que he muito fermofa. Che- 
gando â Igreja do Santiílímo Sacramento , puzeraõ o andor 
em que alevavaõ fobre humbofete, que eflava preparado 
no rneyo' do Cruzeiro, &logo leíhe cantou Mifla na fua 
mefmaCapelíaemquehoje eflà. Depois da Miífa acollo^ 
eArão com toda a reverencia no íeu lugar. Logo começou a 
piedoíà Senhora a interceder por todos os que implcravão 
© feu favor , alcançandolhe de feu preciofo Filho os de£- 
pachos de todas as fuás petições. 

No caminho quando paffava a prociíTaô, aaprincipio da 
calçada do Congro, & defronte da Bica de Duarte Bello, 
zf>nâz morava a Condeça de Palma, (a quem chamavão a Ca- 
ííçlhana, por haver nafeido em Caítelía) que eflava enfer- 
I3ia , cV apertada com faltas de refpiraçaõ i ouvindo as vo-, 
zes dos infírurnenf os, & mais fefía , que fe fazia na rua, in- 
quirindo o que era , &: informada de tudo, mandou a teda a 
freíía pedir felhedeffe huma prenda da Senhora de Ator- 
cha ^& mandàrãolhe humas flores de feda ,. que levava n^s 
aiãos^que a.Condeça appliecu ao peito, &. logo viíiveL- 

mente 



Livro It. Titulo XtX. 319 

mente fe achou aliviada, & livre daquelie achaque; &1ou- 
f vando a Senhora , & publicando as fuás maravilhas , fc me 
confeffou devedora das melhoras. Dalii por diante a come- 
çou avifitar, agradecendolhe o favor que lhe fizera cem 
muitas efmolas , & peças para o Teu Altar. 

Depois de çollocada a Senhora na fua Capella , conti- 
nuou em fazer muitos prodígios , como ainda hoje o teííe- 
muraháõ os painéis , & memorias de cera , & mortalhas, que 
pendem da mefma Capella 5 & toda a Cidade concorria a ve- 
nerar a Senhora de Atocha j & afolicitar os feus favores. 
Inftituiraôlhchua Irmandade, emqueêntravaõ muitos EÊ- 
panhoes da família do Embaixador de Hefpanha, que era a 
Eifpo de Ávila Angulo. Fizeraõ compromiíTo) afoutarão- 
íe muitos por fua devoção, & todos com anciã defejavao 
fei vir a noffa Senhora : mas como faltou Gabriel dei Barco, 
& da parte dos Religiofosquem in timafle a devoção >& ao 
cendeífe ofego do fervor > íufpendeo a Senhora as maravi- 
lhas > esfriàraõfe os ânimos , & tudo ficou quaíi fufpenfoi 
nefle me imo tempo morreohum grande , & rico devoto d& 
Senhora/]ue por empenhado no feu culto havia defpendido 
muito m fua Capella j porque tinha já difpoflo hum rico 
retaboío de talha , que euftava duzentos mil reis ? & tinha 
já o officiaí à conta delie cincoenta mrl reis:tudo ficou para- 1 
do , porque a frieza dos Religioíòs a nada fe applicou. Mas- 
a Senhora tornará a mover a algum devoto feu^para que en- 
trando com novo fervor ? & zelo da (ua mayor veneração, 
& culto y façaque tudofe renove. 

A Senhora he fermofíflima ; he de talha de madeira 7 &r 
primorofainente obrada^eílá vcítida â Efpanhola^com fa> a^ 
ou roupa fem pregas 7 bordada de pedras de varias cores^éc 
com algum tanto de arco, para fe verem as roupas com mais 
afaílo; gibão de petrina, toalhacoma^gum tanto de alentas, 
&]uíiinhanopeícoço ? ' & coroa na cabeça y & tudo lhe pa- 
rece ricamente j fobre p*braço efquerdaí eni o Mcrúxio tss 



\ 



330 Santuário Mariano 

liis vertido pela mefma traça ; terá pouco mais de cinco pal-í 
misafuajenatura; eflá coliocada, na primeira. Capella do 
Corpo d a Igreja , da parte da Epiftola. 



TITULO XX. 

Da Imagem dcnoJfaSenhora do dlecrim, junto ás 
portas de Santa Catbarbia. 

NO deftrito do Bayrro a f to de 'Lisboa,& junto às portas 
da Cidade , que chamaó de Santa Catharina , fe vèhu- 
ma Ermida , que ao prefente ferve de Parochia , & o tem ffi- 
do viriam vezes ,com naõfer muito antiqua , dedicada à 
Mãy de Deos debaixo do titulo de noífa Senhora do Ale- 
crim ; aonde he venerada huma Imagem fua , cuja origem fe 
refere neíta maneira. Da Ilha de Saõ Miguel veyo para Lif- 
boahumi Senhora chamada Dona Anna de Vilhena, filha 
depaysnobi-iffimos; cafoucomChriftovão Soares de Al- 
vergaria, Defembargador da Cafa da Supp!icaçáo,& depois 
Vereador da Camera de Lisboa , que morreò no dia da Ac- 
clamação Qjandoeffa Matrona veyo da Ilha, trouxe em 
fua comp anhi i,& guarda huma Imagem de noífa Senhora, a 
quem tinha grande .devoção , & a quem fempre fe encomen- 
dava ', & por efta razão , & pelos favores que delia havia re- 
cebido, lhe deíejava e igir huma Cafa , em que fofle fervi- 
da, & venerada :& como não tinha titulo particular, an- 
dava toda cuidadofa no como a invoca ria. 

He iradiçaõ na fua cafa , ScílicceTores , que vivendo 
efta mefma Senhora em hua fua quinta junto àFreguefía de 
noiía Senhora dos Olivaes do termo de Lisboa , eílando el- 
la na Igreja pedindo a noífa Senhora lhe infpiraífe que ti* 
tulo queria de:feà fua nova Cafa j fuccedèra que humilho 
feu menino, andando brincando pegara de huma caixa de 

huma 



Livro II. Titulo XX. 331 

huma Irmandade , & andando com ella pela mefma Igreja, 
pedia efmolas para as Miífas de noffa Senhora do Alecrim. 
Deu cue reparar a novidade daquelle titulo, que o menino 
impunha à Senhora; &a mãy qettàvz^rrfcntc , & pedin- 
do no mefmo tempo à Senhora fe dignaffe de a alumiar no ti- - 
tulo que queria puzeífe à fua Cafa , ficou muito alegre com o 
fucccilò, julgando que Deos lhe Paliava, & deferia à fua pe- 
tição pela língua daquelle innoecte menino: porque cofluma 
eíic Senhor moflrar pela boca delles,ocomo quer fer louva- 
do : Ex ore infanttum , $2 lactentium perficiftt landem. E aí- 
fimaíTentou comfigo de lhe impor o titulo d© Alecrim. 

Pedio licença ao Arcebifpo de Lisboa D. Affoniò Fur- 
tado de Mendonça , que alcançou em quatro de Março de 
1 628 precedendo as diligencias que fe coftumaõ fazer em 
femelhantes negócios* E he também tradição , que indo 
hum Notário, ou Efcri vão a cafa da mefma fundadora a fa- 
zerlhe huma notificação fobreefU fundação, & erecção* 
porque parece havia quem a impugnava : ficando defte no- 
tificação a fundadora muitoTentida, dizem que com- a afilia- 
ção chamara por noífa Senhora que lhe valeífe : & tendo m- 
quella occafiao no feu eflrado huma gallinha branca muito 
fnanfa,(àltàraeíía > & pegara como bico na eara do Notário; 
que vendo qhua gallinha taõdomefiica fe embravecia con- 
tra clle, & fe lhe havia lançado ao rofto,teve o fucceíTo por 
myfteriofo ; & aflim fe defpedio íem fazer a notificação; ou 
de fffliodella , temendo que noífo Senhor , & noíla Senhora 
o caftigaífem ainda cõ mais rigor,íè profeguiííe no negocio* 

Deufe principioàs obras da Cafa da Senhora do Ale- 
crim em de*z de Mayo doanno de 1 641 . & em doze do mef- 
mo mes, & anno fe alcançou a licença para fe dizer a pri- 
meira Miífa : que como a fundadora eftava taô anciofa de 
ver publicamente colíocada a fua Senhora £ não defeançava 
em ofolicitar > & paraiffo lhe deviamandar compor alguma 
cafa ^ ate de todo ficar acabada a Ermida. 



3 3 í Santuário Mariano 

Bfta rnefma Senhora Dona Anna de Vilhena Inflítuhio 
hum morgado , do qual he cabeça eftaCafa da Senhora do 
Alecrim, em que affentouhua MifTa quotidiana , cujo Ca- 
pelião nomea o poffuidor do morgado, que he hoje Pedro 
de Soufa de Caítello Branco > filho do Defembargador Jo- 
feph de Soufa , & bifneto da fundadora : o qual nomea 
também o Ermitão ,ou Ermitoa^que ten) cuidado da limpeza, 
& acevo da Cafa da Senhora. Não fe determinou na iníntui- 
çaõ dia certo para a folemnidade , & fefta da Senhora , & af- 
ilai fica eíla àdifpoíiçaõdos Padroeiros-Naõ tem Confraria, 
nem Irmandade algiia > & aílim a fabrica , & defpezas eíião 
à conta dos meímos Padroeiros. Eftá a Senhora collocada 
nomcyodoretabolo, que he de pedraria de varias cores, 
emhum nicho fobrehuma peanha também de pedra rica- 
mente lavrada ; naõ tem mais Altar que o da Capella mòr, 
A Senhora he de perfeita efcultura de madeira,&efíofada, 
&aiTimnão tem mais ornato que o manto que lhe põem de 
cores accõmodadas aos tempos;tem fobreo braço efquerdo 
o Menino nu : ambas as Imagens tem coroas , & íaô de rara 
fermofura. 



TITULO XXI. 

*Da tnilagrofa Imagem de quem a Rainha £>• Catbarina 

era deVotiJima. 



A 



Sereniffima Rainha Dona Catharina, mulher delRey 
ifc Domjoaõo III. tinha no feu Oratório hurra devotif- 
íima Imagem da Soberana Rainha dos Ceos, & da terra , que 
pelos muitos favores , que delia alcançava , a bufcava fem- 
pre em qualquer pena, ou affíicçaõ que padecia , & como em 
todas achava alivio , & confolaçaõ , a eíUmava , & venera- 
va ranto, que naõ podia eftar fcma ter à fua viíla. Depois 

da 



Livro II Titulo XXL 333 

da morte deftn virtuofa Frincda , vcyo efta Santa Imagem 
por vários acontecimentos às mãos de Joaõ Rodrigues de 
Sá, qusrio Conde de Penaguião qual a tinha tambe num 
grande veneração y como quem tinha fabidoos favores que 
a Rainha Dona Catharina delia havia alcançado.Com a mef- 
ma veneração a tem hoje em o feu Oratório aCondeça de 
Penaguião fua mulher 7 a Senhora Dona Luiíà Maria d^ Fa- 
ro. He efta Santa Imagem de pincel , pintada em panno em 
hum quadro, aonde efíá aífentada com a Menino jefus em 
feus braços. 



TITULO XXII. 

Da Imagem de nojfa Senhora da Conceição ^da^arô- 
chia deNo/faSmhora dos Anjos» 



N 



A Parochia de noífa Senhora dos Anjos , extra mt£ 
, ros da Cidade de Lisboa, ( que he hum dos mais lin* 
dos y & ornados Templos da Corte ) he tida em grande ve- 
rieraçaõAbufcadacontinuamentedodevotopovoda mef- 
ma Cidade huma milagrofa Imagem da Mãy de Deos > & in- 
vocada com o titulo de ília Conceiça&immacuía da. A ori- 
gem defta Santiífimalmagem, & feus princípios fe referem 
nefta maneira. No annode 1589. fendo ainda a Cafa de rrof- 
fa Senhora dos Anjos Ermida , fe inftituhío neíla huma Ir- 
mandade de noffa Senhora da Conceição , & a caufa foy^ 
porque extra muros da Cidade não havia Imagem alguma 
com efte titulo. Para efta obra move© Deos a hum devoto 
Varaõ chamado António de Oeanha^ o quaf por fer devo- 
iifíimo deftc myflerio , raandou-fazer huma Imagem perfei^ 
tiffima de noífa Senhora à fua eufta , para acolTocarnague?-- 
fe Ermida , com efle titulo. Depois de acabada com toda a 
perfeição ^a mandos pòr no Contento de S„ Domingos da 

meíma 



334 Santuário Mariano 

me ima Cidade, & delle com huma íblemne , & fefKva pro- 
ciífaõ a levou para a Igreja dos Anjos , aonde lhe celebrou 
feftacom.tòdaafolemnidade, cantandofelhe as primeiras 
veíporas do feu dia de oito de Dezembro, &MiíTa com 
Sermão, & boa mufíca,& todas as mais demonílrações de 
alegria, & competente ornato. 

Depois de collocada a Senhora no feu Altar , congre- 
gou o devoto António de Ocanha algumas peffoas , a que fc 
ajuntarão outras muitas, ôunílituirão huma luftrofa Ir- 
mandade, que em todos os annos fervia à Senhora com def- 
peza , 8c cuidado ; não faltando a nada o f ervorofo zelo de 
António de Ocanha, com o qual feaccendia muito o fer- 
vor da devoção , fendo elle o primeiro para as defpezas de 
tudo. Elle me imo foy o que difpoz o Compromiffo,& o con- 
firmou, pelo Arcebifpo Dom Miguel de Caftro ,& depois 
pela Se Apoftolica. Afllm foy continuando a devoção da 
Senhora por efpaço defeífenta annos: mas. como tudo o 
domundoheamefmainconílancta, & frieza para as cou- 
ias do Ceo , & faltou o zelo do devoto António de Ocanha, 
coma fua morte fe veyo a esfriar de forte a antiga devoção, 
que ji pelos annos de 1 650. naõ havia quem ferviífe, & fcfi* 
tejaffe a Senhora da Conceição dos Anjos. 

Depois de paífados alguns quarenta annos , em que os 
devotos da Senhora fe havião efquecido de lhe folemniza? 
a f ia tefta, porque já naõ havia raítos da Irmandade; fuc- 
cedeoquenoanno de 1690. fe ajuntarão algús devotos , 
(com moção na verdade fuperior ) que unidos com devo- 
ção , & zelo do culto ? & veneração daquella Senhora, pro- 
curaram renovar a Irmandade outra vez •, ôtaffim nomea- 
rão 9 & elegerão entre fi os officiaes ( paraqueaflimafeu 
exemplo fe animaffern outros^ para a fcfle]ar , 6c com effei- 
tolhe difpuzeraõ afeíla com a folemnidade poífivel. Ce^ 
lebroufe efta no feu mefmo dia de oiro de Dezembro, & nas 
vefporasdaSenhpra do mefmo anno alugarão dezoito cí- 
rios,' 



Livro 11 Titulo XIII £35 

rios, que pefa vão doze arráteis menos li uma quarta; os 
quaes eíhVeraõ ardendo nas vefporas , & no dia d 1 Sc nho- 
ra,dasíete da manhãa ate ahun-a depois àorncyoHxia , & 
das dias da tarde atèas circo cm que fe lhe cantou a La- 
dainha ;&!evandofe acera ao certeiro , para fejhe haver 
de pagar, o qnefe lhe havia diminuído delia, fe achou pe- 
úvâO os cirias doze arráteis > & quarta , com queajuitada. 
acontafe vioquecrefcêra meyo arrátel. Admirados os que 
"fe acharão prefentcs 7 q foraõ o cerieiro Aleixo de Abreu* 
ília mulher, & hum filho que fe chamava Jofeph de Abreu, o 
qual he hoje Religiofo daScraphica Província dos Algar- 
ves, &òandador da Igreja António Pereira, moradores 
11a meiniaFregue fia, fizcraõfe pefa fò fegunda vez acera* 
& de ambas fe achou crefeia noptíò ) de que louvarão a nof- 
fo Senhor, & todos depozersõ com juramenta o luccedido^ 
para fe haver de autenticar o milagre* 

Também fuecedeoque 3 a lâmpada no mefmo tempo, por 
efpaço de três dias eítevefempre ardendo, fem felhe ha- 
ver lançado novo azeite , &íem fe lhe diminuir oque tinha. 
Ijfto mefmo depozdebatxo do juramento dos Santos Euan- 
gelhos o thefoureirojoaõ Alvares, por cuja conta corria 
© mandar lançar azeite na mefma alampada ..Eíbs maravilhas 
fuccedéraõemhuaSefla feira > queeranaqueíle armo odia 
da Senhora; & foy tam grande oconcurfo dg gente, que 
veyo à voz deitas maravilhas, & tam grande o fervor que 
ellas caufársônas pefiòas devotas, que muitos feofferecê- 
raõ para fervir à Senhora ; & por eíla razão difpuzeraã en- 
tre fife fízeíTeà Senhora nas oitavas do Natal próxima fe- 
guinte huma grande feita em louvor daquellas maravilhas, 
que o Senhor fwia obradano Altar , & Capella da Senho- 
sra, para que femanifeílaíTemnella osfeus poderes, & em 
fios a nolía tibieza , & onuífaõ em as coufàs do feu ferviem. 
pagando ella tão copiofamente o que cm feuobfequio fe dif- 
j> endfc* 

Rei»* 



33^ Santuário Mar iam 

Renovoufe outra vez a Irmandade > ainda em mnyòr 
numero de Irmãos , ■& a Senhora da Conceição dos Anjos 
foy obrando tantas maravilhas, (fem duvida para mofirar o 
m ikoquehe agradecida para com os que a fervem) que per 
muitas fenaô podem efcrever-Deflas fe vem como t o' cos, 
que pubficão os feus poderes jCubertas as p*a redes daquel- 
le Templo , aífím em quadros , como em mortalhas , & em 
outros finaes ,& memorias de cera , & de outras matérias. 
Mandou a Irmandade impetrar da Sè Apoftolica huma Bul- 
ia perpetua com hum grande thefourode indulgências pa- 
ra os Irmãos , & Irmãs da Irmandade da Senhora > concedi- 
das pelo Santiffimo Padre Innocencio XII. no quarto anno 
do ieu Pontificado , & expedidas a três de May o de 1 695. 
êcàlem deftasoutros muitosbrcves>afabcr, hum geral pa- 
ra todos os fieis que vifitarem o Altar da Senhora no dia de 
lua Conceição a oito de Dezembro:outro para todos os que 
Jantarem o terço nos Domingos , & dias Santos na íua Ca- 
pella: outro para ;os que affiflirem nos Sabbados à Ladai- 
nha da Senhora, que he cantada decanto de orgaõ: & ou- 
tro de Altar privilegiado no Altar da Senhora. Tem hum 
Capèllaô,que diz todososdias MiíTa pelos Irmãos vivos, 
& defuntos ;& por cada hum dos Irmãos, ou Irmãs que 
morrem , lhe manda dizer a Irmandade trinta Miílas de 
corpo prefente. 

Eftá efta milagrofa Senhora collocada em hua rica Capei-] 
Ia, que he a collatcralda parte da Epillolaf porque da parte 
doEuangelho lhe fica em paralelo a Senhora dos Anjos) 
com hum perfeitifEmoretabolode talha dourada, Scvefe a 
Senhora em huma perfeitiffima tribuna cubertacom pre- 
ciofas cortinas, aonde fe naó deícobre enaõcomluzes ace- 
fas. He de efeultura de madeira eítofada 3 & havendo mais 
de cento > & dez annos que foy encarnada y eftá taõ fermo- 
fa ? & frefea 9 que parecefe acabou ha poucos dias : tem de 
alto pouco mais de cinco palmos; éílà fòbre hum trono de 

Será- 



Livro II Tmlo XXIII. 337 

Seraphins , & aos pês huma grande lua detrata, 5c na cabe- 
ça huma coroa da mefma, mas de muito grai: de. feitio j& 
alem deita tem outra também grande , & ric mente lavra- 
da , que fe dá a beijar aos que vaó a viíitar aquella Senhora, 
que faõ muitos os que "cada dia concorrem àquella Gafa. 
Tem muitas ,& ricas peças de prata , precioíbs ornamen- 
tos ,& ornatos :à Senhora fomente lhe põem manto, que 
tem muitos, & muito preciofos, fegundo os tempos, & 
cores de que ufa a Igreja. 



TITULO XXIII. 

Da Imagem de noffa Senhora da Medrada , ou do Arco^ 
que fe Venera no Carmo. 

NA Capelía do Bom Jefus refgatado > que fe adora ; & 
venera em o Convento ddfcioífa Senhora do Monte 
do Carmo de Lisboa , collocou a venerável Madre Anna 
Manoel da Conceição , Terceira da mefma Ordem , aquan- 
do voltou de Roma da fegunda vez , que foy íquelia Cida- 
de a viíitar os Santotlugares , & relíquias , que nella fe ve- 
neraõ pelos devotos peregrinos) hum quadro de noífa Se- 
nhora com o titulo da Pedrada : & nefia Cafa , he naõ fó ti- 
da em grande veneração , mas fefte jada com piedofa , & ge- 
nerofa devoção; tanto, quecauíbu nas muito Religiofas 
Madres do Convento de Santa Anna da mefma Cidade hua 
envejofa, mas fanta competência ; & aífim fefíejão a mefma 
Senhora em féis de Outubro com o Senhor expofto,& gran- 
de devoção. 

A origem defla Imagem , & a ctymologia do nome , & 

titulo da Pedrada , he nella forma. Em a via publica junto à 

Igreja de Santa Ansíkíia da Dicceíi de Nola em aCam- 

pania, eíbva debaixo de hum arco de pedra, pintada a fref- 

Tom. I. Y co 



53 8 Santuário Mariano 

co na parede Jiuma Imagem denolTa Senhora ^ com ofeil 
doce filho Jelus Menino em os braços. Succedeo pois que 
perdendo hum impio , & defalmado taful dinheiro coníi- 
deravel ao truque na primeira Oitava da Pafcoa da Refur- 
yeiçaô doannode 1500. taò grande fcyo fcu fentimento 
pela perda , que tomou abola com que jugava )& com Ím- 
pia ,&facrilcga mão atirou aorofb da Soberana Imagem 
de Maria Santiílima^taõ fermofa ,que na fua belkza fe revem 
os Anjos , com o fentimento de haver perdido ; & acertan- 
dolheemaface efquerda, em continente rebentou ofan- 
gue y de que lhe ficou o final impreffo da mefma cor , para 
comprovação do milagre : 8c alguns Authores querem , que 
o Santiffimo Menino f ugiffe naquelle comenos de huma pa- 
ra outra parte y de que dá moftras a copia. 

Ficou aquelle facrilego percuflbr , & executor de tam 
impio defatino, & maldade, immovel , efperando que o 
prendeíTem,&enforcaíTem com as bolas do jogo aopeíco- 
ço. E por efta eftupenda Maravilha , he tida aqudla Santa 
Imagem dos povos circumvifinhos em grande veneração, 
• &vifitadacom igual concurfona Ermida que lheerigio lo- 
go a piedade chriflaa 5 chamandolhe huns noíTa Senhora da 
Pedrada -,& outros , nofla Senhora do*Arco apelas razões- 
referidas. Edo meímo modo he invocada em Lisboa eíia 
Santa Imagem na copia de pincel, que deu ao referido Con- 
vento comomefmofinaí da ferida a venerável Anria Ma- 
noel. Fazem mençaõdefta Santa Imagem o Padre Fr. Ma- 
noel Ferreira na vida da ferva deDeos Anna Manoel da 
Conceição: Cardofo no Agiologiq Lufitano tom. $. pag. 
451 . Fr. João de Cartagena t0m4.de L auditais virginis ia 
fine y & o Padre António Balinghen in Kalend. Sacratiffim» 
Yirg. in principio Aprilis foi. 170. num. 5. & outros» 



TITO 



Livro II. Titulo XXIV. $& 



TITULO XXIV. 

^Da Imagem àe noffa Senhora -da-RedcMpçaê ,- qne fe 
Venera na Trindade. 

NO Convento daSantiílima Trindade de Lisboa, ao 
entrar das portas do feu magnifico Templo à mão ef- 
querda,eíláhuma Capella (que he a primeira da parte do 
Euangelho) que he fundada pelo Vice-Rey da índia Lopo 
Vas cteSampayo, que antigamente fe chamava a Capella 
dosReys,por eflarnellahuma Imagem de noffa Senhora 
invocada com eíte titulo : &por feverefía Santa Imagem 
com as mãos levantadas ., aintitulaõ hoje noffa Senhora da 
Affumpçaõ. Nefta Capella collocou o Padre Fr. António 
Rohm, Provincial que foydamefma Ordem, hOa Imagem 
da Mãy de Deos , que elle refgatou em Argel , no tempo em 
que foy Redemptor dos Captivos ; a qual vindo a Lisboa, 
foy recebida com grande fefía , Sccollocadanamefma Ca- 
pella pelo Eifpo de Lamego o íenhor Dom Fr. Luis da Silva 
ca meíma Ordem, & hoje Arcebifpo de Évora.. Com efta 
ocçafiaõ fe accendeo a devoção em algumas peffoas devo- 
tas da Senhora, que unidas lhe erigirão huma Irmandade, 
cjue a íervio por alguns annos com fervorofa devoção; mas 
como as humanas creaturas naõtcm aperíiíkncia que de- 
viaõ nas couíàs de Deos , esfriada efla , fe acabou a Irman- 
dade , & ficou a Senhora no efquecimento , em que fe vem 
outras muitas Imagens milagrofas.He muito linda :a fua ma- 
téria he de alabaflro , mas de rica efcultura; temo Meni- 
no jefus nos braços, & terá de eflatura três palmos. 

No mcfmo Convento fe venera outra Imagem de nof- 
fa Senhora , também refgatada em Argel ha mais de fetent.a 
annos , que foy pelos de 1 62 8. poucesmais ., ou menos.Rcf- 

Y z gatou- a 



j 



340 Santuário Mariano 

gatou-a o Provincial Fr. António da Cruz, fendo Redemp- 
tbr dos Captivos, &. a collocou "obre a porta do dormi tono 
que entra psra o coro. He de pincel , pintada em hum qua- 
dro , & mollra fer pintura muito antiga ; tem o Merino Je- 
fus nos braços, &terá de alto quatro palmos, & três de 
largo. 



T I T U L*Q XXV- 

Da Imagem de nojfa Senhora do Rofarhj queje Venera 
em Santa Mónica* 

HAverá noventa annos pouco mais, ou menos; por-, 
que feria pelos de 1 6 1 o. que recolhendofe em o Con- 
vento de noífa Madre S^nta Moniea de Lisboa , huma don- 
zella taõ devota de noífa Senhora , que a principal peça que 
levou comfigo , foy huma devota Imagem da mefma Se- 
nhora. EflaReligiofa pelo afíeâo grande com que amava 
aquella Imagem da May de Deos , a teve fempre na fua 
cella , em quanto viveo : depois por fua morte ficou em hua 
Capellinha do coro baixo, aonde ahiaõbufcar muitas Re- 
ligiofas por devoção , em fuás penas , & deíconfolações , & 
na fua prefença achavão fempre confolaçao , & alivio. 

Huma pefíbade fora, tendo já noticia defta Santa Ima- 
gem , Sí dos favores que delia recebiaõ as Religiofas, (ainda 
que a não havia vifto) vendofe em hum grande perigo a in- 
vocou, ôdhevaleo a Senhora de forte, que reconheceo 
dever a fua vida à fua interceífaõ, pela invocação da fua 
Santa Imagem. Obrigada do favor, foy eíla pelfoa ao Con- 
vento , & procurou ver a Santa Imagem , com cuja vitfa fc 
alegrou muito , & lhe prometeo não fó de a fervir em quan- 
to viveífe ; mas de a feílejar em trinta & hum de Agcílo, ef- 
fcmdonefte dia o Senhor manifeílo : o que ainda hoje con- 
tínua 



Lwrò H. Titulo XXPi 34? 

nua com grandeza , & oftentaçaõ. Prometeolhe tambcpi de 
lhe fazer hua Capelía,(o que exec titôu logo^q he magnifica; 
ainda fendo as Capellas daquella Igrejafabricadas quafi à fa- 
ce. Fica efla quaíi defronte da porta principal. He a obra d a 
Capella de valente archi tediura , Sede excelíente talha dou- 
rada,com grades por fóra de-évario,& de muito cuíto. A Se- 
nhora eílá collocada em hu trono, cubem com hua rica cor- 
tinasse fe naõ defcobre, fenaõ nos dias de fuás feíhVidades, 
& nos dias Santos, & Domingos, & fempre cõ luzes acefas. 
Havia também na quelle Convento hua Religiofa cha- 
mada Catharina de Jefus j a qual eftando doente, & defeon- 
íada já dos Médicos da terra \ adormeceo , & teve hum fo- 
nho , ou paracifmo,em que fe lhe reprefentou qtie via a efta 
Senhora, & que a via junto a fi > & q à aliviava naquelle aper- 
to , emquefe achava , dandolhe perfeita faude. Defpertou, 
& fe achou boa , & livre do mal que padecia ; & reconhecen- 
do as melhoras, foy a dar as graças à Senhora pelo bene- 
ficio que da íua clemência havia recebido; & aflim fe afervo- 
rou mais daiíi por diante na devoção da mcfma Senhora, 
fervindoa com muito cuidado. Succedeo íílp pelos annos de 
1 684. &he de advertir, que no mefmò tempo, em que fo- 
nhava , que era pelas nove horas da noite , fe lhe reprefen- 
tou também que ouvia hum grande baque, & que cahia a Se- 
nhora , & ficando muito fobrefaítada ; chamava muito de- 
preífa por huma peíToa de fóra ? dizendo foííe à Igreja a er- 
guer a Senhora , que havia cahido : foraõ , & achàraõ-na * 
portaempè como fenaõ cahira, & puzersõ-na outra vez 
no feu lugar ; & depois de acabar de referir d fonho , fe fez 
a experiência , fe fora fonho , & fe achou fer verdade que a 
Senhora eilava fóra do feu lugar , & pofta fobre o A ítnr ern 
pe i donde a tiràraõ > & a collocáraõ outra vez nd feu lu- 
gar : entendendofer daqui que a Senhora : -obrara aquelía 
demonfíraçaõ, para fe conhecer a maravilha, sjue a favor 
da fuá ferva havia obrado. 

Tom. I. Y 1 Saõ 



£4* Santuário Mariano 

Saõmqitas as maravilhas que o Senhor ha obrado na- 
qutllasReligioíks pela interceííao defta niifericordiofa Se- 
nhora- Haverá quinze annos , que cahio huma caíi de fiua 
Religiofa, que tinha por fua conta o cuidar dos veiados j & 
ornatos da Senhora do Rofario \ confervava ella eftas cou r 
fjâs em hum almario que tinha na fua cclla , ou na niefma ca r 
&, &cahindo tudocomofobrado, ficou o almario em Q 
mefmo lugar fuflentado de huma única taboa : & porque a 
Religiofa não perigaífe naquella ruina , permitio também o 
Senhor pelos merecimentos de fua Santiífima May , que ti- 
vefle a Religiofa fahido naquelle tempo para fora , & aífim 
não perigou ninguém - 7 o que fe reconheceo fer certamente 
grande favor de Deos cm huma cafa de tanta gente. Heck 
ta Imagem da Senhora muito fermofa, tem pouco mais de 
dous palmos , he de vcílidos , & feíkjafc a trinta & humdf 
Agoíto, como fica dito, com grande folemnidade. 



TITULO XXVI. 

2)4 milagrofa Imagem de no/f a Senhora > efculpida , M 
pintada fobrenaturalmente em buma pedra. 

REfere Miguel Lcy tão de Andrade cm as fuás Mifcel* 
Ianeas^quenotempocm que era Governador da ín- 
dia Francifco Barreto , fuccedèra em o anno de 1 562. que 
andando hum Soldado Portuguez ao longo da praya de Cei- 
lão ; encontrara com hum Jogue, (que faõ huns índios , que 
fazem grandes penitencias , & vivem como Ermitães ) o 
qual levava hum faquinho de pedrinhas > feixinhos, & con- 
chas da mefma praya; entre as quaesvio o Soldado huma 
pedra parda do tamanho de hum ovo > & nella figurados fe- 
tc ceos de outras corcs,& no meyo delles huma Imagem d« 
mulher , com hum menino no collj , tudo ao natural , & de 

cores, 



Lwo It. Tituk XXVL J4J 

cores ] ou formada na mefma pedra , naõ por mãos dos ho- 
mens Defejofo o Soldado deter aquetla pedra, a pedio ao 
Jogue , que facilmente lha deu porhua eímoía que lhe me- 
teo nas mãos. Levou comfígo o Soldado a pedra , & indo a 
Cochimamoftrouahum fçu amigo , que entendendo me- 
lhor o que era, lha comprou pordous pardaos, dinheiro d* 
índia y que valem feifeentos reis. 

Teve noticia deíh pedra Francifco Bsrrefo y & defejo- 
fo de lograr aquella joya/jue por .tal fe devia muito eftimar, , 
a pedio àquelle homem > que a havia comprado ; porem et- 
le lhá naõ quiz dar , fem lhe prometer primeiro hum cfficio, 
<{ueeUedefcjava,dandolhediírohum aflínado, como fez. 
Trouxe-a o Governador para Portugal , & vindo com ellc 
cm a fua nào hum Fidalgo chamado Pedro Alvares de Man- 
cellos y que lha vio muitas vezes , & oreferio > (ao mefmo 
Miguel Leytaõ, que fazmençaõ defia prodigiofa pedra ) af- 
irmando que era a Virgem Maria no (Ta Senhora com o Me- 
nino Jefus n®s braços,metida no meyo dacjuellcs fete ceos 
por admirável modo; &que em Moçambique fizera alguns 
milagres; porque deitada em agua, St dada a beber faravâ 
muitos doentes ; & as mulheres de par to, a quem a appli- 
cavaõ > logo pariaõ com feliz fueceflb. 

Efta pedra deu Francifco Barreto à Rainha Dona Ca- 
tharina , mulher delRey DomJoaõoIII. que a eflimava co- 
mo merecia huma pedra preciofa , & tao fingular ; em cujo 
poder fez Deos pela fua applicaçaõ os mefmos milagres- Ef~ 
ta; pedra fe confer va entre as joy as da s Rainhas; & ainda ho- 
je íe cpnfervar á no thefouro da Cafa Real Ley tàõ ms Mif- 
cellaneas^ Dialogo 2. 



Y 4 titu- 



344 Santuário Mariano 



TITULO XXVII. 

Da Imagem de noj/ a Senhor^ da Graça,dojftiodo 
CorpoSantc- 



Petr. 2 
csp. i. 



4-2. 



A Graça Divina he aquelle maximoySc precioíiffimo dom 
dequefallaoApoftolo Saõ Pedro: Gratia "vobis , t& 
pax adimpleatur in cogmiione TJei, & Chritfi Jefu 7)ormni 
noflri : quomodo omnia nobis divina ^irt-ktb-fua^tue ad vi- 
tam y <S pietatem donata ' funt* Pelo qual participaõ õsju- 
flos da natureza divina . He aquelle dom óptimo , & perfei* 
to de que falia Santiago , o qual defcendo da fonte altiíTima 
da Divindade , eleva os Juftos ao eftado de mais que huma- 
nos y & quafi divinos ; Omm datum optimum , $ omne do 3 * 

Jaceb. num perfeãum defurfum eft defcendens a fatYt lumtnum. 

i.n. iy. He aquelle dom de que falia Salamao, o qual he-mais rico 
do que todas as coufas preciofas , & mais digno de fer defe- 
jado^ue todas as coufas que fe podem appetecer: Vonum 
honum tribuamVobis. Toàascftàs exccllencias , que o en-í 
tendimento humano naô pode confiderar/e vem unidas na* 
quella Senhora, que hê a Mãy da graça; para que todos a in- 
voquemos > para que no la alcance daquelle Senhor, que taô 
grandemente a encheo delia: Gratia plena ; & fendo efla Se- 
nhora tanto May noíTa , & tam felicita do nofíò bem , ro- 
guemoslhe no la alcance daquelle mefmo Senhor que a en- 
cheo a elía defíe foberano don^que defejando muito que fe-; 
jamos perfeitos , mò faltará (quando lha peçamos com defe^ 
jos fervorofos de a confeguir ) de no la alcançar. 

No íitio que em Lisboa fe chama o Corpo Santo , (& nef- 
tes noífos tempos fe chama também a Corte Real , por eftar 
nelle o Palácio , que foy do Marquez de Caíkllo Rodrigo, 
cujo appellido era Corte Real , & he hoje de S. Mageííade) 

eíià 



Livro II: Titulo XXVII. 345 

cflá huma Ermida muito antiga v: , dedicada a ílôífa Senhora 
còm õ titulo da Grriçs.Nella he venerada huma devota Ima- 
I gem da MT.y de Deos , de cuja origerri , & principio? fe fàbe 
muito pouco , & menos do anno cm que fe íundou,& fe lhe 
dedicou aquella Caía; de donde fe vè fer muito antiga. Com 
eíla Santa Imagem tem muita devoção os moradores cir- 
cumvifmhos ,& diíhntes, & antigamente ainda foy muito 
mayor a devoção para com eíla. Para efla Ermida fe fobe por 
huma efeada de pedra de quinze dt grãos , no fm da qual 
fe faz hum recebimento com hum parapeito, que faz hum 
cxcellente púlpito y & como de tal fe aproveitava delleo 
venerável Padre Ignacio Martins da Companhia dejefus, 
(chamado vulgarmente oMeflre Ignacio) o qual pela gran- 
de devoção que tinha com a Senhora da Graça, cofluma- 
va ir fazer as fuás doutrinas em aquella Igreja; & por fer 
litio de grande concurfo , aonde refidem muitos efl rangei- 
ros de toda a forte , affim Catholicos , como hereges , & 
vivem muitos foldados, & homens marítimos ,& daquel- 
lc. lugar fariagrande fruto nas almas ; em que também lhe 
não faltaria para o fazer o favor da Senhora da Graça, que 
nunca falta em a alcançar aos peccadores , para que cuidem 
do primeiro, & principal negocio, que he o da fua falvaçaõ. 
De então para cà (que foy ifto pelos cnnos de 1580.) coíhi- 
ím a Companhia mandar fazer aili doutrina em as tardes da 
mayor parte dos Domingos do anno. 

Deufe àquella Cafa o titulo de Corpo Santo por caufa 
âe fe venerar nella huma Imagem de Saõ Fr. Pedro Gonçal- 
ves, a que os marítimos, & navegantes chamao Corpo San- 
to ; & os Caflelhanos S. Telmo j & pelo muito que eítes ho- 
mens fe reconhecem obrigados aos favores que delle rece- 
bem(porcue os livra de grandes perigos de tormentas) con- 
correm âquella Cafaavifitallo.&a pagarlhe os votos que 
fazem, folemnizandolhe as fuás fefías com muita grandeza: 
& com eíla occafiaõ fe começou a denominar aquclle íitio , o 

Corpo 



34^ Santuário Mariano 

.Corpo Santo ;&: parece fer também ncilc muito ant"gd. Pò* 
rèmfempre a Senhora daGraja foy , Sche a Padroeira daí- 
quella Cafa. 

Eftá collocada a Imagem da Senhora em huma rica tri- 
buna dourada, 6c com grande veneração. He deveílidos,& 
terá de eftatura cinco palmos; em feus braços tem ao Sobe* 
rano Jefus Menino. Saõ os Adminiftradores deft&Ermida os 
pefcadores do alto do bayrro da Pampulha , os quaes toma- 
rão por lua conta fervir à Senhora da Graça , congregando- 
fe em huma Irmandade •, & clles faõ os que concorrem com 
asdefpezasque fe fazem, aílimnasfeflividades da Senho* 
ra, como nas ordinárias. Foy efla Igreja antigamente Fre- 
guefia y & delia fe mudou para a de São Paulo cm o anno de 
141 2. como fe colhe da pedra que fe vè na porta principak 
Be a Cafa da Senhora fe reparou pelos annos de 1 5 94. 

Tem efta Cafa da Senhora grandes privilégios j & tu*; 
do quanto ha naquelle íitio , paga para a Senhora certa pen- 
faõ >ou tributo , defde a praya atè a Igreja , & tudo quanto 
fe poem naquella praça. Em a vida do V.Padre Ignacio Mar- 
tins, faz mençaõ da Senhora da Graça o Padre Alonfo de 
Andrade da Companhia , em o feu ç. tom. dos Varões II- 
luflres da mefma Companhia f. 1 2 1 . o Padre Balthefar Tel* 
ks na fua Chronica p. 2. 1. 4. c. 48. 



TITULO XXVIII. 

Da Mugem denojfa Senhora do Tarto ^eneradancí 
Ermida de SadCrifpim* 

NA Igreja dos Santos Martyres Crifpim, & Crifpinia- 
no, Padroeiros de Lisboa > que adminiflraõ os offi* 
ciaes de çapateiro da mefma Cidade , fituada junto às porniS 
de Alíbfa , ou do Caflcllo, fe venera huma devota Imagem 

da 



Livro II. Titulo XXVIII. 347 

4a Rainha dos Anjos, com o titulo do Parto. Dos princi- 
-pios^ôc origem defta Santa Imagem naõ pude defcobrirnar 
da ., nem aquelks fenhores çapateirosnosquizeraõmoftrar 
o Compromiífo da fua Irmandademão pude alcançar a cau- 
fa, pois nem por terceiras peíToas nos quizeraõ informar do 
que fabiaõ* Tcmfe por muito antiga aquella Santa Imagem; 
.com a qual as fenhoras de Lisboa tem grande devoção , & a 
vão bufcar , & pedirlhe o bom fucceflo em feus partos, & o 
jnefmofizeraõfempre as Rainhas. Tem efia milagrofa Se- 
nhora huma luflrofa Confraria , à qual[conccdeo o Summo 
Pontífice Paulo V, todas as graças , & indulgências de que 
goza a Archiconfraria da Caridade de Roma^aonde a agre- 
gou ; as quaes graças foraõ concedidas à inflancia da mefma 
Irmandade da Senhora no anno de 1 607. 

A Imagem da Senhora hc de rara fermofura ; he de vef- 
tidos , & de roca ; a fua efta tura he de fete palmos 3 & eíU 
cpmas mãos levantadas. Não fó as fenhoras da Corte tem 
grande devoção com cila milagrofa Imagem , mas todas as 
mulheres delia , porque todas dependem de fua protecção, 
& amparo : tem preciofos veftidos , dadivas daquçllas q em 
feus partos reconhecerão a affiftêcia defta milagrofa Senho- 
ra. Em collocada no meyo do retabolo da Capella mòr.Fef- 
tejaõ a efta Senhora em a terceira Oitava do Nafcimento de 
noffo Senhor JefuChriftoyjuehe no dia dos Innocentes. 

TITULO XXIX, 

7)4 Imagem de nojfa Senhora do *Bom SucceJjQjos 
agonizantes. 

HE muito para fentir o poucoque cuidãoos homens no 
fucceflo da fua morr y fem procurar fazelo bom com 
a boa vida : vemos que morre o rico, o Prelado > &ogran- 

de, 



34^ Santuário Mariano 

de, &com mortes muito arrifca ias , pelos grandes encar- 
gos que tem , & com tudo querem embocar pela meíma bar- 
ra , feguir a mefma eíteira , levar a meíma derrota , 5c 
alcançar asmsfmas honras, &: adquirir as mefmas riquezas, 
comofenaõouverãodeir parar na meíma prayà da morte, 
&na mefma cofta da fepult ura ] &naõ ouveffe de chegar o 
fucceffo da ultima conta. Bom fora que não foíTemosmais 
cegos que aquelle, a quem o Senhor deu viíte , pondo- 
lhe lodo em os olhos. Com aquelle lodo ficàraõ aquelle* 
4 rf^°- / ° S ^ laros > & ref P la ndecentes , & com perfeita viita : Et 
S*á*. tl ™ fáiz S ' Ambrofio) impofutt lutum , boc eft, confideratio- 
mentis nem frágil ttatis tu*. 

c. z. Com a coníideração da fragilidade da vida deviaõ pro- 

curar os homens o tom fucceffo da morte, fazendo bòa vi- 
da , & impetrando por interceffaõ da Mãy de Deos o bom 
fucceffo para aquella ultima hora ; porque he eík Senhora 
mquclla perigofa tormenta, huma firme ancora, o ampara 
'Irferi- dos agonizantes, & a única efperança naquella perigofa ho- 
Ug. B/4, ra i aflim o cantaõ os Gregos em feu Florilégio : Stabdts an- 
uonis chora tjs i qui tempeJtatejattantuY >pr<zÇid\um Vexat orum, 
fxortt.fpefctefolatrjYum. He-efta Senhora huma fegura ponte, por 
Gr** ondefepaíTaoperigoforiodamorte à outra parte da éter- 
*H>mn rta V ^ a J aífim ° cantão os roefmos Gregos : Vons traducens 
gLc. ' omfíes de mmte aci yita ™- p ois fe a Senhora do Bom Succef- 
«pxd f° h ç na tormenta da feor&áa imorte a ancora , o prefidio, 
Bnt. p. a efperança , & a ponte para a eterna vida , naõ nos aparte- 
mos delia , araemola ? íirvamola \ para a acharmos propicia. 
Na Gafa Profeffa de Saõ Roque da Sagrada Companhia 
de Jefus > que fundou o RetigioíiíTímo Rey Dom joaõ o IIF. 
pelos annos de 15^5. hetida em grande veneração a Ima- 
gem da Senhora do Eom Succeffo dos Agonizantes} cuja 
origem , & prodigiofos princípios iro na maneira feguin- 
te. Comaoccafiaôde fe fazerem naSacriflia da igreja do 
1 T ^fpifâl Real de todos os Santosccrtas obras, fe deícoterio 

dentro 



£*7 



Livro II. Titulo XXIX. 34^ 

dentro de huma parede em hum vão (cerro de afmário , ou 
chaminé) em o anno de 1656. huma Imagem de noíTa Se- 
nhora , com cuja appariçãt), ou manifefiacsõ fe meveo a Ci- 
dode de Lisboa toda a venerala como Imagem milagrofa- 
mente apparecida;& como felicidade grande, &bom íuc- 
ceflj concedido à meíma Cidade , celebravão tocos a fua 
manifeílação. Também conftou , ou por eferito , 011 por ef- 
criturasdamefma Cafa do Hofpital Real, termyíknofa- 
mente eík Santa Imagem , o titulo do Bom SucceíTo. 

A^ifladeflamanifeflaçãofe fezeonfelho fobre o lu- 
gar que fe devia dar a efla Santa Imagem & nada fe delibe- 
rou; neílâ perplexidade ordenada pela Divina Providencia ^ 
a pedio o muito Reverendo Padre Ignacio Mafcarenhas, 
Religiofo da Companhia de Jefus, & irmão do Conde de 
Óbidos Dom Vafco Mafcarenhas, que affiília noCollegio 
de Santo Antão \ dizendo que na Igreja delle intentava inf- 
tituhir a Irmandade de noffa Senhora da Boa Mcrte ,à imi- 
tação , & com os fantos exercidos de outra , que em Roma 
havia na Cafa ProfeíTa damefma Companhia. Pode Janto a 
fua authoridade , que o confeguio facilmente ; de que o Pa- 
dre Ignacio Mafcarenhas ficou muito fatisfeito, julgando 
eflas coufas ordenadas pelo Ceo; & parecendolhe convinha 
muito com o feu intento o titulo do Bom SucceíTo , lhe cha- 
mou noíTa Senhora do Bom SucceíTo na hora da morte ; & 
affimeomefle titulo he nomeada hoje,ouno(Ta Senhora dos 
Agonizantes. 

Difpoz o Padre Ignacio Mafcarenhas, que a Santa Ima- 
gem foífe fecretamente para a Caía Pi ofeíTa de Saõ Roque, 
& delta foy levada com huma folemniíííma prociffaõ para o 
referido Collegio a oito de Julho do mefmo anno de 1 656. 
& no dia feguinte fe celebrou a tresladação , ou collocaçaõ, 
com a prefença de Chriflo facramentado. Nefle dia ouve 
dous Ser mões de manhãa , & tarde , & boa muíica , & hum 
grande concurfo de povo ; colíocoufe a Imagem da Senhora 

(naquel- 



2 ya Santuário Mariano 

(naquellaoccaíião;emaCapeila de no Ta Senhora daCon* 
ceição >,& aqui nefta Capella fe deu principio â Irmadade dos 
Agonizantes, & fe não foy naquelle mefmo anno, foy pou- 
co tempo antes } mas neife fe afervorou mais a" devoção. 
Não foy muito o tempo que fubfiftio aqui a Irrnandade,por-. 
que mudandoíe o Padre Ignacio Mafcarenhas do Collegio. 
de Santo Antaõ para a Cafa Profeífa de Saõ Roque , & jul- 
gando que nefta Ca fa (por eftar no coração da Cidade) te- 
ria a Senhora mayor veneração , & a Irmandade msyor aug- 
mento , fez mudar para Sa6 Roque afllm a Irmandade , co- 
mo a Senhora do Bom Succefíò ; o que fe executou no anno 
de 1 66o. ou no de 1 66í .Naõ confia o dia certo em que foy; 
.masfez-fe a mudança também com procilaõ, feLem nao 
foy com a folemnidade com que havia ido da Caía Trofeífa 
para o Collegio. 

Efteve a fagrada Imagem da Senhora alguns annos em 
a Capella de Saõ Roque , hoje chamada de nofla Senhora da 
Concejf no , do Bom Succefíb, da Hora da Morte , ou dos 
Agonizantes; até que a fua Irmandade ordenou de novo 
hum rico retabolo na mefma Capella, &lhç mandou fazer 
a excellente Imagem , que hoje nella fe venera , & mudou a 
antiga , que fe havia manifeftadonoHofpital Real, para a 
Caía em que a Irmandade tema fua mefa, junto das tribunas 
da Igreja , aonde eftá com toda a veneração em hum nichoj 
mas eu me perfilado, que fe o Padre Ignacio Mafcarenhas 
fora vivo nefta ceca fico , naõconíentira em nenhum mo- 
do , que efta Santa Imagem fe occultaífe , pois merecia cílar 
patente à viíla de todos , pelo motivo da fua maravilhofa 
manifeftação. He eíla Imagem de roca de madeira, & de ve- 
indes^que os tem muito ricos, & toucada } com as mãos 
levantadas, os braços faõ de engonços; he muito venerá- 
vel, & cem huma angélica modeília, &aflím cauía grande 
devoção. Fftá muito bem encarnada de roflo , & mãos, & 
com haver efiado oceulta tantos annos, nao aoffenceo o 

tempo 



livro II Titulo XXIX. jp 

tempo cmnada • terá quatro psra cinco palcos de eflatura. 

Quanto ao tempo queefícve occult^he tradição, que* 
no tempo da guerra, que per caufa doSenhcr Dtm Antó- 
nio íizeraõ os Inglezes a eJta Cidade , temendofe cila de fer 
faqueada, & de ferem ultrajadas as Sagradas Imagens pelos 
Hereges Calviniftas , & Luteranos , & os mais, fe efeonde - 
ra efia Santa Imagem do Bom Succeííò , que devia naquelle 
tempo ter grande veneração , & defeubrindofe as mnis, naõ 
fe fabe a razão porque efía ficou oceulta : bem poderá fer, 
que no cartório , & arquivo do Hoípitalfeconfervealgifma 
noticia , mas a diíficuldade defedefcubrir.nos intimida a 
fazer a diligencia \ & affim fe contentem os curiofos com as 
que pudemos achar. A'Iem da Imagem principal de nofTa 
Senhora, que hoje fe venera naCapella dos AgonizànteSj 
'feita por hum famofo efeultor Religiofo Carmelita Calça- 
do, haoutra(novaõdoAltar)damefma Senhora, emre- 
preien tacão de morta , que tem rofto, & mãos de cera, 
obra de huma virtuofa donzella chamada Ignacia de Almei- 
da , filh a de Luis da Cofia, infigne pintor de tempera , cujos 
filhos foraõ todos dotados de partes excellcntes. Eiláefta 
Imagem taõ perfeitamente obrada , que caufa admiração em 
todos os que a contemplaõ ; & fendo a donzella muito peri- 
ta na efeultura de barro , & cera , ella mefma fe admirou da 
perfeição com quefahio a fua obra , julgando , que também 
nella andàraõ as mãos de noífa Senhora. 

Eíla Imagem fe expõem fomente em dous dias antece- 
dentes ao da fua Affumpçaõ, concorrendo nelles innume- 
íavel povo da Cidade a venerala ; & no primeiro dia , que he 
o decimo tercio de Agoflo , fe leva em prociffaõ com rr age- 
ftofa pompa, muitas figuras, quereprefentaõ osattribu- 
tosda Senhora ,rica , & perfeitamente vefHdas, & orna- 
das. He verdadeiramente para ver a perfeiça6 ; & aceyo def- 
taprocifTaõ. * 

As -feflas principaes, que a Irmandade faz à Senhora; 

faõ 



'3 y * Santuário Mariano 

iaõ nos dou s dias da fua Conceição, & Aííumpçac,&: cm r 5; 
de x^goflo , em que íè celebra ofeu Tranfito. As graças ? & 
indul gencias de que goza a Irmandade da Senhora } faõ in- 
numeráveis, como fe vem impre (Tas em hum fummario, & 
comoconfta das Bulias dos Summos Pontífices, que as con- 
cederão, a faber Gregório XIII. Sixto V, Alexandre VII. 
Clemente X.&Innoccncio XI. He iíto verdaderamentç 
hum grande thefouro. Eftà elta Irmandade , por huma con- 
ccllaõ Apoítolica unida , & agregada à Congregação da An- 
nunciada de Roma, da qual partícipaõ também todííS as gra- 
ças ,& indulgências , de que ella goza , que faõ muitas, & 
notáveis. 

Efta Irmandade foy formada à imitação da que ha na Ca- 
fa ProfeíTa da Companhia de Jefus de Roma > aonde todas as 
Seitas feiras do anno fe fazem devotos exercícios cem grã- * 
deconcurfo,& devoção de toda a forte de gente, em que 
entraõ Prelados ,Bifpos, ScCardeaes, com grande apro- 
veitamento de fuás almas; fcnefiedia fetfè patente oSan- 
tiilimo Sacramento. Eftes exercícios fe fazem com oração 
mental y & vocal de Ladainhas , & com exortação efpiritual, 
que fe lhe faz em devotas praticas , afim de fe reformarem 
as vidas , & os coftumes , fugir dos peccados , & amar as 
Virtudes. A imitação pois defta Santa Irmandade adornada 
de taõ iantos exercícios , & armada com tantas graças , Sc 
indulgencias,fe inflituio em Lisboa a nova,que tendo pri n- 
cipiono CoUegio de Santo Antaó,teve os feus augmentos, 
& progreífos na Cafa ProfeíTa de Saõ Roque. O primeiro ti- 
tulo f porque aiTim era o de Roma)era nofla Senhora do Bom 
Succeífo dos Agonizantes, &de Chrifío crucificado nas 
três horas em que eíkve agonizando na fua Cruz. Na Ir- 
manda de de Lisboa fe mudou o dia da Seíla feira em o Do- 
mingo^ ex vida Conceffaõ) por fer dia cm que todos podem 
acudir a tratar do bem de fuás almas. Tudp iftoeftá confir- 
mado por dous Breves ; o primeiro de Uem^nte X. paífa- 

- do 



Em TL Titulo XXIX, "jrj 

<Íg a fresde Janeiro de 1676. &o fegundo de Inticccacio 
XI* paíTado a dez de Março de 1 670. & tantos. 

Todos eftcs exercícios de Roma andão traduzidos era 
fium Manual em Portugifez,& fe exercitaô em a Gafa Pm- 
feíTa nos Domingos de tarde* Nefic livrinho andão coufas 
muito uteispara os quedefejaõ ter boa morte, & merecer 
Rcllaasaffiítencias, &o favor da Senhora do Bom Succef- 
fo; entre elles traz efte exercício que aqui quero lançar, 
porque o enfinou a Virgem Maria noffa Senhora a Santa 
Metildes Virgem* (como fe refere na fua vida cap. 55. ) que 
fie hum modo de a faudar todos os dias em nome daSantif- 
íima Trindade; Sc lhe prometeo , que obfervando-o , lhe 
feria propicia na hora da fua morte, O modo da faudaçaõ hc 
p feguinte , & hebem que todos o façamos. 

^ Recolherei primeiro o entendimento a huma feria me- 
moria da morte, lembrandome da ultima hora em que me 
liei de achar cfpirando, & logo refarei huma Ave Maria, & 
§cabadaella direi: 

minha Senhora Santa Maria , ajjim como T>eos 
Padre por fua Omnipotência Vosfe^ poder ofiJfima\ 
ajim vos rogo me queirais affiflir na hora da morte 
lançando 7 i? apartando de mim toda a contraria 
poteflade. 
Refarfeha logo outra Ave Maria , & acabada ella fe dirá: 
minha Senhora Santa Maria , ajim como Deos 
Filho fe dignou de dotarVos de tanto conhecimen- 
to 3 & claridade , que todo o Ceo alumiais j affvn nâ 
hora damortexílujlr ai minha alma com o conheci- 
mento da Fé, & fortaleza , para que com nenhum 
erro ,ouignor anciã fe perverta. 
ttefada a terceira Ave Maria fe dirá: 

minha Senhora Santa Maria , affxm como o Ef- 
pirito Santo infundio em Vos huma larga enchente 
de amor i ajfimvòs emtninloamorte 7 deftilay em 
. Tom. h Z mim 



3 >4 Santuário Mariano 

mim a àcçura dejfeamor divino , pelo tfualfe mt 

torne fuaViJima toda a amargurei. 

Muyras íaõ as Capellas que ha nejfta Cafa dedicadas à 
Mãy de Deos ; mas as mais^princif aes } alem da referida,, hfc 
a da Senhora da AfTumpçaõ da Doutrina aíí.flida de huma 
Congregação de homens officiaes , que provaõ limpeza de 
fangue, em que não pode entrar nenhum fidalgo, nem no- 
bre. He efía Capella muito rica , &afliíiid^com muito cui- 
dado , aeeyo, & perfeição; tem muitos Capellães, quece- 
lebrao todos os dias pela mefma Congregação. A Imagem 
da Senhora hc de preciofa efeultura de madeira , de grande 
eítatura, & de veneranda prefença, fcaflini de muita de- 
voção. 

A fegunda Capella he dos Nobres > que fica fronteira a 
efta cm paralelo , a que chamão dos Reys , ou do Defkrro. 
Efta pertence aos Nobres, & fendo ailiíUda com grande, a- 
ceyo, perfeyçaõ ,& grandeza y ainda afíim naôchegaâ 
Capella dos Mecânicos. A Senhora também he veneranda/ 
Deíhs Capellas efereve o Padre Baltheíàr Tellesna Chro- 
nica d'a Companhia p. 2. 1. 4. cap. 28* 



TITULO XXX. 

Da milagrofa Imagem de no ff a Senhora da Conceição^ 
da&arocbiadeS* EjleVaõde Alfama. 

NA Igreja Parochial do Protomartyr Santo Eflevag; 
huma das muitas, que tem oEayrro de Alfama, he 
bufeada com grande devoção huma antiga , & milagrofa 
Imagem da MãydeDeos, invocada debaixo do titulo de 
fua ímmacuíada Conceição : eíláeík Santa Imagem collo- 
cada em huma magnifica Capella , & taõ grande , que ferma 
huma nave à mefma Igreja» Ve-fe-cm o meyo doretabolo 

* (que 



Lídvo ÍT. Titulo XXX. 3yr 

fqíiehe de pinturas antigas, & excelentes) recolhida cm 
hum nicho , & fechada com vidraças > &rcom grande orna- 
• to de cortinas, para mayor veneração. He *fj- a S an talma- 
gem de veftidos y & aílim a adornaõ com ricas } ^çreciofas 
roupas : eftà com as mãos levantadas, & a fua eftatura \^ a c 
cinco palmos ; he de grande ferrnoíura. Aoprefente felhe 
cííá fazendo hum novo retabolo dejafpes reveítidos, quê 
tuftará muita fazenda. 

Os princípios y & origem defta Santa Imagem , & da$ 
fuás maravilhas ferefere neíla maneira., Sunaispor tradi- 
ções, do que por efcrituras. No tempo delRey Dom Diniz 
haviahum Miniftro feu^cKámado o Doutor Francifco Gen- 
til; ( não confia fe era Por tugtiez ) era efle Miniftro Defem- 
fcaf gádordo Paço > & Lente de Leys em as Elcólas géraes: 
o qual por devoção que tinha ao myíterio da Conceição , (&' 
a meu ver tomada do exemplo da gíoriofa Rainha Smta 
ífabeí, que foy taõ devota da puriffima Conceição da Se- 
rfhora,que lhe edificou a primeira Capella cm o Convento dã 
Trindade, como fica dito no Titulo XI. do primeiro livro) 
com efle exemplo fe afervorou o Doutor Francifco Gentil 
ianto na devoça6da Senhora y que pedio ao Vigário $ & Be- 
neficiados da Igreja de Santo EfievaõlhedeíTem lugar,aon- 
de pudeffe erigir ,& fundar humaCapeíia; & afllm lhe de- 
#aõ aqueíle em que hoje fe vé: & daqui fe de fvanece hua 
errada tradição que diz , que havia alli huma Ermida dedi- 
cada â Conceição, antes queaParochia fefundaiTe;oque 
hc contra a verdade , & confia porfentenças que fe guar- 
dão no arquivo daquel la Igreja. 

Acabada a Capella, & colíocada nella a Santa Imagem, 
começou logo a obrar muitas maravilhas o Senhor por me- 
yo da invocação da Imagem de fua SantiifirvurMSy \ aumen- 
taridofe mais oculto , &: a veneração da Senhora , aonde to- 
dos concorriaõ , ôcrecebiao favor es, & mercês de fua mi- 
íericordioíã piedade» Pelos annos de 1570. havendo huma, 

Z z gran- 



s jg Santuário Mariano 

brande peite em Portugal , & cm I isboa ; recorrendo Os fe- 
ridos delia à Capela da Senhora , <k implorando o feu fa- 
vor ,& lavanda com a agua de hú perinho que ha na mef- 
im CapeD* > ou ungindo as feridas com o lodo domcftr.o 
poc<^ ío §° alcançavão faude. Com etf as maravilhas crefeia 
cada vez mais a devoção para com a Senhora : & ncile tem- 
po parece que a recolherão dentro das vidraças cm que ho- 
je fevè fechada. He hoje Padroeiro da Capella hum Joaõ 
Kuncs Gentil defeendente do Fundador. 



I TITULO XXXI. 

Wa Imagem de nnjfa Senhora da Piedade? que fe Venera n$ 
Templo de nojfa Senhora do Monte do Carmo* 

NO Titulo XXIV. do primeiro livro tratamos da tr\U 
lagrofa Imagem de hoffa Senhora do Monte do Car- 
mo; &nefie lugar devíamos profeguir emdefcrever as ori- 
gens , & princípios da Senhora da Piedade do mefmo Con- 
vento 7 & da Senhora da Porta do Clauftro; mas como naõ 
pudemos entaõ haver delias as noticias individuaes > o 
refervamos para efle lugar. Verdadeiramente o Templo de 
fioffa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo, felhe 
deve chamar por antonomafia a Cafa de nofla Senhora ; por- 
que tendo efte Templo vinte & feteCapellas, quali todas 
faõ dedicadas a vários myíterios da Senhora. Do cruzeiro 
para dentro fe vem fete Capellas \ a primeira , & a p rincipaí 
he de noíTa Senhora do Vencimento do Carmo; a fegun- 
da da pane do Euangeihohe dedicada a noíía Senhora de- 
baixo do titulo de noíTa Senhora da Soledade ; a tereeira 
da Senhora da Boa Morte; a quarta, que he a do topo, ou 
bríço direito } he dedicada a noffa Senhora da Encarna- 
f aõ j a quinta he a da Senhora da Piedade { de quem agora 

ti ata- 



Livre II Título XXXI. $57 

Éuafamos ) & a fexta a da Senhora da Conceição; a ultima he 
dedicada ao Santiffimo Sacramento. Nas mais Capellas do 
corpo daquelle grande Templo fevem , ainda naõ fendo 
dedicadas à Senhora, Imagens fuás, icom® he a do Senhor 
|efus j aondeíe vertera a Senhora da Poeirada. 

Ámilagxofa Senhora da Piedade ^Santuário antigo do 
ínefmo Convento ^ & fervorofa devoção do Povo de LiV 
Jboa y foy colloeada no mefmo Templo , logo em feus prii*- 
icipias^pelo feu Fundador o Santo Condeftavel Nuno Alva- 
res Pereira 9 pouco depois do anuo àt, i?8ç. Ve-fe eíta 
jSanta Imagem colloeada na primeira Çapella collateral da 
parte da Epiflola. He efta milagrofa Imagem obrada em pc- 
4clra : ,-&bem rija m ? mas dç rara fermofjra,, &de efeultura 
^xceilentiífima P & d-a proporção natural, Efíá com grande 
veneração, & com o devido cultoySc ornato de .cortinas, & 
íempre cubem. 

Foy taõ grande a devoção, que o piedofo Povo delis- 
Jboa teve para com efta Santa Imagem logo em feus princí- 
pios , que fendo o Templo da Senhora do Carmo hum dos 
mayoresda Corte, pois cabem nelle muitos milhares cie pef- 
Joas,parecia muy pequeno ao grande concurfo de gente que 
todos os dias concorria a venerar aquella Senhora > & a pe- 
xiirlhe por fua piedade os favorecefle em feus trabalhos & 
.apertos ;&mais principalmente emos Sabbados, em que fc 
Jhe cantava Miffa > & fe fazia pratica para afervorar mais a 
fiedofa devoçaõdo mefmo povo :&naõfó era ilionas cc- 
caíices em que fe cantava a Miffa , & faziao as praticas , mas 
çm todo o dia; tanto, que era forçofoaosSacriiiães terás 
portas, abqr tas até o tempo que fe tocava ao fiiencio da noi- 
*e ,em quefe recolhião osReligiofos : & para fe obviar o 
. grande difeomodo que dava efta fervoroíà devoção aos Sa- 
criílksjcue era continuo ; porque naô podiaõ fecharas 
portas íenão muy tarde : refoíver 26 osReligiofos fe man- 
daífe lazer outra Imagem da Senhora , que ie collocaffeem 
Tom. 1. 2 3 lugar 



358 ■ Santuário Mariana 

lugar publico , para que aífim fepudeffe fatisfazer a cleVcí 
çaõdosqueabufcívaõí&femcderaíTe o trabalho dos Sa- 
criftães. ParaiflofefabricouhGaCapeliinha com hum ni- 
cho fora da Igreja , como ainda hoje permanece , & a vemos 
cm as c içadas queeftaõna ferventia p ara o Rocio , a que 
CGmmumente chamaõ as efeadas do Carmo ; aonde fe collo- 
couourra nova, & devota Imagem do mefmo titulo , & 
com o Filho Santiífimo defunto em feus braços , como ho- 
je a vemos, q fie também de pedra,& terá três palmos,a qua! 
eflá com grande veneração, & fechada com grades de fer- 
ro , & comhuma alampada , que lhe dá luz de dia, & de noi- 
te. Aqui ajoelhaõ todos os que paífaõ para baixo, ou para 
cima ; & muitos fe detém com piedofa devoção a refar à Se- 
nhora ; & outros vaõ também de propofito a encomendaria 
a ella emfuasneceflidades. 

Efla grande devoção da gente ainda fe augmentou 
mais com os grandes prodígios , & maravilhas que a Senho- 
ra obrava. As mulheres queandavão pejadas, para terem 
bom fucceffo em feus partos recorriaõ à Senhora da Pieda- 
de , & faziaõlhe novenas, viíitandoa em todos os nove dias, 
& andavão ao redor do feu Altar j & era para ellas taõ pede- 
-rofaefla fua fé, que concluída a novena experimentavas 
felicesfucceífos em feus partos. Efla devoção ainda hoje 
perfenra , & fe experimentaõ os favores da Senhora da 
Piedade. Tem huma lufirofa , & numerofa Irmandade , que 
no anno de 1 68 1 mandou reimprimir as obrigações que tem 
os Irmãos da Senhora ; & também as muitas graças , & in- 
dulgências, & as que de novo lhe concedeoo Santo Pontí- 
fice Innocencio XI. Tem ainda hoje todos os Domingos, 
& dias Santos a coroa da Senhora cantada na fuaCapclía 
depois das Vefporas, & em todos os Sabbados ha Miffa can- 
tada como fe coflumava em feus princípios. Ve-fe a Senho- 
ra collocada em hum nicho cuberta com ricas cortinas, co- 
ino fica díto, no meyo do retabolo, mas pouco levantado dâ 

banç^e- 



Livro II Tituh XXXII. ;£ 

banqueta-* porque fcnaõimpida aviftaaosqueavao buf- 
car,& venerar. A^Capellahc grande, mageftofa, & rica- 
mente ornada de pinturas antigas, &excellentes, naõ fó 
no retabolo,aonde fe vem cinco quadros} mas em os lados, 
que todos efíaõ adornadps de ricas pinturas da Pajrxão do 
Senhor.- 



TITULO XXXII. 

íDamilagrofa Imagem denega Senhora doCarmol 
das portas do Claujtro. 

AAntiquiflima Religião do Carmo, de que Mmos falían- 
do neíks titulos , a todas fe quer levantar na devoção 
«Je Maria Santiffima ,..& com razaõ; pois defde o alto do 
Carmelo antes do fer d# Virgem Maria noíTa Senhora , co- 
meçarão feus filhos a contemplar ftias grandes excellen- 
cias, ftbricandolhe Caía , em que foffe venerada, &iou- 
vada , em profecia do muito que depois a haviaõ de amar, 
& fervir; & efta Senhora fe paga tanto dos obfequios defles 
feus filhos , que fazendo maravilhas, até nas portas faz pa- 
ra com elles demoniirações dofeuamor. He Maria a por- 
ta da vida : ^Porta Vit*. , como diz Saõ João Damafceno ; & Ortt. i2 
'fias portasdosClauflrosdeftesfeusfilhosa efíá conceden- dcN&. 
i do, & confervando aos que fe vem em perigo de a perderem B \ ^ 
^comtnfermidâdesagudas,&trabalhofas, alcançando aos 
que abufcaõ,de feu amado-Filho, lha confcrve,& dilate. He 
porta dos Ceos: For ta Gelorum , como diz Santo Agofti- Strml 
nho meu Padre ; & aUi na porta do Clauflro eflà alcançan- 6 * dt 
do do mefmo Senhor a abra, & franquee aos peccadores por tm h 
jneyode fuadivinagraça. 

No Templo de noífa Senhora do Carmo fe começou a 
<4CCcaskf pejos annos de 1680. & tantos ,humagr*nde de- 

Z 4 yojaõ 



ffco Samuarío Man mo 

voçaõpara Com huma Imagem da Rainha dós Anjos] ejffé 
efíá pintada a fíefca fòbre aporta dcrClaufiro,, naqueífa 
fórma em que fe eoftuíha pintar aquella Senhoria quem in- 
vocamos com o titulo denoda Senhora do Cztrfto, com o 
Santiffimo Filho Menino em os braços , toãú iridinada parla, 
clle , veflida de cor parda 7 & com manto branco, & efdapus 
lario com as armas defla mefma Religião. A çfla SanfifEma 
Imagem deu o povo o títuío do lugar em que etfá pintada, 
&-aflim a inyocaõ no{fa Senhora dafPoYta de Carmo^ he taõ 
grande afua fermofura , que a todos rouba o coração* Na- 
quella Porta achaõ todos hum grande thcfcuro de bens: 
porque osafflidosachaôdonfoláçlo ^ tes enfermos faude* 
os moribundos vida 7 & todos em tudo o remédio que per- 
teridem,0 tempo em que efía Sàntà Imagem fòy âlli aelinca- 
da>&quemá mandou pintar >& em que tempo/ feignoíà; 
parece que foy no emque fe pintou o cláufitfo y que támbcíft 
Ire pintadoa ffefcò >ò qualhêde òb& iàb&Grm ] .' 

C^antoàotíge^&princípiois de fuás mafàvSfMs*fl£> 
fierem aqiielles Religiofo^^Eaviá naquelta Cidade Itâgraí^ 1 
.tfe devoto daquella Senbórà > & namorado kú íatf âmtioicút 
pagp muito dâ! fermofura daquelía Santa Imagem(doftdeffr* 
foiria à contemplação da fermofura à&&úótèigihÉtyfómòk 
por fuadevoçáa pètâiàitieda Senhora humáalaMpádá>^á-i 
n qup fempre efliveffe aécefà , & áffim fóíTe á Senho- 
ra mais venerada Ec^i&éfe obfequiodéu togará 
tpc emoutras mtá&spefibàs fe áccendeile à devòç^Pafífe- 
dbs algares annos ■>. fuecedeò qtie to de' * 69^. fluma ta*$foer 
trazia fana caufa co&íhuíííâí parte muito' pòderofa, «k^ «&. 
medido qiie o poder lhe cofKráííáiTe afoà itoiía jpíliçàySc 
comalgumas experiências de que já feíhe fatela comellá> 
ft endQmendQucomgramie aiffeéio à Senhora: dá Porta dfr 
Ckuflro^prometendolhe de lhe fazer {fGâfefe>felfíe , de& í 
jfefemeDça.áfettfevòr:Succédea logo; &hí* pougóâdias^ 



Livfô ÍLTiiúb XXXll. W 

iras de queiahira afentenca da íua demanda a feu faVor.Não 
dilatou a agradecida mulher a fatisfaçaõdaTuapromeíTa;& 
aflimno diaíeguinte deu parte aos Religioíos-do fucceííò, 
confeffando que devia à interceífaõ da Senhora da Porta de 
quçmfe valera , o bom íucceíTo da fua fentença. Difpozle 
lhe fizeífe a fefía com MiíTa cantada , & Sermão •, no qual fe 
publicou o bom ÍucceíTo que a devota da Senhora havia tu 
-do/ 

Cóméflé motivo fe começou novamente a áccender 
< èõm mais fervor o povo , para com mayor devoção fervir 
à Senhora da Porta : que he rafa a peffoa que em íèus traba- 
lhos^ enfermidades-a não invoque, & q logo naõ reconhe- 
ça dsfetís poderes; Saõ muitas a$ memorias dé cera ,& de 
I outras matérias^ que o manifeftaõ.Efláeíta Santa Imagein 
éom grande ornatode cortinas; & fez-ífc-lhe hum retaboíp 
de talha dourada grande > que toma ioda aporta (em cujo 
ijtfeáiSfêW Altaf >)&oskdõ$delbuEtudo effá com grande 
aceyo ,& perfeição. 

Deite Senhora àndá himté eff amf à itfipreífà >; aonde íé 
vè retratada muito ao nàíiíral y iSc énb o feu nicho fobre a 
porta *& por baixo do nicho emo aíqtiitf ate do Pórtico fe 
femefias letras; 

Datm ejlei de cor CarfkeVuJku 1 1. 
É- nòVâõqííe > finge X porta > feVèefta Dftúiiiii 
Maria ClàuttYò èxteltinte 
Foy de 'Deos r qtiandv gerado > 
Masfefoy Qlaujl t d fechado i 
ComohàqmClmJftopdterite? 
Jtftáfeuártiúryekemeirté 
i jíhntâ óbamd > &lbe's exorta 

guejàbe fer , fuandò importai 
Commyfkftofatraç<t y 
Sempvrta, Qaufiro da Graça} 
CkHftWfMGttnO; (gmpòttfr 

TTTUr 



$6z Santuário Mariana 



TITULO XXXIII. 

7)áSagrada Imagem denojfa Senhora das Candete} 
da lambia de Saõ Julião. 



D 



Os Templos cm que o Demoni® foy adorado peia cc^ 
gueira gentílica em a antiguidade, difpoz Deo^que fc 
dedicaffem ao depois ao leu divino culto , & foffem conver- 
tidos em Cafa 3 de Ora£aõ> em que foík adorado o verdadei- 
ro Deos, & venerada íua Santiffima Mãy. Muitos fe dedica- 
rão a vários Santos, como foy o templo de Profcrpina, de 
cujas ruinas fç erigio a Igreja do Apoftolo Santiago juntos 
Viila-Viço%aonde ainda hoje fe vem muitas pedra^que te- 
íUficaõ fua muita antiguidade , da qual falia o noffo Refes- 
^ de nas fuás antiguidades* das, quaes referirey fomente hua # 
Lufo i *l uc * z aíí * m > comoa traz Fr. Bernardo de Brito. 
uLu PROSÉRPINA. SERVATRICI. 

C VETITIUS, SILVINVS. j 

PRO EUNOL DE PLAUTILLA 
CÔNJUGE SIBI RESTITUTA. 

V • V« A« -Lt mê 

Cuja fignifcaçaô he nefta forma. Cayo Veticia Sirvi- 
no , para cumprimento de feu voto, poz com boa vontade 
eíte dom a Profcrpina confervadora , por cauía de fua mu- 
lher Eunoida Plautilla , que por intercefTaõ defta deofa lhe 
foy reílituida. Efte templo dizem o fundara Luçio Munio, 
em gratificação de huma vitoria i que alcançara contra os 
Luíitanos: que também o demónio, para lhe tributarem 
adorações perfuadia aos cegos gentios, que ellelhè dava as 
Làjm. vitorias. E diz Laymundo que no mefmo lugar da batalha 
£3. fe edificara aquelle Templo, ^cq fora no anno da creaçaõ 
domwido2.8n. & iço, antes doNafciírítnto do Salvador, 

Epor- 



Livro II Tituto XXXIIL - §£$ 

E porque da noticia de quem foy Proferpiíia, h da cau- 
ía porque os gentios a tinhaõ por deofa, havemos de tirar 
os princípios , & a origem da feflividade das Candeas, Sc da 
fua prociíTaõ , o direi brevemente , naõ fó para que fe veja a 
cegueira de nofTos antepaíTados ; mas para que louvemos 
com mayor fervor a immenfa bondade do Senhor verdadei- 
ro , & a grande com. que nos abrio os olhos do noffo cn* 
tendimento , livrandonos das trevas da ignorância em que 
tiles viviaõ. He pois dcTaber quereynandonallha deSick 
lia pelos annos de^Sç. da creaçaõ do mundo, & 1477, 
antes da vinda do Senhor a elle , Ceres a Grega , que enfi- 
nouaosdamefma Ilha a femear trigo, & fazer dellepaõ; 
donde affirma Phornuto lhe deraõ o nome de Geres, que fíg- **«■»? 
nifica Inventora de fementeiras j eílá como gentia , & pou- deH ^ 
to amante da honeftidade , fe namorou de hum mancebo de ™ °* 
quem teve huma filha , da qual fingio que a ouvera de Jupi- ; m } 
ter, (meyo dequeufavaõas mulheres illuflres daquelles 
tempQs para encubrir feus defatinos*, ) & lhepoz o nome de 
Proferpina. E fahio a donzellataõ galharda, & com tantas 
perfeições , que naõ fó atrahia os olhos de todos ; huns pa- 
ra a verem, & outros para a defejarem; mas parecia que em 
parte podia verificar a máy a íua mentira , na fingida divin- 
dade. 

Entre os que a defejavaõ entrou Aydoneo Rey de 
Epyro , que fenhoreava a todo o Illirico , & as Ilhas de 
Corfica , & Serdenha , fituadas no mar inferior, que na lín- 
gua latina fe chama Inferno : & para ter occafiaõ de a ver fe 
meteo em huma nào^&fe fez avela para a Ilha de Serde- 
nha , & tomando de caminho terra em Sicília , como lança* 
do do vento , ou de outro cafo fortuito , foy taõ venturo- 
foque vio a Infanta, que fe andava recreando no campo 
com as fuás damas, & donzellas, colhendo varias flores , de 
que o campo abundava , & fazendo delias capellas , & gri- 
naldas para ornata de fuás cabeças. Naõ perdeo Aydoneo a 

boa 



j^4 m ' Santuário Marram 

boa occafiao, que ícljKe offerecia , antes aproyeifâftdofe 
delia roubou a Infanta , & a recolheo ao feu navio; & nave* 
gandopelo mar do Inferno^ ou inferior > & depois pelo fu- 
perioralevou ao feu Reyno deEpyro, deixando ii Cere* 
abrazadaem fogo de ira pelo roubo da filha; em cuja pçfqftiL- 
2a andou noites,, & dias bufcando os y alies, & os montesj 
daquella Ilha , enchendo tudo de prantos , & fufpiros , re* 
petindo muitas vezes (mas em vaõ ) o nome <$e Proferpina, 
Depois fingirão os Poetas , que Coubera novas delia por re* 
velaç^õda Nimpha Arethufa , & que iaílimandpfe com Ju* 
piter poreíkaggravo, f e fez hum concerto entre elle ,* &i 
Aydoneo^quefeismefesdoannorefidiíre com Proferpina 
' no feu Reyno de Epyro , & outros féis eu? Sicília para çotir 
folaçaõ de fua mãy Ceres. 

Daqui refuitàraõ as patranhas de Platão, Deosdosin- 

GvtJ fernos , dizendo que elle roubara a Proferpina , & ativer? 

Meti. P or mu lher, coroando -a por Rainha do inferno , como lar- 

Claud. gamente conta Ovidb , & Claudiano; & os gentios tive- 

de rapmx^b ifto por t aõ certo , & infaliivel, que levantarão afiares, 

?rofirp.&. templos em que lhe offereciaõ facriíicios : entre os quaes 

*^g- em o mais ordinário (como diz Virgílio, &o refere Ale- 

*£«etd. xanure ab Alexandro)hua vaca nova.E todos os annos pelo 

tempo em que havia fido o roubo, fe lhe celebrava fua f cila, 

andando as mulheres, & os homens de noite comcandeas 

acefas > gritando pelos montes, & repetindo feu nome era 

tom muito laflimofo , & fentido > como o repetia fua mãy 

Ceres. Etaô arreigada eftavaeíia fuperfliçaõ nos gentios^ 

& particularmente nos Romanos , que ainia depois de fe 

converterem à Fede Chrifto, naõdeixavaõ de renovar cf- 

taceremonia;nemosSumrrios Pontífices apodiaõ deíler- 

*- J e -? rar de Roma. Peloque ordenarão (como refere Fr. Bernar- 

^EhíIís € ^ no ^ e ** ll ^ OÍ naquella própria noite ^ que parece cahia em 

<bus de Fevereiro y huma prociílaõ foicmnifiima em louver 

da glorioía V irgenx Maria , a que todos acucUaõ com cirio.v 



Livro 11. Titulo XXXlll & 

idiizèsj cantando hymnos em leu louvor , mudando afu- 
períiiçaõ diabólica em fanto, & louvável coflume, & de- 
voto obkquio à Senhora. E por caufadas luzes, & candeas 
com que todos hião a efla procifíaõ , fechcmou aíefla das 
Candeas, cueaté boje ufa a Igreja Catbolica. Ainda que pa- 
ra e vi u v algumas mdecencias , que havia em fe celebrar de 
noite , a mudarão os mefmos Summos Pontífices ,. & man- 
darão que fe celebraíTe de dia. Efla he a origem da prcciíTaõ 
das Candeas , & fefla da Purificação da Senhora. 

Na Real Parochiade SaõJuKaõ da Cidade de Lisboa; 
fc venera huma antiga, & devotiflima Imagem da Mãy de 
Deos , com o titulo das Candeas , por fc feflejar em o dia de 
fua Purificação ; em que por ceremonia da Santa Igreja fe 
benze a cera, que fe leva na prociíTaõ daquella myfleriofa, 
íefanta folemnidade de Maria Santiffima. He fervida efla 
Senhora por huma rica , & luflrofa Irmandade, que fe com- 
f oem de todos os officiaes Alfayates , & Veflimenteiros da 
mcfma Cidade. 

Eflá efla veneranda Imagem collocada em huma gran- 
de, & rica CapelIacollateral,queheanrimeira da parte da 
Epiftola y fechada com humas grandes grades de ferro, mas 
excellentemente obradas , & lavradas. Nella feconferva 
hum grande thefourode relíquias de vários Santos. He ef- 
*a .Sagrada Imagem de rara ferrflofura ; tem ao Menino 
Deosfcntado fobreobraçoefquerdo; & ambas faõperfei- 
ti/fimamente obradas. A Imagem da Senhora he de veflidos, 
adornada de toalha; & faõ precioíos , & ricos os veflidos 
com que a compõem : tem na mão direita hum cirio. 

He a Irmandade da Senhora enriquecida de muitas gra- 
ças , & indulgências concedidas por muitos Summos Pon- 
tífices , & participadas da Igreja Lateranenfe a que he anne- 
xá , & confirmadas pelo S.Papa Paulo V. publicadas em Lif- 
boa em cinco de Setembro do anno de 1 6q . pelo A rcebif- 
po Dom Miguel de Caflro,como fe vé do Suiwnario que an- 



$66 Santuário Mariano. 

daimpreílb'. Goza também cfla Irmandade de muitos pri- 
vilegias reacs \ dos quaes naó participaõ 03 Alfayatcs , que 
tiaõíaõ Confrades da Senhora. 

He efta Sagrada Imagem muito antiga , por iíTo na5 
pude faber coufa alguma de fua origem ;& lendo a Igreja de 
Saõ Julião taõ antiga, que foy íagrad* por Dom Joaõ Pardo, 
fcxtoBifpb-de Lisboa>emõanno de 1241. bem pode fer, 
que já naquelle tempo foíTe no mefmo Templo venerada* 
Obra grandes rmravilhas, & faz muitos favores aos que 
com verdadeira fé \ & devoção a invocaõ. 

Da Senhora das Candeas faz menção Jorge Cardofò 
nofeu Agiologio Luf. tdm. 3. p. 3 2?. aonde diz eftas pala- 
vras , fallando da fumptuofa Capella mor daquelle Templo» 
Ficalheàmaô direita a Capella dos Alfayatcs } dedicada a 
noffa Senhora dns Candeas , exornada com variedade de re-* 
íiquks } & indulgências pelas feftas mayares do anno> 
aonde adquirio lugar de propriedade Saõ Bom Homem, por 
haver exercitado aquelle mecânico oíficio : 5c Santo Euí la- 
chio Soldado ,& incly to Martyr, 



TI TU LO XXXIV- 

Da'bhàgem àe>nof[a Senhora a Franca , quefe Venera 
na Tcirocbial Igreja de Santiago. 

E Maria San 'tiffima verdadeiramente a Senhora fran- 
ca-,-& a Senhora liberal;& tanto , que a fua libera IP 
d-i/de^paíía dos homens ao mcfmòPeos ; porque naõ fó os 
homens gozãoda fua liberalidade-, & .franqueza ;masoque 
he mais, o mtfmo Deos. Declarando o Euangelifta São João 
aquella &A notável vifaõ do A pocalypfe : Stgnnmmagmm 
apparmt in L^lo, \nu!irr amiíta fole s Que vira huma mulher 
no Ceo veãHa de Sói; & declarando elie lugar Saõ Bernar- 
do 




Livro II. Tituk XXXIT. 367 

iiodiz,-<}uc-quando a Senhora em fua Encarnação trouxe- 
raaOeos em feupuriífimo ventre, tntáõ toda liberai ,fk 
franca o veiiira da tela de fuás próprias entranhas y dando - 
dolhe a humanidade > & que ifto fora huma côngrua remu- 
neração com que o Filho quiz pagar noCeo àMãy , o que 
delia tão liberal^Sc francamente tinha recebido na terra: Et 
^eftto eum , is Veftirt* abeo: Veflíseum [ubflantia carnis , £# 
■Veftit tile te gloria ftue maieflatk : porque a mulher veílio 
taô liberalmente na terra ao Sol ; por iffb veí te o Sol a mu- 
lher no Ceo. Ella na teíra o veíHo com a fuftancia da huma- 
nidade; &elleno Geo veílio-a com a gloria da fua magef- 
tade: ella toda liberal , & francamente o adornou da gala 
que mais eftima • & elle para moílrar também a fua liberali- 
dade , a adornou da fua mefma foberania. Efla mefma libera- 
lidade^ franqueza obra Maria Santiílíma a favor dos pec- 
cadores > porque também lhes foliei ta do divino Solos vef- 
.tidos resplandecentes da fua divina graça. 

Na Parochiadogloriofo Apoflolo Santiago, íltuadaa- 
ílmado Limoeiro (cárcere dos màlfeytores)fe venera huma 
devota Imagem da Rainha dos Anjos Maria Santiffima^com 
o titulo de Franca > & aíTim a invocão noífa Senhora a Fran- 
ca. He efia Senhora a Patrona doofficio de Cericiro; cujos 
cfficiaes a fervem com grandeza \ & liberalidade. Ve-fe eíla 
Santa Imagem collocada em huma magnifica Capella, que 
toma todo o lado efquerdodaquella Igreja, &hedetaõfo- 
berba ., & perfeita architeâura, que a não tem a Corte me- 
lhor. Pela parte de fóra faz três entradas com três arcos, 
quedividem, &guarnecem'co!umnas de muita grandeza, 
& de excellentes jaípes brancos j coroadas de capiteis co- 
nnthios taô perfeitamente obrados, que os grandes offi- 
ciaes, quando querem obrar alguns com toda\n perfeito, 
ctelles yrõ tirar os modelos. Eflá eíla Cápella adornada de 
ricas pinturas ;&■ a Irragem da Senhora cM collccada no 
mcyo do retabolo,& tem de eflatura fere palmos. Ve- fe com 

o Me- 



'3^8 . Santuário Mariano 

o Menino Deos fobre obraçoeíquerdo, & com hum rof- 
to muito mngeftofo, & agradável. Saõ obradas eftas Ima- 
gens de efeultura em madeira , & com muita perfeição et 
rofadas , & fe Vem com ricas coroas de pfata dourada. 

Quanto à origem defla Santiffima Imagem , & do feu 
íingular titulo de noíTa Senhora a Franca /diremos aquillo 
que fe colhe do Compromiffo da fua Irmandade dos Certei- 
ros, & eferituras do feu arquivo, que he donde fe pode def- 
cubrir alguma coufa j aonde fe acha que eíte nome , & titulo 
de Franca , vem a fer © mefmo que â Senhora liberai , & ge- 
nerofa para com nofco os peccadores, aos quaes nunca cefla 
de nos fazer bem.Fallando o CompromiíTo da Irmandade da 
Senhora , no dia em que ella lhe ha de celebrar a fua feflivi- 
dade, diz que atai feita fefará na primeira oitava do Ef- 
pirito Santo , com a MiíTa da fefta da Encarnação ; & que ef- 
ta fefta fe faça com o mayor ornato , & celebridade que for 
poffivel: Para que em tudo fefejleje , iJjirVa cita Senhor* 
noffa Franca com todos os peccadores. 

Comellas palavras fe explicarão os Fundadores da Ir- 
mandade, & nos deraõ a intelligencia do titulo da Senhora. 
Foyeíla Santa Imagem em os tempos paífados muito cele- 
bre , & affim era a devoção para com ella muito mais fervo- 
irofa ; & tanto , que os pays punhaõ'por fobrenome às filhas 
Franca, alludindo ao titulo da Senhora. A fua Confraria 
fcy ere&a por authoridade ordinária em t6. de Junho de 
1576. a qual confirmou o Illuftriílimo Senhor Dom Jorge 
de Almeida , fendo Arcebifpo de Lisboa : ainda que alguns 
annos antes a tinhão ordenado os Irmãos Ceneiros , como 
fe vè de hum contrato celebrado entre o Prior da Igreja de 
Santiago, & os Irmãos em 24. de Junho do annode 1568. 
Servem os Irmãos Ccrieiros a efla Senhora com grande de- 
voção , &: afíiilem com muito fervGr, & grande zelo às fuás 
fefíividades: porque cm todas as fuás fefíss lhe cantaõ Mif- 
ía^ôc em todos osSabbados perannum. Tem ricos orna- 
mentos, 



Lhro II Titulo XXXW. -$6 9 

centos *& muitas peças de valor- Na meíma Capella da Se- 
nhora fcguardaõ em facrarios fechados duas cuíiodias de 
prata douradas; Sede feitio antigo , & galante duas pre- 
ciofas relíquias; humi dogloriofo Apoítolo Santiago , Pa- 
ttão das Hefpanhas ; & outra do Martyr Saõ Sebaífião ; & 
efta he tradição a dera EIRey D. Sebaítiaõ ; & aflim a lev aõ 
na fua prociíTaõ , q em vinte de Janeyro faz todos os anuo* 
*0 Senado da Camera , da Sé a Saõ Vicente. 

O primeiro Irrmõ que começou a ler vir a noíTa Sen T io- 
raaFrancacomgranie zelo, & fervor, (& por iifobene- 
neritode fazermos msmorii dellenefte lugar ) fe chamava 
nilano Cotaõ, também Cerieiro , & jaz fepultado na mef- 
na Capella da Senhora, Da primeira origem da Senhora 
naõ ha noticia. Huma tradição íè refere, que nos aponta o 
Prior daquclla Igreja, & Author deílas noticias, que elie 
julga por de pouco fundamento , & tem por apócrifa ; mas 
nòsa pomos refutandon como de pouco credito jheel/a, o 
-dizerfeque a primeira denominação do titulo da Senhora 
procedera de que hum devoto feu , que vendo, que fe eftava 
I fabricando a fua Capella , ou retabolo , para nelle fe collo- 
car huma Imagem da Senhora , differa queelle tinha huma 
Imagem, a qual viria muito ajuílada àquelle lugar, quefe 
lhe tinha preparado 3 & que vindo a Santa Imagem , a collo- 
tàraõ, & que vinha para elle muito ajuftada. Perguntou- 
felhe o que fe lhe havia de dar da manifa&ura ; refpondeo © 
devoto que a dava franca. E que daqui nafeéra o chamarfe- 
Ihe a Senhora a Franca. Fila he a tradição, que fuppofto 
podia fueceder cafo femelhante, ainia aflim nós a naò jul- 
gamos por certas 



Tçm. I. / a TITU- 



370 Santuário Mariano I 

L i r , ,., 

título xxxv. 

7)a Imagem âenojfa Senhma dòSoccGno ,Tarocbiv 
de Lisboa. 

DFpois doaftfiòdê i6oò* poudomais *ófcitieiio$,òuw" 
ve hum devoto Clérigo em efl a Cidade > que tinfia hui 
Imagem da Rainha dòs Anjos em fuacafa: que fuppoílo he 
<* e foca •> o feu rofio he de rara fcrmoíura. Efie Clérigo 4 ou 
porque lhe pâreceo, que eíla Santa Imagem mb eftava eiíi 
fua cafa com a devida Veneração que fe lhe devia; ou porque 
Deos lhe infpirou que aflimofizeíTe , paramayorhcaita,^: 
gloria fua ., Sc de fua San tifíimâ Mãy , a foy collocar na nova 
Parochia, que fe havia erigido na Ermida deSao Sebaíliáõ 
da Mouraria > dè que eraõ Padroeiros os artilheiros. Aqui 
cííeVea Senhora quafi todo o tempo quealli durou a Fro- 
gueíia . Depois difpondo òs Parochianos a fazer hum Tem \ 
pio grande, & próprio ^ftmeflarem dependentes davon 
tade alhea ; & também porque aquella Ermida era muito pe- 
quenina ., íe rcfolverão a edificalo junto ao Colíegio db 
-Santo Ignaciock Companhia de Jcfus, a que o vulgo cha* 
ima Santo Antão o novo. Era o principal Author } & motor 
clefta grande ohra , hu fervorofo Cidadão } chamado Agos- 
tinho Franco de Mefquita; 8c puzeraô tanfo cuidado na fua 
<obra , cue fe aehou capaz de fe collocar no noVo Templo o 
Santiffimo Sacramento noannode 1650. Trinta annos ha- 
via fe tinha dado principio àquella Parochia; &odifporia 
aflfim o Prekdo Diocefano > por fer a de Santa Jufla muito 
dilatada , & não fe poder acudir aos Parochianos com a 
promptidaõ > que pediria a neccífidade dos enfermos. 

Logo em feus princípios fedeu o titulo àquelle novo 
Templo P de noíTa Senhora do Soccorro^ pela grande devo- 



Livro II Titnh XXXV. 371 

§ihj que jàtinhão todos à Sagrada Imagem, queodtvotQ 
Clérigo Gollocàra na Igreja de Saõ Sebaíliaõ > que tinha eí- 
ta invocação. Faltavalhesàquelles devotos Irmãos do San- 
tiffímo Sacramento , na mudança, que fizeraõ,a Imagem de 
fioíía Senhora, que havia de fer a Patrona , & a Tutelar da- 
quelicnovo Templo. E como a Imagem da Senhora do Soe- 
corro naõ pertencia aos artilheiros y antes era joyaque o 
devotoClérigo havia dado à Parochia ; entenderão o dev o ? 
to Agoítinho Franco de Mefquita , Sc os mais Irmãos do 
-Santiffinio Sacramento, (por cuja conta, & defpcza havia 
-tórrido toda a fabrica do novo Templo) que aelles perten- 
cia a Imagem da Senhora do .Soccorro;-& aífim fc refolve- 
;raõa tkala da Ermida de Saõ Sebafliaô, & trazela para a no- 
,va Caft: mas por naõ caufarem algum eftrondo. executàraã 
•efle pfedofo furto em huma noite 5 $c aífim foy le vada a Se- 
4ího*aj^a#iaelIa fua Caía; ; porque devemos iuppor , que 
verdadeiramente era fua j pois em feu nome ., & debaixo da 
-Tua invee^f a§ foy fundada. 

Collejcàrão a Santa Imagem em o Altar mòr; &como 
<tfla Senhora era de roca , & de veflidps , & eflava ibbre o 
$açmi& f fp hum trono , que fica nafboc^ da tribuna j nas.oç- 
-èaítões da§feíiividade^(?aufav^lhes algum impedimentQ, 
.para com os adornos } Stornatos do trono: porque como 
vèpparatofo das roupas > fe naõ podia compor o trono como 
jds Irmãos qucrk& (que he acaqfaque qlles apontaõ deo/ia- 
-ircremtiradoj)&affifnfe reíòl.Vjéfão a mandar fazer outr* 
• Imagem nova , & ainda muito may,pr ; porque terá mais de 
oito palmos. He de excelíentiffimaeícultura , & ricamente 
citofada. Tem fpbre obraço efquerdo ao Menino Deos , <5c 
,dç fan ta graça 7 que parecçeítar, chamando a todos cornai 
4>ra<rinhps. q>ie íe^ abertóç^&comp roiloaiegrç 3 & todo 
-f líonhç. A^.as as Lmsgens tem ricasporaas ; Sç ei-fá efip &£. 
nhora collocada emofnefmojugar da Senhora velha (aíjim 
intitulaõ a primeira) íbbre o lacraria, Eífo }##SÇip 4* -§Çr 

Aa z nhora 



171 Santuário Mariam 

nhoraaquechamao a Senhora velha , eíté veftida âe rica 
tela , & collocáraõ-na os Irmãos na Sacriflia > em hum ni- 
cho que nella havia; terá féis palmos; Ôcciíá com asmãos 
levantadas,como quem roga pelos peccadores, para lhes al- 
cançar o divino Soccorro em todas as fuás neceíTidades, & 
apertos. A cabeça dizem que he de barro; mas he de rara 
.imgeítade ; & de muita fermofura. 

A Senhora moderna feficjafc a cinco de Agoflo , dia 
das Neves; motivo que alguns tiveraõ para lhe dar eíle titu- 
lo; porem o feu próprio titulo, heofnefmo do Soccorro. 
Eite Igreja cftá toda cuberta de ouro , & adornada de mui- 
tas,*: excellentiílimas pinturas, todas da mão de Bento Coe- 
lho da Silveira , pintor infigne. E fendo que mõ heefta das 
Parochias mais opulentas , & ricas , ainda affim na riqueza, 
adornos , ornamentos, perfeição, & aceyo, com que íe aflií- 
te ao divino culto, parece a mais rica , a toais accada, & per- 
feita de todas. 

A Senhora do Soccorro a velha fcflejaõ também pc£ 
foas particulares, pela grande devoção que tem cem cila, 
& o fazem com muita grandeza, & com o Senhor manifeS* 
to. Porem ainda naõ tem dia fixo para a fua celebridade, & 
de prefente lhe eftão lavrando hía rica tribuna na primei- 
ra Cape lia , que fe havia dedicado a SaoBras, que he a que 
fica em paralelo com a Capella da Senhora da Conceiçcõ, 
que também he magnifica. Eíhi Capellade Saõ Brás fica à 
parte do EuangeIho;& nella dcârà a Senhora cem muita de- 
cência , & veneração : porque tem jà retabolo de excellente 
talha ,& bem dourada. Obra efia Senhora muitas maravi- 
lhas ;&aíí?mhe muito grande a devoção da gente daquella 
Parochia para com ella, &a vaõ vífitar ordinariamente à 
Sa crmia:& porque não podiâo levar abem, queella eiK- 
veffefechada,fe refolvèrão a fazerlhé lugar, aonde na Igtf- 
ja a pudcflèm ter fempreà vifla, para alcançarem per feu 
mcyo os foccorros do Ceo. 

Eíte 



Livro II. Timio XXXV. ^ò 

Efte Agoíiirho Francode Meíquita era hcrrem mui- 
to pio 7 & devoto : & como era rico > luzia muito o feu fer- 
vor para as obra; de L eos , & do feu divino culto. Eile foy 
o que neíla obra difpendeo mais cuc tcdos, porque cem li- 
beral maõ acudia a tudo. Tomou per fua conta a fabrica da 
Capeila mor , que he magnifica y & eftá toda cozida cm ou- 
ro, com hummngeílofo retaboío de arrogante architc<ílura # 
& com hum.a tribuna das melhores da Corte , em que fe ex- 
põem o Santiflimo Sacramento. Defta Capeila irwyor fefez 
Padroeiro ; & como naõ tinha filhos, quiz que noííò Senhor 
foíTc o leu herdeiro 7 & de fua mulher; porque deixarão to- 
da a fua fazenda à Miíèricordia dç Lisboa , juntamente com 
aadminifiracaõ da Capeila , com certos encargos prra a 
fabrica , & ornatos delia > & culto do Santiflimo Sacramen- 
to. Elle r ,& fua mulher fe mandarão fepultar na mefma Ca- 
peila mòr como Padroeiros que eraõ. Os Irmãos fizeraõ o 
corpo da Igreja y & ainda que com mão liberal entràraG nef- 
ta obra , o devoto Agoflinho Franco com o feu fervor \ & 
largas ajudas os afervorava mais. Efta he a origem > & prin- 
çipios da SagracaImagemdaSenho:a doSoccorro, a que 
íioje chamaoda Igreja nova , & que ainda ao prefente íe ve- 
nera na Sacriflia. 



TITULO XXXVL 

r IDa milagrofa Imagem de noffa Senhora do Livramento, 
Figayrariados Padres da SantiJJima Trindade, 
nos limites de Alcântara. 

Ainda que Deos pela fua immenfídade eílá em todas as 
partes y conuudo ., com modo particular , ou com par- 
ticular auxilio > efíá prefente áquelles,que padecem tiihu- PfaL 
Isções, como o tefíifica o Real Profeta iÇurn tp/ofum vim- 9* 
Tom. h Aa $ bulath- 



374 Santuário Manam 

Gefi.tfi b<dationp.'Cox\Ç\àc?tmos a Joíèph, o qual fendo lançado por 

icuslmiãosemhumaciíkrna velha, Deosonaódéíempa- 

Saf. io. roo ;mas antes, como di-z oSabio , DefcenSt cum tilo tnfo- 

Veanj. A qaal cifterna, como diz Rabi Saíamaô,cftava che ya 

de lèrpentes ; & efeorpioens, dosquaes o defendeoo meftno.. 

Senhor, cj com elle defeéra. Da ci ttema fez o meímo 5* foífc 

tirado;& aifimeomo lançado nclla o naBdeíèmparou^efiam 

do fora delia fe naô efqueceo-, antes fendo vendido aos If- 

maelttns,foy com elIesaoEgypto,aonde vendi do,falfamcte 

aceufado, & em hu terrível cárcere metido,nunca o defem- 

-f '**£ f pa*ouj5caSímodiza Efcritura: Dominmerat cumillo. So 

dtjHh 5 rC q Ue S. A mbrofio comenta afluiu Inaudita cattfa ,&inex~ 

pticatafile Vtri y tanquéLmtewcrimini* in carcerèmjofepb 

mittkurtfedeum Dominas nec in cárcere deferebat.TSlon tur- 

èentur innoceníes t > cwnfalfi* ctimmilu* app~tuntur , & of>- 

prijfii jujfttia detmdiwtur in carcerem , Yifitat Vem t? in 

cárcere fuos , & ideo ibi eflptm auxitij , ubi e&plu* prriculK 

Vejaõ agora os que padecem, acomo Deos lhes afíiílc 

com fua mifericordk;mas como o attributo da fua j t*ítiça he* 

igual aada rotferícordía , poderá (nao digo faltar, porque 

minc&a fua mifericordía nos falta)a juft iça fazer que fe fuA 

penda a mifericordia. Mas coma a Virgem Maria toda he 

miferieordià L & May de miiericordia ^ toda eafa, & mura* 

de refugia, que nos livra em todas as tribulações y & an- 

T**jk w gufíias , como diz Theoíterito: Murm tefugi} , i? omnibu* 

c**9*# moais anwutxum falm , ac anxietatibm munimetjtnm ;tk 

******** não tem naía de jufliça j vejao os que faõ léus devotos , e 

* tm ° como , & o quanto os acompanhará ,,& livrará fendo cila & 

Senhora do Livramento» Bem experimentou as mifericor- 

diofas affifiencias deíla Senhora Rodrigo Homeiade Aze- 

v«db,cos&>fe verá neita hijftorta; 

Pelos annos de éçÍSq. dépcás d&juella femctatavel per* 
dada batalha de Alcacerc em Africa, aonde fe defvaneeéraS 
ObfeeroicoSj&piosintentosds^SercniflSmg Rey Dom Se- 

baftiaô. 



Livro U. Titulo XXXVI 37J 

baftiaõ , íheíuccedeo noReyno,& no governo o Cardeal 
Infante Dom Henrique fcu tio , que o naõ chegou a lograr 
dousannos; com cuja morte, ouve em Portugal com os 
pertendentes à coroa ( no falecimento do mefmo Cardeal 
Rey ) tantas perturbações , & ty -annias , que ninguém ef- 
tava feguro : feguirão muitos a Dom António , que em va- 
rias partes foy acclamado por Rey, como fuecedeo em San- 
tarém , no Porto , icem outras partes: mas como faltava 
nos corações dos que o feguiaõoamor, facilmente o defem- 
paràraõ. Como fe vio na mefma Cidade do Porto ., aonde fc 
retirou com alguns dos que o íèguiaõ y & lhe foy n> 
ceíFario fugir > & deixar a Pátria , & a pertençaõ. A muytoS 
deíks que o feguiraõ, prendérrõ depois ; a huns jnftiçàraõ, 
& a outros maltratarão com tormentos bem deshumanos^Sc 
de caminho entre os culpados , forão prefos muitos que ef- 
tavaõ innocentes. Entre eftes que prenderão por cíh cauíà, 
entrou também (mas fem culpa alguma) o Doutor Rodrigo 
Homem de Azevedo j ao qual puzeraõ em hum terrível , & 
apertado cárcere. 

He de faber, que na occaíiaõ em que Phelippe o II. de 
Caftellafeintrufou nosReynos, & Senhorios de Portu- 
gal , mais com o feu grande poder, do que çom a fua jufliça; 
pois eíta fó favorecia a Senhora Dona Catharina , filha do 
Infante Dom Duarte,neta delRey Dom Manoel, & Duque- 
za de Bragança ; cercou a todo Portugal com poderofos ex- 
ercitos> entrando com elles por todas as Provindas , jul- 
gando ferihe aílim necefíario , para reíiítir a« valor dos 
Portugueses. Porque por Elvas entrou o Duque de Alva 
com dezoito mil homens. Pelo Entre Douro , 8c Minho en- 
trarão de Galiza os Condes de Caftro , & Monte- Rey ; por 
Tri Ios-Montes,os Condes de Eenavente,& Alva de Liííe; 
pela Eítremadura o Duque de Albuquerque, & o Marquez 
deVilla Nova do Rio ; pela Beirado Marquez de Scrralhano; 
& pelo Algarve os Duques de Medina Sidania,& de Bejar.E 

Aa 4 quem 



3/ò Santuário Mariano 

quem vinha com tantos exércitos, pouco fiava de fua juflí ça»í 
Foy o Duque de Alva , de Elvas marchando até Setu- 
val,aoaJe paliou por mira Cafcais, & diqui rendidas as 
fortalezas, entrou em Lisboa, &por mar enteou o Mar- 
quez de "anta Cruz Dom Álvaro Bafan, com feíTenta, & 
duas galés, & vinte & cinco navios , que fepuzeraõ a tira 
deraofquetenoRbdcLisboa, fazendo ruma ala daparte- 
s (querela domar ao exercito do Duque de Alva. • 

Sitiado oReyuo com tantos exércitos , governados 
por tzò grandes Generaes> & por taõ exercitados Soldados, 
qu£m lhes podia refifdr rO Infante Dom Antcnio,que via de 
Fiuii perto efías ruínas noReyno de que perttndia ferfe- 
nhor, tratava com todo o esforço de remedirias > & affiro 
paíTou de Santarém a Lisboa com hum pequeno , & mal ar- 
mado exercito; com o qual fefoy a impedir em a ponte de 
Alcântara a entrada ao Duque de Alva; ôtcomo o leu po- 
der era muito grande, em numa noite a combateo, &pela 
manhaa a entrou , com não- pequeno eílrago da fua gente y 
, porqueosPortuguezes^ ainda mal armados , pelejarão co- 
mo hims Leões. 

Rotaeffe pequenino exercito , que confiava fomente 
de quatro mil hqmens, tendo o do Duque dezoito mil, fe 
reúrou o Infante Dom António ao Porto > & dahi por ma^ 
toseícondi-ios* aonde deveo mais às feras, que aos ho- 
niens , fe paííbu a França , aonde o deixaremos , & aos mate 
fucceíTos, que depois fe feg uiraõ ema fua pertençaõ^ & ire- 
mos a dar noticia do Santuário da Senhora do Livramento, 
&• dos princípios >& origem de fua Santiffi.na Imagem; por- 
que em todos efícs males > que entaõ padeceo Lisboa , teve 
À¥en cura de ter huma taõ grande Protectora para a livrar 
de outros mo menores. 

Naqudle conflicio , ernqueo Duque de Aíva entrou 
«a Cidade de Lisboa , osqueeícapàraõd? facrificar as vi- 
íflS-^&dcdcrramar o íàngiie em def enfada Pátria ,• ficàraS 

enuse:-: 



Lhro II. Titulo XXXVI. |? 7 

entregues no verdugo da tyr-.irinia, &da crueldade Caík- 
lhana , que como loba affanhada y fó tratava de os ejeípeda- 
çar, com ciúmes dequenaõaffedandòfeusintereíTes-, fe~ 
guiaõ a parcialidade contraria. Paracik eífeito trazisõ ho- 
mens pelas ruas r aquém dav.iõ o nome de zeladores; os 
quaescom fingimentos finarveos ,efcutavaõ o que nas ruas, 
& nas cafas íe fallava , & ouvindo (ou naõ ouvindo) alguma 
couía, que contra o novo Príncipe Caflelhanqfe dizia, os 
prendiaõ , & levados ao Caíklío , executa vr õ W lies os fctis 
rigores ; conforme a fua qualidade-, ou fegundo a vontaic 
dos aceu ("adores : mas quem vio já mais q com o ódio fe coiv 
fervaííem os rei peitos? ■ 

Naufragou nefíecommum perigo; mas n?o com cul- 
pa , nem com igual forte com os mais (que também a nafi 
tinhão : & fó por ferem Portuguezes lhas formava a defaf - 
feição Cafttlhana ) Rodrigo Homem de Azevedo , sçacan- 
doíeihe q.mandava azemolas com mantimentos ao amyal 
do Príncipe Dom António, &que favorecia em tudo íuas 
partes , cemoquem reeufava as do Cafielhano. Fcy muito 
fentida a fua prizaõ , affim de fetis parentes, como dos mais,. 
& principalmente de fua mulher,fenhora virtuofa, & devo- 
ti/Ema denoííà Senhora , que vendo o grande ri fco da íua 
vida , o julgava igual ha morte aos mais que no Caflello en- 
travaõ. 

Efla Senhor? com o fentimento que íe pede coníide- 
rar,não íe efquecia de clamar aoCeo com contínuos rogos^ 
pedindo àquella Senhora, que tudo pôde com Deos > lhc va- 
kífe. Sonhou efta devota Matrona nove noites continua- 
das com noffa Senhora ,.&que avia veftida de branco, &$ 
lhe dizia iCalate,naê te agafteS) qmeuque tvjo polJ'o y tQli-* 
"VYarei. Se puderes em algum tempo /chficarmehas huma Ca<* 
fa. Acordando rtaõvia nada, mas íàtisfcita de raõ àfegre 
iònho-, guardava em feu coração eítas memoráveis pala- 
vras. Em o dia uí timo da-novena* mandou o Cardeal Al- 
berto 



3?8 Santuário Mariano 

berto,Vifo-Rey de Portugal, a hum feu Ca pitão, para que 
diffcffc a Rodrigo Homem de Azevedo, fefoffehvre para 
fua cafa ; & recebida a ordem , fe foy com ella ao Caf- 
tello , & chamando a Rodrigo Homem ( indo adefpedir- 
fedehumfdalgo,quecom elle eftava prefo,lhediífe: Ami- 
go, bemfabeisaoquevou, encomendaymeaDeos)fahioà 
fala aonde o Capitão oefperava, & faudando-o lhe diíTe: 
Manda eiSenor Cardenai, quefeba ufte likepdrafu cafa* 
Duvzdofo Rodrigo Homem defla ordem , pois via era o pri- 
meiro que da prizaõ efeapava foi to, lhe replicou: Senhor 
Capitão, para que os zeladores defla Cidade fenaõalvoro- 
' cem ,& cuidem que vou f ugido,& me tornem a prender, pe- 
ço av. m me acompanhe^ o que elle fez, aceitando tam- 
bém huma prenda de preço que lhe deu. Foyfe Rodrigo Ho- 
mem para lua cafa , & cuidando todos que hiai para o facrifi- 
cio, & ignorando a fua foltura , publicavaõafuamortc* 
Correo logo a fama de que hia a degolar Rodrigo Homem, 
& chegando efta trifte nova a fua mulher , lhe deu hum ac« 
cidente , do qual efleve muitas horas fem falia. 

Chegou Rodrigo Homem a fua cafa , que morava jun- 
to à Trindade, com grande alegria de todos , os que oco* 
nheciao- & voi tando fua mulher do accidente, & e Aando já 
aliviada delle , começou a referir o que havia fuecedido na 
continuaçãodo fonho de nove dias, & que na noite antece- 
dente vira a noflà Senhora na mcfma forma veflidade bran- 
co , &com Qcabcllo folto , & lhediíTera asmefmas palavras 
já referidas. Ficáraõ todos, aflim os parentes , como os ami- 
gos,ndmirados de taô prodigiofo milagre-OCõcje de Linha- 
res,grande amigo de Rodrigo Hornem,naõ crendo a fua fol- 
tura , fe foy a fua cafa , para faber a verdade ; & a elle fe lhe 
referio também a maravilha da Senhora. 

Derão todos muitas graças a Deots , & a Maria Santif* 
{ima, cujos poderes nuncafaõ abreviados. Mandoufe lo- 
go fazer a Imagem da Senhora , do tamanho > & forma que 

fe 



Livro 11 Tituh XXXVI. ^9 

fe lhe havia mamfeflndo cm íònhos, E feita a Santa Imagem, 
(que fie a que hoje fe venera na fua Igreja i fern embargo de 
eíter em outra fc.rma ; porque nos princípios foy de vefíi- 
áos, & firvjç fe vè de efeuítura, como adiante diremosr) 
he conhecida hoje naõ fóerntodooRcyno^rms fora deliç 
pe las fuás muitas , & continuas maravilhas. He taô vene- 
rável a fua foberana prefença , que moflrando erp feu vene- 
rável roflo o império do feu poder , faz a todos que de todo 
o coração a amem. Coilumava dizer hum Reíigioíò Capu- 
cho de grande virtude, quetodasas vezes que pa flava pe- 
la fua Ermida , & fazia oraçáõ , era tanto o rcfpiito , que a 
prefença da Senhora infundia em feu peito, que logo pu- 
nha os olhos no chaõ , & fe levantava todo remeroíb. 

Depois de obrado aquelle íoberano íimulacro de Má- 
fia Santitfíma , ouve vários votos fobre o titulo que fe lhe 
havia de dar. Hum ReEgiofo Obfervante de Saõ Francifco* 
Irmaôdaquella devota Senhora, accômodandofe á fua Reli- 
giofa inclinação ,dizia fc lhe deíTeo da Conceição ; mâs eí- 
la , que das palavras <pc em fonhos ouvira, fe naõ efquecia^ 
por fero único emprego da foa memoria, lhe refpondcotff- 
fe não ; porque a Senhora diziame r Calar e ^naote agaftes y q 
eu q : tudo poffo to //Vr^r^/.Ponhamoslhc o titulo- do Livra- 
mento. Appíaudiraõtodosa boa interpretação, &eílefojf 
oquefeimpoz à Senhora. Mandarão logo fazer hum ora- 
tório em fua cafe, & neile collocáraõ a Senhora, até fe 
lhe edificar a Ermida. Paifados alguns fete annos, entrà- 
*aõ,os Ittgkzesem Lisboa cm companhia do Infante Dom 
Amónio , mandados pela Rainha Ifabel i nefla occaííaâ 
§uvc grandit perturbação na Cidade , & nso fc dando feus 
moradores por feguros ^ fe retirarão às quirttas* A 9 fua de 
Monfaliiufe retirou Rodrigo Homem, levando comíigo a 
Scnftora do Livramento ^comojoya domayor preço que 
poííuhia em lua cafatpaífáíraõfe alguns tempos ateque mor- 
íco a^ucllatjç vota Matrona, & na morte pedioafeumari* 

d© 



3 8o Santuário Mariano 

do encarecidamente , fe n?ô dq-ieceífe dipromcfla que ha- 
via feito , tam devida a noíía Senhora • & elle a fegurou com 
nova ratificação. 

Caíbu fegunda vez Rodrigo Homem com Dona Ma~ 
ria de Alcáçova ./& achandofe entaõ com rmi^ cabedaes pa- 
ra emprender a obra da Cafa da Senhora , deu conta a fua 
mulher d?„divida cm que eflava , & ejia o animou , a que lo* 
go fe puzeííe em effeito. Difcorrendo por diverfas partes a 
buícaríltio; entre ellesíó lhe agradou o que ficava viímho 
aponte de Alcântara. Era efte huma aípera íerra> oupe- 
nhafco , mas naquelie tempo fitio alegre r & agradável com 
a fermofa viíla do Rio Tejo. Tinha o direito Senhorio 
defta terra , ou monte hum Francifco Pedrozo, morador 
no caminho de Bem- fica : o qual quando o vendeo diíTe^quc 
muitos 'fidalgos feempçnhàraõ para lho comprar , & que 
fempre fe efeufára de o vender , mas que a Rodrigo Homem 
o vendia de boa vontade. Já noífa Senhora parece o tinha 
deílinado para Cafa fua. Deufe principio àobra , & fezfe 
com tanta brevidade, que as paredes verdes naõ puderaõ 
fufkntar a meya laranja da abobada; &como era obra de 
empreitada , não foy muito que tudo vieífe ao chão Deufe. 
a nova a Rodrigo Homem; mas elk reprefentandofelhe que 
âquiiio fora traça do demónio , para esfriar a fua devoção, 
diffí que ainda que cahiffe muitas vezes, naõ deixaria de 
proíeguir em levantar a Cafa à Senhora- Refolveofe a man- 
dar logo fazeçhumascafasemque pudeíTeaffiíKr , para af- 
fim dar mais calor à obra , &ver o como ella fe fazia; & 
quiz fe fizcífe de jornal , & neíla fórma fe profeguio , ôc a- 
caboa com toda a perfeição : que era muito perfeita Ermida* 
& de galante áwhite<flura ; mas depois fe defmanchou, & fe 
fez outra mayor , que he a que hoje exille. 

Acabada á Cafa da Senhora , fpdifpoz tudo para a mu- 
dança dafaaSag-ada jmagem. De fecreto fe mandou pôr 
na Parochia de Saõ^auio * de donde fahio com o mageílofo 

appa- 



Lhro II Titulo TíWh 381 

«pparatò de huma folerone prociffaõ, para que deu licença o 
^ rcebifpo Dom Miguel de Caftro, cm que hiaõ muitas fi- 
guras veíUdas, & adornadas ricamente , & íoraõ notá- 
veis as feflasdé danças , que felhefizeraõ, & muitos inf- 
trumentos de charamelas , clarins , & outros íemelhantes; 
&eflavaoas ruas ricamentearmadas. 

Aqui no caminho obrou a Senhora hum grande mila- 
gre, que fe refere nefta maneira. Huma mulher devota da 
Senhora, moradora no bayrro daPampulha, tinha toma- 
do por lua devoção vefiir huma figura. Eflava huma fua fi- 
lha veftindoa com toda a preíTa , por fe lhe dizer que já fahia 
a prociífaõ; com efkcuidado fe defeuidou de outra filha 
iriuito menina, que indo à rua a tempo que deu hum pè de 
vento muito rijo, foy com tanta força, que deu com hua 
colcha, que tinha na janella, em baixo, levando comfigo h ua 
pedra queafuftentáva;áqualdando na cabeça à menina, a 
protírou em terra quafi morta , & com a cor mudada , efcu- 
1 mando péla boca ;& por eíle fina! a julgavão já fem vida. A 
iróycomeíh pena appellidava o remédio de Maria Santiffi- 
ma do Livramento , como quem era poderofa de livrar a fua 
ilha da morte 3 & reflituirlhe a vida : & naõ foy difficultofo 
oalcançala; porque corria já muito por fua conta o livrar 
dos perigos a todos feus devotos. Levàraõ logo a menina à 
Cafa da Senhora, & nella recebeo logo a vida, & faude mui- 
to perfeita , ficando mais bella do que era. Ficoulhe hum fi- 
nal de três quinas, que a pedra lhe imprimira na cabeça, pa- 
ra perpetua memoria daquelle grande benefício. 

Collocada a Senhora do Livramenro na fua Cafa com 
todoeíkapplaufo, &' alegria , começou logo como apa- 
gar a fervorofa devoção dos que a veneravâo , & ferviaõ ?a 
obrar mniros,& grandes milagícs;porqi?e cem tedosos qa 
ella recorriaõ repartia muitos favores , & benef cios. Deu 
vifía aos cegos , ouvir aos furdos , aos mudos falia , fauete 
aos enfermos, & aleijados, livrou aos affombrados dos 

malig- 



$8z ^ Santuário Mariam 

malignos efpiritos , & aos que fe viao naufraga , ínvocarçi 
do os poderes defte grande Senhora , levou feguros ao por- 
to ,& efficaz remédio aos afflidos , & atribulados; finais 
meQteemtudooquenefte valle de lagrimas fe padece, & 
çoQum perigar a nofo fragilidade , he efta Senhora com 
os feus grandes poderes , a que nos livra , ampara , & do- 
fende. Muitos milagres refere Luís Homem de Soufa Fer- 
raz, no livro queefcreveo dos princípios da Senhora do 
Livramento , aind* que o nãoimprimio; que o deixo de re- 
ferir, por me contaitaí* com o que fuccedeo a Rodrigo Ho- 
mem^ quem a Senhon livrou prodigiofameníe da íw prt- 
fíõ;&o da menina a quem deu milagrofa íuude no dia da 
fuacoUocáçaõ. 

Por muitos tempos continuou o Padroeiro Rodrigo 
-Wèmem de Azevedo , & feus fuçeeíTores çm o ierviço da 
5enfeora dó Livramemo ,&emi> culta da íiia SaiitirfGii^a 
-Imoge^ Ultimamente huma fuaneta,que mç tinha herd^- 
ros, áfíentou comíigo entregar âquella Cafa da* Senhora & 
■hme. das muitas Religiões que havia em Lisboa: porenten: 
ftlft&W com -cada ape#- 

ifm&fhfttvetjmçhj &. chilro que lhe he dç vido. Pa^ifipfejg 
Vzr\Á$çç<kite$dt pzpçl ,& cmeada hurçia. delias ^fffigfew- 
veudoostitulòsdas Religiões, que havia namefma Cida- 
de j,& lançandoas emhum vafo^ mandou por hun? ini}Ocei>- 
4m\fà$titó&&Y* cçdqh daquella Religião, que 4 Serçhpfca 
*tkgk- Ppr:tr^,svcí5esfiicaeírivasfahioada S^ff^^StUf- 
dâae';&2/Çinaeí]afagrada Religião fcfezdoaçãa da Lrri- 
r4a , çafas, & íitio^ com outras propriedades, com certa 
obrigação a que os Padres Trinos fe obrigarão. Enmtrap 
cite™ poííçda Qiía ^ Senhor;} dp Livramento, iipannp 

4p 1688, m%ké% Q hm Y^y rar f a - : rio 

Tnxxc p$ R^ig.:,oíçis fa% forró mp^oç. paja *cpqll* 
.noya Vigayraria ? fr;y,h:i.acJiafnr.do Fr. Hieronyjno 4e>J*- 
-fos, xj Ue Pj^iiál^^ 

dei- 



Livre II. Titulo XXXVI. 383 

âáxatido o mundo , íc rz colhco a© íeguro porto da Reli- 
gião: & corno tiveífe alguns cabedaes , os gaíicu rodos cm 
ôbfequio da Rainha dos Anjos ^edificando! he outra nova, 
êcmayor Igreja , demuy boa traça, & architc&ura, que 
também adornou de ricas pinturas , guarnecidas de muito 
boa talha ,& com humamageitofa tribuna damefma talha; 
& tudo eftá com muito accyo,perfeiçaõ,& granceza.Man- 
-darão fazer hua Imagem , em que íe accõmodaue eínhu cor* 
po de eícultura , a cabeça , & as mãos da Senhora dq Livra- 
mento , & nos braços íe lhe aceõmodaíTe o Menino Jeíús, 
ajtfe antes tinha , & ficou fem que íe lhe tocaíTe , nem no ro- 
í\oàk Senhoras Eíiácoliodadaem hum levantado trono no 
meyo da tribuna. Na fua Cafa fe vem muy tos finaes, & me- 
morias das fuás maravilhas, & ao prefente ainda íaõ mui- 
tas as que obra» Ve-fe hoje efla Cafa da Senhora muito en- 
terrada com as novas fortificações que fe fizera : masa pie- 
dade de S. Mageíladc difporá que fe lhe.dé novo íitio em.Q 
inefmo diílrito. Da Senhora do Livramento efáeveo hum 
tratado de fua origem , & princípios , Luis Homem de Sou- 
fa Ferraz, neto de Rodrigo Homem de Azevedo, & nellc 
com elegância defereve todas t as circunflanciás daprifao 
de íeu avo , do milagre da Senhom obrado nelle , & de ou- 
tros muitos, ainda que fe não aut hentícàrão. Eile livro não 
chegou a íe imprimir , & fe conferva manuferito nas mãos 
àc feus parentes. 






^ v 



; . ■ 

<£ ; TITULO XXXVIL 

T>am\\agrofa Imagem de notfaSenhora Mb Rofario , que fa 

Venera no Contento da* Religiofaé cio Calcário, emofi- 

tio de Alcântara, extra muros dátidade r de Lisboa. 

f) Eíosnnnosde lóoc.fe deu principio à fudaçaõdomui- 
X to Reiigtofo Convento das Rdigioías Caivarías , fun- 
dado 



384 Santuário Mariano 

daJoem os limites de Alcântara , extra muros da Cidade, 
&Corteae Lisboa, p^ra aparte Occidental , defronte do 
Palácio , & Cifa de c*íri:>o , qtiealli tem S. Mageflade El- 
Rey noflb Senhor. Lo§p nos princípios da fua fundação 
merecerão eitis Religiofas ter em fua companhia huma 
muito milagroía Imagem da Mãy de Deos, com o titulo do 
Rofario, com quem tomáraõtaõ grande devoção, que elía 
he todo ® feu alivio \ & confolação ; & as mefmas Religio- 
fas confeífaõ , que cila era a fua guarda , & a fua meflra ; fa- 
vor que reconhecem ao Ceo, para que na contemplação de 
feus myfterios em vida , logrem em a morte os frutos , que 
dellesícgazaõ. Foy eí>a Santa Imagem de huma Religiofa 
de outro Convento;(que naõ fabem as Religiofas prefentes 
qual foífe) chamava fe SorCuílodia dos Anjos ,[era detâo 
exemplar vida, como fe reconheceo na morte. Recebeo def- 
ta Senhora m íitos favores em fua vida , & entre os que pear 
tradição fe referem, foy o fallarlhc por aquella fua Imagem: 
& na hora da morte fe diz , que aílifhndolhe a Communida- 
de depois de ter recebido o Sacramento da Unção, virão as 
Religiofas que a ferva de Deos implorava o auxilio da fo- 
fcerana Senhora , para poder vencer as tentações , com que 
ò demónio naquella hora faz a mais dura guerra : &no mek 
motempo advertirão, que inclinando a Senhora acabeça, 
& o roflo, dava moíiras de que lhe afíegurava o feu patrocí- 
nio; ficando o roíto da Senhora tão refplaadecente , que a 
rodas as Religiofas , que efla maravilha virão* caufou efpan- 
to. Aífim favorecida com o. amparo, & protecção defla Se- 
nhora, caminhou a alma daquella ferva de Dços para o Ceo, 
aonde teria o premiode luas grandes virtudes- 

No tempo em que efta ferva de Deos morreo , fe acha* 
va em o mefmo Moiteiro de (conhecida, para as que hoje vi- 
vem no Calvário ,huma fobrinha fua noviça , que íè cha- 
nWa Sor Maria Clemência -da Conceição V a Ç^al P or notfe* 
cias que teve da íànta vida. , com que começavão as Religio- 

áts 



Livro 11 Titulo XXmi. jfry 

fas do Calvário, ferefolveofahir paraelle; fazendo-ocoiii 
effeito ;8ç trouxe comfígo cila Sa ata Imagem, quelha ha- 
via dado fui tia , quand i vivia, encomendando-lhe com ef- 
pecial advertência a grande veneração com que a devia tra- 
tar , pelos Angulares favores , que delia havia recebido ; 6c 
por entender que parecia fer aquella Santa Imagem mais 
obrada pelas mãos dos Anjos , do que pelas mãos dos ho- 
mens. Entrou sita noviça no Calvário , & levou comíigo a 
milagrofa Imagem, & a teve na fua cella alguns tempos , & 
depois , por não ter Capella, cru lugar próprio em que a pu- 
zeífe , lhe andava levantando Altares em varias partes, fer- 
vindo-a femprecomhumafervorofk devoção, «Scdefèjin- 
doque todas fizeíTem o mefmo , para gozarem de feus favo- 
res, & mifcricordias- Humas vezes lhe levantava Aliares 
pelos dormitórios públicos , nos lugares que achava mais 
decentes,para que as Religiofas mais fe afervoraífem em íua 
devòçaõ: ultimamente apoz no coro, & neflas mudanças 
fe paflaraõ alguns annos. 

Foy Deos fervido levar para íi a Madre Sor Maria Cle- 
mência , & na fua gloria receberia do mefmo Senhor os pré- 
mios da affe&uofa devoção , com que havia fervido a fua 
Santiflima Mãy \ a que não faltaria a mefma Senhora em a a- 
companharna jornada. Por fua morte ficou a Senhora a ou- 
tra Religiofa eh amada Sor ]oanna Bautifta , a qual a fervio 
muitos tempos,& com igual devoçaõ,& fervor que o fazia a 
Madre Sor Maria Cíemencia.Fez-lheh uma Capeíla,emque 
a collocou,& em que sfteve muitos annos,aíTí ftida,bufcada, 
& fervida de toda aquella Communidade : porque todas as 
Religiofas delia achavão em fua prefença alivio , & confo- 
Iação.Comefie cuidado, &defvelofoy affiítida, 5c vene- 
rada aquella Santa Imagem, aílim pela Madre Sor Joanna 
Bapttíla , como por todas as mais. Depois delia fe esfriou a 
devoção de forte > que já não era bufcada , nem aííiiMda 
com aqueik cuidado antigo , permitindo-o affim Deos, ( & 
Tom. í. Bb naõ 



3 Ró Santuário Aí ariano 

naõ faltaria também o demónio, que he inimigo de toda a 
devoção , & das melhoras das almas , em fazer da fua parte 
que o ferviço da Senhora fe csfriaíTe ) para que deíie deicui- 
dorenaíceffe hum mayor cuidado: porque foube a Rainha 
dos Anjos tirar para fí mayor culto , & para todas aquellas 
Religiofas mayor proveito , & intcre^Tc cfpintua!. 

Succedeo pois (como teflemunha toda aquella Com- 
munidadc,) pelos annos de 1 673 . em huma Sefla feira à noi- 
te ir huma Religiofa , que era a que tinha particular cuida- 
do da Santa Imagem , a tom^rlhe a benção como coftumava, 
& depois de cumprir com efla fua devoção , fechou as gra- 
des daCapella, que he no coro alto, Scfefoy recolher pa- 
ra a fua cella, levado as chaves comfigo.Na manhaã feguin- 
teque eraSabbado, veyo outra Religiofa, também muito 
devota da mefma Senhora , que tinha por coflume ir todos 
os dias j aífim como fe levantava , a encomendar a ella.Nef- 
te fanto exercício eftava efla Religiofa , quando levantan- 
do os olhos à Senhora y a vio ellar , não como coftumava 
direita no feu nicho 5 mas vio , que a Santa Imagem tinha 
voltado o rofl o para o Altar mòr,ficandolhe o braço efquer- 
do para o coro , & o direito para dentro do nicho; final- 
mente com as cofias para o Convento. Ficou a Religiofa 
fufpenfa no que via , & aífuftada de ver a Santa Imagem na<- 
quella forma: foy a toda a preífa ainformarfe da que havia 
fechado as grades da Capeila,fe por ventura tinha bulido na 
Senhora, porquanto a achara voltada para a Igreja. Refpon- 
deolhe que de nenhuma maneira havia tocado na Senhora,, 
& q eftava certa ficara direita. Inquieta com efta nova , veyo 
a toda a preíTa,& achou fer verdade o que fe lhe referia: cor- 
re*) a noticia pelo Convento , acudio a Communidade toda, 
& achando a Santa Imagem naquella forma, fe lançarão por 
terra, proteftando todas rendimentos de filhas ,&humilia- 
ções c:e fervas, & eferavas da Soberana Rainha dos Ceos. 
JDcu-fe conta aoÇonfeífardaCafa, & ap venerável 

Padre 



Livro II. Titulo XXXVII. $ 7 

Padre Fr. Domingos da Cruz, Commiífario dos Terceiros, 
que naquellaoccafiaõfe achava naquelle Convento, coma 
occafião de confeífar algumas Religiofas fuás filhas efpiri- 
tuaes,Entràrão dentro depois da Mifla de Prima , & foraõ à 
Capellaemqueeftava a Santa Imagem ,& a acharão na for- 
ma que as Religiofas havião referido. AVifta deile fuecefíb, 
cantarão entaõ huma Ladainha anoffa Senhora em compa- 
nhia das Religiofas-, no meyo da qual repararão os circuns- 
tantes, que a Senhora voltava oroflo fobre o hombro ef- 
querdo > como dando moflras de que aceitava os louvores, 
que lhe davão , &: as deprecações quelhe fazião. 

Eíla mefma Ladainha fe lhe canta todos os dias em 
Communidade ,. depois da Completa , em memoria deíla 
maravilha. Acabada a Ladainha, fe levantou o venerável 
Padre CommiíTariQ, pegou na Senhora com grande venei a- 
çao , & reverencia , & a deu a beijaras ReLigiof as todas , 6c 
depoisacollocouemofeu lugar, direita como coílum^va 
çftar;& admirado da belíeza do rofío daquella Santa Ima- 
gem, que parecefoumSoi, que eílá dei pedindo de íi rayos 
deluz, recomendou às Religiofas a grande devoção, fer- 
vor, & reverencia comque adevião fervir, & tratar, di- 
zendolhe , que aílim nas feições , como na encarnação , não 
lhe parecia ofcra das mãos dos homens; mas huma fabrica 
das mãos dos Anjos. 

Eíla fey a maravilha, com que eíta Santa Imagem ac-» 
cendeo em es corações das Religiofas o fogo da devoção, 
ou renovou, a com que antigamente fora fervida daquella 
Commumdíute ; mas hoje com n)uito mayor affe&o > que an- 
tes ; porque hoje à competência a deíejfo fervir com rnayor 
defveÍQ^ Entre todas^quemaisie efmerou em fervir anoí- 
fa Senhora do Rofario, foy a> Madre Sor Thereía Maria de 
Jeíbs, que. havia fido Abbadeça daaueUaC.afa ,& a Senhora 
lho foube muito bem pagar. Acbavaíe;çi ; ía<ReUgiofa qtiafi 
toMdt de hu3 ( garte 7 &,dahum açhaqus,.cuiique não achou 

Bb z reme- 



3 $8 Santuário Mariano 

remédio algum, porque nenhum medicamento humano ou- 
ve , que lhe aproveitaffe. Com efte defengano , tratou de 
buícar os remédios do Ceo, recorrendo a noíía Senhora: 
chamou a huma Religiofa fua diícipula , & lhe pediocom 
grande anciã foíTe à Capella da Senhora ,& lhe trouxcffc 
hum pequeno de azeite da fua alampada. Foy a Religiofa 
bufcalo ,& apenas o applicou â perna , & braço, quando lo- 
go alcançou milagrofa faude. 

Outra Religiofa muito mora^chamada Sor Maria da Fé, 
adoece© gravifíimamente de huma enfermidade tal, que foy 
mtyo para com cila ir gozar da melhor vida. Vendofe efla 
Religiofa tão perto da morte , pcdío às Religiofascom mui- 
ta inflancia , & lagrimas , lhe quizcífem levar à fua prcfença 
a Imagem da Senhora do Rofario,para de mais perto lhe pe- 
dir valor para refiflir aos confliétos,& combates daquella 
apertada hora. Deu-fe parte à Prelada em como aquella Re- 
ligiofa fu fpirava por ver a nofla Senhora , & que defejava a- 
cabar a vida na fua prefença : concedeo a Prelada a licença, 
& emprociífaõ lha levarão àcella. Tanto que a enferma a 
vio,fe lhe conheceo a grande alegria efpiritual com que a 
recebeo em feus braços;abraçou-a muitas vezes, dandoíhc 
muito^ , & reverentes ofeulos ;&a iftofe feguiraõ muitos 
eolloquiosdevotiílimos > quetevccomellatefpedlaculoquc 
caufou grande admiração em todas as Religiofas que a vião, 
&ouvião: três horas gaftouneiles, & com elles efpirou» 
Foy de todas fentidiífima a fua morte : porque de todas era 
muito amada -> & foy igualmente envejada pelos finaes, que 
k virão de fua predefíinação: &não foy deites o menor, 5 
que mandando a Efcrivaã do Convento bufear a cera , affim» 
paraaeça, como para as Religiofas todas , &gaflandofe 
muito tempo nas exéquias, &officlo da fepultura, depois 
pefandofe , fe achou que crefeéra mais do peio, attribuin- 
cfofe tudo ao favor da Senhora. 
Com eílcs, ôc outros prodígios , que a Senhora obrava, 

cref* 



Livro II Tttnh XXXVII. 389 

crefceo dc forte a devoção > & fe accendeo tàntò ô fogo de 
amor para com efla Santa Imagem, que todas fedefejàvao 
íingularizarem íeuferviço. Entre todas, ouve humà , cha- 
mada Sor Maria Mauricia , que com mais cuidado fe empre- 
gou no feu ferviço: eíta Religiofa, vendo que a Senhora ef- 
-tava em huma Capella , que fuppofío eílava aceada , era hu- 
milde , & pobre , & não era qual a Senhofa merecia : fe re- 
folveo a reformata, & fazerlhe hum retabolo,em que pudef- 
íèeftar com mais decência. Teve tila obra tos princípios, 
algumas contradições, (como fuccede nas coufas boas) mas 
a mefma Senhora permitio, que todas fe vencefTem, & a 
obra foífe adiante. Fez-lhe huma tribuna de talha , & da 
mefma fe ornarão as paredes, &teék>: obratao relevante 
na arte , que excede a tcdo o primor delia. Tem a Capella de 
comprido vara & meya,& de largura huma vara: porem nef- 
ta pequenhez , não fó arrebata a attençaõ a quem a vè ; mas 
ainda como ambiciofos de ver tal perfeição, todo o tempo 
parece pouco , para confíderar o aceyo , artificio , & coa* 
certo deila. 

Tem da parte do Euangelho em cinco laminas , meti* 
dos por galhardo eítylo em a meíina talha os myferioâ 
Gozofos. Da mefma parte tem huma janeila proporciona- 
da à pequenhez da Capella: & na parte que faz rofto à entra- 
da da mefma Capellà , tem hum quadro , no qual fe vè huma 
mo.toda guarnecida derofas, caminhando com bonança^ 
&profpero vento ,& no mais alto domaflro grande huma 
bandeira de Capitania* & neíla pintado o Rofario da Senho- 
ra; & t\d mefma forma leva na popa hum retrato dâ Imagem* 
& ao pé delia eíla inferipção: 

ÊJianâopdoRofario ' Lt^ahandwa degnerra; 
TSLos 01 fina do que tratai ' Torque dâ muita* bat$htà % 
He dos fegre dos de 'JDeoSj Tirando almas de culpat , 
E deite Vay carregada. (PoridoM em hiímar dè : £h$í 
No tcdo deita janeiía que cobre a parede, delia } cem vinco 
Toau I. Bb 5 pa£» 



Ipo Santuário Moviam 

paynel^noqualfedivifaõdous Anjos pintados, corn pal- 
mas em as mãos, fufientando huma efcada com eíla infcrip- 
çãoemílma: 

S C A L A C*.A L I. 
Da parte efquerda , nomeyo dameíma obra de talha, em 
correfpondencia dos myfterios Gozofos ? efláodutrasxrin- 
co laminas com*os myfterios Dolorolbs : & damcfma par- 
te eftá outra íanclla em correfpondencia da referida y &na 
parede que faz rofto à entrada da Captlla , fe vè outro qua- 
dro , emque eítá pintado hum mar inquieto > & todo medo- 
nho , & do Ceocahindorayos: &no meyo defte alterado 
mar , Imma nào deftroçada , & nas prayas do me fmo mar fe 
vé hum corpo morto , & ao pè delle efta infcripçaô: 
Ettanáo que dewa cofia, Efie cadáver que ves^ 
(Por culpa* t ao derrotada, (AJfim deixa a culpa bua alma) 
Só por Maria Santijjima, Sendo YiVa para as penas, 
Var ã jornada comfalva. Sempre morta para a graça» 
Noaltodajanella referida eftá outro paynel, que cobre a 
parede , & nelle eflão pintados outros dous Anjos com pal- 
mas em as mãos > fobre hum foífegado , & tranquillo mar, & 
noaltohuma eflrella^&em circuito delia efta letra: 

S T E L L A M A R I S. 
No tedlo da mefma Capella fe divifaõ outras cinco laminas^ 
com os myfterios Gloriofos; &toda efta obra he dourada 
com grande perfeição , & aceyo > & com o mefmo eftá orna* 
da de ricosVafos, & ramos* He a Santa Imagem de veftidos* 
& com o Menino Jefus fobre o braço efquerdo m ? tem de alto 
p?.lmo&meyo; eftá febre hum trono de Serafins ;> &tem 
dous Anjos proporcionados ao tamanho da Santa Imagem, 
que lhe eííãof egando nas extremidades do manto com hCa 
mão, & com a cutra eflão offerecendo huns Rofarics : todo 
eile abrcviadaCeo defta Capellinha fe fecha com hua perta 
de vidraças. Todos os primeiros Eomingos do mes lhe faz 
a Communidade depois de Velporas huma prociflaõptia qual 

vaò 



Livro II. Titulo XXXVII. 39* 

%8 caníando a Ladainha da Senhora , & íè acaba como 
hjmno glorio/a Vtrgvmm > com verfo , & Oração do Ro - 
fario ; 8c todos os annos fe feffteja na Dominga infra odava 
da Afcençaô, ícneflè dia eftá o Senhor manifcílo. .Ncfla 
íua feita levão a Senhora à Igreja, & a vay receber das mãos 
das Religiofas o Cortfeflòr , & vay dafli até o Alt^r mor com 
muitas luzes y & acompanhamento ; & com toda aquella ve- 
neração que fe deve , & com a mefma reverencia > & devo - 
çaõ a tornaõ a entregar às Religioiàs, acabada a feita. 

Todos eíkscuidadofos obfcquios paga com grandes 
favores , St mercês a foberana Rainha dos Anjos ; porque 
não ceifa de as fazer afíim áquellas Religiofas 7 como tam- 
bém ás peífoas de fóra , que fe lhe encomendao. Muytos faõ 
os milagres notáveis , que pudéramos referir; mas porque 
não o permite oeflyloque feguimos, os deixo psra quem 
os publique em obra particular das maravilhas daquelía 
Senhora. Ttrmfeíhe erigido huma muito nobre Irmandade, 
em que entrão as maceres peífoas da Corte; & he íem nu- 
mero a quantidade de Rofarios, & medidas, que cadiardia 
íc repartem a peífoas devotas Efla relação nos deu ,& ain- 
efe mais extenfà;, a muito Reverenda Madre Sor Brites das 
Chagas , Abbadèça aâual do mefmo Convento. 



TITULO XXXVIIÍ. 

fàamilagrofa Imagem demffa Senhora de Monte Agudo, 
qtwfe \enera no reformado CviVetno d.n Rtltgiofcts 

VI Am m a** Já Air Ant ir*. 



Flamenga* de Alcântara. 



NODucadode Frabanre. foy,&he muito celebrada a 
ròft&ódbft Imagem de r ;o!fa Senhora de Monte /?gfy* 
.ddj&ccmsfgumacfpiritual ' jadancia íè podem alegraf os 
P #tftl> fflto artv C^ <jte»e 4^g?»^^t fi^ j ^f l^ ^m^ m ^^€^trti- 

Bb 4 dez:^ 



39* Santuário Mariano ^ 

de^es y nos vieífe bufcar , & enriquecer com a firáprefencar 
ao noíTo Portugal.O modo com que eíla Santa Imagem veycy 
a Lisboa, fie na maneira feguinte. No tempo em que íè der- 
ramou em os Eílados de FI andes a diabólica herefiadeLu- 
tero > & de ostros infernaes fe&arios contra a Igreja Ca- 
íholíca ,.& feus fieis filhos y & fe enfureceo ainda mais con- 
tra todoofagradodàs Santas Imagens , Religiões > 4 & Mof- 
tçiros , fe refol verão as Religiofas de muitos a defpejar as 
fuás pátrias; & principalmente as daquelles que eitavaõ 
mais expoílosàinvaft6 > &injurLis dos hereges. Entre ef- 
tas as moradoras de hum que profeífava a primeira Regra de 
Santa Clara, feviraõ mais apertadas a deixar apropria par* 
trin > que era o Ducado de Brabantç, & o Convento nno 
longe da Yillade Siçhen ,para as rcgioens aonde viviaõ os 
Catholiças,& aonde pudeífemfervir a noffo Senhor, livres, 
das tyrannias daquelles miniftrosde Satanás jdas quaesal- 
gumas,que pela idade podiaô correr mayor perigo,. fe ajun- 
tarão com refolução de peregrinar a remotas terras , até 
acharem abrigo na cõmiferaçaõ dos Catholicos ; & por 112a 
encontrarem efta em Zelanda, França, & Bifcaya, aonde 
aportàraõconfiadas na eximia , ôcamorofa piedade, que o 
mundo todo confeíFa , reconhece, & experimenta em a Na- 
ção Portugueza, fazendo fua derrota a Lisboa (como de-* 
pois o fizerão as Ingtezas , & Irlandezas , & de Religiofos 
niuitos Mofleiros, que fe vem na mefma Cidade) aonde en- 
íràrao no anno de 1 5 82. em tçmpo que Phçlippe o Pruden- 
te eflava em Lisboa. 

Chegadas eflas Religiofas à commum pátria dos ef- 
írangeiros , repreíentàraõ ao prudente Rey o feu trabalho* 
a que elle deferio logo benignamente , ordenando a Gon- 
çalo Pires- de Carvalho , Provedor dos Paços , & obras 
Reses , as mandaífe recolher no Convento da Madre de 
pços ,até fe lhe fazçr çafa própria ,como fe fez nos limites 
ste Alcântara. No Convento da Madre dçDeos aflifliraS 

guaíi 



Livro II. Titntõ XXXVIII. 393 

quafi dous mefes emquãto fc lhe fazia commodo. No Con* 
vento da Madre deDeos affifliraõ, &delle as mandou o 
mefmo Rey pa far àscâfas de noíTa Senhora da Gloria, aon- 
de affifHraõ quatro annos > & daqui pafitraõ para Alcântara, 
como diremos adiante. 

Trouxeraõ ef rasReligiofas em fua companhia , & po- 
demos dizer enafuagiardi, duas Imagens da May de Deos, 
formadas do pao do mefmo carvalho , em que hiv^a appr re- 
cido em Sichen , que falváraô do furor dos hereges , depois 
de padecerem no fogo as irreverências, &dcfacatos, com 
queaquelles bárbaros apoftatas as procura vaõ confumir: 
mas o divina poderás confer /ou illefas, para glot fa de Por- 
tugal. E poftoque as primeiras Religiofas do Convento de 
Alcântara naôlbuberaõ dará razaõmais miúda deílas San- 
tas Imagens, & do modo com que vieraõ a feu poder, citan- 
do ellas ainda em Flandes; tem muita probabilidade defer 
hua delias a primeira q floreceo em milagres, no feu primei- 
ro íitio de Monte Agudo ; porque faltando delle no anno de 
1580. (comooaffirmaôas relações que fobre efte particular 
fe fizeraõ por mandado do Arcebifpo de Malines , que de 
Franceztraduzio emHefpanhol o Padre Cefar Clemente, 
& em Portuguezo devoto > & erudito Padre Manoel de 
Coimbra,) & entrando em Lisboa depois de doiisannos; 
bem fe pôde crer^feja a que dêfappareceo do mefmo Monte, 
como moflrando fugia à cara daquelles perdidos homens . 

Humas deftas Sagradas Imngens derão as Madres Fun- 
dadoras a Gonçalo Pires de Carvalho , em gratificação- da 
grande piedade , & amor \ com que h avia cuidado do feit re- 
médio, Sc também do feu alivio ■, como adiante veremos, 
quando tratarmos da Senhora de Monte Agudo do cami- 
nho de Penha de França. A outra Imagem da Senhora y que 
fie a de que a^ora tratamos , fe venera no Convento de nof- 
fa Senhora da Quietação deitas mefmas Reíigiofts; aonde 
todasabufcaõp& fervem com grande devoção. Duas que 

mais 



394 S mí ti ctm Mariano 

mais fe averitajaraõ nella , tomarão por íua conta fafeerlhe 
humaCapeíIa nacerea , aonde a tem collocada com grande 
concerto , 6c fervem com fervor. No dia de luaNarividide 
a levaõà Igreja , para nella fe lhe fazer a feíla ; & da Igreja 
a tornão a rec:ber^& levaô outra vez em proci X~ò à lua Ca- 
pelia.Tem cila Santa Imagem pouco mais de pa ^ mo & meyo 
de eftatura.; he de efeultura 'efiofada, & cttá r -Tj-n t^Ja fobre 
hum monte,com o Menino Jcfus nos braças . £ 1 e dia Sagra- 
da Imagem muito miiagrofa y de muitas parte s fe vay àquel- 
k Convento > a pedir da agua benta comas rdi <y. n'as do pào 
do carvalho emque a Senhora appareceo: que fendo muito 
particular parafezões > he remédio' tombem para outros 
imiito&males) cujos milagres referem asReligiofas, & de 
duas proximamente referem .., que eflando com febre malig- 
na defconíiadas,levando!hes a Imagem da Scnhora^logo vi- 
ílvelmente fe reconheceo nellas a melhora* 



TITULO XXXIX. 

Da Tm agem Jt no{fa Senhora da Quietação > dte Reli- 
giofas-Flamengaé do drflrita de Alcântara. 

MAria Santiffinia he o -defeanço , & o leyto regalado de 
Deos, como diz Guilheimo Parvo: Sjúes > &kcíu- 
€ ç tl f m Ut& Dei 5 em a ília gíoriofa /;fíumpçaõ teve para li o.feu def- 
cançp > &afua.quietnçaõ;m* i s parands deu- nos o foffego, 
8ca-quietaçaõ entre os borrafeofes mares deite mundo , «5c 
entre asmokfbs perturbações defla vida -• por iífo ainvo- 
Mat. ca ^thias Phiiadél pho Biípo de Ephefo : J^gf** tuvt:qmlla 
Pbil. na^i^aritium ui U adi prU.ro. Verdadeiramente efoSenho- 
Orat.aà r&akançou de ílu amado Filho a quie taçac- & o Ccfcav, ço às 
B. r. nffiictas, & dcf. erradas Madres Flamenga^ comas trazer a 



Livro It. Titulo XXXIX. 395 

-go; porque naõ achando eflc em toda' a Europa , fé èrh Lrfc- 
boa oconleguiraõ pelos merecimentos de noíía Senhora. 

O Convento de noSa Senhora da Quietação mandou 
fundar por fuá piedade ElRey Phelippe o I L quando (eftan- 
do em Lisboa) chegárnõ as perfeguidas Religioías Flamen- 
gas ; as quaes ; como fica dito no titulo antecedente , &co- 
mo fe refere no de noffa Senhora da Gloria, fugindo á períè- 
guiçaõ dos hereges^ acharão na piedade Portugueza a con- 
íòlaç2õ ? &odefcanço que defejavão. Depois de-affiflirem 
alguns dias no Convento da Maelíe de Deos , ( aonde foráõ 
tratadas daquellas fantas Relrgiofas com grande amor, & 
regalo) as mandou omefmo Rey Prudente accommodar nas- 
«calas de noffa Senhora da Gloria , em quanto no fitio de Al- 
cântara fe lhes fabricava hum novo Convento, em que mof- 
-trou a ília piedade Gonçalo Pires de Carvalho,fazendo que 
a obra fe acabaffe com perfeição., & diligencia: o que ellas 
lhe fouberaõ merecer, naõ fócom as fuás orações, mas com 
fiuma joya^paraellea mais preciofa do mundo; que foy a 
Imagem de noífa Senhora de Monte Agudo , que hoje fe ve- 
nera no caminho de noífa Senhora de Penha de França , co- 
mo adiante veremos. 

No tempo em que eflas fervas de Deos aífiíHaõ ema 
Cafada Senhora da Gloria, lhes mandou omefmo Rey Phe- 
lippe receber huma noviça também Flamenga, mulher dé 
grandes virtudes,, como já tocamos aííími,& de muito claro 
entendimento: a qual foy quatro vezes Abbadeça deitas 
Religiofas , como fe vé do Epitaphio da fua fepultura , que 
henerta maneira: 

Sepultura da Madre Sor Anna da Ghria^rhneiram- 
Viça, que as Madres Flamengas receberão nejle Reyno 
de Portugal Foy quatro Ve^es Abbadeça, & na ulti- 
ma deu a alma a feuCreador a três de Janeiro de 1633. 
tendo cineventaannos de Religião? <? haVendofempre 
ytVidv muy louvavelmente* 

Os 



39^ Santuário Mariano 

Os parentes defta Religiofa, a petição fua , St das mais lhes 
mandarão fazer huma Imagem de noffa Senhora , que leva- 
rão comíigo para o novo Convento de Alcântara ; & deraõ- 
Ihe o titulo da Qjjetaçao > em memoria da muita, em que já 
fe achavão , & livres dos trabalhos , que em fuás terras ha- 
viaõ padecido. Quizerão que efta Senhora foffe a Padroei- 
ra da fua nova Cafa , & affim fe começou a denominar o 
^Convento de noífa Senhora da Quietação. Coilocáraõ-na 
. no Altar mor, como hoje fe vé, em huma rica tribuna, aon- 
de fe defencerra o Santiflímo Sacramento em fuás mãos; 
com eíte Sagrada Imagem tiveraõfempre aquellas Religioi 
fasmuy to grande devoção. He em tudo perfeiíiíTima , & ha- 
vendo cento & dezafete annos,que foy feita ,efíá a encarna- 
.çaõtaõbella, & taõ fermoíà, como fefcíTe obrada de pou- 
cos dias; he de veílidos ,&eíHcomasiT)ãQspoflaS;&col- 
Iocada em a tribuna ,& cuberta com cortinas para mnyor 
veneração : afuaeílatura he de íeis palmos. 

Defde os feus princípios fempre efta Santa Imagem foy. 
muito milagrofa: & aind,a hoje mofiraa experiência, que 
naõceíía de favorecer, & amparar aos que ainvoesõ em 
feus trabalhos. Na Igreja eflá pintada huma maravilha, qus 
cfta Senhora obrou em favor de hííabóa > & afflicfla mulher; 
a qual, pertendendo feu marido (por tentação do demónio) 
de a matar com hum punhal , invocando em feu favor a Se- 
nhora da Quietação v lhe cahio das mãos o punhal, com 
admiração donxfmo 3g£eíTor. Eík milagre fe pregou na 
mefma Igreja da Senhora* Outros muitos milagres fe refe- 
rem, que deixo de referir, "por fer contra o eliylo queíe-» 
gujmos.Enrfeus princípios fe accendéi aõ na de vcçaõ def- 
ta Senhor? muitas peífo?s , & íheerigiraõhuma Irmandade; 
porém nc.ò durou muitos annos. Depois no de 1686. fe 
renovou outra vez , & perfevera com mayor fervor, & S. 
Magefiadequc Dccs guarde, he o Juiz perpetuo daíua Ir- 
mandíde. Feílejaõ a cite Senhora cm quinze de Agoflo, 

que 



Livro II. Titulo XL. 35^ 

que he o próprio dia dcíle myfteriofo titulo. 



TITULO XL. 

Da milagrofa. Imagem de nojfa Senhora da^a^y que 
fe Venera no me/mo Contento* 



N 



A Cafa do lavor do referido Convento da Senhora da 
Quietação , he venerada outra devota Imagem da 
Rainha d os Anjos, com o titulo da Paz. Eftácollocada em 
hum Altar com muita decência, & com huma alampada que 
arde de dia,, & de noite. A origem , & princípios uefía San- 
ta Imagem referem aífim aquellas Religiofas. 
; Hua Abbadeça daquella Cafa , chamada Maria do Efpi- 
rito Santo/intentou porem lugar da antiga Imagem da Se- 
nhora da Quietação , outra de talha , mayor , & muito per- 
feitamente obrada ,& em fórma , que fe reconhecefíe nelia 
melhoro titulo que tinha. Mandou paraifío fazer hua Ima- 
gem fentada em hum trono muito rico,& como Menino Je* 
fusnos braços : & a fua eflatura , ainda aíTentada fazdcalto 
vara & quarta. Feita a Santa Imagem , intentou a Abbadeça 
a l co ? ocafr '°S° no trono da tribuna; mas como era muito 
avultada , neceílitava de outro mais largo , & também de 
mayores^defpezas , em tempo que a cafa eftava para poucas, 
por fe achar empenhada. Alemdiílo, que podia fer venci- 
vel,ouve muito mayor duvida cm vencer os ammos das Re- 
ngioias , que pela antiga devoçaõque tinhaõ com a primei- 
ra Senhora da Quietação ,naofónáo aprovarão o parecer 
da I relada • mas unidas todas em huma vontade , Ihò efior- 
váraõ,com qtieouvededefííHr dofeu intento. E a/Hm fe 
Poza nova Imagem da Senhora cm hum corredor da £acrif-< 
ria de fora \ & debaixo de huma efeada, com pouca reveren- 
cia ^femaígumavcneraçãOt E neík lugar eifeve alguns 

féis 



39& •> Santuário Mariano 

feisannos. No fim deite .tempo, fendo AbbadeçaaMadre 
SorJoannadaCrLiz, ImrnCapelíãoqueaífiília havia mii- 
tosannosnaquella Caía, teve hum myfteriofo íòrtho, que 
não quiz revelar a forma deíle ,,& depois do fonho lhe íuc- 
cedeooutra maravilha, que foy, que deixando à noite por 
de^uido huma vela accefa emhum almario forrado todo de 
madeira, quando foy pelamanhãa, achou avela apagada; 
reconhecendo o favor que fizera àquella Caía a Senhora, 
porque fe pudera abrasar toda. AVilta deites fuçceífos, que 
|á teve por avifos do Ceo , infíou apertadamente com a Ab- 
badeça , para que mandaíTe recolher a Imagem da Senhora; 
porque não eitava ai li bem, nem com a veneração que fe 
lhe devia- Não fe fez logo , mas com outro final , que foy, 
daremlheàsde^ horas da noite (efíando ella ainda levanta- 
da Ihomas pancadas rijamente najanelladacella, fedeu a 
Abbadeçaporavifada, para mandar recolher logo a Santa 
Itnagem. 

Recolhida a Imagem da Senhora , a collocáraõ com 
muita devoção na çafado lavor x em hum Altar grande que 
nçllatinhão. Começarão asReligiafàsattfatala, & fervila 
com grande reverencia ; Sc como o titulo que fe lhe havia de 
dar , fe fe collocára na Igreja , era o da Quietação ; como fe 
naaefFeimou , ficou fem elle. Com eík duvida do nome qus 
fe lhe havia de dar, tratarão as Religiqfas de o tirar por foi?- 
fes , & fahio o nome da Paz ,que quafi era o meftrio, que a 
da Quietação. Çomeftc verdadeiramente pofto pelo Ceo a 
invocaô hojeaquelks Religiofas em qualquer trabalho, ou 
tribulaçaq em que íè achaõ \ & de todas as livra, Deos x pelai 
interceíraãde fua Saatií&na Mãy. He efía Senhora d&gran* 
de fermofura , & tem obradomuitGsrrçilagrcs» 

Deu htfm eflupor â.Madre Maria de Jefus,filha do Du* 
que do Cadaval , de que 6cqu privada da falia. Acudirão à T 
Sachara da ; Paz ? A levara&lhe a -fiia mno., & tanto que lha, 
appliçáiia&â bpca^logp í^lo^&ntfl tocou da^nfewnidade*, 

Outras 



Livro II. Titulo XL. 30£ 

Outras coufas lhe pedio efta Religiofa, & o Senhor lhas 
concedeo por interceffaõ da Senhora da Paz. A outra Reli- 
giofa chamada Sor Thomafia da Trindade , (que ficou por 
Ermiroa da Senhora , depois da morte da Madre Sor Maria 
doEfpirito Santo , que ioyaquea mandou fazer, & teve 
por íuacontao fervilla , depois que a puzeraõ ha cafa do 
lavor) fez também efta Senhora muitos favores , livrandoa 
de muito grandes enfermidades; em huma fevíoiftocom 
mayor admiração daquella Communidade; & foy,que tendo 
efta Religiofa hum prioriz , de que fe defconfiou da fua VI- 
da^pedio nefte tempo com grande fé lhe trouxeífem do azei- 
te da alampada da Senhora, & applicandolho à pontada, Iqç 
go efta ceifou , fe remitio a febre , & fem haver mais repeti- 
ção convaieceo logo. 

Avarias peffoas de fqra em grandes apertos fetem 
mandado a mão da Senhora, & a todos o Senhor deu faude 
pelos merecimentos da Senhora da Paz. A huma menina, 
que efhva muito mal, lhe mandarão a mão da Senhora, Sc 
logo entrou em fí, &começouacantara Magnificai , fem 
nunca a ter aprendido; dizendo que a Senhora da Paz lhe 
havia dado faude , & a havia eníinado a cantar a Magnificai 
àeapucha, como fe cantava nofeu Convento; finalmente 
faõ muitos os fueceífos , que fobre efte argumento referem 
aquelks Religiofas , & contaõ por obfervaçaõ que tem fei- 
to , que quando fe pede àquella Senhora alguma coufa ; que 
conhecem haver de fer bem fuecedida, pela grande fragrân- 
cia que entaõ experimentas fe defunde da Santa Imagem; 
oquefe percebe em todo o Convento. Tudo ifto refçren* 
^quellas Religiofas em Relação que nosderaõ. 



TITU- 



4°s Santuário Mariana 



■ 



TITULO XLI. 

*Da Imagem demfa Senhora d^s Mercês ? que fe Vener* 
na Igreja do mejmo Contento. 

NA Igreja do Convento da Senhora da Quietação fc 
venera outra miracuíofa Imagem da May de Deos 
"com o titulo das Mercês; pela qual o todo poderofo Senhor 
faz muitas maravilhas a todos os que fevaíem do patrocí- 
nio, &interceífaõ defuaSantiflíma Mãy, por meyo deík 
Imagem fua. A fua origem referem aqueilasReligiofasnef- 
ta forma. Havia em Lisboa huma mulher caiada 7 virtuofa, 
& muito devota denoda Senhora. Tinha eíía afeu marido 
na índia , & andava muito affiida , porque lhe faltavaô no- 
ticias fuás: & parece encomendava muitoanoffa Senhora 
cite feu cuidado, pedindo que lhas trouxeíTe. Nefle tempo 
cm que andava com efle cuidado, lhe bateo huma moça à 
porta com huma Imigem deaofla Senhora, perguntando- 
lhe fe a queria comprar. Alegroufe muito a devota mulher 
com efle taõ bom encontro, & pagadafermofura da Santa 
Imagem , ajuítou com ella o preço , & como naõ tíveífe to- 
do o dinheiro em que fe a juftáraõ , lhe dava o que tinha , pc- 
dindolhevoltaffeemtaldia 3 & levaria o mais que reifava. 
h Ao que a moça refpondeo: Deixe v. m. ficar o dinheiro, que 
virei neíTe dia , & olevarei todo. PaíTado o termo , como a 
moça naõ voltafle , fez diligencias a mulher \ 8c naõ achou 
noticia alguma da tal moça , nem quem foffe , nem de don- 
de viera. Daqui fe perfuadio que a moça fem duvida feria 
algum Anjo doCeo, por cujo meyo a Senhora lhe fazia 
aquelle grande favor ,& como a Inpgem doCeo a venera- 
ya,& fervia, fegundo afua poílíbilidade. 

JWados poucos tempos, chegou o marido da índia y & 

affim 



Lmro Tl Titulo XI l 46 i 

àfílm fe afervorou mais a devota mulher no amor de noite 
Senhora j fervindoa todos os annos que teve de vida , & de - 
pois chegando o tempo defua morte > deixou efta Imagem 
às Reljgiofas de noífa Senhora da Quietação « & fe Ih es fez 
entrega delia no anno de 1650. & tanros. Eíiimáraõ as Re - 
ligiofas efla dadiva como merecia \ & muito mais pela rela- 
ção que fe lhes fez de feus princípios \ &comp vinha veílida 
pobremente , porque os cabedaes da mulher naõ abrangiaõ 
a muito , tratarão asRdigiofas de a ornar com toda a per- 
feição > que lhes foy poífive!, principalmente a Prelada, que 
era naquelíe tempo; aquaidifpoz,quefecollocaífena Igre- 
ja y para onde foy levada em prociflaõ com toda aquella reve- 
rencia 7 &apparatô, que pode fer. 

Os milagres , & maravilhas , que Deos tem obrado pe- 
la interceííàõ defla Senhora, naõ tem numero. Querem a- 
quelías Religiofas ,que a vidoria das linhas de Elvas foíTe . 
beneficio doCeo por interceííàõ da mefma milagrpfa Se-. 
nhora:porque havedode ir por General defla facçaõo Mar- 
quez de Marialva Dom António Luis de Mernéleg > húa fua 
prima Religiofa daquelle Convento , ouvindo dizer o pttí- 
go daquelta jornada , & que Hifficultofaniente vogaria o' 
Marquez , fegando as noffas poucas forças \ poucos Solda-, 
dos } & biforíhos y o gr ande poder do inimigo y a muita , &* 
valerofa gente que trazia; fe foy ao coro y & pofta diante da 
Senhora das Mercês, fazendolhe algumas promcíTas y lhe' 
pedio com lagrimas o bom fucceílb daquella batalha , que 
foy taõ à medida do noífo defejo ', que ella , 8c todas as mais 
attribuiraõ a feliz vidoria aos poderes da Senhora das 
Mefce x s. 

Huma Religiofa daquelle Convento 'éfiWá -grsviflí- 
mamente enferma com hum pleuriz , que lhe tomava o co- 
ração^ comi e zoes dobles 5 & fobindothe o pleurizàca- 
beçá , defconfiáraõ os Médicos da íuá vida, mandaridoíhe 
íogadar. ç Viatico; ordehahdo que fe chegafíe a pela' ma- 
• Xcmí. I. Ce nhaa, 



401 Santuário Màrkmó 

nhâa f lhe lançaífe m humas fanguifugaSf , pela mo achztCto 
capaz de fangria. Havia muitos dias que naõ foífega va, nem 
de dia , nem ce noite com as anciãs da pontada, & mais affli- 
ções da enfermidade ; ven dofe neí a forma ,. conforme com 
a vontade depeos, pedioqutlhe deíícmomantoda Senho- 
ra das Mercês , & ap[4ieandi>aà pontada., pedio â Senhora 
lhe alcançaffe de feu amado Filho lande , íe foíTe para ofer-» 
vir com el!a \ &.fe era chegado o termo da fua vida y Iheal- 
çançafle deíle huaboa morte, & a falvnção dafua alma* Com 
iflo fe agafalhou , & pafloij.toda a noite muito aliviada até 
o outro dia ;& depois já do Sol nafeido, chegou a enferma-* 
ra i que inquirindo o como havia paíTado, lhe' rei pondeoquç 
bem ,&que já naó fentia a pontada , & que a Senhora das 
Meree&e£iivera toda a noite com cila, & dons Samos verti- 
dos como os $ poftalos de Chriflo > & que hum delle s tra* 
zia huma Cruz,&ooutrohum bordão como de Romeiro, 
que lhe parecia feriaõ São Phelippe, & Santiago o msycr« 
Veyo o fangrador para fangrar a outras enfermas , & di- 
^endolhea enfermeira ,que àquella Relrgiofa folhe haviãq 
ordenado fenguifugas \ tomandolhe elle o pulfo , diíTe efte-* 
ya muito boa para fe fangrar j & aflim o fez > & foy eíte a ul- 
tima fangria ; porque logo melhorou , & no feguinte dia fc 
levantou boa > &faã > femíinaes da pontada , que havia pa- 
decido* Muitas outras maravilhas referem as Religiofas, 
que como aquella Senhora he toda mercês, naõ ha petição 
que fe lhe faça ,que não faya de fuás mãos bem defpachada* 
Quando trouxera© cila Santa Imagem àquelle Conven- 
to , naõ fc lhe fabia a fua invocação , & para a haverem de 
invocar com aecrto>tirárao fortes as Religiofas com variou 
timíos ,para lhe imporem aqueíle que lhe fahiífe v & tirarão 
o timío de noífa Senhora das Mercês , & com cite a começa- 
ra 6 à invocar dalli por diante- He eíte Santa Imagemdc vef- 
tidos Ms fua cítetura Jk de pouco mais de dons palmos;ef- 
tá com as mãos polias em o Altar collateral da parte do 

Etwtm 



Livro 11 Tituh XLIL \fM 

Ettáligelhtt Algus a nomeão com o titulode Pf nha de Fran- 
ça • porém as Reiigiofas lhe dão aquelle 7 que lhe tirarão pot 
íòrte , & tem como dado por Deos. 

TiT.UL O XLÍÍ. 



Da Imagem de nofa Senhora da Confutação, domefm* '] 
Convento. 

NO taefmo Convento da Senhora da Quietação fe ve- 
nera outra milagtofa Inhagerti da Mãy cie Deoscomo 
titulo da Confolaçaõ ;a qual he venerada em huma Capella, 
que as ReligiofaS lhe edificarão no coro. Heeíla Santa Ima- 
gem toda a confolação dàquelle Convento •> porque recor- 
Tendo atila em todas as fuás pinote, &affítções, fahem de 
fua préfeftça , ou remediadas, ou com huma grande confor- 
midade , & refignação para as íòfrerem com paciencia e He 
de taõ foberana fermofura , que dizem as Reiigiofas , que 
fó com a fermofura do foi original que cftá no Ceopódé ter 
Comparação. Repàfaò muito asReltgiôfas em que cfta Se- 
nhora appárece alegre nas feflividades, emquè a Igreja fe 
alegra \ & que apparece com femblante trifte naqueMas , em 
que ella fé moflra fentida3porque neftas occaíiões fe lhe vem 
escores do raitó mudadas. Na procíífaô que aquellas Reli- 
giofas fazem ©m o dia em que fcflejlo o Senhor facramenta- 
úo, alevãonellau He de vertidos >& tem o Menino Jefus 
fios braços. A fua eftatura he de éinéo palmos. 

TI TU L O XLIH: 

Da Imagem de nqf a Senhora do Amparo cm o me (mo 

Imperito. ' , 



404 Santuário Mariano 

àqS Anjos com o titiiip do Ampai roj he pintada emhuma i&í 
boa ,& cila com o Menino jeíus nos braços. He deíaher, 
que quando efias' Madres Fundadoras Flamengas fahirão 
da Cafa de noíTa Senhora da Gloria , forró direitas ao Con- 
vento de Santo Albertode Carmelitas Defcalças \ aonde Te 
detiverão alguns djas, f em duvida p^a dallj (por lhes ficar 
mais perto) Fazerem afua entrada erno novo Convento. 
Ne fies dias que aqui fe detiverão , pedirão à venerável Ma- 
dre Maria de São Jofeph .,a de Sevilha, (que então era a Prio- 
ra dacuella Caía) lhe alcançaífe de Deos, lhe jxvtlaffefc 
era vontade fua > fe íundaíTe cíle n©vo Convento. Eflandoa 
Madre Maria de São Jofeph em oração , lhe fallou o Meni- 
no Jeíus,que eftava nos braços daquella Senhora do Ampa- 
ro y & IhcdííTc } que era fua vontade fe fundaíFe o Convento 
naquellc íitio f & que não faltaria nunca nellequemofer- 
yiffe de coração > & quando faltaífe., que elle as feria nafeer. 
A Madre Maria de Saõ Jofeph , quando as Madres Flamen<- 
gasfe ouverãodeirparaafuaÇafa > lhe deu efte quadro par 
rafuia confolação ; para que aqueíle mefmo Senhor > que al- 
li naquella Cai a as amava, & fe lhe moflrava já tão propicio, 
li na outra para onde hkô as favoreceífe com a fua graça, 
para lhe faberem merecer oseífeitos, & complemento da 
fua promeíTa. 

He cila Santa Imagem da Senhora imutc^nilagroíàjâ: 
ignorandolhe também o titulo com-que ahavião de invo- 
car, huims delias fonhou , que a Senhora lhe dizia ano- 
iresflfcm com o titulo do Amparo; porque elia tinha tomado 
,por fua conta o amparar as Religiofas daquelle Convento; 
^'dáquiTcomeçáraõ a intitular dalli por diante comélte 
nome. Adoecffidoeíla mefma Religiof^dd hiimas moleflás 
fezões., a Senhora do Amparo, aquém recorreo> lhe deu 
inteira faúde.E murtas enfermas a qutmfe mandão medi- 
çks dft Sqnhora /tem experimentada delia miiitas merece 

% %a taageiír cie quatro palmosd^ura, ^1 



Livro II. Titulo XLW. " 40 f> 

— — , ,. 

T I T U L O XLIV. 

7)a Imagem de nojfa Senhor /dos Trazeres x que fe 

fefleja , & Venera junto d Cafa da Saúde , [obre a 

Ribeira de Alcântara. 

A Cordeal devoção , & Angular affefío , que em todo ef* 
te noífo Reyno ha para com a Rainha dos Anjos Ma* 
ria Santiífima, excede a todos os mais do mundo; & tam- 
bém para que aos mais foíTe em tudo finguíar > fem coníhtf 
do texto fagrado, lhe confagrou huma nova fcflividade, 
que hc a dos Prazeres, já mais celebrada em outro Rtyao 
(quefeíayba com certeza) da Chriilandade : porque a cele- 
braõras Igrejas Metropolitanas delle > como he Braga, Lis- 
boa > & Évora , com as fuás fuffraganeas na iegunda feira 
fa& 'Daminicamin Albk\ que faõ os gozos > que a Senhora 
teve naRefurreição de feu Unigénito Filho ,apparccendo- 
Ihe aella primeiro (fegundo muitos Padres, 6c Doutores da 
igreja) que às fimtas Marias , eomoconfta dos nofibs Bre- 
viários , & officios approvados pela Sé Apoílolici, cuja fef- 
ta traz o Padre Álvaro Lobo no Appendixao Mar ty reló- 
gio Lufrtano. 

O Licenciado Jorge Cardofo diz que invefíigando a 
íua antiguidade, não achou cou-fa certa nefta mi teria : mas 
diz , que o Padre Paulo da Congregação de Ssõ joaõ Euan- 
gelifta^quefloreceo pelos annos de 1480.no quarto volume 
do íèuFlos Sanctorum , folhas 84. a t ar: a 8. de Abril, nc- 
ftafórma:fi/« aquefiedia Svita Maiiu d)s Traíres , ou 
onde quer que fe acerta afeer a primeira Segunda feria daí vt- 
tnVas da^afcboayfe acofl uma muy devidamente , & conra- 
;>0tf > & jhigul.iY deVoçon memoria da Madre de 'Òeos ; affvn 
que aquella,, qçom o muy preciofo feu Eilbo Decs ,1? homem 
<\F<miSl Ce 1 Ver da- 



4e4 K Santuário Mariano 

Verdadeiro , fe apaxor ou grandemente em fua paxon t fe\à 
logo dfpois a Pafchoa jeita ewençon, & alegria em a fua muy 
janta , & graciofa Refurreiçwy&c. 

O Kalendarioda Sé de Lisboa que mandou imprimir o 
Cardeal Dom Affonfo, quando ella deixou o Breviário Sa- 
lisburgenfe pelo Romano, anno de i «pç 6- a aponta ;.& tam- 
bém o do Cardeal Dom Henrique r impreíTo no de 1 566. a 
trazcomcfficioproprio(àkmdo que anda nos Breviários 
Eborenfe j Brachareníe ,& Beneditino defít^Reyno) que 
tem por titulo : In fetto primtt apparitwm Cbrifti FtUj 
*DeiàdVirginem Matremfuam> com Euangelho próprio, 
liymno , & oraçaõ, como fe pode ver nelíe. 

No Oratório dos Condes dà Ilha , Francifco Carnei- 
ro , & Dona Eufrafia de Mcnefes , fe guarda com muita ve- 
neração huma devota Imagem de noffa Senhoracom o titu- 
lo dos Prazeres , a qual mandarão os Condes coHoca» enu 
hnma Ermida fua , que eflá junto à ribeira de Alcântara , da 
ckcunvallaçaõ nova para dentro , &viíinha ao Palácio dos 
mefmos Condes,que antigamente foraô Càfa da.Saude; cotm 
efla Sanfiffima Imagem temo povo de Lisboa huma grande 
devoção ,& a vaõ a vifitar no Domingo, & Segunda feira 
dçpois das Oitavas daPafchoa, que faõ os dias fomente ein 
que os Condes fe privão da fua vifla ; porque paffados cU 
les à recolhem logo ao mefmo Oratório ; & a não fer affim > a* 
vifeara perpetuamente.. Pordevoçaõ da meima Senhor* fe 
rp^ndou fepultar na fua Ermida o Padre Fr. Lucas da Re* 
furreiçaõ, Eremita de meu Padre Santo Agoftinho , que 
faleceo fendo mayoral,ou Enfermeiro mòr da Cafa da Sau«* 
de, aoadedBílio três annos com eximia caridade aos em*> 
peíUdos no anno de 1 $99. He efla Santa Imagem- de vcfíi? 
do&j &aeftatiu"a não chegará adous palmos. 



Ltvto II. Tttulo XIV. 40-r 

TITULO XLV. 

1Da Imagem de notfa Senhora do Ro farto , do Dminicaito 
Convento de SaÕ Domingos deBemfca. 

O Real Convento de Saõ Domingos de Berofica foy 
fundação delRey Dom Joaõ o I. de gloriofa memoria, 
cujo íitioera quinta de fua recreação, & que elle muito efti- 
mava. Pediolha para primeira Cafa da Reforma ( no tempo 
da clauílra ) o Padre Meftre Fr. Vicente de Lisboa , primei- 
ro Prelado da Reforma ,emoannode 13 78. & Joaõ das Re- 
gras, fíngular devoto da Ordem Dominicana : & ElRey naõ 
folha deu logo generofamente ; mas tomou por fua conta 
a fundação do Convento: & ainda feeiíendeo amais eíte 
favor : porque no mel mo anno lhe deu o Real Convento dâ 
Batalha , que edificava, para que a Reformação mais fe eík* 
beleceíTe-Com os tempos fenaõenfraqueceo o edifteio fanto 
âa Reforma j mas arruinou o tempo o q era mais forte , que 
eraõ as paredes,& as pedras.Eílas reedificou magnificamen- 
te o generofo coração do Venerável Padre Fr. Joaõ de Vaf- 
concellos, fendo Prior daquelle Convento , pelos annos de 
1630. pouco mais, ou menos. Naõ fó augmentou aquella 
Caía, reformando o material delia > mas muito mais com o 
augmento efpintual de fua reformação. Era efte Santo Va- 
rão devotiflimodoRofario, Scdefejando eílabelecer mais 
4 íua devoção nos corações de feus fubditos, affentou na- 
<juella Cafa o refarfe todos os dias a coros 3 o que ainda ho- 
je in viola velmente fe obíerva: & para que ainda ficaífe mais 
confiante a devoção daquella Cafa noobfcquio da Senho- 
ra, mandou fazer em Madrid huma Imagem deefcultura, 
por hum infigne official ; a qual aílim na efeultura , como na 
pintura ^eííá excellentemente obrada ; quanto íe podia ef- 
perar dos primores da Arte. 

i..T Ce 4 Colio* 



408 Santuário Marram 

Colíocou o Venerave) Padre Meflre Fr. João de VaP 
conceitos eftá Santa Imagem na Ca pel!a do cruzeiro da par- 
te da Epifiola emhua tribuna ^oi; de efiá com grande vene- 
ração. He muito magefloía, & infunde em todos os que a 
vem, & contempla© grande refpeito, temor, & reveren- 
cia y & terá oito palmos , ou mais de eflatura , perque pa- 
rece ainda mayor que â natural proporção; tem em feus bran- 
cos hum rico , & engraçado Menino > que parece eíiar faf- 
ísndo com os que olhaõ paraelle. Verdadeiramente eílap 
eítas foberanas Imagens roubando os corações dos que en- 
traônaquellefermofo Templo j &affimhe grande a devo- 
ção que lhe tem , naõíb os Religiofos, mas os de fora, & to- 
dos os que vao àquella Cafa. Eícrevem da Senhora do Rofa- 
riooPadre Fr. Luisde Soufa nahiftoria de Saõ Domingos 
part. 2. 1. 2. & Fr. André Ferrcr de Valdecebro na vida do 
Inquiíidor Fr. Joaõde Vafconcellos , o qualnocap. 16. do 
Jiv.primeiro,encarece aexcellencia daquella Santa Imagem 
quanto ao obrado, & muito mais as maravilhas q ella obra 
com todas áquelleSjque com verdadeira devoção a invccaõi 



TITULO XLVL 

TtaSantijfima Imagem denojfa Senhor* da Gr açaí 

quefe Venera no tnefmo Convento de Bewftca. 

NOclauflro do referido Convento de Saõ Domingos 
deBemfica^ fe vé huma Capella tap magnifica , que 
com propriedade fc pode dizer , que férma outeo nova 
Convento y pois não fó comprehence em fi quanto pede 
hum perfeito Templo, mas acompanhada pelo lado dirci- 
ío,tk amparada peias ccflss cem hum dormitório de dons 
lanços de cellas,&: mais officinas, compõem huma cafa de 
Iniciado y <jue <juer parecer novo, & diftinto edifeio^ 

mayor~ 



Livro II. Titulo 11VJ. 4°9 

mayormente ajudada pela parte cfqucrda da mefma Capella 
de hu palácio de apofentos, &officinas próprias para hof- 
pedagcm de hum fenhor com família de feu fervico; naõ 
fem goíio ,& recreação dos fentidos , porque ao davifhr, 
oífercce pe!a;> janellas hu breve , mas deliciofo jardim, com 
cerca particular, rcgadode hum grande tanque ,& junta- 
mente de hum fermofo ,& eíkndido valle de quintas , & 
arvoredos , pelo qual fe dilata lèm impedimento } & coni 
agrado fempre a viík 5 o dos ouvidos com o canto alegre 
das íuaves vozes dos rouxinoes , & paffarinhos. 

He a obra defla Capelía dórica , a proporeiõ dupla, 
tem quarenta palmos de largo, mais deietenta de compri- 
do ) & he de huma fó nave , toda de pedraria burnida. Nos 
lados fe vem féis arcos como Capellas; &nos quatro mais 
próximos à perta principal quatro maufoleos dos pays , & 
avós do Fundador. Foyefle o Illufiriíli mo Bifpo da Guarda , 
& Inquiíidor Geral Dom Francifco de Caftro , filho de D. 
Álvaro de Caftro > único Vedor da Fazenda delRey Dom 
Sebafliaó , & o íinguíarizado no feu valimento , Embaixa- 
dor a Roma , Cafíetla , França , & Saboya ; & de Dona An- 
na de Ataide^filha de Dom Luis de Caflro, fenhor de Mon- 
fanto , & neto de Dom Joaõ de Caflro , quarto Vifo-Rey da 
índia , mayorque fua rheíma farça. 

Ve-fe nefla referida Capella hum fofeerbo retabolo 
dourado, (em cujas coflas eflá hum proporcionado coro,) & 
nomeyodefle retabolo, que he vafado, fe levanta hum 
grande , & viflofo facrario de três corpos de columnas. No 
primeiro eflá o Santifíimo Sacramento > &no ultimo huma 
perfeitifflma Imagem do Menino Jefus de vulto, peça de 
grande efl ima: cm o domeyo,que hevafadoccmo o ulti- 
mo , fe vé huma devotiífima Imagem de roíTa Senhora com 
otitu!odaGjaça;joyadeíirglilar eflimação > por antigui- 
dade ,& manuír&ura. He efla Imagem hum rr.cyo corpo de 
alafcaflro > cem o braço cf^uerdo abraça o Menino ]eftfs 7 

que 



4*9 Santuário Mar iam 

que fe íuftenta fobre huma almofada , & na maõ direita 
tem hum livro , tudo da me ima pedra : moílra a fua propor- 
ção , como quatro para cinco palmos , & vem a ter omeyo 
corpo pouco mais de dous. 

Dà a eítas Imagens ineflimavef valor a antiguidade^ 
que em outras Nações com mais primor , & felicidade , que 
na noíTa avalia femelhantes obras; porque íegundo a certe- 
za que diíb ha, & o Illufíriflimolnquifidor Geral tinha, ef- 
tiveraõ eftas Imagens oceultas , & fepultadas no muro da 
Cidade ds Tunes , defde o tempo que os Mouros a toma- 
rão aos Chriílãos, até que oEmperador Carlos V. lha ga- 
nhou, queentaõíedeícubrirão, nem fem myíkriofa cir- 
cunflancia: porque batendo aartelharia o muro, & arrui- 
nando parte delle, cahirrô as Imagens, fem padecer kfaõ 
alguma. O Infante Dom Luis, filho delReyDom Manoel, 
que neftc tempo acompanhava a Carlos V. & fe achou na- 
quella emprefa com o foçcorro de Portugal, grandiofamen* 
te abreviado naquelle celebre galeaõ de trezentas & fcífen- 
ta & féis peças de artelharia , ajudou a ganhar a vicloria: 
por defpojo delia efeolheo fó para fi eíias Imagens , que de- 
poisdeu a Dom Joa5 de Caílro(que também o acompanhou) 
avó do Eifpo Fundador : as quaes fe conferváraó em fua ca- 
ía, como joyas que merçaaõ mais que çommua eflimaçaõ; 
& depois quando enriqueceo aquella fua Ca peita com as re- 
líquias , Imagens , & peças preciofas , que nella fe confer- 
Vão> affim de ornamentos , como de prata dourada, colío* 
couentaõ eíks fantas Imagens no referido lugar. 

CcnfeíTo q quando vi a Imagem da Senhora, me enter* 
neceomuitomuitoafuararamodefíia, &foberana magef- 
tade, que he tanta, que aos corações mais que de pedra en- 
ternecerá, Eflánaquelíe lugar com grande veneração, & 
\ ornato de cortinas: & £ifirmão os Rcligioíos , que obr* 
muitas maravilhas nos feus dçvotos , & que eraómuitos o$ 
^ue cgui grande devoçaq a hiaõ bi|ícarà^uella íúa Capella* 

Am- 



Livro II. Titulo XLVIL ^ 4** 

.Ambas as Imagens tem ricas coroas, ou de ouro, ou d€ pra- 
ta dourada , & faõ de grande feitio. Defías Santas Imagens 
efcreveoPadreFr. Luis de Soufa em a fegunda parte dal 
Chronxa de S. Domingos de Portugal liv. 2. na addiçaõ atf 
Convento de Bemfica. 



TITULO XLVIL 

Da Imagtm de noffa Senhora da Conceição , S Corado 
Contento da Conceição, no fitio de Carnide. 

POuco diftante do lugar de Carnide , huma Iegoa da Ci* 
dade de Lisboa para a parte do Occidente/e vé o Con- 
vento de noíTa Senhora da Luz , celebre, & antigo Santuá- 
rio da Rainha dos Anjos Maria Santifllma. Junto a efte 
Convento edificarão neftes noflbs tempos Nuno Barreto' 
Fufeiro, & lua mulher Dona Maria Pimenta outro, que? 
dedicarão ao myíterio da Conceição puriíTirria dfl mefma $&> 
tlhora , para Freiras Recoletas da Ordem da Conceição, Pu- 
zeraõ eltes devotos Fundadores tantocuidado em acabar o 
feu Convento , que pelos annos de 1 694. eítava tudo dif- 
poílo para entrarem nelle as primeiras Fundadoras : ma$ ; 
como as coufas que faõ de Deos tenhaõ fempre muitas con- 
tradições ,naõfe executarão eítesfeus pios defejos como 
queriaõ , porq ainda fe lhes a longou o cumprimento dellès" 
mais quatro annos iporque entrarão noãaóçS. EflsVàa» 
Igreja ricamente, ornada de muitas, & muito ricas Imagens^ 
muita prata ,mui tos ornatos de flores artificiaes,ricos vafo 1 ^ 
de prata, outros de porçolana da China ? de Veneza \ & dé 
Génova, & outros muitos dourados, bons cortinados: ver* 
dadeiramente ornáraõ aquelle Templo com tanta grande- 
za ?& riqueza-? que parece huma fundação em tudo Real. 
No coro das Rcligiofas ha de hum, &cutro kcoáà 

grade 



4 X ^ Santuário Mariano 

grade grande dons Altares , com íèus nichos de tal! 
rada com imagens: huma delias he do- Menino]' 
gem grande, & perfeita; a outra he denoda Strhorada 
Conceição; & efa Imagem íoy a primeira q fe mãdou jtV; g 
Eítava neíte tempo em o Altar mer , mas porque lafroaigu 
tanto mais pequena do que pedia o lugar, fe mandou depois 
fazer outra de madeira ricamente eltcfada , g5 joilocou 
líò feu lugar , & a milagrofa, que era de barro $jjfe poz então 
no coro, no lugar referido: porque quiz a d vota Padro- 
eira, que também no coro ouveííe outra Imagem. Com -cila 
pois (cftando ainda na Igreja) tinha a fua família muita de- 
voção :&fucce d eo (alguns annos antes que entraffem as 
Fundadoras; em 2 1 . do mes de Fevereiro do anno de 1 695. 
que reconhecendo huma criada da Padroeira, chamada Lui- 
ía Barbofa, moça donzeila ., em hum peito hum tumor , que 
em breves dias fe lhe fez do tamanho de hum ovo , que hi* 
çrefeendo cada vez em mayor augmento ; fentindo cita 
yerfe afUm, fe defeubrio a outra criada mais velha , que danr 
do conta a fua ama , cila a chamou para ver também oque 
f$$\ a qual] ulgandofer cancro, a mandou a Lisboa acom-. 
panhada de hum irmão, & de outra criada, a hum Cirur-* 
giãoveÍho,& experimentado , que por enfermo não po^ 
dia fchir de caía , para que eíle a viífe , & difpuzeífe o quç fç 
devi^ fazer, . r . 

Foy a donzeila, & vendoa o Cirurgião , lhe decbroij 
logo era cancro oque tinha , & que por eítar|em principio, 
ainda fe podia remediar para que naõ foífe adiante : rrças 
porque o tempo,por fer inverno, não era capaz de cura, lhe 
qiflemandâffe fazer logo hÇalatTiina de ouro, p?ra lhe tra- 
zer em fima,até que o tempo deífe lugar a fe poder -fazer cu- 
ra regular. Deu logo o irmão ordem à lamina y mandando a 
bum ourives lha fizeíTe com roda a. diligencia, & com ifíç fe 
recolhêj^o para caía, & a donzeila com na 6 pequeno cuida- 
àçm fuaqudxa. Tinha luijfâ garboia huma companheira, 

que 



Lrvro II. Titulo XIVIL *p# 

ijííe era muito devora da Imagem da Senhora da Conceição 
que íúr.daeftava no Altar mayoryefía a anime una fua pena, 
& lhe diííe , q ella lhe havia de enfinaroutra melhor medici- 
na^ para iarar do leu achaque^ levou- a à Senhora da Con- 
ceição , & ciífdhe: Façamos huma novena a noíTa Senhora', 
& untayvos com o íeu azeite/] eu ejpero de fua piedade vos 
lia de dar perfeita fauàe. Como o remédio lhe importava, &: 
erafaci! , veyo logo em tudo, & começou a novena com 
muita devoção. No primeiro dialhepareceo que o tumor 
havia diminuído alguma coufa 3 & no iegundo mais; quan- 
do veyo ao terceyro dia , já era do tamanho de huma avelãa; 
& no quinto já naõ havia íinal delle. 

Alegre toda a cafa pelo favor que a Senhora da Con- 
ceição havia feito aLuifa Barbofa, a mandou outra vez a 
Padroeira tornaíTe a cafa do Cirurgião, & lhedeíTe conta 
do íjue havia fticcedi do. Vio o Cirurgião opcyto, ôt diííe 
que eíiava laã, & com admiração lhe perguntou o que havia 
feito vaque refpondeo adonzella, em como feencomen- 
idára a nofTa Senhora , &que ella lhedera as melhoras que 
ráajj & ella experimentava. Admirado o Cirurgião lhe dif- 
fe era milagre , & muito grande o que a Senhora lhe havia 
feito , & de que o era daria huma certidão jurada. Não fal- 
tou em lha pedir o irmão da enferma .,pãra que com ella con- 
íUíTe claramente a maravilha , que a Senhora obrara em fua 
irmãa. Duvidou por então o Cirurgião ema paíTar tj por re- 
conhecer y que ainda a parte eflava algum tanto enf aboada. 
Continuou a enferma a fua novena > & achádoíe no fim del- 
ia de todo livre ,&faã perfeitamente ,a tornou 3 mandara 
Padroeira ao mefmo Cirurgião ,.& que lhe pediíTe a certi- 
dão , para mayor gloria de noíía Senhora. Vio o Cirurgião 
que a moça elíava perfeitamente faã 7 & que já nao havia fi- 
nal, nem raflo algum do achaque: com cu]a viiia lhe deu lo- 
go a certidão ,para que com ella fepudeíTe examinar ofuc- 
ccffc > Scautenticar o milagre. Nãofó cíie obrou a Mãy die 

Deos; 



414 Santuário Mariano 

Deos • porque outros muitos foy obrando depois , áeafllm 

he tida aqucila Santa Imagem emgrandc veneração. A ma v * 

teria já fica dito que he de barro > & que tem quatro palmos 

de alto. Tudo ifto nos re ferio huma pefíoade íuppoílçaõ, 

que foy teítemimha de vifta de todo cite fuceeflb. 

- 

H i i. ■ ■ ■ , ii , ,. i i , „ . *m 

TITULO XLVIII. 

Da Imagem de noffa Senhora do Soccorro , do Convento 

deOdiVeU*. 



N 



O Real Convento de Odivelas da Ordem de S. Ber- 
^ _ nardo , fundação delRcy Dom.Diniz y & fituado no 
termo de Lisboa duas legoas para a parte do Occidente , fc 
tem grande veneração com hfia milagrofa Imagerrr da Mãy 
de Deos, invocada com o nome denofla Senhora do Soe* 
corro, que eftácollocada em hum nicho da parede , que di- 
vide a Igreja do coro , em a nave da parte da Epiftola; a qual 
venerável Imagem tem aquelks Rcligiofas cm tal forma* 
queafllm e lias, como os de fora fe podem aproveitar da fuá 
vifta > & implorala em todos os feus trabalhos , & apertos;; 
Os milagres, que o Senhor faz por meyo deita Santa Ima- 
gem , faõ innumeraveis : referirei hum , que por admirável 
le autenticou audoritate ordinaria,& publicou/je donde fc 
accendeo mate a fé, & devoção , para que.todos foffém a 
fcufcar naquella piedofa Senhora o foccorro em todos 08 
ícus trabalhos. O milagre autenticado he neftamaneira. 

Emquatradc AgoJlodoanno de \6y\. das féis para 
_s fete horas da tarde ,eftava a Madre Sor Maria da Affump* 
<ão , Religiola profeíTa. de véo preto do mefmo Convento/ 
áiante da Imagem da Senhora do Soccorra, de quem çra 
mordoma muita antiga , dando princi pio à íua fefta daquela 
Jb ajiftQ ><B]c-con3cçavá]iittvcfpp^ 

Vcf- 



Livro 11 Titulo XLVIIL 41 jr 

vefpora da Senhora daè Neves. Efta Rehgiofa hrvia dous 
annos & meyo , que padecia huma terrível ciática , que a ti- 
nha toda tolhida dê huma parte , & quafi aleipda ;porquô 
Tiaõ poiia dar hum paíTo: para efta queixa fez muitos remé- 
dios^ & tomo u por duas vezes fuores, íem confeguir no» 
nhua melhora. Neíta tarde ,& hora referida , lhe deu huma 
dor muito interna, & queixandoll- à Senhora de permitir 
queella paJeceíTetamvehemente dor no dia em que afeP* 
tejava ; no mefmo tempo deiceo de repente a alam pada , que 
diante da Senhora ardia ; dando dous balanços muito gran- 
des íem ptffoa alguma lhe tocar , nem fahir da efoipuk em 
que eftavaprefa.Vviíla deite fuCceífo, diíTerãoduas Reli* 
giofas à mefma Madre Maria da AíTumpçaõ , que reparaíTe, 
porque aquclle final era que a Senhora do Soccorro lhe of- 
terecia o feu azeite para fe untar com elle. Animada com efla 
advertência , o fez affím, & de repente ficou l : yre de toda a- 
quellavthementedor, & do impedimento q tinha para ai\J 
dar, & ficou taõ livre ,& defembaraçada, q logo pode ir à fua 
eel! a , que ficava bem difíante do coro , aonde a Senhora ef- 
taya> íiibindo para iflo efeadas bfcm compridas , tão ligeira, 
& defempedidamente. quecaufou a todas muita admiração:' 
&.da mefma maneira as tornou a defcer para vir a bufear a 
Senhora , & a darlhe as graças pela perfeita íaude , que lhe 
havia concedido :offereceolhe para perpetua memoria da- 
quelta maravilha , o bordão em que andava arrimada , & 
com que apenas podia dar hum paffo ;& quando o dava^ era* 
com muita dificuldade , & dor. 

Depois que a Madre Maria da AíTumpçaõ alcançou da 
Senhora do Soccorro afaude perfeita, nunca maisfentio 
dor alguma naquella parte ,que por tantas tempos a havia 
mqfeítado. Não parou aqui a maravilha : porque depois de 
confeguiraqueHa Religiofa efla mercê da Senhora, come- 
çou a ferver o azeite da aíampada em tanta quantidade, que 
fendo o vidro dos comuns , & eítando meyo de agua, como 

fc 



4-i 6 Santuário Mariano 

fe coftum r fazer, tirárnõ todas as Religiofasdaquelle Con- 
vento y que íaõ rnuy tas, azeite em vidros, tigelas , púcaros; 
&aílim mais todas as moças > & criada s /que faõ innumer ih* 
veis , nameíma forma , ríko h vendo nenhuma , que naõ 
chtgaffe com aíuava filha, fem o azeite parar. Dufou eíta 
perenne fonte do azeite por eí paço de três horas / âc depois 
ficou a alampada acefa até o outro dia/ern haver neceííidade 
dtlhe lançarem novo azeite. 

Tudo iffo foy examinado cm hua junta de Theologos, 
& Canoniílas > por mandado do Illufirim mo Arcebiípo de 
Lisboa Dom António de Mendonça , aonde prefidia o Bif~ 
po.de Martyrza, Provifor do Arcebifpado 7 que julgando ef- 
ta maravilha por verdadeiro milagre , & a iaude da Religio- 
fa.por milagro à , pelas circunílancias que concorrerão , íe 
mandou publicar portal no mefmo Convento em ió. de 
Março do anno feguinte de 1 674. como vimos da Pafbral 
original do mefmo Illuflriífímo Arcebifpo. 

A eítes milagres fe feguirao outros muitos , como conf- 
ia , &: nos vimos , de relações que nos vierão as mãos y fei- 
tos aíTim nas Religiofas , como cm muitas peíFoas de fora, 
que com grande fé,&dtvoçaõ. recorrem àqiiella Senhora. 
Hç efta Santa Imagem de efeultura obrada em madeira y &, 
efiofada^masadorhaQ na com ricos veíiidos^terá cinco pal- 
mos pouco mais y ou menos de eflatúra. Feflejafe , como fica' 
dito em cinco de Agofb,queheafeíla das Neves. Da parte 
da Igreja tem huas portas muyto bem lavradas , q íe abrem 
nos ciias de filas feitas , & quando fe quer moíirar ao povo. 



— . J 1 — \ 



- 



TITULO XLIX. 

T>a milagrofa Imagem de ncfja Senhora da Jflwpçaõ, 
do mefmn Contento de Odivelas. 

NO coro do mefmo Real Convento de Odivelas da 
Ordem deÇiíkr ; he venerada outra devotiífima Ima- 



gem 



Livro II. Tituh XLIX. 417 

•gem da Rainha dos Anjos,debaixo do titulo de fui AíTump- 
caõj com a qual tem todo aquelle Convento huma grande 
devoção. A efta Senhora venerava, & amava muito a Madre 
Dona Phelippa da Silva , que morreo pelos annos de 1 585 . 
a qual cuidava muito daornato dafua Capelia , em que dif- 
pendeo muita fazenda. Eftando efta ferva de Deos já no ca- 
bo da vida , diíTe à Rainha dos Anjos : Minha Senhora , jd 
Vosfi^Cafana terra , a minha no Ceo corre por Vcjfa conta* 
Alludindo(ao que parece) a certa renda perpetua, que lhe 
havia applicado para os gáflos , & fabrica da mefma Capei- 
la. Defejava muito efta Religiofa morrer em humdiadenof- 
fa Senhora , & a amorofa May , que-íe não defeuida dosxjue 
a fervem /lho alcançou: porque quando fe cantavao no coro 
as Vefporas de fua Purificação, voou a fua alma para o Ceo. 

Alguns annos depois de fua morte abrindofe a fua fc-' 
pultura, para neila fe haver de enterrar outra Rdigiofa > 
citando o corpo todo desfeito, foy achada -a fua caveira em 
•diverfas partes efmaltada com eftas foberanas palavras : 
j4ve \far(d-<vmdofc neíla maravilha, o como aquella gran- 
de Senhora fabe pagar aos que a fervem : pois para que fc 
viífe o muito que eftimava a fervorofa devoção com que a 
invocava fempreefta fua ferva, omanifeftounaquelle pro- 
dígio. Efta caveira mandou logo recolher a Abbadtça, por- 
que ninguém tocalíe em taõ fanta Relíquia. Àflim o efereve 
Jorge Cardofopàfeu primeiro tomo dos Agiologios, pag. 
3 1 ? . O corpo defta ferva de Deos efta fepultado no capitu- 
ioemfepultura particular. 

Hccfla Santa Imagem da Senhora da Aííumpçaõ de pin- 
cel , pintada em hum quadro grande , & eftá em huma fer- 
moía Capella interior, que fícadefron te do coro: afuaan- 
tiguidadç he muita ,.& deve fer do tempo da fundação da- 
quelle Real Convento • ficada parte doEuangeího , &: ceie- 
braõafu^fcftaeíP'15 df A gafto. Também he muito antiga- 
a devoraoipara coip. efta Santa: .Imagem ; ôç depois da rmrai 
; Tom. 1. Dd vilha, 



4 J S Santuário Mariano 

vilha , quç o Senhor obrou na Madre Dona rhelipfa dá Sil- 
va , ainda mais feaccendco naquelle Convento a devoção 
psra comeíla Senhora , porque a começarão a fervirem 
particular algumas Rcligiofas. das mais illuílresdacuelJa 
Cafa ; & íe fez particular mençaõ da Madre Dona Guiomar 
Coutinho, & Dona Paula ;-& depois da morte defías en- 
trou no ferviço da Senhora a Madre Dona Catharina de 
Távora, irmãa deRuy Fernandes de Almada, & por fua 
morte huma Irmãa converfa chamada Anna de Almeida,que 
por fua devoção quiz fervir á Senhora , & cuidar do ornato 
da fua Capella , o que fazia com grande fervor , ornando-a 
com peças muito ricas. 

Rcterefeque faltandolhe aeflaferva da Senhora, nas 
vefporasda fua fefta , hum cruzado para certa couía , que 
lhe era precifa: eflando de joelhos diante do Altar da Se- 
nhora, do mefmo Altar lhe faltou no collo o cruzado de que 
neceífitava. Eflamefma Irmãa converfa ,foy a que engio à 
Senhora a Irmandade que hoje a ferve. Saô muitas as mara- 
vilhas que obra,& affimhe para com ella muito grande a de- 
voção daquella Cafa, & experimentaõ todas nos favores, 
& mercês que recebem , o muito que hc poderofa. Efcrevc 
defta Senhora Cardoíò aífima allegado. 

T I T U L O L. 

Da Imagem de nojfa Senhora doRofario , dome/mb 
Contento de OdiVela*. 

NO mefmo Real Convento de Odivelas, he tida en* 
grande veneração huma Imagem de noffa Senhora 
com o titulo do Rofario. Tem eíía Senhora fmma rica , & 
grande Capella ; porque tem Altares , & fí<ea no coro , ou 
igreja interior daquelíe grande Convento>da parte da Epif- 

toiâ 



Livra II. Titulo L. 4ip 

tola: Scaffirmaõ asReligiofas fer antiquiílima: cila collo- 
cadâ cm hum rofal nomeyo do retabolo, & cercada dos 
feus myfterios. He de veíhdos , & adornão-na as Rdigiofas 
com grande perfeição. A fua eftatura hequatro para cinco 
palmos; tem o Menino Jefus nos braços. Fciíeja aquellc 
Convento a eíía Senhora com grande folemnidade , & de- 
voção na primeira Dominga de Outubro. 

Muitas faò as maravilhas que fe referem obra a pode- 
fofa mão deDeos pormeyo deíla Santa Imagem: referi- 
rei três, que faô mais modernas ;&feja aprimeira. Havia 
naquelle Convento huma moça,chamada Maria de Eícovar; 
a efta lhe deu hum mal muito grande em hum braço , com o 
qual fe virão muito apertados os Cirurgiões y & em termos 
de lho cortarem. Vendoic a moça neftes apertos, invocou 
a Senhora do Rofario em feu favor ;& foy a Senhora fervi-, 
" da, de a livrar logo , alcançandolhe perfeita faude , com 
[ grande admiração dos Médicos , & Cirurgiões , que con- 
. ieffáraõfer a faude milagrofa ,& obrada contra todas asef- 
/pçranças , & regras da Medicina : fuecedeo ifto pelos an- 
nosdei690. 

Outra moça havia no mefmo Convento chamada Ma- 
f .ria Luis , a qual levada de huma diabólica tentação, fe arro- 
jou em hum poço do clauíiro novo , que tem vinte & tantas 
braças de alto ,& de agua algumas treze, & o poçohemui- 
to.eftreito. Levava a moça ao pcfcoçoo Rofario da Senho- 
ra , a quem invocou em fua ajuda : defceo abaixo hum ho- 
mem para a tirar , & ambos fahirão fáos , & falvos : fuece- 
deo cite milagre noannode 1696. 

O terceiro foy , que outra moça chamada Barbora Lo- 
pes \j era muito pobre , & achandofe em taõ miferavel cita- 
do , que anda v 1 quaíi .defcalça % tinha efla humas çapatas taõ 
rotas quejánaõtinhaõ por onde fe terem, porque naõ ti- 
rtaõíoias,& andava com os dedos defeubertos: foy-fe à 
aolíí , ■& moíiroulhe os pés , pedindolhe lhe valeiís. 

Dà z Aíii 



4Z® ? Santuário Mariano 

Alli mefmo lhe derão dinheiro de efmola, fem que viffem aã 
que lho derão , a acçaõ que havia feito , nem ouviífem a íua 
petição , nem ella o manifeftaffe. 



. 




T I TU La 


LI. 



Da Imagem de noffa Senhora do (prefepio ydotnefmô 
Convento de Odivelas* 

OUtra Imagem milagrofa, de noffa Senhora fe venera 
no mefmo Convento corox> titulo d© Prefepio ^titu- 
lo impofio por fe fazer o Prefepio daquelle Convento com 
eíla Santa Imagem. Eflavaeíta Santa Imagem antigamente 
nacafado thefouro, aonde fc guardaõ as peças ricas, & 
preciofasdaquella Igreja, & Convento, & as relíquias, & 
defíacafà atiravâo na occaíiaõ do Prefepio , & tempo do 
Natal.Noannode ióço. 6c tantos, concertando a Madre 
Dona Feliciana deMilaõ a Capeila de noffa Senhora das 
Mercês, que fica nas coflas do coro cm oclaujftro, a collo-' 
counella, pela grande devoção que lhe tinha âeíta Santa 
Imagem a Madre Dona Violante de Caíiro fua companhei- 
ra v&neflaCapellaeílá hoje com muito mayor veneração, 
& decência > &alli concorrem hoje livremente asReligio- 
fasabufcallaem fuás penas, Scaíflicções^ & a pedirlhe a 
fuaintérceffaõ , & favor. 

Muitas Religiofas da quelIaCafa tem grande devoçáô 
com eíla Santa Imagem, & confeffaô, como eu ouvi a hurha 
Reíisiofa grave , & ahciãa , que nenhuma coufa lhe pedira a 
çfla Senhora 7 que lha não alcançaffe de feu preciõfo Filho. 
He efia Santa Imagem muito antiga, mas de rara fermo fu- 
ra: dizem por tradiçr.o as Religiofas, que a mandara fazer 
h i ima , que era filha de hum Conde^ a qual fe chamava Joan- 
iiaXira; tão antiga, que a fazem das da primeira creaçaõj, 

&finvj 



Livro II. Titulo LII. 421 

& Fundação daquclla Cafa. He de roca efta Santa Imagcm,8c 
de vertidos 5 porque a afTentaõ, & põem de joelhos em o 
Prefepio do Natal , & a tem com ricas roupas. 



TITULO LII. 

Da Imagem de nofa Senhora do ( Poffuh 1 do tntfmo 
Cmvento de Odivelas. 

NO mefmo Convento Ciítcrcienfe de Odivelas , ha ou- 
tra devota Iimgem da Mív de Dcos , invocada com o 
titulo de noffa Senhora do Populo, queeftáem hua Capei- 
la , que fica defronte da grade da Igreja y da parte da Epiílo- 
la : a quatefiava antigamente na parede , que divide a Igre- 
ja do cifro; mas como fe alargou a grade , a que vulgarmen- 
te chamaõ a porta da ametade, a mudáraõ para o lugar, em 
que hoje fe vé. He efla Santa Imagem de pincel , obrada na 
forma daquellas Imagens , que pintou o Euangelííia Saõ 
Lucas. No mefmo Altar fevem duas Imagens, invocadas 
ambas com o mefmo titulo; huma he a de que falíamos de 
pincel ; & outra de vulto de efeultura , formada em barro de 
porçolana. Efla Santa Imagem trazia da índia hum fidalgo, 
parente do Vice-Rey Dom António de Mello, & Caftro, & 
na viagem lha cativarão > & depois a tornou a haver , naõ fe 
fabe fe foy refgatada > ou íe milagrofamente lhe veyo outra 
vez às mãos, para naõfef maltratada comalgua irreverên- 
cia dos inimigos, ou infiéis, ou OlanJczes. Efle fidalgo que 
a tinha em grande eílimaçaõ, a deu a humas Religiofas fuás 
parentas , para que naquella Cafa a puzeíTem em lugar aon- 
de foffe vencrada.Huma deftas Religiofas fe chamava Dona 
Alaria de Caflro , & a outra Dona Elena de Callro. 

Todas aqueílas Religiofas tem grande devoção com ef- 

ta Sanra Imagem Indiana , pelas muitas maravilhas , que 

Tom. I. Dd } obra 



4*i Santuário Mariano 

obra nas que com confiança imploraõ ofcufavor.HôaRéi» 
Jigbfa eftava morrendo , & já fem pulíos , & feraefperanr 
ças de vida - ? outra que íènria a fua .morte , forque era ainda 
muito moça , lhe levou a Senhora acama ; & chegando a 
Santa Imagem à moribunda, com o feu centafíocobroufo- 
go repentina íiude: &aReligiofa fedeu portão paga defle 
beneficio da Senhora,que a começou a feílejar todos os an- 
n$s, fete dias ames do Natal, o <jue ainda continua. Sue- 
cedeo ifto pelos annos de 1 67Q.& dizem as Religiofas que 
haverá perto de cem annos, que efía Santa Imagem vejro 
para àquelia Caía . 



1 ■ 



TITULO LIII. 

$)a Imagem da tntUgrofa Senhora dos Remédios f do 
me/mo Convento» 

EM outra Capella do iraefmo Convento de Odivelas; 
dedicada à Afixnçaõ de Chrifto , que fica junto à porta 
xjue vay para o clauílro , & defronte da grade da Igreja , fe 
venera outra milagrofa Imagem de Aferia Santiffima , com 
/O titulo dos Remédios, que obra infinitas maravilhas , co- 
sno experimentaõ todas aspeíToas, que vivem dentro da- 
4juella claufura. Os princípios, & a origem delia Santa Ima- 
gem referem as Religiofas nefla forma. Referem que hum 
baiano de Menefes tinha em feu Oratório a efla Santa Ima- 
gem com grande veneração, & a experiência das maravilhas 
<jue a favor dos de fua cafa obrava , o fazia cetfimalácomo 
4 iuay or joya deile : por morte deíle fidalgo , a deu Jimn feu 
filho, chamado António de Soiaía de Menefes , a fuás irmãs, 
Religiofas do mefmo Convento 4 quecraõ as Madres Dona 
Marianada Silva, Dona Mfígdalena , & Dona Jofepha de 
Meneies :&^arecc que eilas JUligioías a cpllocárão íogo 

1 > i ; ru^ueJh 



Uvtq It Titulo LIIL 413 

fiaquefla Capella , paraque nella íoTe lemdi , & tida em 
grande veneração > pelorefpeita aflimadas maravilhas que 
havia obrado. 

Naquella Capella cílava ; & fuecedeo haver huma gran- 
de feca^ qaedizrm durara annosj& que para obrigarem a 
noflò Senhor a que tiveíTe mifericordia ds fuascreaturas, fc 
fizerão muitas prociífocs , & que fazendofe naqueíle Con- 
vento huma por efté mcfmo refpeito, levando nella a Se- 
nhora dos Remédios , fora o Senhor fervido > que naquella 
noite choveffe muita quantidade de agua ; & que no anno de 
1 697- fazendofe a mefmá rogativa , levandole a Senhora em 
prociífaõ por haver grande feca, logo chovera com aburç- 
cancia. Muitas Religiofas daquella Cafa, queemfu^s ne- 
ceffidades recorrerão a efta piedofa Mãy , logo experimen- 
tarão promptamente o feu remédio , & alivio. Feílcjão a ci- 
ta Senhora em 1 ? . de Mayo , que he o dia em que fe feíteja 
110 Arcebifpado de Lisboa a Senhora dos MartyreSj&lefeí- 
uja tamhem univeríàlmente , como o traz o Martyrologio 
Rotaauo* 



_ 



TITULO LIV, 

IDa milagrofa Imagem de nofa Senhora da Encar- 
nação. da -Ameixoeira. . 

NO termodç Lisboa, huma legoa para aparte doNo- 
roefk,eftá hum lugar, a que charruo Ameixoeira \ a 
ParochiadefteJugarhe dedicada a noffa Senhora debaixo 
ào titulo da Encarnação. He efta Santa Imagem taõ antiga, 
<juefe mõfabeotempodefeu apparecimento, nema:> cir^ 
cuníiancias*, & fó confia por huma continuada tradição, 
que appar-c€ra,&o lugar aonde appareceo; & íko grande 
como iilo foy aincuda dosantigqs .português ^ que nem 

Dâ 4 das. 



414 Santuário Marianè 

das coufas grandes íaziaõrremoria. Refereíe que appare2 
ctraeíla Santa Imagem, naõ muito ditíante do lugar aon- 
de íe ihe ediíkou a Igreja, cm que hoje he venerada yefte lu- 
gar ie vé dentrode huma quinta , que fica junto , & poffue 
o Defemb^rg^dor Miguel Nunes de Mefquita; era eíla an- 
tigamente campo > ou matos . como eraõ quaíi todas as fa- 
zendas , & quintas, que por aquelle difrito te vem hoje 
cnnobrccidascom grandes , ícexcellentes cafas ; & tudo 
faria a vlínhança da Senhora da Encarnação. Apparcéeo 
cnt< e huns funchaes , & por efta cauía a invocavao em íeus 

ÍrincipiosnoíTa Senhora do Furicha^ & com c fie ti tolo f 07 
ufcada , & venerada per muites annos : depois lhe cítrap o 
titulo da Encarnação ;& também fe não fabe a caufa porque 
ft impozefle fermofo titulo ;cre-fccue vindo algum l rda- 
doa vifitar aquella Igreja achando que o titulo do Funchal 
naoeramuy próprio, quecemefla conlideração mandara 
feinvecafíe cem o titulo dá Encarnação* Tafiibemfeigtio- 
raaquemappsreceo; poderia ler a algum f mplcz paítojti- 
nho , ou pafiormha , porque muitas vezes rche mos, qucef» 
tes por cândidos cm fuás almas, foraõ dignos delcgrar fe«- 
melhantes favores. 

, Cem o titulo pois da Encarnação irvocãò a í^nhort 
os feus devotos, que de varias partes concorrem a vereral- 
la em aqutUa Caía : & em tedos os trabalhes , & enúími- 
dades que padecem achao na fiia piedade remedo, & aiwf°# 
como o te Aemunhaõ muitas memorias,que pendem das jga* 
redes da fuâ Gaia , affimde quadros, & mortalhas ,cemo^C 
Varies finaes de cera > pernas, br a ço v ,& cabeças v & fto 
ddenido dos que lhe zffcf, em naõ fera taô grande , para fa- 
zerem memoria das muitas mar* v^has, & milagres j>que 
tem obrado ;& nãoeftivcra taõdifíanrecaCidade,íem du- 
vida fora fervida ainda com muito mayor culto,& ceveçac» 
HM ecllecada eíla Santa Imagem em o Altar mayor, em 
Kuma tf ibiHia de talha ; a Igreja he grande >& iermoía , an- 

tfe*? 



Livro II. Título LW í4i? 

tigrmente eraannexa àFreguefía deSaõJoaõ doLumiar, 
que hc da i apre ícntação das ^bbadeças de Cdivclas, (& por 
aqui ie pede também cònfidemr a íua antiguidade , pois já 
devia ler Ermida no tempo delRey Dom Dinis. ) Naõ feAp- 
raõporfatisteitos os moradores da Ameixoeira ',-dc que a 
Igi eja que elles havião reediícado y foííe annexa , & fubor- 
dinadaaceSíõ Joãodo Lumiar 5 & aífim alcançarão da Sé 
A poilolica hum Breve (que guardáo no feu archivo)por on- 
de fazia izenta aquella Igreja da íbgeiçaõ da do Lumiar; 
concedenctolhe o privilegio de apreientarem o Parocho, 
quehco Cura daquella Igreja ; porque não fó-.a expenfas 

Sroprias kvant.raõa Igreji , mi* a fabrico de tudo o que 
ieheneçeJario>& pagaõaoCura J) & acodematudoomais 
do çuko , & fervicoda Penhora. A òenhera tem cinco pal- 
mos de sita t ura ; he de veltidos* & eítá om as mãos le- 
vantadas : iito hc o que pudemos alcançar, indo aquella Ca- 
ia da Senhora. 



TITULO LV. 

IDa Imigem de nojfi Senhora das Tortas do Ceo> 
Convento da Ordem de SaÕ Franofco* 

1K"T O lugsr de Telheiras, termo de Lkbca, quafihualc- 
U\ S oa psraa pr.rte co Occidentev edificou ■olrincipe 

: Donvjcaõ vulgarmente chrmndo ò Príncipe Neg^o, que 
cn fenher > & I rincipe de Canci?,Rcynoem a 1 ha cie Cty- 
liiõ) hum Cor vento aos Pad esdcbaõFraittfcodaProvm- 

J cm de Portugal , pela grnnde df voção que t.nha à S rafica 
Familia;/| ■orcuttlkso nflnnrãonaFé) [ ara convalccetiça 
dos Religiosos enfermos. Fcyieiraeíia oba cem grande- 
za de Princif e •. porque tanbtm entre es 1 rinches puto$j 
iní.ueo langue ncbreeípiritcs aítca>& lobtranosr A Igre- 
ja 



4*6 Santuário Mariano 

ja defle Convento ,quehemageíto a , & deexcelíente ar- 
chitedlura,& de rica pedraria, hededicida anofa Senho- 
ra das Portas do Ceo ; titulo impoflo pelo mefmo Príncipe, 
que quereria obrigar a Rainha delle, lhe concedeífe o poder 
entrar por luas perras. Ha naquella Igreja quatro Capelhs 
muito bem ornadas , & as pinturas das primeiras duas, que 
ficaõ mais próximas ao Altar mòr ,faõexcelientcs; per^ue 
forão ornadas cm vida do mefmo Príncipe. 

No Altar mòr fe collocou logo em os principias , que 
íc fundou o Convento > huma Imagem de noffa Senhor», 
que hoje fe vé m primeira Ca peita da parte da Fpiftoia; pon- 
tue defejando o Padroeiro collocar no Altir mayor huma 
Imagem obrada pelo mais primorofo artífice que ouve no 
inundo; tendo noricias que nas índias efe Ca ítella havia hum 
peritiffimo ^ de là mandou vir a Imagem t a Senhora y & a&» 
fim foy collòeada no meyo do Altar , em hum nicho compe- 
tente , aonde eftá com grande veneração pelas grandes ma- 
ravilhas, que logo começou a obrar, & ainda ao prefente 
continua: tem na os Religiofos com o ornato de cortinas 
competentes 3ps tempos ,*& com hum vco qiie a cobre , & a 
não coflumaõ defeubrir, femque lhe accendão primeiroiu- 
zes*He efta Santa Imagem de efeultura de madeira pçrfei- 
tamente obrada ,& muito bem eílofada; tem no braço ef- 
querdo o divino Infante ]efus , de tanta fermoíura , & gra* 
£â , que parece efíá roubando os corações de todos aquelas 
cjueaffimneilc, comona Soberana Imagem de fua SantiíSr 
ma Mãy poem os olhos. Tem efla Santa Imagem da Senha- 
jra cinco palmos de eftatura: obra o Senhor por fua intercef* 
fa6 infinitas maravilhas cm todos os que invectó o íavcij, 
&o patrocínio de fua Santiffima Mãy, corro fe vé dos mui- 
tos quadros, mortalhas, & outras muitas memoria? deco- 
ra > que pendem da fua Capeíla : tudo iílo vimos indo a vi* 
fitar aquella milagrofa Senhorr. 

No mefmo Convento b& também tida em grande ve- 
nera* 



Livro II. Titulo IV. 4*7 

fteraçaô , ou tra devota Imagem da Rainha dos Anjos com o 
titulo a enoíTa Senhora do Governo; titulo tãoíingular, 
<jue íoy o primeiro que encontrei , &que fe reconhece em 
tcdo eíknoíloReyno. Nio me fouberaõ dizer a cauía > nem 
-o motivo porque felhe impoz titulo taõ notável: o cerro 
he, que com cl!e devemos invocar muitas vezes a Míiria 
Santiílima , para que ellanos alcance de feu a nado Filho, 
faybamos governar bem a Cidade danofía alma, trazendo 
fempre em paz , & em concórdia os moradores delia , que 
áaõ as potencias , fentidos , & mais faculdades interiores. 
He efta Santa Imagem de efeultura de madeira ,tem rres 
palmos de alto ; mas de tanta mageftade , & fermoíura ,quc 
-cm todos infunde acatamento, & veneração :eflá cotloeadt 
xm a primeira Ce pella do corpo da Igreja da parte do Euarv-, 
ígelho. Também devia de fer joya , que devia dar àqwella Ca^ 
ia ofeu Padroeiro» 

Na Capella.que fica errj frente a eíla da Senhora do Go- 
verno , fe yé também collocada a antiga Imagem da Senhp* 
ca das Portas doCeo,que tambem he de muita veneração; 
-tem três palmos de eílatura , he de talha de madeira > & te?) 
«cm feus braços ao Menino Deos* 



TITULO LVL 

7) a antiga } drmilagrofa Imagem de noffa Senhora i 
dos OliVaes. 

HE a oliveira fymbolo de Maria Santiflima ; porque al- 
ia foy a arvore mais fecunda ,<k irais frutifera da Cu- 
ia de Deos, &affi-m acho entre osfymbolosfekclos do Pa- 
dre Cauíino, o da Oliveira de Pigmaleai, que diz: 
Oliva Tigmalemiú aurea\ ctiYittjsãmmofnfuu. 
iSobre o qual diz 1 hiloflrato , que na Cidade de Gadiz, jdu 

entre 



4*S Santuário Mariano 

catre os povos Gaditanos, havia huma oliveira fcyta por 
Pigmalcam filho de Júpiter Belo, obrada excellentemente 
de ouro , cujos frutos eraõ de eímeralda , & que eraõ co- 
piofifliaios, &fermoíos. E applicando Cauftno eílc íym- 
JboioaMariadiz: Oliva aureavirgoeffioliva áurea fruas* 
fera in domo Dei \frutttis [maragdin* vir tutu \qu\bm ipfa 
fupr amor talit atem no/Iram enituit. A oliveira de ouro he a 
Virgem Maria j oliveira de ouro , que na Gafa de Deos dà 
infinitos frutos de mifericordia \ & os frutos de eímeral- 
da | he a virtude da caflidade , & pureza- no s quaes venceo 
a todas as creaturas mortaes j & Saõ Hicrony mo acreícen- 
ta : Troecelltt cunãos , fupereminet umVerJis Mana \ canais 
tanto Venerabiltor, quanto glortofior , & quanto vir tute AU 
tijfvniextollitur adfublimia , tanto clarior refultat m glortd: 
flcnafiquidem gratta y plena <Deo , plena virtutibnt > non 
potejínonpofikreplenè gloriam claritatis Atern*. Maria 
«cm fuás virtudes fobrefahe a todas as creaturas, & he nei- 
-Jas mais eminente , que as creaturas Angélicas. E tanto de- 
ve fer mais venerada que todas , quanto hexntrc todas mais 
gioriofa:& quanto por virtude do Al tiffimo fe levanta fo- 
fere teda a foberania, tanto mais fcrmofa,&rcfplanaccen^ 
te appareçe na Gloria. Verdadeiramente he etfa grande òe- 
nhora cheya de graça, cheya de Deos ,& cheya de virtu- 
des i & aflim não pode deixar de eftar cheya de abundantil- 
íima gloria da eterna claridade , quem recebeo tanta abun- 
dância de dons para merecer o titulo de Mãy de Deos. 

Na Senhora da Oliveira > ou dos Olivaes , fe ve excef- 
ientemente verificado efle íymbolo; pois quizque a oavei-í 
.jracmçne fe manifeítou, fefle para nes oliveira de ouro, 
cheya de fruílos de mifericordia para todos os que a bui- 
cavão j & ainda hoje a bufeaõ ; fuppoflo que eíkja já muito 
cfquecidoofeumilagrolbapparecimento. 

A Congregação dos Cónegos do Euangelifla de 1 or- 
tugal teve principio pelos annos.de 1420. reynandQ W- 



Livro 11. Titulo LVL- 429 

ReyDcmJoaõoI. 6c o primeiro fitioquetiveraô fcyoda 
Igreja de noíía Senhora dos Olivaes, huma legoa de Lisboa 
para a parte doNordcík: a qual lhes offereceo o mefmo 
Prior que já nefíe tempo havia naquella Igreja (que era Pa-< 
rochia > & a mais antiga que fe fabe;a qual teria tido ; té alli 
muitos Priores antes delie. Aqui i ffiíliraõ alguns -tempos, 
fazendo vida de Anjos. Porém como o demónio fe cffendia 
muito do zeío com que daquella fortaleza conquiitavsõ ai-' 
masparaoCeo, fezqueoPriorretrataíTeadca^ão, ôedef- 
pédiífe aosfervos de Deos > que voluntariamente havia re- 
colhido tm aCafa da Senhora : a qual elles deixarão bem 
faudoíos da fua companhia , & prefença ; & fem duvida por 
cita razaô quiz a Senhora, que a fua Caía fofle deita Santa 
Congregação , & que os filhos delia fe fuítentaffem com os 
-frudos da lua Igreja: porque no anno de 1 48 f a unio o Car- 
deal Dom Jorge da Coita à Ca pella de noffa Senhora da Af- 
fompçaõ do Convento de Santo Eloy(aonde mandou fepul- 
taro corpo da Infante Dona Catharina > filha delRey Dom 
Duarte > & de Dona Leonor , que nafeendo em vinte &cin- 
co de Novembro de i^ó.morreo no de 1463.) &aquellc 
Convento he hoje o que come os dízimos deita Parochia , & 
qfeuReytoraprefenta o Vigário: &aíTim feviyo areíti- 
tuir a Caía àquclla Congregação , & a fer daquelles antigos 
Capellães da Senhora. 

Daqui fe pede colher quam grande fera a antiguidade 
da Imagem da Senhora dos Olivaes, & de feu rmlagrofo ap- 
arecimento , que he tão immemorial , que fe não fabe dei- 
te nada cem edrteza , quanto às çircunflancias : masconíta 
certâmtnre appàrecéra no troncode huma oliveira; & feliz^ 
pois nos manifeftou tão exceilente fruto. Na Sacriflía da- 
qiiella Igreja, nãoha muitos annos^ que hum imprudente 
Vigário .mandou arrancar o tronco, ou a parte, que da 
oliveira ainda feconfervava para teílemunho domilagrofo 
appsrecimento da Senhora , que era bem fe eternizaífe na- 
v <jueUe lugar. Daõ- 



43 o Santuário Mariano 

Dãothe a ella Sagrada Imagem o titulo da Senhora da 
FofariodosOHvaes: porque como em feu appareeimento 
fe lhe não (cube o titulo que tinha , pelo tempo adiante lhe 
vierão a drro titu 1 o do Rofario; não advertindo, que a oli- 
veira, &olivneshc o mais próprio titulo defla grande Se- 
nhora, & o de que ella mais fepaga, como Mãy que hede 
mifericordia. Mas por mais que lho pertendérão tirar, naò 
puderão; porque lèmprefe confervou o primeiro titulo da 
Oliveira, 6c Olivaes, (que devia haver já muitos por aquel- 
ledeítrito)mofírandoneík titulo a grande cílimação , que 
delle fazia. He efta Sagrada Imagem de efeulturade madei- 
ra , & ella em íi eílá mqflrando na férma fua muita antigui- 
dade; tem o Menino fobreobraço efquerdo, mas muito 
unido ao corpo , por cu ja razão cubr Indo , & veflindo a Se- 
nhora com roupas de fedas, & telas , não podem nunca con- 
certar ,& adornar com ellas brmo Menino* A Senhora tem 
de cltatura pouco mais de três palimsjhe muito trigueira; 
mas ifto procede mais da antiguidade, que da encarnação. 
Eftá collocada em huma Capella collateralda parte da H&pif- 
tola j obra muitos milagres ; &a pouca devoção dos minif- 
tros da fua Igreja , com o pouco culto com que lhe affiflem, 
fazem que a té fe esfrie , & os milagres , & as maravilhas da 
Senhora fe íufpendaõ. Eícreve da Senhora doi> Olivaes o 
Padre Meilre Franciícode Santa Maria nofeu Ceo abertOj 
ícChronica da Congregação de São João Euangeiiflá, 1íy« 
I. cap. <S* & liv. 2. cap. 25. 



■N 



TITULO LVIL 

Da Imagem denoffa Senhora de Monte Agudo > do 
caminho de Tenha de França. 

*T A eíirada que wy para o Santuario,& Cafa da Senho- 
ra de Penha de França , edificou Lourenço Pires de 

Car- 



Livro II Titulo LVIL 43 1 

Carvalho > Commiííario da Bulia da Cruzada , huma Ermi- 
d Vjue dedicou a noífa Senhora,debaixo do titulo de Mon- 
te Agudo , copia da milagrofa Imagem , fenão he a própria 
que appnreceo em Flandes junto à Cidade de Sichcn, do 
Ducadode Barbante , emhum monte alto , que por íua im- 
mmícià lhe deraõ o nome de Monte Agudo. Appnreceo cf- 
ta Imagem da May de Deos em o tronco de hum carvalho* 
que como fefoííe creatura fenfitiva, & racional, abrio o 
pey ro , ou o feu cavernofo feyo para a recolher em íi \ & a- 
quife fez aquella Senhora bufeada, & venerada daquellcs 
paizes por feus muitos , & notáveis milagres. 

\ Efta Santa Imagem que hoje fe venera no caminho de 
Penha de França da Cidade de Lisboa , trouxeraô de Flan- 
des as Religiofas Flamengas , quando defkrradas da fua Pá- 
tria , & Convento (como fica dito no titulo XXXVII.) vie- 
rão àquella commum pátria dos Eftrangeiros,a bufear o am- 
paro, & abrigo dos Portuguezes, que as favorecerão, & 
tratarão como a fantas , & recolherão como a Religiofas 
perfeguidas. A efla bendita Imagem tomou por fuaAdvogar 
da , & Patrona , Lourenço Pires de Carvalho , para que ella 
folTe a Auxiliadora , & perpetua Patrona dos illufires Car- 
valhos de fua familia \ & por efta caufa lhe dedicou aquelíc 
Templo , em que hoje he venerada. 

Ocomocíla Sagrada Imagem veyo àcafa de Gonçalo 
Pires de Carvalho,foy nefia maneira. Quando as Religiofas 
Flamengas chegarão a Lisboa , as recomendou ElRey Phe- 
lippe o Prudente (como fica dito no titulo XXXVII. .defic 
fcgúndo livro ) a Gonçalo Pires de Carvalho , para que ellc 
lhes affifliffe com todoo cuidado nas coufas de que ellas ne- 
cefíitaíTem :oqueaquelle virtuofo fidalgo fez de íbrte , que 
nãofó com íumma diligeeia as accommodou no íitio de nof- 
fa Senhora da Gloria, difpondolhe as cafas que alli havia,(& 
que hoje eílão convertidas em hum grande Palácio , que fez 
o Conde da Caítanheira) cm féxmz que pudefiem ficar mui- 
to 



43 % Santuário Mariano 

to a feu goífoumslhes fez edificar hum novo Convento, 9t 
huma perfeitiílima Igreja em o íitio de Alcântara , com ti- 
doo que era conveniente á fia reformajaõ; ôcemepaço 
de quatro annos > as fez paíTar ao íitio em qie hoje vivem/&: 
fobre iílo lhes afliitfe com grande caridade ao feu alivio , & 
regalo, de que obrigadas muito as Reíigiofas, defejáraõ 
dar a entender áquelle fidalgo omuyto que fe confeífavão 
devedoras ao feu caritativo zelo. Para final deíle feu reco- 
nhecimento lhe offerecérãohurm Imagem de noífa Senho- 
ra, que traziaô, que tinha o titulo de noífa Senhora de Mon- 
te Agudo , a qual havião falvado do furor dos hereges 
Olandezes/lepoisde padecer no fogo as irreverencias,com 
que aquelles cruéis Apoflatas procurarão conftimir , &a- 
brazar todas as fagradas Imagens ; permanecendo cila ille- 
fa contra a voracidade daqueíle elemento, fendo matéria de 
pào feco , & de carvalho. 

Querem alguns, que eíla Santa Imagem feja a originar; 
&aapparecidano carvalho do Monte Agudo junto da Vil- 
la, ou Cidade de Sichen ; porque nêftaconfíderacaòaderaõ 
aquellas Reíigiofas a Gonçalo Pires : & que a que ellas tem 
no interior do feu Convento he copia fua(qtie também trou- 
xeraõ deFknies,)&;attendendofebem no obrado da San- 
ta imagem mofíra muita antiguidade ; & affim fe pode crer 
feja efla a primeira , & a que no monte appareceo. 

Confervoufe efta Sagrada Imagem na cafa de Gonçalo 
Pires com toda a veneração, como joya do mayor valor, 
que poflfuhia o feu morgado, até que no annode 1692. Lou- 
renço Pires de Carvalho feu neto, lhe edificou huma pe- 
quena Ermida na fua quinta , junto ao Santuário de Penha 
de França , aonde foy collocada com 2 primeira fefta que fe 
lhe folcmnizou em 21 . de Novembro , dia da Aprefèiita caõ 
da mefma Senhora , & doitjicfma anilo í & vendo que fe aug- 
rnentavamuitoa devoção dà Corte, concorrendo a vifita? 
lacem frequência fervorofa >-íc lhe iníutuhio huma ltmm% 

dade 



Lkró II Titulo LVll. % 

dadc;porcujacaufaomefmo Lourenço Pires lhe mandou 
edificar outra Igreja muito mayor , que dedicou à meíma 
Senhora do mefmo titulo do Monte Agudo , &de Saõ Lou- 
renço , aonde de prefente fe vé collocada , & fe celebrou a 
primeira MiíTa em dez de Agofto dia de Saõ Lourenço do 
annode 1695. E para que o fervor da Irmandade mais íc 
augmentaíTe, impetrou da Sé Apoftolica copiofas graças, 
& indulgências para os feus Irmãos, como refere o Pa- 
dre Manoel de Coimbra na fua hiftoria. 

A Capellaeftá ricamente ornada com humeapricho- 
íb retabolo, emquefevé a Senhora collocada em o tron- 
co de húa arvore , que reprefenta o carvalho ; em cujo tron- 
co fequizmanifeftar aos feus devotos da Villa de Sichen» 
A Senhora tem palmo êcmeyo deeftaturaj hede carvalho, 
& tem o Menino fentado fobre o braço direito , & eftá com 
as mãos alguma coufa eftendidas ; & com ferem as Imagens 
tão pequenas , faõ muy lindas, & moftrão huma grande ma- 
gefhdc: efíaõ coroadas com coroas de prata douradas- A 
cílá Senhora dedicou também Lourenço Pires as fuás que- 
ítões feledas da Bulia da Cruzada ,que eftampou em Lisboa 
fioannode 1698. Efcreveda Senhora do Monte Agudoo 
íadre Manoel de Coimbra no livro que intitulou, Hiftoria 
dos milagres de noífa Senhora do Monte Agudo. 



TITULO LVIIL 

2>4 Imagem de no(fa Senhora do Ve [empar o > do Con- , 
Vento de Saõ Francifco de Xabregas. 

O Convento de nofla Senhora de Jefus , cabeça hoje da 
Província dos Algarves , fundado nç> valle de Xabre- 
gas, he muito antigo: efla Província fe dividio da de Por- 
tugal noanno de 15$$. àinilançtódelRey DomJoaõoIIT. 
Tom/ 1. Ee &% 



434 Santuário Mariana 

& foy delía o primeiro Provincial, o Padre Fr. Francifctt 

Quarefma , natural de Serpa. 

Neíle Convento he tida em grande veneração huma 
devota Imagem da Mãy de Deos, com o titulo do Defempa- 
ro.Mandcu fazer efta Santa Imagem António Cavide no 
annode 1660. pouco mais, ou menos > para a levarem m 
prociffaõ do Enterro ,que coftumão fazer es Religiofos da- 
qnelte Convento na Sefta Feira Santa. Logo que foy collo- 
cada nafua Capella , fe começou a accender cm todos o$ 
que a contemplavaõ hua taõ grande devoção ,(& principal- 
mente nos circunviíinhos ao Convento )que a toda a com- 
petência a defejavão fervir , como ainda hoje fervem. Infíi- 
tuiraõlhe logo huma grande Irmandade , fazendolhe grani- 
res feflas y folemnizandoa com grande defpeza no Dcmin- 
go do Bom Paflor , cm que eflá o Senhor expofío^ & tem 
por Juiza perpetua a Conde ça de Penaguião Dona Luifa 
Maria de Faro, & faõ mordomas, & irmãs da mefma Irman- 
dade muitas Senhoras da Corte. 

A Imagem da Senhora he fermofiffima , &eftá infun- 
dindo devoção a todos ; he de k feis palmos deeíktura ,eftá 
veítida de roxo , com as mãos poflas , com manto , & cape- 
lo , moflrando nefta figura o fentimento da aufenciadoSan- 
tifíímo Filho. Eftá coliocada em huma tribuna de huma da$ 
Capellas do corpo da Igreja , & da pane da Epiílola , aquaj 
Capella adornarão os Irmãos de talha dourada. A írmanda-* 
de he numerofa,& por cada hum dos Irmãos que morre, Ihç 
manda cila dizer cincoenta Miíías x & fazer hum Cfficio# 



TITU- 



Livro II. Titulo LIX. 43 jr 



TITULO LIX. 

U}a miUgrofa Imagem de noffa Senhora dos /njos , que d$ 

Religiofa* da Madre de t)eos Verterão no Ulterior dofett 

Convento , com o titulo da Senhora do Abbadinho* 

J A falíamos no muito reformado Convento de noffa Sè« 
nhora Madre deDeos em o titulo XX. do primeiro li- 
vro, que hede ReligiofasFrancifcanasDeícaíças , tratando 
da milagrofa Imagem , que fe venera na fua Igreja, Agora 
trataremos de outras duas , que fe venerão por milagrofas, 
dentro do feu Convento. A primeira he a Senhora , a quem 
as Religiofas puzeraõ o titulo do Abbadinho. A origem de- 
lia Santa Imagem referem as Madres daquella Caía nefta 
forma- Havia naquelle Convento huma Imagem da May de 
Deos com o Menino Jefus n®s braços,de efcultura^Sc obra- 
da empedra: mas o tempo as tinha maltratado de forte, 
pela fua muita antiguidade , que acháraõ as Religioas não 
era decente , que eiíivcffem em publico; nefta confídeMçaõ 
as mandánõ desfazer,& lançalas em hum forno de caiaque 
alli perto devia hwer) para que nelle com o fogo fe desfia 
zeíTem. Fez-fe efta diligencia , como as Religiofas ordena- 
rão , mas desfazendofe os corpos, as cabeças, aífim a da Se- 
nhora , como a do Menino, não fó ficáraõillezas, mas mais 
perfeitas ; &nefta forma as entregarão às ReUgiofas,q â vif- 
ta da maravilha lhe mãdáraõ fazer hus novos corpos de ma- 
deira detalha, & encarnar, & fícáraõ taõ fernnofas,& perfei- 
tas,^ he hua fufpenfaõ. , & aífim colíocáraõ a Senhora em lu- 
gar, em que a vaõbufcarcontinuamente ; pela grande devo- 
çaõjcom que lhe ficáraõdepcis daquêlle íucceíío. A eaufá do 
titulo parece naíceo de fer oroík> daquelie belío Menina 
multo gordinho, Sc devia alguma dizer que o Menino pa- 

Ee z recia 



43^ ' Santuário Mariano 

lecúihum Abbadinho; &comonaõ fabiaõquc titulo efpe- 
ciai tivefle a Senhora , daquella occafiaõ a começarão a inti- 
tular neíla forma. Todas as Religiofas daquelle fanto Con- 
vento tem grande devoção comeíta Senhora , & com o 
Santiffimo Menino, a quem òfferecemoque lhe daõ de fru- 
tas , ou flores, que parece a todas rouba o coração pela mui- 
ta graça , que moftra > & affim he os amores de todas aquel- 
las fantas Religiofas. Defla Santa Imagem fefazmençaõ 
nas Relações daquelleConvtnto. 



TITULO LX. 

Da Imagem de nojfa Senhora da Varanda , domefm* 
Convento. 

A Segunda Imagem , que nomefmo Convento fe vene- 
ra com grandiffima devoção de todas aquellas Reli- 
N giofas,he outra Imagem, affim mefmo de pedra , & tam- 
bém muito antiga ;& tanto, que querem as Religiofas da- 
quelle Convento y feja do tempo da fundação, yO u que as 
Fundadoras a trouxeíTem comfigo; eu crcyo que foy dadiva 
da Rainha Fundadora. He eíla Santa Imagem muito mila- 
grofa ,& femprenaquella Cafa foy venerada por tal ; o que 
confirmou fempre a experiência ; porque todas as vezes, 
que em neceffidades publicas , como nas faltas de agua , ou 
de Sol , ou outras de trabalhos, & enfermidades , fazendo- 
lhe as Religiofas novenas, nunca as finalizavaõ, que naõ 
alcançaííemoque pediaò;& alem diílo todas aquellas Reli- 
giofas , que em particular a bufeavaõ ,& imploravão ofeu 
patrocínio em algum trabalho, ou affiiçaõ própria, ou de 
íèus parentes, fempre "acharão , & achaõ na fua piedade alí- 
vios , confolaçaõ , &bons defpachos. Também nas Rela- 
ções daquella Cafa fe fazmenção, defla Santa Imagem, & de 

fua* 



Livro II. Titulo LXL 437 

ítias rm milhas. Efíá collocada ema parede de hurra v?rm~ 
da,&poreftarazaõlhederão o titulo delia, fem duvida 
por lhe não faberem titulo próprio, que he final de fua mui- 
ta antiguidade % he de meyo relevo , & ao redor da varanda 
referida , eftaõ emqiíatro nichos outras quatro Imagens de 
barro de azulejo muito perfeitas, que devia dará Rainha 
Fundadora. 



TITULO LXI. 






D<* Imagem de noffa Senhora dm To kres y do Convento 
<Im Religiofas de Vtlla- Longa. 

HE o poder de Maria ta 5 grande , que nao ha quem o -., 
pofla contraftar; aífim o diz oCretenfe : ?ote?jtu i , c " e * . 
yudcnnpoteít labefaftari ; & Bernardo admirando os po-Orat'.t2 
oeres defta Senhora exclama ncíla forma : Ofoemina fingu- de Af- % 
lariter Veneranda > fuper omnesfcemmas admimbilis ,paren-fitmf>u 
twn repiratrix y polferorum Vivificatrix.Tudo pode cila Bem. 
grande May dos peccadores, para amparar , & defender a hom. ii 
feusfilhos do infernal Fharaò, & de íeus tartarcos Egyp-/*P Mi fc 
cios. Extenèjti manam tuam , cantou Movícs,*^ deVora-fa 'fi* 
yit ecs terra iQuizcttcs Senhor aífolar o poder dcPharaò, 
que vinhs ferinefo fogo contra o povo de Ifrael ; & que fi- 
zefks ? Moflraftes osvoiTos poderes: Extendltti manam 
tuam: não foy neceíTario muito ftrro , nemftiuito fogo; ef- 
tendefles hum pouco a mão : Et deVoraVit eos terra ; todos 
fe virão afogados no mar roxo : Tamfacile^áix Cayetano) 
wiraculumftcir ,acfi dumtaxat manam extendiffit:&cha- 
mou ao mar terra, deVoraVit eos terra yCommyRtvlo; para 
tnoíirar, que foy naufrágio fem remédio. Qncm no mar 
vay ao íundo , muitas vezes torna aíTima ,& eicapa com vi- 
da ; mas quem na te ira he tragado, &fepuitado, bem fe lhe' 
Tom. í. Ee 5 pode 



43 8 Santuário Marfafi» 

pode ref#r pela alma 3 acabou ,& perccec. Tragotw>Sf) m#t 
como fe os tragara a terra ; porque nenhum fahiocom vida* 
'Hymn. Mas que mar eracíte , & que terra? O mar era Maria : Maré 
Grac. Jcmcrgens tvtelUgibilem 'Pbaraonem, (como o cantão os 
*P*& Gregos no feu Hymnò ) porque n favor dos pcccadorcs ha 
Bat. p. fe f cr M â?r j a mar j p âra a f^gar a fcus inimigos ; & fará , que 
>**' corno chumbo defçaõ ao profundo , Pharaò, & todoses que 
o acompanhaõ. Ha de fer terra , como diz Santo Hdefoníò: 
í l' T erra ^ e í ua Verttas oritur ; para fepuítar , & íòverter aos 
timtltt infernaes inimigas j," quando, pertendem tofferider ? & perfe- 
""s.Mtr. guiraos que de todo o coração fabem fervir , venerar , & 
u j. bufear a tíh poderofa Senhora : & eis-aquios podtrcrs de 
Maria Santiííima. Todoseíles experimentei)., os que implo- 
raõ o feu patrocínio por invocação da fua milagrofa Ima- 
geij&dos Poderes, -r 

T res legoas de Lisboa rio affima, para a parte do Nor- 
te fica o lugar de Villa-Longa > ou Via- Longa , como di- 
zem muitos ;& diílante daVilla de Alverca', meya legoa 
paraocertaõ. He efle lugar nomeado pelo Religiofo Con- 
vento que nelle tem a Ordem de Saõ Francifco de Religio- 
fes , que obfervaõ a Regra de Santa Clara. Foy Fundadora 
delleD. Brites de Caíkllo- Franco, filha de Hcytor Men- 
des Valente , Alcayde mor de Terena, & de Dona Mecia de 
Caftello-Branco; alcançou para eíla fundaçaõ%E*evc de 
Pio IV. noanno de 1561. & o meímo Pontífice declarou, 
cpe íoífe dedicada a noíTa Senhora dos Poderes ;com que ef- 
te titulo de PoÉkres o devemos fuppor foy dado pelo Efpi- 
riro Santo, pois foy impofto peio feu oráculo y fem atten- 
Ç2Õ particular. 

A primeira Prelada > que teve eíla Cafa , foy a mefma 
Fundadora, que entregando tudo o cue tinha ao Conven- 
to, que era muito , também fe entregou a íi mefma nel- 
le ao Senhor. Era efla Senhora tão perfeita obfer vante àã 
Regra de Santa Clara, que parecia aqudla Gafa humCeo; 

cm 



livro Tl Ttmk 1X1 %$ 

c^Jtodais as obras de virtude ella era a primeira ,. ílcoul o 
zelo de que todas foffem obfervantiílimas/em reparar nos 
feus annos , & muitos achaques } a nenham trabalho fc 
poupava , & tanto fe apphcavaô asfobreditas aos fantos 
exercidos da Religião, que parecia aquelía Gafa huni Parai- 
fo. Nella he tida efrt grande veneração , não fó entre as Re - 
hgiofas , mas entre todos os de fora , a milagrofa Imagem da 
Senhora dos Poderes , que he a Padroeira do Convento /& 
delia recebemmuitos favores. A origem defta Santa-inià- 
gem jcomo o referem as Religiofns , heque a trouxera > 
mefma Fundadora;?* que lha havia dado a Rainha Deha Câ~ 
tharina,mulherdelRey Dom Joaõo IILOutrosqucrenr^ue 
-ella Santa Imagem amandaffe de Parma a Duqueza Dória 
'Maria afilha do Infante Dom Duarte-, a fua Irmãs a Serftó- 
raDonaCatharina; & que efta a dera á Fundadora porfer 
íuacollaça. Q<iãdo a Fundadora fez a íupplica ao Pontífice* 
pedia que o ti t ulo da Cafa foífe da Encarnação : porque com 
•clle invocava aquelU Santa Imageioft ; mas como o Santo 
Pontífice , movido peloEfpiritò Santo, lhe irftpofc odos Po- 
deves, com eile titulo fe denominou a Cafa, & invocarão 
dalH por diante a Santa Imagem. Obra Deos por meyoda 
fua invocação muitos milagres , & maravilhas ; fem embar- 
-godeque nunca fe feznàqueWa Cafa memoria delias ,&af- 
'Émnaôhànadaauthentico. Faz memoíia daquelía Cafa, & 
*k Senhora dos Poderes o Martyrofbgio Mihorita j, falfaii- 
«fo da Fundadora, Gonzaga part. p cap. 17. Cardofo no 
AgiologiotoiB.z. pag« 223. i.c.&outro^&atra<$íçaôdís 



Eè 4 TÍTU-. 



44<> Santuário Mariana 

— gj iií — i ; — 

TITULO LXII. 

Da Imagem de noffa Senhora do Veflerro , do mefmo 
Convento de Villa-Longa. 

NO mefmo Moíteyro de noffa Senhora dos Poderes de 
Villa-Longa , fe venera outra Imagem da May de 
Deos , com o titulo do Deflerro , que também obra muitas 
maravilhas. Os princípios, & a origem deíía Santa Imagem 
referem as Religiofas netfa ma neira.No tempo em q fe fun- 
dou aquelle Convento, fe fezhíícemeteriodeduasnaves, 
para fepulturas das Religiofas; na cabeceira delle íe fezhuà 
Capella , aonde fe dizia Miífa nos annos mais atraz , pelas 
Religiofas , nos dias de feu falecimento , & no dia da Com- 
memoraçaõ de todos os defuntos, com licença ,que para if- 
fo tinhaõ. Era efla Capella toda de alvenaria , & toda pinta* 
da afrefeo, aílim a face interior , como as ilhargas, que 
eraõ largas. Em a do Evangelho eílava pifetado oEuangdi- 
flaSaó Joaõ; & na reíkira , que era apainelada da mefma 
pintura afrefeo , tinha muitos Santos da Ordem; & na 
ilharga da parte da Epifíoía efiava pintada em outro qua- 
dra a Senhora indo para o Egy ptp a pé com o Menino Jefus 
pela mão, &SaõJofeph igualmente atraz da Senhora, com 
nuji) báculo aohombro, do qual pendia hum ceflo com os 
iniirumentosdòfeu cfficio; & hum Anjo diante guiando 
huma jumentinha ,& muitas arvores , & palmçiras Cei- 
fas, como entrada já do mefmo Egy pto, & o Menino Jefus a- 
ponrando para elle : & tudo era de excelíente mão. 

Paífáraõ alguns annos , & naõ fe contentando huma 
Religiofa irmã das Almas , fez outra Capella fronteira à re- 
ferida y aonde fe celebravaõ todos osmefes os officios das 
Religiofas j & à outra íizeraõlhc humas portas até o meyo^ 
4?TP: I 5l foros, 



Livro II. Titulo LXI. M* 

fortes, & bem lavradas 7 com que as Imagens ficavão pa- 
tentes. Com a occafião deflas portas , fe guardavãonaqueí- 
la Capella, como em cafa de defpejos, os ardores das fuás 
prociífões^&porrazãodeile miniflerio naõeílava acuella 
Capella com muito aceyo. Succedeo pois pelos annos de 
1 675. ou 76. que a huma Religiofa chamada Sor Archange- 
la Maria da Exaltação, lhe naíceíTe fobre o olho efquerdo 
hum caroço , que dizinõ fer cancro > & eftava fobre a capei - 
lada , & não íó lhe caufava grandes dores , mas lhe impedia 
avifla; andando com eítaafflição,lhediííe outra Religio- 
fa, chamada Sor Jacinta da Eflrella , freira virtuofa , que fc 
pegafle muito com a Senhora do Deflcrro, que eflava pinta- 
da na Capella das Almas i ella o fez aílim , & foy tanta a fua 
fé , que em nome da Senhora do Defterro , pegou comhum 
lenço no caroço, que era tamanho , ou maycr que hum 
tremoço inchado , & o arrancou fora , ík ainda que deitou 
folgue , ficou fãa , & fem lezão. 

Reconhecendo efla Religiofa , que ifio fora hua gran- 
de mercê , 6ç favor de noífa Senhora , p publicou por tal. 
Com ifto , accendendofe o fogo da devoção , começarão to- 
das a recorrer à Senhora em feus trabalhos , & enfermi- 
dades ; & não fahião fruflradas as fuás efperanças ; porque 
todas as petições que lhefaziaõ, fahiaõ bem defpachadas 
.çoraqudlafobçrana Rainha* Algumas Religiofas devotas 
-tratarão logo de concertara Capella da Senhora : & princi- 
palmente huma moça chamada Antónia de Soufa y criada da 
Eícri vaã, que era muito devota, & aílim cuidava do fervi* 
ço da Senhora com grande cuidado. 

InfUtuiraclhe logo huma Irmandade ^ forrarão a Ca- 
pella de berdo entalhado para fe dourar, & mandarão fa- 
zer a Bento Coelho, iníigne pintor deíles tempos, hum 
quadraaomefmomyfreriodo Deíkrrd> coufa fingularcoru 
muitas ftganas , que fefiejavão ao Menino, & muitos Anjos 
com flores, & frutas., Oináraõ a Capella de ramos , caflj- 



44 1 Santuário Mariana 

• çaes^&de outras peças: masnãoconfentíraõ asReKgu> 
fas fe buliíTe m fua Senhora do Defterro } que eftava pinta- 
da na parede a frefeo; &fó lhe permitirão fe puzeTe Fuui* 
caixilho de bordo entalhado para fe dourar. Huma Reíigio* 
la lhe deu numa alampada > & outras aalirmiavaõ aos dias. H 
foy crefeend o tanto a devoção para com a Senhora , que lhe 
fizeráõhumarcocxceílentede pedraria > & humas grades 
depào preto ,<k todos os Sabbados felhe canta ohymno 
gtoriofa Virginwn > com verfo , & oração. No íeu óh fe lhe 
ftzfefta, em que fedaõ bolinhos , cera > & tremoçosis 
freiras; & no mefmo dia fe faz eleição das peífoas , que haô 
de fervir à Senhora. Os milagres que obra ainda hoje, faõ 
tnuitas , & grandes. Rcpáraõ as Religjofas, que as Imagens 
adiantarão ospaifos para a banda direita , para ond- o Me- 
nino apontava > para o E^ypto. TodaSítilas coutes nos refe* 
rirão as Religiofaâ em rcla^aõfua. 



m i ■ .. i w ■ ■ I i , ii 






T I T U L O LXII. 

®a Imagem de noffa Senhora do Rofario,do mefmê ' 
Convento de Villa-Longc^ 

NO mefmo Convento denoíTa Senhora dosPodereSj 
tem as Retigiofas daquella Cafa hua Capellana qua*. 
dra direita docoro de cima y em a varanda \ na qual eílá col- 
locada Jv8a imagem de noíTa Senhora doRofario muito jm* 
lagrofa \ & pelos grandes favores , que delia recebe aqu>ei$ft 
Communidade > a íervem com grande devoção; Todos os 
pri-meiros Domingos domes lhe fazem proctffaõ com La- 
dainha- pelas varandas , &em todos os Sabbados lhe cart* 
ta5 a Salve com feu verfo y & oração y & o hymno A\k 
marh jttil.i > excepto a devoçaõde cada huma> porque ta- 
dos os dias '^a&bufcar aquelia Scoíwt:* } & a enGoaisiadajffc 

na 



Livro II Titulo LX11. 443 

tialiia protccçí!õ;& aqui lhe vãorefar também o terço» 

He efla Santa Imagem de pintura , pintada em pano, 
mas muito fermoíà. Nctfa mefma Capella colloccu huma 
.Religiosa outra Imagem pequena de veflidos , tambemeom 
o titulo do Rofario ; a qual Religiofa a venerava muito , por 
fafcer , que emcafáde feus pays > de donde a havia trazido, 
obrara muitas maravilhas. No anno de 1694. fendo Ab- 
badeça fegunda vez daquella Cafa a Madre Sor Maria An- 
tónia de Saõ Joaõ , filha do Príncipe de Cândia , ouve huma 
grande feca. AViíía deíle trabalho, que abrangia a todos, 
ordenarão as Religiofas huma prociffaõ , & nella lévavaô 
com grande veneração a Imagem pequenina da Senhora , & 
continuarão eílc fsnto exercício por efpaço de nove dias, 
correndo as varandas , & dormitórios. Succedeo fcomo ti- 
nhaõ o Convento arruinado, &a Cornmunidade eítava em 
taõ grande aperto, que jáfcnaõ davareçaõ às Religiofas) 
levarem no uítimo dia a Senhora por todo o Convento em 
prociíTaõ, indo aocelíeiro, para que lhe defle paõ, & aos 
fornos ; aqui fe achou fogo na cafa da lenha } que eítava de- 
baixo delia, que milagrofamente naõ tinha jáabrazadò,& 
aflòladoaquelle pobre Convento. Conheceofe o fogo pelo 
fumo, &efpecu!andofe o tempo, que havia alli eítava, fe 
achou ferem três dias ; porque fe accendèra o forno pa- 
ra certo miniílerio ( porque como naõ davão p?õàs Re- 
ligiofas , rara vez fe accendia , ; & de fe guardar hum pou- 
co de borralho deite na mefma caía , fe foy accendendo fem 
levantar chama 7 &aífim ficou fupprimido aquelle elemen- 
to j & f e conheceo fora efpecial favor da mefma Senhora, 
& que cila mefma intercedera a feu preciofo Filho, infpiraífc 
às freiras foffem por aquelles lugares \ por onde naõ coílu- 
*navãoir com a prociíT2Õ,para que aílim fe reconheceífe o fo- 
go^ fe remediaífe o damnodo incêndio, q eílava próximo, 
com o qual certamente fe reduziria a cinzas aquella Cafa. 
Elias Santas Imagens faõ tidas naquella Cafa em gran-' 

de 



444 Santuarh Mariano 

de veneração , & as Religiof ts em feus apertos , & necefft- 
dades acodem à amorofa Máyde piedade , &ítmpreexpe- 
rimentaõ nelía grandes favores. 

. ■ , , , - 

TITULO LXIII. 

■ 

7)a milagrofa Imagem de noffa Senhora do Trefepio, 
dome fino Convento. 

DUtra milagrofa Imagem da Rainha dos Anjos fe ve- 
nera no mcfmo Convento de Viila- Longa com o ti- 
tulo de noffa Senhora do Prefepio ; à qual fervem as Reii- 
giofascom fenrorofa devoção: cuja origem íe refere aílirn. 
Havia naquelIaCafahumaReligiofa chamada Dona Maria 
da Aprefentação^a família dos Gamas, & Barros j a qual 
foy Abbadeça no mefmo Moíkiro : era efla Religioía tievo- 
ti/fímadenofía Senhora ,& tinha no Oratório dafua cella 
ftuma Imagem da mefma Senhora^de veíudos,de altura de 
três palmos. As Religiofas daquelle Convento pela termo* 
fura , Sc grande perfeição defla Santa Imagem , fe aprovei- 
tavaodella para duas feflas; & a Madre Dona Maria a em- 
preflava com grande goílo: era a primeira em afcfta'defua 
Affumpçaõ. Na vefpora deite dia ,orJemvaõ huma procif- 
faô, que começava àmeya noite , & íahia do coro, Scnella 
alevavaõ pelas varandas y claurtro , & dormitório > debai- 
xo de hum palio > com grande fefta ,& tornava 5 a rtcoiher- 
íccmomefmo coro. lílofaziaô todos osannos pórcoílu- 
me antigo t & muito louvável naquella Cafa , & no coro a 
tinhaõ todo o dia de fua gíoriofa AíTumpçaõ. 

A fegunda fefia era no dia do Nafcimento de no/To rSW 
nhorJefusChriíro. Neíte tempo apunhnõno Prefepio os 
treze dias até os Rey s. Fora deitas duas fokmnidades > a tu 
nha a Madre Dona Maria fempre em oOratorio da ília cella, 

& 



Livro II. Titulo LXIIL '445 

& fempre com grande aceyo, [concerto , & perfeição. Por 
morte defta Religiofa ficou a Santa Imagem a huma fua fo- 
brinha chamada D. Maria das Saudades, &ella tanbem a 
concertava, &dava para efías duas feflas. Era efia Santa 
Imagem muito antiga , mas muito linda, como fica dito, 
mas com o tempo eítava já a encarnação como defumada, 
mas femoutraalguma imperfeição. No anno de 1673. tóv- 
do Abbadeça daquelle Convento a Madre Ser Maria da 
Natividade, puzeraõ a Senhora no Prefepio, que fempre 
coflumão fazer no coro; &nasvefporas do Nafcimento, 
pelas nove horas da noite, foy huma Religioía chamada 
Sor Jacinta da Eílrella já defunta a concertar a Senhora , 5c 
a per o Menino no Prefepio , porque o tinha por fua conta, 
& fe lheencomendavãoeflascouías,porfer Religiofa de 
grandes virtudes ;& reparando na Senhora, a vio com hum 
femblante como afflido , & fuando, & também reparou, 
.que o Menino cfíava jnflammado. Affuílada com o que via, 
foy dar conta do que achara a outra Religiofa grave, que 
foy também Abbadeça , & que era fua companheira neflas 
oceupações do concerto das Imagens. Refpondeolhe eíla 
com prudência, que não reparafle; porque feria algúa hu- 
midade das flores , que lhe coftumavaõ pôr no arco em que 
a Senhora eílava collocada. 

Diflímulando efla Religiofa , fecretamente foy ver a 
Senhora , &aachou namefma forma , que a Madre Jacinta 
lhe havia dito, &comoslagrimaes vermelhos; hia já pre- 
venida com hum lenço novo , & com elle alimpou , & en- 
xugou o rofto da Senhora, & vioquenaõ era humidad* 
das flores : porque ficou o lenço muito molhado , & com nó- 
doas fanguineas. Depois difto fe vio , que a Senhora torna - 
vaaiiiar % & depois de ou trás experiências, que fefizeraõ, 
fe vio que ofuor naõ era detraufa natura?. A/viíla deite pro- 
dígio fe começou a romper o fcgredo pela Gafa: acediraõ 
asReligiofas, & também os Padres Confeífor, & Capei- 

lães^ 



44^ Santuário Mariano 

laes ,os quaes admirados do fucceffo , louvarão a nofTo Se- 
nhor ; & o Confeífor com hu fanguinho plímpou o rofto da 
Senhora. Vinte ? & quatro horas durou o íuor ; & huma Re- 
ligiofa referio depois do fucceflTo,que fendo recém profeífa, 
vira tudo } & que as lagrimas eraõ como aljôfares , & que os 
cabellos do toucado , de molhados eítavão pegados rao rof- 
to da Senhora , & que humas vezes fe via inflammada, & ou- 
tras deímayada. 

Verdadeiramente eítas maravilhas fempre fígnificaô 
alguma coufa grande: porém naõ fe pôde alcançar? qual 
ella foíTc \ & por juizos que fe fizeraõ , fe confiderouque 
podiaô fer cftes , ou aquelles fucceífos , que naquelles tem- 
pos acontecera©. Também declarou a mefma Religiofa, que 
o Menino, que era oEfpofodasprofeíías ., & Imagem de 
rara perfeição, citava humas vezes roxo, outras corado, 
& outras defmayado : & que deitas mudanças , ou do fuar, 
lhe ficáraõ algumas marchas , que ainda perfeveravaõ em 
ofeucorpoíinho. Eítavaõ as freiras à viila deitas maravi- 
lhas, atónitas ,&cheyas de medo: choravão muitas lagri- 
mas^ pediaõ a Deos muitas mifericordias -,& que permi tif- 
íe foflem todas eítas coufas para Tua mayor honra , h. gloria. 

AViita deitas prodígios fe fabricou à Senhora huma 
nova Capella , em que acollocáraõ,& ao foberano Menino, 
que fica na frontaria do coro fobre as cadeiras das Preladas, 
aonde fe ve ao Menino Deos declinado em hum braço, & 
a. Senhora de joelhos de huma parte adorando ao divino In- 
fante^ da outra parte ogloriofoSaôJofeph feu Ayo. As 
maravilhas? & os milagres ?qne a Senhora obra , faõ innu- 
meraveis , aííim com o azeite da fua alampadn, comoconvas 
fitas tocadas nella, mantos, ou contas; nãofó nas Reli- 
giofas, mas em todas as peiToasde fora que a invoerõ. As 
mulheres em feus partos invecaõ fempre o favor deíia Se- 
nhora do Prefepio, & fetemviílo calos cfiupendos deita 
qualidade. 

TÍTÍf- 



livro 11. Titulo LX1V. 447 

_ 



TITULO LXIV. 

Da mlagrofa Imagem de noffa Senhora da Saúde, quefe 
Venera na Tarocbia de S- Scbajítaò da 'Pedreira. 

NA Parrochia de Saõ Sebaftiaõ da Pedreira , extra mu- 
ros da Corte 7 & Cidade de Lisboa \ para a parte do 
Occidentc > he tida , &bufcada com grande veneração da 
piedade do povo da mefma Cidade , amilagrofa Imagem de 
noíía Senhora da Saúde. Heefta Santiffima Imagem da Rai- 
nha dos Anjos muito antiga , o que fe reconhece delia meí- 
ma: porque alem de fer venerada na antiga Ermida } mof* 
tra fer collocada nella em fcuS princípios \ fe he que naõ he 
muito mais antigo o feu principio. Se o Patriarca de Ethio- 
pia o fervo de Deos Dom Joaõ Bermudes a mandou fazer, 
& a collocou na Igreja velha \ ou Ermida antiga > naõ conf- 
ta; nem fe elle movido da devoção da Senhora efcolheo a- 
quella vivenda , por ficar mais Viíinho à fua cafa \ & eu a ef- 
ta coníideraçaõ mais me inclino: porque tenho a Senhora 
por muito mais antiga. 

A ultima vez que o Patriarca Dom Joaõ Bermudes veyo 
da índia , foynoannode 15^9. no reynado de ElRey D. 
Sebaftiaõ, que lhe era taõ affeiçoado pelas fuás grandes vir- 
tudes , que muitas vezes o hia ver, & communicar a Saõ Sc- 
baftfaõ da Pedreira, aonde o fervo de Deos vivia y &para 
fcnde fe havia retirado.Neíla Ermida aonde era toda a fiiaaf- 
íiflencia ,& aonde fazia muitas efmolas aos pobres , cele- 
brava tedos os dias ^ & com a Senhora da Saúde tinha mui- 
to efpecial devoção , & diante delia orava & perfiítia. Foy 
afuamortenoanno de i57o.&mandoufe fepultarà porta 
da antiga Ermida do Santo Manyr ,âe dorde otreskdársõ 
depois para a Igreja nova adezafeis èt Outubro do anno 

de 



448 Santuário Mariàn$ 

de 1 6^. Sc devia haver pouqos annos ,que a Ermida fe ha- 
via erigido em Parochta. 

He efta fagrada Imagem da Emperatriz do Ceo, de ro- 
ca , & de vertidos , & tem muitos , & muito ricos de varias 
telas, & cores das que ufa a Igreja, que fe confervão em 
dous ,ou três caixões. Os feus devotos quando fe vem em 
algum grande aperto , ou trabalho , prometemlhe hum vef- 
tido, ( os que íaõ , & lho podem fazer, ) & logo confeguem 
tudo o que pertendem , de que referem o Parocho , & ou- 
tras peííòas particulares fucceíTos. Muitos milagres fe re- 
ferem por tradição ; porque os Párocos naò cuidaõ de fazer 
memoria delles por eferito; & oadlual refere muitos, & 
notáveis, que deixo de referir, por naõeftarem authenti- 
cados ,nem eferitos. Não tem na Igreja merrorias,nemfí- 
naes, porque os não de vemeonfentir, por eftar aCapclU 
toda adornada de pinturas guarnecidas de talha dourada* 
Efíá colíocada em hum nicho do retabolo da mefma Capei- 
la mor à parte do Euangelho } & em correfpondencia lhe fi- 
ca o gloriofo Martyr Saõ Sebaííiaõ da parte da Epiftola. 
Tem efla Santa Imagem de eíhtura féis palmos, & ao Me* 
nino Jefus fentado fobre o braço efquerdo > que eflá com 
muita graça olhando para os queentraõ na Igreja , como 
quem os convida, & chama a que entrem. Eítá a Senhora 
toucada com toalha ao antiguo , & com huma foberana mo- 
deftia com osolhos baixos. He de muito mageíiofa prefen-* 
çajtemaffim a Senhora como a Imagem do Menino prteo- 
fàs coroas. Feftejafe com muita devocaõ, & grandeza; por- 
que todos adefej^õfervir, para lhe merecerem,o alcançar- 
lhes a faude , & vida eterna, 



TITO 



Livro, II Titulo £W. 449 

_ - - i > ■,-,„■,' 

TITULO LXV. 

Da milagrofa Imagem de noJJ a Senhora da Fiedtde, 
do lugar daToVoa. 

D Grande morgado da Povoa, a que deraõ o nome de 
I>. Martinho, pordifferença de outros lugares que 
tem também eftenome/oyinflituido no anno de i}48.rey- 
nando em Portugal ElRey Dom Affonib o I V. Confirmafe 
fernefteanno,comhuma pedra que fevè levantada naef- 
trada,naõmuitodiílante da quinta , ©u Palácio dos Con- 
des. Nefta quinta , que poífuem por herança de fucceíTaõ os 
Condes de Villa-Nova de Portimão , he tida em grande re- 
verencia , & veneração hua Imagem da Rainha dos Anjos 
, muito milagrofa, a quem daõ o titulo da Piedade; ve^feef- 
ta Sàntiífíma Imagem da Mãy de Deos çollocadi em humà 
-gruta r ou lapa ar tificiofamente obrada de pedras crçfpas* 
& tofcas , a qual terá de comprimento quatorze para quinze 
palmos , de largo oito ,& de alto ate dez palmos. 

Eftá efta fagrada Imagem de joelhos, & comas mãos 
cruzadas , & fechadas huma com a outra, como dernonftrá- 
. çaõ expreífada doíentimento que lhe caufa o ver morto aa 
Author da vida feu amado Filho, a quem moflra contemplai 
na Cruz, & affím ft vè com o roíí o elevado. Ao feu lado dt~ 
reito fe vè oEuangeliíta S. Joaõ, também com mayor elsva- 
, çaõ norofto; à parte efquerda fe vè a Santa Magdalena; m^s 
r cíla eflá com o roflo inclinado, & com o vaio dos preciofos 
.unguentos com que pertcndia ungir ao corpo do Divino 
Meftrc ;& apartado da Senhora fe vè Cernis perto dos que 
tntraõa adoralc)lançado fobre hum colchão rico ao Santif- 
limo Filho morto , & a cabeça reclinada fobre duas almofa- 
das de hum brocado de ouro muito preciolò de cor parda 
Tom. li. Ff l ~ deu- 



$5*© Santuário Mariano 

çíçura^&cuberto comhum panno de primavera encanta? 
da. Aos lados do Senhor , & Redtmptor Jcfus Chrifto eftaõ 
dous Anjos,oada h õ eom feu cailiçal de prata de bom feitio, 
& antigos , com velas que fe açcendem em alguas occaíipes, 
quando vay alguma peílba a ver aejue He Santuário. Saõ to- 
das aquellas quatro imagens da natural proporção de hum 
horrem ; faõ formadasem pedra , mas de excellente efeultu* 
ra,& muito devota todas; &affim no fentimento quere- 
prefentaõ, caufaõ muita devoção , & ternura em quantos as 
contemplaõ. 

Quanto à origem, oque achei foy o dizerem me que a* 
quella Sagrada Imagem era alli venerada, havia mais de 
quinhentos annos :iftonão tem fundamento ; eucreyoque 
a fer muito antiga > fe mandaria fazer no tempo , ou no arr- 
no em que fe fez aquella quinta;entaõ fe lhe faria aquella la- 
pa, (fem embargo de queellanaõme parece muito antiga) 
aonde os fenhores delia acollocariaõ na forma quefevé. 
Depois por refpeito da veneração da Sagrada Imagem, ao 
que fe entende, fizeraõ hua entrada, ou caminho por aquel- 
la parte , comhuma porta no fim para ascafas , a qual fará 
de comprido cento &cincoenta palmos , levantando novas 
paredes, fechando comhumadellas o lugar aonde ficava a 
lapa da Senhora , & aonde depois felheabriô humajanella 
«baixa , & prolongada com grades deferro , para que por eí- 
lafe pudefle venerara Senhora ,& ti veflem os feus devotos 
lugardeabufcaremfeus trabalhos, apertos, &neceflida- 
de^. Mas também ertajanellamofírafcr aberta depois quea 
Senhora começou a obrar as fuás maravilhas j'& por dentro 
fe fez no mefmo tempo porta encortada ao mefmo muro, pa- 
ra que pudeífe eftar a Senhora fechada, & com mais refguar- 
do aquella fua Capell inha. 

Efla obra não conflao anhoemque fe fez /fuppoíto 
que he muito moderna^ & devia fer com motivo de algum 
grande milagre que a Senhora obrou > que naõ ficou eferito 

para 



livro II. Titulo LW. 4ji 

para memoria; frem pude defeubrir os princípios deflas rpa- 
ravilftas ? nem o como foraõ obradas. O que fuecedeo vi- 
vendo o ultimo Condene Figueiró, que era entaõ o pof- 
íúidor do morgado , porque elle foy o que mandou renovar 
as Santas Imagens , que fe vem hoje renovadas y & pintadas 
a óleo com perfis de ouro , & algumas flores ; & com as ma- 
ravilhas que a Senhora obrava, fe moveria a mandar fazer 
cila reformação. 

Depois como a Senhora obraíTe cada dia muitas, & no- 
táveis maravilhas, fercfolveo o Conde D. Luis/jue fuece- 
deo a feu irmão o Conde de Figueiró ? & a Condeça fua mu- 
lher ( na cafa de Villa-Nova) a mandarem fazer , & edificar 
fiumanova Igreja , para que nelía fe collocaíTe a milagrofa 
Imagem da Senhora da Piedade, & as mais Images, que eíta- 
vaõ em a lapa.Efta Igreja eílava. já quafi acabada , mas ficou 
fufpenfa a obra com a intempefliva morte dos Condes. 

O tempo em que a Senhora, foycollocada naquella la- 
pa , me parece feria quando D. Fraucifca de CaiWlobran- 
co Valente fez aquella quinta , que por ter muita agua , fez 
muitos tanques de regalo, & nichos aonde collocou varias 
Imagens de Santos , & entaõ mandaria fazer aquella Sagra- 
da Imagem da Senhora , & as mais t ou as mandariaõ fazer 
feus pays, & elle mandaria fazer a lapa para*as coJlocar nel- 
Ia. Julgo que por eites tempos fefariaõ : porque no reyna- 
do delRey Dom Manoel vieraõ a Portugal hus infignes ef- 
cultores ,quc obrarão em pedra Imagens perfeitiflimas, co- 
mo fe vem na Igreja de Santa Maria do Caí! ello da Viila do 
Pombal, aonde ha muitas Imagens obradas em pedra de 
Anfaã por efles mefmos Artífices ; & eílas Imagens da 
quinta da Povoa me parece ferem da mefma mcõ , por hever 
viítohumas ,& outras; & também em Coimbra ha muitas 
das mãos dos mefmos officiaes. 

O tempo em que fe fizerão eílas obras da quinta, conf- 
ia de h. excellentemente lavrada com as anws 

Ff z àos 



45^ Santuário Mariano 

£ 0S Caftellõsbrancos , aonde fe lemeftas palavras: 
Pfe Oratorto de noffa Senhora da Tiedade com todo 
ornais edificio defta quinta mandou fa^er T). Fran- 
ctfco de CaJIeUobranco Patente , Camareiro mor deU 
Rey ft.Joaoo llh &fenbordeVillaNoVa de Por- 
timão, noawio de í^i i. 
Éflc Oratório de que falia a pedra , he a Capella que fica na- 
quellas cafas , & tanques , ( porque o Palácio fica mais afaf- 
nào>&. ft devia de edificar muito depois ) a qual he também 
'dedicada a nofTa Senhora da Piedade , aonde fe vé humre- 
íabolo dourado ,& no meyo hum quadro grande de figuras 
de meyo rckvomuy perfeitas; a Senhora, Sa6 João Eunn- 
gélifla , a Magdalena , & as mais Marias , os Santos Diiçi- 
pulos , Jofeph, & Nicodemo£ , & a Cruz com as efcadas. Ef- 
ta Capella efta com muito aceyo y & com outras varias Ima- 
gens da devòçàõ dós Condes ,&nellafe diz hua MiíTa quo- 
tidiana ; com que a efta he que allude a pedra, que eftá meti* 
da em huma parede de hum pateo , que era como o átrio > & 
entrada daquellas cafas y & Oratrrio , em que os Condes 
ouvirião MiíTa naquelles dias y em que feiriaõ a recrear à- 
quclla quinta ; & junto à Ermida havia algumas cafinhas pe- 
quenas; porque antigamente fe accommodavão os fidalgos 
em fitios mais eftreitos do que hoje vemos. 

As memorias das maravilhas que efta Senhora , & 
Soberana Emperatriz da Gloria obra y & fe vem pender 
de todaaqutlla lapa, faõ infinitas, & porque naõ cabem, 
as vendem , ou desfazem. Alli fe vem duas pernas de 
prata , huma delias maciça , que lhe oftereceo o Conde 
de Villa-Nova Dom Luis em acÇaõ de graças de huma 
mercè,que dizem a Senhora lhefizera;Vefe também huma - 
cabeça de prata, & também maciça , que ofFereceo à Se- 
nhora hum homem, que padedá táÔ cruéis dores de ca- 
beça, que Fe via perder com ellaòjiiizo : eftc por favor da 
melmaSenhoraalcánçouperfeita^udc cmaqíiella queitf* 

que 



Livro II. Titulo LXV. 4jj" 

tjue padecia, & em acçaò de graças lhe oífereceo aquella ca- 
beça , & hum refplandor com eftrellas. 

Alli fe vem muita quantidade de memorias de cera, tiri- 
tas mortalhas , & hábitos , muitas tranças de cabcllos , das 
quaes fe tem vendido muytas ; & alguns quadros, aonde fe 
referem as mercês que a Senhora fez aos qlie os mandarão 
alli pôr. Ve fe alli hum painel de hum António da Cunha, 
barqueiro do lugar da Povoa , que vindo cora o feu barco 
carregadode lenha, lhe deu hum temporal taõ grande que 
fumergioobarco, &lançandofeao mar outro feu compa- 
nhtiro íòbre huma pá , fobre ellafoy nadando muy to tem- 
po, até que vendofe miis perto da terra, foy nadando até 
chegar á Povoa.O António da Cunha fe fubio fobre a verga 
do barco , 8c aUiefteve chamando pela Senho a da Piedade, 
quelhevaleíTe, & acudiíTe. Foraõ depois outros barquei- 
ros em outro barco, & chegarão aonde efíava o António da 
Cunha , & affim como o tomarão , & recolherão dentro , fe 
foy o bareo de todo ao fundo A defappareceo de todo a ver- 
ga , em que atéli fe hay ia fuflehtado por beneficio da piedo- 
fe Senhora, & obrigado delle grande favor mandou fazer 
aquelle quadro, quelheoffereceo para perpetua lembran- 
ça- 

Em outra occafíaõ fuecedeo que hum Manoel da Silva 
fc> moço, indoapefcaremhua muleta, lhe deu hum mar taõ 
-grande, que fe virou a muleta: (foyifto em três de Junho 
de 1 698O& vendofe nefte perigo invocou a Senhora da Pie- ; 
dade, para que o livraífe da mor te:& a Senhora ouvio os íèus 
rogos, fazendo que apparecefle outro barco , que o fa í vou, 
& livrou do perigo de fe afogar ; 8c em memoria derte bene- 
ficio mandou lazer outro quadro, aonde fe vé pintado© 
fuccefTo. 

Finalmente eflas .Santas Imagens parece que fe man- 
darão fazer parafecolfocarcmemalguma grande Capella, 
cmquefereprcfentaueoparv)^o Calvário^ porque no que 
Tom 1. Ff 2 * e P r 6;: 



454 Santuário ffihtimt \1 

reprcfcntaonaquellas elevações da vifla , & moflras defett* 
timento , daõ a entender , que eíl avão vendo ao Senhor na 
Cruz, ou vendo o como delia odeípregavaô, paraodcfcer 
delia ,& faltaria a vida , a quemteve ejfia piedofa inttnçaõj 
& aflim fe naó poderia executar % & depois as accomodariao 
maquella lapa,f>ara q nelía fe lhes deííe o culto,& veneração 
que fe lhes devk % até que a Senhora eom as fuás maravilhas 
a augmentou para remédio, & confolaçaõ de todos aquellcs 
moradores,naõ fó da Povoa, masde todos aquela contor-* 
nos. 

TITULO LXVL 

2)4 Imagem de nojfa Senhora da -jíJfumpçiS %da 5V*- J 
chta de Via Longa. 

JA diííemos no titulo LX. aflima referido , aonde ficava é 
lugar de Via -Longa , tra tando das Imagens que fe vene- 
raõ em o Convento*, agora faltaremos das de fora. A Pa* 
rochia dcfte lugar he taõ antiga , quefe naôfabe dizer na* 
da do feu principio , & dizem os officiaes , que trabalharão 
na Igreja nova , que fe reedificou, ou fez de novo em o mef* 
mo lugar ha mais de vinte ■& cinco armos: que havia mais 
de trezentos , que a antiga era feita \ & também efta póds 
bem fer y naõ foffe a primeira. He cfta Igreja dedicada à Af- 
fumpeaõ de noffa Senhora , & nomeyo do retabolo dafua 
Capella mòr,quehe de talha dourada, fe vé huma muito ay«* 
roía tribuna , em que fe cofiuma expor o Santiflimo Sacra* 
mento 5 no mefmo lugar eftá collocada huamilagrofa Imar 
gemda Senhora da AíTumpçaõ,(aqual nosdiasemque o Se* 
nhor eftá maniftflo a põem no meyo do trono)que eflá com 
grande veneração, &refpeito. Hcefía Santa Imagem de 
madeira eflofada, &eííá com as mãos levantadas , &naô 
he ajprimeira da fundação daqueUe Templo, porque efta 



Livro II. Titulo LXVL 457 

JUÍgando Rum devoto, (fem duvida por reconhecer que q 
tempo tinha nelia caufado algum damno)que feria bom por- 
fc em ou tro lugar , & mandar fazer outra nova ; o executocs 
á fua cufta > collocando-a no lugar da primeira ; devoção q 
tiaô pcrffo deixar de cenfurar; porcjue fem embargo de que © 
Senhor obra com a fegunda as maravilhas > que obrava com 
a primeira; corntudo mais juftofora , que a primeira fe re* 
paraffc, fc acaíb o tempo tinha caufado nella algum damno. 
Tem aquella Freguefia grande devoção com aquelía fegun- 
da Imagem, q he a que ao prefente fe vé no trono } a qual ha- 
verá- pouco mais de quarenta annos que fôy feita;obra mui- 
tas maravilhas , como o teíkmunhão algumas memorias, & 
dous quadros > que fe vem pollos na mefma Capella > & af- 
íim toaos os que com viva fé invocão aquella Senhora , ex- 

SerimentãoosJeus poderes. 
A antiga Imagem da Senhora fempreanda em viíitas 
^elascafasdos enfermos ; &mais principalmente pelas das 
mulheres que efttô de parto, em que a experiência lhes tem 
ífnoilradoomiíym^Quevaiafua affííkncia; porque em par- 
tos muito perigoíòs fe viraô muito milagroíos fueceífos: 
taaabemhe pequena. 

— » ■■ ■ - ■ 1 

1 

TITULO LXVII. 

IDamilagrofa Imagem de nofa penhorado Amparo, 
do Contento da Cajá NoVa. 

^Urttoaolugarda Yerdelha/& em potica diftancia do-re- 
ferido Iiígar de Yia-Longa , le vé o muito reform^ò 
invento d^noífa Senhora do Amparo, hum dos primei- 
Tôs,quetevea Pvecoleta Província de Santo António, & 
-chamado por eíta razaõ a Cafa Nova. Fundou eíte Conven- 
cei Qf rií^sire C^ncte da kknha a nova % Dom Pedro de Al- 

F£ 4 cajova 



4 $6 Santuário Mariano 

caçova Carneiro, pela devoção que havia tido à Provinda 
de Santo António, feu tio Dom Fernando de Alcáçova. Ha- 
via fido eíia Ca fa antigamente de Obfervancia; 6c quando 
delia fe feparáraõ os Recoletos , a reedificou , ou fez de no- 
vo, porque èíiav a quaíiarruinada.E confrade comooConde 
a fez de novo , de huma pedra , que túà fobre o alpendre da 
nov^Jg eja , aonde fe lé eík inícripçaõ: 

.EUe Convento da Ordem deSao Francifto da Pro- 
víncia de Santo António fundou , ér acabou *Do*n 
Pedro de JlcaçoVa Carneiro } Conde y 17- Senhor da 
Jdanba a NoVa , do Confelho de E/lado , & Veador 
da Fazenda ,por mandado de "Dom Fernando de Al- 
cáçova feu tio 9 irmão defua may , que o perfilhou na 
hora da morte, & o nomeou porfeuuniverfal herdei- 
ro >anno de 1546. 
Foyefíe Fidalgo Senhordequafí todas aquellas terras, « 
lugar da Verdelha , aonde fundou a quinta , que nelle efláj 
& que pofíliemhoje Diogo de Soufa de Vafconcellos,& fila 
mulher D. Mecia Maria de Távora ; a qual foy fundada no 
janno de 15:53. como fevé de huma tarjeta , queeíláemhua 
das hombreiras do portal, que vay para a fala, que hede 
obra de meyo relevo. Neite mefmo tempo fe devia também 
dar principio à obra do Convento: hoje faõ os Padroeiros 
do Convento os filhos de Gonçalo da Cofta de Menefes, 
que herdou a Cafa de Dom António de Alcáçova. 

Ncíla Igreja he venerada huma devotiffima Imagem da 
May de Deos , invocada com o titulo do Afaparo, que obra 
mui tas maravilhas, como o experimentaõ todos, & confef- 
faõosReligiofos^ &oteftemunhaõ aç memorias de cera, 
qíc vem por finaesemafua Capella,& fe fefizefa memoria 
dos prodígios que obra , tiveráo muito que referir defie ar- 
gumento. Eftá eíia Santa Imagemcollocada no meyo do re- 
talolo do Altar mayor ; he de rica , & foberana efcultura>, 
& de tanta f ermofura , que parecejouba os corações; de to-: 



Livro II. Titulo LWIh %$? 

dos os que nelía põem os olhos ; he de madeira , & tem de 
cftatura fere palmos; tem fobre o braço cfquerdo o Meni- 
no Jtíus \ eftá com o manto foi to , & cahído dos hombros, 
eflofada ricamente , & o manto guarnecido pelas orlas de 
pedrarU; temocabello foi to, & fobre a cabeça hum grande 
refplanáor de prata dourado ; o mefmo íe vé no íenhor Me- 
nino. Foy obrada efia Santa Imagem por hum Reiigiofo da 
roeíma Província , iníigne efeultor , haverá quarenta annos 
.pouco mais , ou menos. 

Todos os Religiofos daquelía Província tem grande 
devoção com aqueila devotiífima Imagem da Senhora, & 
com a fua invocação em as occa fiões de trabalhos públicos, 
ou particulares, alcançaõ de Deos fel ices fueceífos, como 
o tem mofírado a experiência. Indo para Roma o Provincial 
Fr. Joaõ de Santo Thomás noannode 1700. & padecen- 
do na viagem muitas tormentas, na ultima fevioemtam 
grande perigo , & todos os mais da mo , que já naõ havia 
fará onde appellar. Vendofe o Provincial nefíe grande a- 
perto , invocou o favor da Senhora do Amparo , prometen- 
dolhe de lhe celebrar huma fefla , fe foffe fervida de o livrar. 
Feito o voto, aplacou a tormenta, tornàraõfe os alterados 
mares em huma folTegada bonança , & affim chegou a Ro- 
ma em paz; voltando a Portugal, foy render as graças à 
Senhora, & cumprir o feu voto , fazendolhe huma folemne 
fefta. Feílejafe efla Senhora em dous de Julho dia de fua Vi-< 
fitaçaõ a Santa Ifabel. Faz menção da Senhora do Amparo 
Jorge Gardofo no feu Agiologio Lufitan. tom. 1 . 



p 



TITULO LXVIII. 

Da Imagem de nojja Senhora da Saúde > do lugar de 

Sacavém. 
Elos annos de 1 599. pouco mais , ou menos , manifef-' 
touDcosmilagrofamente a Imagem denoffa Senhora 

da 



4? 8 Santuário Mariano 

da Saúde, de que trata eíle titulo. A fua origem fe refere 
nefía maneira. Neíie referido anno de 1599. padeceo ejfts 
Reyno hum grande açoute. do Ceo com huma cruel pcfte, 
queconfumiohum grande numero de gente; naõ valendo 
as prevenções , que contra elia cruel epidemia fe inter- 
punhaõ ; nem também a bondade dos íitios , porque a toda a 
parte abrangia o açoute. No lugar de Sacavém eraõtantos 
os mortos , que já naõ havia lugar aonde os cnterraífem.Fi- 
ca efte lugar duas legoas de Lisboa, Rio Tejo aflíma; tm cu- 
ja Igreja Matriz já naõ havia lugar aonde fe pudeffe fepultar 
peífoa alguma , & aflím fe quizeraõ aproveitar de huma'£r* 
mida j que ficava junto a ella , dedicada ao gloriofo Apoflo 
Io Santo André , qu e parece foy em outro tempo hofpital de 
leprofos > & albergaria de peregrinos ; o que íe fez com ef- 
feito, &na- primeira cova que feabrio para fepulturadc 
hum defumc%fc defeubrio huma Imagem denoffa Senhora, 
de rara fermofura , formada em pedra , que pareceo lios. 

Com a manifeííaçaõ da Santa Imagem fe alegrou oU*- 
-gar,conqor rendo todos coin alvoroço afama dofucceífo, 
quetiveraõ por milagrofo prefagiode fuás melhoras; tth 
tendendo, que a Senhora os viíitava , & que oorfo aqueíía 
mercê haviaõ de recuperar a faude, que defejavao. Trrtfá- 
ráõ!ogodeacompcr emhu andor para « levarem çmpro- 
tiffaõ por todo o lugár,para que à fua vifta defappareceífe a- 
* cjtiella cruel e pidemia > afll m o experimentarão 5 Sc reconhe^ 
cendoasniiiericordiasde Deos alcançadas pela piedofain* 
terccíTaôdefuaMãy Saao/fima, lhe xlcraô as graças, t%- 
' jnan.doa n^queíla pecafiaõ por fua efpecial Protedora,para 
os livrar de todos os males. Naõ fe fabia qual foífe o titulo, 
que a Senhora tivefiè jmlsfe repentina faude , que logo co- 
meçarão todos a experimentar,lhes desfez a fua perplexida- 
de i invocando a com o titulo da Saúde, que ella lhes havia 
dado. Naõ fcy íó eíla a maravílha,quc a Senhora obrou a fa- 
vor daquelle povo j porque todosos que recorrem a dla^ 

axn- 



Ihm II Titulo IWIIL 45$ 

tinvocao cm trabalhos , & apertos, & enfermidades, achaõ 
logonelía promptifllmo o remédio. 

Na meírna Ermida de Santo Andrea collocáraõ: & com 
efía occafuo perdeo a Cafa o feu antigo ti mio , invocando- 
fe dalh por diante , a Ermida de noffa Senhora da Saúde. 
Nos nofiòs tempos achando íe já a Ermida muito maltratada, 
mandarão os Irmãos da lua Confraria derrubar a fua Capei- 
la y para a reedificar ; & já efli vera acabada , & poíla em to- 
da a perfeição , anaõfe intrometer hum Cavalheiro com 
promeffasde fazer a obra à fua cuíta,o que naõ executGUj& 
affimosfeus mordomos tratarão de o fazer. Nefla occaíiaô 
a mandarão citofar , cu pintar de novo > & ficou perfeitiflS» 
ma , & em quanto fe acabava a obra , & a tribuna cm que $ 
haviaõ de collocar , adepofitáraõ na Ermida da quinta à& 
Viíconde de Barbacena. A Senhora tem quatro palnaos <J$ 
cftatura ; em o braço efquerdo fe vé collocado o Menino 
Deos, que também he perfeitamente obrado namefmape* 
dra. 



TITULO LXIX. 

7) a Imagem de noffa Senhora da Saúde, do lugar de 
Montemor 7 ema Freguefia de Loures. 

M a Freguefia de Loures , huma das do termo de Li£« 
boa , ha hum lugar chamado Montemor , titulo quefe 
lhe deu da fua grande, & iwminente altura. No mais alto 
deík lugar íe vé huma Ermida, & fantuario dedicado à Mãy 
de Deos j com o titulo da Saúde. E efie falutifero appellido 
Fhegrangeou, a que deu aos muitos, que porella recor- 
riaõ à fua clemência : porque he eíla Senhora a fauce de to- 
dos osque a çlla recorrem;/ con^odiz:Santo Ephrem : Sa* 
hs firma omntum íbriíltanorum ad eamraurretium ? & nao 

íó 



4&> Santuário Mariano 

ío hefaudc fegura , &c perfeita de todos os Chriftãos , mas 
Gtm a ^' u ^ e ^ c toc *° ° mundo vifivel, como a acclama Joaõ Geo- 
kym*. nsetra : Salus munái Yifibilu. 

$.deB. A tradição que h'a dos princípios defta Santa Imagem 
y: affirma , que pelos annos de 1 598. ou 99. havendo em Lif- 
boa hum maligno contagio > em que morria muira gente, fa-' 
hiraõ delia muitos a bufear as terras fans , & mais lavadas 
dos ares puros , & falutiferos ; & que a elic de Montemor 
fe acolherão muitos •, & que leváraõ òcumigo huma Imagem 
da Rainha dos Anjos, que he a mefma que hoje fe venera na-* 
queilaCafa: aquém logo dedica r«õ huma cdiaiia , prome* 
tendolhe de lha aumentarem, íe ioiic fervida de lhes alcan* 
çar de feu amado Filho, com o perdaô de íuas culpas, (caufa 
defuajuíia indignação para comelles^livralo^da^uellc 
grande contagio , dandoi-hes a faude que lhe pediaõ. 

Naõ fe fez furda às fuás deprecações a miíericordiofa 

May dos peccadores ; porque para todos alcançou faude, & 

os livrou daquella cruel epidemia He muito poderofa cita 

Senhora , & toios os bens de que neceflitamos , quiz Deos 

nos víeíTem pelas fuás mãos (como diz Bernardo:) & o Pa- 

r Apuà dre Francifco Soares da Companhia diz : St cogitacton" fin- 

Jufi. gamm acatam Virgmtm altquulf>oJfulare>totamque c*lef- 

dife. tem curtam Mi rcfeíiere , ( ficut apud "Danieiem unus Ànge~ 

270. n.j m refijltbat) potentiorijfit 3 maiorifyue eflicaciet, & Valor is 

~ 5 apud Veum Kirginis , quâm reliquorum omnium Santíorum 

tratio. Se com o penfamento fingirmos, que a Bemaventu- 

jrada Virgem pede alguacoufa, &q toda a cúria celeíte lhe 

( jrelifle^como em Daniel Jemo: ;,q hum Anjo refífliaa putro) 

mais poderofa, & de mayor efficacia, & valor para com 

< Deos feria a oraçaõ da Virgem, do que a de todos os mais 

Santos. E Roberto Toícano fobre a Ave Maria , diz haver 

lido na vida de S20 Domingos, que mais valia para como 

Filho hum fufpiro da Virgem Santiffima 7 do que o íuífragio 

de todos os Santos*, b 

Em 



Livro II Titulo LXIX. &t 

Em gratificação pois dei le grande bcncfcio> lhe i lin- 
darão logo aquella Ermida, que he muito perfeita , &que 
depois fe foy augmentando , porque novamente íe lhe fez 
hum retabolo moderno com fua tribuna , & neíla fe vé ho- 
je coílocada a Senhora em hum trono da mefma talha , & tu- 
do eftá muito bemdourado. 

A Cape Ha mor foy a primeira , que fe azulejou logo 
nos principios,como o cita moftrandoo mefmo azulejo an* 
tigo.Ocorpoda mefma Ermida foy azulejado muito depois 
comoievè de humas letras pintadas em azulejo fobre a 
porta trave/Ta da parte de fora, aonde fe diz, que acudia 
Ermida fora azulejada pelos Irmãos da Confraria da Sc>- 
nhoranoannode 1626. Tem humalpcndrena frente mui- 
to bem feito, defvanado todo comfeuatrio, de donde fe 
•goza huma dilatada vifta.Defcança eíte alpendre, ou gali- 
lè febre quatro pilares, ou columnas quadradas de pedra-; 
ria , & fobre o alquitrave do meyo fe vê efta infcripçaõ: 

Efte alpendre mandou fa^er Miguel Tojlado da May a 

a fua cuBa , em o anno de 1 62 1 . 
Tem coro, púlpito, ScSacriília, & tudo pintado, &com 
muito aceyo ; tem grades de pao fanto na Capella mòr , que 
fie o único Altar que tem A Imagem da Senhora he de efeui- 
tura formada em barro, & tem ao Menino Jefus fobre o 
braço efquerdo , que parece eftar fallando à Senhora- He de 
bonitas feições, fem embargo de que o pintor que a pirt top, 
& encarnou, naõ era dos mais peritos; a túnica he de cor 
rofada , & manto azul ; coroa de prata dourada aberta , &, a 
do Menino heimperial, por fer mais moderna. A fua efU tu- 
ra faõ quatro palmos : entre as columnas do retabolo fe vé 
de huma pme,que he á do Euange!ho,Sanro Antonio,&; $a 
outra Saõ Bento , & fóbre a banqueta junto à tribuna eítá 
da parte direita SaõJoaÓ Baptifta, & da outra S. Therefo. 
Feítejaíe a Senhora da Saúde' em o primeiro Domingo de 
Setembro: tem obrado muitas maravilhas , cemo o publiçsõ 
os q as receberão, TITIJU 



4^i 



Santuário Mar iam 



TITULO LXX. 

Da Imagem de nojfa Senhora da Redonda, ou Rotunda^ 
do lugar dos Calvos. 

NAmefrm Fregueíia de Loures ha outro lugar , ou 
Aldeã, a que chnmão a dos Calvos; fazenda,& quin- 
ta do Conde de Valadares Dom Miguel Luis de Meneies. 
NellafevèhumaantiquiírnTia Ermida dedicada anoíTa Sc* 
nhora a Rotunda , ou da Redonda ? por fer íeita à imitação 
daquelle Templo, & Panteon , que antigamente fundou 
com grande magnificência, & íumptuoíldnde y naõDomi- 
ciano, (como diífe Adon) mas Marco Agripa Cidadam Ro- 
mano, & grande valido do Emperador Octaviano AnguC* 
to , & dedicou a Júpiter vingador,(como diz Plinio) depois 
dá batalha naval , em que O&aviano venceo a Marco Antó- 
nio , & ficou fcnhor abíòluto do Império. Deulhe Aigupa o 
nome de Panteon , que quer dizer, Cafa de todos os deoíes j 
& por iíTo o dedicou a Júpiter, & Minerva , & a todos os 
ifiais fólios , & fingidos deofes. Era fabricado efte Templo 
1 cm fcrma rotunda 5 &ífíimda redonda forma do Templo, 
fe deu a Maria Santiííima o titulo de Rotunda. Efte Templo 
dedicou depois a Maria Santiffima, & atodos os Santos Bo- 
nifácio IV. Pontífice Romano. 

Neíla Ermida pois , edificada à imitação da Rotunda de 
Roma , ainda que fem magnificência , ou iiimptuQÍidade , fe 
venera também hurm ?ntiquiffima Imagem da Rainha dos 
Anjos , & de todos os Santos ; & cila eftá inculcando a fua 
grande annofidade He ti ptdra , & a fua effctura íaõ tre.3 
paln .os &mr.yo, na fcrmarmqueeiiáaffentada.TemoMe- 
. nino Jelns fti i joelho eíquerdo , & elie com o direito 

sjocUiado , ti o outro ícyai i tado, & a Senhora o eííá íuíien- 

tando 



Livro 11 Titulo LXX. 463 

tâhdo pelas cofias com a fua mão efquerda ; 6c cem a direi- 
ta lhe offerece huma rofa. Ainda que efta Imagem he de pc« 
dra , & obra taõ antiga , fem embargo de não íer muito bem 
reparrda, o rofiohe bonito , & também o do Menino, que 
eftá olhando para a Míy,como que falia com ella. Ambas as 
Imagens tem coroas de prata. Também no eflofado ? ou pin- 
tura da Senhora fe reconhece a fua muita antiguidade. 

Fflá em huma tribuna /ui tabernáculo de talha de bor*-' 
do, em forma fextavada > h. avultada para fora, mas em pre- 
to; & a meu ver^por naõ hav? r alíi quem avive a devoção. A 
Capella da Senhora moflra em íi huma larga antiguidade; & 
o arco delia fechado em agudo o eílá dizendo. Efla Capella 
já hoje fe naõ vé rotunda, ainda que por fora a moftram as 
paredes \ & aíTim parece , que tem tido aquellaCafa muitas 
reedificações. O corpo defla Igreja, ainda que tem baftarr- 
te comprimento , & largura , he baixo , & as linhas de pào, 
& em madeiramento , he obra muito antiga , ainda que já fe 
tem reparado das injurias do tempo; & a fabrica das linhas 
deno ta o haver muitos annos que fe fizeraõ: também fe vem 
no corpo da Igreja alguns pedaços de azulejo, verde, & 
branco , que confirmaõ a fua grande antiguidade, que fendo 
azulejada toda,parece que quizeraõ confervar aquellas relí- 
quias , por fenha do que havia fido. 

O Conde novamente tem reparado algumas coufasda* 

l quclla Igreja,fc dizem que quer concertar a Capelía,& dou- 
rar o retabolo. Nos reparos que o Conde fez, que foy o co- 
ro, que todo eftá feito de novo,& pintado pui pito, lhe man- * 

' dou fazeroutro portado; porque o da porta principal ^ que 
era de arco fechado e'm agudo , devia eflar já mui damnifca- 
do,&aflim lhe mandou pôrhumcomfua verga, ainda que 
de pouco aparato ; mas nefías obras mofírou o Conde a fua 
devoção para com a Senhora. 

Com efía Sagrada Imagem tem muita devoção todos a- 
«juelles lugares circumvifinhos ? & a bufeam com muita de- 
voção 



4^4 Santuário Mariano 

voçaõ , & fé. Obra muitas maravilhas a favor dos que a buf- 
caõ , como o teftemunhaô os muitos íinaes , & memorias 
decera , & rcnr talhas > que fe lhe ofFerecèraô para perpetua 
lembrança ; mas como naõ tem quem com zelo , & devoção 
affiíia , nem Ermitão , tudo eflá moftrando pobreza do ze^ 
lo,&dofervor,comqueaquella Senhora merecia fer fer- 
vida , & no defemparo moflra fer mais que Ermida de cam- 
po. Quanto à origem defia Santa Imagem, da antiguidade, 
-que temos moílrado , fe pôde entender a pouca noticia, que 
delia podia defeubrir; porque nem rchei infctipçaõ que o 
declaraífe , nem tradição que o publique : o que fe me repre- 
fentahe, que feria obra dos progenitores de Dcm Álvaro 
de Abranches, que foy o fenhordefta quinta, os quaes pe- 
la fua devoção, & piedade dedicariaõ eflaCafa a noífa Se- 
nhora , em memoria da que fe venera em Roma no Panteon 
; de Marco Agripa , que fe intitula , Santa Maria a Rotunda, 
ou Redonda. 



TITULO LXXI. 

Da Imagem de nojfá Senhora da Ef per ama \ da Fregtte- 
fia de Fvicllas. 



A 



Primcirs, & a principal matéria da virtude da efpe- 
rança , he a Bemaventurança eterna , conforme o que 
jipui diz S3õ Paulo : Gloriamur mfpe gloria filtorum Dei <,fecun- 
Suariã .dàmjpem vita eterna , qmm promifit , qui non mtntitur $ 
difp. i. j) ?íl6 , Gloriamonos na efperança da gloria dos filhos de 
'• Deos , fegundo a efperrnça da vida eterna } quedos prome- 
teo Deos ,que he impoífívcl mentir; porque naquelle obje- 
ílo principalmente fececupa a efperança, que de Deos he 
prometido; & como nos iqaproirietida.de Deos aftema- 
ventarança, ncíieobjediofeoccupa a efperança. Pelo que 
quando 



Livro II. Tttulo LXXL 46) 

^tutndo chamamos a Maria Santiffíma efperança noífa 7 naõ 
entendemos que ella feja efle primário objedo j roías quere- 
fnós dizer que ella he a no(Taconfiança,& a efperança noífa, 
para alcançarmos a bemaventurança eterna > que Deos nos 
tem prometido, f 

E conforme a Santo Epiphanio Bifpo de Salamina, & jtyuà 
depois de Coníhncia, o venerável nome de Maria quer di- Jtfi* 
zer Efperança; & a Igreja no celebre Cântico da Salve Re- "'fi-s>°» 
gina a fauda, Efperança noífa, Spesnojlra, Santo Ephrem Tnttnk 
Ifiechama efperança fua, &dc todos osChrifíãos;&em B.y. 
outro lugar diz: 7NZoi e/t mihi aliafiducia y ò virgo, niji in te. 
Naõ tenho minha Senhora outra confiança fenaõ em vos. E f" '?''* 
110 principio dos louvores da Senhora diz, que ella he a uni- £ ' 
ca efperança dos Santos Padres , gloria dos Profetas , pre- 
conto , ou prégaõ dos Apofíolos, faue he o mefmo que lou- 
vor y fama, gloria,&c ) honra dos Martyres,& a alegria dos 
Santos: Spes unictâatrnnt, gloria ^ropbetarumjrá comum 
jipojlolorum , honor Martyrim > Utitia Santforum.Sao Pe- 
dro Damião diz : In Virginep^ccatdrumfpes , & confolatio PedA 
fita eB. Nefta Senhora eftá pofla a efperança , & a confoía- Dam. 
çaõdospeccadores; &Saõ Bernardo lhe chama toda a fua D t Bçrn 
confiança y & toda a fua efperança : Filioli , b<ec peccacorum 
fedia ett , b*ec mea maximafiducia y b*ec tota ratio fpeime*. 
SeouveíTemosde referir omuito que os Santos Padres di- 
zem fobre efíe particular , nunca acabaríamos. 

No lugar de Frielas , termo de Lisboa, difísnte da mef- 
ma Cidade duas legoas y hahuma Parochia dedicada a Saõ 
Julião Martyr, & Santa Bafiliza; cuja aprefentaçao, por 
mercê delRey Dom Diniz , pertence às Abbadecas do P v eaí 
Mofteiro de Odivelas. Neiia Igreja fe venera huma devo- 
tiflíma Imagem da May de Deos , que he toda a devoção da- 
tjuelle povo, que ainyoca comotitulo da Efperança. He 
efta Sagrada Imagem de roca } & deveflidos; eftácom as 
mãos abertas, & eflendidas , como quem parece eftácha- 
Tçnvl. Gg maa- 



^64 .'. Santmrk Mariano 

mando a todos os que a invocão ; para lhes concedemos far o* 
res, que delia efperao. Todos os moradores daqueíle gran-* 
$e ki^ar confefihõ receber de Deos muitos favores, & bc- 
* y « /4 *nefíciospelaintercetiaõ defla Senhora. Para todos heefla 
Concef- s en h ora tudo : porque tila he a efpcrança certa dos mifera* 
H °uú $&$ > É como diz Clitòveo) riWH dosòr íães , o alivio y & 
Ctfriti confolacaõ dos oppr imidos , medicina dos ênfernaos ? & tu- 
A 4. 4 o P ara todos: Sf>€ s certa mtftrornm^Mater orphanorumje- 
jEUwd* 'VJ.men oppreffoYMnjnediCdMty infcrmwuvi >ommbus omnia* 
Na fua piedade ,& clemência feexperimentaõ todos aquel- 
y! les epitetos còmque a acclama Matheos Fhiladdphò FifpO 
Qrat. fc ^ e Ephefo. Efperança dos miferaveis , valente prefídio doá 
g pr combatidos na guerra , ancora fegura , fiel 7 & iagrada da* 
quelíes^ queandão lutando com as ternpeftades > auxilio 
fingular dos aífligidos, confolaçaõ dos dbiorofos , fubfidio 
prompto para todos o^hfortunios , propugnadora Angu* 
lardenoíTafalvação, porto feguriflimo dos naufragantes# 
Com eíla experiência a fervem todos com huma mui- 
to fervorofa 4evoção. Fazcmlhè três fellas no anno : a pri-« 
meira em a primeira Oitava do Nafcimento de Chriílo; a fe- 
gunda em o dia de fua Encarnação; & a terceira no de fua 
triutrçphante Affumpçaô; porque -3 mui to mais fe dftende 
a fervorofa devoção dos feus devotos. Tem muitqxicos or- 
namentos % & ornatos. Eftá cóliocada em a primeira Capei- 
la daquella Igreja > quando fe entra nella ? &,fica ctyp arte do 
Euangèlho. Quanto à fua origem dizem íer muito antiga^ 8c 
que he tradição q fora achadaem hua cova^ou defeuberta em 
huma lapa; & bem podia íer, que nella a efcç>ndeflem!;os 
Chrifíãos na perda 4e Hefpanha ? pelo temor de que os 
Mouros lhe pudefíem fazer algum defacato ; & o Senhor a 
podia con&rvar rlíefa, & femalgua corrupção emaquelte 
mefmo lugar. A fua eflatura faõ cinco palmos : efíá touca* 
(Ja com toalha aoáotigo* 

TITU: 



Uwo 11. Titufa LXXI1. Vr 



» ■ ii ■ " ■ 



TITULO LXXIL 



J)d Imagem de no(fa Senhora do Monte, da Freguejta 

de Friela*. 

y^T Òdeíhito da mefma Fregueíía , & lugar de Frielas, 
Jl^ fc v,è para a parte do Naícentco Santuário de noífa 
Senhora ., què por coroar o mais imminente lugar dehum 
monte^he déraõ delle otimlp.E he muito para notar as mui- 
tas Cafas y & Santuários , que fe vem não fó nefle Reyno, 
mas em iodo o mundo dedicados à Rainha dos Anjos de- 
l>3txo dcíteroyjfíeriofo titulo* E na multidão dfefíes Santuá- 
rios nosictónua a fqberanaEnnperatifttZ da Gloria , o quan^ 
toieflima a alteza <fos montes > para que nelles íejabiifcada 
dosfeusetevotos; & fera fero duvida", que como efía Senho- 
ra foço monte naaJslevantadoA o;q©e fobrepnja a alteza de fr afna fc 
todos oa mom^s de virtuefes^ çgokd: àiz Sag< Joaõ Damafce- Q rat . í. 
tfàsMonsryqM coikmommm? & uwntem > vdeft > Angelo- de iV*/. 
tum ,Í7 hominum [ublimitatem exuperctf; por iflo quer que'#. F* 
felhe edifiquem Templos, & fe lhe dediquem Cafas no mais 
ditados mwesi; pararmos cníinar, que deites como de Ata- 
Jayia& >. vigiajfobre nòs , pairaram defender , & livrar de nof- 
fos inimigos. Pòjfquehcparanòseílapoderofa Senhora q 
propagnaculodos Çhriílãos > com© lhe chama André Cre- 
teníè v ®^/Wf*f>wWft^^^ porque fempre os-^f^ r - 

a^çjar^,9^ defei^jdetodos os incurfos do inimigo. q™/ ' 
Ríi^ftrB dfiiridfr feriai a çaufa^ com que Deos moveo a í j e A V * 
Lopo : d^ Abreu> a edificar à Senhora a Gafa que vemos no^ r4mpu 
Hfâis i^r^fietit^matitçdaFíegueíia de Frielas; porque naõ 
ÇE»âij:oidifta3itfe<JQltígar íevé hum.monte^ a quedaõo ti- 
tufe^fft5#3á^iQ»ífOtTe porcaufô ddie > ou pela daquin ta, 
^9&mfaf^it^ daJteinadà^aqual -poí~ 

' Gg z fue 



46% Santuário Mariano 

1ue hoje Manoel de Soufa Soares. Ncftc.fi tio pois dedicou 
à Virgem noffa Senhora , pelos annos de 1579. o referido 
Lopo de Abreu huma Ermida com o titulo de noffa Senhora 
do Monte. Efta na fua primeira fundação naõ devia fer 
muito grande, porque vinte annos de pois fe amplificou pe- 
lo mcfmo devoto da Senhora Lopo de Abreu : o que confta, 
& fe vé de huma infcripçaõ, que eftá íòbrc o portado princi- 
pal da meíma Ermida , que he na maneira feguinte: 

Londkum àLupo de Abreu , & f ir gim Dtipar*ede 
Monte dicatuml ánno M. V.LXX1X. amplifica- 
twn Vero ab ipfofub hac forma , anno M. Ti.XClX. 
Nefta Ermida cplíccou o mefmo Lopo de Abreu huma de- 
vota Imagem da Mãy de Deos , a quem impoz o titulo do 
mcfmo monte, que lhe dedicava, (fe hequejá o naõ tinha, Sc 
comelleera venerada em outra parte,, o que naõ confla.) 
Efta Santiífima Imagem era a devoção de todos aquelles lu- 
gares circumvifinhos ; porque todos em fuás neceffidades 
recorriaõ a ella a implorar o feu favor. Era efíe limulacroda 
Rainha dos Anjos, de roca , & de veftidos, & nefta forma 
perfeverou por muitos annos. Depois comas mudanças, 
que coftuma fazer o tempo , que nem ao fagrado perdoa , fe 
veyo a vender aquella quinta da Ramada; & por compra que 
delia fez Miguel de Soufa Ferreira, ficou fendo também o 
Padroeiro da Ermida, & Santuário da Senhora do Monte* 
por ficar ú tuada no meyo da mefma quinta. 

Vendofe Miguel de Soufa Padroeiro daquelle devoto 
Santuário , (Sz porque o acharia já muito damnificado) tra- 
top naõ fó de o reparar , mas de o reedificar , & fazer qua- 
íi todo de novo. E foy taõ pio , que ficando fkò que parece) 
fó o portado principal, quehe devolta redonda com feu 
trefpilar , & tudo muitobem lavrado , ríiaõ quiz bulir na la- 
gem , que fica fobre elle , em que eftá a referida infcripçaõ; 
fçm duvida porque fe naõ pcrdcffe a memoria do feu primei- 
ro , & ckvoco Fundador j & também a Senhora rwõ permi- 
tiria 



Livro II. Titulo LXXIL 46? 

tiria fícaíTe cm efquecimento o feu nome. 

Começou Miguel de Soufa a reedificaçaõ daquella Ca- 
fa em oanno de 1686. fabricandoihe nova Ca pella, que 
he muito ayrofa, & perfeita, que tem de comprimento 
vinte palmos , & de largura dezafete. Tem ao lado direito 
a Sacriftia , que he muito baftante com bons caixões , & da 
outra parte hua cafade tribuna para afamiliado Padroei- 
ro, & ambas eílascafas tem tribunas corrcfpondentes ,6c 
para que melhor fe poífa ver o Altar da Senhora , lhas fize- 
raõ em viagem, & contra- viagem, que não fóeftaõ engra- 
çadas, mas podem gozar todos livremente davifta da Se- 
nhora. Eíia Ca pella he fechada de abobada de berço, & to- 
do o teíto delia pintado com h uma galante , & valente ar- 
chite<ftura,&nella divididos cinco quadros de excellente 
pintura ; nos dous primeiros da parte do Euangelho fe vè o 
Nafcimento de noffa Senhora , &a fua Prefentaçaõ em o 
Templo; & da outra parte os Defpoforios , & a Viíitaçaõ a 
Santa Iíabel: no meyo fe vè a Senhora em a-fua gloriofa Af- 
fumpçaõ, levada por muitos Anjos ;& pelos meyosíè vem 
muitos gerogíificos. Verdadeiramente a obra naõ fo he vif- 
tofiffima,mas perfeitiflnna. 

Da fímalha para baixo fe vem dous quadros , o da par- 
te direita contem o Nafcimento de Chrifto , & o da cfqúerv. 
da a adoraçaõdos Reys Todas eftas pinturas faõ de exceL- 
lentes mãos 5 porque foraõ diverlbs os Artrôces, porquç 
também na obra havia diver/idade , porque temfafíões dé 
flores , architefturas , & pmturas \ &<;íTim huns fizer* õ os 
quadros , outros as flores^ & a archltedura outros % porque 
afTirn o difpunhanaõ fóa devoção, mas a liberalidade dos 
Padroeiros, porque iáeíhultimaobrafefez pela direcção 
de Manoel de Soufa Soares ^ que naõ repara nndefpeza a 
troco de q a oBra fe faça com toda a perfeição. Debaixo dos 
quadros das ilhargas, que deícançaò íbbre as vergas das 
portas,&:dasjanellasdas tribunas, fe vem os campos de 
Tom, L Gg 5 azu- 



470 Santuário Mar iam 

azulejo, comhumpaíioril taõ galante, 8cpcr£citO ( ,tjuci> 
julguei pelo melhor que havia vindo de Glanda; mas defcn^ 
pnaraõme, que fera obrado em Lisboa por António (k 
Oliveira. 

O corpodefla Igreja , que tem trinta & neve palmos de 
comprido , & vinte & nove de largo , fie azulejado da fima- 
lha para baixo } aonde fe vem da parte do Norte dous qua- 
dros, porque nomeyo dellesfica o púlpito; &da parte do 
Sul t res, os dous em correfpondencia dos oppofíos , & o do 
meyo correfpondc ao corpodo púlpito; & à mefma parte do 
Sul fica no meyo huma porta traveíTa. Para a partedo Ccci- 
dente , aonde fica a porta principal , & aos lados, delia , fç 
vem outros dous quadros de azulejo , & fobre a porta ou- 
tro. AíTentaõefíes quadros fobre humas metas , & figurai 
muito valente s,& pelos meyoshuns rapazes com huns fak 
toes de flores , & frutos , coufa tam agradável , branda , & 
perfeita , que parece naõ pode paliar a arte mais adiante. A 
pintura deflesqjjadroshe taõ valente, &taõ devota, que 
eu me n^õ podia apartar de a ver ; & o que he mais de admi - 
rar , ívt íflo em azulejo ; todos efles quadros faõ da vida de 
nofla Senhora. 

Otedohe forrado de madeira muito feca , porque fi- 
cou taõ fechada nas juntas ,,que quando a vi cuidei que era 
efluque; he forrado em hum meyo fextavo: os primeiros 
dous corpos feguem a mefma architeílura da Capella,ou faõ 
feitos pelo mefmo ellylo.de tarjes , fafiões , geroglificos, 8c 
flores ; em cada huma das partes fe vem duas figuras diflin- 
tas , que reprefentão as quatro virtudes Cardcaes; & no 
corpo do meyo, que he de nuvens, fe vem muitos Anjos 
com rofas , & flores em às mãos , também muito bem obra- 
dos. Neíle mefmo corpo fe vem duas Capellas collateraes, 
cada huma delias tem hum quadro > que ocoupa a Capella 
toda , cujos arcos faõ de pedraria. Na Capella da parte do 
Euangelho fe vé noffo Senhor Jefus Chriflo , fentado , & os 

Fari- 



LhmlL Titulo LXXIL 47 x 

Farifcos coroando-o de efpinhos ; he pintura irjuito boa, & 
âevota. NaCapclla da part^ da Epiííola eftá Saõ Jofeph 
dormindo , quando em fonhos lhe appareceo o Anjo , & lhe 
diffc: Jofepbfilt 'DaYtd nolitiuere accipere Mar iam tonju* 
g»m tuam\ quod enim m ea natum ett 7 <Sc. Efta pintara 
he de fora , mas he excellentiífima. 

Opulpito tem bacia de pedra , & grades de pâo preto; 
não tem coro : debaixo do púlpito fe vé efta infcripçaõ: •• 

Eflx Ermida fe começou a reedificar por Miguel de 

SoufaFerreira,no annode 1 6%6.&a acabou de fa^er 
• feu filho Manoel de Soufa Soares , no anno de \ 699. 

(Pede hum H?adre nojfo , isrbuma Ave Maria pelas 

fuás almas* 
Muito lpuvor merece Miguel de Soufa ; mas muito mayor 
feu filho Manoel de Sou fa, pelagenerofa liberalidade com 
que a profeguio , & com que ainda vay continuando y por- 
que tem aquella Ermida ricas peças,& adornos. Os frontaes- 
eommuns de todas as três Qpellas faõde muito bom azu- 
lejo , parecem brocado feito em Milaõ \ mas para as feílivi- 
dades da Senhora os tem de tela ; rico caliz , & tudo o mais 
3o culto.da Senhora naõ fó he per fcitiíTimo,mas obrado con* 
muito capricho, devoçaõ, &generofa liberalidade. 

A Imagçm da Senhora , que de prefente fe venera na- 
quelle Santuário , he de efeultura de madeira. Tem cinca 
palmos de eílamra , fora o globo de nuvens , & Seraphins 
fobre que efté poíta , & çollocada em hum trono de talha de 
bordo : ,ve-fe dentro de húa tribuna no meyo de h ú retabo- 
ÊD,que ainda eftáemprçto,modernode perfeitiffima talha, 
boa archite&ura,& muita efcultura;porque fobre ascolum- 
nas fe vem dous Anjos grandes, fentados fobre huns fe- 
guintes , ou quartóes ; eíies fe vem veflidos , & na valen- 
tia da efeultura parecem querefpirão. No meyo da volta 
fe vè hum efeudo em hua tarje , que fuftentaõ outros dous; 
&no banco dos pedeíiae.s debaixo do pavimento da tribu- 

Gg 4 na,, 



47* Santuário Mariano 

na ,eHSo outros dous fuítentando outra tarje \ quepafecè 
como fterario ; tudo efíá rico > & viftofo. No meyo das co- 
lumnas fe vè à parte direita o Archanjo Saõ Miguel, & à ef- 
querda Saõ Cayetano- A Senhora tem fobre o braço efqusr- 
do ao Menino Jeius, que parece efiar falhndo com a Santif- 
íima Mãy. A Imagem antiga que era de vtfiidos , como fica. 
dito,ferecolhco;femduvida feria porque o tempo ateria 
maltratado y & a efie refpei to fe mandou fazer a quede pre- 
lente fe venera. Embaixo nomefmo pavimento da tribuna;: 
cltãocous Anjos grandes obrados com grande pcrfeiçaõ> 
& ricamete etíofâdos, (como he também a Senhora)osquaesi 
tem duas dirandelas, ou meyos cajfliçaes com velas. Eílà. 
Santa Imagem aflimeomo fubflituhio olugar da primeira, 
também íuecedeo nos poderes de obrar maravilhas 5 de que 
fe referem algumas > que naõ efpecifico , naõ fó por naõ fe- 
rem autenticadas; mas pelas naõ achar eferitas. Na Sacrifc 
tia efíá hum quadro^m que fe refere huma mercê da Senho- 
ra vque naõ puzeraõ na Igreja , por naõ haver lugar aonde 
caiba ; & o eftar aquelle Santuário com tantos adornos 
de pinturas > fera a caufa porque nelle fe naõ vem femelhan- 
tes memorias , pois não tem lugar aonde fe ponhaõ. 

Ouve neíia Ermida hum Ermitão, chamado Joaõ de 
Santo António , de quem ouvi referir notáveis noticias de 
fuás virtudes , que lhas alcançaria a Senhora em premio da 
devoção cem quer fervia; eíiá fepultado no corpo da Igrc- 
)à à parte do Euangelho, com huma campa de pedra lios com, 
bum epitaphio, de que por defeuido naõ fiz memoria \ a qual s 
campa lhe mandou per o mefmo Padroeiro Miguel de Soufa 
Ferreira , pela grande opinião , que tinha da fua virtude , & 
he a única fépuítura quefe vénaquella Ermida. Dilateimc 
em deferever com tanta miudeza as perfeições, & aceyo da-: 
quella Caiada Senhora ; pcrqne verdadeiramente conMTo* 
que nac vi dentro na Corte coufa mais aceada , caprichofa> 
& pcrfcita;mais ricas poderá fer fe vejaõ muitas coufas, pias ; 

no 



Livro 11 Titulo IKXI1. 47$ 

nofeutantonaõasvi melhores; eu me mo podia apartar 
daqurlla Ermida , & muitos dias que me detivera, teria ma- 
téria de que me admirar , porque era muito o que havia que 
ver. 

Humacoufa reparei , que também he digna de memo- 
ria : como aquelle Santuário fica tão levantado nacuelle 
monte , da porta principal delíe fe goza huma muito dilata- 
da viíla, ôede muito alegres orizontcs;&neHa fecontão 
onzeFregueíias , & fe vem a mayor parte das Igrejas del- 
ias ; como faõ a primeira a de Frielas, a fe gunda à de Eucc- 
las, a terceira a de Santo António do Tojal , a quarta Santo 
Antaõ do Tojal, a quinta a de LolíreS, a íexta a de FanhocSj 
a fetima a da Povoa , a oitava a de Odivelas, a nona a do Lu • 
miar , a decima a de Camarate , a undécima a da Appdlaçaô; 
& também podia entrar a da Ameixoeira , pois também fc 
de fcobre parte do feu deftrito . 



TITULO LXXIIL 

Da Imagem de noffa Senhora de Na ^aretb , do lugar 
do CatijaU 

SAõmuytas as Ermidas , & Capellas , que a devoção dos 
Portuguezes dedicou à Soberana Rainha dos Anjos 
Maria Santiflíma, debaixo do titulo de noífa Senhora de 
Nazareth; das quaes a primeira, a mais illuílrc, & a mais ce- 
lebre pelas grandes maravilhas, que nella tem obrado a po- 
dérofa mão de Deos , he o Santuário , que fica junto à Villa 
dá Pederneira , da qual eferevemos em o íegundo tomo def- 
ta obra ,t!tuloXLIIl A* imitação defíe Santuário fe funda- 
rão os mais, & fe fundou eíle de que agora tratamos, que 
heodoCanjal.FicaeíienodeílritodaFregucfia de Unht)S, ; 
entre quintas de renda, & de regalo: he lugarinho muyto 

je^ue- 



474 Santuário Mariano 

pequeno fituado entre montes; mas não infrutíferos , por£ 
que tiò de pomares , & de vinhas ; he fitio frefco, agraciível, 
& deliciofo no verão. Nelí e fe vé a Gaia , & Santuário da Se- 
nhora da Nazareth , com quem a gente , & moradores de 
Lisboa tem muy ta devoção; porque ellcs faõos queavaõ 
feftejar todos os annos. Não tem hoje dia certo , mas or- 
dinariamente he pelas Oitavas.do Efpirito Santo , & neftasj 
alem da fefta da Igreja , fazem em louvor da Senhora outros 
feftejosextrinfecos, com que fe alegrem os que avaõfer-» 
vir, & venerar naquelles dias ., como faõ comedias , carrei- 
ras , patos , &putros entretenimentos femeíhantes. 

A Senhora de-Nazareth , qtie neftaCafa fe venera, hç 
no que moftra muyto antiga ; he de roca , & de veftidos ; & 
na occafiaõ ( que não era nenhum àb de fefta ) em que f uy à 
fuaCafa y a vi com humveflido de td a branca muyto ric»j 
com rofas de ouro , guarnecida de hum palhe tão do mefmo 
metal ? bem antigo ao que moftrava ; eftá toucada com toa- 
lha ao antigo.Tem nos braços ao Menino Jefus , & ambas 
as Imagens tpm cçroas de prata impqriaes.Õ retabolo he an- 
tigo formado emdous corpos ; Sc nos lados , no mcyo das 
colfirnnas , fe vem huns quadros pequenos da vida çk rçoTa 
Senhora. A Senhora eftá collocada em hum nicho , & fobre 
elle fe vé outr® quadro com o milagre que fuecedeo" a Dom 
Fuás Roupinha^ quando hia em feguimento daquelle diaba- 
^ico veado ^ que o pertendia defpenh ar em o mar ; & ultima- 
mente por remate do retabolo , fe vè outroquadro também 
; pequeno \ com a vinda do Divino Efpirito fobre os Apqfto- 
los em linguas de fogo. A Senhora eftá fobre huma peanha, 
,& nella fe vem elhs letras: 

Ejh retabolo mandarão dourar > i$ pintar os de Vo- 
tos de m(1& Senhora de Lifioít , anno de 16 1 2. 
.Efe retabolo moftra haver múy tos annos que foy feito > & 
' í ffim eflaria muitos ; por pintar, & dourar. Ocorpoda Igre- 
ja he moderno j mas a Capella , que he de ; abobada fechada 

de 



Livro II. Titulo LXXIII. 475 

de mcya laranja, moflra muy ta antiguidade- & talvez porque 
o corpo fe arruinou de todo^o reedificáraõ-Da fua reedifica* 
çaõ confia o anno em que fe fez , como refere huma pedra, 
que efiá fobre a porta principal , que naõ tem outra , aonde 
feiem cilas palavras: 

JfViYgtm de Na^areth edifedrao efta Tgrejaos feus 
deVotosoffidaeS) & mordomos de Ltfboa , fendo Jni^ 
fegunda ve^ Manoel Ribeire de Lima , derrubando fe 
huma peqmna,<S antiga Ermida, por ar rabiada, ne /"- 
tefitio , em qefia Igreja fe fundou em o armo de 1 676. 
No corpo deita Igreja fe vem dous Altares collateraes; o da 
parte do JEuangelho he dedicado ao Salvador do mundo, 
aonde fe venera huma Imagem do Menino Jefus y mayor áé 
ítres palmos , Imagem muy perfeita ; & à parte da Epifbla, 
outra Imagem de noffa Senhora com o titulo da Paz ; com a 
qual fe tem também grande devoção ; ?ca feítejaõ todos os 
annos. Ambas e/ias Imagçns tem quatro palmos de cftam- 
ra- Sobre o arco da Capella mor , que também he moderno, 
cftá collocada em hum nicho huma Imagem de Chriflo cru- 
cificado. Tem eíla Igreja alguns cincoenta palmos de com* 
prido , & trinta & tantos de largo. 

Affifte à Senhora de Nazareth hum devotoTerceiro de S. 
Francifco por feu Ermitão, & fempre ouve naquella Ermida 
Ermitães muy to virtuofos,& de bom exéplo.Naõ pude def- 
çubrir os primeiros princípios , & origem de fia Senhora : a 
devoção que todos temcomella hemuyto grande : obra 
muitas maravilhas , como o teíkmunhaõ muy tos finaes , & 
memorias delias , em quadros, mortalhas, & finaes de cera. 
Defronte da Igreja da Senhora menos deduzentos paífos^íc 
junto àeflradaeftá huma copiofafonte,cercada de grandes, 
& altos freixos, & junto a cila huma Cruz. Hé efle lugar 
muyto deliciofo no veraõ, aonde muy tos vaõ a tomar o 
freíco , & com o regalo da agua fria ainda fe faz mais agra- 
daveloíitio; também tenx muy tas amendoeiras , defde a 

fonte 



47<£ Santuário Mariano 

fonte até a porta da Igreja } que comos feus verdes alegrão 
aquelle caminho. 

' li ' I - - ii n. t ' -I 

TITULO LXXIV. 

Tf a Imagem cie nolfa Senhora da ViCtona , de SdcaVemi 

- 

NO lugar de Sacavém à entrada delle , da parte do Oc- 
cidente, fe vè a antiquiííima Cafa de noíía Senhora da 
Vidoria, aonde he venerada huma devota Imagem da Sobe- 
rana Rainha dos Anjos, que ainda parece fer venerada em 
tempo dos Godos; o que bem podia fer , & confervarfe na 
companhia de alguns Chriflãos , como confer vou Deos a 
outras muytas Imagens fuás ,como o referem ashiftorias* 
Porque no tempo em que ElRey Dom AíFonfo Henriques 
tomou a Cidade de Lisboa aos Mouros , que foy no anno dè 
1147. he tradição que jáalii era venerada ,& fervida efl a 
Senhora,com o titu T ode Santa Maria dos Prazerés'.& que na 
viâoria que os Chriflãos alcançarão contra os Mouros 
junto ao rio de-Sacavem^the dera o mefmo Rey Dom Aífonr 
lo o titulo da Viãorh ■ & com efle foy venerada , & bufea- 
da de entaõatéo prefente. A fua antiga Capella ha já aígíís 
annos que fe demolio por muito antiga ,& que devia amea- 
çar ruina. Reedificoufelhe de novo com as efmoías dos fieis, 
concorrendo com largas eímo^aò para efla reedificaçaõ o 
Defembargador do Faço Jofeph Galvão de Lacerda, obri- 
gado de grandes favores , que recebeo de Deos pela inter- 
ceíTaõ da Senhora da Vitoria. 

He eítejiia Capella de novo reedificada , muy to linda, 
& clara \ he fechada de abobada de berço ; tem de compri- 
do vinte &: cinco palmos, &eílá todaazu^jada. Oretabo- 
lo hc baflantc > !ilo j & pintado; porque alli-ou a pobreza he 
muita, cu a devoção muito pouca.Entrc as columnas do re- 

tabolo 



Livro II. Titulo LXXIV. 477 

^tabolo fe vè à parte direita hua I magem cio í eraj. fico Fran- 
ci.co; porque naquella Cafa temos Irmãos Terceiros aííen- 
tada a iua Irmandade; &â parte eíquerdafcvè outra Ima* 
gem do gloriofo Saõ Cayetano. 

O corpo da Igreja também era muyto antiguo ; & por- 
que fe via que ameaçava ruiá'33 o demolirão também , & eítá 
de prefente reedificandofe com as efmolas , que para cíTe ef- 
feito da ília reedificação applicou a piedade do Sereniflimo 
Rejr Dom Pedro o II. A Imagem da Senhora he de grande 
veneração, &fetcm por muito milagrofa. Eílá erti huma 
tribuna no mey o do re tabolo , collocada em hum trono. He 
de roca, & de veflidos,&eftá toucada com toalha de patas 
ao antigo ; tem fobre o braço efquerdo aa Menino Deos, & 
a meíma Imagem da Senhora eíiá teflificando afua mu^tà 
'antiguidade : a fua eftatura feraõ cinco palmos.Feftejafe ena 
a' ( primeira Oitava do Elpirito Santo. 

„ ■ ., — ■ 

TITULO LXXV. 

\ 

íDa Imagem de nojfa Senhora deCopacaVana , q uefe Venera 

em o CoriVento de nojfa Senhora da Conceição dos 

Agoftinhos DeJ calços do Monte OUvete. 

NO Real Convento de noíTa Senhora da Conceição dos 
Padres Agoltinhos Deícalços do Monte Olivete, 
funeaçaõdaSereniflima Senhora DonaLuifa deGufmaõ, 
MiydòSereniíTimoRey Dom Pedro o II que faina gloria 
haja, em que lançou a primeira pedra o Senhor RtyjDom 
Áffoníbo VLemMayodoanno QC1666. fituado no valle 
de Xabregas/e venera huma devotiffima Imagem da Rainha 
dos Anjos, com o titulo denoda Senhora deCopacavanaj 
copia verdadeiramente damilagroíiffima Imagem cia mef- 
«ia Senhora, que no Império do Peru he muito venerada 



,478 ; SynWMiç Mariano 

em q Biípado cja Paz , no jp.amç}o àt Qmaíuyo , & governa 
de Chivifto,em o lugar de Cdpacavana,qjue em língua Ama- 
rea.,& dos índios Peruanos íignifica lugar, .ákaíTento da 
Pedra preeiofa. Mas que pecfra mais preeiofa , &; peregrina, 
que Maria Sa^uffin]a í JSÍaõ he pedra dura, ^nas pedra tao 
doce , que produz mel; porque produzio o doce, & fiiavç 
., Jefus, Verbo do Eterno Pay, como diz JoaõGeometra: Te- 
clun" tramdle " icl í^ ^erhflKM- A origem deite Soberana 
Corderij J m agemhe taõ moderna , quefoycottocada r^queíla Igre- 
ndcap.iW e m o primeiro de Novembro de 1706. & os principias 
Luc. v. que teve, fe podem ter por myíkriofos,& porfingujar fa- 
$<?. vor da Mãy de Deos , que fempre nos quer razer os feus fa- 
vores pela intervenção defuas Santiffímas Imnqcns; poç^ 
j^como tudo recebemps pelas mãos de Maria, el^nosçfr 
t4 ppe venindo por vários modos, para que delias o cpnfig^ 
mos. ' _ • ■ ' 

Hum Religiofo do mefmo Convento , por efpecíal de- 
voção que tinha à Senhora de Copacavana , defejava coí- 
locarnellehuma Imagem £y ,j|c cqmrjunpando acafo ef- 
tes feus defejos áliíima Senhora da Corte , panados alguns 
tçrç\p#$;% perguntou 3 meíma Senhora, fe havia já manda- 
do fazer a Imagem da Senhora de Copaçavana. Refpandco- 
# lhe o Religiofo qi^ç mò \ por quanto ainda netinha com 
qiieeffeitúárosfeús dcfèjos. Pois mande a fazer, que eu da- 
rey o ffllM^ft DeufeoReligi^^ 
çfa vont;adç da Senhora o fazerfe a fua Imagem, & affim a 
mandou logo, fazer com todo o cuidado; & açab^ çlla coni 




Convento das Moines Amí L^oás Defecas > '&, ^Jyíõ^ 
^,okvQuen^le^^ oi ^ ^ 



Um li.Titnh LXW. tf$ 

. Efperav io os Religioíos daConvs&taa -^£flke*a-frs por- 
tas da Igreja a & tirando-a da c?j roça a collcçàrsõ cm o Al- 
tar da Conceição f k nellé fe bcnzeo cem a benjr õ cue dif- 
poem a igreja , & logo lhe cantarão huma Salve. No dia fe- 
guinte de tarde,que foy Domingo vcfpof a de todos 05; iatv 
tos/e levou a Soberana Emperatriz da Gloria Mn p^ôòifl^aõ 
para o Convento do Monte Olivcte; &no feguinte dia fe 
lhe fez a feita dá fua collocaçaõ ^ com Miífa cantada , & Ser^ 
jtião y em 1 que fe ponderarão as circanílanciâs do dia , &^ó 
ihutoda Senhora, Logo íe excitou 3 fé', & è^fefo^lÊlpaai 
com ella , & algumas pefíoas , que em fuás molertiáS j l &$ 
chaques fe viaõopprimidaS; invocando o ft u faVòr, experi- 
mentarão alívios , & favores 5 & como he Mãy da gt^ça , Sç 
de graças , femprêno las ccmmumca /como diz omefrtrô 
Geometra: Gratia gratiarum , 0'Mátn grmmnú% ÚGeomi 
nò.las communicará > & Vay comffltttiicandô a todos os que Hymnl 
ft valem dos feus poderes > & da fua clemência , & pieda- «• deBJ 
de.- r, 

A Xua eftatura faõ cinco paImos:he de efeultura de madei^ 
íà na formadas togadas';, & copiada por outra q veyo do Pe- 
, rúEflá obrada com grande perfeiçaõ;tunica branca fêmea- 
, da de flores de ouro , manto azul bordado detnatizesde pe- 
dras y & pérolas : tem ema fua mão direita fceptro^ & na ca- 
ieça coroa imperial de prata ricamente obrada \ em obra- 
ço efquerdó ao Menino Deos^ veílidodé huma rica tela^, & 
ambas as Imagens faõ de grande fermofura* O Menino eíiá 
olhando para os quechegão à fua prefença com tanta graça, 
^ue rouba os corações. A Senhora eftáfobre hum trono de 
nuvtmcom a Lua aos pês fobre huma reprefa } em quanto fe 
lhenãofazòfeuretabolo. A fua celebridade fè Ihi fazem 
dous de Fevereiro > dia de fua 'Purificação, 



TITU* 



4$ o \ j Santuário Mar iam 



1 1 



TITULO LXXVI. 

T>aSantijfima Imagem de nojfa Senhora do Livramento dos 

i ^/r^ 'De/calços de S. Francifco Italianos y chamados 

commnmmente Capuchinhos. 

NO Hofpicto de noíTa Senhora dos Anjos da Porciun- 
cula doi Padres Capuchinhos Miífionarios Italianos, 
fe venera hyadçvota Imagem da Soberana Rainha daGlo^ 
ria Maria Santiflima , a quem daõ o titulo do Livramento) 
cuja origem fe refere nefta maneira. Noanno de 1706. ef- 
tando a armada Ingkza íòbre Alicante y combatendo-o y & 
bombearadq-o, o temáraõ por força de armas, 6c depois de o 
entrarem o faqueàrão.experimetando pela fua obitinada re-, 
íiítenciajos jroubos, ruínas, Sc aflolações que caufaõ as guer- 
ras,aòs que fe naõ rendem aos vitoriofos/c mais ainda fen- 
do hereges fenl piedade. 

Entre as alfayas y & moveis , quç os Inglezes tomáraá 
fcefte faço y foy huma devota Imagem da Mãy de Deos Ma- 
ria Senhora noíTa , de altura de quatro palmos, Imagem de 
veflidos , cujas mãos , & cabeça faõ de compofíçaõ como de 
pafla, ou máfia de papel y com outros materiaes de que fe; 
ufa nas manufaduras defina qualidade; mas de tatá fermofu- 
ra y & perfeição , que parece viva. Efta fagrada Imagem não 
faltou quem diíTeííe , & affirmaíTe , que os hereges a tirarão 
! da Igreja de hum Convento de Religiofas , & que naquella 
Cafa era tida em grande veneração y porque refpl.andccia 
nella emmuytasrnaravilhasi&bemmoflrafer Imagem mui- 
ro milagrofa;porquelçvando-a aquelles facriíçgos hereges, 
que fizeraõ o roubo, para Lisboa y a tirarão arraftandoa com 
huma corda ao pefcoço: fofrendo í Divina Omnipotência 
J eiles d* facatos na Imagem daquella Senhora , a quem todn a 

San- 



livro II. Titulo LXWL 481 

Santiffima Trindade veraera por trono; a quem o;Eterno 
Pay eftima como a Filha querida; & o Divino Verbo vene- 
ra^ refpeitacomo a fua verdadeira *Mãy;& o Efpi rito San- 
to ama como a fua querida Efpofa:fem caftigar ,como me- 
reciaõi os agreflbres de tão grande maldade: tal vez por re- 
conhecer a cegueira em que efta ignorante gente vive } fem 
acabar de conhecer feus deteítaveis erros. 

Sem duvida íeria; porque a mefma Senhora ,que he toda 
mifericordiofa, o impediria; porque nunca ceifa de orar , <k 
pedir pelos peccadores, que a oíFendem, & parece que fe a- 
cha obrigada a pedir y & rogar por elles à imitação de feu 
Santiflimo Filho, quando poflo na Cruz rogou pelos que o 
afrontavaõp&lhetiravaõavida. Muytasfaõ as razões que 
es Santos Padres daõ para a Senhora rogar pelos peccado- j fí ^ 
tcs. Santo Anfelmo diz à Senhora: Cur nonjirtabis nos pec- % nrra « 
catores, quando propter nos in tantam celfitudinem es eleVa- ^m l. 6. 
ta, ut 'Dominam babeat ,& Venertur omnispariter creatu- ç.^n.\ t 
ra? Porque naõ ajudareis ò Virgem Santiílima a nos pecca- 
dores ; pois por amor de nos foftes levantada a tanta digni- 
dade, que toda a creatura igualmente vos tenha } & venere 
por fua Senhora? E Agotfinho meu Padre diz : Nulla atufa v 

fmtjf entendi Cbrifln^ifi peccatores falVesf acere. Nenhuma 
caufaouve para Chriílo vir ao mundc,fenSo a falvaçaõ dos 
peccadores. E o AbuJenfe nas queílões fobre os Números 
diz: c De Seat a Maria dkimws y cjiwdipfa propter nos Mater A „ 
Deieftyfienim Adam nonpeccajfet ,nunqmm "Dewvicar- s "£* , 
natws y nunc]twn Maria carnemtllidedijfrt, ut hibet comu- Jy e % B 
nis lheolo goram- fententia. Da Eemaventurada Virgem Apfr. * 
Maria dizemos, que por amor denes he Mãy de Deos; por- Jipud 
quefentenca he commua dos Theologos , que fe Adaõ vão ?*fc- *• 
peecàra > nunca Deos encarnaria , nem a Virgem Maria o P- u §• 
conceberia. E Dionyíiodos louvores da Senhora diz: Fir- c «?' 9 * 
go recog?tofatfepeccatoni?u4 [no mododebere , tjmdMàtet f U(i 
epctafit Tku A mefma Senhora reconhece oue de ateuri* " u 
Tom. I. Hh * W 



$% Santuário Mariano 

modo deve aos peccadores fer Máyàe Deos. 

Eíias razões que os Santos a pontão, faò as que movem 
apiedofaMãy dos peccadores a rogar por elks , para que 
não fejão caftigados como os feus delitos merecem. Vendo 
ejRa grande maldade (que verdadeiramente íe reconhecia a. 
injuria feita àquella foberana Senhora digna de toda a reve- 
rencia ; porque fe. lhe vem huns íinaes como de ferida em a 
garganta; dous Italianos devotos da Mãyde Deos,&fen- 
tindo a corno bons Catholicos, movidos da devoção da 
mcfma Senhora ,tondo pkdade, & compayxão doquefe 
havia obrado contra ella , fendo o amparo, a coníolaçaõ, 3c 
o remédio de todos os homes , ainda hereges , gentios , «Sc 
tnSeis, fe offerecéreo para a remir , & refgatar das mãos 
dos hereges. Para iflo ( querendo diflimular afua devou 
intenção) tratarão de lhes comprar outras varias peças, & 
alfayas, com condição porem de que lhes haviaõ de vender 
aquel 1c Santiffimo íimulacro de Maria May de Deos , a quê 
elles chamavaó a Margarita- , não por reverencia , mas por 
ludibrio, &efcarneo> fendo ella na cíHmaçaõ divina ver-» 
dadeira mente a celefte preciofa Margarita, como lhe chama 
Brexel. Padre Drexelio \ Margarita pretiofa câleftu : & Marga- 
rita preciofa que adorna o Reyno celefHal , como diz ^íe-* 
thodio: Margarita B^nipretiofijTima. 

Com fumma confolaçaõ comprarão os dous devotos 
Italianos a Santiífima Imagem , & feita efta glande compra 
por preço de hua pataca , quando fe devião dar por ella to- 
das as ríqurzas do mundo , adepofitárão na Igreja dos Pa- 
dres Capuchinhos Italianos, que vivem em o fitio do Con- 
vento velho de Santos o Novo. Soubefe por muytos devo- 
tos da Mãy de Deos^do preciofo, & inextimavel depoíito, 
digno de toda a veneração > & forão muytos os que fe offe- 
recéraô para concorrerem com fuás efmolas, para lhe dar 
digno lugar ao feu culto, & veneração ; entre os quaes me- 
receo a dita de a levar para fua cafa a excellentiflima fe- 

nhora 



Livro II Titulo LXWL 483 

nhora Condeça do Redondo D. Magdalena Luiza de Tá- 
vora, viuva do Conde DomFrancifco de Caflello- Branco, 
que vendo a Imagem de Maria Santiífima roubada , de fpi- 
da ,& fem algum adorno , fobre offendida, & maltratada 
dos hereges , procurou logo de aveílir muy to ricamente, 
&côm a grandeza do feu devoto, &: generoíb comçâõ, a 
pozemeftado que pudcffc expor fe á veneração dos fieis , & 
fe nao era como a. Senhora merecia^oy conforme a fua pie- 
dade defejava. • 

Logafe lhe mandou preparar hum altar , & nelle hum 
nicho em qae pudefib fcr collocada em lugar próprio , como 
fe vè no meyo da Igreja dos referidos Padres Capuchi- 
nhos. E porque ainda naõ eftavatudo corrente para a fua 
publica collocaçaò , como a devota Condeça defejava , ain- 
da afíim a levou ao rnefmo Hofpicio , acompanhada de fuás 
criadas, & criados, ( porque morava perto ) rezando pelo 
caminho devotas orações á Senhora ,& derramando muy- 
tas lagrimas de devoçaõ,& a collocáraô na tribuna do altar 
mor, até a porem no lugar que para ella efiava deflinado. 
Pofta a SantiíHma Imagem, & collocada na tribuna, 1126 lá- 
bia a devota Condeça apartarfe delia , & da fuaviíla, & 
quando o fez, foy com muitas lagrimas, deixando nefte feu 
apartamento o coração em companhia da Senhora, &'taõ 
grande fcy a devoção que lhe tomou , que fe offereceo para 
tudo o que foífe do feu ferviço, & culto. 

Ficou nas mãos da devota Condeça hum colete roto, 
& defpedaçado, que por ruim permrtiobeos lho ouveíTem 
deixado os hereges á Sarna Imagem, depois de adcfpoja- 
rem dos ricos Vef tidos que tinha : o quaf çuiz guardar por 
relíquia da Senhora E tanta foy a fua fé,que adoecendo bua 
Dama do Paço ília fobrinha, & chegando a hum grande pe- 
rigo , lhe mandou a relíquia da Senhora , que tanto que lha 
apphcáraõ, fe reconhecerão fedia logo as feclhoras que 
fe deíe javao , livrando logo do perigo em que efiavr ; como 

Hh z oaffir- 



484 Santtiarh Mariano 

o affirmou a mefma Condeça. 

Naõfe fabia o titulo, nem a invocação defta Sagrada 
Imagem; & como pelos feus merecimentos havia livrado a 
Dama do perigo, em que efiava , deraô lhe o titulo de nof- 
fa Senhora do'Livramento , não fó por livrar a Dama da 
morte j mas porque ella também foy livre das mãosdoshe- 
reges. Ve-fe hoje com grande veneração na melma tribu- 
na, & os dous Italianos lhe dedicarão por Jua devoção hua 
alampada perpetua , para que fempre ardeííc na preíença da 
Senhora. Efta relação nos deu o muyto Reverendo Padre 
Ereyjeronymode Gencva, Superior., & Procurador Geral 
dos Padres Capuchinhos Italianos. 



TITULO LXXVIL 

Da mihgrofa Imagem de nofa Senborado Mar, ou dds 
Ondulo Contento de S.JaaÕde 'Deos de Lis ha* 

PUc C Ignifíca Maria mar de amor, conforme a Plácido Ni- 
ppufe.4. O g ; dono feuMarial,& por alguas razões. Primeyra^pe* 
Ser, 6. lo amor natural que teve aChriflo: (não pondero agora 
.. fe todo o amor da Senhora para com Chriílo , & ainda para 
com nofca foy fobrenatural , fegundo o principio , & fim 
que nelíe fe podia confiderar; mas fallo com algus Autho- 
res.) Eíte amor para com Chrifto fe fundava na maternida- 
de ; porque he natural em todas as mays amarem aos filhos» 
& o Senhor allegava eftc amor ao povo de Iírael : ISlunquid 
oblivifci poteB mulier wfantem Juum y ut non miferentur fi- 
r <d?*à Uo uteú fui ? Et (i Ma obltta fuerit y ego tamen non oblhnf- 
J%' car tui. He efle amor natural nas mãys ; naõ digo fó rácio- 
€ pI(T ^i mes > mas 3 ^ rr 4? nas í rra cionaes : quanto mais na Sentara, 
^ D aonde o conhecimento do Filho, & dos bí s que por tile lhe 
vicraõ a era tanto niiyor , quanto vay do Ceo à terra : pcfc- 



Livro II. Titulo LXWIl 487 

^tíe era amor para hum Fi^ho > que era todo feu , & na terra 
naõ tinha Pay : era hum Filho que andando em feu ventre, 
nunca lhe deu que fofrer , nem no parto que fentir : era Fi- 
lho único, aonde o amor he mayor , como là dizia David 
chorando a feu amigo Jonatas: Sicut mater wúcum amàt 
filiam fuivn , ita ego te ' dtligebam. Era Filho alcançado còifi 
rogos das gentes defde o principio do mundo: era híí Fi- 
lho ornado da verdadeira fermofura , da verdadeira fànti* 
dnde , da verdadeira doutrina , com obediência verdadeira 
de Filho , & aíuftencia frequentiílima afua Mãy. 

Segunda. Pelo amor fobrmatural com que amava a 
Deos, & por razaõ deite Te chama, Mater pule br & dilefttõ- 
ms ? May do melhor amor , que he o fobrenatural.Efte amor 
para com Deos foy como immeníò , foy fummo , foy mayor 
que o de todos os Santos juntos 5 foy fem fe divertir nunca 
de Deos , defde o primeiro inftante èm que começou , fem 
interrupção alguma ,nem ainda no fomno, nem na mefma S.Ber- 
morte , dizem algus Authores : Virgo étiam cum dormie- **r&in % 
bat , futt tn dtiore contempldtione , quârn/tút ali quis alius, tom - *• 
dwn vigilaret. Serm * , 

Terceira. Pelo amor para com os próximos ; porque \ U ^ 
mais que todos os Patriarchas, mais que todos os Profetas, "' 1-í 
orou pela Encarnação, & pelo género humano; eIJa fcy a 
figurada Eflher , que orou , & alcançou delRey AíTuero o 
tmidar o Decreto em que condenava aos Ifraelitas à morte. 
Dizem alguns Padres, que era tal o amor da Senhora para 
com os próximos., queella mefma, fendo vontade de Deos, 
facrificaria feu Filho, naõ fó como Abrahaõ no aítedo, mas 
no eífeito. Ve-feeíte amor, em que aííiitindo às mayores 
injurias da Payxaõ , nunca fe queyxou ,nem pedio a Deos 
vingança contra quem lhe injuriou, atormentou, &: matou 
a feu Filho. Antes diz Guilhelmo , que quando ouvio a feu ^W 
Filho pedir perdão para os que ocrucificáraõ, q ella mefma ^ ^ ar Í 
ajodhandoíc,quantoerada f?a pane , lhe perdoou tambe. eu 
Tom.I. Hh íij Qm^ h 



4$é Santuário Mariano 

Quaría.-Tambem fe pôde chamar a Senhora Marpa/S* 
vo, ou objedo do amor de Deos, & das creaturas. Mas quê 
poderá entrar com a conftderaçaõ no mar de amor de Ma- 
ria \ Porque no primeiro lugar fe pòdeconfiderar o infinito 
amor, com que a Santiffima Trindade ama a Maria ; porque 
o Pay a ama como a Filha, o Filho como a Mãy, & o Efpiri- 
to Santo como a Efpofa. E fe nas peffoas humanas he tam 
grande o amor de pay , o de filho , & o de efpofo , que fera 
nas Peffoas Divinas \ Defte immenfo amor com que a Se- 
nhora nos ama ., podemos confiderar , que por todos os ca- 
minhos nos bufea , para nos encher de feus favores , pela 
terra, & pelo mar jhuas vezes manifefíandofe na terra em 
as lapas , ou em os montes , ou fobre as arvores , & no mar 
íobreas ondas; &que vema fer ifto fenaõ finezas doamoi? 
de Maria \ bufearnos para que ella em fuás Santas Imagês 
feja o preíídio de nos todos , o noífo amparo , & o notTo re- 
médio; & aífim quer que a invoquemos tambemeom o titu- 
Ioda Senhora do Mar ,& da Senhora das Ondas, para nos 
livrar de fermos fuhmergidos nellas,& de nelle naufragar- 
mos. 

Na Igreja do Convento dos Padres de S. Joaõ de Deos 
de Lisboa fe venera hua devotiffima Imagem dafoberana 
eflrella dos mares Maria Santiffima , a que m daõ o titulo de 
noffa Senhora das Ondas , ou de noífa Senhora do Mar. Ve- 
fe collocada na primeira Capella daquelíe Templo , da par- 
te da Epiffola; fua eftatura fera de dous palmosA meyo; hc 
de efeultura de madeira , ejftá com o Menino JESUS fobre 
obraçoefquerdo,recolhidaemhum nicho nomeyodorc- 
tabolo fobre hua peanha de prata , & fechada com hua rede 
de prata;he de tanta fermofura, que parece fer obrada pelas 
mãos dos Anjos , & aílim no lo eítá publicando o feu mila- 
grofo apparecimento. 

Quanto à origem deita foberana Imagem , o que pude 
deícubrir foy, que a Senhora apparecéra fobre as ondas d 3 



Livro II. Titulo LXXVII. 487 

tnai^ouque refpeitofasa*anta grãdeza a puzeraõnas áreas 
cm aprayaque fica defronte do Convento deSaõ Joaôde 
Deos 3 & que vinha dentro dehumcaixaõíinho , que 'abrin- 
do fe foy neíie achada a Santa I magem,& que dali i a levarão 
aos Reíigioíbs delíe : os quaes agradecidos à Senhora pelo 
beneficio de os irbufear, acollocárao em hum altar , de 
donde com asmuytas maravilhas , que logo começou a o- 
brar, obrigados delias, ou movidos por ellas a mayor de- 
voção para com a Senhora, lhe quizeraõ dar lugar pro- 
prio,como fizeraô em a primeira Capella do corpo da Igre- 
ja da parte da Epiflola. 

Quanto ao tempo em que appareceo , o que fc diz poi* 
tradição he, que foy em os princípios da ftmdaçâõ, ou pou- 
co depois : porque a primeira Cafa de Saõ Joaó de Deos,quc 
fe fundou nefle Reyno,foy a de Montemor o Novo ; efta fe 
começou fendo ainda Arcebifpo de Évora ofenhorDoni 
Alexandre ,& fe augmentou no do fenhor Dom Jofephde 
Mello, concorrendo para elía com largas efmoIas,o que foy 
no anno de 1 627. Pouco depois no anno de 1 6% o. fe come- 
çaria a Cafa de Lisboa; porque ja no anno de 1 640. era ncl- 
la venerada a Senhora do Mar j ou das Ondas :mas não fç 
j>ode defeubrir o anno cm que foy. Namefma Igreja fe vè 
hum cepo, ou caixa das efmolas , & nella pintada a Senho- 
ra das Oodas. Nefta. caixa çftavaõ hfws letras , que já hoje 
fe naõ podem ler,& bem poderia fer que neíta caixa eílivef- 
feo anno em que fe fez, para dahi fe inferir alguacoufada 
fua antiguidade. 

O que he certo , como affirma hum Religiofo grave, & 
velho , Sacerdote , que ha quarenta annos vive naquelle 
Convento , que defdc o principio que nelle foy collocada a 
Senhora, refplandecèra emmuvtos milagres, & maravi- 
lhas : mas como o inflituto daquelles fantos Religiofos he 
todo o applicarfe ao ferviço dos pobres , & enfermos , naõ 
çuidaõ eu) fazer memoria dos milagres , que a ^Senhora 

Hh iiij obra. 



4^8 Santuário Mariano 

obra. Quando o Marquez.de Alt v r.te Manoel Telles da 
Silva foy ao Império, para conduzir a fereniffima Rainha EV 
Maria Sophia, com a grande fé que tinha na Senhora do 
Mar , & das Ondas , foy encomendarfe a tila áquelle Con- 
vento , &pedio aos Religiofòs lhe deílem hum dos feus 
cantos, para o levar por relíquia defeníiva de todos os pe- 
rigos da viagem, •& com elle o liv ou a Senhora de todos ; & 
a Marquez em accaõ de graças pelos benefícios que da Se- 
nhora recebera , lhe deu hua peanha de prata, fobre que ef- 
té colíocada , que terá quafi hum palmo de alto. 

O me faio Reíigiofo me referio , que haverá três , ou 
quatro annos entrarão pela Igreja dentro dez , ou doze ho- 
mes defcalços a vifitar a Senhora , & a darlhe as graças de 
os haver livrado de hum grande perigo.Foy efle,quenaco- 
fta de França lhe dera hum temporal taõ rijo , que os lança- 
ra em hum baixo aonde íe viraõ perdidos , por dar o navio 
em hus grandes penedos, & que vendoíe ntíie evidente pe- 
rigo clamarão pela Senhora do Mar , & das Ondas , & que 
por mercê da Senhora fahira logo o navio fem haver pade- 
cido damno algum, & que deraõ graças à Senhora, &lhe 
offerecèraõ a fua efmola. 



_ , . — 

TITULO LXXVIIL 

f)a Imagem de mjfa Senhora dos Anjos no coro de Con- 
vento de S. Francifco da Cidade. 

O Real Convento de Saô Francifco àa Cidade cabeça 
da Seraphica Província de I ortugal , fundou ElRey 
D.AfFonfo oll. ( &arnpuíraõ os generofos Monarchas 
ElRey D. Manoel, 5c D. joaõ o III.) pelos annos de 121 7. 
lógoem os princípios da fundação mandarão osRehgio- 
foi fazer híía devotiíSina Imagem da foberana Emperatriz 

da 



Livro 11 Titulo LXW1IJ. 489 

da gíoria ^ Maria Sartiffima , que collccáraõ no feu coro 
cm hum rico trono cercada de Anjos, que lhe deraõ otitu- 
lo,& a quem também comirummente invocaõ côm o do co- 
ro, por eflar nelíe collocada. Hé efta foberana imagem de 
grande fermoíura, & tem em feus braços ao dulciííimo Je- 
fus Menino. A fua eftatura he de alguns féis para fete pal- 
mos. Cem elia tiveraõ fempre muy ta devoção osReligio- 
fos daqueile Convento > & no tempo em que foy Guardião 
delie o Padre Fr. Pedro do Monte Siam , a mandou encar- 
nar, & eílofar de novo , por haver damnificado o tempo o 
eílofado delia. E ficou com efta renovação com muy to mais 
perfeição, 5c fermofura. 

Com efta foberana Senhora tinha grande devoção o 
Padre Meílre Frey Manoel do Sepulchro^que tomou o ha- 
bito no meímo Convento no anno de 161?. Author da- 
quelles admiráveis livros que intitulou Refeição Efpiri- 
tual , & de que dedicou a primeyra parte á me ima Senhora, 
&elía lha foube pagar muy bem ; porque lhe fez muy tos fa- 
vores, como elle conferia na Dedicatória da mefma primei- 
ra parte. Hum delles referirey que fcy notável. Vinha elle 
virtuofo Varão em hía cccaíiaõ cm hu barco de Santarém 
para Lisboa : no meyo do rio lhe fobreveyo hua taõ grande 
tormerata de ventos , & taô terrível tempefiade , que virou 
o barco , aonde fe afogarão quafi todos os que vinhaô nel- 
1c. O Padre Fr. Manoel do Sepulchro neík grande perigo 
fevaíeo da fua grande Proteftora a immaculada Senhora 
dos Anjos \ invocando a no feu coração, & apegandofe 
(metido nas cavernas do barco) a hum dosbsrxos queo 
atfaveíTaõjallioguar^ou a Senhora femfe afogar,& depois 
de pafíarembaítantes horas > acudirão outros barcos, que 
fizeraõ voltar o cm que elle eftava, de donde fohio vivo, £c 
faõ^mas tam maltratado d o trabalho deeftar tantas horas 
debaixo da agua, que fahio delia quafi cego ; que «flim-o è\& 
poria noífo Senhor para eterna lembrança do beneficiojdif- 

pondo 



490 Santuário Mariano 

pondo fambem"que elle perde íTe a vifta natural ,paía que 
confervaffe melhor a da fua alma, como confervou ; porque 
alem de fer fempre grande fervo de Dcos, depois defte fuc- 
ce(To fe entregou todo ao ferviço do meímo Senhor , & da 
fua Senhora, & Protedlora > gaíiando todo o tempo que te* 
vede vida, cm acabar os livros referidos. O que parece fe 
confirma com eftas palavras, com que finaliza o Prologo 
da primeira parte , fallando dos erros da imprenfa : Quanta 
mais mH a a quem os accidentes do tempo fi^er ao pojtbuma% 
peUinbabiliíadt de fer Correttor advertido, o que foy Autor 
e&ndiofo da obra. 

Efta Senhora fe venera fobre o Altar da grade do corai 
aonde he tida, & bufeada com grande veneração de todo 
aquelle Convento. Na primeira parte da Refeyçaõ Efpiri- 
tual poz o mefmo Padre Fr- Manoel doSepulchro híiaef- 
tampaperfeitiffima com hu retrato damefma Senhora im~ 
maculada , com o foberano Menino nos braços , & aos la- 
dos dous Anjos poflos de joelhos com eíte letras grava 3 
dasnapeanha: 

Effig. Imdg. ©. MarU in choro 
S.FrancifciUtixb. 
E mais abay xo efíe diílico : 

Calor um Regina Choro dignaturadeffei 
^jppe Choras Calum , regia, í? Júla Chorutl 
Os Religiofos a fervem , & feflejaõ com grande devo^ 
caõ; porque na& fó o Padre Frey Maneei doSepulchro foy 
"beneficiado, & favorecido defía fòberana Senhora; mas 
todos recebem da fua liberalidade grandes mercês, & affim 
como agradecidos a fervem fervorofos. Da Senhora dos 
Anjos do Coro faz memoria o Padre Fr. Manoel do Sepul- 
eh ro na Dedicatória cue fez á meíma Senhora em a fua pri* 
nxira parte. 



TITO 



livf» II Titnk LXXIZ 49* 



TITULO LXXIX. 

T)a milagrofa Imagem de tiojfii Senhora da Piedade , que 
fe yenera na 'Tarócbia de S* (Paulo* 

HE Maria Santiffima May de Piedade j & de mifericor- 
dia , não fó por fer Mãy de Chriflo y em quanto em 
ft he todo piedade , & mifericordia; mas também he Mãy de 
Piedade, & mifericordia ; porque naõ fó muyta mifericor- 
dia y mas muy tas obras de Piedade , & milericordia nafeem 
delia. Atè Chriflo Senhor nofíò por fer Filho da Virgem 
hemifericordiofo,& pio. Com algua propriedade charnaõ 
algus Padres a piedade, & mifericordia collaça de Chriflo, j rKO tfi 
fuflentadaaosmefmos peitos , que eiie. Amoldo Carno- 
tenfe chama aos peitos virginaes da Senhora, monumen- 
tos da piedade, & da clemência, & inlígnias da charidade. E 
Saô Bernardo diz : lndolem fuam mifericor diofijfimam , is ^ eYf1 \ * m 
geniumillumadbenefaciendum, adcompatiendum,adignof- cmsji 
cendumfacilem , Filio una cumlaãe inJlillaVit. Que a Vir- 2. 
gem Senhora logo com o leite infUHou a feu Filh o a fua pie- 
dofa indole, & aquelle génio , ou inclinação fácil para bem 
fazer, para fe compadecer , & para perdoar. Concorda com , 
Saó Bernardo , Ricardo de Saõ Viâor : In te > Virgo , cen- *£**•< 
creVit lac mifericordia , quia cibm tile , quo íhriHm in pie- 2 [ %n p * 
nitudmem <etatis altus ejl , non erat aliud ? quâm mifericor- canta^ 
dUlac, adfactendam mifericordiam nobifeum. Em vos, ò 
Virgem , crefceo oleyteda mifericordia; porque aquelle 
fuflento, com que Chriflo fecreou para a plenitude de fua 
idade, naõ era outro fenaõ o leyte da piedade, & mifericor - 
dia, para exercitar com nofco mifericordia: Jdeo Virgo 
(continua Ricardo )pietatereplentur uberatua } ut alicujus 
notitia miferi* tatfa, lacfmdant mifericordia, neprjfis mi- 

jerias 



49 * Santuário Mariano í 

ferieis feire ,& non fubvmire. Tanto, ò Virgem , fe encherti 
voffos peitos de piedade, que tocados com a noticia de aí- 
guamiferia,logomanaõ leite de piedade P & mitericordia, 
de forte que naõ hepoífivel faberes , &: naõ foccorreres 
noffas miferias. Eque muyto ( faò palavras do meímo Pa- 
dre ) abundeis em miíèricordia, vos quepariítes a meíma 
mifericordia l Carnalia in te Chnflus uberafuxit , ut per te 
nobis (pirit udiãflH2rent\cum enim mifericordiam lacíijli^b 
eadem mifericoníicC ubera accepi&i. 
5 Sendo pois efta Senhora toda piedade ,& mifericordia; 
quem haverá , que recor endo a eila em fuás mi r erias deixe 
de experimentar a fua piedade, & mifericordia- Bem devem 
todos chegar confiados á piedade deita noíia piadoíifiima 
Máy; porque nao pôde a fua piedofa condição deyxar de 
nos acudir. Bem omoflraõ as memorias, & infigniasdas 
mifericor dias que obrou , & dos males de que livrou aos 
que a invocaram, ou imploraram a fua piedade. 

Na Parochia de Si Taub Apoftolo , ao entrar pela por* 
ta trave-Xa, que por ficar miais à mão aos que paíTaõ , lhes fi^ 
ca fendo a rmis principal , fe vè à maõ efquerda hua muyto 
nobre Capella dedicada a Chrifío crucificado , & a fua San- 
tiffimaMãy,queaopèdaCruz do Santiííimo Filho encra- 
vado nclla , fe vè com o me fmo Senhor ( mas em outra dif- 
ferente Imagem ; defunto em feus braços, com a cabeça 
defeançando .fobre o braço efquerdo da mefma Senhora. 
Saõ todas eftas Imagcs de foberana perfciçaõ,& de admirá- 
vel efeultura. Ve- fe a Senhora com hua reprefentaçaõ def* 
mayada,ou taõ doloro lamente fentida, que parece eílar 
abíortcijou atónita , queixandofe contra a ingratidão dss 
liomSs, pois tiveraõ valor para tirar a vida ao mefmo Au- 
thor delia, & que vcyo do Ceo à terra para lhes dar a eter- 
na vida da gloria. 

Nrômoíiraõeítas Imagf $ ferem muyto antiguas:mas, 
ao que parece, fuppoftofe naõ alcança nada da lua origem 

ftaõ 



Livro II Título LXXIX. 493 

('ta8 grande como ilío foy o defcuido) que terno algíís cen- 
to ;& vinte annosde principio pouco mais > cu menos, 
porque fe mandariaõ fazer depois que fe deu principio 
àquelle grande , & mageflofo Templo , ou depois de eflar já 
alguma coufa acfc ntado ; porque deyxando aquelles Paro- 
chianos a Igreja de nofTa Senhora da Graça do Corpo San- 
to, aonde eíkve a Parochia muytos annos^emo de 1412. 
elegerão aErmidadoEfpirito Santo 7 que eflava junto ao 
beco do Carvaõ , que fica nas coftas defle mefmo Templo 
moderno (de que ainda exiítemveítigios) por remeaio, 
ate porem o feu novo Templo em termos de fe collocar 
nelie o Santiffimo Sacramento. O que fariaõ com o mefmo 
motivo (fem duvida por lhe ficar a Igreja do Corpo Santo 
muyto longe para a boa adminiílraçaõ dos Sacramentos) 
que tiveraõos da Parochia de nofla Senhora da Conceição 
da Rua Nova ( deixando a Igreja de noífa Senhora da Vito- 
ria ) para edificar o feu novo,& magnifico Templo^que ain- 5 
da fe continua y fazendo dentro delle hua Ermidinha 3 para 
que aílimficaífe menos euflofo á Irmandade do Senhor o 
poder acompanhalo com mais promptidaõ, quando Sacra- 
mentado fe adminiftrava aos enfermos. 

Logono mefmo anno de 141 2 fedeu principio ao no- 
vo Templo, que dedicarão aoDoutcr das gentesoApof- 
tolo Saõ Paulo , como fe vê em dous difiicos > que efiaõ ef- 
culpidos no fromifpicio da porta principal , que i ífim o de- 
claraõ. Ainda que a confumaçaõ delle foy taõ vagaroi a, que 
iífo tem as fabricas grandes > aonde as deípefas faõ limita- 
das ; porque haverá pouco mais de feífenta annos , que fe 
acabou de todo ; & ainda hoje lhe falta por acabar a Capei- 
la mor» 

He muyto grande a devoção que todos os moradores 
daquella freguefia tem com aquella foberana Senhora da 
Piedade > & ella com a fua portentoíà mageílade, & fç rnjo- 
fura j &íentimento que reprefenta ? efià atirahindq a fi os 

cora- 



494 Santuário Mariano 

corações de todos. Obra infinitas maravilhas , & milagre?* 
com:> o efíaõ publicando os muytos quadros, que fevem 
pender em as paredes vi fmhas á fua Capella. Vinte conta- 
mos ao tempo que fazíamos eíla narração, & outros íinaes, 
& memorias, & tudo dáteftemunho dos grandes poderes 
da Senhora da Piedade. 

Hua maravilha referem os velhos daquella freguefía, 

que fuccedèra no anno de 1659. pouco mais, ou menos, 

que também confia dos livros da Irmandade , aonde eftafe 

^ refere neíta maneira: Havendo nefta Cidade de Lisboa hua 

y £eca muito grade, determinarão os fieis fazer diverfas pro- 

yy ciífocs, levando nelías varias Imagés milagrofasj fuccedeo 



fazerem os Irmãos da Confraria de Jefus,& da Piedade, fí- 
)y ta ema Parcchial Igreja de Saõ Paulo,hua prociíTaÕ, na qual 
leváraõ amilagrofiíllma Senhora em feu andor; o qual le- 
varão os ditos Irmãos com fuás capas brancas, indo na 
. prociíTâõas Irmandades da dita Igreja, acompanhada de 
hua granie multidão de povo. Sahindo a prociflaõ em hua 
" feita feyra de tarde pela poria traveíTa, logo começarão a 
** cahir huas gotas de agua , k indo a dita prociflaõ pela Boa 
* Viiia adiante atraveiTando pela rua das Gay votas, foycon- 
** tinuando pela Calçada do Congro aílima , com agua já em a- 
** bundancia, & chegando ao Loreto, foy a agua em tanta co- 
y> pia, que cntrívâõ em S. Roque com toda a preífa, & no pul- 
* y pito da dita igreja efiava o Padre Areda , que pregou fobre. 
>? o milagre que a Senhora havia feito. Efícoub ornato da di- 
*' ta prociíliõ taõ molhado,que ao outro dia veyoa mefma Se- 
>} nhora psraa fua Capella cuberta,&occultamente. Atè aqui 
J0 a me mor ia. 

Já neíie tempo tinha a Senhora muitos irmaõs,8ynor- 
doTios, que a ferviaõ ; mas depois deíle prodígio , vendo, 
que os Ceos ,que atè alli efiava õ de bronze, tanto .çíie viíaS 
a Senhora , fe abrandiraõ de forre que fc dçsSzertó tm di- 
lúvios' de agua ; todos entaõ á porfc deíejavsõ de fervir , & _ 

tanto. 



Livro II Titulo LXXIX. 45^ 

tanto fe iníiammáraõ os Parochianos daquelía freguefia em 
devoção da Senhora , que todos pediaõ fer admittidos'na 
ília Irmandade j& aflJm o fazem hoje com ftrvorofo zelo, 
&affecfto. Depois pelos annos de 1687 pouco mais,cu me- 
nos havendo outra femelhante feca , fe tirou a Senhora em 
prociífaõ pelas mefmas ruas , & foraò os effeitos das roga- 
tivas taô favoráveis, que logo feviraõ osCeos chcycs de 
brãdura, alegrando, & regan do as nuvts a terra com abun- 
dancias de agua. Neíia occafiaõ ficou a Senhora cm a Igreja 
do Loreto , porque naõ deu lugar a agua apaífar adiante. 
Nenhum deites milagres fe authenticou atêgora : o que 
feria fem duvida, porque na Senhora tudo faõ milagres ,& 
maravilhas. 

Eíla Irmandade fe erigio por devoção ; porque naõ ha 
nella Compromiffo,& daqui me perfuado, cm que alguma 
peífoa particular por fua muyta devoção mandou fazer 
aquellas fantas Images , aífim a do Senhor crucificado , co- 
mo a da Senhora, para quefe collocafTem naquelle novo 
Templo. O titulo da Irmandade he de ]ESUS,&da Senho- 
ra da Piedade; & a fua feíía principal, he em o primeyro dia 
de Janeyro. O mais que efta Irmandade tem de antiguida- 
de faõ 1 1 o. annos; o que fe colhe do primeiro , & mais anti* 
guo livro delia, cujo titulo he nefla forma: 

Livro do affento dor Irmãos da Confraria do 
Nome deJESUSfituada na Freguefia de S. 
Taulo dejla Cidade de Lisboa amio de 1 J97. 
Daqui fe infere, que nos princípios fe naõ fazia rrençnõ âa 
Senhora da Piedade, & fófefez do Senhor JESUS: mas a 
Senhoracom as fuás maravilhas quiz que auniíTcma feu 
fantiffimo Fi!ho. Outra Irmandade tem a Senhora de mu- 
lheres, & tiveraõ muyta razaõ em naõ querer ficar de fera, 
& muyta mais em quererem fervir á Senhora feparadas. Ef- 
ta fe intitula da Ladainha /porque pela fua conta, &£efpc- 
za fe canta em todos os Sabbados do anr.o , & dias.da Se- 
nhora 



49a Santuário Mariano 

nhora a ííia Ladainha : ao que afíiucm nao fó liberacs, mas 
fervorofas. 



TITULO LXXX. 

Da Imagem de no(fa Senhora da Graça das portas dç 

Palácio da ferenijima Cafa de Bragança de 
Lisboa» 

OAntlguo Palácio dos Duques de Bragança^que fica li- 
mado nas coftas do grande Convento de Saõ Fran- 
ciíco da Cidade, que em tempo dos Romanos , querem al- 
gus foíTe Palácio dos Prefidentes , que pelo mefmo povo 
Romano refidiaõ em Lisboa , que hoje ferve de depoíito do 
thefouro; &das preciofas peças daquella Serenifíima Cafa, 
& também nellè fe guardaõ , & confervaô as peças precio- 
fas da Cafa Real. Tem efte Palácio duas entradas > hua para 
a parte Occidental > & outra paia a Oriental : nefta entrada, 
que faz de vão alguns trinta palmos, fe vc fobre a porta da 
parte de dentro hua lamina de noffa Senhora , a quem invo- 
caõcom i titulo da Graça > que he tradição fora alli collo- 
cadaemhum nicho defde os princípios daquella illufírif- 
íima Cafa ,& que defde aquelles tempos fora tida fempre 
em grande veneração ; porque encomendandofe a gente 
âquell a Senho rasque no mefmo lugar fe venera > recebera 
delia grandes mercês, & favores em todos os tempos com 
osquaes fe accendeo tanto a devoção dos vifmhos, que 
naõfó aveneravaõ naquelle lugar ^fazendolhe altares na 
occaíiaõ em que a feftejavaõ, que era ordinariamente em os 
dias de Santiago o Mayor ,& a Senhora Santa Anna > can- 
tandoíhe Ladainhas^ &fazendofclhe praticas naquelle lu- 
gar -, mas a hiaõ feíkjir em a Parochia y que he a de noífa Se- 
nhora* dos Martyres, aonde coUocàraõ para elTefim outra 

Ima- 



Livro II Titulo LXXX. 49* 

f magem mayor com o meímo titulo. g , 

Para a celebridade da Senhora fe«nomeavão mordo- 
mos , efeolhendo para Juiz da fefta a peífoa mais nobre ,& 
illuíire daquella vifinhança , & todos aferviãocom potá- 
vel grandeza, & fervor , & no feu nicho , que fempre I he à ç- 
mavaõ curioíàmente , fe lhe accendião luzes , & ie lhe fazia 
tambcmaqueíla fefiividade que permiti^ o lugar. 

Depois da Acclamaçaõ paífou a devoção aos Mufícos da 
CapellaReal^&efles aícitejavaõ com muyta perfcyção ? 
continuando a fua fefUvidade na meíma Igreja da Senhora 
<los Martyres.Eem quanto viveo o Meftre da CapcllaSe- 
bafthò da Cofia ,perfeverou entre os Muíícos a devoção de 
fervirem á Senhora; porque elle com a muyta que tinha á 
fòberana Rainha dos Anjos , continuou fempre nos feus 
obíequios. Com a fua morte íè esfriou de forte a devoção 
dos Muficos, que hoje não hnvia quem cuidâ(fe de fervir a 
Senhora da Graça.Eíte deícuydo,&: frieza melhorou Deos, 
obrando pelos merecimentos de fua Santiílmia Mãy no- 
vas maravilhas a favor dos homens, & de todos aquelles 
que buícavaõ o feu patrocinio , fazendo que os circumvifi- 
nhosfeafervoraíTefiroutravez í & lhe c^ncertaífem nova- 
mente o feu lugar, reformando o com lhe fazerem outro 
novo nicho , ou tabernáculo com hum re tabelo de dobra- 
das columnas Salomonicas com feu altar , & banqueta, 
tudoreveflido decores, & dourado com ramos deíiores 
artificiaes , jarras douradas , caítíçaes ,& velas para as La- 
dainhas , que lhe cantão íodosos SaBbados , & dias de nof- 
fa Senhora. O que cila moftra fer tudo do feu agrado , pois 
continua nas íuas maravilhas a favor dos que aferven^ 
como o eílaõ tt fíemunhando os finaes , & memo rias de ce- 
ia, que fe lhe cíferecéraõ por memoria , como fe vc de hua, 
-& outra parte : & tudo acclama a mifericordia, & a creme n- 
cia da Mãy de De os. • 

A Imagem da Senhora he de pincel^ (como fie» dito) 
Tom. 1* li ve te 



4p 8 Santuário Mar iam 

„ve-fe em meyocorpo com o Santiífimo Infante JESUS nos 
Braços, chegandq^ o ao peito; fará pouco mais de palmo, 
& meyo de alto , & de largo quafi outro tanto ; he 
pintura muyto devota , & aílim eítá moflran- 
do em feu rofio a graça com que de to- 
dos he invocada. 



FINIS, LAUS DEO. 




499 

;âs* >asâí2< íãsast. ,&05«. >s»s 

W^S* W®^ W^è' ^gW WW ^^OÊ* 
«a£5w e\iâ*3 L e^ãw ^ eJgàw e^ãM» eJ&3*» 

I N D E X. 

Dos titulos do primeiro tomo do San- 
tuário Mariano. 

NOjfa Senhora do Amparo do Contento de SctÕFrancif* 
co da Cidade. I. 1. tit. 29. 
N. Senhora da Ajuda, Tarochia de Sellem.l. 1. til* 41. 
N» Senhora do Alecrim junco às portas de Santa Catharina» 

1. 2. tit. 20. 

ÍSf. Senhora dela Ant iguana Tarochia de Santa Catharina. 

1.2. tit. 17. 
N. Senhora da AfumpcdõdaSè de Lisboa. I i.tit.i. 
2V. Senhora da AJfumpçaÕ do Convento da Rofa de Lisboa. 

hl. tit. KL ' 
^Senhora da AJfumpcaÕ da Rua dos Ourives da prata. L 

2. tit. 5. 
TSl. Senhora de Atocha no Convento dos Tadres Taulijla4.i. 

2. tit. 19. 

TSl. Senhor a do Amparo do Convento das Flamengas, li* 

tit. 4$. I : * 

N. Senhora da AJfumpcaÕ do Convento de Odivelas. 1. 2. 

- í/V.49. 
Tí.Senhora dos Anjos do Convento de S.Francifooda Cidade, 

L 2> tit. 78. 
N". Senhor a dos Anjos doCorodo Convento de Sam Ffancif- 
ço da Cidade. L z. tit. 78. 

li* V K, 



foa I N D E X 

N. Senhora dos Anjos do Convento da Madre de T>eôs. 1. àfe 

N. Senhora da Ajfumpçaodo lugar deVia-longa.il. tit. 66. 
KL.Senbora do Amparado Convento da CafaNoVa.lz.t.óy. 
A 7 . Senhora de r Bellew 7 ÇonVento de S.J eronymo. Li. tit. 1 6. 
Ti. Senhora de (Belkm noXonVtnto de S. Liar a de LisboaJ* 

I. í/f, .28- 
7V. Senhor a de Bellem no Convento do Salvadrr.lv. titjyb 
2SL. Senhora- da Boa Hora de Agojlínhos De/calços* l. U 

tit. 45. 
AT. Senhora do IhmSuccejfo dos Agonizantes em S- Roque. 

Ul.tk.K). 

JY, Senhora do SomlDe/pacho^Collegio de Agojlínhos Calça* 

dos. L 2. tit. 7. 
N. Senhora da Baranda do Convento da Madre de *Deos. l.z. 

tit. 6^ 
TSl.Senhora dasCandeas da Tarochia de S. Julião. l.2+tit.tf. 
^Senhora do Carmo x ou doVencimentodo Monte do Carmú 

deLisboa.l. 1. tit. 25. 
2V. Senhora do Carmo das por tas do Cl aufiro. 1. 2. tit. 32. 
TSl.Senhora da Caridade da (Parochia de Sam Wcolao. 1 2* 

tit* 2. 
1SL» Senhora ,de quem era muito devota, a Rainha Don